ROMANCE, Casa Velha,1885

Casa Velha

Texto-fonte:

Obra Completa, Machado de Assis, vol. II,

Nova Aguilar, Rio de Janeiro, 1994.

Publicado originalmente
  em A Estao
  ,
  de 15/01/1885 a 28/02/1886

CAPTULO
  PRIMEIRO

ANTES E DEPOIS DA MISSA

Aqui est o que
  contava, h muitos anos, um velho cnego da Capela Imperial:

-- No desejo ao meu
  maior inimigo o que me aconteceu no ms de abril de 1839. Tinha-me dado na
  cabea escrever uma obra poltica, a histria do reinado de D. Pedro I. At
  ento esperdiara algum talento em dcimas e sonetos,
  muitos artigos de peridicos, e alguns sermes, que cedia a outros, depois que
  reconheci que no tinha os dons indispensveis ao plpito. No ms de agosto de
  1838 li as Memrias que outro padre, Lus Gonalves dos Santos, o padre
  Perereca chamado, escreveu do tempo do rei, e foi esse livro que me meteu
  em brios. Achei-o
  seguramente medocre, e quis mostrar que um membro da igreja brasileira podia
  fazer coisa melhor.

Comecei logo a
  recolher os materiais necessrios, jornais, debates, documentos pblicos, e a
  tomar notas de toda a parte e de tudo. No meado de fevereiro, disseram-me que,
  em certa casa da cidade, acharia, alm de livros, que poderia consultar, muitos
  papis manuscritos, alguns reservados, naturalmente importantes, porque o dono
  da casa, falecido desde muitos anos, havia sido ministro de Estado.
  Compreende-se que esta notcia me aguasse a curiosidade. A casa, que tinha
  capela para uso da famlia e dos moradores prximos, tinha tambm um padre contratado
  para dizer missa aos domingos, e confessar pela quaresma: era o rev.
  Mascarenhas. Fui ter com ele para que me alcanasse da viva a permisso de ver
  os papis.

-- No sei se lhe
  consentir isso, disse-me ele; mas vou ver.

-- Por que no h de
  consentir?  claro que no me utilizarei seno do que for possvel, e com
  autorizao dela.

-- Pois sim, mas 
  que livros e papis esto l em grande respeito. No se mexe em nada que foi do
  marido, por uma espcie de venerao, que a boa senhora conserva e sempre
  conservar. Mas enfim vou ver, e far-se- o que for possvel.

Mascarenhas
  trouxe-me a resposta dez dias depois. A viva comeou recusando; mas o padre
  instou, exps o que era, disse-lhe que nada perdia do devido respeito  memria
  do marido consentindo que algum folheasse uma parte da biblioteca e do
  arquivo, uma parte apenas; e afinal conseguiu, depois de longa resistncia, que
  me apresentasse l. No me demorei muito em usar do favor; e no domingo prximo
  acompanhei o Padre Mascarenhas.

A casa, cujo lugar e
  direo no  preciso dizer, tinha entre o povo o nome de Casa Velha, e era-o
  realmente: datava dos fins do outro sculo. Era uma edificao slida e vasta,
  gosto severo, nua de adornos. Eu, desde criana, conhecia-lhe a parte exterior,
  a grande varanda da frente, os dois portes enormes, um especial s pessoas da
  famlia e s visitas, e outro destinado ao servio, s cargas que iam e vinham,
  s seges, ao gado que saa a pastar. Alm dessas duas
  entradas, havia, do lado oposto, onde ficava a capela, um caminho que dava
  acesso s pessoas da vizinhana, que ali iam ouvir missa aos domingos, ou rezar
  a ladainha aos sbados.

Foi por esse caminho
  que chegamos  casa, s sete horas e poucos minutos. Entramos na capela, aps
  um raio de sol, que brincava no azulejo da parede interior onde estavam
  representados vrios passos da Escritura. A capela era pequena, mas muito bem
  tratada. Ao rs-do-cho,  esquerda, perto do altar, uma tribuna servia
  privativamente  dona da casa, e s senhoras da famlia ou hspedas, que
  entravam pelo interior; os homens, os fmulos e vizinhos ocupavam o corpo da
  igreja. Foi o que me disse o padre Mascarenhas explicando tudo. Chamou-me a
  ateno para os castiais de prata, para as toalhas finas e alvssimas, para o
  cho em que no havia uma palha.

-- Todos os
  paramentos so assim, concluiu ele. E este confessionrio? Pequeno, mas um
  primor.

No havia coro nem
  rgo. J disse que a capela era pequena; em certos dias, a concorrncia 
  missa era tal que at na soleira da porta vinham ajoelhar-se fiis. Mascarenhas
  fez-me notar  esquerda da capela o lugar em que estava sepultado o
  ex-ministro. Tinha-o conhecido, pouco antes de 1831, e contou-me algumas
  particularidades interessantes; falou-me tambm da piedade e saudade da viva,
  da venerao em que tinha a memria dele, das relquias que guardava, das
  aluses freqentes na conversao.

-- L ver na
  biblioteca o retrato dele, disse-me. Comearam a entrar na igreja algumas
  pessoas da vizinhana, em geral pobres, de todas as idades e cores. Dos homens
  alguns, depois de persignados e rezados, saam, outra vez, para esperar fora,
  conversando, a hora da missa. Vinham tambm escravos da casa. Um destes era o
  prprio sacristo; tinha a seu cargo, no s a guarda e asseio da capela, mas
  tambm ajudava a missa, e, salvo a prosdia latina, com muita perfeio. Fomos
  ach-lo diante de uma grande cmoda de jacarand antigo, com argolas de prata
  nos gavetes, concluindo os arranjos preparatrios.
  Na sacristia, entrou logo depois um moo de vinte anos mais ou menos,
  simptico, fisionomia meiga e franca, a quem o padre Mascarenhas me apresentou;
  era o filho da dona da casa, Flix.

-- J sei, disse ele
  sorrindo, mame me falou de V. Revma. Vem ver o arquivo de papai?

Confiei-lhe
  rapidamente a minha idia, e ele ouviu-me com interesse. Enquanto falvamos
  vieram outros homens de dentro, um sobrinho do dono da casa, Eduardo, tambm de
  vinte anos, um velho parente, coronel Raimundo, e uns dois ou trs hspedes.
  Flix apresentou-me a todos, e, durante alguns minutos, fui naturalmente objeto
  de grande curiosidade. Mascarenhas, paramentado e de p, com o cotovelo na
  borda da cmoda, ia dizendo alguma coisa, pouca; ouvia mais do que falava, com
  um sorriso antecipado nos lbios, voltando a cabea a mido para um ou outro.
  Flix tratava-o com benevolncia e at deferncia; pareceu-me inteligente,
  lhano e modesto. Os outros apenas faziam coro. O coronel no fazia nada mais
  que confessar que tinha fome; acordara cedo e no tomara caf.

-- Parece que so
  horas, disse Flix; e, depois de ir  porta da capela: -- Mame j est na
  tribuna. Vamos?

Fomos. Na tribuna
  estavam quatro senhoras, duas idosas e duas moas. Cumprimentei-as de longe, e,
  sem mais encar-las, percebi que tratavam de mim, falando umas s outras. Felizmente
  o padre entrou da a trs minutos, ajoelhamo-nos todos, e seguiu-se a missa
  que, por fortuna do coronel, foi engrolada. Quando acabou, Flix foi beijar a
  mo  me e  outra senhora idosa, tia dele; levou-me e apresentou-me ali mesmo
  a ambas. No falamos do meu projeto; to-somente a dona da casa disse-me
  delicadamente:

-- Est entendido que
  V. Revm. faz-nos a honra de almoar conosco?

Inclinei-me
  afirmativamente. No me lembrou sequer acrescentar que a honra era toda minha.

A verdade  que me
  sentia tolhido. Casa, hbitos, pessoas davam-me ares de outro tempo, exalavam
  um cheiro de vida clssica. No era raro o uso de capela particular; o que me
  pareceu nico foi a disposio daquela, a tribuna de famlia, a sepultura do
  chefe, ali mesmo, ao p dos seus, fazendo lembrar as primitivas sociedades em
  que florescia a religio domstica e o culto privado dos mortos. Logo que as
  senhoras saram da tribuna, por uma porta interior, voltamos  sacristia, onde
  o padre Mascarenhas esperava com o coronel e os outros. Da porta da sacristia,
  passando por um saguo, descemos dois degraus para um ptio, vasto, calado de
  cantaria, com uma cisterna no meio. De um lado e outro corria um avarandado,
  ficando  esquerda alguns quartos, e  direita a cozinha e a copa. Pretas e
  moleques espiavam-me, curiosos, e creio que sem espanto, porque naturalmente a
  minha visita era desde alguns dias a preocupao de todos. Com efeito, a casa
  era uma espcie de vila ou fazenda, onde os dias, ao contrrio de um rifo
  peregrino, pareciam-se uns com os outros; as pessoas eram as mesmas, nada
  quebrava a uniformidade das coisas, tudo quieto e patriarcal.

D. Antnia governava
  esse pequeno mundo com muita discrio, brandura e justia. Nascera dona de
  casa; no prprio tempo em que a vida poltica do marido, e a entrada deste nos
  conselhos de Pedro I podiam tir-la do recesso e da obscuridade, s a custo e
  raramente os deixou. Assim  que, em todo o ministrio do marido, apenas duas
  vezes foi ao pao. Era filha de Minas Gerais, mas foi criada no Rio de Janeiro,
  naquela mesma Casa Velha, onde casou, onde perdeu o marido e onde lhe nasceram
  os filhos -- Flix, e uma menina que morreu com trs anos. A casa fora
  construda pelo av, em 1780, voltando da Europa, de onde trouxe idias de
  solar e costumes fidalgos; e foi ele, e parece que tambm a filha, me de D.
  Antnia, quem deu a esta a pontazinha de orgulho, que se lhe podia notar, e
  quebrava a unidade da ndole desta senhora, essencialmente ch. Inferi isso de
  algumas anedotas que ela me contou de ambos, no tempo do rei. D. Antnia era
  antes baixa que alta, magra, muito bem composta, vestida com singeleza e
  austeridade; devia ter quarenta e seis a quarenta e oito anos.

Poucos minutos
  depois estvamos almoando. O coronel, que afirmava, rindo, ter um buraco de
  palmo no estmago, nem por isso comeu muito, e durante os primeiros minutos,
  no disse nada; olhava para mim, obliquamente, e, se dizia alguma coisa, era
  baixinho, s duas moas, filhas dele; mas desforrou-se para o fim, e no
  conversava mal. Flix, eu e o padre Mascarenhas falvamos de poltica, do
  ministrio e dos sucessos do Sul. Notei desde logo, no filho do ministro, a
  qualidade de saber escutar, e de dissentir parecendo aceitar o conceito alheio,
  de tal modo que, s vezes, a gente recebia a opinio devolvida por ele, e
  supunha ser a mesma que emitira. Outra coisa que me chamou a ateno foi que a
  me, percebendo o prazer com que eu falava ao filho, parecia encantada e
  orgulhosa. Compreendi que ela herdara as naturais esperanas do pai, e redobrei
  de ateno com o filho. Fi-lo sem esforo; mas pode ser tambm que entrasse por
  alguma coisa, naquilo, a necessidade de captar toda a afeio da casa, por
  motivo do meu projeto.

Foi s depois do
  almoo que falamos do projeto. Passamos  varanda, que comunicava com a sala de
  jantar, e dava para um grande terreiro; era toda ladrilhada, e tinha o teto
  sustentado por grossas colunas de cantaria. D. Antnia chamou-me, sentei-me ao
  p dela, com o Padre Mascarenhas.

-- Reverendssimo, a
  casa est s suas ordens, disse-me ela. Fiz o que o Sr. Padre Mascarenhas me
  pediu, e a muito custo, no porque o no julgue pessoa capaz, mas porque os
  livros e papis de meu marido ningum mexe neles.

-- Creia que agradeo
  muito...

-- Pode agradecer,
  interrompeu ela sorrindo; no faria isto a outra pessoa. Precisa ver tudo?

-- No posso dizer se
  tudo; depois de um rpido exame, saberei mais ou menos o que preciso. E V. Ex.
  tambm h de ser um livro para mim, e o melhor livro, o mais ntimo...

-- Como?

-- Espero que me
  conte algumas coisas, que ho de ter ficado escondidas. As histrias fazem-se
  em parte com as notcias pessoais. V. Ex., esposa de ministro...

D. Antnia deu de
  ombros.

-- Ah! eu nunca
  entendi de poltica; nunca me meti nessas coisas.

-- Tudo pode ser
  poltica, minha senhora; uma anedota, um dito, qualquer coisa de nada, pode
  valer muito.

Foi neste ponto que
  ela me disse o que acima referi; vivia em casa, pouco saa, e s foi ao pao
  duas vezes. Confessou at que da primeira vez teve muito medo, e s o perdeu
  por se lembrar a tempo de um dito do av.

-- Sa de casa
  tremendo. Era dia de gala, ia trajada  Corte; pelas portinholas do coche via
  muita gente olhando, parada. Mas quando me lembrava que tinha de cumprimentar o
  imperador e a imperatriz, confesso que o corao me batia muito. Ao descer do
  coche, o medo cresceu, e ainda mais quando subi as escadas do pao. De repente,
  lembrou-me um dito de meu av. Meu av, quando aqui chegou o rei, levou-me a
  ver as festas da cidade, e, como eu, ainda mocinha, impressionada, lhe dissesse
  que tinha medo de encarar o rei, se ele aparecesse na rua, olhou para mim, e
  disse com um modo muito srio que ele tinha s vezes: 'Menina, uma Quintanilha no treme nunca!' Foi o que fiz,
  lembrou-me que uma Quintanilha no tremia, e, sem
  tremer, cumprimentei Suas Majestades.

Rimo-nos todos. Eu,
  pela minha parte, declarei que aceitava a explicao e no lhe pediria nada; e
  depois falei de outras coisas. Parece que estava de veia, se no  que a
  conversao da viva me meteu
  em
    brios. Veio
  o filho, veio o cunhado, vieram as moas, e posso
  afirmar que deixei a melhor impresso em todos; foi o que o Padre Mascarenhas
  me confirmou, alguns dias depois, e foi o que notei por mim mesmo.

CAPTULO II

Antes de me despedir
  deles, fui ver a biblioteca. Era uma vasta sala, dando para a chcara, por meio
  de seis janelas de grade de ferro, abertas de um s lado. Todo o lado oposto
  estava forrado de estantes, pejadas de livros. Estes eram, pela maior parte,
  antigos, e muitos in-flio; livros de histria, de
  poltica, de teologia, alguns de letras e filosofia, no raros em latim e
  italiano. Eu via-os, tirava e abria um ou outro, dizia alguma palavra, que o
  Flix, que ia comigo, ouvia com muito prazer, porque as minhas reflexes redundavam
  em elogio do pai, ao mesmo tempo que lhe davam de mim maior idia. Esta idia
  cresceu ainda, quando casualmente dei com os olhos na Storia Fiorentina de Varchi,
  edio de 1721. Confesso que nunca tinha lido esse livro, nem mesmo o li mais
  tarde; mas um padre italiano, que eu visitara no Hospcio de Jerusalm, na
  antiga Rua dos Barbonos, possua a obra e falara-me da ltima pgina, que, em
  alguns exemplares faltava, e tratava do modo descomunalmente sacrlego e brutal
  com que um dos Farneses tratara o bispo de Fano.

-- Ser o exemplar
  truncado? disse eu.

-- Truncado? repetiu
  Flix.

-- Vamos ver,
  continuei eu, correndo ao fim. No, c est;  o cap. 16 do lv. XVI. Uma coisa indigna: In quest'anno
    medesimo nacque un caso... No vale a pena ler;  imundo.

Pus o livro no
  lugar. Sem olhar para o Flix, senti-o subjugado. Nem confesso este incidente,
  que me envergonha, seno porque, alm da resoluo de dizer tudo, importa
  explicar o poder que desde logo exerci naquela casa, e especialmente no
  esprito do moo. Creram-me naturalmente um sbio, tanto mais digno de
  admirao, quanto que contava apenas trinta e dois anos. A verdade  que era
  to-somente um homem lido e curioso. Entretanto, como era tambm discreto,
  deixei de manifestar um reparo que fiz comigo acerca de promiscuidade de coisas
  religiosas e incrdulas, alguns padres de Igreja no longe de Voltaire e
  Rousseau, e aqui no havia afetar nada, porque os conhecia, no integralmente,
  mas no principal que eles deixaram. Quanto  parte que imediatamente me
  interessava, achei muitas coisas, opsculos, jornais, livros, relatrios, maos
  de papis rotulados e postos por ordem, em pequenas estantes, e duas grandes
  caixas que o Flix me disse estarem cheias de manuscritos.

Havia ali dois
  retratos, um do finado ex-ministro, outro de Pedro I. Conquanto a luz no fosse
  boa, achei que o Flix parecia-se muito com o pai, descontada a idade, porque o
  retrato era de 1829, quando o ex-ministro tinha quarenta e quatro anos. A
  cabea era altiva, o olhar inteligente, a boca voluptuosa; foi a impresso que
  me deixou o retrato. Flix no tinha, porm, a primeira nem a ltima expresso;
  a semelhana restringia-se  configurao do rosto, ao corte e viveza dos
  olhos.

-- Aqui est tudo,
  disse-me Flix; aquela porta d para uma saleta, onde poder trabalhar, quando
  quiser, se no preferir aqui mesmo.

J disse que sa de
  l encantado, e que os deixei igualmente encantados comigo. Comecei os meus
  trabalhos de investigao trs dias depois. S ento revelei a Monsenhor
  Queirs, meu velho mestre, o projeto que tinha de escrever uma histria do
  Primeiro Reinado. E revelei-lho com o nico fim de lhe contar as impresses que
  trouxera da Casa Velha, e confiar as minhas esperanas de algum achado de valor
  poltico. Monsenhor Queirs abanou a cabea, desconsolado. Era um bom filho da
  Igreja, que me fez o que sou, menos a tendncia poltica, apesar de que no
  tempo em que ele floresceu muitos servidores da Igreja tambm o eram do Estado.
  No aprovou a idia; mas no gastou tempo em tentar dissuadir-me.
  'Conquanto, disse-me ele, que voc no prejudique sua me, que  a Igreja.
  O Estado  um padrasto'.

