Crnica, A semana, 1892

A
semana

Texto-fonte:
Obra
Completa de Machado de Assis.
Rio
de Janeiro: Nova Aguilar, Vol. III, 1994.

Publicado
originalmente na Gazeta de Notcias, Rio de Janeiro, de 24/04/1892 a
11/11/1900.

NDICE

1892

1893

1894

1895

1896

1897

1900

1892

24 de abril

Na segunda feira da semana que
findou, acordei cedo, pouco depois das galinhas, e dei-me ao gosto de propor a
mim mesmo um problema. Verdadeiramente era uma charada; mas o nome de problema
d dignidade, e excita para logo a ateno dos leitores austeros. Sou como as
atrizes, que j no fazem benefcio, mas festa artstica. A coisa  a
mesma, os bilhetes crescem de igual modo, seja em nmero, seja em preo; o
resto, comdia, drama, opereta, uma polca entre dois atos, uma poesia, vrios
ramalhetes, lampies fora, e os colegas em grande gala, oferecendo em cena o
retrato  beneficiada.

Tudo pede certa elevao. Conheci
dois velhos estimveis, vizinhos, que esses tinham todos os dias a sua festa
artstica. Um era Cavaleiro da Ordem da Rosa, por servios em relao 
guerra do Paraguai; o outro tinha o posto de tenente da guarda nacional da
reserva, a que prestava bons servios. Jogavam xadrez, e dormiam no intervalo
das jogadas. Despertavam-se um ao outro desta maneira: Caro major!
-Pronto, comendador!  Variavam s vezes:  Caro comendador!
-A vou, major. Tudo pede certa elevao.

Para no ir mais longe,
Tiradentes. Aqui est um exemplo. Tivemos esta semana o centenrio do grande
mrtir. A priso do herico alferes  das que devem ser comemoradas por todos os
filhos deste pas, se h nele patriotismo, ou se esse patriotismo  outra coisa
mais que um simples motivo de palavras grossas e rotundas. A capital portou-se
bem. Dos estados esto vindo boas notcias. O instinto popular, de acordo com o
exame da razo, fez da figura do alferes Xavier o principal dos Inconfidentes, e
colocou os seus parceiros a meia rao da glria. Merecem, decerto, a nossa
estimao aqueles outros; eram patriotas. Mas o que se ofereceu a carregar com
os pecados de Israel, o que chorou de alegria quando viu comutada a pena de
morte dos seus companheiros, pena que s ia ser executada nele, o enforcado, o
esquartejado, o decapitado, esse tem de receber o prmio na proporo do
martrio, e ganhar por todos, visto que pagou por todos.

Um dos oradores do dia 21 observou
que se a Inconfidncia tem vencido, os cargos iam para os outros conjurados, no
para o alferes. Pois no  muito que, no tendo vencido, a histria lhe d a
principal cadeira. A distribuio  justa. Os outros tm ainda um belo papel;
formam, em torno de Tiradentes, um coro igual ao das Ocenides diante de
Prometeu encadeado. Relede squilo, amigo leitor. Escutai a linguagem compassiva
das ninfas, escutai os gritos terrveis, quando o grande tito  envolvido na
conflagrao geral das coisas. Mas, principalmente, ouvi as palavras de Prometeu
narrando os seus crimes s ninfas amadas: Dei o fogo aos homens; esse mestre
lhes ensinar todas as artes. Foi o que nos fez Tiradentes.

Entretanto, o alferes Joaquim Jos
tem ainda contra si uma coisa a alcunha. H pessoas que o amam, que o admiram,
patriticas e humanas, mas que no podem tolerar esse nome de Tiradentes.
Certamente que o tempo trar a familiaridade do nome e a harmonia das slabas;
imaginemos, porm, que o alferes tem podido galgar pela imaginao um sculo e
despachar-se cirurgio-dentista. Era o mesmo heri, e o ofcio era o mesmo; mas
traria outra dignidade. Podia ser at que, com o tempo, viesse a perder a
segunda parte, dentista, e quedar-se apenas cirurgio.

H muitos anos, um rapaz  por
sinal que bonito  estava para casar com uma linda moa , a aprazimento de
todos, pais e mes, irmos, tios e primos. Mas o noivo demorava o consrcio;
adiava de um sbado para outro, depois quinta-feira, logo tera, mais tarde
sbado;  dois meses de espera. Ao fim desse tempo, o futuro sogro comunicou 
mulher os seus receios. Talvez o rapaz no quisesse casar. A sogra, que antes de
o ser j era, pegou do pau moral, e foi ter com o esquisito genro. Que histrias
eram aquelas de adiamentos?

 Perdo, minha senhora,  uma
nobre e alta razo; espero apenas...

 Apenas...?

 Apenas o meu ttulo de
agrimensor.

 De agrimensor? Mas quem lhe diz
que minha filha precisa do seu ofcio para comer? Case, que no morrer de fome;
o ttulo vir depois.

 Perdo, mas no  pelo ttulo de
agrimensor, propriamente dito, que estou demorando o casamento. L na roa d-se
ao agrimensor, por cortesia, o ttulo de doutor, e eu quisera casar j
doutor...

Sogra, sogro, noiva, parentes,
todos entenderam esta sutileza, e aprovaram o moo. Em boa hora o fizeram. Dali
a trs meses recebia o noivo os ttulos de agrimensor, de doutor e de
marido.

Daqui ao caso eleitoral  menos
que um passo; mas, no entendendo eu de poltica, ignoro se a ausncia de to
grande parte do eleitorado na eleio do dia 20 quer dizer descrena, como
afirmam uns, ou absteno como outros juram. A descrena  fenmeno alheio 
vontade do eleitor: a absteno  propsito. H quem no veja em tudo isto mais
que ignorncia do poder daquele fogo que Tiradentes legou aos seus patrcios. O
que sei,  que fui  minha seo para votar, mas achei a porta fechada e a urna
na rua, com os livros e ofcios. Outra casa os acolheu compassiva, mas os
mesrios no tinham sido avisados e os eleitores eram cinco. Discutimos a
questo de saber o que  que nasceu primeiro, se a galinha, se o ovo. Era o
problema, a charada, a adivinhao de segunda-feira. Dividiram-se as opinies;
uns foram pelo ovo outros pela galinha; o prprio galo teve um voto. Os
candidatos  que no tiveram nem um, porque os mesrios no vieram e bateram dez
horas. Podia acabar em prosa, mas prefiro o verso:

Sara, belle
d'indolence,
Se balance
Dans un hamac...

30 de abril

Uma folha diria, recordando que
as quermesses tinham sido fechadas por serem verdadeiras casas de tavolagens,
noticiou que elas comeam a reaparecer. J h uma na Rua do Teatro; o pretexto 
uma festa de caridade. E a folha chama a ateno da polcia.

A notcia  dizemo-lo sem ofensa 
 mui prpria de um sculo utilitrio e prtico. No se poderia achar exemplo
mais vivo do esprito da nossa idade, que pe a alma das coisas de lado para s
admirar a face das coisas. Invertemos a caridade; ela no , para ns, o mvel
da ao, o sentimento da esmola e do benefcio;  o resultado da coleta.
Dou cinco mil ris para comprar uns sapatos de criana (se h ainda sapatos
de cinco mil ris); o mundo, se os sapatos no so comprados, grita contra a
especulao. Queremos a caridade escriturada, legalizada, regulamentada, com
relatrio anual, contas, receita e despesa, saldo. Onde est aqui o esprito
cristo?

A quermesse  tavolagem. Que tenho
eu com isso, se me convida a fazer bem? No se trata (reflita o colega), no se
trata de beneficiar a um estranho, mas a minha alma. V o dinheiro para um
faminto, para a escola, ou simplesmente para as algibeiras do empresrio,
nada tem com isso a minha salvao. A caridade no  um efeito,  uma
causa. As quermesses so ocasies inventadas para a prtica do evangelho. O
fim dessas instituies  exercitar a virtude, e tanto melhor se o dinheiro
recolhido alimentar um vcio.  o preceito de Horcio e do gasmetro: Ex fumo
dare lucem.

Um exemplo. H em certa rua, por
onde passo todos os dias, um homem sentado na soleira de uma porta, chapu
na mo, a pedir uma esmolinha. Esse homem, que deve andar por cinqenta e
tantos anos, padece de um p sujo,  creio que o esquerdo. Quando lhe
descobri essa nica molstia, travou-se em minha conscincia um terrvel
conflito. Darei o meu vintm ao homem ou no? Fui ao meu grande S. Paulo, ao meu
Santo Agostinho, fui principalmente aos casustas mais clebres, e achei em
todos que no se tratava do p de um homem, mas da alma de outro. A rigor,
pode-se dar at a um p lavado. Da em diante, dou ao homem o meu vintm certo.
E no se diga que  porque fui estudar a soluo do problema nos livros
moralistas. Tenho visto pobres mulheres que passam com o vestidinho desbotado, a
sua cor doentia, pararem adiante, e, s escondidas, tirarem do bolso o
vintenzinho ganho  fora de agulha ou de goma, e irem deposit-lo no chapu do
homem. Este, em bemol: Os anjos a acompanhem, minha santa senhora!

A quermesse pode ter os ps sujos.
No me cabe verificar se os vai lavar; cabe-me, sim, dar o dinheiro (e, quanto
mais, melhor), para cumprir o preceito de Jesus: No queirais entesourar
para vs tesouros na terra, onde a ferrugem e a traa os consome; mas entesourai
para vs tesouros no cu, onde no os consome a ferrugem nem a
traa.

A terra fez-se para entesourar
algumas coisas, mas s as que no entendem com a nossa conscincia moral,
os atos que no vm do corao, mas da cabea. Que rico tesouro da terra nos deu
a comisso de instruo pblica do conselho municipal! No meio dos debates
daquela casa,  tantas vezes acres e apaixonados,   doce e consolador elevar o
esprito a sentenas como esta: Foi esta lei (a instruo) que organizou as
sociedades primitivas, que regeu seus principais destinos, que domina as
condies de existncia dos primeiros povos e que os obrigou a esse longo
peregrinar dos sculos. E, depois de comparar a instruo a um elo que
liga o passado ao presente e o presente ao futuro, escreve esta ousada e
forte imagem, seguida de outra no menos ousada nem menos forte: A
humanidade, porm,  como a hiena faminta e insacivel.  como o Ahasverus
da lenda que no pode parar,  tem de caminhar e caminhar sempre! No se pode
pintar melhor a necessidade crescente da instruo da espcie humana.

Ao mesmo tempo, lembra-me os dias
da mocidade.  Ahasverus! Tambm eu te vi caminhar, caminhar, caminhar sempre,
naquela madrugada dos meus anos, to linda, e to remota! De noite, quando a
insnia me arregalava os olhos com os seus dedos magros,  ou de manh, quando
eles se abriam ao sol, via o eterno andador, andando, andando... L me saiu um
verso; h de ser algum que no me chegou a sair da cabea.

Via o eterno andador, andando,
andando. Justamente, um verso. A est o que  ter metrificado lendas em
criana; no se pode falar delas sem vir  mtrica de permeio.  infncia,
 versos! E as associaes? Havia algumas nesse tempo em que se discutiam e
votavam teses histricas e filosficas. Qual foi maior: Csar ou Napoleo? Esta
era a mais comum dos debates; e se alguma coisa pode consolar esses dois grandes
homens da morte que os tomou,  a certeza de que tm c em cima da terra
verdadeiros amigos e certo equilbrio de sufrgios.

Tambm agora h teses, mas so
outras. Esta semana o Instituto dos Advogados debateu um ponto
interessante, a saber, se, em face da Constituio e das leis, os ttulos
nobilirios dados por governos estrangeiros fazem perder a qualidade de
cidado. A maioria adotou a afirmativa: 16 votos contra 8. Mas, examinando
a tese, o Instituto esqueceu uma hiptese. O Sr. Geminiano Maia, do Estado do
Cear, recebeu de um governo estrangeiro o ttulo de baro de Camocim. Pergunto;
esta hiptese entra acaso na tese do Instituto? O ttulo pelo doador, 
estrangeiro, mas  nacional pela localidade. Camocim  no territrio do Brasil.
Para mim, que no tenho preparos jurdicos, este ttulo no tira a
qualidade de cidado ao Sr. Maia: antes o faz mais brasileiro, se 
possvel. Maia  um nome comum. Camocim  um nome nacional. Examine o Instituto
essa hiptese.

1
de maio

Vs este tapume? Digo-vos que no
ficar tbua sobre tbua. E assim se cumpriu esta palavra do Dr.
Barata Ribeiro, que imitou a Jesus Cristo, em relao ao templo de Jerusalm.
Olhai, porm, a diferena e a vulgaridade do nosso sculo. A palavra de Jesus
era proftica: os tempos tinham de cumpri-la. A do presidente da intendncia,
que era um simples despacho, no precisou mais que de alguns trabalhadores
de boa vontade, um advogado e vinte e quatro horas de espera. Ao cabo do
prazo, reapareceu o nosso chafariz da Carioca, o velho monumento que tem o
mesmo nome que ns outros, filhos da cidade, o nosso xar, com as suas
bicas sujas e quebradas,  certo, mas eu confio que o Dr. Barata Ribeiro,
assim como destruiu o tapume, assim reformar o bicume. E poder ser
preso, aoitado, crucificado; ressurgir no terceiro minuto, e ficar 
direita de Gomes Freire de Andrade.

J que se foi o tapume, no
calarei uma anedota, que ao mesmo tempo no posso contar. Valham-me Gulliver e o
seu invento para apagar o incndio do palcio do rei de Lilliput.
Recordam-se, no? Pois saibam que uma noite lavrava um princpio de
incndio no tapume,  algum fsforo lanado por descuido ou perversidade. Um
Gulliver casual, que ia passando, correu a apag-lo. Pobre grande homem!
Esbarrou com um soldado de sentinela, ao lado da Imprensa Nacional, que no
consentiu na obra de caridade daquele corpo de bombeiro. Perseguido pela
viso do incndio (h desses fenmenos), o nosso Gulliver viu fogo onde o no
havia, isto , no prprio edifcio da Imprensa Nacional, lado oposto, e
correu a apag-lo. No achou sombra de sentinela! Disseram-lhe mais tarde que a
sentinela do tapume era a mesma que o governador Gomes Freire mandara pr ao
chafariz, em 1735, e que a Metropolitana, por descuido, no fez recolher.
Vitalidade das instituies!

Mas esse finado tapume faz lembrar
um tempo alegre e agitado, to alegre e agitado quo triste e quieto  o
tempo presente. Ento  que era bailar e cantar. Danavam-se as modas de todas
as naes; no era s o fadinho brasileiro, nem a quadrilha francesa;
tnhamos o fandango espanhol, a tarantela napolitana, a valsa alem, a
habanera, a polca, a mazurca, no contando a dana macabra, que  a sntese de
todas elas. Cessou tudo por um efeito mgico.

Os msicos foram-se embora, e os
pares voltaram para casa.

S o acionista ficou,  o
acionista moderno, entenda-se, o que no, paga as aes. Tinham-lhe dito: 
aqui tem um papel que vale duzentos, o senhor d apenas vinte, e no
falemos mais nisso.

 Como no falemos?

 Quero dizer, falemos
semestralmente; de seis em seis meses, o senhor recebe dez ou doze por
cento, talvez quinze.

 Do que dei?

 Do que deu e do que no
deu.

 Que no dei, mas que hei de dar?

 Que nunca h de dar.

 Mas, senhor, isso  quase um
debnture.

 Por ora, no; mas l
chegaremos.

Desta noo recente tivemos, h
dias, um exemplo claro e brilhante. Uma assemblia, tomando contas do ano, deu
com trs mil contos de despesas de incorporao. Nada mais justo.
Entretanto, um acionista props que se reduzissem aquelas despesas; outro,
percebendo que a medida no era simptica, lembrou que ficasse a diretoria
autorizada a entender-se com os incorporadores para dar um corte na soma. A
assemblia levantou-se como um s homem. Que reduzir? que entender-se? E, por
cerca de cinco mil votos contra dez ou onze, aprovou os trs mil contos de ris.
A razo adivinha-se. A assemblia compreendeu que a incorporao, como a ao,
devia ter sido paga pelo dcimo, e conseguintemente que os incorporadores teriam
recebido, no mximo, trezentos contos. Pedir-lhes reduo da reduo seria
econmico, mas no era razovel, e instituiria uma justia de dois pesos e duas
medidas. Votou os trs mil contos, votaria trinta mil, votaria trinta
milhes.

Ho de ter notado a facilidade com
que meneio algarismos, posto no seja este o meu ofcio; mas desde que Cames
& C. puseram uma agncia de loterias no beco das Cancelas, creio que, ainda
sem ser Cames, posso muito bem brincar com cifras e nmeros. Na explicao do
Sr. Dr. Ferro Cardoso, por exemplo, acerca da no eleio, o que mais me
interessou, foram os oito mil eleitores que deixaram de votar no candidato, j
porque eram milhares, j por- que o argumento era irrespondvel. Com efeito,
ningum obriga um homem a aceitar a cdula de outro; se a aceita e no vota, 
porque cede a uma fora superior.

Tudo  algarismo debaixo do sol. A
prpria circular do bispo aos vigrios, acerca dos padres e sacristos
associados para vender caro as missas, reduz-se, como vem, a somas de dinheiro.
Grande rumor nas sacristias. Grande rumor na imprensa annima. Pelo que me toca,
no sendo padre nem sacristo, cito este acontecimento da semana, no s por
causa dos algarismos, mas ainda por notar que o bispo adotou neste caso o lema
positivista; Viver s claras. Em vez de circular reservada, f-la
pblica. Mas como, por outro lado, j algum disse que o positivismo era um
catolicismo sem cristianismo, a questo pode explicar-se por uma simpatia de
origem, e os padres que se queixem ao bispo dos bispos.

Onde no creio que haja muitos
milhares de contos  na Repblica Transatlntica de Mato Grosso. O dinheiro
 o nervo da guerra, diz um velho amigo; mas um fino e grande poltico
desmente o axioma, afirmando que o nervo da guerra est nas boas tropas. Haver
este nervo em Mato Grosso? Quanto a mim, creio que a jovem repblica no  mesmo
repblica. Aquele nome de Transatlntica d idia de um gracejo ou de um
enigma.  talvez o que fique de toda a campanha. Tambm pode ser que a
palavra, como outras, tenha sentido particular naquele Estado, e traga uma
significao nova e profunda. s vezes, de onde no se espera, da  que vem. H
dias, dei com um verbo novo na tabuleta de uma casa da Cidade Nova:
Opacam-se vidros. Digam-me em que dicionrio viram palavra to
apropriada ao caso.

8
de maio

Mato Grosso foi o assunto
principal da semana. Nunca ele esteve menos Mato, nem mais Grosso. Tudo se
esperava daquelas paragens, exceto uma repblica, se so exatas as notcias que
o afirmam, porque h outras que o negam; mas neste caso a minha regra  crer,
principalmente se h telegrama. Ningum imagina a f que tenho em
telegramas. Demais, folhas europias de 13 a 14 do ms passado, falam da nova
repblica transatlntica como de coisa feita e acabada. Algumas descrevem a
bandeira.

Duas dessas folhas (por sinal que
londrinas) chegam a aconselhar ao governo da Unio que abandone Mato
Grosso, por lhe dar muito trabalho e ficar longe, sem real proveito. Se eu fosse
governo, aceitava o conselho, e pregava uma boa pea  nova repblica,
abandonando-a, no  sua sorte, como dizem as duas folhas, mas 
Inglaterra. A Inglaterra tambm perdia no negcio, porque o novo territrio
ficava-lhe muito mais longe; mas, sendo sua obrigao no deixar terra sem
amanho, tinha de suar o topete s em extrair minerais, desbastar, colonizar,
pregar, fazer em suma de Mato Grosso um mato fino.

Eu, rigorosamente, no tenho nada
com isto. No perco uma unha do p nem da mo, se perdermos Mato Grosso. E no 
melhor que me fique antes a unha que Mato Grosso? Em que  que Mato Grosso 
meu? No nego que a idia da ptria deve ser acatada. Mas a nova repblica no
bradou: abaixo a ptria! como um rapaz que fez a mesma coisa em
Frana, h trs meses, e foi condenado  priso por um tribunal. Mato
Grosso disse apenas: Anch'io son pittore, e pegou dos pincis. No
destruiu a oficina ao p, organizou a sua. Uma vez que pague, alm das
dcimas, as tintas, pode pintar a seu gosto, e tanto melhor se fizer
obras-primas.

Ptria brasileira (esta comparao
 melhor)  como se dissssemos manteiga nacional, a qual pode ser excelente,
sem impedir que outros faam a sua. Se a nova fabrica j est montada
(estilo dos estatutos de companhias e dos anncios de teatros), faa a sua
manteiga, segundo lhe parecer, e, para falar pela lngua argentina, vizinha dela
e nossa: con su pan se la coma.

Vede bem que a nova repblica 
una e indivisvel. Aqui h dente de coelho; parece que o fim  tolher a
soberania a Corumb, a Cuiab, que poderiam fazer as suas constituies
particulares, como os diversos Estados da Unio fizeram as suas. Eu s
havia notado, em relao a estes, a diferena dos ttulos dos chefes, que uns
so governadores, como nos Estados Unidos da Amrica, outros presidentes,
como o presidente da Repblica. A princpio supus que a fatalidade do nosso
nascimento (que  de chefe para cima) obrigava a no chamar governador um homem
que tem de reger uma parte soberana da Unio; mas, consultando sobre isso
uma pessoa grave do interior, ouvi que a razo era outra e histrica, isto ,
que a preferncia de presidente a governador provinha de ser este
ttulo odioso aos povos, por causa dos antigos governadores coloniais. No
s compreendi a explicao, mas ainda lhe grudei outra, observando que, por
motivo muito mais antigo, foi acertado no adotar o ttulo de juiz, como
usaram algum tempo em Israel (fedor judaico)  justamente!

Entretanto, outra pessoa, sujeita
ao terror poltico, tem escrito esta semana que alguns Estados, em suas
constituies e legislaes, foram alm do que lhes cabia; que um deles admitia
a anterioridade do casamento civil, outro j lanou impostos gerais, etc. Assim
ser; mas obra feita no  obra por fazer. Se o exemplo de Mato Grosso tem de
pegar, melhor  que cada pintor tenha j as suas telas prontas, tintas
modas e pincis lavados:  s pintar, expor e vender. A Unio, que no tem
territrio, no precisa de soberania; basta ser um simples nome de famlia,
um apelido, meia alcunha.

Depois de Mato Grosso, o negcio
em que mais se falou esta semana (no contando a reunio do Congresso), foi
o processo da Geral. Os diretores presos tiveram habeas-corpus.
Apareceu um relatrio contra os mesmos, e contra outros, mas apareceu tambm a
contestao, depoimentos e desmentidos, alm de vrios artigos, os quais
papis todos, juntos com o que se tem escrito desde comeo, cortados em
tiras de um centmetro de largura, e unidos tira a tira, do uma fita que,
s por falta de cinco lguas, no cinge a terra toda; mas, como no  negcio
que se acabe com solturas nem relatrios, calculam os matemticos do
Clube de Engenharia que as cinco lguas que faltam, estaro preenchidas at
quinta-feira prxima, e antes de outubro pode muito bem

Dar outra volta
completa
Ao nosso belo planeta.

Tudo isso para se no saber nada!
Eu, pelo menos, de tudo o que tenho lido a respeito desta Geral, s uma
coisa me ficou clara (aqui os credores arregalam os olhos) e foi a legalizao,
e portanto a legitimao da palavra zango, com o seu plural
zanges. Aquele nome fora adotado antigamente com a prosdia verdadeira,
 a que tinha, que era zngo, e conseguintemente fazia no plural
zngos. Mas o povo achou mais fcil ir carregando para diante, e pr o
acento na segunda slaba, fazendo zango e zanges. Nunca os tinha
visto escritos; achei-os agora judicialmente, e no me irrito com isso. O
Sr. Dr. Castro Lopes, que h pouco tratou de benam, querendo que se diga
beno, e bnes,  que h de explicar por que razo o povo em um
caso escorrega para diante e em outro para traz. Eu creio que tudo provm da
situao da casca de banana, que, se est mais prxima do bico do sapato, faz
cair de ventas, se mais perto do taco, faz cair de costas. Zango,
benam. Creiam, meus amigos,  a nica idia que h de ficar dos
autos.

15 de maio

No h abertura de Congresso
Nacional, no h festa de Treze de Maio, que resista a uma adivinhao. A sesso
legislativa era esperada com nsia e ser acompanhada com interesse. A festa de
Treze de Maio comemorava uma pgina da histria, uma grande, nobre e pacfica
revoluo, com este pico de ser descoberta uma preta Ana ainda escrava, em uma
casa de S. Paulo. Aps quatro anos de liberdade,  de se lhe tirar o chapu.
Epimnides tambm dormiu por longussimos anos, e quando acordou j corria outra
moeda; mas dormia sem pancadas. A preta Ana dormiu na escravido, no sabendo
at ontem que estava livre; mas como o sono da escravido s se prolonga com a
dormideira do chicote, a preta Ana para no acordar e saber casualmente que a
liberdade comeara, bebia de quando em quando a miraculosa poo. O caso
produziu imenso abalo; o telgrafo transmitiu a notcia e todos os
nomes.