A meu cunhado e
  minha irm, que sabiam do projeto, apenas contei o que se passara na Casa
  Velha; ficaram contentes, e minha irm pediu-me que a levasse l, alguma vez,
  para conhecer a casa e a famlia.

Na quarta-feira
  comecei a pesquisa. Vi ento que era mais fcil projet-la, pedi-la e obt-la,
  que realmente execut-la. Quando me achei na biblioteca e no gabinete contguo,
  com os livros e papis  minha disposio, senti-me constrangido, sem saber por
  onde comeasse. No era uma casa pblica, arquivo ou biblioteca, era um lugar
  onde, no que tocava a papis e manuscritos, podia dar com alguma coisa privada
  e domstica. Para melhor haver-me, pedi ao Flix que me auxiliasse, disse-lhe
  at com franqueza, a causa do meu acanhamento. Ele respondeu, polidamente, que
  tudo estava em boas mos. Insistindo eu, consentiu em servir-me (palavras suas)
  de sacristo; pedia, porm, licena naquele dia porque tinha de sair; e, na
  seguinte semana, desde tera-feira at sbado, estaria na roa. Voltaria sbado
   noite, e da at o fim, estava s minhas ordens. Aceitei este convnio.

Ocupei os primeiros
  dias na leitura de gazetas e opsculos. Conhecia alguns deles, outros no, e
  no eram estes os menos interessantes. Logo no dia seguinte, Flix
  acompanhou-me nesse trabalho, e da em diante at seguir para a roa. Eu, em
  geral chegava s dez horas, conversava um pouco com a dona da casa, as
  sobrinhas e o coronel; o primo Eduardo retirara-se para S. Paulo. Falvamos das
  coisas do dia, e poucos minutos depois, nunca mais de meia hora, recolhia-me 
  biblioteca com o filho do ex-ministro. s duas horas, em ponto, era o jantar.
  No primeiro dia recusei, mas a dona da casa declarou-me que era a condio do
  obsquio prestado. Ou jantaria com eles, ou retirava-me a licena. Tudo isso
  com to boa cara que era impossvel teimar na recusa. Jantava. Entre trs e
  quatro horas descansava um pouco, e depois continuava o trabalho at anoitecer.

Um dia, quando ainda
  o Flix estava na roa, D. Antnia foi ter comigo, com o pretexto de ver o meu
  trabalho, que lhe no interessava nada. Na vspera, ao jantar, disse-lhe que
  estimava muito ver as terras da Europa, especialmente Frana e Itlia, e talvez
  ali fosse da a meses. D. Antnia, entrando na biblioteca, logo depois de
  algumas palavras insignificantes, guiou a conversa para a viagem, e acabou
  pedindo que persuadisse o filho a ir comigo.

-- Eu, minha senhora?

-- No se admire do
  pedido; eu j reparei, apesar do pouco tempo, que Vossa Reverendssima e ele
  gostam muito um do outro, e sei que se lhe disser isso, com vontade, ele cede.

-- No creio que
  tenha mais fora que sua me. J lhe tem lembrado isso?

-- J, respondeu D.
  Antnia com uma entonao demorada que exprimia longas instncias sem efeito.

E logo depois com um
  modo alegre:

-- As mes como eu
  no podem com os filhos. O meu foi criado com muito amor e bastante fraqueza.
  Tenho-lhe pedido mais de uma vez: ele recusa sempre dizendo que no quer
  separar-se de mim. Mentira! A verdade  que ele no quer sair daqui. No tem
  ambies, fez estudos incompletos, no lhe importa nada. H uns parentes nossos
  em Portugal. J
  lhe disse que fosse visit-los, que eles desejavam v-lo, e que fosse depois 
  Espanha e Frana e outros lugares. Jos Bonifcio l esteve e contava coisas
  muito interessantes. Sabe o que ele me responde? Que tem medo do mar; ou ento
  repete que no quer separar-se de mim.

-- E no acha que
  esta segunda razo  a verdadeira?

D. Antnia olhou
  para o cho, e disse com voz sumida:

-- Pode ser.

-- Se  a verdadeira,
  haveria um meio de conciliar tudo; era irem ambos, e eu com ambos, e para mim
  seria um imenso prazer.

-- Eu?

-- Pois ento?

-- Eu? Deixar esta
  casa? Vossa Reverendssima est caoando. Daqui para a cova. No fui quando era
  moa, e agora que estou velha  que hei de meter-me
  em folias... Ele
  sim,
  que  rapaz -- e precisa...

Tive uma suspeita
  sbita:

-- Minha senhora,
  dar-se- que ele padea de alguma molstia que...

-- No, no, graas a
  Deus! Digo que precisa, porque  rapaz, e meu av dizia que, para ser homem
  completo,  preciso ver aquelas coisas por l.  s por isso. No, no tem
  molstia nenhuma;  um rapaz forte.

Era impossvel, ou,
  pelo menos, indelicado tentar obter a razo secreta deste pedido, se havia
  alguma, como me pareceu. Pus termo  conversao dizendo que ia convidar o
  rapaz. D. Antnia agradeceu-me, declarou que no me havia de arrepender do
  companheiro, e fez grandes elogios do filho. Quis falar de outras coisas; ela,
  porm, teimava no assunto da viagem, para familiarizar-nos com a idia, e
  moralmente constranger-me a realiz-la. No dia seguinte voltou  biblioteca,
  mas com outro pretexto: veio mostrar-me uma boceta de
  rap, que fora do marido, e que era, realmente, uma perfeio. No tive dvida
  em dizer-lhe isto mesmo, e ela acabou pedindo-me que a aceitasse como lembrana
  do finado. Aceitei-a constrangido; falamos ainda da viagem, duas palavras
  apenas, e fiquei s.

No estava contente
  comigo. Tinha-me deixado resvalar a uma promessa inconsiderada, cuja execuo
  parecia complicar-se de circunstncias estranhas e obscuras, provavelmente
  srias. As instncias de D. Antnia, as razes dadas, as reticncias, e finalmente
  aquele mimo, sem outro motivo mais que cativar-me e obrigar-me, tudo isso dava
  que cismar. Na noite desse dia fui  casa do Padre Mascarenhas para sond-lo;
  perguntei-lhe se sabia alguma coisa do rapaz, se era peralta, se tinha
  irregularidades na vida. Mascarenhas no sabia nada.

-- At aqui suponho
  que  um modelo de sossego e seriedade, concluiu ele. Verdade seja que s vou
  l aos domingos.

-- Mas pelos domingos
  tiram-se os dias santos, repliquei rindo.

Flix voltou da roa
  dois dias depois, num sbado. No domingo no fui l. Na segunda-feira,
  falei-lhe da viagem que ia fazer, e do desejo que tinha de o levar comigo;
  respondeu que seria para ele um grande prazer, se pudesse acompanhar-me, mas
  no podia. Teimei, pedi-lhe razes, falei com tal interesse, que ele,
  desconfiado, fitou-me os olhos, e disse:

-- Foi mame que lhe
  pediu?

-- No digo que no;
  foi ela mesma. Tinha-lhe dito que tencionava ir  Europa, daqui a alguns meses,
  e ela ento falou-me do senhor e das vezes que j lhe tem aconselhado uma
  viagem. Que admira?

Flix conservou os
  olhos espetados em mim, como se quisesse descer ao fundo da minha conscincia.
  Ao cabo de alguns instantes respondeu secamente:

-- Nada: no posso
  ir.

-- Por qu?

Aqui teve ele um
  gesto quase imperceptvel de orgulho molestado; achou naturalmente esquisita a
  curiosidade de um estranho. Mas, ou fosse da ndole dele, ou do meu carter
  sacerdotal, vi desaparecer-lhe logo esse pequeno assomo; Flix sorriu e
  confessou que no podia separar-se da me. Eu, a rigor, no devia dizer mais
  nada, e encerrar-me no exame dos papis; mas a maldita curiosidade picava-me de
  esporas, e ainda repliquei alguma coisa; ponderei-lhe que o sentimento era
  digno e justo, mas que, tendo de viver com os homens, devia comear por ver os
  homens, e no restringir-se  vida simples e emparedada da famlia. Demais, o
  contato de outras civilizaes necessariamente nos daria tmpera ao esprito.
  Escutou calado, mas sem ateno fixa, e quando acabei, declarou ultimando tudo:

-- Bem, pode ser que
  me resolva; veremos. No vai j? Ento depois falaremos disto; pode ser... E o
  seu trabalho, est adiantado?

No insisti, nem
  voltei ao assunto, apesar da me, que me falou algumas vezes dele. Pareceu-me
  que o melhor de tudo era acelerar a concluso do trabalho, e despregar-me de
  uma intimidade que podia trazer complicaes ou desgostos. As horas que ento
  passei foram das melhores, regulares e tranqilas, ajustadas a minha ndole
  quieta e eclesistica. Chegava cedo, conversava alguns minutos, e recolhia-me 
  biblioteca at a hora de jantar, que no passava das duas. O caf ia  grande
  varanda, que ficava entre a sala de jantar e o terreiro das casuarinas, assim
  chamado, por ter um lindo renque dessas rvores, e eu retirava-me antes do pr
  do sol. Flix ajudava-me grande parte do tempo. Tinha todas as horas livres, e
  quando no me ajudava  porque sara a caar, ou estava lendo, ou teria ido 
  cidade a passeio ou a negcio de casa.

Vai seno quando, um
  dia, estando s na biblioteca, ouvi rumor do lado de fora. Era a princpio um
  chiar de carro de bois, de que no fiz caso, por j o ter ouvido de outras
  vezes; devia ser um dos dois carros que traziam da roa para a Casa Velha, uma
  ou duas vezes por ms, fruta e legumes. Mas logo depois ouvi outro rodar, que
  me pareceu de sege, vozes trocadas e como que um encontro dos dois veculos.
  Fui  janela; era isso mesmo. Uma sege, que entrara depois do carro de bois,
  foi a este no momento em que ele, para lhe dar passagem, torcia o caminho; o boleeiro no pde conter logo as bestas, nem o carro fugir
  a tempo, mas no houve outra conseqncia alm da vozeria.
  Quando eu cheguei  janela j o carro acabava de passar, e a sege galgou logo
  os poucos passos que a separavam da porta que ficava justamente por baixo de minha
  janela. Entretanto, no foi to pouco o tempo que eu no visse aparecer, entre
  as cortinas entreabertas da sege, a carinha alegre e ridente de uma moa que parecia mofar do perigo. Olhava, ria e falava para dentro da
  sege. No lhe vi mais do que a cara, e um pouco do pescoo; mas da a nada,
  parando a sege  porta, as duas cortinas de couro foram corridas para cada
  lado, e ela e outra desceram rapidamente, e entraram em casa. 'Ho de ser
  visitas', pensei comigo.

Voltei para o
  trabalho; eram onze horas e meia. Perto de uma, entrou na biblioteca o filho de
  D. Antnia; vinha da praa, aonde fora cedo, para tratar de um negcio do tio
  coronel. Estava singularmente alegre, expansivo, fazendo-me perguntas e no
  atendendo, ou atendendo mal s respostas. No me lembraria disto agora, nem
  nunca mais, se no se tivesse ligado aos acontecimentos prximos, como veremos.
  A prova de que no dei ento grande importncia ao estado do esprito dele, 
  que da a pouco quase que no lhe respondia nada, e continuava a ver os papis.
  Folheava justamente um mao de cpias relativas  Cisplatina, e preferia o
  silncio a qualquer assunto de conversa. Flix demorou-se pouco, saiu, mas
  tornou antes das duas horas, e achou-me concluindo o trabalho do dia, para
  acudir ao jantar. Da a pouco estvamos  mesa.

Era costume de D.
  Antnia vir para a mesa acompanhando a irm (a senhora idosa que achei na
  tribuna da capela, no primeiro dia em que ali fui), e assim o fez agora, com a
  diferena que outra senhora a acompanhava tambm. Disseram-me que era amiga da
  famlia, e chamava-se Mafalda. Logo que nos sentamos, D. Antnia perguntou 
  hspeda:

-- Onde est Lalau?

-- Onde h de estar!
  talvez brincando com o pavo. Mas, no faz mal, sinh D. Antnia, vamos
  jantando; ela pode ser que nem tenha vontade de comer: antes de vir comeu um
  pires de melado com farinha.

-- A sege chegou
  muito tarde? perguntou Flix  hspeda.

-- No, senhor; ainda
  esperou por ns.

-- Seu irmo est
  bom?

-- Est; minha
  cunhada  que anda um pouco adoentada. Depois da erisipela que teve pelo Natal,
  nunca ficou boa de todo.

Creio que disseram
  ainda outras coisas; mas no me interessando nada, nem a conversao, nem a
  hspeda, que era uma pessoa vulgar, fiz o que costumo fazer em tais casos:
  deixei-me estar comigo. J tinha compreendido que a hspeda era uma das que
  chegaram na sege, que a outra devia ser a mocinha, cuja cara vi entre as
  cortinas, e finalmente que alguma intimidade haveria entre tal gente e aquela
  casa, visto que, contra a ordem severa desta, Lalau andava atrs do pavo, em vez de estar  mesa conosco. Mas, em resumo, tudo
  isso era bem pouco para quem tinha na cabea a histria de um imperador.

Lalau no se demorou muito. Chegou
  entre o primeiro e o segundo prato. Vinha um pouco esbaforida, voando-lhe os
  cabelos, que eram curtinhos e em cachos, e quando D. Antnia lhe perguntou se
  no estava cansada de travessuras, Lalau ia responder
  alguma coisa, mas deu comigo, e ficou calada; D. Antnia, que reparou nisso,
  voltou-se para mim.

-- Reverendssimo, 
  preciso confessar esta pequena e dar-lhe uma penitncia para ver se toma juzo.
  Olhe que voltou h pouco e j anda naquele estado. Vem c, Lalau.

Lalau aproximou-se de D. Antnia, que
  lhe comps o cabeo do vestido; depois foi sentar-se defronte de mim, ao p da
  outra hspeda. Realmente, era uma criatura adorvel, espigadinha,
  no mais de dezessete anos, dotada de um par de olhos, como nunca mais vi
  outros, claros e vivos, rindo muito por eles, quando no ria com a boca; mas se
  o riso vinha juntamente de ambas as partes, ento  certo que a fisionomia
  humana confirmava com a anglica, e toda a inocncia e toda a alegria que h no
  cu pareciam falar por ela aos homens. Pode ser que isto parea exagerado a uns
  e vago a outros, mas no acho do momento um modo melhor de traduzir a sensao
  que essa menina produziu
  em mim. Contemplei-a
  alguns instantes com infinito
  prazer. Fiei-me do carter de padre para saborear toda a espiritualidade
  daquele rosto comprido e fresco, talhado com graa, como o rosto da pessoa. No
  digo que todas as linhas fossem corretas, mas a alma corrigia tudo.

Chamava-se Cludia; Lalau era o nome domstico. No tendo pai nem me, vivia em
  casa de uma tia. Quase se pode dizer que nasceu na Casa Velha, onde os pais
  estiveram muito tempo como agregados, e aonde iam passar dias e semanas. O pai,
  Romo Soares, exercia um ofcio mecnico, e antes pertencera  guarda de
  cavalaria de polcia; a me, Benedita Soares, era filha de um escrivo da roa,
  e, segundo me disse a prpria D. Antnia, foi uma das mais bonitas mulheres que
  ela conheceu desde o tempo do rei.

Lalau, se no nasceu ali, ali foi
  criada e tratada sempre, ela como a me, no mesmo p de outras relaes; eram
  menos agregadas que hspedas. Da a intimidade desta mocinha, que chegava a
  infringir a ordem austera da casa, no indo para a mesa com a dona dela. Lalau andava na prpria sege de D. Antnia, vivia do que
  esta lhe dava, e no lhe dava pouco; em compensao, amava sinceramente a casa
  e a famlia. Tendo ficado rf desde 1831, D. Antnia cuidou de lhe completar a
  educao; sabia ler e escrever, coser e bordar; aprendia agora a fazer crivo e
  renda.

Foi D. Antnia quem
  me deu essas notcias, naquela mesma tarde, ao caf, acrescentando que achava
  bom cas-la quanto antes; tinha a responsabilidade do seu destino, e receava
  que lhe acontecesse o mesmo que com outra agregada, seduzida por um saltimbanco
  em 1835.

Nisto a menina veio
  a ns, olhando muito para mim. Estvamos na varanda.

-- Vou confess-la,
  disse-lhe eu; mas olhe l se me nega algum pecado.

-- Que pecado, meu
  Deus! Cruz! Eu no tenho pecado. Nhtnia  que anda
  inventando essas coisas. Eu, pecado?

-- E as travessuras?
  perguntei-lhe. Olhe, ainda hoje, quando estava quase a suceder um desastre na
  estrada, entre o carro de bois e a sege em que a senhora vinha, a senhora, em
  vez de ficar sria e pensar em Deus, enfiou a cabea por entre as cortinas para
  fora, rindo como uma criana.

-- Que  ela seno
  criana? ponderou D. Antnia.

Lalau olhou espantada.

-- Onde estava o
  senhor padre?

-- Estava no cu,
  espiando.

-- Ora! diga onde
  estava.

-- J disse; estava
  no cu.

-- Adeus! diga onde
  estava!

-- Lalau! que modos so esses? repreendeu D. Antnia.

A moa calou-se
  aborrecida; eu  que fui em auxlio dela, e contei-lhe que estava  janela da
  biblioteca, quando ela chegara. D. Antnia j sabia tudo, pois ali um
  acontecimento de nada ou quase nada era matria de longas conversaes. No
  obstante, a mocinha referiu ainda o que se passara e as suas sensaes alegres.
  Confessou que no tinha medo de nada, e at que queria ver um desastre para
  compreender bem o que era. Como a conversao dela era a trancos,
  interrompeu-se para perguntar-me se era eu quem iria agora dizer missa l em
  casa, em vez do Padre Mascarenhas. Respondi-lhe que no, quis saber o que
  estava fazendo na biblioteca. Disse-lhe que fazia crivo. Ela pareceu gostar da
  resposta; creio que achou entre os nossos espritos algum ponto de contato.

A verdade  que, no
  dia seguinte, vendo-me entrar e ir para a biblioteca, ali foi ter comigo,
  ansiosa de saber o que eu estava fazendo. Como lhe dissesse que examinava uns
  papis, ouviu-me atenta, pegou curiosa de algumas notas, e dirigiu-me vrias
  perguntas; mas deixou logo tudo para contemplar a biblioteca, pea que raramente
  se abria. Conhecia os retratos, distinguiu-os logo; ainda assim parecia tomar
  gosto em v-los, principalmente o do ex-ministro; quis saber se ela o conhecia;
  respondeu-me que sim, que era um bonito homem, e fardado ento parecia um rei.
  Seguiu-se um grande silncio, durante o qual ela olhou para o retrato, e eu
  para ela, e que se quebrou com esta frase murmurada pela moa, entre si e Deus:

-- Muito parecido...

-- Parecido com quem?
  perguntei.

Lalau estremeceu e olhou para mim, envergonhada.
  No era preciso mais; adivinhei tudo. Infelizmente tudo no era ainda tudo.

CAPTULO III

Amor non inprobatur, escreveu o meu grande Santo
  Agostinho. A questo para ele, como para mim,  que as criaturas sejam amadas e
  amem
  em Deus. Assim
  ,
  quando desconfiei, por aquele gesto, que esta moa e Flix eram namorados, no
  os condenei por isso, e para dizer tudo, confesso que tive um grande
  contentamento. No sei bem explic-lo; mas  certo que, sendo ali estranho, e
  vendo esta moa pela primeira vez, a impresso que recebi foi como se tratasse
  de amigos velhos. Pode ser que a simpatia da minha natureza explique tudo; pode
  ser tambm que esta moa, assim como fascinara o Flix para o amor, acabasse de
  fascinar-me para a amizade. Uma ou outra coisa,  escolha, a verdade  que
  fiquei satisfeito e os aprovei comigo.

Entretanto, adverti
  que da parte dele no vira nada, nem  mesa, nem na varanda, nada que mostrasse
  igual afeio. Dar-se-ia que s ela o amasse, no ele a ela? A hiptese
  afligiu-me. Achava-os to ajustados um ao outro, que no acabarem ligados
  parecia-me uma violao da lei divina. Tais eram as reflexes que vim fazendo,
  quando dali voltei nesse dia, e para quem andava  cata de documentos
  polticos, no  de crer que semelhante preocupao fosse de grande peso; mas
  nem a alma de um homem  to estreita que no caibam nela coisas contrrias,
  nem eu era to historiador como presumira. No escrevi a histria que esperava;
  a que de l trouxe  esta.

No me foi difcil
  averiguar que o Flix amava a pequena. Logo nos primeiros dias pareceu-me
  outro, mais prazenteiro, e  mesa ou fora dela, pude apanhar alguns olhares,
  que diziam muito. Observei tambm que essa moa, to criana, era inteiramente
  mulher quando os olhos dela encontravam os dele, como se o amor fosse a
  puberdade do esprito, e mais notei que, se toda a gente a tratava de um modo
  afetuoso, mas superior, ele tinha para com ela atenes e respeito.

J ento no ia eu
  ali todos os dias, mas trs ou quatro vezes por semana. A dona da casa, posto
  que sempre afvel, recebia a impresso natural da assiduidade, que vulgariza
  tudo. Os dois, no; o Flix vinha muitas vezes esperar-me a distncia da casa,
  e na casa, ao porto, ou na varanda, achava sempre a mocinha, rindo pela boca e
  pelos olhos.  bem possvel que eu fosse para eles como o trao de pena que
  liga duas palavras;  certo, porm, que gostavam de mim. Eu, entre ambos, com a
  minha batina (deixem-me confessar esta vaidade) tinha uns ares do bispo Cirilo entre Eudoro e Cimdoce.

H de parecer
  singular que no me lembrasse logo do pedido de D. Antnia para que o filho me
  acompanhasse  Europa, e o no ligasse a este amor nascente: lembrei-me depois.
  A princpio, vendo a afeio com que ela tratava a mocinha, cuidei que os
  aprovava. Mais tarde, quando me recordei do pedido, acreditei que esse amor era
  para ela o remdio ao mal secreto do filho, se algum havia, que me no quisera
  revelar.

Durante os primeiros
  dias, depois da chegada de Lalau, nada aconteceu que
  merea a pena contar aqui. Flix acompanhava-me no trabalho, mas
  interrompidamente, e s vezes, se saa a algum negcio da casa, s nos vamos 
  mesa do jantar. Lalau no ia  biblioteca; um dia,
  porm, atreveu-se a entrar s escondidas, e foi ter comigo. Suspendi o
  trabalho, e conversamos perto de meia hora, sobre uma infinidade de coisas,
  presentes e passadas. Era mais de onze horas; o dia estava quente, o ar parado,
  a casa silenciosa, salvo um ou outro mugido, ao longe, ou algum canto de
  passarinho. Eu, com os estudos clssicos que tivera, e a grande tendncia
  idealista, dava a tudo a cor das minhas reminiscncias e da minha ndole,
  acrescendo que a prpria realidade externa -- antiquada e solene nos mveis e
  nos livros -- recente e graciosa em Lalau -- era
  propcia  transfigurao.

Deixei-me ir ao
  sabor do momento. Notem bem que ela s vezes ouvia mal, ou no sabia ouvir
  absolutamente, mas com os olhos vagos, pensando em outra coisa. Outras vezes
  interrompia-me para fazer um reparo intil. J disse tambm que tinha a
  conversao truncada e salteada. Com tudo isso, era interessante falar-lhe, e
  principalmente ouvi-la. Sabia, no meio das puerilidades freqentes da palavra,
  no destoar nunca da considerao que me devia; e tanto era curiosa como
  franca.

-- Teve medo? disse
  ela.

-- Como  que a
  senhora entrou?

-- Entrando; vi o
  senhor aqui, e vim muito devagar, pensando que no chegasse ao fim da sala, sem
  que o senhor me ouvisse, mas no ouviu nada, todo embebido no que est
  escrevendo. O que ?

-- Coisas srias.

-- Nhtnia disse que o senhor est aqui fazendo umas notas
  polticas para pr num livro.

-- Ento se sabia
  como  que me perguntou?

Lalau encolheu os ombros.

-- Fez mal, disse eu.
  Olhe que eu sou padre, posso pregar-lhe um sermo.

-- O senhor prega
  sermes? por que no vem pregar aqui, na quaresma? Eu gosto muito de sermes.
  No ano passado, ouvi dois, na Igreja da Lapa, muito bonitos. No me lembra o
  nome do padre. Eu, se fosse padre, havia de pregar tambm. S no gosto dos latinrios; no entendo.

Falou assim, a trancos,
  uns bons cinco minutos; eu deixei-a ir, olhando s, vivendo daquela vida que
  jorrava dela, cristalina e fresca. No fim, Lalau sentou-se, mas no se conservou sentada mais de dois minutos, levantou-se outra
  vez para ir  janela, e tornou dentro para mirar os livros. Achou-os grandes
  demais; admirava como havia quem tivesse a pacincia de os ler. E depois alguns
  eram to velhos!

-- Que tem que sejam
  velhos? retorqui. Deus  velho, e  a melhor leitura que h.

Lalau olhou espantada para mim.
  Provavelmente era a primeira vez que ouvia uma figura daquelas, e fez-lhe
  impresso. Teimou depois que os livros velhos pareciam-se com o antigo capelo
  da casa, o antecessor do Padre Mascarenhas, que andava sempre com a batina
  empoeirada, e tinha a cara feita de rugas. Consegintemente vieram histrias do
  capelo. Em nenhuma delas, nem de outras entrava o Flix; excluso que podia
  ser natural, mas que me no pareceu casual. Como eu lhe dissesse que no se
  deve mofar dos padres, ela ficou muito sria e atenta; depois rompeu, rindo:

-- Mas no  do
  senhor.

-- De mim ou de
  outro,  a mesma coisa.

-- Ora, mas o outro
  era to feio, to lambuzo...

Disse-lhe, com as
  palavras que podia, que o padre  padre, qualquer que seja a aparncia.
  Enquanto lhe falava, ela dava alguns passos de um lado para outro, cuido que
  para sentir o tapete debaixo dos ps; no o havia seno ali e na sala de
  visitas, fechada sempre. De quando em quando parava e olhava de cima as figuras
  desbotadas no cho; outras vezes deixava escorregar o p, de propsito. Tinha o
  rasgo pueril de achar prazer em qualquer coisa.

-- Est bom, est
  bom, disse-me ela finalmente, no precisa brigar comigo; no falo mais do
  capelo. Pode continuar o seu trabalho, vou-me embora.

-- No  preciso ir
  embora.

-- Muito obrigada!
  Quer que fique olhando para as paredes, enquanto o senhor trabalha...

-- Mas se eu no
  estou trabalhando! Olhe, se quer que eu no faa nada, sente-se um pouco, mas
  sente-se de uma vez.

Lalau sentou-se. A cadeira em que se
  sentou era uma velha cadeira de espaldar de couro lavrado, e ps
  em arco. Dali
  , olhava para
  fora, e o sol, entrando pela janela, vinha morrer-lhe aos ps. Para no estar
  em completo sossego, comeou a brincar com os dedos; mas cessou logo, quando
  lhe perguntei,  queima-roupa, se se lembrava da me.
  As feies da moa perderam instantaneamente o ar alegre e descuidado; tudo o
  que havia nelas frvolo converteu-se em gravidade e compostura, e a criana
  desapareceu, para s deixar a mulher com a sua saudade filial.

Respondeu-me com uma
  pergunta. Como podia esquec-la? Sim, senhor, lembrava-se dela, e muito, e
  rezava por ela todas as noites para que Deus lhe desse o cu. E com certeza
  estava no cu. Era boa como eu no podia imaginar, e ningum foi nunca to
  amiga dela, como a defunta. No negava que Nhtnia lhe queria muito, e tinha provas disso, e assim tambm as mais pessoas de casa;
  mas a me era outra coisa. A me morria por ela, e quase se pode dizer que foi
  assim mesmo, porque apanhou uma constipao, estando a trat-la de uma febre, e
  ficou com uma tosse que nunca mais a deixou. O doutor negou, disse que a morte
  foi de outra coisa; ela, porm, desconfiou sempre que a doena da me comeou
  dali. To boa que nem quis que ela a visse morrer, para no padecer mais do que
  padecia. No pde v-la morrer, viu-a depois de morta, to bonita! to serena!
  parecia viva!

Aqui levou os dedos
  aos olhos; eu levantei-me e disse-lhe que mudssemos de conversa, que a me
  estava no cu, e que a vontade de Deus era mais que tudo. Lalau escutou-me com os olhos parados -- ela que os trazia como um casal de borboletas
  --, e depois de alguns instantes de silncio, continuou a falar da me, mas j
  no da morte, seno da vida, e particularmente da beleza. No, eu no podia
  imaginar como a me era bonita; at parava gente na rua para v-la. E
  descreveu-a toda, como podia, mostrando bem que as graas fsicas da me, aos
  olhos dela, eram ainda uma qualidade moral, uma feio, alguma coisa especial e
  genuna que no possuram nunca as outras mes.

-- Deus que a chamou
  para si, disse-lhe eu, l sabe por que  que o fez. Agora tratemos dos vivos.
  Ela est no cu, a senhora est aqui, ao p de pessoas que a estimam...

-- Oh! eu dava tudo
  para t-la ao p de mim, na nossa casinha da Cidade Nova! A casa era isto --
  continuou ela levantando as mos abertas, diante do rosto, e marcando assim o
  tamanho de um palmo --, ainda me lembro bem, era nada, quase nada -- no tinha l
  tapetes nem dourados, mas mame era to boa! to boa! Coitada de mame!

-- Olhe o sol! disse
  eu procurando desviar-lhe a ateno.

Com efeito, o sol,
  que ia subindo, comeava a lamber-lhe a barra do vestido. Lalau olhou para o cho, quis recuar a cadeira, mas sentindo-a pesada, levantou-se e
  veio ter comigo; pedindo-me desculpa de tanta coisa que dissera, e no
  interessava a ningum; e no me deu tempo de replicar, porque acrescentou logo
  outro pedido: -- que no contasse nada a Nhtnia.

-- Por qu?

-- Ela pode acreditar
  que eu disse isto, por no estar bem aqui, e eu estou muito bem aqui, muito bem.

Quis ret-la, mas a
  palavra no alcanou nada, e eu no podia pegar-lhe nas mos. Deixei-a ir, e
  voltei s minha notas. Elas  que no voltaram a mim, por mais que tentasse
  busc-las e transcrev-las. Lalau ainda tornou 
  sala, da a trs ou quatro minutos, para reiterar o ltimo pedido; prometi-lhe
  tudo o que quis. Depois, fitando-me bem, acrescentou que eu era padre, e no
  podia rir dela nem faltar  minha palavra.

-- Rir? disse eu em
  tom de censura.

-- No se zangue
  comigo, acudiu sorrindo; digo isto porque sou muito medrosa e desconfiada.

E, rpida, como
  passarinho, deixou-me outra vez s. Desta vez no tornei s notas; fiquei
  passeando na longa sala, costeando as estantes, detendo-me para mirar os
  livros, mas realmente pensando
  em Lalau. A
  simpatia que me arrastava
  para ela complicava-se agora de venerao, diante daquela exploso de
  sensibilidade, que estava longe de esperar da parte de uma criatura to
  travessa e pueril. Achei nessa saudade da me, to viva, aps longos anos, um
  documento de grande valor moral, pois a afeio que ali lhe mostravam, e o
  prprio contacto da opulncia podiam naturalmente t-la amortecido ou
  substitudo. Nada disso; Lalau daria tudo para viver
  ao p da me! Tudo? Pensei tambm no silncio que me recomendou, medrosa de que
  a achassem ingrata, e este rasgo no me pareceu menos valioso que o outro: era
  claro que ela compreendia as indues possveis de uma dor que persiste, a
  despeito dos carinhos com que cuidavam t-la eliminado, e queria poupar aos seus
  benfeitores o amargor de crer que empregavam mal o benefcio.

Pouco depois chegou
  o Flix. Veio falar-me, disse-me que tinha uma boa notcia, que ia mudar de
  roupa e voltava. Vinte minutos depois estava outra vez comigo, e confiava-me o
  plano de fazer-se eleger deputado.

-- At agora no
  tinha resolvido nada, mas acho que devo faz-lo. Sigo a carreira de papai. Que,
  lhe parece, Reverendssimo?

-- Parece-me bem.
  Todas as carreiras so boas, exceto a do pecado. Tambm eu algum tempo, andei
  com fumaas de entrar na Cmara; mas no tinha recursos nem alianas polticas;
  desisti do emprego. E assim foi bom. Sou antes especulativo que ativo; gosto de
  escrever poltica, no de fazer poltica. Cada qual como Deus o fez. O senhor,
  se sair a seu pai,  que h de ser ativo, e bem ativo. A coisa  para breve?

No me respondeu
  nada; tinha os olhos fora dali. Mas logo depois, advertido pelo silncio:

-- O qu? Ah! no 
  para j; estou arranjando as coisas. Estive com alguns amigos de papai, e
  parece que h furo. Como sabe h muitos desgostos contra o Regente... Se o
  Imperador j tivesse a idade de constituio  que era bom; ia-se embora o
  Regente e o resto... Pois  verdade, creio que sim... Entretanto, nunca tinha
  pensado nisto seriamente; mas as coisas so assim mesmo... Que acha?

-- Acho que fez bem.

-- Em todo o caso,
  peo-lhe segredo; no diga nada a mame.

-- Cr que ela se
  oponha?

-- No; mas... pode
  ser que no se alcance nada, e para lhe no dar uma esperana que pode
  falhar...  s isto.

Era plausvel a
  explicao; prometi-lhe no dizer nada. Creio que falamos ainda de poltica, e
  da poltica daqueles ltimos dez anos, que no era pouca nem plcida. Flix no
  tinha certamente um plano de idias, e apreciaes originais; atravs das
  palavras dele, apalpava eu as frmulas e os juzos do crculo ou das pessoas
  com quem ele lidava para o fim de encetar a carreira. Agora, a particularidade
  dele era ter a clareza e retido de esprito precisas para s recolher do que
  ouvia a parte s e justa, ou, pelo menos, a poro moderada. Nunca andaria nos
  extremos, qualquer que fosse o seu partido.

-- Trabalhou muito
  hoje? perguntou-me ele quando nos preparvamos para jantar.

-- Pouco; tive uma
  visita.

-- Mame?

-- No; outra pessoa, Lalau, no  assim que lhe chamam? Esteve aqui uma
  meia hora. Podia estar trs ou quatro horas que eu no dava por isso. Muito
  engraada!

-- Mame gosta muito
  dela, disse ele.

-- Todos devem gostar
  dela; no  s engraada,  boa, tem muito bom corao. Digo-lhe que pus de
  lado o Imperador, os Andradas, os Sete de Abril, pus tudo de lado s para
  ouvi-la falar. Tem coisas de criana, mas no  criana.

-- Muito inteligente,
  no acha?

-- Muito.

-- De que falaram?

-- De mil coisas,
  talvez duas mil; com ela  difcil contar os assuntos; vai de um para outro com
  tal rapidez que, se a gente no toma cuidado, cai no caminho. Sabe que idia
  tive aqui, olhando para ela?