Mas tudo isso teve de ceder ao
simples X do problema. Um distinto e antigo parlamentar, ao cabo de quatro
artigos, esta semana, fez a divulgao de um remdio a todas as nossas
dificuldades.

Sem dissimular as suas velhas
tendncias republicanas, nem contestar os benefcios monrquicos, o autor
entende que a nao ainda no disse o que queria, como no disse em 1824 com o
outro regmen, por falta de uma cmara especial; e prope que se convoque uma
assemblia de quinhentos deputados, gratuitos, a qual avocar a si todas as
atribuies do poder executivo e escolher uma forma de governo.

Como a minha obrigao no 
discutir a semana, mas to somente cont-la, e, por outro lado, no entendo eu
de medicina poltica ou de qualquer outra, aqui me fico, sem acrescentar mais
que uma palavra, a saber, que a assemblia dos quinhentos, longe de ser o ovo de
Colombo, parece um simples ovo de Conveno Nacional. Agora, se o ovo traz
dentro de si uma guia ou um peru,  o que no sei; por vontade minha, traria um
peru,  no porque eu desestime aquele nobre animal, mas por esta razo gulosa.
guia no se come, e a assemblia dos quinhentos seria um excelente prato,
lardeado de faces, de imprecaes, de confuses, de conspiraes, tudo no
plural, exceto a dissoluo, que seria no singular. Por fora que entre
quinhentos sonmbulos havia de haver um homem acordado, forte e ambicioso, que
contentasse a todos dizendo:  Meus filhos, podem ir descansados; eu fico sendo
democrata e imperador. Juntam-se assim as duas formas de governo, como as rosas
de Garrett:

Ei-las aqui bem iguais,
Mas no rivais.

Se h, porm, iluso da minha
parte, e se a assemblia dos quinhentos pode fazer o que o autor promete, ento
retiro a palavra e assino a proposta. Aparentemente  pouco prtica, mas a
teoria tambm  deste mundo. Os seus fins, ainda que rduos, so sublimes:
trata-se de recomear a histria. Bacon no recomeou o entendimento humano?
Assim, a assemblia ter sido o ovo da felicidade pblica.

Tudo  ovo. Quando o Sr. deputado
Vinhais, no intuito de canalizar a torrente socialista, criou e disciplinou o
partido operrio, estava longe de esperar que os patres e negociantes iriam ter
com ele um dia, nas suas dificuldades, como aconteceu agora na questo dos
carrinhos de mo. Assim, o partido operrio pode ser o ovo de um bom partido
conservador. Amanh iro procur-lo os diretores de bancos e companhias, quando
menos para protestar contra a proposta de um acionista de certa sociedade
annima, cujo ttulo me escapa. Sei que o acionista chama-se Maia. O Sr. Maia
props, e a assemblia aprovou, que ao conselho diretor fosse vedado subscrever
ou comprar aes de outras companhias, de qualquer natureza. Realmente, no se
pode fazer pior servio aos outros e a si mesmo. Viva aquele padre que, pregando
um sermo de quaresma, dizia que as velas com que se alumiava o Altssimo eram
de cera e sebo, e que as almas pias deviam compr-las na casa de um seu irmo,
que era o nico que as fabricava de cera pura. O padre salvava explicitamente o
irmo; mas o que  que salva o Sr. Maia?

Da pode ser que eu entenda tanto
de economia poltica, como de medicina poltica. Efetivamente, vereador era o
meu sonho. Quando mudaram o nome para intendente, no gostei a princpio, porque
trocaram uma palavra verncula por outra cosmopolita; mas, como ficava sempre o
cargo, ficou a ambio e continuei a namorar a casa da cmara. Dizem que h l
barulho; tanto melhor, eu nunca amei a concrdia. Concrdia e pntano  a mesma
fonte de miasmas e de mortes. Um grego d a guerra como o ovo d
vida.

Aqui volta o ovo aos bicos da
pena. Se esta crnica no  uma fritada,  s porque lhe falta cozinheiro. Tudo
 ovo, repito. A armada em que Pedro lvares Cabral descobriu esta parte da
Amrica, foi o ovo da Rua do Ouvidor e da conseqente casa Ketele. Noto a casa
Ketele, no porque lhe tenha nenhuma afeio, particular; nunca l fui. Se l
fosse, nunca a citaria.  meu velho propsito no citar os amigos, deix-los em
uma relativa obscuridade. Tudo  ovo, amigo. A carta que ests escrevendo  tua
namorada, pode ser o ovo de dois galhardos rapazes, que antes de 1920 estejam
secretrios de legao. Pode ser tambm o ovo de quatro sopapos que te faam
mudar de rumo. Tudo  ovo. O prprio ovo da galinha, bem considerado,  um
ovo.

22 de
maio

Este Tiradentes, se no toma
cuidado em si, acaba inimigo pblico. Pessoa, cujo nome ignoro, escreveu esta
semana algumas linhas com o fim de retificar a opinio que vingou durante um
longo sculo acerca do grande mrtir da Inconfidncia. Parece; (diz o artigo no
fim), parece injustia dar-se tanta importncia a Tiradentes, porque morreu
logo, e no prestar a menor considerao aos que morreram de molstias e
misrias na costa dfrica. E logo em seguida chega a esta concluso: No ser
possvel imaginar que, se no fosse a indiscrio de Tiradentes, que causou o
seu suplcio, e o dos outros, que o empregaram, teria realidade o
projeto?

Daqui a espio de polcia  um
passo. Com outro passo chega-se  prova de que nem ele mesmo morreu; o vice-rei
mandou enforcar um furriel muito parecido com o alferes, e Tiradentes viveu, at
1818, de uma penso que lhe dava D. Joo VI. Morreu de um antraz na antiga Rua
dos Latoeiros entre as do Ouvidor e do Rosrio, em uma loja de barbeiro,
dentista e sangrador, que ali abriu em 1810, a conselho do prprio D. Joo,
ainda prncipe regente, o qual lhe disse (formais palavras):

 Xavier, j que no podes ser
alferes, toma por ofcio o que fazias antes por curioso; vou mandar dar-te umas
casas da Rua dos Latoeiros.

 Oh! meu senhor.

 Mas no digas quem s. Muda de
nome, Xavier; chama-te Barbosa. Compreendes, no? O meu fim  criar a lenda de
que tu  que foste o mrtir e o heri da Inconfidncia e diminuir assim a glria
de Joo Alves Maciel.

 Prncipe serenssimo, no h
dvida que esse  que foi o chefe da detestvel conjurao.

 Bem sei, Barbosa, mas  do meu
real agrado pass-lo ao segundo plano; para fazer crer que, apesar dos servios
que prestou, das qualidades que tinha, e das cartas de Jferson, pouco valeu, e
que tu  que vales tudo.  um plano maquiavlico, para desmoralizar a
conjurao. Compreendes agora?

 Tudo, meu senhor.

 Assim,  bem possvel que, se
algum dia, quiserem levantar um monumento  Inconfidncia, vo buscar por
smbolo o mrtir, dando assim excessiva importncia ao alferes indiscreto, que
ps tudo de pernas para o ar, a pretexto de haver morrido logo. No abanes a
cabea; tu no conheces os homens. Adeus; passa pela ucharia, que te dem um
caldo de vaca, e pede por Sua Real Majestade e por mim nas tuas oraes.
Consinto que tambm rezes pelo furriel. Como se chamava? Esquece-me sempre o
nome.

 Marcolino.

 Reza pelo Marcolino.

 Ah! Senhor, os meus cruis
remorsos, nunca tero fim!

 Barbosa, tem sempre os remorsos
de um real vassalo!

E assim ficar retificada a
histria antes de 1904 ou 1905. Tiradentes ser apeado do pedestal que lhe deu
um sentimentalismo mofento, que se lembra de glorificar um homem s porque
morreu logo, como se algum no morresse sempre antes de outros, e, demais,
enforcado, que  morte pronta. Quanto ao esquartejamento e exposio da cabea,
est provado emprica e cientificamente que cadver no padece, e tanto faz
cortar-lhe as pernas como dar-lhe umas calas. Mas ainda restar alguma coisa ao
alferes; pode-se-lhe expedir a patente de capito honorrio. Se est no cu, e
se os mrtires formam l em cima, pode comandar uma companhia. Antes isso que
nada. Antes mandar na morte do que ser mandado na vida.

Dispenso o leitor da dissertao
que podia fazer sobre este assunto, assim como o dispenso de ouvir-me falar das
casas desabadas e do lixo.

Tudo foi tristeza no desabamento
da Rua do Carmo e no quero ser triste; tudo foi admirao para os valentes que
correram ao trabalho e para os piedosos que acudiram a vivos e a mortos, e eu
no quero admirar coisa nenhuma.

No lixo quase tudo  porco.
Um s reparo fao, e sem exemplo. Todos viram os montes daquele detrito ao p
do barraco onde o nosso artista Victor Meirelles mostra o panorama do Rio de
Janeiro. Suspeito que aquilo foi idia do prprio Victor Meireles. Conta-se de
um empresrio de teatro, que para dar mais perfeita sensao de certo trecho
musical, cujo assunto eram flores, mandou encher a sala do espetculo de
essncia de violetas. Talvez a idia do nosso artista fosse proporcionar aos
nossos visitantes a vantagem de ver e cheirar o Rio de Janeiro, ao mesmo tempo,
tudo por dois mil ris.

Cor local, aroma local, vem a dar
no mesmo princpio esttico. O pior  que a empresa Gary, que no pode ser
suspeita de esttica, desfez a grande pirmide em uma noite.

E quem sabe se a escolha daquele
lugar para exibio do panorama, no traria l em si, inconscientemente, a idia
do lixo ao p? Quem tiver ouvidos, oua.

Eu tenho uma teoria das idias,
que  a coisa mais conspcua deste fim de sculo. No a publico to cedo, porque
ainda preciso completar as verificaes, aperfeioar os estudos, a fim de no
dar estouvadamente ao pblico um trabalho obscuro e manco. Quando muito, posso
indicar alguns vagos lineamentos.

Pela minha teoria, as idias
dividem-se em trs classes, umas votadas  perfeita virgindade, outras
destinadas  procriao e outras que nascem j de barriga. Esta diviso explica
toda a civilizao humana. Para onde quer que lancemos os olhos, qualquer que
seja a raa, o meio e o tempo, acharemos a genealogia distinta destas trs
classes de idias, isto desde o princpio do mundo at a hora em que a folha
sair do prelo. Assim, a idia de Eva, quando se resolveu a desobedecer ao
Senhor, vinha j grvida da idia de Caim.

Ao contrrio, a minha idia de
possuir duzentos contos, morre com o vu de donzela, a menos que algum leitor
opulento a queira fecundar. Ela no pede outra coisa.

Mas tomemos um exemplo da
semana.

Vamos a um artigo annimo e bem
escrito, com o titulo  Uma idia, que at por esta circunstncia nos
serve. A idia de que se trata  precedida de uma exposio relativa  Companhia
Geral de Estradas de Ferro, exposio que, sem negar o exagero que houve acerca
do estado da companhia, tem por certo que o mal  gravssimo, e que a queda da
companhia acarretar incalculveis damos ao Brasil: O dinheiro do povo (diz o
artigo),  sangue que no corre ilesamente. E depois de estabelecer que, com as
estradas que possui, a companhia pode dar muito dinheiro, prope a idia, que 
esta: O governo fica com as estradas e com as dvidas.

So bem achadas e expostas com
clareza as condies de encampao. Duas parecem ser as principais. A primeira 
que quem pagou o preo integral das aes no recebe nada, e quem s pagou uma
parte, digamos um dcimo  no paga nada. A diferena est nos verbos
receber e pagar; o mais  nada. A segunda  trocar o Governo os
debntures por ttulos de cem mil ris, com juro de 6%, no ao ms, mas
ao ano, que  sempre um prazo mais largo. Feito isto, sobe o cmbio.

Ora bem, esta idia, que
aparentemente aguarda um esposo, j nasceu grvida. A idia que vive dentro
dela, sem que ela o saiba, nem o autor,  em tudo igual  me, posto traga
aparncia contrria. Tem-se visto senhoras morenas darem de si filhas loiras. A
filha loira aqui seria esta: em vez do tesouro pegar na companhia, a companhia
pega no tesouro. Refiro-me s garantias, est claro, s responsabilidades, ao
endosso do Estado. Mas isto pede clculos infinitos, e eu tenho mais que fazer.
Adeus.

29 de
maio

O velho Dumas, ou Dumas I, em uma
daquelas suas deliciosas fantasias escreveu esta frase: Um dia, os anjos viram
uma lgrima nos olhos do Senhor: essa lgrima foi o dilvio.

Uma lgrima! Ai, uma lgrima! Quem
nos dera essa lgrima nica! Mas o mundo cresceu do dilvio para c, a tal ponto
que um lgrima apenas chegaria a alagar Sergipe ou a Blgica. Agora, quando os
anjos vem alguma coisa nos olhos do Senhor, j no  aquela gota solitria, que
tombou e alagou um mundo nascente e mal povoado. Caem as lgrimas s quatro e
quatro, s vinte e vinte, s cem e cem,  um pranto desfeito, uma lamentao
contnua, um gemer que se desfaz em ventos impetuosos, contra os quais nada
podem os homens, nem as minhas rvores, que se estorcem com
desespero.

Maio fez-se abril. Diz-se que de
um a outro no h muito que rir. H que rir, mas  abril que se riu de maio,
este ano, ele que era o ms das guas, enquanto o outro era chamado das flores.
Abril no quis ir buscar as lgrimas do Senhor, certo de que este ofcio caberia
a outro, e no seria junho, ms dos santos folgazes, das fogueiras, dos bales,
que no meu tempo eram chamados mquinas.

L vai a mquina! Olha a
mquina! E todos os dedos ficavam
espetados no ar, indicando o balo vermelho que subia, at perder-se entre as
estrelas. Outras vezes (a tal ponto os bales imitam os homens), ardiam a meio
caminho, ou logo acima dos telhados.

Bom tempo! Nem sei se choveu
alguma vez por aqueles anos. Creio que no. Houve um largo intervalo de riso no
cu, de olhos enxutos, que fez tudo azul, perpetuamente azul.

Cresci, mudou tudo. Agora  gua e
mais gua, apenas interrompidas por um triste sol plido e constipado, em que
no confio muito. Vento e mais vento. Cerrao e naufrgios.

Pobre Solimes! Uma s
daquelas gotas e um s daqueles gemidos bastaram a lanar no fundo do mar tantas
vidas preciosas. H ainda quem espere algum desmentido; outros descrem de tudo
e no esperam nada. Talvez no seja o melhor. A esperana  longa, e pode fazer
por muito o ofcio de verdade.

A viva de um comandante, cujo
navio naufragou h tempos, gastou dois anos a esper-lo. Quando chegou o
desespero, a alma estava acostumada.

Seja como for, os vivos acudiram
aos mortos, a piedade abriu a bolsa, por toda a parte houve um movimento, que 
justo assinalar.

A dor  humana, e os nossos
hspedes mostram-se tambm compassivos. Oxal seja sempre patritica.

Ao tempo em que perdamos o
Solimes, o presidente da Repblica Argentina anunciava em sua mensagem
ao Congresso: A marinha aumenta, e a esquadra possui torpedeiras, de modo a ser
ela a primeira da Amrica. Mudo de assunto, para obedecer ao poeta:
Glissez, mortels, nappuyez pas.

Que outro assunto?

O primeiro que se oferece  a
cmara dos deputados, que, aps longos dias de ausncia e interrupes, comeou
a trabalhar, e parece que com fora, calor, verdadeira guerra. Alguns jornais
tinham notado as faltas de sesses, infligindo  cmara uma censura, que a rigor
no lhe cabe.  certo que a eleio da meia arrastou-se, por dias, e a da
comisso do oramento durou uma sesso inteira. Mas no basta censurar, 
preciso explicar. Se bastassem crticas, j eu tinha carro, porque uma das
tristezas dos meus amigos  este espetculo que dou, todos os dias, calcante
pede. No se pode julgar uma instituio, sem estudar o meio em que ela
funciona.

Ora,  certo que ns no damos
para reunies. No me repliquem com teatros nem bailes; a gente pode ir ou no a
eles, e se vai  porque quer, e quando quer sair, sai. H os ajuntamentos de
rua, quando algum mostra um assovio de dois sopros, ou um frango de quatro
cristas. Uma facada rene gente em torno do ferido, para ouvir a narrao do
crime, como foi que a vtima vinha andando, como recebeu o empurro, e se sentiu
logo o golpe. Quando algum bond pisa uma pessoa, s no acode o cocheiro,
porque tem de evadir-se; mas todos cercam a vtima. H dias, na Rua do
Ouvidor, um gatuno agarrou os pulsos de uma senhora, abriu-lhe as pulseiras,
meteu-as em si, e fez como, os cocheiros. Mas no faltaram pessoas que rodeassem
a senhora, apitando muito.

Tudo por qu? Porque so atos
voluntrios, no h calendrios, nem relgio, nem ordem do dia; no h
regimentos. O que no podemos tolerar  a obrigao. Obrigao  eufemismo de
cativeiro: tanto que os antigos escravos diziam sempre que iam  sua
obrigao, para significar que iam  casa dos senhores. Ns fazemos tudo por
vontade, por escolha, por gosto; e, de duas uma: ou isto  a perfeio final do
homem, ou no passa das primeiras verduras. No  preciso desenvolver a primeira
hiptese;  clara de si mesma. A segunda  a nossa virgindade, e, quando menos
em matria de amofinaes polticas ou municipais,  preciso aceitar a teoria de
Rousseau: o homem nasce puro. Para que corromper-nos?

H um costume que prova ainda a
minha tese. Quando uma assemblia de acionistas acaba os seus trabalhos,
levanta-se um deles e prope que a Mesa fique autorizada a assinar a ata por
todos. A assemblia concorda sempre, e dissolve-se. Parece nada, e  muito; 
indcio de que, enquanto se tratava de ouvir ler as contas, a tarefa podia ser
tolerada, posto nada haja mais enfadonho que algarismos; mas aquilo de assinar
um, assinar outro, passar a pena de mo em mo, guarda-chuva entre as pernas,
confessemos que  para vexar a gente, que deu o seu dinheiro.

Eu c, posso no dar ateno a
pareceres e outras prosas; mas a proposta de assinatura pela diretoria, em
assemblia a que eu pertena,  minha.

5 de
junho

No  s o inferno que est
calado de boas intenes. O cu emprega os mesmos paraleleppedos. Assim que, a
idia de organizar um Club Cvico, destinado a desenvolver o sentimento de
patriotismo, entre ns, merece o aplauso dos bons cidados. Apareceu esta
semana, e vai ser posta em prtica.

Pode acontecer que o resultado
valha menos que o esforo; nem por isso perde de preo o impulso dos autores. A
boa inteno cala, neste caso, o caminho do cu. Se cada um entender que o seu
negocio vale mais que o de todos, e que antes perder a ptria que as botas, nem
por isso desmerece a inteno dos que se puserem  testa da propaganda
contrria. Levem as botas os que se contentarem com elas; os que amam alguma
coisa mais que a si mesmos, ainda que poucos, salvaro o futuro.

H um patriotismo local, que no
precisa ser desenvolvido,  o das antigas circunscries polticas, que passaram
 repblica com o nome de Estados. Esse desenvolve-se por si mesmo, e poderia
at prejudicar o patriotismo geral, se fosse excessivo, isto , se a idia de
soberania e independncia dominasse a de organismo e dependncia recproca; mas
 de crer que no. Haver excees,  verdade. Nesta semana, por exemplo, vimos
todos um telegrama de um Estado (no me ocorre o nome) resumindo a resposta dada
pelo presidente a um ministro federal, que lhe recomendara no sei que, em
aviso. Disse o presidente que no reconhecia autoridade no ministro para
recomendar-lhe nada. No sei se  verdadeira a notcia, mas tudo pode acontecer
debaixo do cu. Por isso mesmo  que ele  azul:  para dar esta cor s
superfcies mais arrenegadas do nosso mundo.

E da pode ser que a razo esteja
do lado do presidente (presidente ou governador, que eu j no sei a quantas
ando). Crer que o ministro federal fala em nome do presidente da Unio, e que a
Unio  a vontade geral dos Estados,  negcio de sentido to sutil, que no
passa dos subrbios ou da barra; arrebenta logo no Engenho Velho, ou em Santa
Cruz. O que chega l fora,  o antigo modo de ver o centro, o opressor, o Rio de
Janeiro, a vontade pessoal, o capricho, o sorvedouro, e o diabo. Que culpa tem o
governador (salvo seja) de ler pela cartilha velha?

Tudo isso se modificar com o
tempo, e os Estados acabaro de acordo sobre o que  soberania. Pela minha
parte, s uma coisa me di na composio dos Estados:  o nascimento da palavra
co-estaduano. No  mal feita, e admito at que seja bonita; mas eu sou
como certas crianas que estranham muito as caras novas, e no raro acabam
importunando os respectivos donos com brincos. Pode ser que eu ainda trepe aos
joelhos de co-estaduano, que lhe tire o relgio da algibeira e que lhe
puxe os dedos e o nariz. Por enquanto, escondo-me nas saias da ama seca.
Co-estaduano tem os olhos muito arregalados. Co-estaduano quer
comer eu.

Podem retorquir-me que  pior, que
eu sou carioca, e dentro em pouco, organizado o Distrito Federal, fico com
milhares de co-distritanos. Concordo que  mais duro; mas ser o que for,
tomara eu j ver organizado o distrito. A nova assemblia local acabar
provavelmente com a mania de condenar casas  demolio. S no ms passado foram
condenadas mais de quarenta. Ora, eu pergunto se o direito de propriedade
acabou. Eu, dono de duas daquelas casas, a quem recorrerei? Para tudo h limite,
defesa, explicao. Uma casa sem livros ou com livros mal escriturados, outra
sem dinheiro, outra sem ordem, acham amparo nas leis, ou, quando menos, na
vontade dos homens. Por que no tero igual fortuna as casas de pedra ou de
tijolo? Que certeza h de que uma casa venha a cair, pela opinio do engenheiro
X, se eu tenho a do engenheiro Z, que me afirma a sua perfeita solidez, e ambos
estudaram na mesma escola? J admito que o meu engenheiro desse aquela opinio
com o fim exclusivo de me ser agradvel; mas onde  que a delicadeza de
sentimentos de um homem destri o direito anterior e superior de
outro?

Estas questes pessoais irritam-me
de maneira que no posso ir adiante. Sacrifico o resto da semana.

No trato sequer da reunio de
proprietrios e operrios, que se realizou quinta-feira no salo do Centro do
Partido Operrio, a fim de protestar contra uma postura; fato importante pela
definio que d ao socialismo brasileiro. Com efeito, muita gente, que julga
das coisas pelos nomes, andava aterrada com a entrada do socialismo na nossa
sociedade, ao que eu respondia: 1, que as idias diferem dos chapus, ou que os
chapus entram na cabea mais facilmente que as idias,  e, a rigor,  o
contrrio,  a cabea que entra nos chapus; 2, que a necessidade das coisas 
que traz as coisas, e no basta ser batizado para ser cristo. s vezes nem
basta ser provedor de Ordem Terceira.

Outrossim, no me refiro ao
pugilato paraguaio, que alis dava para vinte ou trinta linhas. A
influenza argentina (molstia) com os quatorze mil atacados de Buenos
Aires merecia outras tantas linhas, para o nico fim de dizer que um afilhado
meu, doutor em medicina, pensa que o homem  o condutor pronto e seguro do
bacilo daquela terrvel peste, mas que eu no acredito, nem no bacilo do mal,
nem na balela, que  alem. Gente alem, quando no tem que fazer, inventa
micrbios.

Excluo os negcios de Mato Grosso,
o servio dos bonds de Botafogo e Laranjeiras, as liquidaes de
companhias, os editais, as prises, as incorporaes e as desincorporaes. Uma
s coisa me levar algumas linhas, e poucas em comparao com o valor da
matria. Sim, chegou, est a, no tarda... No tarda a aparecer ou a chegar a
companhia lrica. Tudo cessa diante da msica. Poltica, Estados, finanas,
desmoronamentos, trabalhos legislativos, narcticos, tudo cessa diante da bela
pera, do belo soprano e do belo tenor.  a nossa nica paixo,  a maior, pelo
menos. Tout finit par des chansons, em Frana. No Brasil, tout finit par des
opras, et mme un peu par des operettes... Tiens! Jai oubli ma
langue.

12 de
junho

Estava eu muito descansado, lendo
as atas das sociedades annimas, quando dei com a Companhia Fbrica de Biscoitos
Internacional. Nada mais natural, uma vez que ela estava impressa; mas ningum
me h de ver contar nada sem um pensamento, uma descoberta, uma soluo, um
mistrio, algo que valha a pena ocupar a ateno do leitor. Vamos aos
biscoitos.