-- Que foi?

-- Cas-la.

-- Cas-la? perguntou
  ele vivamente.

-- Cas-la eu mesmo;
  ser eu o padre que a unisse ao escolhido do seu corao, quando ela o
  tivesse...

Flix no disse
  nada, sorriu acanhadamente, e, pela primeira vez, suspeitei que as intenes do
  rapaz podiam ser mui outras das que lhe supunha at ento, que haveria nele,
  porventura em vez de um marido, um sedutor. No alcano exprimir como me doeu
  esta suposio. Ia tanto para a moa, que era j como se fosse minha irm, o
  meu prprio sangue, que um estranho ia corromper e prostituir. Quis continuar a
  falar, para escrutar-lhe bem a alma; no pude, ele esquivou-se, e fiquei outra
  vez s. Nesse dia retirei-me um pouco mais cedo. D. Antnia achou-me
  preocupado, eu disse-lhe que tinha dor de cabea.

As pessoas de meu
  temperamento entender-me-o. Bastou que uma idia se me afigurasse possvel
  para que eu a acreditasse certa. Vi a menina perdida. No houvera ali uma
  agregada, seduzida em 1835, por um saltimbanco, como me dissera D. Antnia?
  Agora no seria um saltimbanco, mas o prprio filho da dona da casa. E assim explicou-se-me a teima de D. Antnia em arredar o filho do
  Rio de Janeiro, comparada com a afeio que tinha  menina. Refleti na
  distncia social que os separava; Lalau era admitida
  na intimidade da famlia, mas o rapaz, filho de ministro e aspirante a
  ministro, e mais que tudo filho de casa-grande, tendo herdado o sangue do
  bisav, to orgulhoso nas veias da me, reservar-se-ia para algum casamento de
  outra laia. Como, porm, ela era bonita, e a natureza tem leis diferentes da
  sociedade, e no menos imperiosas, Flix achara um modo de conciliar umas e
  outras, amando sem casar.

Tudo isso que fica
  a em resumo, foram as minhas reflexes do resto do dia, e de uma parte da
  noite. Estava irritado contra o rapaz, temia por ela, e no atinava com o que
  cumpria fazer. Pareceu-me at que no devia fazer nada, ningum me dava direito
  de presumir intenes e intervir nos negcios particulares de uma famlia que,
  de mais a mais, enchia-me de obsquios. Isto era verdade; mas, como eu quero
  dizer tudo, direi um segredo de conscincia. Entre a verdade daquele conceito e
  o impulso do meu prprio corao, introduzi um princpio religioso, e disse a
  mim mesmo que era a caridade que me obrigava, que no Evangelho acharia um
  motivo anterior e superior a todas as convenes humanas. Esta dissimulao de
  mim para mim podia cal-la agora, que os acontecimentos l vo, mas no daria
  uma parte da histria que estou narrando, nem a explicaria bem.

Lalau no me saa da cabea: as
  palavras dela, suas maneiras, ingenuidade e lgrimas acudiram-me em tropel 
  memria, e davam-me fora para tenta dominar a situao e desviar o curso dos
  acontecimentos. No dia seguinte de manh quis rir de mim mesmo e dos meus
  planos de D. Quixote, remdio herico, porque  tal a risada do apupo que
  ningum a tolera ainda em si mesmo; mas no consegui nada. A conscincia ficou
  sria, e a contrao do riso desmanchou-se diante da sua impassibilidade.
  Compus cinco ou seis planos diferentes, alguns absurdos. O melhor deles era
  avisar a tia da menina; mas rejeitei-o logo por ach-lo odioso. Em verdade, ia
  dissolver laos ntimos, a ttulo de uma suspeita, que apenas podia explicar a
  mim mesmo. E, se era odioso, no era menos imprudente; podia supor-se que eu
  cedia a um sentimento pessoal e reprovado. Rejeitei da vista esta segunda
  razo, mas atirei-me  primeira, e dei de mo ao plano.

O melhor de tudo,
  refleti finalmente,  observar e fazer o que puder, segundo as circunstncias,
  mas de modo que evite estralada.

Tinha de ir almoar
  com um padre italiano, no Hospcio de Jerusalm, o mesmo que me falara da obra
  florentina, e me dera ocasio de brilhar na Casa Velha. Fui almoar; no fim do
  almoo, apareceu l um recm-chegado, um missionrio que vinha das partes da
  China e do Japo, e trazia muitas relquias preciosas. Convidaram-me a v-las.
  O missionrio era lento na ao e derramado nas palavras, de modo que
  despendemos naquilo um tempo infinito, e sa de l to tarde que no pude ir
  nesse dia  Casa Velha. De noite, constipei-me, apanhei uma febre, e fiquei
  cinco dias de cama.

CAPTULO IV

Estava prestes a
  deixar a cama, quando o Flix me apareceu em casa, pedindo desculpa de no ter
  vindo mais cedo, porque s na vspera soubera da minha doena. Trouxe-me
  visitas da me e de Lalau.

-- Isto no  nada,
  disse-lhe eu; e se quer que lhe confesse, at foi bom adoecer para descansar um
  pouco.

-- Virgem Maria! No
  diga isso.

-- Digo, digo. E no
  s para descansar, mas at para refletir. Doente, que no l nem conversa, nem
  faz nada, pensa. Eu vivo s, com o preto que o senhor viu. Vem aqui um ou outro
  amigo, raro; passo as horas solitrias, olhando para as paredes, e a cabea...

-- A culpa  sua,
  interrompeu-me ele; podia ter ido para a nossa casa, logo que se sentiu
  incomodado.  o que devia ter feito. No imagina mame como ficou cuidadosa,
  quando soube que o senhor estava de cama. Queria que eu viesse ontem mesmo, de
  noite, visit-lo; eu  que disse que podia estar acomodado, e a visita seria
  antes uma importunao. E a sua amiguinha?

-- Lalau?

-- Ficou branca como
  uma cera, quando ouviu a notcia; e pediu-me muito que lhe trouxesse lembranas
  dela, que lhe desse conselho de no fazer imprudncias, de no apanhar chuva,
  nem ar, nem nada, para no recair, que as recadas so piores... Veja l; se,
  em vez de se meter na cama, aqui em casa, tivesse ido para a nossa Casa Velha,
  l teria duas enfermeiras de truz, e um leitor, como
  eu, para lhe ler tudo o que quisesse.

-- Obrigado,
  obrigado; agradeo a todos, tanto a elas como ao senhor. Ficar para a outra
  molstia. E, na verdade,  possvel que ento no pensasse em nada...

-- Justo.

-- ...Nem
  em ningum. Ah
  ! ento Lalau disse isso? Foi exatamente nela que estive pensando.

-- Como assim?

Ouvi passos e vozes
  na sala; era o meu preto que trazia um padre a visitar-me. Noutra ocasio, 
  possvel que o Flix se despedisse e cedesse o lugar ao padre; mas a
  curiosidade valeu aqui ainda mais do que a afeio, e ele ficou. O padre esteve
  poucos minutos, dez ou vinte, no me lembra, dando-me algumas notcias
  eclesisticas, contando anedotas de sacristia, que o Flix escutou com grande
  interesse, talvez aparente, para justificar a demora. Afinal, saiu, e ficamos
  outra vez ss. No lhe falei logo de Lalau; foi ele
  mesmo que, depois de alguns farrapos de conversao, ditos soltos, reparos sem
  valor, me perguntou o que  que pensara dela. Eu, que os espreitava de longe,
  acudi  pergunta.

-- Estive pensando
  que essa moa  superior  sua condio, disse eu. A senhora D. Antnia
  falou-me de outra agregada que, h quatro anos, foi ali seduzida por um
  saltimbanco. No creio que esta faa a mesma coisa, parque, apesar da idade e
  do ar pueril, acho-lhe muito juzo; creio antes que escolher marido, e viver
  honestamente. Mas  aqui o ponto. O marido que ela escolher pode bem ser da
  mesma condio que ela, mas muito inferior moralmente, e ser um mau casamento.

Flix dividia os
  olhos entre mim e a ponta do sapato. Quando acabei, achou-me razo.

-- No lhe parece?
  perguntei.

-- Decerto.

-- Bem sei que 
  esquisito meter-me assim em coisas alheias...

-- Nada  alheio para
  um bom padre como o senhor, disse ele com gravidade.

-- Obrigado.
  Confesso-lhe, porm, que essa moa excitou a minha piedade. J lhe disse: tem
  coisas de criana, mas no  criana. Entreg-la a um homem vulgar, que no a
  entenda,  faz-la padecer. No sei se a senhora D. Antnia fez bem em apurar
  tanto a educao que lhe deu, e os hbitos em que a fez educar; no porque ela
  no se acomode a tudo, como um bom corao que , mas porque, apesar disso, h
  de custar-lhe muito baixar a outra vida. Olhe que no  censurar...

-- Pelo amor de Deus!
  sei o que . Pensa que eu no estou com a sua opinio? Estou e muito. Mame 
  que pode ser que no esteja conosco. J tem pensado em vrias pessoas, segundo
  me consta, e de uma delas chegou a falar-me; era o Vitorino, filho do segeiro que nos conserta as carruagens. Ora veja!

-- No conheo o
  Vitorino.

-- Mas pode
  imagin-lo.

Olhei para ele um
  instante. Pareceu-me que estava de boa-f; mas era possvel que no, e cumpria arrancar-lhe
  a verdade. Inclinei-me, e disse que j tinha um noivo em vista, muito superior
  ao Vitorino.

-- Quem? perguntou
  ele inquieto.

-- O senhor.

Flix teve um
  sobressalto, e ficou muito vermelho.

-- Desculpe-me se lhe
  digo isto, mas  a minha opinio, e no vale mais que opinio. H grande
  diferena social entre um e outro, mas a natureza, assim como a sociedade a
  corrige, tambm s vezes corrige a sociedade. Compensaes que Deus d. Acho-os
  dignos um do outro; os sentimentos dela e os seus so da mesma espcie. Ela 
  inteligente, e o que lhe poderia faltar em educao j sua me lho deu. Teria
  alguma dvida em casar com ela?

Flix estendeu-me a
  mo.

-- No lhe nego nada,
  o senhor j adivinhou tudo, disse ele. E continuou, depois de haver-me apertado
  a mo: Que dvida poderia ter? Ela merece um bom marido, e eu acho que no
  seria de todo mau. Resta ainda um ponto.

-- Que ponto?

Hesitou um instante,
  bateu com a mo nos joelhos duas ou trs vezes, olhando para mim, como querendo
  adivinhar as minhas intenes.

-- Resta mame, disse
  finalmente.

-- Ope-se?

-- Creio que sim.

-- Mas no  certo.

-- H de ser certo.
  Digo-lhe tudo, como se falasse a um amigo velho de nossa casa. Mame percebeu,
  como o senhor, que ns gostamos um do outro, e ope-se. No o disse ainda
  francamente, mas sinto que, em caso nenhum, consentir no nosso casamento. Esse
  Vitorino  um candidato inventado para separ-la de mim; e assim outros em que
  sei que j pensou. Estou que Lalau resistir, mas
  temo que no seja por muito tempo... No se lembra que mame j lhe pediu uma
  vez para levar-me  Europa? Era com o mesmo fim de afastar-me, distrair-me, e
  cas-la.

-- Acha isso?

-- Com certeza.

-- Como explica ento
  que ela continue a ter tanto amor  pequena?

-- O senhor no
  conhece mame.  um corao de pomba, e gosta dela como se fosse sua filha. Mas
  corao  uma coisa, e cabea  outra. Mame  muito orgulhosa em coisas de
  famlia. Seria capaz de velar uma semana ou duas,  cabeceira de Lalau, se a visse doente; mas no consentiria em cas-la
  comigo. So coisas diferentes.

-- Devia ser isso
  mesmo, repliquei alguns instantes depois. E murmurei baixinho as palavras que
  ela ouvira ao av, no tempo do rei e repetira mais tarde no pao: 'Uma Quintanilha no treme nunca!'

-- Nem treme, nem
  desce, concluiu o rapaz sorrindo.  o sentimento de mame.

-- Seja como for,
  nada est perdido; cuido que arranjaremos tudo. Deixe o negcio por minha
  conta.

Tinha o plano feito.
  Se houvesse reconhecido que as intenes dele eram impuras, ajudaria a me e
  trataria de casar a menina com outro. Sabendo que no, ia ter com a me para
  arrancar-lhe o consentimento em favor do filho. Trs dias depois, voltando 
  Casa Velha, achei nos olhos de Lalau alguma coisa
  mais particular que a alegria da amiga, achei a comoo da namorada. Era
  natural que ele lhe tivesse contado a minha promessa. No lho perguntei; mas
  disse-lhe rindo que parecia ter visto passarinho verde. Toda a alma subiu-lhe
  ao rosto, e a moa respondeu com ingenuidade, apertando-me a mo:

-- Vi.

No explico a
  sensao que tive; lembra-me que foi de incmodo. Essa palavra sbita, cordial
  e franca, encerrando todas as energias do amor, lacerou-me as orelhas como uma
  slaba aguda que era. Que outra esperava, e que outra queria, seno essa? No a
  pedira, no vinha interceder por um e por outro? Criatura espiritual e neutra,
  cabia-me to-somente alegrar-me com a declarao da moa, aprov-la, e
  santific-la ante Deus e os homens. Que incmodo era ento esse? que sentimento
  esprio vinha mesclar-se  minha caridade? Que contradio? que mistrio? Todas
  essas interrogaes surgiram do fundo de minha conscincia, no assim
  formuladas, com a sintaxe da reflexo remota e fria, mas sem liame algum,
  vagas, tortas e obscuras.

J se ter entendido
  a realidade. Tambm eu amava a menina. Como era padre, e nada me fazia pensar
  em semelhante coisa, o amor insinuou-se-me no corao
   maneira das cobras, e s lhe senti a presena pela dentada de cime.

A confisso dele no
  me fez mal; a dela  que me doeu e me descobriu a mim mesmo. Deste modo, a
  causa ntima da proteo que eu dava  pobre moa era, sem o saber, um
  sentimento especial. Onde eles viam um simples protetor gratuito existia um
  homem que, impedido de a amar na terra, procurava ao menos faz-la feliz com
  outro. A conscincia vaga de um tal estado deu-me ainda mais fora para tentar
  tudo.

CAPTULO V

Falei a D. Antnia
  no dia seguinte. Estava disposto a pedir-lhe uma conversao particular; mas
  foi ela mesma que veio ter comigo, dizendo que durante a minha molstia tinha
  acabado umas alfaias, e queria ouvir a minha opinio; estavam na sacristia.
  Enquanto atravessvamos a sala e um dos corredores que ficavam ao lado do ptio
  central, ia-lhe eu falando, sem que ela me prestasse grande ateno. Subimos os
  trs degraus que davam para uma vasta sala calada de pedra, e abobadada. Ao
  fundo havia uma grande porta, que levava ao terreiro e  chcara;  direita
  ficava a da sacristia,  esquerda outra, destinada a um ou mais aposentos, no
  sei bem.

Naquela sala achamos Lalau e o sineiro, este sentado, ela de p.

O sineiro era um
  preto velho e doido. No fazia mais que tocar o sino da capela, para a missa,
  aos domingos. O resto do tempo vivia calado ou resmungando. Ningum lhe falava,
  embora fosse manso. Lalau era a nica, entre todos,
  parentes, agregados ou fmulos, que ia conversar com ele, interrog-lo,
  escut-lo, pedir-lhe histrias. E ele contava-lhe histrias -- muito compridas,
  sem sentido algumas, outras quase sem nexo, reminiscncias vagas e embrulhadas,
  ou sugestes do delrio.

Era curioso v-los. Lalau perdia a inquietao; ficava sria e tranqila,
  durante dez, quinze, vinte minutos, a escut-lo. O Gira (nunca lhe conheci
  outro nome) alegrava-se ao v-la. Com a razo, perdera a convivncia dos mais.
  Vivia entregue aos pensamentos solitrios, mergulhado na inconscincia e na
  solido. A moa representava aos olhos dele alguma coisa mais do que uma
  simples criatura, era a sociedade humana, e uma sombra de sombra da conscincia
  antiga. Ela, que o sentia, dava-lhe essa curta emerso do abismo, e uma ou duas
  vezes por semana ia conversar com ele.

D. Antnia parou.
  No contava com a moa ali, ao p da porta da sacristia, e queria falar-me em
  particular, como se vai ver. Compreendi-o logo pelo desagrado do gesto, como j
  suspeitara alguma coisa ao v-la preocupada. No momento em que chegvamos, Lalau perguntava ao Gira:

-- E depois, e
  depois?

-- Depois, o rei
  pegou gavio, e gavio cantou.

-- Gavio canta?

-- Gavio? U, gente! Gavio cantou: Calunga, mussanga, monandengu... Calunga, mussanga, monandengu... Calunga...

E o preto dava ao
  corpo umas sacudidelas para acompanhar a toada africana. Olhei para Lalau. Ela, que ria de tudo, no se ria daquilo, parecia
  ter no rosto uma expresso de grande piedade. Voltei-me para D. Antnia; esta,
  depois de hesitar um pouco, deliberou entrar na sacristia, cuja porta estava
  aberta. Lalau tinha-nos visto, sorriu para ns e
  continuou a falar com o Gira. D. Antnia e eu entramos.

Sobre a cmoda da
  sacristia estavam as tais alfaias. D. Antnia disse ao preto sacristo, que
  fosse ajudar a descarregar o carro que chegara da roa, e l a esperasse.
  Ficamos ss; mostrou-me duas alvas e duas sobrepelizes; depois, sem transio,
  disse-me que precisava de mim para um grande obsquio. Soube na vspera que o
  filho andava com idias de ser deputado; pedia-me duas coisas, a primeira  que
  o dissuadisse.

-- Mas por qu?
  disse-lhe eu. A poltica foi a carreira do pai,  a carreira principal no Brasil...

-- V que seja; mas,
  Reverendssimo, ele no tem jeito para a poltica.

-- Quem lhe disse que
  no? Pode ser que tenha. No trabalho  que se conhece o trabalhador; em todo
  caso, -- deixe-me falar com franqueza -- acho bom da sua parte que procure
  empregar a atividade em alguma coisa exterior.

D. Antnia
  sentou-se, e apontou-me para outra cadeira. Ficamos ambos ao p de uma larga
  janela, que dava para o terreiro. Sentada, declarou que concordava comigo na
  necessidade que apontara, mas ia ento ao segundo obsquio, que no era novo; 
  que o levasse para a Europa. Depois da Europa, com mais alguns anos e
  experincia das coisas, pode ser que viesse a ser til ao seu pas...

Interrompi-a nesse
  ponto. Ela esperou; eu, depois de fit-la por alguns instantes, disse-lhe que a
  viagem, com efeito, podia ser til, mas que os costumes do moo eram to
  caseiros que dificilmente se ajustariam s peregrinaes; salvo se adotssemos
  um meio-termo: envi-lo casado.

-- No se arranja uma
  noiva com um simples ba de viagem, disse ela.

-- Est arranjada.

D. Antnia
  estremeceu.

-- Est aqui perto; 
  a sua boa amiga e pupila.

-- Quem? Lalau? Est caoando. Lalau e meu
  filho? Vossa Reverendssima est brincando comigo. No v que no  possvel?
  Cas-los assim como um remdio? Falemos de outra coisa.

-- No, minha
  senhora, falemos disto mesmo.

D. Antnia, que
  dirigira os olhos para outro lado, quando proferiu as ltimas palavras,
  levantou a cabea de sbito, ao ouvir o que lhe disse. Creio que, depois da
  morte do marido, era a primeira pessoa que lhe fazia frente. Olhou-me
  espantada. Estava to acostumada a governar ali, naquele mundo insulado, sem
  contraste nem advertncia, que no podia crer em seus ouvidos. O Padre
  Mascarenhas dissera-lhe uma vez, ao almoo, que ela era a imperatriz da Casa
  Velha, e D. Antnia sorriu lisonjeada, com a idia de ser imperatriz em algum
  ponto da terra. No batia com o cetro em ningum, mas estimava saber que lho
  reconheciam.

Pela minha parte,
  curvei-me respeitoso, mas insisti que falssemos daquele mesmo assunto, para
  resolv-lo de uma vez.

-- Resolver o qu?
  perguntou ela alando desdenhosamente o lbio superior.

-- No percamos tempo
  em dizer coisas sabidas de ns ambos, continuei. Eles gostam um do outro. Esta
   a verdade pura. Resta saber se podero casar, e  aqui que no acho nem
  presumo nenhuma razo que se oponha. No falo de seu filho, que  um moo digno
  a todos os respeitos. Falemos dela. Diga-me o que  que lhe acha?

No quis responder;
  eu continuei o que dizia, lembrei a educao que ela lhe dera, o amor que lhe
  tinha, e principalmente falei das virtudes da moa, da delicadeza dos seus
  sentimentos, e da distino natural, que supria o nascimento. Perguntei-lhe se,
  em verdade, acreditava que o Vitorino, filho do segeiro...
  D. Antnia estremeceu.

-- Vejo que est
  informado de tudo, disse ela depois de um breve instante de silncio. Conspiram
  contra mim. Bem; que quer de mim Vossa Reverendssima? Que meu filho case com Lalau? No pode ser.

-- E por que no pode
  ser?

-- Realmente, no sei
  que idias entraram por aqui depois de 31. So ainda lembranas do padre Feij.
  Parece mesmo achaque de padres. Quer ouvir por que razo no podem casar?
  porque no podem. No lhe nego nada a respeito dela;  muito boa menina,
  dei-lhe a educao que pude, no sei se mais do que convinha, mas, enfim, est
  criada e pronta para fazer a felicidade de algum homem. Que mais h de ser? Ns
  no vivemos no mundo da lua, Reverendssimo. Meu filho  meu filho, e, alm
  desta razo, que  forte, precisa de alguma aliana de famlia. Isto no 
  novela de prncipes que acabam casando com roceiras, ou de princesas
  encantadas. Faa-me o favor de dizer com que cara daria eu semelhante notcia
  aos nossos parentes de Minas e de S. Paulo?

-- Pode ser que a
  senhora tenha razo;  achaque de padre,  achaque at de Nosso Senhor Jesus
  Cristo, que nasceu nas palhas...

-- Sim, senhor; mas
  nesse caso que mal h em casar com o Vitorino? Filho de segeiro no  gente? Diga-me! Para que ela case com meu filho, Nosso Senhor nasceu nas
  palhas; mas para que case com o Vitorino, j no  a mesma coisa... Diga-me!

-- Mas, Senhora D.
  Antnia...

-- Qual! disse ela
  levantando-se, e indo at  porta que dava para a capela, e depois  outra de
  entrada da sacristia; espiou se nos ouviram, e voltou.

Voltando, deu alguns
  passos sem dizer nada, indo e vindo, desde a porta at  parede do fundo, onde
  pendia uma imagem de Nossa Senhora, com uma coroa de ouro na cabea, e estrelas
  de ouro no manto. D. Antnia fitou durante alguns momentos a imagem como para
  defender-se a si mesma. A Virgem coroada, rainha e triunfante, era para ela a
  legtima deidade catlica, no a Virgem foragida e cada nas palhas de um
  estbulo. Estava como at ento no a tinha visto. Geralmente, era plcida, e
  alguma vez impassvel; agora, porm, mostrava-se rspida e inquieta, como se a
  natureza rompesse as malhas do costume. A pupila abrasava-se de uma flama nova;
  os movimentos eram sbitos e no sei se desconcertados entre si. Eu, da minha
  cadeira, ia-a acompanhando com os olhos, a princpio arrependido de ter falado,
  mas vencendo logo depois esse sentimento de desnimo, e disposto a ir ao fim.
  Ao cabo de poucos minutos, D. Antnia parou diante de mim. Quis levantar-me;
  ela ps-me a mo no ombro, para que ficasse, e abanou a cabea com um ar de
  censura amiga.

-- Para que me falou
  nisso? pergunta logo depois com doura. Conheo que fala por ser amigo de um e
  de outro, e da nossa casa...

-- Pode crer, pode
  crer.

-- Creio, sim. Ento
  eu no vejo as coisas? Tenho notado que  amigo nosso. Ela principalmente,
  parece t-lo enfeitiado... No precisa ficar vermelho; as moas tambm
  enfeitiam os padres, quando querem que eles as casem com os escolhidos do
  corao delas. Que ela merece,  verdade; mas da a casar  muito. Venha c,
  prosseguiu ela sentando-se, vamos fazer um acordo. Eu cedo alguma coisa, o
  senhor cede tambm, e acharemos um modo de combinar tudo. Confesso-lhe um
  pecado. A escolha do Vitorino era filha de um mau sentimento; era um modo, no
  s de os separar, mas at de a castigar um pouco. Perdoe-me, Reverendssimo;
  cedi ao meu orgulho ofendido. Mas deixemos o Vitorino; convenho que no  digno
  dela.  bom rapaz, mas no est no mesmo grau de educao que dei a Lalau. Vamos a outro; podemos arranjar-lhe empregado do
  foro, ou mesmo pessoa de negcio... Em todo caso, no seja contra mim; ajude-me
  antes a arranjar esta dificuldade que surgiu aqui em casa...

-- Desde quando?

-- Sei l! desde
  meses. Desconfiei que se namoravam, e tenho feito o que posso, mas vejo que no
  posso muito.

-- Entretanto,
  continua a receb-la.

-- Sim, para
  vigi-la. Antes a quero aqui que fora daqui.

-- No  ento porque
  a estima?

--  tambm porque a
  estimo. Infelizmente, porque a estimo. Quem lhe disse que no gosto dela, e
  muito? Mas meu filho  outra coisa; entrar na famlia  que no.

D. Antnia tirou o
  leno do bolso, para esfregar as mos, tornou a guard-lo, e reclinou-se na
  cadeira, enquanto eu lhe fui respondendo. Conquanto fosse muito mais baixa que
  eu, dera um jeito to superior na cabea que parecia olhar de cima.

Fui respondendo o
  que podia e cabia, com boas palavras, mostrando em primeiro lugar a
  inconvenincia de os deixar namorados e separados: era faz-los pecar ou
  padecer. Disse-lhe que o filho era tenaz, que a moa provavelmente no teimaria
  em despos-lo, sabendo que era desagradvel  sua benfeitora, mas tambm podia
  dar-se que o desdm a irritasse, e que a certeza de dominar o corao de Flix
  lhe sugerisse a idia de o roubar  me. Acrescia a educao, ponto em que
  insisti, a educao e a vida que levava, e que lhe tornariam doloroso passar s
  mos de criatura inferior. Finalmente -- e aqui sorri para lhe pedir perdo --,
  finalmente, era mulher, e a vaidade, insuportvel nos homens, era na mulher um
  pecado tanto pior quanto lhe ficava bem; Lalau no
  seria uma exceo do sexo. Herdar com o marido o prestgio de que gozava a Casa
  Velha acabaria por lhe dar fora e faz-la lutar. Aqui parei; D. Antnia no me
  respondeu nada, olhava para o cho.

Como estvamos de
  costas para a janela, e ficssemos calados algum tempo, fomos acordados do
  silncio pela voz de Lalau que vinha do lado do
  terreiro. Voltamos a cabea; vimos a moa repreendendo a dois moleques, crias
  da casa, que puxavam pela casaca ao sineiro, uma velha casaca que o Flix lhe
  dera alguns dias antes. O sineiro, resmungando sempre, atravessou o terreiro,
  tomou  direita para o lado da frente da capela, e desapareceu; Lalau pegou na gola da camisa de uma das crias e na orelha
  da outra, e impediu que elas fossem atrs do pobre-diabo.

Olhei para D.
  Antnia, a fim de ver que impresso lhe dera o ato da moa. Mal comeava a
  fit-la, reparei que franzia a testa, no sei at se empalidecia; tornando a
  olhar para fora, tive explicao do abalo. Vi o filho de D. Antnia ao p da
  moa; acabava de chegar ao grupo. Lalau explicava-lhe
  naturalmente a ocorrncia; Flix escutava calado, sorrindo, gostando de v-la
  assim compassiva, e afinal, quando ela acabou, inclinou-se para dizer alguma
  coisa aos moleques. Vimo-lo depois pegar em um destes, e aproxim-lo de si,
  enquanto a moa ficou com o segundo; e, posto esse pretexto entre eles,
  comearam a falar baixinho.

D. Antnia recuou
  depressa, para que no a vissem. Creio que era a primeira vez que eles lhe
  apresentavam semelhante quadro. Recuou levantando-se, e foi para o lado da
  cmoda; eu continuei a observ-los. No se podia ouvir-lhes nada, mas era claro
  que falavam de si mesmos. s vezes a boca interrompia os salmos, que ia
  dizendo, para deixar a antfona aos olhos; logo depois recitava o cntico. Era
  a eterna aleluia dos namorados.

Violentei-me, no
  tirei a vista do grupo; precisava matar em mim mesmo, pela contemplao
  objetiva da desesperana, qualquer m sugesto da carne. Olhei para os dois,
  adivinhei o que estariam dizendo, e, pior ainda, o que estariam calando, e que
  se lhes podia ler no rosto e nas maneiras. Lalau era
  agora mulher apenas, sem nenhuma das coisas de criana que a caracterizavam na
  vida de todas as horas. Com as mos no ombro do moleque, ora fitava os olhos na
  carapinha deste, ouvindo somente as palavras de Flix; ora, erguia-os para o
  moo, a fim de o mirar calada ou falando. Ele  que olhava sempre para ela
  atento e fixo.

Entretanto, D.
  Antnia aproximara-se outra vez da janela, por trs de mim, e de mais longe,
  confiada na obscuridade da sacristia. Voltei-me e disse-lhe que a nossa
  espionagem era de direito divino, que o prprio cu nos aparelhara aquela
  indiscrio. D. Antnia, em geral avessa s sutilezas do pensamento, menos que
  nunca podia agora penetr-las; pode ser at que nem me ouvisse. Continuou a
  olhar para os dois, ansiosa de os perceber, aterrada de os adivinhar.

-- Uma coisa h de
  conceder, disse-lhe eu, h de conceder que eles parecem ter nascido um para o
  outro. Olhe como se falam. Veja os modos dela, a dignidade, e ao mesmo tempo a
  doura; ele parece at que quer fazer esquecer que  o herdeiro da casa. No
  sei at se lhe diga uma coisa; digo se me consentir...

D. Antnia voltou os
  olhos a mim com um ar interrogativo e complacente.

-- Digo-lhe que, se
  algum trocasse os papis, e a desse como sua filha, e a ele como o advogado da
  casa, ningum poria nenhuma objeo.

D. Antnia
  afastou-se da janela, sem dizer nada; depois tornou a ela, curiosa,
  interrogando a fisionomia dos dois. No fim de alguns minutos, no tendo
  esquecido as minhas ltimas palavras, redargiu com ironia e tristeza:

-- Advogado? Creio
  que  muito; diga logo cocheiro.

Fiz um gesto de
  pesar. E pedi-lhe que me desculpasse o estilo pinturesco da conversao; no queria dizer seno que a dignidade da moa f-la-ia supor
  dona da casa, ao passo que as maneiras respeitosas dele, que to bem lhe iam,
  poderiam faz-lo crer outra coisa; mas outra coisa educada, notasse bem. D.
  Antnia ouvia-me distrada e inquieta, olhando para fora e para dentro; e
  quando afinal os dois separaram-se, indo ele para o lado da frente da capela,
  que comunicava com o caminho pblico, e ela para a parte oposta, a fim de
  entrar em casa, D. Antnia sentou-se na cadeira em que estivera antes, e
  respirou  larga. Abanou a cabea duas ou trs vezes, e disse-me sem olhar para
  mim:

-- No tenho de que
  me queixar; a culpa  toda minha.

De repente, voltou a
  cabea para o meu lado e fitou-me. Tinha as feies um tanto alteradas, como
  que iluminadas, e esperei que me dissesse alguma coisa, mas no disse. Olhou,
  olhou, recomps a fisionomia e levantou-se.

-- Vamos.

No obedeci logo;
  imaginei que ela acabava de achar algum estratagema para cumprir a sua vontade,
  e confessei-lho sem rebuo, porque a situao no comportava j dissimular. D.
  Antnia respondeu que no, no achara nem buscara nada, e convidou-me a sair.
  Insisti no receio, acrescentando que, se cogitava dar um golpe, melhor seria
  avisar-me, para que os dissuadisse, e no fossem eles apanhados de supeto. D.
  Antnia ouviu sem interromper, e no replicou logo, mas da a alguns segundos,
  com palavras no claras e seguidas, seno nvias e dbias. Contava comigo ao
  lado dela, desde que soubesse a verdade... mas que a apoiasse j... depois...
  ento...

-- A verdade? repeti
  eu. Que verdade?

-- Vamos embora.

-- Diga-me tudo, a
  ocasio  nica, estamos perto de Deus...

D. Antnia
  estremeceu ouvindo esta palavra, e deu-se pressa em sair da sacristia;
  levantei-me e sa tambm. Achei-a a dois passos da porta, disse-me que ia ver
  os aposentos fronteiros, porque contava com hspedes da roa, e foi andando; eu
  desci os degraus de pedra, atravessei o ptio da cisterna, e recolhi-me  biblioteca.
  Recolhi-me alvoroado. Que verdade seria aquela, anunciada a fugir, tal verdade
  que me faria trocar de papel, desde que eu a conhecesse? Cumpria arrancar-lha,
  e a melhor ocasio ia perdida.

CAPTULO VI

No dia seguinte fui
  mais cedo para a Casa Velha, a fim de chegar antes dos hspedes que D. Antnia
  esperava da roa, mas j os achei l; tinham chegado na vspera, s ave-marias. Um deles, o coronel Raimundo, estava na varanda da
  frente, conheceu-me logo, e veio a mim para saber como ia a histria de Pedro
  I. Sem esperar pela resposta, disse que podia dar-me boas informaes.
  Conhecera muito o imperador. Assistira  dissoluo da Constituinte, por sinal
  que estava nas galerias, durante a sesso permanente, e ouviu os discursos do Montezuma e dos outros, comendo po e queijo,  noite,
  comprados na Rua da Cadeia; uma noite dos diabos.

-- Vossa
  Reverendssima vai escrever tudo?

-- Tudo o que souber.

-- Pois eu lhe darei
  alguma coisa.

Comeamos a passear
  ao longo da varanda grande. Egosmo de letrado! A esperana de alguns
  documentos e anedotas para o meu livro ps de lado a principal questo daqueles
  dias; entreguei-me  conversao do coronel. J sabemos que era parente da
  casa; era irmo de um cunhado do marido de D. Antnia, e fora muito amigo e
  familiar dele. Falamos cerca de meia hora; contou-me muita coisa do tempo,
  algumas delas arrancadas por mim, porque ele nem sempre via a utilidade de um
  episdio.

-- Oh! isso no tem
  interesse!

-- Mas diga, diga,
  pode ser, insistia eu.

Ento ele contava o
  que era, uma visita, uma conversa, um dito, que eu recolhia de cabea, para
  transp-lo ao papel, como fiz algumas horas depois. Raimundo foi-se sentindo
  lisonjeado com a idia de que eu ia imprimir o que me estava contando, e desceu
  a mincias insignificantes, casos velhos, e finalmente s anedotas dele mesmo,
  e s partes da sua vida militar.

-- Nhtnia, disse ele vendo entrar a parenta na varanda, este
  seu padre sabe onde tem a cabea.

D. Antnia fez um
  gesto afirmativo e seco, mas logo depois, para me no molestar, redargiu
  sorrindo que sim, que tanto sabia onde tinha a cabea como o corao. Lalau e as duas filhas do coronel vieram de fora, veio de
  dentro uma senhora idosa, arrastando um pouco os ps, e dando o brao a uma
  moa alta e fina.