A diretoria deu conta dos seus
trabalhos, e do grande incndio que destruiu a fbrica: tratou da reconstruo e
dos novos aparelhos, e continuou: At o lamentvel sinistro da noite de 17 de
dezembro, as latas para o acondicionamento dos biscoitos nos eram fornecidas
pela Companhia de Artefatos de Folha de Flandres...

Ecco il problema e a soluo. Est achado o segredo
do torvelinho econmico dos ltimos anos. As sociedades annimas, que nos
pareciam uma enxurrada, formavam assim um sistema, e as inauguraes no eram
tantas, seno porque a cada Companhia Fbrica de Biscoitos correspondesse uma
Companhia de Artefatos de Folha de Flandres. No posso fazer aqui uma lista de
exemplos, estou escrevendo a crnica; mas o leitor, que apenas se d ao trabalho
de l-la, considere se  possvel admitir um Banco dos Pobres sem um Banco da
Bolsa, a fim de que os acionistas do primeiro vo buscar dinheiro ao segundo. O
Banco Construtor tem o seu natural complemento no Banco dos Operrios, e
vice-versa. A Companhia Farmacutica , por assim dizer, a primeira parte da
Companhia Manufatora de Caixes, e assim por diante. Da a conseqente reduo
das sociedades annimas a metade do que parecem  primeira vista.

Creiam-me, no h problemas
insolveis. Tudo neste mundo nasce com a sua explicao em si mesmo; a questo 
cat-la. Nem tudo se explicar desde logo,  verdade; o tempo do trabalho varia,
mas haja pacincia, firmeza e sagacidade, e chegar-se-  decifrao. Eu se
algum dia for promovido de crnica a histria, afirmo que, alm de trazer um
estilo brbaro prprio do ofcio, no deixarei nada por explicar, qualquer que
seja a dificuldade aparente, ainda que seja o caso sucedido quarta-feira, na
Cmara, onde, feita a chamada, responderam 103 membros, e indo votar-se,
acudiram 96, havendo assim um dficit de sete. Como simples crnica, posso achar
explicaes fceis e naturais; mas a histria tem outra profundeza, no se
contenta de coisas prximas e simples. Eu iria ao passado, eu
penetraria...

A propsito, lembra-me um costume
que havia na Cmara dos Comuns de Inglaterra, quando a sesso no era
interrompida, nem para jantar, como agora. Os deputados, saindo para jantar,
formavam casais, isto , um conservador e um liberal obrigavam-se
mutuamente a no voltar ao recinto seno juntos. Cosas de Espaa, diria
eu, se o costume fosse espanhol. O fim disto era impedir que um partido jantasse
mais depressa que o outro, e fizesse passar uma lei ou moo. Mas no cuideis
que a cautela produzisse sempre o mesmo efeito; era preciso que os ingleses no
fossem homens, e os ingleses so homens, e s vezes grandes homens. Na noite de
13 do ms passado, um membro da Cmara dos Comuns props a revogao de um
artigo de lei que admitia o voto de cidados analfabetos. Outro membro, Fuo
Lawson, apoiou a proposta, e disse, entre outras coisas: Este artigo que admite
o voto dos analfabetos, passou aqui na hora do jantar, quando no havia
liberais na casa, e passou com grande gudio de um velho conservador, que
literalmente danou no recinto, exclamando: Agora que temos o artigo dos
analfabetos, tudo vai andar muito direito.

Por isso, e por outras razes, no
dou de conselho que imitemos o costume dos casais parlamentares. Convenhamos
antes, que cada terra tem seu uso. Olhai, fez outro dia um ano que se instalou o
Congresso de um dos nossos Estados, e, para comemorar o fato, fecharam-se o
Congresso e as reparties pblicas. Realmente, o fato tem importncia local,
tanta quanta, para os ingleses, tem o aniversrio da rainha Victoria; mas cada
roca com seu fuso. No parlamento ingls, quando a rainha faz anos, o presidente
levanta-se e profere algumas palavras em honra da soberana; o leader do
governo e o leader da oposio fazem a mesma coisa: ao todo, cem linhas
impressas, e comeam os trabalhos, at Deus sabe quando, meia noite, uma, duas
horas da madrugada.

Cada terra com seu uso. Se tal
costume existisse aqui, no tempo do imprio, as coisas no se passariam talvez
com tanta simplicidade. Era naturalmente um regalo para a oposio, cujo
leader desfecharia dois ou trs epigramas contra o imperador, se fosse
homem alegre; se fosse lgubre, daria uma traduo de Jeremias em dialeto
parlamentar. Por outro lado, o leader do governo dificilmente chegaria ao
fim do discurso, muitas vezes interrompido: Diz V. Ex. muito bem; Sua Majestade
 a opinio coroada. E logo um oposicionista: H dois anos V. Ex. dizia
justamente o contrrio. O presidente da Cmara: Ateno!

No sei bem onde tnhamos ficado,
antes desta digresso. Fosse onde fosse, vamos ao fim, que  mais til, no sem
dizer que esta crnica alegra-se com o restabelecimento do governador do Par,
Dr. Lauro Sodr, cuja recepo naquele Estado foi brilhante. Creio que disse
governador; disse, disse governador. Governador como o da Virgnia, o da
Pensilvnia, o de New York, o de todos os Estados da outra Unio.  esquisito!
Dizem que o esprito latino  essencialmente simtrico, ao contrrio do
anglo-saxnico, e  aqui que se d este transtorno no ttulo do primeiro
magistrado de cada Estado.  um desvio de regra, que se pode corrigir, dando ao
pequeno resto de governadores o ttulo de presidentes Siete tutti fatti
marchesi! E no se oponha o governador do Par. Conta o nosso velho Drummond
que, quando se tratou da bandeira do Imprio, Jos Bonifcio propunha o verde
claro, mas Pedro I queria o verde escuro, por ser a cor da casa de Bragana; ao
que Jos Bonifcio cedeu logo, mais ocupado com o miolo que com a casca. Penso
que o texto no diz casca (li-o h muitos anos), mas no fim d
certo.

Post-scriptum.  Recebi algumas
linhas mui corteses, assinadas Roland, autor do artigo Uma idia,
em que se propunha a encampao das estradas de ferro da Companhia Geral. Aludi
a essa proposta em uma das minhas crnicas,  com ironia, diz o meu
correspondente, e pode ser que sim; mas a ironia no alcanava a sinceridade do
projeto, e sim os seus efeitos. Posso estar em erro; entretanto, devo ressalvar
dois pontos da carta: 1, que no tenho nenhum parti-pris; 2, que no
possuo debntures. Nem dio nem interesse.

19 de junho

O Banco Iniciador de Melhoramentos
acaba de iniciar um melhoramento, que vem mudar essencialmente a composio das
atas das assemblias gerais de acionistas.

Estes documentos (toda a gente o
sabe) so o resumo das deliberaes dos acionistas, quer dizer uma narrao
sumria, em estilo indireto e seco, do que se passou entre eles, relativamente
ao objeto que os congregou. No do a menor sensao dos movimentos e da vida
dos debates. As narraes literrias, quando se regem por esse processo, podem
vencer o tdio,  fora de talento, mas  evidentemente melhor que as coisas e
pessoas se exponham por si mesmas, dando-se a palavra a todos, e a cada um a sua
natural linguagem.

Tal  o melhoramento a que aludo.
A ata que aquela associao publicou esta semana,  um modelo novo, de
extraordinrio efeito. Nada falta do que se disse, e pela boca de quem disse, 
maneira dos debates congressionais. Peo a palavra pela ordem  Est
encerrada a discusso e vai-se proceder  votao. Os senhores que aprovam
queiram ficar sentados. Tudo assim, qual se passou, se ouviu, se replicou e se
acabou.

E basta um exemplo para mostrar a
vantagem da reforma. Tratando-se de resolver sobre o balano, consultou o
presidente  assemblia se a votao seria por aes, ou no. Um s acionista
adotou a afirmativa; e tanto bastava para que os votos se contassem por aes,
como declarou o presidente; mas outro acionista pediu a palavra pela ordem. Tem
a palavra pela ordem. E o acionista: Peo a V. Exa., Sr. presidente, que
consulte ao Sr. acionista que se levantou, se ele desiste, visto que a votao
por aes, exigindo a chamada, tomar muito tempo. Consultado o divergente,
este desistiu, e a votao se fez per capita. Assim ficamos sabendo que o
tempo  a causa da supresso de certas formalidades exteriores; e assim tambm
vemos que cada um, desde que a matria no seja essencial, sacrifica facilmente
o seu parecer em benefcio comum.

O pior  se corromperem este uso,
e se comearem a fazer das sociedades pequenos parlamentos. Ser um desastre.
Ns pecamos pelo ruim gosto de esgotar todas as novidades. Uma frase, uma
frmula, qualquer coisa, no a deixamos antes de posta em molambo. Casos h em
que a prpria referncia crtica ao abuso perde a graa que tinha,  fora da
repetio; e quando um homem quer passar por inspido (o interesse toma todas as
formas), alude a uma dessas chatezas pblicas. Assim morrem afinal os usos, os
costumes, as instituies, as sociedades, o bom e o mau. Assim morrer o
Universo, se se no renovar freqentemente.

Quando, porm, acabar o nome
que encima estas linhas? No sei quem foi o primeiro que comps esta frase,
depois de escrever no alto do artigo o nome de um cidado. Quem inventou a
plvora? Quem inventou a imprensa, descontando Gutenberg, porque os chins a
conheciam? Quem inventou o bocejo, excluindo naturalmente o Criador, que, em
verdade, no h de ter visto sem algum tdio as impacincias de Eva? Sim, pode
ser que na alta mente divina estivesse j o primeiro consrcio e a conseqente
humanidade. Nada afirmo, porque me falta a devida autoridade teolgica; uso da
forma dubitativa. Entretanto, nada mais possvel que a Criao trouxesse j em
grmen uma longa espcie superior, destinada a viver num eterno
paraso.

Eva  que atrapalhou tudo. E da,
razoavelmente, o primeiro bocejo.

 Como esta espcie corresponde j
 sua ndole! diria Deus consigo. H de ser assim sempre, impaciente, incapaz de
esperar a hora prpria. Nunca os relgios, que h de inventar, andaro todos
certos. Por um exato, contar-se-o milhes divergentes, e a casa em que dois
marcarem o mesmo minuto, no apresentar igual fenmeno vinte e quatro horas
depois. Espcie inquieta, que formar reinos para devor-los, repblicas para
dissolv-las, democracias, aristocracias, oligarquias, plutocracias,
autocracias, para acabar com elas,  procura do timo, que no achar
nunca.

E, bocejando outra vez, ter Deus
acrescentado:

 O bocejo, que em mim  o sinal
do fastio que me d este espetculo futuro, tambm a espcie humana o ter, mas
por impacincia. O tempo lhe parecer a eternidade. Tudo que lhe durar mais de
algumas horas, dias, semanas, meses ou anos (porque ela dividir o tempo e
inventar almanaques), h de torn-la impaciente de ver outra coisa e desfazer o
que acabou de fazer, s vezes antes de o ter acabado.

Compreender as vacas gordas,
porque a gordura d que comer, mas no entender as vacas magras; e no saber
(exceto no Egito, onde porei um mancebo chamado Jos) encher os celeiros dos
anos grados, para acudir  penria dos anos midos. Falar muitas lnguas,
beresith, anank, habeas-corpus, sem se fixar de vez em uma
s, e quando chegar a entender que uma lngua nica  precisa, e inventar o
volapuck, sucessor do parlamentarismo, ter comeado a decadncia e a
transformao. Pode ser ento que eu povoe o mundo de canrios.

Mas se assim explicarmos o
primeiro bocejo divino, como acharmos o primeiro bocejo humano? Trevas tudo. O
mesmo se d com o nome que encima estas linhas. Nem me lembra em que ano
apareceu a frmula. Bonita era, e o verbo encimar no era feio. Entrou a
reproduzir-se de um modo infinito. Toda a gente tinha um nome que encimar
algumas linhas. No havia aniversrio, nomeao, embarque, desembarque, esmola,
inaugurao, no havia nada que no inspirasse algumas linhas a algum,  s
vezes com o maior fim de encim-las por um nome. Como era natural, a frmula
foi-se gastando  mas gastando pelo mesmo modo por que se gastam os sapatos
econmicos, que envelhecem tarde. E todos os nomes do calendrio foram encimando
todas as linhas; depois, repetiram-se:

Si cette histoire vous
embte
Nous allons la
recommencer.

26 de junho

O ministrio grego pediu
demisso. O Sr. Tricoupis foi encarregado de organizar novo ministrio, que
ficou assim composto: Tricoupis, presidente do conselho e Ministro da
Fazenda...

Basta! No, no reproduzo este
telegrama, que teve mais poder em mim que toda a mole de acontecimentos da
semana. O ministrio grego pediu demisso! Certo, os ministrios so organizados
para se demitirem e os ministrios gregos no podem ser, neste ponto, menos
ministrios que todos os outros ministrios. Mas, por Vnus! foi para isso que
arrancaram a velha terra s mos turcas? Foi para isso que os poetas a cantaram,
em plena manh do sculo, Byron, Hugo, o nosso Jos Bonifcio, autor da bela
Ode aos Gregos? Sois helenos! sois homens! conclui uma de suas
estrofes. Homens, creio, porque  prprio de homens formar ministrios; mas
helenos!

Sombra de Aristteles, espectro de
Licurgo, de Draco, de Slon, e tu, justo Aristides, apesar do ostracismo, e
todos vs, legisladores, chefes de governo ou de exrcito, filsofos, polticos,
acaso sonhastes jamais com esta imensa banalidade de um gabinete que pede
demisso? Onde esto os homens de Plutarco? Onde vo os deuses de Homero? Que 
dos tempos em que Aspsia ensinava retrica aos oradores? Tudo, tudo passou.
Agora h um parlamento, um rei, um gabinete e um presidente de conselho, o Sr.
Tricoupis, que ficou com a pasta da Fazenda. Ouves bem, sombra de Pricles?
Pasta da Fazenda. E notai mais que todos esses movimentos polticos se fazem,
metidos os homens em casacas pretas, com sapatos de verniz ou cordovo, ao cabo
de moes de desconfiana...

Oh! mil vezes a dominao turca!
Horrvel, decerto, mas pitoresca. Aqueles paxs, perseguidores do giaour,
eram deliciosos de poesia e terror. Vede se a Turquia atual j aceitou
ministrios. Um gro-vizir, nomeado pelo padix, e alguns ajudantes, tudo sem
cmara, nem votos. A Rssia tambm est livre da lepra ocidental. Tem o
niilismo,  verdade; mas no tem o bimetalismo, que passou da Amrica  Europa,
onde comea a grassar com intensidade. O niilismo possui a vantagem de matar
logo. E depois  misterioso, dramtico, pico, lrico, todas as formas da
poesia. Um homem est jantando tranqilo, entre uma senhora e uma pilhria,
deita a pilhria  senhora, e, quando vai a erguer um brinde... estala uma bomba
de dinamite. Adeus, homem tranqilo: adeus, pilhria; adeus, senhora. 
violento; mas o bimetalismo  pior.

Do bimetalismo ao nosso velho
amigo pluripapelismo no  curta a distncia, mas daqui ao cambio  um passo;
pode parecer at que no falei do primeiro seno para dar a volta ao mundo.
Engano manifesto. Hoje s trato de telegramas, que a esto de sobra, norte e
sul. Aqui vm alguns de Pernambuco, dizendo que as intendncias municipais
tambm esto votando moes de confiana e desconfiana poltica. Haver quem as
censure; eu compreendo-as at certo ponto.

A moo de confiana, ou
desconfiana no passado regmen, era uma ambrosia dos deuses centrais. Era aqui
na Cmara dos Deputados, que um honrado membro, quando desconfiava do governo,
pedia a palavra ao presidente, e, obtida a palavra, erguia-se. Curto ou extenso,
mas geralmente ttrico, proferia um discurso em que resumia todos os erros e
crimes do ministrio, e acabava sacando um papel do bolso. Esse papel era a
moo. De confidncias que recebi, sei que h poucas sensaes na vida iguais 
que tinha o orador, quando sacava o papel do bolso. A alguns tremiam os dedos.
Os olhos percorriam a sala, depois baixavam ao papel e liam o contedo. Em
seguida a moo era enviada ao presidente, e o orador descia da tribuna, isto ,
das pernas que so a nica tribuna que h no nosso parlamento, no contando uns
dois plpitos que l puseram uma vez, e no serviram para nada.

A tm o que era a moo. Nunca as
assemblias provinciais tiveram esse regalo; menos ainda as tristes Cmaras
Municipais. Mudado o regmen, acabou a moo; mas, no se morre por decreto. A
moo no s vive ainda, mas passou dos deuses centrais aos semideuses locais, e
viver algum tempo, at que acabe de todo, se acabar algum dia. O caso grego 
sintomtico; o caso japons no menos. H moes japonesas. Quando as houver
chinesas, chegou o fim do mundo; no haver mais que fechar as malas e ir para o
diabo.

Outro telegrama conta-nos que
alguns clavinoteiros de Canavieiras (Bahia) foram a uma vila prxima e
arrebataram duas moas. A gente da vila ia armar-se e assaltar Canavieiras.
Parece nada, e  Homero;  ainda mais que Homero, que s contou o rapto de uma
Helena: aqui so duas. Essa luta obscura, escondida no interior da Bahia, foi
singular contraste com a outra que se trava no Rio Grande do Sul, onde a causa
no  uma, nem duas Helenas, mas um s governo poltico. Apuradas as contas, vem
a dar nesta velha verdade que o amor e o poder so as duas foras principais da
Terra. Duas vilas disputam a posse de duas moas; Bag luta com Porto Alegre
pelo direito do mando.  a mesma Ilada.

Dizem telegramas de So Paulo que
foi ali achado, em certa casa que se demolia, um esqueleto algemado. No tenho
amor a esqueletos; mas este esqueleto algemado diz-me alguma coisa, e  difcil
que eu o mandasse embora, sem trs ou quatro perguntas. Talvez ele me contasse
uma histria grave, longa e naturalmente triste, porque as algemas no so
alegres. Alegres eram umas mscaras de lata que vi em pequeno na cara de
escravos dados  cachaa; alegres ou grotescas, no sei bem, porque l vo
muitos anos, e eu era to criana, que no distinguia bem. A verdade  que as
mscaras faziam rir, mais que as do recente carnaval. O ferro das algemas, sendo
mais duro que a lata, a histria devia ser mais sombria.

H um telegrama... Diabo!
acabou-se o espao, e ainda aqui tenho uma dzia. Cesta com eles! Vo para onde
foi a questo do benzimento da bandeira, os guarda-livros que fogem levando a
caixa (outro telegrama), e o resto dos restos, que no dura mais de uma semana,
nem tanto. Vo para onde j foi esta crnica. Fale o leitor a sua verdade, e
diga-me se lhe ficou alguma coisa do que acabou de ler. Talvez uma s, a palavra
clavinoteiros, que parece exprimir um costume ou um ofcio. C vai para o
vocabulrio.

3
de julho

Na vspera de So Pedro, ouvi
tocar os sinos. Poucos minutos depois, passei pela igreja do Carmo, catedral
provisria, ouvi o cantocho e orquestra; entrei. Quase ningum. Ao fundo, os
ilustrssimos prebendados, em suas cadeiras e bancos, vestidos daquele roxo dos
cnegos e monsenhores, to meu conhecido. Cantavam louvores a So Pedro.
Deixei-me estar ali alguns minutos escutando e dando graas ao prncipe dos
apstolos por no haver na igreja do Carmo um carrilho.

Explico-me. Eu fui criado com
sinos, com estes pobres sinos das nossas igrejas. Quando um dia li o captulo
dos sinos em Chateaubriand, tocaram-me tanto as palavras daquele grande
esprito, que me senti (desculpem a expresso) um Chateaubriand desencarnado e
reencarnado. Assim se diz na igreja esprita. Ter desencarnado quer dizer
tirado (o esprito) da carne, e re-encarnado quer dizer metido outra vez
na carne. A lei  esta: nascer, morrer, tornar a nascer e renascer ainda,
progredir sempre.

Convm notar que a desencarnao
no se opera como nas outras religies, em que a alma sai toda de uma vez. No
espiritismo, h ainda um esforo humano, uma cerimnia, para ajudar a sair o
resto. No se morre ali com esta facilidade ordinria, que nem merece o nome de
morte. Ningum ignora que h caso de inumaes de pessoas meio vivas. A regra
esprita, porm, de auxiliar por palavras, gestos e pensamentos a desencarnao
impede que um supro de alma fique metido no invlucro mortal.

Posso afirmar o que a fica,
porque sei. S o que eu no sei,  se os sacerdotes espritas so como os
brmanes, seus avs. Os brmanes... No, o melhor  dizer isto por linguagem
clssica. Aqui est como se exprime um velho autor: Tanto que um dos
pensamentos por que os brmanes tm tamanho respeito s vacas,  por haverem que
no corpo desta alimria fica uma alma melhor agasalhada que em nenhum outro,
depois que sai do humano; e assim pem sua maior bem-aventurana em os tomar a
morte com as mos nas ancas de uma vaca, esperando se recolha logo a alma
nela.

Ah! se eu ainda vejo um amigo meu,
sacerdote esprita, metido dentro de uma vaca, e um homem, no desencarnado, a
vender-lhe o leite pelas ruas, seguidos de um bezerro magro... No; lembra-me
agora que no pode ser, porque o princpio esprita no  o mesmo da
transmigrao, em que as almas dos valentes vo para os corpos dos lees, a dos
fracos para os das galinhas, a dos astutos para os das raposas, e assim por
diante. O princpio esprita  fundado no progresso. Renascer, progredir sempre;
tal  a lei. O renascimento  para melhor. Cada esprita, em se desencarnando,
vai para os mundos superiores.

Entretanto, pergunto eu: no se
dar o progresso, algumas vezes, na prpria Terra? Citarei um fato. Conheci h
anos um velho, bastante alquebrado e assaz culto, que me afirmava estar na
segunda encarnao. Antes disso, tinha existido no corpo de um soldado romano,
e, como tal, havia assistido  morte de Cristo. Referia-me tudo, e at
circunstncias que no constam das escrituras. Esse bom velho no falava da
terceira e prxima encarnao sem grande alegria, pela certeza que tinha de que
lhe caberia um grande cargo. Pensava na coroa da Alemanha... E quem nos pode
afirmar que o Guilherme II que a est, no seja ele? H, repetimos, coisas na
vida que  mais acertado crer que desmentir; e quem no puder crer, que se
cale.

Voltemos ao carrilho. J referi
que entrara na igreja, no contei; mas entende-se, que na igreja no entram
revolues, por isso no falo da do Rio Grande do Sul. Pode entrar a anarquia, 
verdade, como a daquele singular proco da Bahia, que, mandado calar e declarado
suspenso de ordens, segundo dizem telegramas, no obedece, no se cala, e
continua a paroquiar. Os clavinoteiros tambm no entram; por isso ameaam Porto
Seguro, conforme outros telegramas. No entram discursos parlamentares, nem
lutas talo-santistas, nem auxlios s indstrias, nem nada. H ali um refgio
contra os tumultos exteriores e contra os boatos, que recomeam. Voltemos ao
carrilho.

Criado, como ia dizendo, com os
pobres sinos das nossas igrejas, no provei at certa idade as aventuras de um
carrilho. Ouvia falar de carrilho, como das ilhas Filipinas, uma coisa que eu
nunca havia de ver nem ouvir.

Um dia, anuncia-se a chegada de um
carrilho. Tnhamos carrilho na terra. Outro dia, indo a passar por uma rua,
ouo uns sons alegres e animados. Conhecia a toada, mas no lembrava a
letra.

Perguntei a um menino, que me
indicou a igreja prxima e disse-me que era o carrilho. E, no contente com a
resposta, ps a letra na msica: era o Amor tem fogo. Geralmente, no dou
f a crianas. Fui a um homem que estava  porta de uma loja, e o homem
confirmou o caso, e cantou do mesmo modo; depois calou-se e disse
convencidamente: parece incrvel como se possa, sem o prestgio do teatro, as
saias das mulheres, os requebrados, etc., dar uma impresso to exata da
opereta. Feche os olhos, oua-m e a mim e ao carrilho, e diga-me se no ouve a
opereta em carne e osso:

Amor tem fogo,
Tem fogo amor.

 Carne sem osso, meu rico senhor,
carne sem osso.

10 de julho

So Pedro, apstolo da
circunciso, e So Paulo, apstolo de outra coisa, que a Igreja Catlica
traduziu por gentes, e que no  preciso dizer pelo seu nome, dominaram tudo
esta semana. Eu, quando vejo um ou dois assuntos puxarem para si todo o cobertor
da ateno pblica, deixando os outros ao relento, d-me vontade de os meter nos
bastidores, trazendo  cena to-somente a arraia-mida, as pobres ocorrncias de
nada, a velha anedota, o sopapo casual, o furto, a facada annima, a estatstica
morturia, as tentativas de suicdio, o cocheiro que foge, o noticirio, em
suma.

 que eu sou justo, e no posso
ver o fraco esmagado pelo forte. Alm disso, nasci com certo orgulho, que j
agora h de morrer comigo. No gosto que os fatos nem os homens se me imponham
por si mesmos. Tenho horror a toda superioridade. Eu  que os hei de enfeitar
com dois ou trs adjetivos, uma reminiscncia clssica, e os mais gales de
estilo. Os fatos, eu  que os hei de declarar transcendentes; os homens, eu 
que os hei de aclamar extraordinrios.

Da o meu amor s chamadas chapas.
Orador que me quiser ver aplaudi-lo, h de empregar dessas belas frases feitas,
que, j estando em mim, ecoam de tal maneira, que me parece que eu  que sou o
orador. Ento, sim, senhor, todo eu sou mos, todo eu sou boca, para bradar e
palmejar. Bem sei que no  chapista quem quer. A educao faz bons chapistas,
mas no os faz sublimes. Aprendem-se as chapas,  verdade, como Rafael aprendeu
as tintas e os pincis; mas s a vocao faz a Madona e um grande
discurso. Todos podem dizer que a liberdade  como a fnix, que renasce das
prprias cinzas; mas s o chapista sabe acomodar esta frase em fina moldura.
Que dificuldade h em repetir que a imprensa, como a lana de Tlefo, cura as
feridas que faz? Nenhum; mas a questo no  de ter facilidade,  de ter graa.
E depois, se h chapas anteriores, frases servidas, idias enxovalhadas, h
tambm (e nisto se conhece o gnio) muitas frases que nunca ningum proferiu, e
nascem j com cabelos brancos. Esta inveno de chapas originais distingue mais
positivamente o chapista nato do chapista por educao.

Voltemos aos apstolos. Que
direito tinha So Pedro de dominar os acontecimentos da semana? Estava escrito
que ele negaria trs vezes o divino Mestre, antes de cantar o galo. Cantou o
galo, quando acabava de o negar pela terceira vez, e reconheceu a verdade da
profecia. Quanto a So Paulo, tendo ensinado a palavra divina s igrejas de
Siclia, de Gnova e de Npoles, viu que alguns a sublevaram para torn-las ao
pecado (ou para outra coisa), e lanou uma daquelas suas epstolas exortativas;
concluindo tudo por ser levado o conflito a Roma e a Jerusalm, onde os
magistrados e doutores da lei estudavam a verdade das coisas.

So negcios graves, convenho; mas
h outros que, por serem leves, no merecem menos. Na Cmara dos Deputados, por
exemplo, deu-se uma pequena divergncia, de que apenas tive vaga notcia, por
no poder ler, como no posso escrever; o que os senhores esto lendo, vai
saindo a olhos fechados. Ah! meus caros amigos! Ando com uma vista (isto
 grego; em portugus diz-se um olho) muito inflamada, a ponto de no
poder ler nem escrever. Ouvi que na cmara surdiu divergncia entre a maioria e
a minoria, por causa da anistia. A questo rimava nas palavras, mas no rimava
nos espritos. Da confuso, difuso, absteno. Dizem que um jornal chamou ao
caso um beco sem sada; mas um amigo meu (pessoa dada a aventuras amorosas)
diz-me que todo beco tem sada; em caso de fuga, salta-se por cima do muro,
trepa-se ao morro prximo, ou cai-se do outro lado. Coragem e pernas. No
entendi nada.

A falta de olhos  tudo. Quando a
gente l por olhos estranhos entende mal as coisas. Assim  que, por telegrama,
sabe-se aqui haver o governador de um estado presidido  extrao da loteria. A
princpio, cuidei que seria para dignificar a loteria; depois, supus que o ato
fora praticado para o fim de inspirar confiana aos compradores de
bilhetes.

 A segunda hiptese  a
verdadeira, acudiu o amigo que me lia os jornais. No v como as agncias srias
so obrigadas a mandar anunciar que, se as loterias no correrem no dia marcado,
pagaro os bilhetes pelo dobro?

  verdade, tenho
visto.

 Pois  isto. Ningum confia em
ningum, e  o nosso mal. Se h quem desconfie de mim!

 No me diga isso.

 No lhe digo outra coisa.
Desconfiam que no ponho o selo integral aos meus papis:  verdade (e no sou
nico); mas, alm de que revalido sempre o selo, quando  necessrio levar os
papis a juzo, a quem prejudico eu, tirando ao Estado? A mim mesmo, porque o
tesouro, nos governos modernos,  de todos ns. Verdadeiramente, tiro de um
bolso para meter no outro. Lus XIV dizia: O Estado sou eu! Cada um de ns 
um tronco mido de Lus XIV, com a diferena de que ns pagamos os impostos, e
Lus XIV recebia-os... Pois desconfiam de mim! So capazes de desconfiar do
diabo. Creio que comeo a escrever no ar e...

17 de
julho

Um dia desta semana, farto de
vendavais, naufrgios, boatos, mentiras, polmicas, farto de ver como se
descompem os homens, acionistas e diretores, importadores e industriais, farto
de mim, de ti, de todos, de um tumulto sem vida, de um anncio sem quietao,
peguei de uma pgina de anncios, e disse comigo:

 Eia, passemos em revista as
procuras e ofertas, caixeiros desempregados, pianos, magnsias, sabonetes,
oficiais de barbeiro, casas para alugar, amas de leite, cobradores, coqueluche,
hipotecas, professores, tosses crnicas...

E o meu esprito, estendendo e
juntando as mos e os braos, como fazem os nadadores, que caem do alto,
mergulhou por uma coluna abaixo. Quando voltou  tona, trazia entre os dedos
esta prola:

Uma viva interessante, distinta,
de boa famlia e independente de meios, deseja encontrar por esposo um homem de
meia idade, srio, instrudo, e tambm com meios de vida, que esteja como ela
cansado de viver s; resposta por carta ao escritrio desta folha, com as
iniciais M. R..., anunciando, a fim de ser procurada essa carta.

Gentil viva, eu no sou o homem
que procuras, mas desejava ver-te, ou, quando menos, possuir o teu retrato,
porque tu no s qualquer pessoa, tu vales alguma coisa mais que o comum das
mulheres. Ai de quem est s! dizem as sagradas letras; mas no foi a
religio que te inspirou esse anncio. Nem motivo teolgico, nem metafsico.
Positivo tambm no, porque o positivismo  infenso s segundas npcias. Que foi
ento, seno a triste, longa e aborrecida experincia? No queres amar; ests
cansada de viver s.

E a clusula de ser o esposo outro
aborrecido, farto de solido, mostra que tu no queres enganar, nem sacrificar
ningum. Ficam desde j excludos os sonhadores, os que amem o mistrio e
procurem justamente esta ocasio de comprar um bilhete na loteria da vida. Que
no pedes um dilogo de amor,  claro, desde que impes a clusula da meia
idade, zona em que as paixes, arrefecem, onde as flores vo perdendo a pr
purprea e o vio eterno. No h de ser um nufrago,  espera de uma taboa de
salvao, pois que exiges que tambm possua. E h de ser instrudo, para encher
com as luzes do esprito as longas noites do corao, e contar (sem as mos
presas) a tomada de Constantinopla.

Viva dos meus pecados, quem s
tu, que sabes tanto? O teu anncio lembra a carta de certo capito da guarda de
Nero. Rico, interessante, aborrecido, como tu, escreveu um dia ao grave Sneca,
perguntando-lhe como se havia de curar do tdio que sentia, e explicava-se por
figura: No  a tempestade que me aflige,  o enjo do mar. Viva minha, o que
tu. queres realmente, no  um marido,  um remdio contra o enjo. Vs que a
travessia ainda  longa  porque a tua idade est entre trinta e dois e trinta e
oito anos,  o mar  agitado, o navio joga muito; precisas de um preparado para
matar esse mal cruel e indefinvel. No te contentas com o remdio de Sneca,
que era justamente a solido a vida retirada, em que a alma acha todo o seu
sossego. Tu j provaste esse preparado; no te fez nada. Tentas outro; mas
queres menos um companheiro que uma companhia.

Pode ser que a esta hora j tenha
achado o esposo nas condies definidas. No ests ainda casada, porque 
preciso fazer correr os preges, e tens alguns dias diante de ti, para examinar
bem o homem. Lembra-te de Xisto V, amiga minha; no v ele sair, em vez de um
corao arrimado  bengala, um corao com pernas, e umas pernas com msculos e
sangue; no vs tu ouvir, em vez da tomada de Constantinopla, a queda de
Margarida nos braos de Fausto. H desses coraes, nevados por cima, como esto
agora as serras do Itatiaia e de Itajub, e contendo em si as lavas que o Etna
est cuspindo desde alguns dias.

Mas, se ele te sair o que queres,
que grande prmio de loteria! Junto  amurada do navio, vendo a fria do mar e
dos ventos, tu ouvirs muitas coisas srias. Ele te contar a retirada de uma
parte da Cmara dos Deputados, muito menos interessante que a dos Dez Mil, e
muito menos hbil. Dir-te- que a anistia foi votada, depois que parte daquela
parte voltou s suas cadeiras, para no demorar mais a situao dos que ela
defendia; e recitar fbulas de Lafontaine, porque todos os. homens srios
recitam fabulas, e dir-te- com a melopia natural dos que se no contentam com
a msica dos versos:

Rien nest plus dangereux quun
maladroit ami:
Mieux vaut un franc
ennemi.

E tu, querida incgnita,
far-lhe-s outras perguntas, e mais outras, se gosta de espinafres, se j leu o
ltimo livro de Zola. Quanto ao livro, a primeira resposta ser que no; a
segunda ser que sim, tir-lo- do bolso, e ler-te- logo os primeiros
captulos. Como todo homem srio gosta de comparaes, ele dir que esses
regimentos e corpos de exrcito que vo e vm, sem saber nada, do idia de
outras campanhas de espritos, que andam na mesma desorientao; e que assim
como os exrcitos franceses levavam consigo, em 1870, as cartas topogrficas da
Alemanha, e nenhuma da Frana, que nem conheciam, assim ns temos andado desde
1840 com as cartas de Inglaterra, da Blgica e dos Estados Unidos da Amrica, e
mal sabemos onde fica Marapicu.

Neste ponto, viva amiga, 
natural que lhe perguntes, a propsito de Inglaterra, como  que se explica a
vitria eleitoral de Gladstone, e a sua prxima subida ao poder. E ele enfiando
os dedos pela mais sria das suas duas suas, responder que  a coisa mais
natural do mundo, e que logo que tenhamos repblica parlamentar isto nos h de
acontecer freqentes vezes; que a oposio, como agora na Inglaterra, instar
para que a Cmara seja dissolvida; que o ministrio, receoso de cair, levar a
negar a dissoluo, como se deu na Inglaterra; que, alcanada a dissoluo, o
povo eleger os oposicionistas, e o ministrio ir pedir a demisso ao
presidente; finalmente, que assim aconteceu at 1889 com a monarquia, e no h
razo para que acontea depois de 1889, com a Repblica.

E irs por esse modo ouvindo mil
coisas srias e graciosas a um tempo, seguindo com os olhos a fria dos ventos e
o tumulto das ondas, livre do enjo, como pedia aquele capito de Nero, e por
diferente regmen do que lhe aconselhou o filsofo. E a tua concluso ser como
a tua premissa; em caso de tdio, antes um marido que nada.

24 de
julho

H uma vaga na deputao da
Capital Federal... Eu digo Capital Federal, que  um simples modo de qualificar
esta cidade, sem nome prprio, pela razo de ser a designao adotada
constitucionalmente. Antes de 15 de novembro dizia-se Corte, no sendo
verdadeiramente Corte, seno o pao do imperador e o respectivo pessoal;
mas tinha o seu nome de Rio de Janeiro, que no  bonito nem exato, mas era um
nome. Guanabara, Carioca, s eram usados em poesia. Niteri, que tanto podia
caber a esta como  cidade fronteira, foi distribudo  outra, que o no largou
nem larga mais, apesar da antonomsia familiar de Praia Grande. A nica
esperana que podemos ter,  que se faa a capital nova; segue-se naturalmente a
devoluo do nosso nome antigo ou decretao de outro.

Como ia dizendo, h uma vaga na
nossa deputao, e os candidatos trabalham j com afinco, embora sem rumor.
Alguns parece que no trabalham, como vai acontecer, creio eu, ao Sr. Dr. Anto
de Vasconcelos, apresentado  ultima hora. O Sr. Codeo, espiritista, convidou
os seus confrades  unio, para que os votos do espiritismo recaiam no candidato
espiritista, Dr. Anto de Vasconcelos. E conclui: Todas as classes tm o seu
representante; ns devemos ter o nosso.

Eu que sou no s pela liberdade
espiritual, mas tambm pela igualdade espiritual, entendo que todas as religies
devem ter lugar no Congresso Nacional, e votaria no Sr. Dr. Anto de
Vasconcelos, se fosse espiritista; mas eu sou anabatista. No dia em que houver
nesta cidade um nmero suficiente de anabatistas, que possa dar com um homem na
Cmara dos Deputados, nesse dia apresento-me, com igual direito aos dos
espiritistas e todos os demais religionrios. No reparem se escrevo espiritista
com e, sei que a ortografia daquela igreja elimina o e,  ou
porque h nisso um mistrio insondvel, ou simplesmente para fazer exerccio de
lngua francesa ou latina. Em qualquer das hipteses, atenho-me  forma
profana.

E que faria eu se entrasse na
Cmara? Levaria comigo uma poro de idias novas e fecundas, propriamente
cientficas. Entre outras proporia que se cometesse a uma comisso de pessoas
graves a questo de saber se o dinheiro tem sexo ou no. Questo absurda para os
ignorantes, mas racional para todos os espritos educados. Qual destes no sabe
que a questo do sexo vai at os sapatos, isto , que o sapato direito 
masculino e o esquerdo  feminino, e que  por essa sexualidade diferente que
eles produzem os chinelos? Na casa do pobre a gestao  mais tardia, mas tambm
os chinelos acompanham o dono dos pais. Os ricos, apenas h sinal de concepo,
entregam os pais e os fetos aos criados.

A minha questo  saber se o
dinheiro  aumentado por meio de conjugaes naturais, e o fato que me trouxe ao
esprito esta direo, foi o que sucedeu esta semana em Uberaba. Um tal Otto
Helm roubou em S. Paulo ao patro a quantia de quarenta contos de ris, e fugiu
para aquela cidade de Minas. O chefe de polcia de S. Paulo telegrafou
imediatamente para ali to a ponto que o gatuno, mal foi chegando, estava preso;
revistadas as algibeiras, acharam-se-lhe, no quarenta, mas quarenta e um contos
de ris.

Este acrscimo de um conto aos
quarenta roubados parece revelar a lei do juro e a da simples acumulao. O
conhecimento que temos do juro,  todo emprico. Por que  que um credor me leva
sete por cento ao ms. Talvez por no poder levar oito; talvez por no querer
levar seis. Os economistas, querendo explicar o fenmeno, acabam por descrev-lo
apenas, e ningum d com a verdadeira lei. A sexualidade do dinheiro explica
tudo.

No me digas que o gatuno de que
trato, podia levar consigo, alm dos quarenta contos roubados, um ou dois contos
de economias prprias, ou de outro furto ainda no descoberto. Podia; mas no
est provado, nem sequer alegado, e, antes, da prova material, valem as
concluses do esprito. Quando, porm, se descubra e se prove, nem por isso
risco as linhas escritas. Ei-las serviro de guia ao investigador futuro. H
sempre um Colombo para cada Vespcio.

Outra coisa que eu faria vencer na
Cmara era a declarao da necessidade das loterias, e conseguintemente
derrubava o projeto do meu amigo Pedro Amrico, que quer  fina fora acabar com
elas. Depois daqueles mil contos, que saram a um banco daqui, no se pode
duvidar que a Providncia  acionista oculta de algumas associaes, e que no
h outro meio de cobrar-lhe as entradas seno comprando bilhetes. As agncias
lotricas devem fazer correr esta idia. H de achar incrdulos (que verdade os
no teve?), mas a grande maioria dos homens  inclinada  verdade por um
instinto superior. J alguns deles, ao que me dizem, compraram aes do dito
banco, pela esperana de que com tal auxlio, cado do cu, no havia obrigao
de efetuar as restantes entradas. Quando lhes declararam que os mil contos no
eram um lance da Fortuna, mas o pagamento voluntrio da Providncia, eles
aceitaram gostosos a explicao, e se um primo meu (em 2 grau) passou adiante
as aes, foi por urgncia de dinheiro, no por impiedade.

Vou acabar. Como ainda no estou
na Cmara, no posso reduzir a leis todas as idias que trago na cabea. O
melhor  cal-las. Da semana s me resta (salvo as votaes legislativas) a
trasladao do corpo do glorioso Osrio. No trato dela. Osrio  grande demais
para as pginas minsculas de um triste cronista.

Mas aqui vm coisas pequenas.
Pombas, trs casais de pombas, no dia em que o corpo do herico general foi
levado para a cripta do monumento, esvoaavam na frente da igreja, em cima, onde
esto os nichos de dois apstolos. No esvoaavam s, pousavam, andavam,
tornavam a abrir as asas e a pousar nos nichos. Voltei no dia seguinte,  mesma
hora, l as achei; voltei agora, e ainda ali estavam, voando, pousando, andando
de um para outro lado.

H ali ninhos por fora. No sendo
morador da rua, no sei se elas vivem ali h muito ou pouco; mas, pouco ou
muito, peo  irmandade que as deixe onde esto. Os apstolos no se mostram
incomodados com os intrusos. A guia pousada aos ps de S. Joo, com o seu ar
simblico e tranqilo, parece no dar por elas, e, alis, bastava-lhe um gesto
para as reduzir a nada. Pomba  bicho sagrado. Da arca de No saram duas, uma
que no voltou, e outra trouxe o raminho verde, e o Esprito Santo 
representado por uma pomba de asas abertas. Com-las  pecado; mas impedir que
elas dem outras de si para que outros as comam,  atalhar os pecados alheios 
coisa em si pecaminosa, porque sem pecadores no h inferno, nem purgatrio, e
sem estes dois lugares o cu valeria menos.

31 de julho

Esta semana furtaram a um senhor
que ia pela rua mil debntures; ele providenciou de modo que pde
salv-los. Confesso que no acreditei na notcia, a princpio; mas o respeito em
que fui educado para com a letra redonda fez-me acabar de crer que se no fosse
verdade no seria impresso. No creio em verdades manuscritas. Os prprios
versos, que s se fazem por medida, parecem errados, quando escritos  mo. A
razo por que muitos moos enganam as moas e vice-versa  escreverem as suas
cartas, e entreg-las de mo a mo, ou pela criada, ou pela prima ou por
qualquer outro modo, que no meu tempo, era ainda indito. Quem no engana  o
namorado da folha pblica: Querida X, no foste hoje ao lugar do costume;
esperei at s trs horas. Responde ao teu Z. E a namorada: Querido Z. No fui
ontem por motivos que te direi  vista. Sbado, com certeza,  hora costumada;
no faltes. Tua X. Isto  srio, claro, exato, cordial.

A razo que me fez duvidar a
princpio foi a noo que me ficou dos negcios de debntures. Quando
este nome comeou a andar de boca em boca, at fazer-se um coro universal, veio
ter comigo um chacareiro aqui da vizinhana e confessou que, no sabendo ler,
queria que lhe dissesse se aqueles papis valiam alguma coisa. Eu, verdadeiro
eco da opinio nacional, respondi que no havia nada melhor; ele pegou nas
economias e comprou uma centena delas. Cresceu ainda o preo e ele quis
vend-las; mas eu acudi a tempo de suspender esse desastre. Vender o qu?
Deixasse estar os papis que o preo ia subir por a alm. O homem confiou e
esperou. Da a tempo ouvi um rumor; eram as debntures que caam, caam,
caam... Ele veio procurar-me, debulhado em lgrimas; ainda o fortaleci com uma
ou duas parbolas, at que os dias correram, e o desgraado ficou com os papis
na mo. Consolou-se um pouco quando eu lhe disse que metade da populao no
tinha outra atitude.

Pouco tempo depois (vejam o que 
o amor a estas coisas!) veio ter comigo e proferiu estas palavras:

 Eu j agora perdi quase tudo o
que tinha com as tais debntures; mas ficou-me sempre um cobrinho no
fundo do ba, e como agora ouo falar muito em habeas-corpus, vinha, sim,
vinha perguntar-lhe se esses ttulos so bons, e se esto caros ou
baratos.

 No so ttulos.

 Mas o nome tambm 
estrangeiro.

 Sim, mas nem por ser
estrangeiro,  ttulo; aquele doutor que ali mora defronte  estrangeiro e no 
ttulo.

Isso  verdade. Ento parece-lhe
que os habeas-corpus no so papis?

 Papis so; mas so outros
papis.

A idia de debnture ficou
sendo para mim a mesma coisa que nada, de modo que no compreendia que um senhor
andasse com mil debntures na algibeira, que outro as furtasse, e que ele
corresse em busca do ladro. Acreditei por estar impresso. Depois mostraram-me a
lista das cotaes. Vi que no se vendem tantas como outrora, nem pelo preo
antigo, mas h algum negociozinho, pequeno, sobre alguns lotes. Quem sabe o que
elas sero ainda algum dia? Tudo tem altos e baixos.

O certo  que mudei de opinio. No
dia seguinte, depois do almoo, tirei da gaveta algumas centenas de mil-ris, e
caminhei para a Bolsa, encomendando-me ( intil diz-lo) ao Deus Abrao, Isaac
e Jac. Comprei um lote, a preo baixo, e particularmente prometi uma
debnture de cera a So Lucas, se me fizer ganhar um cobrinho grosso. Sei
que  imitar aquele homem que, h dias, deu uma chave de cera a So Pedro, por
lhe haver deparado casa em que morasse; mas eu tenho outra razo. Na semana
passada falei de uns casais de pombas, que vivem na igreja da Cruz dos
Militares, aos ps de So Joo e So Lucas. Uma delas, vendo-me passar, quando
voltava da Bolsa, desferiu o vo, e veio pousar-me no ombro; mostrou-se meio
agastada com a publicao, mas acabou dizendo que naquela rua, to perto dos
bancos e da praa, tinham elas uma grande vantagem sobre todos os mortais.
Quaisquer que sejam os negcios,  arrulhou-me ao ouvido,  o cmbio para ns
est sempre a 27.

No peo outra coisa ao apstolo;
cmbio a 27 para mim como para elas, e ter a debnture de cera, com
inscries e alegorias. Veja que nem lhe peo a cura da tosse e do coriza que me
afligem, desde algum tempo. O meu talentoso amigo Dr. Pedro Amrico disse outro
dia na Cmara dos Deputados, propondo a criao de um teatro normal, que, por um
milagre de higiene, todas as molstias desaparecessem, no haveria faculdade,
nem artifcios de retrica capazes de convencer a ningum das belezas da
patologia nem da utilidade da teraputica. Ah! meu caro amigo! Eu dou todas as
belezas da patologia por um nariz livre e um peito desabafado. Creio na
utilidade da teraputica; mas que deliciosa coisa  no saber que ela existe,
duvidar dela e at neg-la! Felizes os que podem respirar! bem-aventurados os
que no tossem! Agora mesmo interrompi o que ia escrevendo para tossir; e,
continuo a escrever de boca aberta para respirar. E falam-me em belezas da
patologia... Francamente, eu prefiro as belezas da Batalha de
Ava.

A rigor, devia acabar aqui; mas a
notcia que acaba de chegar do Amazonas obriga-me a algumas linhas, trs ou
quatro. Promulgou-se a Constituio, e, por ela, o governador passa-se a chamar
presidente do Estado. Com exceo do Par e Rio Grande do Sul, creio que no
falta nenhum. Sono tutti fatti marchesi. Eu, se fosse presidente da
Repblica, promovia a reforma da Constituio, para o nico fim de chamar-me
governador. Ficava assim um governador cercado de presidentes, ao contrrio dos
Estados Unidos da Amrica, e fazendo lembrar o imperador Napoleo, vestido com a
modesta farda lendria, no meio dos seus marechais em grande
uniforme.

Outra notcia que me obriga a no
acabar aqui,  a de estarem os rapazes do comrcio de So Paulo fazendo reunies
para se alistarem na guarda nacional, em desacordo com os daqui, que acabam de
pedir dispensa de tal servio. Questo de meio; o meio  tudo. No h exaltao
para uns nem depresso para outros. Duas coisas contrrias podem ser verdadeiras
e at legtimas conforme a zona. Eu, por exemplo, execro o mate chimarro, os
nossos irmos do Rio Grande do Sul acham que no h bebida mais saborosa neste
mundo. Segue-se que o mate deve ser sempre uma ou outra coisa? No; segue-se o
meio; o meio  tudo.

7
de agosto

Toda esta semana foi empregada em
comentar a eleio de domingo.  sabido que o eleitorado ficou em casa. Uma
pequena minoria  que se deu ao trabalho de enfiar as calas, pegar do ttulo e
da cdula e caminhar para as urnas. Muitas sees no viram mesrios, nem
eleitores, outras, esperando cem, duzentos, trezentos eleitores, contentaram-se
com sete, dez, at quinze. Uma delas, uma escola pblica, fez melhor,
tirou a urna que a autoridade lhe mandara, e ps este letreiro na porta: A urna
da 8 seo est na padaria dos Srs. Alves Lopes & Teixeira,  rua de S.
Salvador n.... Alguns eleitores ainda foram  padaria; acharam a urna, mas no
viram mesrios. Melhor que isso sucedeu na eleio anterior, em que a urna da
mesma escola nem chegou a ser transferida  padaria, foi simplesmente posta na
rua, com o papel, tinta e penas. Como pequeno sintoma de anarquia, 
valioso.