-- Ande para aqui,
  baronesa, disse-lhe D. Antnia.

Apresentaram-me s
  suas damas. Soube que a baronesa era av da moa que a acompanhava. Eram
  esperadas do Pati do Alferes dez ou doze dias depois;
  mas vieram antes para assistir  festa da Glria. Foi o que me constou ali
  mesmo pela conversao dos primeiros minutos. A baronesa sentara-se de costas
  para uma das colunas, na cadeira rasa que lhe deram, ajudada pela neta, que a
  acomodou minuciosamente. Observei-a por alguns instantes. Os dois cachos
  brancos e grossos, pelas faces abaixo, eram da mesma cor da touca de cambraia e
  rendas; os olhos eram castanhos e no inteiramente apagados; l tinham seus
  momentos de fulgor, principalmente se ela falava em poltica.

-- Sinhazinha, o
  livro? perguntou ela  neta.

-- Est aqui, vov.

--  o mesmo da outra
  vez, Nhtnia?

Era a mesma novela
  que lera quando ali esteve um ano antes, e queria reler agora: era o Saint Clair das Ilhas ou os Desterrados da Ilha
    da Barra. Meteu a mo no bolso e tirou os culos, depois a caixa de rap, e
  ps tudo no regao. Raimundo, passando a mo pela barba, disse rindo:

-- Bem, as senhoras
  vo conversar e ns vamos a um solo. Valeu, Reverendssimo?

Fiz um gesto de
  complacncia.

-- Flix  um parceiro, e Nhtnia tambm; mas
  vamos s os trs. Nunca jogou com o Flix? Vai ver o que ele , fino como
  trinta diabos; l na roa d pancada em todo mundo. Aquilo sai ao pai. Se algum
  dia entrar na Cmara, creia que h de fazer um figuro, como o pai, e talvez
  mais. E olhe que acho tudo pouco para dar em terra com a tal Regncia do Sr.
  Pedro de Arajo Lima...

-- L vem o coronel
  com as suas idias extravagantes, acudiu a velha baronesa abrindo a caixa de
  rap, e oferecendo-me uma pitada, que recusei. Acha que o Arajo Lima vai mal?
  Preferia o seu amigo Feij?

Raimundo replicou,
  ela treplicou, enquanto eu voltava a ateno para Sinhazinha, que, depois de
  ter acomodado a av, fora sentar-se com as outras moas.

Sinhazinha era o
  oposto de Lalau. Maneiras pausadas, atitudes
  longamente quietas; no tinha nos olhos a mesma vida derramada que abrangia
  todas as coisas e recantos, como os olhos da outra. Bonita era, e a elevao do
  talhe delgado dava-lhe um ar superior a todas as demais senhoras ali presentes,
  que eram medianas ou baixinhas, com exceo de Lalau,
  que ainda assim era menos alta que ela. Mas essa mesma superioridade era
  diminuda pela modstia da pessoa, cujo acanhamento, se era natural,
  aperfeioara-se na roa. No olhou para mim quando chegou, nem ainda depois de sentar-se.
  Usava as plpebras cadas, ou, quando muito, levantava-as para fitar s a
  pessoa com quem ia falando. Como o pescoo era um tantinho alto demais, e a cabea vivia ereta, aquele gesto podia parecer afetao. Os
  cabelos eram o encanto da av, que dizia que a neta era a sua alem, porque
  eles tendiam a ruivo; mas, alm de ruivos, eram crespos, e, penteados e atados
  ao desdm, davam-lhe muita graa.

Gastei nesse exame
  no mais de dois a trs minutos. Depois, indo a compar-la melhor com Lalau, vi que esta fazia igual exame sorrateiramente. No
  era a primeira vez que a via, era a segunda ou terceira, desde que Sinhazinha
  perdera o pai e a me e viera do Rio Grande do Sul para a fazenda da av; no a
  viu no ano anterior, quando ela ali esteve, e cuido que lhe achava alguma
  diferena para melhor.

-- Reverendssimo,
  vamos? disse-me o coronel, acabando de replicar  baronesa.

-- J, j. Onde est
  o parceiro?

-- Havemos de
  ach-lo. Nhtnia, ele ter sado?

D. Antnia respondeu
  negativamente. Estaria vendo as bestas, que vieram da roa, ou o cavalo que
  comprara na vspera. E descreveu o cavalo, a pedido do coronel, chegando-se ao
  mesmo tempo para o lado da Sinhazinha. Chegando a esta parou, ps-lhe uma das
  mos na cabea, e com a outra levantou-lhe o queixo, para mir-la de cima.

-- Ai, Nhtnia! disse a moa. Est me afogando.

D. Antnia fez-lhe
  uma careta de escrnio, inclinou-se e beijou-lhe a testa com tanta ternura, que
  me deu cimes pela outra. E sentou-se entre elas todas, e todas lhe fizeram
  grande festa. Raimundo calara-se para mirar a cena, porque ele queria muito s
  filhas, e gostava de v-las acariciadas tambm. Nisto ouvimos passos na sala
  contgua, e da a nada entrava na varanda o filho de D. Antnia.

-- Ora, viva! bradou
  o coronel. Estvamos  espera de voc para um solo.

-- V, v, acudiu a
  baronesa, levantando os olhos do livro. O coronel est ansioso por jogar, e 
  uma fortuna, porque veio da roa insuportvel, e no me deixa ler... Ento voc
  comprou um cavalo?

Curtos eventos,
  palavras sem interesse, ou apenas curiosas que me no consolavam da interrupo
  a que era obrigado no cometimento voluntrio que empreendera; mas naquele dia
  no foi essa a minha pior impresso. Fomos dali para a mesa do jogo, em uma
  sala que ficava do outro lado, ao p da alcova do Flix. O coronel, contando os
  tentos, disse-nos que a baronesa estava com idias de casar com a neta,
  conquanto ainda no tivesse noivo; era uma idia. Parece que sentia-se fraca,
  receava morrer sem v-la casada; foi o que ele ouviu dizer aos Rosrios de
  Iguau, que eram muito da intimidade dela, e at parentes. Depois, rindo para o
  Flix:

-- Ali est um bom
  arranjo para voc.

-- Ora! rosnou o
  rapaz.

-- Ora qu? retorquiu
  o coronel encarando-o, enquanto baralhava e dava as cartas. Repito que era um
  bom arranjo; eu acho-a bem bonita, acho-a mesmo (tape os ouvidos,
  Reverendssimo!) acho-a um peixo. O pai educou-a
  muito bem; e depois duas fazendas, pode-se at dizer trs, mas uma delas tem
  andado para trs. Duas grandes fazendas, com setecentas cabeas, ou mais; terra
  de primeira qualidade; muita prata... No h outro herdeiro...

-- Solo! interrompeu
  o moo.

Ambos passamos; ele
  jogou e perdeu. No tinha jogo, foi um modo de interromper o discurso do
  parente. Mas o coronel era daqueles que no esquecem nada, e da a pouco tornou
  ao assunto, para dizer que ele, apesar de achacado, se a moa quisesse,
  tom-la-ia por esposa; e logo rejeitou a idia. No, no podia ser, estava um cangalho velho, no era mais quem dantes fora, no tempo do
  rei, e ainda depois. E vinha j uma aventura de 1815, quando o parente, em
  respeito a mim, disse-lhe que jogasse ou amos embora...

Pela minha parte,
  estava aborrecido. A opinio do coronel, relativamente  convenincia de casar
  o parente com Sinhazinha, e as mostras de ternura de D. Antnia para com esta,
  fizeram-me crer que podia haver alguma coisa em esboo; mas, ainda que nada
  houvesse, Raimundo, expansivo como era, chegaria a insinu-lo  parenta. Era
  uma soluo. Ignoro se Flix tambm desconfiava a mesma coisa; , todavia,
  certo que jogou distrado e calado -- durante alguns minutos --, o que fez com
  que o coronel nos dissesse de repente que estvamos no mundo da lua, que no
  viera da roa para ficar casmurro, e que, ou jogssemos ou ele ia s francesas
  da Rua do Ouvidor.

Ainda uma vez, Flix
  atalhou a imaginao libertina do tio. Para desvi-lo dali, falou de outros
  atrativos, de um prestidigitador clebre cujo nome enchia ento a cidade, e que
  inteiramente me esqueceu, de bailes de mscaras e teatros. Contou-lhe o enredo
  dos dramas que andavam ento em cena, e aludiu a certa farsa, que divertira
  muito o coronel, na ltima vez que viera da roa. Raimundo tinha a alma
  ingenuamente crdula para as fices da poesia; ouvia-as como quem ouve a
  notcia de uma facada. No era mau homem, e era excelente pai; disse logo que
  no perderia nada, e levaria ao teatro as suas candongas.
  Assim chamava s filhas.

Jogamos at perto da
  hora de jantar. Enquanto eles iam  cavalaria, ver os animais chegados,
  dirigi-me para a sala principal, onde achei D. Mafalda, a tia da Lalau, que vinha busc-la para ir com ela s novenas da
  Glria; a moa voltaria depois da festa. Pareceu-me que Lalau ia obedecer constrangida; e, por outro lado, no ouvi nenhuma objeo da parte
  de D. Antnia. S estavam as trs; as hspedes da roa tinham-se recolhido por
  alguns instantes. Raimundo e Flix entraram pouco depois, o primeiro
  convidando-me a ir passear com ele e o sobrinho, a cavalo.

-- Mas, se eu no sei
  montar...

-- No diga isso!
  Ento vamos ns dois, continuou voltando-se para o sobrinho. Vai Nhtnia...

-- Eu no.

-- ...Vai Sinhazinha.
  Sinhazinha  cavaleira de truz.

Outra vez este nome!
  A gente como eu, quando receia alguma coisa, faz derivar ou afluir para ela os
  mais alheios incidentes e as mais casuais circunstncias. Fui acreditando que o
  coronel era efetivamente um desbravador, e a temer que o Flix no resistisse
  por muito tempo  oferta de uma noiva distinta e graciosa, e da riqueza que
  viria com ela. Olhei para ele; vi-o falando com a tia de Lalau.

-- Valeu?
  perguntou-lhe o coronel de longe.

-- Hoje, no. Bem,
  amanh, depois do almoo.

-- A senhora no
  perde as novenas da Glria, disse Flix a Mafalda.

--  minha devoo
  antiga; e gosto de ir com Lalau, por causa da me,
  que tambm era muito devota de Nossa Senhora da Glria. Lembra-se, Nhtnia? Mas deixe estar, no dia 16 estamos c.

-- No, interrompeu
  Flix, venham jantar no dia da Glria; venham de manh. Temos missa na capela,
  e que diferena h entre a missa cantada e a rezada? No , Reverendssimo?

Fiz um gesto de
  assentimento. D. Antnia, porm, mordeu o lbio inferior, e no teve tempo de
  intervir, porque a tia da moa concordou logo em traz-la no dia 15 de manh. Lalau agradeceu-lhe com os olhos. No obstante a disposio
  do moo, fiquei receoso. Ao jantar, acharam-me preocupado; respondi somente que
  eram remorsos de ter gasto o melhor do dia ao jogo, em vez de ficar ao
  trabalho, e anunciei a D. Antnia que, em breve tempo, teria concludo as
  pesquisas. Caindo a tarde, Lalau e a tia
  despediram-se, e eu ofereci-me para acompanh-las. No era preciso; D. Antnia
  mandara aprontar a sege.

-- Nhtnia quer dar-se sempre a esses incmodos, disse
  agradecendo Mafalda.

-- Eu no, redargiu
  D. Antnia rindo, as incomodadas so as bestas.

A sege, em vez de as
  tomar ao p da porta que ficava por baixo da sala dos livros, veio receb-las
  diante da varanda, onde nos achvamos todos. O constrangimento de Lalau era j manifesto. Se preferia a me a tudo, como me
  dissera uma vez, cuido que preferia D. Antnia e a Casa Velha  companhia da
  tia; acrescia agora a presena de hspedes, a variedade de vida que eles
  traziam  Casa Velha; finalmente, pode ser tambm, sem afirm-lo, que tivesse
  receios idnticos aos meus. Despediu-se penosamente. D. Antnia, embora lhe
  fosse adversa,  certo que ainda a amava, deu-lhe a mo a beijar, e, vendo-a
  ir, puxou-a para si, e beijou-a na cara uma e muitas vezes.

-- Cuidado, nada de
  travessuras! disse-lhe.

Tia e sobrinha
  desceram os degraus da varanda, e quando eu ia ajud-las a entrar na sege, atravessou-se-me o filho da dona da casa, que deu a mo a
  uma e outra, cheio de respeito e graa.

-- Adeus, Nhtnia! disse a moa metendo a cabea entre as cortinas
  de couro da sege, e fechando-as, depois de dizer-me adeus com os olhos.

Eu, que estava no
  topo da escada, correspondi-lhe igualmente com os olhos, e voltei para as
  outras pessoas, enquanto a sege ia andando, e o moo subia os degraus.

-- Nhtnia, disse o coronel rindo, este seu filho dava para
  camarista do pao.

D. Antnia,
  escandalizada, tinha entre as sobrancelhas uma ruga, e olhou sombria para o
  filho. Quero crer que este incidente foi a gota que fez entornar do esprito de
  D. Antnia a singular determinao que vou dizer.

CAPTULO VII

Era na varanda, na
  manh seguinte. Quando ali cheguei, dei com D. Antnia s, passeando de um para
  outro lado; a baronesa recolhera-se, e os outros tinham sado a cavalo, depois
  de alguma espera para que eu os visse; mas cheguei tarde; por que  que no fui
  mais cedo?

-- No pude; estive
  sabendo as ms notcias que vieram do Sul.

-- Sim? perguntou
  ela.

Contei-lhe o que
  havia, acerca da rebelio; mas os olhos dela, despidos de curiosidade, vagavam
  sem ver, e, logo que o percebi, parei subitamente. Ela, depois de alguma pausa:

-- Ah! ento os
  rebeldes...

Repetiu a palavra,
  murmurou outras, mas sem poder vincul-las entre si, nem dar-lhes o calor que
  s o real interesse possui. Tinha outra rebelio em casa, e, para ela, a crise
  domstica valia mais que a pblica.  natural, pensei comigo; e tratei de ir
  aos meus papis. Ao pedir-lhe licena, vi-a olhar para mim, calada, e reter-me
  pelo pulso.

-- J? disse
  finalmente.

-- Vou ao trabalho.

D. Antnia hesitou
  um pouco; depois, resoluta:

-- Oua-me!

Respondi que estava
  s suas ordens, e esperei.

D. Antnia passou a
  mo pelos olhos, sacudiu a cabea, e perguntou-me se no suspeitava alguma
  causa absoluta de impedimento entre o filho e Lalau.

-- Causa absoluta?

-- Sim, murmurou ela,
  a medo, baixando e erguendo os olhos, como envergonhada.

Confesso que a
  suspeita de que Lalau era filha dela acudiu-me ao
  esprito, mas varri-a logo por absurda; adverti que ela o diria antes  prpria
  moa do que a nenhum homem, ainda que padre. No, no era isso. Mas ento o que
  era? Tive outra suspeita, e pedi-lhe que me dissesse, que me explicasse...

-- Est explicado.

-- Seu marido...?

D. Antnia fez um
  gesto afirmativo, e desviou os olhos. Tinha a cara que era um lacre. Quis ir
  para dentro, mas recuou, deu alguns passos at o fim da varanda, voltou, e foi
  sentar-se na cadeira que ficava mais perto, entre duas portas; apoiou os braos
  nos joelhos, a cabea nas mos, e deixou-se estar. Eu, espantado, no achava
  nada que dissesse, nada, coisa nenhuma; olhava para o ladrilho,  toa; e assim
  ficamos por um longo trato de tempo. Acordou-nos um moleque, vindo pedir uma
  chave  senhora, que lhe deu o molho delas, e ficou ainda sentada, mas sem pousar
  a cabea nas mos. A expresso do rosto no era propriamente de tristeza ou de
  resignao, mas de constrangimento, e pode ser tambm que de ansiedade; e no
  fiz logo esse reparo, mas depois, recapitulando as palavras e os gestos. Fosse
  como fosse, no me passou pela idia que aquele impedimento moral e cannico
  podia ser um simples recurso de ocasio.

Caminhei para ela,
  estendi-lhe as mos, ela deu-me as suas, e apertando-lhas, disse-lhe que no
  devia ter ajuntado  fatalidade do nascimento o favor das circunstncias; no
  devia t-los levado, pelo descuido, ao ponto em que estavam, para agora
  separ-los irremediavelmente. D. Antnia murmurou algumas palavras de
  explicao: -- acanhamento, confiana, esperana, a idia de cas-la com outro,
  a de mandar o filho  Europa... As mos tremiam-lhe um pouco; e, talvez por
  t-lo sentido, puxou-as e cruzou os braos.

-- Bem, disse-lhe eu,
  agora  separ-los.

-- Custa-me muito,
  porque eu gosto dela. Eduquei-a como filha.

--  urgente
  separ-los.

-- Aqui  que Vossa
  Reverendssima podia prestar-me um grande obsquio. No me atrevo a fazer nada;
  no sei mesmo o que poderia fazer. Vossa Reverendssima, que os estima, e creio
  que me estima tambm,  que acharia algum arranjo. Meu filho est resolvido a
  ir por diante; mas a sua interveno... Posso contar com ela?

-- Tem sido excessiva
  a minha interveno. Vim receber um obsquio, e acho-me no meio de um drama.
  Era melhor que me tivesse limitado a recolher papis...

-- No diga mais
  nada; acabou-se. Demais, um padre no se pode arrepender do benefcio que
  tentou fazer. A inteno era generosa; mas o que l vai, l vai. Agora 
  dar-nos remdio. Ser to egosta que me no ajude? No tenho outra pessoa; o
  coronel  um estonteado... E depois, por mim s; no fao nada... Ajude-me.