Variam os comentrios. Uns querem
ver nisto indiferena pblica, outros descrena, outros absteno. No que todos
esto de acordo,  que  um mal, e grande mal. No digo que no; mas h um
abismo entre mim e os comentadores;  que eles dizem o mal, sem acrescentar o
remdio, e eu trago um remdio, que h de curar o doente. Tudo est em acertar
com a causa da molstia.

Comecemos por excluir a absteno.
L que houvesse algumas abstenes, creio; dezenas e at centenas,  possvel;
mas no concedo mais. No creio em vinte e oito mil abstenes solitrias, por
inspirao prpria; e se os eleitores se concertassem para alguma coisa, seria
naturalmente para votar em algum,  no leitor ou em mim.

Excluamos tambm a descrena. A
descrena  explicao fcil, e nem sempre sincera. Conheo um homem que
despendeu outrora vinte anos da existncia em falsificar atas, trocar cdulas,
quebrar urnas, e que me dizia ontem, quase com lgrimas, que o povo j no cr
em eleies. Ele sabe  acrescentou fazendo um gesto conspcuo  que o seu voto
no ser contado. Pessoa que estava conosco, muito lida em cincias e meias
cincias, vendo-me um pouco apatetado com essa contradio do homem,
restabeleceu-me, dizendo que no havia ali verdadeira contradio, mas um
simples caso de alterao da personalidade.

Resta-nos a indiferena; mas nem
isto mesmo admito. Indiferena diz pouco em relao  causa real, que  a
inrcia. Inrcia, eis a causa! Estudai o eleitor; em vez de andardes a trocar as
pernas entre trs e seis horas da tarde, estudai o eleitor. Ach-lo-eis bom,
honesto, desejoso da felicidade nacional. Ele enche os teatros, vai s paradas,
s procisses, aos bailes, aonde quer que h pitoresco e verdadeiro gozo
pessoal. Faam-me o favor de dizer que pitoresco e que espcie de gozo pessoal
h em uma eleio? Sair de casa sem almoo (em domingo, note-se!), sem leitura
de jornais, sem sof ou rede, sem chambre, sem um ou dois pequerruchos, para ir
votar em algum que o represente no Congresso, no  o que vulgarmente se chama
caceteao?
Que tem o eleitor com isso? Pois
no h governo? O cidado, alm dos impostos, h de ser perseguido com
eleio?

Ouo daqui (e a voz  do leitor)
que eleies se fizeram em que o eleitorado, todo, ou quase todo, saa  rua,
com nimo, com ardor, com prazer, e o vencedor celebrava a vitria  fora de
foguete e msica; que os partidos... Ah! os partidos! Sim, os partidos podem e
tm abalado os nossos eleitores; mas partidos so coisas palpveis, agitam-se,
escrevem, distribuem circulares e opinies; os chefes locais respondem aos
centrais, at que no dia do voto todas as inrcias esto vencidas; cada um vai
movido por uma razo suficiente. Mas que fazer, se no h partidos?

Que fazer? Aqui entra a minha
medicao soberana. H na tragdia Nova Castro umas palavras que podem
servir de marca de fbrica deste produto. No quiseste ir, vim eu. Creio
que  D. Afonso que as diz a D. Pedro; mas no insisto, porque posso estar em
erro, e no gosto de questes pessoais. Ora, tendo lido lia alguns dias (e j vi
a mesma coisa em situaes anlogas) declaraes de eleitores do Estado do Rio
de Janeiro, afirmando que votam em tal candidato, creio haver achado o remdio
na sistematizao desses acordos prvios, que ficaro definitivos. No
quiseste ir, vim eu. O eleitor no vai  urna, a urna vai ao
eleitor.

Uma lei curta e simples marcaria o
prazo de sete dias para cada eleio. No dia 24, por exemplo, comeariam as
listas a ser levadas s casas dos eleitores. Eles estendidos na
chaise-longue, liam e assinavam. Algum mais esquecido poderia confundir
as coisas.

 Subscrio? No
assino.

 No, senhor...

 O gs? Est pago.

 No, senhor,  a lista dos votos
para uma vaga na Cmara dos Deputados; eu trago a lista do candidato
Ramos...

 Ah! j sei... Mas eu assinei
ainda h pouco a do candidato vila.

A alma do agente era, por dois
minutos, teatro de um formidvel conflito, cuja vitria tinha de caber ao
Mal.

 Pois, sim, senhor; mas V. S.
pode assinar esta, e ns provaremos em tempo que a outra lista foi assinada
amanh, por distrao de Vossa Senhoria.

O eleitor, sem sair da inrcia,
apontava a porta ao agente. Mas tais casos seriam raros; em geral, todos
procederiam bem.

No dia 31 recolhiam-se as listas,
publicavam-se, a Cmara dos Deputados somava, aprovava e empossava. Tal  o
remdio; se acharem melhor, digam; mas eu creio que no acham.

H sempre uma sensao deliciosa
quando a gente acode a um mal pblico; mas no  menor, ou  pouco menor a que
se obtm do obsquio feito a um particular, salvo emprstimos. Assim, ao lado do
prazer que me trouxe a achada do remdio poltico, sinto o gozo do servio que
vou prestar ao Sr. deputado Alcindo Guanabara. Este distinto representante, em
discurso de anteontem, declarou que temia falar com liberdade,  vista do
governo armado contra o Sr. Dr. Miguel Vieira Ferreira, pastor evanglico e
acusado de mandante no desacato feito  imagem de Jesus Cristo no jri.
Perdoe-me o digno deputado; vou restituir-lhe a quietao ao
esprito.

Depois que o Sr. deputado Alcindo
Guanabara falou, foi publicada a sentena de pronncia. Que consta dela? Que
havia dois denunciados, o Dr. Miguel Vieira Ferreira, pastor da igreja
evanglica, dado como mandante do desacato, e Domingos Heleodoro, denunciado
mandatrio. A sentena estabelece claramente dois pontos capitais: 1, que
Domingos Heleodoro, embora ningum visse quebrar a imagem, ao perguntarem-lhe o
que fora aquilo, respondera:  a lei que se cumpre; 2, que o pastor
Miguel V. Ferreira, na vspera do desacato, afirmando a algumas pessoas que a
imagem havia de sair, acrescentou que, se no acabasse por bem, acabaria por
mal. Tudo visto e considerado, a sentena proferiu a criminalidade de
Domingos Heleodoro, e no admitiu a do Dr. Miguel V. Ferreira. Veja o meu
distinto patrcio a diferena, e faa isto que lhe vou dizer.

Quando houver de discutir matrias
espirituais, evite sempre dizer:  a lei que se cumpre,  frase
clarssima, a respeito de um certo nariz postio, vago e obscuro.

Ao contrrio, diga: H de sair
por bem ou por mal,  expresso obscura e frouxa, apesar do aspecto
ameaador que inadvertidamente se lhe pode atribuir. Fale S. Ex. como pastor, e
no como ovelha.

A verdade  que os desacatos podem
reproduzir-se, sem que Deus saia da alma do homem. Ainda ultimamente no senado,
tomados de pnico, muitos senadores no tiveram outra invocao. O Sr. senador
Ubaldino do Amaral analisara o projeto de um grande banco emissor, em que havia
este artigo: Fica autorizado por antecipao a fazer uma emisso de
trezentos mil contos de ris (300.000:000$000.)

 Santo Deus! exclamaram os
senadores aterrados.

Crede-me. Deus  a natural
exclamao diante de um grande perigo. Um abismo que se abre aos ps do homem,
um terremoto, um flagelo, um ciclone, qualquer efeito terrvel de foras
naturais ou humanas, arranca do imo do peito este grito de pavor e de
desespero:

 Santo Deus!

14 de agosto

Semana e finanas so hoje a mesma
coisa. E to graves so os negcios financeiros, que escrever isto s,
pingar-lhe um ponto e mandar o papel para a imprensa, seria o melhor modo de
cumprir o meu dever. Mas o leitor quer os seus poetas menores. Que os poetas
magnos tratem os sucessos magnos; ele no dispensa aqui os assuntos mnimos, se
os houve, e, se os no houve, a reflexes leves e curtas. Fora  reproduzir o
famoso Marche! Marche! de Bossuet... Perdo, leitor! Bossuet! eis-me aqui
mais grave que nunca.

E por que no sei eu finanas? Por
que, ao lado dos dotes nativos com que aprouve ao cu distinguir-me entre os
homens, no possuo a cincia financeira? Por que ignoro eu a teoria do imposto,
a lei do cmbio, e mal distingo dez mil-ris de dez tostes? Nos bonds 
que me sinto vexado. H sempre trs e quatro pessoas (principalmente agora) que
tratam das coisas financeiras e econmicas, e das causas das coisas, com tal
ardor e autoridade, que me oprimem.  ento que eu leio algum jornal, se o levo,
ou ro as unhas,  vcio dispensvel; mas antes vicioso que
ignorante.

Quando no tenho jornal, nem
unhas, atiro-me s tabuletas. Miro ostensivamente as tabuletas, como quem estuda
o comrcio e a indstria, a pintura e a ortografia. E no  novo este meu
costume, em casos de aperto. Foi assim que um dia, h anos, no me lembra em que
loja, nem em que rua, achei uma tabuleta que dizia: Ao Planeta do
Destino. Intencionalmente obscuro, este ttulo era uma nova edio da
esfinge. Pensei nele, estudei-o, e no podia dar com o sentido, at que me
lembrou vir-lo do avesso: Ao Destino do Planeta. Vi logo que, assim
virado, tinha mais senso; porque, em suma, pode admitir-se um destino ao planeta
em que pisamos... Talvez a cincia econmica e financeira seja isto mesmo, o
avesso do que dizem os discutidores de bonds. Quantas verdades escondidas
em frases trocadas! Quanto fiz esta reflexo, exultei. Grande consolao 
persuadir-se um homem de que os outros so asnos.

E a esto quatro tiras escritas,
e aqui vai mais uma, cujo assunto no sei bem qual seja, tantos so eles e to
opostos. Vamos ao Senado. O Senado discutiu o chim, o arroz, e o ch, e
naturalmente tratou da questo da raa chinesa, que uns defendem e outros
atacam. Eu no tenho opinio; mas nunca ouso falar de raas, que me no lembre
do Honrio Bicalho. Estava ele no Rio Grande do Sul, perto de uma cidade alem.
Iam com ele moas e homens a cavalo  viram uma flor muito bonita no alto de uma
rvore, Bicalho ou outro quis colh-la, apoiando os ps no dorso do cavalo, mas
no alcanava a flor. Por fortuna, vinha da povoao um moleque, e o Bicalho foi
ter com ele.

 Vem c, trepa quela rvore, e
tira a flor que est em cima...

Estacou assombrado. O moleque
respondeu-lhe em alemo, que no entendia portugus. Quando Bicalho entrou na
cidade, e no ouviu nem leu outra lngua seno a alem, a rica e forte lngua de
Goethe e de Heine, teve uma impresso que ele resumia assim: Achei-me
estrangeiro no meu prprio pas! Lembram-se dele? Grande talento, todo ele vida
e esprito.

Isto, porm, no tem nada com os
chins, nem os judeus, nem particularmente com aquela moa que acaba de impedir a
canonizao de Colombo. Ho de ter lido o telegrama que d notcia de haver sido
posta de lado a idia de canonizao do grande homem, por motivo de uns amores
que ele trouxera com uma judia. Todos os escrpulos so respeitveis, e seria
impertinncia querer dar lies ao Santo Padre em matria de economia catlica.
Colombo perdeu a canonizao sem perder a glria, e a prpria Igreja o sublima
por ela. Mas...

Mas, por mais que a gente fuja com
o pensamento ao caso, o pensamento escapa-se, rompe os sculos e vai farejar
essa judia que tamanha influncia devia ter na posteridade. E compe a figura
pelas que conhece. H-as de olhos negros e de olhos garos, umas que deslizam
sem pisar no cho, outras que atam os braos ao descuidado com a simples corda
das pestanas infinitas. Nem faltam as que embebedam e as que matam. O pensamento
evoca a sombra da filha de Moiss, e pergunta como  que aquele grande e pio
genovs, que abriu  f crist um novo mundo, e no se abalanou ao
descobrimento sem encomendar-se a Deus, podia ter consigo esse pecado mofento,
esse fedor judaico,  deleitoso, se querem, mas de entontecer a perder
uma alma por todos os sculos dos sculos.

Eu ainda quero crer que ambos,
sabendo que eram incompatveis, fizeram um acordo para dissimular e pecar.
Combinaram em ler o Cntico dos Cnticos; mas Colombo daria ao texto
bblico o sentido espiritual e teolgico, e ela o sentido natural e molemente
hebraico.

 O meu amado  para mim como um
cacho de Chipre, que se acha nas vinhas de Engadi.

 Os teus olhos so como os das
pombas, sem falar no que est escondido dentro. Os teus dois peitos so como
dois filhinhos gmeos da cabra montesa, que se apascentam entre as
aucenas.

 Eu me levantei para abrir ao meu
amado; as minhas mos destilavam mirra.

 Os teus lbios so como uma fita
escarlate, e o teu falar  doce.

 O cheiro dos teus vestidos 
como o cheiro do incenso.

Quantas unies danadas no se
mantm por acordos semelhantes, em conscincia, s vezes! H uma grande palavra
que diz que todas as coisas so puras para quem  puro.

Tornemos  gente crist, s
eleies municipais,  senatorial, aos italianos de So Paulo que deixam a
terra, a D. Carlos de Bourbon que aderiu  Repblica Francesa, em obedincia ao
Papa, aos bonds eltricos,  subida ao poder do old great man, a
mil outras coisas que apenas indico, to aborrecido estou. Pena da minha alma,
vai afrouxando os bicos; diminui esse ardor, no busques adjetivos, nem imagens,
no busques nada, a no ser o repouso, o descanso fsico e mental, o
esquecimento, a contemplao que prende com o cochilo que expira no
sono...

21 de agosto

Ex fumo dare lucem. Tal seria a epgrafe
desta semana, se a m fortuna no perseguisse as melhores intenes dos homens.
Velha epgrafe, mais velha que a s de Braga, pois que nos veio da poesia latina
para a fbrica do gs; mas, velha embora, nenhuma outra quadrava to bem ao
imposto dos charutos e ao fechamento das portas das charutarias. Ex fumo dare
lucem.

Lucem ou legem, no me lembra
bem o texto, e no estou para ir daqui  estante, e menos ainda  fbrica do
gs. Seja como for, quando eu vi as portas fechadas, na segunda-feira, imaginei
que amos ter uma semana inteira de protesto, e preparei-me para contar as
origens do tabaco e do imposto, o uso do charuto e o do rap, e subsidiariamente
a histria de Havana e a de Espanha, desde os rabes.

Vinte e quatro horas depois,
abriam-se novamente as charutarias, e os fumantes escaparam a uma coisa pior que
o naufrgio da Medusa. Os nufragos comiam-se, quando j no havia que
comer; mas como se haviam de fumar os nufragos? Vinte e quatro horas apenas;
quase ningum deu pela festa; eu menos que ningum, porque no fumo. No fumo,
no votei o imposto, no sou ministro. Sou desinteressado na questo. Um amigo
meu, companheiro de infncia, diz-me sempre que, quando a gente no tem
interesse em um pleito, no se mete nele, seja particular ou pblico; e
acrescenta que no h nada pblico. De onde resulta (palavras suas) que no dia
em que vi os jornais darem notcia do dficit, nem por isso as caras
andaram mais abatidas. Uma coisa  o Estado, outra  o particular. O Estado que
se agente.

Quando um homem influi sobre
outro, como este amigo em mim,  difcil ou ainda impossvel recusar-lhe as
opinies. A prpria notcia do dficit, que me afligira tanto, parece-me agora
que nem a li. Realmente, se me no incumbe cobri-lo, para que meter o
dficit entre as minhas preocupaes, que no so poucas? Se houvesse
saldo, viria o Estado dividi-lo comigo?

E disse adeus ao dficit, que
afinal de contas no me amofinou tanto como a parede das charutarias, no
propriamente a parede, mas o contrrio, a abertura das portas. As causas desta
amofinao so to profundas, que eu prefiro deix-las  perspiccia do leitor.
No; no as digo. Acabemos com este costume do escritor dizer tudo,  laia de
alvissareiro. A discrio no h de ser s virtude das mulheres amadas, nem dos
homens mal servidos. Tambm os vares da pena, os polticos, os parentes dos
polticos e outras classes devem calar alguma coisa. No presente caso, por
exemplo, vamos ver se o leitor adivinha as causas do meu tdio, quando as
charutarias abriram as portas, aps um dia de manifestao. Diga o que lhe
parecer; diga que era a minha ferocidade que se pascia no mal dos outros; diga
at que tudo isto no passa de uma maneira mais expedita para acabar um perodo
e passar a outro.

Em verdade, aqui est outro; mas,
se pensas que vou falar da carne verde, no me conheces. J bastou a aborrecida
incumbncia feita ao Sr. deputado Vinhais para comunicar ao povo a parede dos
boiadeiros. Por fortuna recaiu a escolha em pessoa que tomou sobre si os
interesses e o bem-estar da classe proletria; mas supe que recaa em mim, cuja
repugnncia aos estudos sociais  tamanha, que no a pode vencer a natural e
profunda simpatia que essa classe merece de todos os coraes bons. Talvez eu
esteja fazendo injustia a mim prprio; h pessoas (e j me tenho apanhado em
lances desses) que levam o empenho de dizer mal ao ponto de maldizer de si
mesmas. Outras tm a virtude do louvor, e cometem igual excesso. Pode ser que de
ambos os lados haja muita mentira. A mentira  a carne verde do demnio,
abundante e de graa.

No procures isso em Bourdaloue
nem MontAlverne. Isso  meu. Quando a idia que me acode ao bico da pena  j
velhusca, atiro-lhe aos ombros um capote axiomtico, porque no h nada como uma
sentena para mudar a cara aos conceitos.

Tambm no procures em nenhum
grande orador catlico, francs ou brasileiro, este pequeno trecho: Ecce
iterum Crispinus. Nem o aceites no mesmo sentido deprimente com que Alencar
o foi buscar ao satrico romano. Crispim aqui  o parlamentarismo, cuja orelha
reapareceu esta semana, por baixo de uma circular poltica. Ainda bem que
reapareceu; ela h de trazer o corpo inteiro; v-lo-emos surgir, crescer,
dominar, no s pelo esforo dos seus partidrios, mas pelo dos indiferentes e
at dos adversos. No ser fcil grud-lo ao federalismo,  certo; mas basta que
no seja impossvel, para esperar que o bom xito coroe a obra. A dissoluo da
Cmara ser necessria? Dissolva-se a Cmara.

Com o parlamentarismo tivemos
longos anos de paz pblica. Certo  que o imperador, no vendo pas que lhe
enviasse Cmaras contrrias ao governo, tomou a si alternar os partidos, para
que ambos eles pudessem mandar alguma vez. Quando lhe acontecia ser maltratado,
era pelo que ficava de baixo; mas, como nada  eterno, o que estava de baixo
tornava a subir, transmitia a clera ao que ento caa, e recitava por sua vez a
ode de Horcio: Aplaca o teu esprito; eu buscarei mudar em versos doces os
versos amargos que compus.

Agora, como a opinio h de estar
em alguma parte, desde que no esteja nos eleitores, nem no chefe do Estado, 
provvel que passe ao nico lugar em que fica bem, nos corredores da Cmara,
onde se planearo as quedas e as subidas dos ministros,  poucas semanas para
tocar a todos,  e assim chegaremos a um bom governo oligrquico, sem excessos,
nem afronta, e, natural, como as verdadeiras prolas.

28 de agosto

Para um triste escriba de coisas
midas, nada h pior que topar com o cadver de um homem clebre. No pode
julg-lo por lhe faltar investidura; para louv-lo h de trocar de estilo, sair
do comum da vida e da semana. No bastam as qualidades pessoais do morto, a
bravura e o patriotismo, virtudes nem defeitos, grandes erros nem aes
lustrosas. Tudo isso pede estilo solene e grave, justamente o que falta a um
escriba de coisas midas.

Na dificuldade em que me acho, o
melhor  fitar o morto, calar-me e adeus. Um s passo neste bito pblico me
faria deter alguns instantes. Refiro-me s declaraes parlamentares do dia 23 e
25 e ao art. 8 das Disposies transitrias da Constituio de 24 de
fevereiro de 1891. Segundo o art. 8, o fundador da repblica foi Benjamin
Constant; mas, segundo os discursos parlamentares, foi o marechal Deodoro. Tendo
sado do mesmo Congresso os discursos e o art. 8, pode algum no saber qual
deles  o fundador, uma vez que a repblica h de ter um fundador. A imprensa
mostrou igual divergncia. S o Rio News adotou um meio termo e chamou ao
finado marechal um dos fundadores da repblica. A origem anglo-saxnica da folha
pode explicar essa averso  bela unidade latina, mas bem latina  a Igreja
catlica, e eis aqui o que ela fez.

A Igreja, obra da doutrina de
Jesus Cristo e d apostolado de S. Paulo, no querendo desligar uma coisa de
outra, meteu S. Paulo e S. Pedro no mesmo credo, com o fim de completar o Tu
s Pedro e sobre esta pedra etc. Saulo, Saulo, por que me persegues? Foi um
modo de dizer que a doutrina impe-se pela ao, e a ao vive da
doutrina.

Eu, porm, que no sou Igreja
catlica, nem folha anglo-saxnica, no tenho a autoridade de uma, nem a ndole
da outra; pelo que, no me detenho ante a contradio das opinies. Quando muito
podia apelar para a Histria. Mas a Histria  pessoa entrada em anos, gorda,
pachorrenta, meditativa, tarda em recolher documentos, mais tarda ainda em os
ler e decifrar. Assim, pode ser que, entre 1930 e 1940, tendo cotejado a
Constituio de 91 com os discursos de 92, e os artigos de jornais com os
artigos de jornais, decida o ponto controverso, ou adote a idia de dois
fundadores, se no de trs; mas onde estarei eu ento? Se guardar memria da
vida, terei ainda de cor os hinos de ambas as capelas. No terei visto a
catedral nica.

No basta, para que um edifcio
exista, haver fundadores dele;  de fora que se levantem paredes e escadas, se
rasguem portas e janelas, e finalmente se lhe ponham cumeeira e telhado. Sobre
isto falou esta semana o Sr. deputado Glicrio, lastimando que a cmara dos
deputados no se esforce na medida da responsabilidade que lhe cabe. Creio que a
responsabilidade  grande; mas, quanto  primeira parte, se  certo que o
esforo no corresponde  segunda, importa acrescentar que o melhor desejo deste
mundo no faz criar vontades. O patriotismo  que pode muito, e o exemplo do
passado vale alguma coisa.

J agora vou falando gravemente
at o fim. Finanas, por exemplo, aqui est um assunto de ocasio, se  certo,
como acabo de ler, que o ministro da fazenda pediu demisso. Eu nada tenho com a
fazenda, a no ser a impresso que deixa esta bela palavra. Entretanto,
ocorre-me uma anedota de Ccero, e custa muito a um homem lembrar-se de um
grande homem e no tentar ombrear com ele. Foi quando aquele cnsul tomou conta
do poder, vago pela morte do colega, vinte e quatro horas antes de expirar o
consulado. Depressa, dizia Ccero aos demais senadores,  depressa, antes que
achemos outro cnsul no lugar.

Depressa, depressa, antes que haja
outro ministro, e me estenda e complique o assunto desta semana. Se eu nem falo
do dficit do Piau, e mais  objeto digno de considerao. Deixo o monoplio
dos nqueis, que dizem ser grande e valioso; s um compadre meu recolheu
oitocentos contos de ris, que vende com pequeno juro. Excluo a briga dos
intendentes municipais, excluo as bruxas do Maranho, alguns assassinatos e
outras coisas alegres.

4
de setembro

Nem sempre respondo por papis
velhos; mas aqui est um que parece autntico; e, se o no , vale pelo texto,
que  substancial.  um pedao do evangelho do Diabo, justamente um sermo da
montanha,  maneira de S. Mateus. No se apavorem as almas catlicas. J Santo
Agostinho dizia que a igreja do Diabo imita a igreja de Deus. Da a semelhana
entre os dois evangelhos. L vai o do Diabo:

1. E vendo o Diabo a grande
multido de povo, subiu a um monte, por nome Corcovado, e, depois de se ter
sentado, vieram a ele os seus discpulos.

2. E ele abrindo a boca, ensinou,
dizendo as palavras seguintes:

3. Bem-aventurados aqueles que
embaam, porque eles no sero embaados.

4. Bem-aventurados os afoitos,
porque eles possuiro a terra.

5. Bem-aventurados os limpos das
algibeiras, porque eles andaro mais leves.

6. Bem-aventurados os que nascem
finos, porque eles morrero grossos.

7. Bem-aventurados sois, quando
vos injuriarem e disserem todo o mal, por meu respeito.

8. Folgai e exultai, porque o
vosso galardo  copioso na terra.

9. Vs sois o sal do money
market. E se o sal perder a fora, com que outra coisa se h de
salgar?

10. Vs sois a luz do mundo. No
se pe uma vela acesa debaixo de um chapu, pois assim se perdem o chapu e a
vela.

11. No julgueis que vim destruir
as obras imperfeitas, mas refazer as desfeitas.

12. No acrediteis em sociedades
arrebentadas. Em verdade vos digo que todas se concertam, e se no for com
remendo da mesma cor, ser com remendo de outra cor.

13. Ouvistes que foi dito aos
homens: Amai-vos uns aos outros. Pois eu digo-vos: Comei-vos uns aos outros;
melhor  comer que ser comido; o lombo alheio  muito mais nutritivo que o
prprio.

14. Tambm foi dito aos homens:
no matareis a vosso irmo, nem a vosso inimigo, para que no sejais castigados.
Eu digo-vos que no  preciso matar o vosso irmo para ganhardes o reino da
terra; basta arrancar-lhe a ltima camisa.

15. Assim, se estiveres fazendo
as tuas contas, e te lembrar que teu irmo anda meio desconfiado de ti,
interrompe as contas, sai de casa, vai ao encontro de teu irmo na rua,
restitui-lhe a confiana, e tira-lhe o que ele ainda levar consigo.

16. Igualmente ouvistes que foi
dito aos homens: No jurareis falso, mas cumpri ao Senhor os vossos
juramentos.

17. Eu, porm, vos digo que no
jureis nunca a verdade, porque a verdade nua e crua, alm de indecente,  dura
de roer; mas jura e sempre e a propsito de tudo, porque os homens foram feitos
para crer antes nos que juram falso, do que nos que no juram nada. Se disserdes
que o sol acabou, todos acendero velas.

18. No faais as vossas obras
diante de pessoas que possam ir cont-lo  polcia.

19. Quando, pois, quiserdes tapar
um buraco, entendei-vos com algum sujeito hbil, que faa treze de cinco e
cinco.

20. No queirais guardar para vs
tesouros na terra, onde a ferrugem e a traa os consomem, e donde os ladres os
tiram e levam.

21. Mas remetei os vossos
tesouros para algum banco de Londres, onde nem a ferrugem, nem a traa os
consomem, nem os ladres os roubam, e onde ireis v-los no dia do
juzo.

22. No vos fieis uns nos outros.
Em verdade vos digo, que cada um de vs  capaz de comer o seu vizinho, e boa
cara no quer dizer bom negcio.

23. Vendei gato por lebre, e
concesses ordinrias por excelentes, a fim de que a terra se no despovoe das
lebres, nem as ms concesses paream nas vossas mos.

24. No queirais julgar para que
no sejais julgados; no examineis os papeis do prximo para que ele no examine
os vossos, e no resulte irem os dois para a cadeia, quando  melhor no ir
nenhum.

25. No tenhais medo s
assemblias de acionistas, e afagai-as de preferncia s simples comisses,
porque as comisses amam a vangloria e as assemblias as palavras.

26. As percentagens so as
primeiras flores do capital; cortai-as logo para que as outras flores brotem
mais viosas e lindas.

27. No deis conta das contas
passadas, porque passadas so as contadas, e perptuas as contas que se no
contam.

28. Deixai falar os acionistas
prognsticos; uma vez aliviados, assinam de boa vontade.

29. Podeis excepcionalmente amar
a um homem que vos arranjou um bom negcio; mas no at o ponto de o no deixar
com as cartas na mo, se jogardes juntos.

30. Todo aquele que ouve estas
minhas palavras, e as observa, ser comparado ao homem sbio, que edificou sobre
a rocha e resistiu aos ventos; ao contrrio do homem sem considerao, que
edificou sobre a areia, e fica a ver navios...

Aqui acaba o manuscrito que me foi
trazido pelo prprio Diabo, ou algum por ele; mas eu creio que era o prprio.
Alto, magro, barbcula ao queixo, ar de Mefistfeles. Fiz-lhe uma cruz com os
dedos e ele sumiu-se. Apesar de tudo, no respondo pelo papel, nem pelas
doutrinas nem pelos erros de cpia.

J agora parece que estou em dia
de fantasmas. Mal pingava o ponto final do outro pargrafo, quando me apareceu
um senhor, que me disse ser defunto e haver-se chamado Baro Luis.

 Conheo muito, disse-lhe eu:
tenho ouvido a sua celebre mxima: Dai-me boa poltica e eu vos darei
finanas.

 Ah! meu caro senhor, acudiu o
baro; essa mxima tem-me tirado o sono da eternidade. J no a posso ouvir, sem
tdio. Quer ajudar-me a publicar uma troca de palavras que fiz, mudando o
sentido, a ver se pegam na segunda forma e deixam-me em descanso a
primeira?

 Senhor baro...

 Escute-me.

 Em vez de: dai-me boa poltica
e eu vos darei boas finanas, arranjei esta outra forma: Dai-me boas finanas
e eu vos darei boa poltica. Promete-me?

 Pois no!

 No esquea: Dai-me boas
finanas e eu vos darei boa poltica.

11 de setembro

J uma vez dei aqui a minha teoria
das idias grvidas. Vou agora  das aes grvidas, no menos interessante,
posto que mais difcil de entender.

Em verdade, h de custar a crer
que uma ao nasa pejada de outra, e, todavia, nada mais certo. Para no nos
perdermos em exemplos estranhos, meditemos no caso de Chaucer. O
Chaucer vinha entrando a nossa barra, quando da fortaleza de Santa Cruz
lhe fizeram alguns sinais, a que ele no atendeu e veio entrando. A fortaleza
disparou um tiro de plvora seca, ele veio entrando; depois outro, e ele ainda
veio entrando; terceiro tiro, e ele sempre entrando. Quando vinha j entrando de
uma vez, a fortaleza soltou a bala do estilo, que lhe furou o costado. Correram
a socorr-lo, mas j a gente de bordo tinha por si mesma tapado o buraco, e a
companhia escreveu aquela carta, declarando protestar e esperar que tudo
acabasse bem e depressa, sem interveno diplomtica. Plvora seca,  espera de
bala.

Nega o Chaucer que visse
sinais nem ouvisse tiros. Devo crer que fala verdade, pois que nada o obriga a
mentir, tanto mais quanto, antes de ser navio, Chaucer era um velhssimo poeta
ingls, que j perdeu a vista e as orelhas, tendo perdido a sade e a vida. Mas
nem todos pensam assim; e, para muita gente, a ao do navio foi antes de pouco
caso da terra e seus moradores. Ora, tal ao ainda que sem esse sentido, desde
que parecia t-lo, podia nascer grvida de outra, e foi o que aconteceu; da a
dias, dava-se a ocorrncia da bandeira da rua da Assemblia. Desdm chama
desdm. Um homem a quem se puxa o nariz, acaba recebendo um rabo de papel. Ao
pejada de ao. Felizmente o movimento de indignao pblica e as palavras
patriticas que produziu, e mais a pena do culpado, faro esperar que esta outra
ao haja nascido virgem e estril.

Podia citar mais exemplos, e de
primeira qualidade; mas, se o leitor no entende a teoria com um, no a
entender com trs. Direi s um caso, por estar, como l se diz, no tapete da
discusso. A emisso bancria nasceu to grossa, que era de adivinhar a
gravidez da encampao. Nem falta quem diga que estes gritos que estamos
ouvindo, so as dores do parto. Uns crem nele, mas afirmam que a criana nasce
morta. Outros pensam que nasce viva, mas aleijada. H at um novo encilhamento,
onde as apostas crescem e se multiplicam, como nos belos dias de 1890. Eu, sobre
esse negcio de encampao, sei pouco mais que o leitor, porque sei duas coisas,
e o leitor saber uma ou nenhuma. Sei, em primeiro lugar, que  uma medida
urgente e necessria, para que se restaure o nosso crdito; e, em segundo lugar,
sei tambm que  um erro e um crime. Aristote dit oui et Galien dit
non.

Quiseram explicar-me porque  que
era crime; mas eu ando to aflito com a simples notcia dos narcotizadores, que
no quis ouvir a explicao do crime. Basta de crimes. Demais, so finanas. E
as finanas vo chegando ao estado da jurisprudncia. Muitas famlias, quando
viram que os bacharis em Direito eram em demasia, comearam a mandar ensinar
Engenharia aos filhos. Hoje, famlia precavida no deve esperar que venha o
excesso de financeiros. A concorrncia  j extraordinria. Antes a medicina.
Antes a prpria jurisprudncia.

Demais, eu gosto de explicaes
palpveis, concretas. Desde que um homem comea a raciocinar e quer que eu o
acompanhe pelos corredores do esprito, digo-lhe adeus. Debntures, por
exemplo. Um deputado disse h dias na cmara que certo banco do interior os
emitira clandestinamente. No lhe dei crdito. Mas uma senhora, que jantou
comigo ontem, disse-me rindo e agitando uns papis entre os dedos: Aqui esto
debntures. O crdito que neguei ao deputado, dei-o  minha boa amiga. A
razo  que, sobre este gnero de papis, tive duas idias consecutivas antes da
ltima. A primeira  que debnture era uma simples expresso, uma senha,
uma palavra convencional, como a da conjurao mineira: Amanh  o
batizado. A segunda  que era efetivamente um bilhete, mas um bilhete que
seria entregue pelo agente policial, por pessoa de famlia, ou pelo prprio
alienista, um atestado, em suma, para legalizar a recluso. Quando vi, porm,
que aquela senhora tinha tais papis consigo, e peguei neles, e os li, adquiri
uma terceira idia, exata e positiva, que a minha amiga completou dizendo com
rara magnanimidade:  O que l vai, l vai.

E agora, adeus, querida semana!
Adeus, clculos do Sr. Oiticica, que dizem estar errados! adeus, feriados!
adeus, nqueis!

Os nqueis voltam certamente; mas
h de ser difcil. Ou estaro sendo desamoedados, como suspeita o governo, ou
andam nas mos de alguma tribo, que pode ser a dos narcotizadores, e tambm pode
ser a de Shylock. Creio antes em Shylock. Se assim for,  nqueis, no h para
vs habeas-corpus, nem tomadas da Bastilha. No perdeis com a recluso,
meus velhos; ficais luzindo, fora das mos untadas do trabalho, que vos
enxovalham. Para sairdes  rua,  preciso alguma coisa mais que boas razes ou
necessidades pblicas; e no saireis em tumulto, nem todos, mas devagarinho e
aos poucos, conforme a taxa. Trezentos ducados, bem!

Tambm no digo adeus aos chins,
porque  possvel que eles venham, como que no venham. O Dirio de
Notcias, contando os votos da Cmara provveis e desfavorveis, d 64 para
cada lado. Numa questo intrincada era o que melhor podia acontecer; as opinies
entestavam umas com outras, na ponte, como as cabras da fbula. Mas pode haver
alteraes, e h de hav-las. Para isso mesmo  que se discute. E a balana est
posta em tal maneira, que a menor palha far pender uma das conchas. Nunca um s
homem teve em suas mos tamanho poder, isto , o futuro do Brasil, que ou h de
ser prspero com os chins, conforme opinam uns, ou desgraado, como querem
outros. Espada de Breno, bengala de Breno, guarda-chuva de Breno, lpis, um
simples lpis de Breno, agora ou nunca  a tua ocasio.

A vs, sim, tumultos de circo, a
vs digo eu adeus, porque se adotarem o que proponho aos homens, no h mais
tumultos nesse gnero de espetculos, ou seja nos prprios circos, ou seja nas
casas c de baixo, onde se aposta e se espera a vitria pelo telefone; modo que
me faz lembrar umas senhoras do meu conhecimento, que tm ouvido todas as peras
desta estao lrica, indo para a praia de Botafogo ver passar as carruagens das
senhoras assinantes. No haver tumultos, porque fao evitar a fraude ou
suspeita dela aposentando os cavalos e fazendo correr os apostadores com os seus
prprios ps. Cansa um pouco mais que estar sentado, mas cada um ganha o seu po
com o suor do seu rosto.

18 de setembro

Quando a China souber que a vinda
dos seus naturais (votada esta semana em segunda discusso) tem dado lugar a
tanto barulho, tanta animosidade, tanto epteto feio,  provvel que mande
fechar os seus portos e no deixe sair ningum. Eu conheo a China. A China tem
brios. A China no  s a terra de porcelanas, leques, ch, sedas, mandarins e
guarda-sis de papel. No, a China manda-nos plantar caf e deixa-se ficar em
casa.

E o Japo? O Japo, que sabe
estarem os japoneses no projeto e no v descompor japoneses nem malsin-lo a
ele, o Japo cuida que entra no projeto s para dar fundo ao quadro, e fecha
igualmente os seus portos. Eu conheo tambm o Japo. O Japo  muito
desconfiado, mais desconfiado ainda que parlamentar.

Porque o Japo  parlamentar, como
sabem; copiou do ocidente as Cmaras e os condes. O atual presidente do conselho
de ministros  o conde Ito, um homem que, tanto quanto se pode deduzir de uma
gravura que vi h pouco,  das mais galhardas figuras deste fim de sculo. Mas,
como vai muito do vivo ao pintado, dou que seja menos belo; no quer dizer que
no tenha talento e pulso.

Quando  planta parlamentar, no
creio que seja to viosa como na Inglaterra. No; mas  original, e basta. Tem
uma cor particular ao clima. Se  verdade o que li, h l um costume nas Cmaras
assaz interessante. Deputado que vota contra o governo,  restitudo aos
seus eleitores; deputado que vota a favor do governo,  desancado pela
oposio. Quer dizer que, em cada votao poltica, os adversrios do governo
pem os ministerialistas em lenis de vinho e vo ver depois se o conde de Ito
est nos seus respectivos distritos eleitorais. Se os eleitores (isto agora 
conjetura minha) os aprovam, revalidam os diplomas, e eles tornam ao
parlamento.

Este sistema, se vier nas malas
japonesas, pode ser experimental; mas a dvida  se viro malas japonesas, ou
sequer chinesas, pela razo acima dita. Fora  confessar que os filhos daquelas
bandas tm grandes vantagens. Italianos entram aqui com o seu irridentismo,
franceses com os princpios de 89, ingleses com o Foreign Office e a
Cmara dos Comuns, espanhis com todas las Espaas, caramba!
alemes com uma casa sua, uma cidade sua, uma escola sua, uma igreja sua,
uma vida sua. Chim no traz nada disso, traz brao, fora e pacincia. No chega
a trazer nome, porque  impossvel que a gente o chame por aqueles espirros que
l lhe pem. O primeiro artigo de um bom contrato deve ser impor-lhe um nome da
terra,  escolha, Manuel, Bento, pai Joo, pai Jos, pai Francisco, pai
Antnio...

Depois, o trabalho. Que outro
bicho humano iguala o Chim? Um cego, entre ns, pega da viola e vai pedir esmola
cantando. Ora, o padre Joo de Lucena refere que na China todos os cegos
trabalham de um modo original. So distribudos pelas casas particulares e
postos a moer arroz ou trigo, mas de dois em dois, porque fique assim a cada um
menos pesado o trabalho com a companhia e conversao do outro. Os aleijados,
se no tm pernas, trabalham de mos; os que no tem braos, andam ao ganho com
uma cesta pendurada ao pescoo, para levar compras s casas dos que os chamam, 
ou servem de correio a p. Aproveita-se ali at o ltimo caco de
homem.

No alegueis serem estas notcias
de um velho escritor, porque uma das vantagens da China  ser a mesma. Os
sculos passam, mudam-se os costumes, as instituies, as leis, as idias, tudo
padece desta instabilidade que o Sr. senador Manuel Victorino atribuiu anteontem
s nossas coisas; mas a China no passa.

J que falei no Sr. senador Manuel
Victorino, devo completar um ponto do seu discurso.  certo que o finado
imperador recusou uma esttua que lhe quiseram erigir, quando acabou a guerra do
Paraguai, dizendo preferir que o dinheiro fosse aplicado a escolas; mas o Sr.
senador no disse o resto. Talvez no estivesse aqui. Eu estava aqui; vi as
coisas de perto. A esttua no foi um simples e desornado oferecimento. Fez-se
grande reunio, com pessoas notveis  frente, comisso aclamada, que ia marchar
para S. Cristvo. O imperador, lendo a notcia nos jornais, escreveu uma carta
ao ministro do imprio, declarando o que o Sr. senador Manuel Victorino referiu
agora. Mas o resto? Onde est o resto? Onde est o dinheiro que eu gastei
depois em anncios, pedindo notcias da comisso? Nem s dinheiro, gastei
amigos, encomendei a uma dezena deles que fossem a todos os bairros, que
interrogassem os lojistas, que levantassem as almofadas dos carros, que
chegassem ao interior das casas, e espiassem por baixo das camas ou dentro dos
armrios. Pode ser que houvesse da minha parte algum excesso de zelo; mas nem
por isso mereo ficar no escuro. No achei a comisso,  certo, mas podia t-la
achado.

Entretanto, no nego que h por a
edifcios bem arquitetados para escolas e por conta do Estado. Um chegou a
destruir em mim certo erro poltico. Dizia ele, no alto, em letra grossa, como
dedicatria: O governo ao povo. A minha idia  que ramos,
politicamente, uma nao representativa, e que tanto fazia dizer povo
como governo, no sendo o governo mais que o povo governado. Demais o
dinheiro da construo era dos prprios contribuintes, e... Mas vamos adiante,
que o tempo escasseia.

Tempo, espao e papel, tudo vai
faltando debaixo das mos. Pacincia tambm falta. Concluamos com uma boa
notcia. Cansado desta obrigao de dar uma semana por semana, entendi
convidar um colaborador, e a quem pensais que convidei? Um senador, ex-ministro
e pensador, tudo de Frana, o velho Julio Simon, que me respondeu nestes
termos:

Mon cher ami.  Je rponds  votre
bonne lettre. Ne comptez pas sur moi, ni rgulirement, ni mme directement.
Vous tes trop loin, et moi je suis trop viux. Je vous autorise  couper dans
les articles que je publie en France, les morceaux qui vous plairont, et  les
donner dans cette aimable Gazeta de Notcias, avant que
votre Congrs napprouve le trait, dont M. Nilo Peanha est le rapporteur  ce
que lon rapporte. Pardonez-moi ce mchant calembourg et croyez  ma vieille
amiti.  Jules Simon.

No imaginam o prazer com que li
esta cartinha. Quis logo dar algum trecho do grande homem; mas sobre que? Era
preciso um fato da semana, alguma coisa a que o trecho se adequasse. Que coisa?
Justamente aqui est um telegrama de Ouro Preto, em que os empregados pblicos
pedem misericrdia contra os cortes de que esto ameaados por um projeto
pendente do Congresso Nacional. Sobre isto, escreve o meu velho amigo no
Temps, de 20 de agosto:

Lembra-me ainda o tempo, o feliz
tempo em que a guerra aos grandes ordenados era toda a poltica dos membros da
oposio que no sabiam poltica... A guerra subsiste. O Sr. Chassaing vem
renov-la, acompanhado de quarenta colegas... Eles devem saber que o ordenado
dos funcionrios no  renda;  produto do trabalho. No  justo nem hbil
diminuir a parte dos trabalhadores do Estado, quando tanta gente reclama a
remunerao mais eqitativa do trabalho.

Suponho que o trecho transcrito
acode bem s angstias dos funcionrios de Ouro Preto e de outros lugares menos
remotos. Daqui em diante, quando me faltarem idias, corro ao meu velho amigo
Simon, o velho amigo do meu velho amigo Thiers. Trs velhos amigos!

25 de setembro

Esta semana comeou mal. Nos
primeiros trs dias recebi vinte e seis cartas agradecendo a maneira engenhosa
por que defendi, na outra crnica, a introduo do Chim. Eu no sou homem que
recuse elogios. Amo-os; eles fazem bem  alma e at ao corpo. As melhores
digestes da minha vida so as dos jantares em que sou brindado. Mas confesso
que desta vez nem tive tempo de saborear os louvores; fiquei espantado, porque
eu no defendi nada, nem ningum. No fiz mais que apontar as qualidades do Chim
e as de outros imigrantes, para significar que, entrado o Chim, os outros
somem-se. No defendi, nem acusei. No me deitem louros nem grilhes.

Francisco Belisrio, por exemplo,
era da mesma opinio, e no me consta que o elogiassem por ela. Ia mais longe,
porque dizia coisas duras, e eu no estou aqui para dizer coisas duras. Alm
disso, e do mais, h entre ns um abismo;  que eu sou um simples eleitor, e ele
era um homem de Estado. No lhe pese a terra por isso. E no falo daquela
observao fina e profunda que, ainda aplicada a assuntos prticos, era um dos
encantos do seu esprito. Confesso tudo isso, mas no o imitarei jamais nos
duros conceitos que exprimiu, posto que revestidos daquele estilo afvel que era
um relevo do patriota e do poltico.

Ho de lembrar-se que era de
estatura baixa. Da o costume que tinha de subir alto para ver longe. Uma de
suas idias  que mais vale o todo que a parte, mais um sculo que um ano, mais
cinqenta milhes de homens que meia dzia deles. Se no so estas as textuais
palavras, advirtam que foram transcritas por mim, cujo falar ou escrever tem o
vcio de ser torto, truncado ou brusco; mas o sentido a est. Fique o sentido,
e vamos ao arroz.

Quando vierem as maldies ou as
bnos,  cerca de 1914  os que estivermos enterrados, no nos importaremos
com elas. Morto, se no fala, tambm no ouve. Que nos chamem todos os nomes
sublimes ou todos os nomes feios, valer tanto como nada. Palavras, palavras,
palavras. Tambm no se nos dar de agitaes sociais ou outros desconsolos;
menos ainda se o Imprio do Meio fizer da nossa terra uma Repblica do Meio.
Teremos vivido.

Mas a semana continuou mal. Tratei
na crnica da reunio que se fez para levantar uma esttua ao imperador, depois
da guerra do Paraguai. O Jornal do Comrcio lembrou que a coleta foi
promovida por uma comisso de respeitveis membros da Associao Comercial e com
ela se construiu o belo edifcio do Campo de So Cristvo, doado ao governo e
ocupado por duas escolas.

Dou uma das mos  palmatria, e
no h de ser a esquerda, chamada do corao, porque este corao, que no
calunia ningum, no o faria a pessoas honradas, que prestaram um bom servio
pblico.

No, senhor. A mo direita  que
h de apanhar, por no haver sabido escrever claro. E posto seja verdade que eu
no falei em subscrio, mas em comisso, dizendo que, escolhida esta em um dia,
desapareceu no outro (o que exclui a idia de dinheiros recebidos) concordo que
o meu vezo de falar por meias palavras pode muito bem dar um sentido ao que o
tem diverso.

Tinha em lembrana que a comisso
escolhida,  a primeira comisso,  perdera o entusiasmo, desde que o servio ao
imperador devia trocar o modo pessoal e direto pelo modo indireto e impessoal:
esttua por escola. Este  que era o ponto da crtica. No houve primeira
comisso? Bem; limitemos a ao aos iniciadores, ou a alguns deles, ou a pessoas
que estiveram na reunio, e a quem se deu lugar proeminente. O erro foi atribuir
 comisso o que apenas coube a alguns, se  que coube a algum, porque a minha
triste memria avoluma os casos passados e pode fazer uma batalha de uma simples
escaramua.

E a tens o que fizeste, pena de
trinta mil diabos, a tens o que acabas de fazer; gastaste o tempo todo em
explicaes, graas ao sestro de no arranhar o papel, mas descer ao de leve por
ele abaixo. Glissez, mortels, n'appuyez pas.  gracioso, mas para outros
ofcios. Aqui, meu bem, lias de ter o desamor a murros, e o amor a beijos, mas a
beijos grandes e sonoros.

Todavia, como h um limite para
tudo, no ames como outros amaram aquela Maria de Macedo, cujo cadver apareceu
no Largo do Depsito. Digam o que quiserem; o homem gosta dos grandes crimes.
Esta sociedade estava expirando de tdio. Uma ou outra sentena sobre negcios
annimos e aes nominais mal satisfazia a curiosidade, e no de todos, porque
h muita gente que no conta de cem contos para cima; eu nem creio em milhares
de contos. Ratonices de queijos e outras miudezas so como os biscoitos velhos e
poucos; enganam o estmago, no matam a fome. E a fome vivia e crescia, sem nada
que lhe pusesse termo, at que um gato descobriu no largo do Depsito aquele
tronco de gente. Foi um banquete pantagrulico. Um simples pedao de cadver,
ensopado em mistrio, bastou a fartar toda a cidade. Os mais gulosos pediam
ainda a cabea, as pernas e os braos. O mar, imensa panela, despejou esse
manjar ltimo. Agora pedimos os cozinheiros; venham os cozinheiros.