D. Antnia falava
  baixinho, com medo de que nos ouvissem; chegou a levantar-se e ir espiar a uma
  das portas, que davam para a sala. No julguei mal da precauo, que era
  natural; e, quando ela, voltando a mim, parou e interrogou-me de novo,
  respondi-lhe que precisava equilibrar-me primeiro; a revelao atordoara-me.
  Aqui desviou os olhos.

-- No  sangria
  desatada, acrescentei. Lalau est fora por alguns
  dias; pensarei lentamente. Que a ajude? Hei de ser obrigado a isso, agora que a
  situao mudou. Se no dei causa ao sentimento que os liga,  certo que o
  aprovei, e estava pronto a santific-lo. A senhora foi muito imprudente.

-- Confesso que fui.

-- Vai agora
  desgra-los.

D. Antnia fez com a
  boca um gesto, que podia parecer meio sorriso, e era to-somente expresso de
  incredulidade. Traduzido em palavras, quer dizer que no admitia que a
  separao dos dois pudesse trazer-lhes nenhum perptuo infortnio. Tendo casado
  por eleio e acordo dos pais, tendo visto casar assim todas as amigas e
  parentas, D. Antnia mal concebia que houvesse, ao p deste costume, algum
  outro natural e anterior. Cuidava a princpio que a sua vontade bastava a
  compor as coisas; depois, no logrando mais que baralh-las, cresceu-lhe
  naturalmente a irritao, e afinal criou medo; mas, sups sempre que o efeito
  da separao no passaria de algumas lgrimas.

-- Amanh ou depois
  falaremos, disse-lhe.

Fui dali aos livros.
  Ao entrar na sala deles, parei diante do retrato do ex-ministro, e mirei por
  alguns instantes aquela boca, que me parecera lasciva, desde que a vi pela
  primeira vez. E disse comigo, olhando para ele:

-- Ests morto.
  Gozaste e descansas; mas eis aqui os frutos podres da incontinncia; e so teus
  prprios filhos que vo trag-los.

Estava irritado,
  dava-me mpeto de quebrar alguma coisa. Sentei-me, levantei-me, fui  janela e
  acabei passeando ao longo da sala, com os pensamentos dispersos e confusos. Os
  livros, arranjados nas estantes, olhavam para mim, e talvez comentavam a minha
  agitao com palavras de remoque, dizendo uns aos outros que eles eram a paz e
  a vida, e que eu padecia agora as conseqncias de os haver deixado, para
  entrar no conflito das coisas. Nem por sombras me acudiu que a revelao de D.
  Antnia podia no ser verdadeira, to grave era a coisa e to austera a pessoa.
  No adverti sequer na minha cumplicidade. Em verdade, eu  que proferi as
  palavras que ela trazia na mente; se me tenho calado, chegaria ela a diz-las?
  Pode ser que no; pode ser que lhe faltasse nimo para mentir. Tocado de
  malcia, o corao dela achou na minha condescendncia um apoio, e falou pelo
  silncio. Assim vai a vida humana: um nada basta para complicar tudo.

Meia hora depois, ou
  mais, ouvi rumor do lado de fora, cavalos que chegavam lentamente: eram os passeadores.
  Fui  janela. Uma das filhas do coronel vinha na frente com o pai; a outra e
  Sinhazinha seguiam logo, com o rapaz entre elas. Flix falava a Sinhazinha, e
  esta ouvia-me olhando para ele, direitamente, sem biocos, como na varanda; era
  talvez o cavalo que restitua  rio-grandense a posse de si mesma e a franqueza
  das atitudes. Todo entregue a um acontecimento, subordinei a ele os outros, e
  conclu da familiaridade dos dois que bem podiam vir a amar-se. Sinhazinha
  escutava com ateno, cheia de riso, pescoo teso, segurando as rdeas na mo
  esquerda, e dando com a ponta do chicotinho, ao de leve, na cabea do cavalo.

-- Reverendssimo,
  bradou parando embaixo da janela o coronel, os farrapos invadiram Santa Catarina, entraram na Laguna, e os legais
  fugiram. Eu, se fosse o governo, mandava fuzilar a todos estes para
  escarmento...

J os pajens estavam
  ali,  porta, com bancos para as moas, apearam-se todos e subiram. Da a
  alguns minutos Raimundo e Flix entravam-me pela sala, arrastando as esporas.
  Raimundo creio que ainda trazia o chicote; no me lembra. Lembra-me que disse
  ali mesmo, agarrando-me nos ombros, uma multido de coisas duras contra Bento
  Gonalves, e principalmente contra os ministros, que no prestavam para nada, e
  deviam sair. O melhor de tudo era logo aclamar o imperador. Dessem-lhe
  cinqenta homens -- vinte e cinco que fossem -- e se ele em duas horas no
  pusesse o imperador no trono, e os ministros na rua, estava pronto a perder a
  vida e a alma. Uns lesmas! Tudo levantado, tudo, ao Norte e ao Sul... Agora
  parece que iam mandar tropas, e falava-se no General Andra para comand-las.
  Tudo remendos. Sangue novo  o que se precisava... Parola, muita parola.

Bufava o coronel; o
  sobrinho, para aquiet-lo, metia alguma palavra, de quando em quando, mas era o
  mesmo que nada, se no foi pior. Irritado com as interrupes, bradou-lhe que,
  se o pai fosse vivo, as coisas andariam de outro modo.

-- Aquele no era paz d'alma, disse o coronel apontando para o retrato.
  Fosse ele vivo! No era militar, como sabe -- continuou olhando para mim --, mas
  era homem s direitas. Veja-me bem aqueles olhos, e diga-me se ali no h vida
  e fora de vontade... Um pouco velhacos,  certo, acrescentou galhofeiramente.

-- Tio Raimundo!
  suplicou Flix.

-- Velhacos, repito,
  no digo velhacos para tratantadas, mas para amores; era maroto com as mulheres
  -- prosseguiu rindo e esquecendo inteiramente a rebelio. Eu, quando Vossa
  Reverendssima mudar de cara, e trouxer outra mais alegre, hei de contar-lhe
  algumas aventuras dele... Veja aqueles olhos! E no imagina como era gamenho, requebrado...

Flix saiu neste
  ponto; eu fui sentar-me  escrivaninha; o coronel no continuou o assunto, e
  foi despir-se. No me procurou mais at  hora do jantar; naturalmente porque o
  sobrinho o impediu de vir perturbar-me na pesquisa dos papis, como se eu
  tivesse papis na cabea. Marotos com as mulheres! Esta palavra retiniu ali por
  muito tempo. Maroto com as mulheres! Tudo se me afigurava claro e evidente.

CAPTULO VIII

No podia hesitar
  muito. Deixei de ir trs dias  Casa Velha; fui depois, e convidei o Flix a
  vir jantar comigo no dia seguinte. Jantamos cedo, e fomos dali ao Passeio
  Pblico, que ficava perto de minha casa. No Passeio, disse-lhe:

-- Sabe que sou seu
  amigo?

-- Sei, respondeu ele
  franzindo a testa.

-- No se aflija; o
  que lhe vou dizer  antes bem que mal. Sei que estima sua me; ela o merece,
  no s por ser me, como porque, se alguma coisa faz que parece contrari-lo,
  no o faz seno em benefcio seu e da verdade.

Flix tornou a
  franzir a testa.

-- Adivinho que h
  alguma coisa difcil de dizer que me h de mortificar. Vamos, diga depressa.

-- Digo j, ainda que
  me custe. E creia que me custa, mas  preciso: esquea aquela moa. No me olhe
  assim; imagina talvez que estou finalmente nas mos de sua me.

-- Imagino.

-- Antes fosse isso,
  porque ento o senhor no atenderia a um nem a outro, e casaria, se lhe
  conviesse.

-- E por que no
  farei isso mesmo?

-- No pode ser; no
  pode casar, esquea-a, esquea-a de uma vez para sempre. Deus  que o no quer,
  Deus ou o diabo, porque a primeira ao  do diabo; mas esquea-a inteiramente.
  Seu pai foi um grande culpado...

Aqui ele pediu-me,
  aflito, que lhe contasse tudo. Custou-me, mas revelei-lhe a confidncia da me.
  A impresso foi profunda e dolorosa, mas o sentimento do pudor e da religio
  pde seren-la depressa. Quis prolongar a conversao; ele no o quis, no
  podia, e achei natural que no pudesse; pouco falou, distrado ou absorto, e
  despediu-se dali a alguns minutos.

No foi para casa,
  como soube depois; foi andar, andar muito, revolvendo na memria as duras
  palavras que lhe disse. S entrou em casa depois de oito horas da noite, e
  recolheu-se ao quarto. A me estava aflita: pressentira a minha revelao, e
  receou alguma imprudncia; provavelmente arrependeu-se de tudo. Certo  que,
  logo que soube da chegada do filho, foi ter com ele; Flix no lhe disse nada,
  mas a expresso do rosto mostrou a D. Antnia o estado da alma. Flix
  queixou-se de dor de cabea, e ficou s.

Foi ele mesmo que me
  contou tudo isso, no dia seguinte, indo a minha casa. Agradeceu-me ainda uma
  vez, mas queixou-se do singular silncio da me. Expliquei-lho, a meu modo; era
  natural que lhe custasse a revelao, e no a fizesse antes de tentar qualquer
  outro meio.

-- Seja como for,
  estou curado, disse ele. A noite fez-me bem. O sentimento que essa menina me
  inspirou converteu-se agora em outro, e creia que pela imaginao j me
  acostumei a cham-la irm; creia mais que acho nisto um sabor particular,
  talvez por ser filho nico.

Apertei-lhe a mo,
  aprovando. Confesso que esperava menos pronta conformidade. Cuidei que tivesse
  de assistir a muito desespero, e at lgrimas. Tanto melhor. Ele, depois de
  alguns instantes, consultou-me se acharia prudente revelar tudo  moa; tambm
  eu j tinha pensado nisso, e no resolvera nada. Era difcil; mas no achava
  modo de no ser assim mesmo. Depois de algum exame, assentamos de no dizer
  nada, salvo em ltimo caso.

Os dias que se
  seguiram foram naturalmente de constrangimento. Os hspedes de D. Antnia
  notaram alguma coisa na famlia, que no era habitual; e a baronesa resolveu
  voltar para a fazenda, logo depois da festa da Glria. Sinhazinha  que no sei
  se reparou em alguma coisa; continuava a ter os mesmos modos do primeiro dia. A
  idia de cas-la com o filho de D. Antnia entrou a parecer-me natural, e at
  indispensvel. Conversei com ela; vi que era inteligente, dcil e meiga, ainda
  que fria; assim parecia, ao menos. Casaria com ele, ou com outro,  vontade da
  av. No dia 15, devia ir Lalau para a casa, e eu, que
  o sabia, l no fui, apesar do convite especial que tivera para jantar. No
  fui, no tive nimo de ver o primeiro encontro da alegria expansiva e ruidosa
  da moa com a frieza e o afastamento do rapaz. Deixei de l ir cinco dias;
  apareci a 20 de agosto.

CAPTULO IX

No dia 20 achei, com
  efeito, tudo mudado, Lalau, suspeitosa e triste,
  Flix retrado e seco. Este veio contar-me o que se passara, e acabou dizendo
  que o estado moral da menina pedia a minha interveno. Pela sua parte no
  queria mudar de maneiras com ela, para no entreter um sentimento condenado;
  no ousava tambm dar-lhe notcia da situao nova. Mas eu podia faz-lo, sem
  constrangimento, e com vantagem para todos.

-- No sei, disse eu
  depois de alguns instantes de reflexo; no sei... Sua me?

-- Mame est
  perfeitamente bem com ela; parece at que a trata com muito mais ternura. No
  lhe dizia eu? Mame  muito amiga dela.

-- No lhe ter dito
  nada?

-- Creio que no.

E depois de algum
  silncio:

-- Nem lho diria ela
  mesma. H confisses difceis de fazer a outros, e impossveis a ela; digo
  faz-las diretamente  pessoa interessada. Vamos l; tire-nos desta situao
  duvidosa.

-- Bem; verei. No
  afirmo nada; verei.

Estvamos na sala
  dos livros; Lalau apareceu  porta. Parou alguns
  instantes, depois veio afoitamente a mim, expansiva e ruidosa, mas de
  propsito, por pirraa; tanto que no me falava com a ateno em mim, mas
  dispersa, e olhando de modo que pudesse apanhar os gestos do rapaz. Este no
  dizia nada, olhava para os livros. Lalau perguntou-me
  o que era feito de mim, por onde tinha andado, se era ingrato para ela, se a
  esquecia; afirmando que tambm estava disposta a esquecer-me, e j tinha um
  padre em vista, um cnego, tabaquento, muito feio,
  cabea grande. Tudo isso era dito por modo que me doa, e devia doer a ela
  tambm; certo  que ele no se demorou muito na sala; foi at a janela, por
  alguns instantes; depois disse-me que ia ver os cavalos e saiu.

Lalau no pde mais conter-se; logo que
  ele saiu, deixou-se cair numa cadeira, ao canto da sala, e rompeu
  em lgrimas. A
  exploso
  atordoou-me, corri para ela, peguei-lhe nas mos, ela pegou nas minhas, disse
  que era desgraada, que ningum mais lhe queria, que tinha padecido muito
  naquele dia, muito, muito... Nunca falamos do sentimento que a acabrunhava
  agora; mas no foi preciso comear por nenhuma confisso.

-- No compreendo
  nada, dizia ela; sei s que sofro, que choro, e que me vou embora. Por qu?
  Sabe que h?

No lhe dei
  resposta.

-- Ningum sabe nada,
  naturalmente, continuou ela.

Quem sabe tudo j l
  vai caminhando para a roa. Devia ser assim mesmo; eu no valho nada, no sou
  nada, no tenho av baronesa, sou uma agregadazinha... Mas ento por que
  enganar-me tanto tempo? Para caoar comigo?

E chorava outra vez,
  por mais que eu defronte dela, em p, lhe dissesse que no fizesse barulho, que
  podiam ouvir; ela, porm, durante alguns minutos no atendia a nada. Quando
  cansou de chorar, e enxugou os olhos, estava realmente digna de lstima. A
  expresso agora era s de dor e de abatimento; desaparecera a indignao da
  moa obscura que se v preterida por outra de melhor posio. Sentei-me ao lado
  dela, disse-lhe que era preciso ter pacincia, que os desgostos eram a parte
  principal da vida; os prazeres eram a exceo; disse-lhe tudo o que a religio
  lhe poderia lembrar para obter que se resignasse. Lalau ouvia com os olhos parados, ou olhando vagamente; s vezes interrompia com um
  sorriso. Urgia contar-lhe tudo; mas aqui confesso que no achava palavras. Era
  grave a notcia; o efeito devia ser violento, porque, conquanto ela cuidasse
  estar abandonada por outra, a esperana l se aninharia nalgum recanto do
  corao, e nada est perdido enquanto o corao espera alguma coisa. Mas a
  notcia da filiao era decisiva.

No sabendo como
  diz-lo, prossegui na minha exortao vaga. Ela, que a princpio ouvia sem
  interesse, olhou de repente para mim, e perguntou-me se realmente estava tudo
  perdido. Vendo que lhe no dizia nada:

-- Diga, por esmola,
  diga tudo.

-- Vamos l,
  sossegue...

-- No sossego, diga.

-- Enquanto no sossegar
  no digo nada. Escute, Deus escreve direito por linhas tortas. Quem sabe o que
  estaria no futuro?

-- No entendo; diga.

Em verdade, no se
  podia ser menos hbil, ou mais atado que eu. No ousava dizer a coisa, e no
  fazia mais que aguar o desejo de a ouvir. Lalau instou ainda comigo, pegou-me nas mos, beijou-mas, e
  esse gesto fez-me mal, muito mal. Ergui-me, dei dois passos, e voltei dizendo
  que, no agora, por estar to fora de si, mas depois lhe contaria tudo, tudo,
  que era uma coisa grave...

-- Grave? Diga-me j,
  j.

E pegou-se a mim,
  que lhe dissesse tudo, jurava no contar nada a ningum, se era preciso guardar
  segredo; mas no queria ignorar o que era. No me dava tempo; se eu abria a
  boca para adiar, interrompia-me que no, que havia de ser logo, logo; e
  falava-me em nome de Deus, de Nossa Senhora, e perguntava-me se era assim que
  dizia ser padre.

-- Promete ouvir-me
  quieta?

-- Prometo, disse ela
  depressa, ansiosa, pendendo-me dos olhos.

--  bem grave o que
  lhe vou dizer.

-- Mas diga.

Peguei-lhe na mo, e
  levei-a para defronte do retrato do finado conselheiro. Era teatral o gesto,
  mas tinha a vantagem de me poupar palavras; disse-lhe simplesmente que ali
  estava algum que no queria: o pai de ambos. Lalau empalideceu, fechou os olhos e ia a cair; pude sust-la a tempo.

Lalau tinha o sentimento das situaes
  graves. Aquela era excepcional. No me disse nada, depois da minha revelao,
  no me fez pergunta nenhuma; apertou-me a mo e saiu.

Dois dias depois foi
  para casa da tia, a pretexto de no sei que negcio de famlia, mas realmente
  era uma separao. Fui ali v-la; achei-a abatida. A tia falou-me em
  particular; perguntou-me se houvera alguma coisa em casa de D. Antnia; a
  sobrinha, interrogada por ela, respondera que no; quis ir  Casa Velha, mas
  foi a prpria sobrinha que a dissuadiu, ou antes que lhe imps que no fosse.

-- No houve nada,
  foi a sua ltima palavra. O que h  que  tempo de viver em nossa casa, e no
  na casa dos outros. Estou moa, preciso de cuidar da minha vida.

D. Mafalda no
  achava prpria esta razo. A sobrinha era to amiga da Casa Velha, e a famlia
  de D. Antnia queria-lhe tanto, que no se podia explicar daquele modo uma
  retirada to repentina. Nunca lhe ouvira o menor projeto a tal respeito.
  Acresce que, desde que viera, andava triste, muito triste...