No sabemos tudo; no basta haver
comido e perguntado pelos cozinheiros. H muito mais que saber,  o processo e
as mincias da cozinha. E quando houvermos notcia da culinria e dos seus
oficiais, restar ainda entrar fundo no estudo dessa mescla de lubricidade e
ferocidade, rins de macaco e goela de hiena; fitar bem a imbecilidade do
criminoso que vai vender uma parte da caa. Chegaremos assim aos abismos da
inconscincia. No importa a camada dos personagens para achar interesse num
drama lbrico. Visgueiro era um magistrado. H muitos anos, junto aos canos da
Carioca, Scrates matou Alcibades.

Agora, o mal que resulta deste
grande crime,  no sabermos se ficar bastante curiosidade para acudir 
eleio dos intendentes. Talvez no. Eleitor no  gato de sete flegos.
Deixa-se ficar almoando; os intendentes vo ser eleitos a cinqenta votos.
Poucas semanas depois, trinta mil eleitores sairo de casa murmurando que a
intendncia no presta para nada.

2
de outubro

Tannhuser e bonds
eltricos. Temos finalmente na Terra essas grandes novidades. O empresrio do
Teatro Lrico fez-nos o favor de dar a famosa pera de Wagner, enquanto a
Companhia de Botafogo tomou a peito transportar-nos mais depressa. Cairo de uma
vez o burro e Verdi? Tudo depende das circunstncias.

J a esta hora algumas das pessoas
que me lem, sabem o que  a grande pera. Nem todas; h sempre um grande nmero
de ouvintes que faro ao grande maestro a honra de no perceber tudo desde logo,
e entend-lo melhor  segunda, e de vez  terceira ou quarta execuo. Mas no
faltam ouvidos acostumados ao seu ofcio, que distinguiro na mesma noite o belo
do sublime, e o sublime do fraco.

Eu, se l fosse, no ia em jejum.
Pegava de algumas opinies slidas e francesas e metia-as na cabea com
facilidade; s no me valeria das muletas do bom Larousse, se ele no as tivesse
em casa; mas havia de t-las. Cai aqui, cai acol, faria uma opinio prvia, e 
noite iria ouvir a grande partitura do mestre. Um amigo:

 Afinal temos o
Tannhuser; eu conheo um trecho, que ouvi h tempos...

 Eu no conheo nada, e quer que
lhe diga?  melhor assim. Fao de conta que assisto  primeira representao que
se deu no mundo. Tudo novo.

 O que eu ouvi, 
soberbo.

 Creio; mas no me diga nada,
deixe-me virgem de opinies. Quero julgar por mim, mal ou bem...

E iria sentar-me e esperar, um
tanto nervoso, irrequieto, sem atinar com o binculo para a revista dos
camarotes. Talvez nem levasse binculo; diria que as grandes solenidades
artsticas devem ser estremes de quaisquer outras preocupaes humanas. A arte 
uma religio. O gnio  o sumo sacerdote. Em vo, Amlia, posta no camarote, em
frente  me, lanaria os olhos para mim, assustada com a minha indiferena e
perguntando a si mesma que me teria feito. Eu, teso, espero que as portas do
templo se abram, que as harmonias do Cu me chamem aos ps do divino mestre; no
sei de Amlia no quero saber dos seus olhos de turquesa.

Era assim que eu ouviria o
Tannhuser. Nos intervalos, visita aos camarotes e crtica. Aquela
entrada dos fagotes, lembra-se? Admirvel! Os coros, o duo, os violinos, oh! o
trabalho dos violinos que coisa adorvel, com aquele motivo obrigado: la la
la tra la, la, la, tra la la... H neste ato inspiraes que so, com
certeza, as maiores do sculo. De resto, os prprios franceses emendaram a mo,
dando a Wagner o preito que lhe cabe, como um criador genial... As senhoras
ouvem-me encantadas; a linda Amlia sente-se honrada com a indiferena de h
pouco, vendo que ela e a arte so o meu culto nico.

Ao fundo, o pai e um homem de
suas falam da fuso do Banco do Brasil com o da Repblica. O irmo, encostado
 diviso do camarote, conversa com uma dama vizinha, casada de fresco, ombros
magnficos. Que tenho eu com ombros, nem com bancos? la la la, tra la la la,
tra la la...

Feitas as despedidas, passaria a
outro camarote, para continuar a minha crtica. Dois homens, sempre ao fundo,
conversam baixo, um recitando os versos de Garrett sobre a Guerra das Duas
Rosas, o outro esperando a aplicao. A aplicao  a Cmara Municipal de So
Paulo, que acaba de tomar posse solene, com assistncia do presidente e dos
secretrios do Estado... Interrupo do segundo: Pode comparar-se o caso dos
dois secretrios  conciliao que o poeta fez das duas rosas? Explicao do
primeiro: No; refiro-me  inaugurao que a Cmara fez dos retratos de Deodoro
e Benjamim Constante. Uniu os dois rivais pstumos em uma s comemorao, e a
histria ou a lenda que faa o resto.

No espero pelo resto; falo s
senhoras no duo e na entrada dos fagotes. Bela entrada de fagotes. Os coros
admirveis, e o trabalho dos violinos simplesmente esplndido. Ho de ter notado
que a msica reproduz perfeitamente a lenda, como o espelho a figura; prendem-se
ambas em uma s inspirao genial. Aquele motivo obrigado dos violinos  a mais
bela inspirao que tenho ouvido: la la la tra la la la tra...

Terceiro camarote, violinos,
fagotes, coros e o duo. Pormenores tcnicos. Ao fundo, dois homens, que falam de
um congresso psicolgico em Chicago, dizem que os nossos espritas vo ter
ocasio de aparecer, porque o convite estende-se a eles. Tratar-se- no s dos
fenmenos psicofsicos, como sejam as pancadas, as oscilaes em mesas, a
escrita, e outras manifestaes espritas, como ainda da questo da vida futura.
Um dos interlocutores declara que os nicos espritas que conhece, so dois,
moram ao p dele e j no pertencem a este mundo; esto nos intermndios de
Epicuro. Andam c os corpos, por efeito do movimento que traziam quando
habitados pelos espritos, como aqueles astros cuja luz ainda vemos hoje,
estando apagados h muitos sculos...

A orquestra chama a postos, sobe o
pano, assisto ao ato, e fao a mesma peregrinao no intervalo; mudo s as
citaes, mas a crtica  sempre verdadeira. Ouo os mesmos homens, ao fundo,
conversando sobre coisas alheias ao Wagner. Eu, entregue  crtica musical, no
dou pelas rusgas da intendncia, no atendo s candidaturas municipais agarradas
aos eleitores, no dou por nada que no seja a grande pera. E sento-me, recordo
prontamente o que li sobre o ato, oh! um ato esplndido!

Fim do espetculo. Corro a
encontrar-me com a famlia de Amlia, para acompanh-la  carruagem. Dou o brao
 me e crtico o ltimo ato, depois resumo a crtica dos outros atos. Elas e o
pai entram na carruagem; despedidas  portinhola; aperto a bela mo da minha
querida Amlia... Pormenores tcnicos.

9
de outubro

Eis a uma semana cheia. Projetos
e projetos bancrios, debates e debates financeiros, priso de diretores de
companhias, denncia de outros, dois mil comerciantes marchando para o palcio
Itamarati, a p, debaixo d'gua, processo Maria Antnia, fuso de bancos, ala
rpida de cmbio, tudo isso grave, soturno, trgico ou simplesmente enfadonho.
Uma s nota idlica entre tanta coisa grave, soturna, trgica ou simplesmente
enfadonha; foi a morte de Renan. A de Tennyson, que tambm foi esta semana, no
trouxe igual carter, apesar do poeta que era, da idade que tinha. Uma gravura
inglesa recente d, em dois grupos, os anos de 1842 e 1892, meio sculo de
separao. No primeiro era Southey que fazia o papel de Tennyson, e o poeta
laureado de 1842, como o de 1892, acompanhava os demais personagens oficiais do
ano respectivo, o chefe dos tories, o chefe dos whigs, o arcebispo
de Canturia. A rainha  que  a mesma. Tudo instituies. Tennyson era uma
instituio, e h belas instituies. Os seus oitenta e trs anos no lhe tinham
arrancado as plumas das asas de poeta; ainda agora anunciava-me um novo escrito
seu. Mas era uma glria britnica; no teve a influncia nem a universalidade do
grande francs.

Renan, como Tennyson, despegou-se
da vida no espao de dois telegramas, algumas horas apenas. No penso em agonias
de Renan. Afigura-se-me que ele voltou o corpo de um lado para outro e fechou os
olhos. Mas agonia que fosse, e por mais longa que haja sido, ter-lhe- custado
pouco ou nada o ltimo adeus daquele grande pensador, to plcido para com as
fatalidades, to prestes a absolver as coisas irremissveis.

Comparando este glorioso desfecho
com aquele dia em que Renan subiu  cadeira de professor e soltou as famosas
palavras: Alors, un homme a paru..., podemos crer que os homens, como
os livros, tm os seus destinos. Recordo-me do efeito, que foi universal; a
audcia produziu escndalo, e a punio foi pronta. O professor desceu da
cadeira para o gabinete. Passaram-se muitos anos, as instituies polticas
tombaram, outras vieram, e o professor morre professor, aps uma obra vasta e
luminosa, universalmente aclamado como sbio e como artista. Os seus prprios
adversrios no lhe negam admirao, e porventura lhe faro justia.
J'ai tout
critiqu (diz ele em um dos seus prefcios) et quoi qu'on en dise, y j'ai
tout maintenu. O sculo que est a chegar,
criticar ainda uma vez a crtica, e dir que o ilustre exegeta definiu bem a
sua ao.

A morte no pode ter aparecido a
esse magnfico esprito com aqueles dentes sem boca e aqueles furos sem olhos,
com que os demais pecadores a vem, mas com as feies da vida, coroada de
flores simples e graves. Para Renan a vida nem tinha o defeito da morte. Sabe-se
que era desejo seu, se houvesse de tornar  terra, ter a mesma existncia
anterior, sem alterao de trmites nem de dias. No se pode confessar mais
vivamente a bem-aventurana terrestre. Um poeta daquele pas, o velho Ronsard,
para igual hiptese, preferia vir tornado em pssaro, a ser duas vezes homem. Eu
(falemos um pouco de mim), se no fossem as armadilhas prprias do homem e o uso
de matar o tempo matando pssaros, tambm quisera regressar pssaro.

No voltou o pssaro Ronsard, como
no voltar o homem Renan. Este ir para onde esto os grandes do sculo, que
comeou em Frana como o autor de Ren, e acaba com o da Vida de
Jesus, pginas to caractersticas de suas respectivas datas.

No fao aqui anlises que me no
competem, nem cito obras, nem componho biografia. O jornalismo desta capital
mostrou j o que valia o autor de tantos e to adorveis livros, falou daquele
estilo incomparvel, puro e slido, feito de cristal e melodia. Nada disso me
cabe. A rigor, nem me cabe cuidar da morte. Cuidei desta por ser a nica nota
idlica, entre tanta coisa grave, soturna, trgica ou simplesmente
enfadonha.

Em verdade, que posso eu dizer das
coisas pesadas e duras de uma semana, remendada de cdigos e praxistas, a ponto
de algarismo e citao? Prises, que tenho eu com elas? Processos, que tenho eu
com eles? No dirijo companhia alguma, nem annima, nem pseudnima; no fundei
bancos, nem me disponho a fundi-los; e, de todas as coisas deste mundo e do
outro, a que menos entendo,  o cmbio. No  que lhe negue o direito de subir;
mas tantas lstimas ouvi pela queda, quantas ouo agora pela ascenso,  no sei
se s mesmas pessoas, mas com estes mesmos ouvidos.

Finanas das finanas, so tudo
finanas. Para onde quer que me volte, dou com a incandescente questo do dia.
Conheo j o vocabulrio, mas no sei ainda todas as idias a que as palavras
correspondem, e, quanto aos fenmenos, basta dizer que cada um deles tem trs
explicaes verdadeiras e uma falsa. Melhor  crer tudo. A dvida no  aqui
sabedoria, porque traz debate rspido, debate traz balana de comrcio, por um
lado, e excesso de emisses por outro, e, afinal, um fastio que nunca mais
acaba.

16 de outubro

No tendo assistido a inaugurao
dos bonds eltricos, deixei de falar neles. Nem sequer entrei em algum,
mais tarde, para receber as impresses da nova trao e cont-las. Da o meu
silncio da outra semana. Anteontem, porm, indo pela Praia da Lapa, em um
bond comum, encontrei um dos eltricos, que descia. Era o primeiro que
estes meus olhos viam andar.

Para no mentir, direi o que me
impressionou, antes da eletricidade, foi o gesto do cocheiro. Os olhos do homem
passavam por cima da gente que ia no meu bond, com um grande ar de
superioridade. Posto no fosse feio, no eram as prendas fsicas que lhe davam
aquele aspecto. Sentia-se nele a convico de que inventara, no s o
bond eltrico, mas a prpria eletricidade. No  meu ofcio censurar
essas meias glrias, ou glrias de emprstimo, como lhe queiram chamar espritos
vadios. As glrias de emprstimo, se no valem tanto como as de plena
propriedade, merecem sempre algumas mostras de simpatia. Para que arrancar um
homem a essa agradvel sensao? Que tenho para lhe dar em troca?

Em seguida, admirei a marcha
serena do bond, deslizando como os barcos dos poetas, ao sopro da brisa
invisvel e amiga. Mas, como amos em sentido contrrio, no tardou que nos
perdssemos de vista, dobrando ele para o Largo da Lapa e Rua do Passeio, e
entrando eu na Rua do Catete. Nem por isso o perdi de memria. A gente do meu
bond ia saindo aqui e ali, outra gente entrava adiante e eu pensava no
bond eltrico. Assim fomos seguindo; at que, perto do fim da linha e j
noite, ramos s trs pessoas, o condutor, o cocheiro e eu. Os dois cochilavam,
eu pensava.

De repente ouvi vozes estranhas,
pareceu-me que eram os burros que conversavam, inclinei-me (ia no banco da
frente); eram eles mesmos. Como eu conheo um pouco a lngua dos Houyhnhnms,
pelo que dela conta o famoso Gulliver, no me foi difcil apanhar o dilogo. Bem
sei que cavalo no  burro; mas reconheci que a lngua era a mesma. O burro fala
menos, decerto;  talvez o trapista daquela grande diviso animal, mas fala.
Fiquei inclinado e escutei:

 Tens e no tens razo, respondia
o da direita ao da esquerda.

O da esquerda:

 Desde que a trao eltrica se
estenda a todos os bonds, estamos livres, parece claro.

 Claro parece; mas entre parecer
e ser, a diferena  grande. Tu no conheces a histria da nossa espcie,
colega; ignoras a vida dos burros desde o comeo do mundo. Tu nem refletes que,
tendo o salvador dos homens nascido entre ns, honrando a nossa humildade com a
sua, nem no dia de Natal escapamos da pancadaria crist. Quem nos poupa no dia,
vinga-se no dia seguinte.

 Que tem isso com a
liberdade?

 Vejo, redargiu melancolicamente
o burro da direita, vejo que h muito de homem nessa cabea.

 Como assim? bradou o burro da
esquerda estacando o passo.

O cocheiro, entre dois cochilos,
juntou as rdeas e golpeou a parelha.

 Sentiste o golpe? perguntou o
animal da direita. Fica sabendo que, quando os bonds entraram nesta
cidade, vieram com a regra de se no empregar chicote. Espanto universal dos
cocheiros: onde  que se viu burro andar sem chicote? Todos os burros desse
tempo entoaram cnticos de alegria e abenoaram a idia os trilhos, sobre os
quais os carros deslizariam naturalmente. No conheciam o homem.

Sim, o homem imaginou um chicote,
juntando as duas pontas das rdeas. Sei tambm que, em certos casos, usa um
galho de rvore ou uma vara de marmeleiro.

 Justamente. Aqui acho razo ao
homem. Burro magro no tem fora; mas, levando pancada, puxa. Sabes o que a
diretoria mandou dizer ao antigo gerente Shannon? Mandou isto: Engorde os
burros, d-lhes de comer, muito capim, muito feno, traga-os fartos, para que
eles se afeioem ao servio; oportunamente mudaremos de poltica, all
right!

 Disso no me queixo eu. Sou de
poucos comeres; e quando menos trabalho, quando estou repleto. Mas que tem capim
com a nossa liberdade, depois do bond eltrico?

 O bond eltrico apenas
nos far mudar de senhor.

 De que modo?

 Ns somos bens da companhia.
Quando tudo andar por arames, no somos j precisos, vendem-nos. Passamos
naturalmente s carroas.

 Pela burra de Balao! exclamou o
burro da esquerda. Nenhuma aposentadoria? nenhum prmio? nenhum sinal de
gratificao? Oh! mas onde est a justia deste mundo?

 Passaremos s carroas 
continuou o outro pacificamente  onde a nossa vida ser um pouco melhor; no
que nos falte pancada, mas o dono de um s burro sabe mais o que ele lhe custou.
Um dia, a velhice, a lazeira, qualquer coisa que nos torne incapaz,
restituir-nos- a liberdade...

 Enfim!

 Ficaremos soltos, na rua, por
pouco tempo, arrancando alguma erva que a deixem crescer para recreio da vista.
Mas que valem duas dentadas de erva, que nem sempre  viosa? Enfraqueceremos; a
idade ou a lazeira ir-nos- matando, at que, para usar esta metfora humana, 
esticaremos a canela. Ento teremos a liberdade de apodrecer. Ao fim de trs, a
vizinhana comea a notar que o burro cheira mal; conversao e queixumes. No
quarto dia, um vizinho, mais atrevido, corre aos jornais, conta o fato e pede
uma reclamao. No quinto dia sai a reclamao impressa. No sexto dia, aparece
um agente, verifica a exatido da notcia; no stimo, chega uma carroa, puxada
por outro burro, e leva o cadver.

Seguiu-se uma pausa.

 Tu s lgubre, disse o burro da
esquerda. No conheces a lngua da esperana.

 Pode ser, meu colega; mas a
esperana  prpria das espcies fracas, como o homem e o gafanhoto; o burro
distingue-se pela fortaleza sem par. A nossa raa  essencialmente filosfica.
Ao homem que anda sobre dois ps, e provavelmente  guia, que voa alto, cabe a
cincia da astronomia. Ns nunca seremos astrnomos. Mas a filosofia  nossa.
Todas as tentativas humanas a este respeito so perfeitas quimeras. Cada
sculo...

O freio cortou a frase ao burro,
porque o cocheiro encurtou as rdeas, e travou o carro. Tnhamos chegado ao
ponto terminal. Desci e fui mirar os dois interlocutores. No podia crer que
fossem eles mesmos. Entretanto, o cocheiro e o condutor cuidaram de desatrelar a
parelha para lev-la ao outro lado do carro; aproveitei a ocasio e murmurei
baixinho, entre os dois burros:

 Houyhnhnms!

Foi um choque eltrico. Ambos
deram um estremeo, levantaram as patas e perguntaram-me cheios de
entusiasmo:

 Que homem s tu, que sabes a
nossa lngua?

Mas o cocheiro, dando-lhes de rijo
na lambada, bradou para mim, que lhe no espantasse os animais. Parece que a
lambada devera ser em mim, se era eu que espantava os animais; mas como dizia o
burro da esquerda, ainda agora:  Onde est a justia deste mundo?

23 de outubro

Todas as coisas tm a sua
filosofia. Se os dois ancios que o bond eltrico atirou para a
eternidade esta semana, houvessem j feito por si mesmos o que lhes fez o
bond, no teriam entestado com o progresso que os eliminou.  duro dizer;
duro e ingnuo, um pouco  La Palisse; mas  verdade. Quando um grande poeta
deste sculo perdeu a filha, confessou, em versos doloridos, que a criao era
uma roda que no podia andar sem esmagar algum. Por que negaremos a mesma
fatalidade aos nossos pobres veculos?

H terras, onde as companhias
indenizam as vtimas dos desastres (ferimentos ou mortes) com avultadas
quantias, tudo ordenado por lei.  justo; mas essas terras no tm, e deviam
ter, outra lei que obrigasse os feridos e as famlias dos mortos a indenizarem
as companhias pela perturbao que os desastres trazem ao horrio do servio.
Seria um equilbrio de direitos e de responsabilidades. Felizmente, como no
temos a primeira lei, no precisamos da segunda, e vamos morrendo com a nica
despesa do enterro e o nico lucro das oraes.

Falo sem interesse. Dado que
venhamos a ter as duas leis, jamais a minha viva indenizar ou ser indenizada
por nenhuma companhia. Um precioso amigo meu, hoje morto, costumava dizer que
no passava pela frente de um bond, sem calcular a hiptese de cair entre
os trilhos e o tempo de levantar-se e chegar ao outro lado. Era um bom conselho,
como o Doutor Sovina era uma boa farsa, antes das farsas do Pena. Eu, o
Pena dos cautelosos, levo o clculo adiante: calculo ainda o tempo de escovar-me
no alfaiate prximo. Prximo pode ser longe, mas muito mais longe  a
eternidade.

Em todo caso, no vamos concluir
contra a eletricidade. Logicamente, teramos de condenar todas as mquinas, e,
visto que h naufrgios, queimar todos os navios. No, senhor. A necrologia dos
bonds tirados a burros  assaz comprida e lgubre para mostrar que o
governo de trao no tem nada com os desastres. Os jornais de quinta-feira
disseram que o carro ia apressado, e um deles explicou a pressa, dizendo que
tinha de chegar ao ponto  hora certa, com prazo curto. Bem; poder-se-iam
combinar as coisas, espaando os prazos e aparelhando carros novos, eltricos ou
muares, para acudir  necessidade pblica. Digamos mais cem, mais duzentos
carros. Nem s de po vive o acionista, mas tambm da alegria e da integridade
dos seus semelhantes.

Convenho que, durante uns quatro
meses, os bonds eltricos andem muito mais aceleradamente que os outros,
para fugir ao riso dos vadios e  toleima dos ignaros. Uns e outros imaginam que
a eletricidade  uma verso do processo culinrio  la minute, e podem
vir a enlamear o veculo com alcunhas feias. Lembra-me (era bem criana) que,
nos primeiros tempos do gs no Rio de Janeiro, houve uns dias de luz frouxa, de
onde os moleques sacaram este dito: o gs virou lamparina. E o dito ficou
e imps-se, e eu ainda o ouvi aplicar aos amores expirantes, s belezas murchas,
a todas as coisas decadas.

Ah! se eu for a contar memrias da
infncia, deixo a semana no meio, remonto os tempos e fao um volume. Paro na
primeira estao, 1864, famoso ano da suspenso de pagamentos (ministrio
Furtado); respiro, subo e paro em 1867, quando a febre das aes atacou a esta
pobre cidade, que s arribou  fora do quinino do desengano. Remonto ainda e
vou a...

Aonde? Posso ir at antes do meu
nascimento, at Law. Grande Law! Tambm tu tiveste um dia de celebridade;
depois, viraste embromador e caste na casinha da histria, o lugar dos
lava-pratos. E assim irei de sculo a sculo, at o paraso terrestre, forma
rudimentria do encilhamento, onde se vendeu a primeira ao do mundo. Eva
comprou-a  serpente, com gio, e vendeu-a a Ado, tambm com gio, at que
ambos faliram. E irei ainda mais alto, antes do paraso terrestre, ao Fiat
lux, que, bem estudado ao gs do entendimento humano, foi o princpio da
falncia universal.

No; cuidemos s da semana. A
simples ameaa de contar as minhas memrias diminuiu-me o papel em tal maneira,
que  preciso agora apertar as letras e as linhas.

Semana quer dizer finanas.
Finanas implicam financeiros. Financeiros no vo sem projetos, e eu no sei
formular projetos. Tenho idias boas, e at bonitas, algumas grandiosas, outras
complicadas, muito 2%, muito lastro, muito resgate, toda a tcnica da cincia;
mas falta-me o talento de compor, de dividir as idias por artigos, de
subdividir os artigos em pargrafos, e estes em letras a b c; sai-me tudo
confuso e atrapalhado. Mas por que no farei um projeto financeiro ou bancrio,
lanando-lhe no fim as palavras da velha praxe: salva a redao? Poderia
baralhar tudo,  certo; mas no se joga sem baralhar as cartas; de outro modo 
embaraar os parceiros.

Adeus. O melhor  ficar calado.
Sei que a semana no foi s de finanas, mas tambm de outras coisas, como a
crise de transportes, a carne, discursos extraordinrios ou explicativos, um
projeto de estrada de ferro que nos pe s portas de Lisboa, e a mulher de
Csar, que reapareceu no seio do parlamento. Vi entrar esta clebre senhora por
aquela casa, e, depois de alguns minutos, via-se sair. Corri  porta e detive-a:
 Ilustre Pompia, que vieste fazer a esta casa?  Obedecer ainda uma vez 
citao da minha pessoa. Que queres tu? meu marido lembrou-se de fazer uma
bonita frase, e entregou-me por todos os sculos a amigos, conhecidos e
desconhecidos.

30 de outubro

Tempos do papa! tempos dos
cardeais! No falo do papa catlico, nem dos cardeais da santa Igreja Romana,
mas do nosso papa e dos nossos cardeais. F. Otaviano, ento jornalista, foi quem
achou aquelas designaes para o Senador Eusbio e o estado-maior do Partido
Conservador. Era eu pouco mais que menino...