Todas essas
  reflexes eram justas; entretanto, para que ela no chegasse a ir  Casa Velha,
  disse-lhe que a razo dada por Lalau, se no era
  sincera, era em todo caso boa. Pensava muito bem querendo vir para casa; eram
  pobres; ela devia acostumar-se  vida pobre, e no  outra, que era abundante e
  larga, e podia criar-lhe hbitos perigosos.

Nada lhe disse a ela
  mesma, nem era possvel; falamos juntos os trs na sala de visitas, que era
  tambm a de trabalho. Lalau procurou disfarar a
  tristeza, mas a indiferena aparente no chegou a persuadir-me; conclu que o
  amor lhe ficara no corao, a despeito do vnculo de sangue, e tive horror 
  natureza. No foi s a natureza. Continuei a aborrecer a memria do homem, causa
  de tal situao e de tais dores.

Na Casa Velha fui
  igualmente discreto. D. Antnia no me perguntou o que se passara com elas, nem
  com o filho, e pela minha parte no lhe disse nada. O que ela me confiou, dias
  depois,  que a viagem de Flix  Europa era j desnecessria; cuidava agora de
  cas-lo; falou-me claramente nos seus projetos relativos a Sinhazinha.
  Parecera-lhe a escolha excelente; eu inclinei-me, aprovando.

Passaram-se muitos
  dias. O meu trabalho estava no fim. Tinha visto e revisto muitos papis, e
  tomara muitas notas. O coronel voltou  Corte no meado de setembro; vinha
  tratar de umas escrituras. Notou a diferena da casa, onde faltava a alegria da
  moa, e sobrava a tristeza ou alguma coisa anloga do sobrinho. No lhe disse
  nada; parece que D. Antnia tambm no.

Flix passava uma
  parte do dia comigo, sempre que eu ali ia; falava-me de alguns planos
  relativamente a indstrias, ou mesmo a lavoura, no me lembra bem;
  provavelmente, era tudo misturado, nada havia nele ainda definido; lembremo-nos que j andara com idias de ser deputado. O
  que ele queria agora era fazer alguma coisa que o aturdisse, que lhe tirasse a
  dor do recente desastre. Neste sentido, aprovava-lhe tudo.

Pareceu-me que o
  tempo ia fazendo algum efeito
  em ambos. Lalau
  no ria
  ainda, nem tinha a mesma conversao de outrora; comeava a apaziguar-se. Ia
  ali muita vez, s tardes; ela agradecia-me evidentemente a fineza. No s tinha
  afeio, como achava na minha pessoa um pedao das outras afeies, da outra
  casa e do outro tempo. Demais, era-me grata, posto que o destino me tivesse
  feito portador de ms novas, e destruidor de suas mais ntimas esperanas.

A idia de cas-la
  entrou desde logo no meu esprito; e nesse sentido falei  tia, que aprovou
  tudo, sem adiantar mais nada. No conhecia o Vitorino, filho do segeiro, e perguntei-lhe que tal seria para marido.

-- Muito bom,
  disse-me ela. Rapaz srio, e tem alguma coisa por morte do pai.

-- Tem alguma
  educao?

-- Tem. O pai at
  queria faz-lo doutor, mas o rapaz  que no quis; disse que se contentava com
  outra coisa; parece que est escrevente de cartrio... escrevente no sei como
  se diz... mentado... paramentado...

-- Juramentado.

-- Isso mesmo.

-- Bem, se puder
  falar com ela... sem dizer tudo... assim a modo de indagao...

-- Verei; deixe
  estar.

Dias depois, D.
  Mafalda deu-me conta da incumbncia: a sobrinha nem queria ouvir falar
  em casar. Achava
  o
  Vitorino muito bom noivo, mas o seu desejo era ficar solteira, trabalhar em
  costura, para ajudar a tia e no depender de ningum; mas casar nunca.

Esta conversa
  trouxe-me a idia de ponderar a D. Antnia que, uma vez que Lalau era filha de seu marido, ficava-lhe bem fazer uma pequena doao que a
  resguardava da misria. D. Antnia aceitou a lembrana sem hesitar. Estava to
  contente com o resultado obtido, que podia faz-lo. Confessou-me, porm, que o
  melhor de tudo seria, feita a doao, passados os tempos, e casado o filho,
  voltar a menina para a Casa Velha. Tinha grandes saudades dela; no podia viver
  muito tempo sem a sua companhia. Repeti a ltima parte a Lalau que a escutou comovida. Creio at que ia a brotar-lhe uma lgrima; mas
  reprimiu-a depressa, e falou de outra coisa.

Era uma tera feira.
  Na quarta, devia eu ultimar os meus trabalhos na Casa Velha, e restituir os
  papis, quando fiz um achado que transtornou tudo.

CAPTULO X

Estava recolhendo
  tudo, quando dei por falta de uma nota tomada naquele dia; no era fcil
  reproduzir a nota, pois no a havia tirado de uma s pgina nem de um s livro,
  mas de muitos livros diferentes. O caso aborreceu-me; procurei o papel
  atabalhoadamente; depois recomecei com cuidado. Abria os livros com que
  trabalhara nesse dia, um por um, mas no achava nada. Vim achar a nota, depois,
  ao p da grade da janela, prestes a cair.

Entre os livros que
  folheei, procurando, achava-se um relatrio manuscrito, que eu lera apenas em
  parte, no o tendo feito na que continha to-somente a transcrio de
  documentos pblicos. Pegando no livro pela lombada, e agitando-o para fazer
  cair a nota, se ali estivesse, vi que efetivamente caa um papelinho.

Vinha dobrado, e vi
  logo que era por letra do ex-ministro. Podia ser alguma coisa interessante,
  para os meus fins. Era um trecho de bilhete a alguma mulher, cujo nome no
  estava ali, e referia-se a uma criana, com palavras de tristeza. Podiam ser
  outros amores; podiam ser os prprios amores da me de Lalau.
  Hesitei em guardar o papel, e cheguei a p-lo dentro das folhas do relatrio;
  mas tornei a tir-lo, e guardei-o comigo.

Reli-o em casa;
  dizia esse trecho do bilhete, que provavelmente nunca foi acabado nem remetido:

Tenha confiana em
  mim, e oua o que lhe digo. No faa barulho, sossegue e no fale sempre no meu
  nome. Venha c o menos que puder; e no pense mais no anjinho. Deus  bom.

No achava nada que
  me explicasse coisa nenhuma; mas insisti
  em guard-lo. De
  noite
  pensei que o bilhete podia relacionar-se com a famlia da Lalau;
  e, como nunca tivesse dito  tia desta o motivo que a separara da Casa Velha,
  resolvi pedir-lhe uma conferncia, e cont-lo.

Pedi-lhe a
  conferncia no dia seguinte, e obtive-a no outro, muito cedo, enquanto Lalau dormia. No hesitei em ir logo ao fim. Contei-lhe
  tudo, menos o amor da sobrinha e do filho de D. Antnia, que ela, alis, fingia
  ignorar. D. Mafalda ouviu-me pasmada, curiosa, querendo por fim que lhe
  dissesse se D. Antnia ficara irritada com a descoberta.

-- No, perdoou tudo.

-- Ento por que
  houve logo esta separao?

Hesitei na resposta.

-- Entendo, disse
  ela, entendo.

Vi que sabia tudo;
  mas no se consternou por isso. Ao contrrio, disse-me alegremente que, se no
  era mais que essa a causa da separao, tudo estava remediado.

-- Conto-lhe tudo,
  disse-me ela no fim de alguns instantes. No diria nada em outras
  circunstncias, nem sei mesmo se diria alguma coisa a outra pessoa.

D. Mafalda confirmou
  os amores da cunhada; mas o ex-ministro viu-a pela primeira vez, quando eles
  vieram da roa, tinha Lalau trs meses. No era
  absolutamente o pai da menina. Compreende-se o meu alvoroo; pedi-lhe todas as
  circunstncias de que se lembrasse, e ela referiu-as todas, e todas eram a
  confirmao da notcia que acabava de dar; datas, pessoas, acidentes, nada
  discordava da mesma verso. Ela prpria apelou para os apontamentos da
  freguesia onde nascera a menina, e para as pessoas do lugar, que me diriam isto
  mesmo. Pela minha parte, no queria outra coisa, seno o desaparecimento do
  obstculo e a felicidade das duas criaturas. De repente, lembrou-me do trecho
  do bilhete que tinha comigo, e disse-lhe que, em todo caso, mal se podia
  explicar a crena em que estava D. Antnia; havia por fora uma criana.

-- Houve uma criana,
  interrompeu-me D. Mafalda; mas essa morreu com poucos meses.

Tinha o bilhete na
  algibeira, tirei-o e reli-o; estas palavras confirmavam a verso da morte:
  'no pense mais no anjinho...'

D. Mafalda contou-me
  ento a circunstncia do nascimento da criana, que viveu apenas quatro meses;
  depois, referiu-me a longa histria da paixo da cunhada, que ela descobriu um
  dia, e que a prpria cunhada lhe confiou mais tarde, em ocasio de desespero.

Tudo parecia-lhe
  claro e definitivo; restava agora repor as coisas no estado anterior. Mas, ao
  pensar nisso, adverti que, transmitida esta verso a D. Antnia, ouviria as
  razes que ela teria para a sua, e combin-las-ia todas. Fui  Casa Velha, e
  pedi a D. Antnia que me desse tambm uma conferncia particular. Desconfiada,
  respondeu que sim, e foi na sala dos livros, enquanto Flix estava fora, que
  lhe contei o que acabava de saber.

D. Antnia
  escutou-me a princpio curiosa, depois ansiosa, e afinal atordoada e prostrada.
  No compreendi esse efeito; acabei, disse-lhe que a Providncia se encarregara
  de levar o fruto do pecado, e nada impedia que o casamento do filho com a moa
  o fizesse esquecer a todos. Mas D. Antnia, agitada, no podia responder
  seguidamente. No entendendo esse estado, pedi que mo explicasse.

D. Antnia negou-me
  tudo a princpio, mas acabou confessando o que ningum poderia ento supor. Ela
  ignorava os amores do marido; inventara a filiao de Lalau,
  com o nico fim de obstar ao casamento. Confessou tudo, francamente,
  alvoroada, sem saber de si. Creio que, se repousasse por algumas horas, no me
  diria nada; mas apanhada de supeto, no duvidou expor os seus atos e motivos.
  A razo  que o golpe recebido fora profundo. Vivera na f do amor conjugal;
  adorava a memria do marido, como se pode fazer a uma santa de devoo ntima.
  Tinha dele as maiores provas de constante fidelidade. Viva, me de um homem,
  vivia da felicidade extinta e sobrevivente, respeitando morto o mesmo homem que
  amara vivo. E vai agora uma circunstncia fortuita mostra-lhe que, inventando,
  acertara por outro modo, e que o que ela considerava puro na terra trouxera em
  si uma impureza.

Logo que a primeira
  comoo passou, D. Antnia disse-me com muita dignidade que o passado estava
  passado, que se arrependia da inveno, mas enfim estava meia punida. Era
  preciso que o castigo fosse inteiro; e a outra parte dele no era mais que unir
  os dois
  em
    casamento. Ops-se
  por soberba; agora, por humildade,
  consentia em tudo.

D. Antnia, dizendo
  isto, forcejava por no chorar, mas a voz trmula indicava que as lgrimas no
  tardavam a vir; lgrimas de vencida, duas vezes vencida -- no orgulho e no amor.
  Consolei-a, e pedi-lhe perdo.

-- De qu? perguntou
  ela.

-- Do que fiz. Creia
  que sinto o papel desastrado que o destino me confiou em tudo isto. Agora
  mesmo, quando vinha alegre, supondo consertar todas as coisas, conserto-as com
  lgrimas.

-- No h lgrimas,
  disse D. Antnia esfregando os olhos.

Da a nada estava
  tranqila, e pedia-me que acabasse tudo. No podia mais tolerar a situao que
  ela mesma criara; tinha pressa de afogar na afeio sobrevivente algumas
  tristezas novas. Instou comigo para que fosse ter com a moa naquele mesmo dia,
  ou no outro, e que a trouxesse para a Casa Velha, mas depois de saber tudo;
  pedia tambm que me incumbisse de retificar a revelao feita ao filho. Ela, pela
  sua parte, no podia entrar em tais mincias; eram-lhe penosas e indecentes.
  Esta palavra fez-me, creio eu, empalidecer; ela apressou-se em explic-la; no
  me encarregava de coisa indigna, mas pouco ajustada entre um filho e sua me.
  Era s por isso.

Aceitei a explicao
  e a incumbncia. No me demorei muito em pr o filho na confidncia da verdade,
  contando-lhe os ltimos incidentes, e a face nova da situao. Flix ouviu-me
  alvoroado; no queria crer, inquiria uma e muitas vezes se a verdade era realmente
  esta ou outra, se a tia da moa no se enganara, se a nota achada... Mas eu
  interrompi-o confirmando tudo.

-- E mame?

-- Sua me?

-- Naturalmente, j
  sabe...

Hesitei em dizer-lhe
  tudo o que se passara entre mim e ela; era revelar-me a inveno da me, sem
  necessidade. Respondi-lhe que sabia tudo, porque mo dissera, que estava
  enganada, e estimara o desengano.

Tudo parecia
  caminhar para a luz, para o esquecimento, e para o amor. Aps tantos desastres
  que este negcio me trouxera, ia enfim compor a situao, e tinha pressa de o
  fazer e de os deixar felizes. Restava Lalau; fui l
  ter no dia seguinte.

Lalau notou a minha alegria; eu, sem
  saber por onde comeasse, disse-lhe que efetivamente tinha uma boa notcia. Que
  notcia? Contei-lha com as palavras idneas e castas que a situao exigia.
  Acabei, referi o que se passara com D. Antnia, o pedido desta, a esperana de
  todos. Ela ouviu ansiosa -- a princpio, aflita -- e no fim, quando soube a
  verdade retificada, deixou cair os olhos e no me respondeu.

-- Vamos, senhora,
  disse-lhe; o passado est passado.

Lalau no se moveu. Como eu instasse,
  abanou a cabea; instando mais, respondeu que no, que nada estava alterado, a
  situao era a mesma. Espantado da resposta, pedi-lhe que ma explicasse; ela
  pegou da minha mo, e disse-me que no a obrigasse a falar de coisas que lhe
  doam.

-- Que lhe doem?

-- Falemos de outra
  coisa.

Confesso que fiquei
  exasperado; levantei-me, mostrei-me aborrecido e ofendido. Ela veio a mim,
  vivamente, pediu-me desculpa de tudo. No tinha inteno de ofensa, no podia
  t-la; s podia agradecer tudo o que fizera por ela. Sabia que a estimava
  muito.

-- Mas no
  compreendo...

-- Compreende, se
  quiser.

-- Venha explicar-se
  com a sua velha amiga; ela lhe dir que estimou muito no ser verdadeira a sua
  primeira suposio.

-- Para ela, creio.

-- E para todos.

-- Para mim, no.
  Seja como for, no poderia casar-me com o filho do mesmo homem que envergonhou
  minha famlia... Perdo; no falemos nisto.

Olhei assombrado
  para ela.

-- Essa palavra  de
  orgulho, disse-lhe no fim de alguns instantes.

-- Orgulho, no; eu
  no sei que coisa  orgulho. Sei que nunca estimei tanto a ningum como a minha
  me. No lhe disse isso mesmo uma vez? Gostava muito de mame; era para mim na
  terra como Nossa Senhora no cu. E esta santa to boa como a outra, esta santa
   que... No; perdoe-me. Orgulho? No  orgulho;  vergonha; creia que estou
  muito envergonhada. Sei que era estimada na Casa Velha; e seria ali feliz, se
  pudesse s-lo; mas no posso, no posso.

-- Reflita um pouco.

-- Est refletido.

-- Reflita ainda uma
  noite ou duas; virei amanh ou depois. Repare que a sua obstinao pode
  exprimir, relativamente  memria de sua me, uma censura ou uma afronta...

Lalau interrompeu-me; no censurava a
  me; amava-a tanto ou mais que dantes. E concluiu dizendo que, por favor, no
  falssemos mais de tal assunto. Respondi-lhe que ainda lhe falaria uma vez
  nica; pedi-lhe que refletisse. Contei tudo a D. Mafalda, e disse-lhe que na
  minha ausncia trabalhasse no mesmo sentido que eu.

-- Tudo deve voltar
  ao que era; eles gostam muito um do outro; D. Antnia estima-a como filha; o
  passado  passado. Cuidemos agora do presente e do futuro.

Lalau no cedeu nada  tia, nem a mim.
  No cedeu nada ao filho de D. Antnia, que a foi visitar, e a quem no pde ver
  sem comoo, e grande; mas resistiu. Afinal, oito dias depois, D. Antnia
  mandou aprontar a sege, e foi busc-la.

-- Uma vez aqui, ver
  que arranjamos tudo, disse-lhe ela.

Entrava j no
  esprito de D. Antnia um pouco de amor-prprio ofendido com a recusa. Lalau parece que a princpio no a quis acompanhar; nunca
  soube nem deste ponto, mas  natural que fosse assim. Consentiu, finalmente, e
  foi por um s dia; jantou l e voltou s ave-marias.

Voltei  casa delas,
  e instei novamente, ou s com ela, ou com a tia; ela mantinha-se no mesmo p,
  e, para o fim, com alguma impacincia. Um dia recebi recado de D. Mafalda;
  corri a ver o que era, disse-me que o filho do segeiro,
  Vitorino, fora pedi-la em casamento, e que a moa, consultada, respondeu que
  sim. Soube depois que ela mesma o incitara a faz-lo. Compreendi que tudo
  estava acabado. Flix padeceu muito com esta notcia; mas nada h eterno neste
  mundo, e ele prprio acabou casando com Sinhazinha. Se ele e Lalau foram felizes, no sei; mas foram honestos, e basta.

FIM