Fica entendido que, quando eu
falar de fatos ou pessoas antigas, estava sempre na infncia, se  que seria
nascido. No me faam mais idoso do que sou. E depois, o que  idade? H dias,
um distinto nonagenrio apertava-me a mo com fora e contava-me as vivas
impresses que lhe deixara a obra de Bryce acerca dos Estados Unidos; acabava de
l-la,  dois grossos volumes, como sabem. E despediu-se de mim, e l se foi a
andar seguro e lpido. Realmente, os anos nada valem por si mesmos. A questo 
saber agent-los, escov-los bem, todos os dias, para tirar a poeira da
estrada, traz-los lavados com gua de higiene e sabo de filosofia.

Repito, era pouco mais que um
menino, mas j admirava aquele escritor fino e sbrio, destro no seu ofcio. A
atual mocidade no conheceu Otaviano; viu apenas um homem avelhantado e
enfraquecido pela doena, com um resto plido daquele riso que Voltaire lhe
mandou do outro mundo. Nem resto, uma sombra de resto, talvez uma simples
reminiscncia deixada no crebro das pessoas que o conheceram entre trinta e
quarenta anos.

Um dia, um domingo, havia
eleies, como hoje. Papa e cardeais tinham o poder nas mos, e, sendo o regmen
de dois graus, entraram eles prprios nas chapas de eleitores, que eram
escolhidos pelos votantes. Os liberais resolveram lutar com os conservadores,
apresentaram chapas suas e os desbarataram. O pontfice, com todos os membros do
consistrio, mal puderam sair suplentes. E Otaviano, frtil em metforas,
chamou-lhes esquifes. Mais um esquife, dizia ele no Correio
Mercantil, durante a apurao dos votos. Luta de energias, luta de motejos.
Rocha, jornalista conservador, ria causticamente do lencinho branco de
Tefilo Otoni, o clebre leno com que este conduzia a multido, de parquia em
parquia, aclamando e aclamado. A multido seguia, alegre, tumultuosa, levada
por seduo, por um instinto vago, por efeito da palavra,  um pouquinho por
ofcio. No me lembra bem se houve alguma urna quebrada;  possvel que sim.
Hoje mesmo as urnas no so de bronze. No vou ao ponto de afirmar que no as
houve pejadas. Que  a poltica seno obra de homens? Crescei e
multiplicai-vos.

Hoje, domingo no h a mesma
multido, o eleitorado  restrito; mas podia e devia haver mais calor. Trata-se
no menos de que eleger o primeiro conselho municipal do Distrito Federal, que 
ainda e ser a capital verdadeira e histrica do Brasil. No  eleio que
apaixone, concordo; no h paixes puramente polticas. Nem paixes so coisas
que se encomendem, como partidos no so coisas que se evoquem. Mas (permitam-me
esta velha banalidade) h sempre a paixo do bem e do interesse pblico. Eia,
animai-vos um pouco, se no  tarde; mas, se  tarde, guardai-vos para a
primeira eleio que vier. Contanto que no quebreis urnas, nem as fecundeis  a
conselho meu,  agitai-vos, meus caros eleitores, agitai-vos um tanto
mais.

Por hoje, leitor amigo, vai
tranqilamente dar o teu voto. Vai anda, vai escolher os intendentes que devem
representar-nos e defender os interesses comuns da nossa cidade. Eu, se no
estiver meio adoentado, como estou, no deixarei de levar a minha cdula. No
leias mais ainda, porque  bem possvel que eu nada mais escreva, ou pouco. Vai
votar; o teu futuro est nos joelhos dos deuses, e assim tambm o da tua cidade;
mas por que no os ajudars com as mos?

Outra coisa que est nos joelhos
dos deuses  saber se a terceira prorrogao que o Congresso Nacional resolveu
decretar  a ltima e definitiva. Pode haver quarta e quinta. Daqui a censurar o
Congresso  um passo, e passo curto; mas eu prefiro ir  Constituinte, que  o
mesmo Congresso avant la lettre. Por que diabo fixou a Constituinte, em
quatro meses a sesso anual legislativa, isto , o mesmo prazo da Constituio
de 1824? Devia atender que outro  o tempo e outro o regmen.

Felizmente, li esta semana que vai
haver uma reviso de Constituio no ano prximo. Boa ocasio para emendar esse
ponto, e ainda outros, se os h, e creio que h. Nem faltar quem proponha o
governo parlamentar. Dado que esta ltima idia passe,  preciso ter j de
encomenda uma casaca, um par de colarinhos, uma gravata branca, uma pequena mala
com alocues brilhantes e andinas, para as grandes festas oficiais,  e um
Carnot, mas um Carnot autntico, que vista e profira todas aquelas coisas sem
significao poltica. Salvo se arranjarmos um meio de combinar os presidentes e
os ministros responsveis, um Congresso que mande um ministrio seu ao
presidente, para cumprir e no cumprir as ordens opostas de ambos. Enfim,
esperemos. O futuro est nos joelhos dos deuses.

Mas no me faas ir adiante,
leitor amado. Adeus, vai votar. Escolhe a tua intendncia e ficars com o
direito de gritar contra ela. Adeus.

6
de novembro

Vou contar s pressas o que me
acaba de acontecer.

Domingo passado, enquanto esperava
a chamada dos eleitores, sa  Praa do Duque de Caxias (vulgarmente Largo do
Machado) e comecei a passear defronte da igreja matriz da Glria. Quem no
conhece esse templo grego, imitado da Madalena, com uma torre no meio, imitada
de coisa nenhuma? A impresso que se tem diante daquele singular conbio, no 
crist nem pag; faz lembrar, como na comdia, o casamento do Gro-Turco com a
repblica de Veneza. Quando ali passo, desvio sempre os olhos e o pensamento.
Tenho medo de pecar duas vezes, contra a torre e contra o templo, mandando-os
ambos ao diabo, com escndalo da minha conscincia e dos ouvidos das outras
pessoas.

Daquela vez, porm, no foi assim.
Olhei, parei e fiquei a olhar. Entrei a cogitar se aquele ajuntamento hbrido
no ser antes um smbolo. A irmandade que mandou fazer a torre, pode ter
escrito, sem o saber, um comentrio. Sups batizar uma sinagoga (devia crer que
era uma sinagoga), e fez mais, comps uma obra representativa do meio e do
sculo. No h ali s um sino para repicar aos domingos e dias santos, com
afronta dos pagos de Atenas e dos cristos de Paris,  h talvez uma pgina de
psicologia social e poltica.

Sempre que entrevejo uma idia,
uma significao oculta em qualquer objeto, fico a tal ponto absorto, que sou
capaz de passar uma semana sem comer. Aqui, h anos, estando sentado  porta de
casa, a meditar no clebre axioma do Dr. Pangloss  que os narizes fizeram-se
para os culos, e que  por isso que usamos culos, sucedeu cair-me a vista no
cho, exatamente no lugar em que estava uma ferradura velha. Que haveria naquele
sapato de cavalo, to comido de dias e de ferrugem?

Pensei muito,  no posso dizer se
uma ou duas horas,  at que um claro sbito espancou as trevas do meu
esprito. A figura  velha, mas no tenho tempo de procurar outra. Cresci diante
de Pangloss. O grande filsofo, achando a razo dos narizes, no advertiu que,
ainda sem eles, podamos trazer culos. Bastava um pequeno aparelho de
barbantes, que fosse por cima das orelhas at  nuca. Outro era o caso da
ferradura. S o duro casco do animal podia destinar-se  ferradura, uma vez que
no h meio de faz-la aderir sem pregos. Aqui a finalidade era evidente. De
concluso em concluso, cheguei s ave-marias; tinham-me j chamado para jantar
trs vezes; comi mal, digeri mal, e acordei doente. Mas tinha descoberto alguma
coisa.

Fica assim explicada a minha longa
meditao diante da torre e do templo, e o mais que me aconteceu. Cruzei os
braos nas costas, com a bengala entre as mos, apoiando-me nela. Algumas
pessoas que iam passando, ao darem comigo, paravam tambm e buscavam descobrir
por si o que  que chamava assim a ateno de um homem to grave. Foram-se
deixando estar; outras vieram tambm e foram ficando, at formarem um grupo
numeroso, que observava tenazmente alguma coisa dignssima da ateno dos
homens.  assim que eu admiro muita msica; basta ver o Artur Napoleo
parado.

Nem por isso interrompi as
reflexes que ia fazendo. Sim, aquela juno da torre e do templo no era
somente uma opinio da irmandade.

No tenho aqui papel para notar
todos os fenmenos histricos, polticos e sociais que me pareceram explicar o
edifcio do Largo do Machado; mas, ainda que o tivesse de sobra, calar-me-ia
pela incerteza em que ainda estou acerca das minhas concluses. Dois exemplos
estremes bastam para justificao da dvida. A nossa independncia poltica, que
os poetas e oradores, at 1864, chamavam grito de Ipiranga, no se pode
negar que era um belo templo grego. O tratado que veio depois, com algumas de
suas clusulas, e o seu imperador honorrio, alm do efetivo, poder ser
comparado  torre da matriz da Glria? No ouso afirm-lo. O mesmo digo do
quiosque. O quiosque, apesar da origem chinesa, pode ser comparado a um templo
grego, copiado de Paris; mas o charuto, o bom caf barato e o bilhete de loteria
que ali se vendem, sero acaso equivalentes daquela torre? No sei; nem tambm
sei se os foguetes que ali estouram, quando anda a roda e eles tiram prmios,
representam os repiques de sinos em dias de festa. H hesitaes grandes e
nobres, minha pobre alma as conhece.

Pelo que respeita especialmente ao
caso da matriz da Glria, concordo que ele exprima a reao do sentimento local
contra uma inovao apenas elegante. Ns mamamos ao som dos sinos e somos
desmamados com eles; uma igreja sem sino , por assim dizer, uma boca sem fala.
Da nasceu a torre da Glria. A questo no  achar esta explicao, 
complet-la.

No me tragam aqui o mestre
Spencer com os seus aforismos sociolgicos. Quando ele diz que o estado social
 o resultado de todas as ambies, de todos os interesses pessoais, de todos os
medos, veneraes, indignaes, simpatias, etc. tanto dos antepassados, como dos
cidados existentes  no serei eu que o conteste. O mesmo farei se ele me
disser, a propsito do templo grego: Posto que as idias adiantadas, uma vez
estabelecidas, atuem sobre a sociedade e ajudem o seu progresso ulterior, ainda
assim o estabelecimento de tais idias depende da aptido da sociedade para
receb-las. Na prtica,  o carter popular e o estado social que determinam as
idias que ho de ter curso; no so as idias correntes que determinam o estado
social e o carter...

Sim, concordo que o templo grego
sejam as idias novas, e o carter e o estado social a torre, que h de
sobrepor-se por muito tempo s belas colunas antigas, ainda que a gente se
oponha com toda a fora ao voto das irmandades...

Neste ponto das minhas reflexes,
o sino da torre bateu uma pancada, logo depois outra... Estremeo, acordo, eram
ave-marias. Sem saber o que fazia, corro  igreja para votar.

 Para qu? diz-me o
sacristo.

 Para votar.

 Mas eleio foi domingo
passado.

 Que dia  hoje?

 Hoje  sbado.

 Deus de misericrdia!

Senti-me fraco, fui comer alguma
coisa. Sete dias para achar a explicao da torre da Glria, uma semana perdida.
Escrevo este artigo a trouxe-mouxe, em cima dos joelhos, servindo-me de mesa um
exemplar da Bblia, outro de Cames, outro de Gonalves Dias, outro da
Constituio de 1824 e outro da Constituio de 1889,  dois templos gregos, com
a torre do meu nariz em cima.

13 de novembro

Quem se no preocupar com saber
(escreveu Grimm) que tal estava o tempo em Roma quando Csar foi assassinado,
nunca h de saber histria. H aqui uma grande verdade. Quando no a haja para
o resto do mundo, poderemos crer que h para ns. Um exemplo: O senado rejeitou
na sesso noturna de sexta-feira o projeto da Cmara dos Deputados, prorrogando
a sesso legislativa at o dia 22 do corrente. Era um duelo entre os dois ramos
do Congresso. A Cmara queria prorrogao para discutir a questo financeira e
os crditos militares. O senado que no queria questo financeira rejeitou o
projeto de prorrogao.

Os superficiais contentam-se em
ler a notcia do voto; os curiosos iro at a leitura dos nomes dos senadores
favorveis e diversos. Os espritos profundos, desde que aceitem a doutrina de
Grimm, procuraro saber se na noite da sexta-feira chovia ou ventava.

Ventava e chovia. Vou contar-lhes
o que se passou. De tarde, perto das seis horas, estando eu na Rua do Ouvidor,
soube que o senado faria sesso noturna para resolver sobre a prorrogao, isto
, rejeit-la, como lhe parecia bem. Resolvi ir ao senado. Corri para casa,
jantei s pressas, e mal comeava a beber o caf, o vento, que j era rijo
alguns minutos antes, entrou a soprar com violncia; logo depois principiou a
chover grosso, uma noite rspida. Trs vezes tentei sair; recuei sem
nimo.

Suponhamos agora que no chovia;
eu ia ao senado, trepava a uma das galerias para assistir aos debates. Ouviria
as melhores razes dos adversos  prorrogao e, no meio do pasmo de todos,
fazia de cima este breve discurso:

 Senhores, ouo que recusais a
prorrogao por falta de tempo necessrio ao debate do projeto
financeiro.

Realmente, dez dias no parecem
muito para matria to relevante. Permiti, porm, que vos cite um velho
parlamentar. Uma folha europia, no h muitas semanas, lembrava este dito de
Disraeli: Tenho ouvido muitos discursos na minha vida; alguns conseguiram mudar
a minha opinio; nenhum mudou o meu voto. Basta, pois uma prorrogao de
cinco minutos, dez, vinte, o tempo de votar, verificar a votao e arquivar o
projeto. No faamos correr mundo o boato falso que os debates alteram o voto
pr-existente. Disraeli, com todo o seu talento, no era nico.

Este simples discurso mudaria a
orientao dos espritos. No o fiz porque no sa de casa, e no sa de casa
porque choveu. E assim se podem explicar muitos outros sucessos
polticos.

Com certeza, no choveu em
Ouro-Preto, por ocasio da revoluo e da contra revoluo municipal. As guas
do cu, ou por serem do cu, ou por qualquer razo meteorolgica que me escapa,
no deixam sair as revolues  rua.

Em verdade, o guarda-chuva no 
revolucionrio, nem esttico. O nico homem que venceu com ele foi o rei Luiz
Filipe, e da lhe vem o apoio dos chapeleiros e toda a grande e pequena
burguesia. Mais tarde, no tendo querido unir o martelo ao guarda-chuva, perdeu
este e o cetro.

Mas tudo isto  histria antiga.
Moderno e antigo a um tempo  o novo desastre produzido pelo bond
eltrico, no por ser eltrico, mas por ser bond.

Parece que contundiu, esmagou, fez
no sei que leso a um homem. O cocheiro evadiu-se.

O cocheiro
evadiu-se. H estribilhos mais animados que
este: no creio que nenhum o alcance na regularidade e na graa do ritmo. O
cocheiro evadiu-se. O bond mata uma pessoa; dou que no a mate, que a
vtima perca simplesmente uma perna, um dedo, ou os sentidos. O cocheiro
evadiu-se. Ningum ignora que todas as revises de jornais tm ordem de traduzir
por aquelas palavras um sinal posto no fim das notcias relativas a desastres
veiculares. V, aceite, o adjetivo;  novo, mas  lgico. Patbulo, veculo.
Patibulares, veiculares.

H tempos (ponhamos cinqenta
anos), um cocheiro de bond descuidou-se e foi preso; mas o pblico teve
notcia de que, alm das qualidades tcnicas que o recomendavam, o automedonte,
ensinava um sobrinho a ler e escrever, e foi esta afirmao domstica do grande
princpio da instruo gratuita e obrigatria que o salvou. Talvez no fosse bem
assim; eu mal era nascido; ouvi a histria entre outras da minha infncia.
Tambm no sei se o bond era eltrico. No se diga que h culpa da parte
das testemunhas, em no prender os delinqentes e entreg-los  primeira praa
que acudiu. Estudemos o esprito dos tempos. H trinta anos, dado um delito, o
grito dos populares era este: pega! pega!

Nos ltimos dez ou quinze anos o
grito em caso de priso  este: No pode! no pode! Tudo est nestes dois
clamores. No primeiro caso, o povo constitua-se gratuita e estouvadamente em
auxiliar da fora. No segundo converteu-se em protesto vivo e baluarte das
liberdades pblicas.

Entenda-se bem que, falando de
cocheiros, no me restrinjo aos modestos funcionrios que tm exclusivamente
este nome, nem particularmente s companhias de bonds. H outras
companhias, cujos cocheiros tambm fogem, logo que h desastre,  ou desde que
os passageiros descobrem que andam sentados, mas que h muito tempo perderam as
calas e as pernas. H ainda outra espcie de cocheiros mais alevantados. Agora
mesmo, em Venezuela, quando o general Crespo tomou conta do carro do Estado, o
cocheiro intruso que l estava evadiu-se com dois milhes.

Fugir, afinal de contas,  um
instinto universal.

20 de novembro

Cariocas, meus patrcios, meus
amigos, coroai-vos de flores, trazei palmas nas mos e danai em torno de mim,
com p alterno,  maneira antiga. Sus, triste gente mal vista e malquista da
outra gente brasileira, que no adora a vossa frouxido, a vossa apatia, a vossa
personalidade perdida no meio deste grande e infinito bazar! Sus! Aqui vos trago
alguma coisa que repara as lacunas da histria, o mau gosto dos homens e o
equvoco dos sculos. Eia, amigos meus, patrcios meus, escutai!

Depois de um exrdio destes, 
impossvel dizer nada que produza efeito; pelo que  e para imitar os
pregadores, que depois do exrdio ajoelham-se no plpito, com cabea baixa, como
a receber a inspirao divina,  inclino-me por alguns instes, at que a
impresso passe: direi pois a grande notcia. Ajoelhai-vos tambm, e pensai em
outra coisa.

Pensai nas festas de 15 de
novembro na espcie de julgamento egpcio, que toda a imprensa fez nesse dia
acerca da Repblica. Houve acordo em reconhecer a aceitao geral das
instituies, e a necessidade de esforo para evitar erros cometidos. As festas
estiveram brilhantes. Notou-se,  verdade, a ausncia do corpo diplomtico no
palcio do governo. Espritos desconfiados chegaram a crer em algum acordo
prvio; mas esta idia foi posta de lado, por absurda.

No importa! Crdulo, quando
teima, teima. No faltou quem citasse o fato da nota coletiva acerca de uns
tristes lazaretos, para concluir que no somos amados dos outros homens, e dar
assim  ausncia coletiva um ar de nota coletiva. Explicao que nada explica,
porque se a gente fosse a amar a todas as pessoas a quem tem obrigao de tirar
o chapu, este mundo era vale de amores, em vez de ser um vale de
lgrimas.

No penseis mais nisso. Pensai
antes nas festas nacionais dos Estados, posto seja difcil, a respeito de
alguns, saber a verdade dos telegramas. Aqui esto dois da Fortaleza, Cear,
datados de 16. Um: Foi imenso o regozijo pelo aniversrio da proclamao da
Repblica. Outro: O dia 15 de novembro correu frio, no meio da maior
indiferena pblica. V um homem crer em telegramas! A mim custa-me muito;
Bismarck no cria absolutamente, tanto que confessa agora haver alterado a
notcia de um, para obrigar  guerra de 1870. Assim o diz um telegrama publicado
aqui, sexta-feira; mas  verdade que isto, dito por telegrama, no pode merecer
mais f que o dizer de outros telegramas. O melhor  esperar cartas.

Aqui est uma delias, e com tal
notcia que, antes de inspirar piedade, encher-nos- de orgulho. No h
telegrafices, nem para bem, nem para mal. Refiro-me quele engenheiro Bacelar e
quele empreiteiro Dionsio, que em Aiuruoca foram presos por um grupo de
calabreses, trabalhadores da linha frrea. O pagamento andava atrasado; os
calabreses, para haver dinheiro, pegaram dos dois pobres diabos, que iam de
viagem, e disseram a um terceiro que, antes de pagos, no lhes dariam liberdade,
e dar-lhe-iam a morte, se vissem aparecer fora. O companheiro veio aqui ver se
h meio de os resgatar. O caso  de meter piedade.

Sobretudo, como disse,  de causar
orgulho. Maom chamou a montanha, e, no querendo ela vir, foi ele ter com ela.
Ns chamamos a Calbria, e a Calbria acudiu logo. Vivam as regies dceis! 
certo que pagamos-lhe a passagem; mas era o menos que pedia a justia. O ato
agora praticado difere sensivelmente dos velhos costumes, porque a Calbria,
desta vez, era e  credora; trabalhou e no lhe pagaram. Mas, enfim, o uso de
prender gente at que ela lhe pague, com ameaa de morte,  assaz duro. Antes a
citao pessoal e a sentena impressa; porque, se o devedor tem certo pejo, faz
o diabo para pagar a divida, por um ou por outro modo: se no o tem, que vale a
publicidade do caso e do nome? Talvez a publicidade traga vantagens especiais ao
condenado: perde os dedos e ficam-lhe os anis. Napoleo dizia: On est
consider  Paris,  cause de sa voiture, et non  cause de sa vertu.
Por que
no h de suceder a mesma coisa na Calbria?

Outro assunto que merece
particularmente a vossa ateno,  a reunio da intendncia, a primeira eleita,
a que vem inaugurar o regmen constitucional da cidade. Corresponder s
esperanas pblicas? Vamos crer que sim; crer faz bem, crer  honesto. Quando o
mal vier, se vier, dir-se- mal dele. Se vier o bem, como  de esperar, hosanas
 intendncia. Por ora, boa viagem!

E agora, patrcios meus, cariocas
da minha alma, vamos concluir o sermo, cujo exrdio l ficou acima.

Sabeis que o nosso distrito  a
capital interina da Unio. J se est trabalhando em medir e preparar a capital
definitiva. Eis a disposio constitucional;  o art. 5, ttulo F: Fica
pertencendo  Unio, no planalto central da Repblica, uma zona de 14.400
quilmetros quadrados, que ser oportunamente demarcada, para nela
estabelecer-se a futura capital federal.  Pargrafo nico. Efetuada a mudana
da capital, o atual distrito federal passar a constituir um Estado.

Eis o ponto do sermo. Temos de
constituir em breve um Estado. O nome de capital federal, que alis no 
propriamente um nome, mas um qualificativo legal, ir-se- com a mudana para a
capital definitiva. Haveis de procurar um nome. Rio de Janeiro no pode
ser, j porque h outro Estado com esse nome, j porque no  verdade; basta de
agentar com um rio que no  rio. Que nome h de ser? A primeira idia que pode
surgir em alguns espritos distintos, mas preguiosos,  aplicar ao Estado o uso
de algumas ruas,  Estado do Dr. Joo Mariz, por exemplo,  uso que, na Amrica
do Norte,  limitado aos chamados homens-sandwichs, uns sujeitos metidos
entre duas tbuas, levando escrita em ambas esta ou outra notcia: Dr. Dixs
celebrated female powders; guaranted superior to ali others. No  bom
sistema para intitular Estados.

Tambm no vades fabricar nomes
grandiosos: Nova Londres ou Novssima York. Prata de casa, prata de
casa.

No me cabe a escolha; sou duas
vezes incompetente, por lei e por natureza. E depois, dou para piegas: podia
adotar Carioca mesmo,  ou Guanabara, usado pelos poetas da outra gerao.
Dir-me-eis que  preciso contar com o mundo, que s conhece o antigo Rio de
Janeiro e no se acostumar  troca. Isso  convosco, patrcios meus. Nem eu vos
anunciei a princpio uma grande descoberta seno para ter o gosto de trazer-vos
at aqui, coluna abaixo, ansioso,  espera do segredo, e olhando apenas um fim
de semana, um adeus e um ponto final.

27 de novembro

Um dos meus velhos hbitos  ir,
no tempo das Cmaras, passar as horas nas galerias. Quando no h Cmaras, vou 
municipal ou intendncia, ao jri, onde quer que possa fartar o meu amor dos
negcios pblicos, e mais particularmente da eloqncia humana. Nos intervalos,
fao algumas cobranas,  ou qualquer servio leve que possa ser interrompido
sem dano, ou continuado por outro. J se me tm oferecido bons empregos,
largamente retribudos, com a condio de no freqentar as galerias das
Cmaras. Tenho-os recusado todos; nem por isso ando mais magro.

Nas galerias das Cmaras ocupo
sempre um lugar na primeira fila dos bancos; leva-se mais tempo a sair, mas como
eu s saio no fim, e s vezes depois do fim, importa-me pouco essa dificuldade.
A vantagem  enorme; tem-se um parapeito de pau, onde um homem pode encostar os
braos e ficar a gosto. O chapu atrapalhou-me muito no primeiro ano (1857), mas
desde que me furtaram um, meio novo, resolvi a questo definitivamente. Entro,
ponho o chapu no banco e sento-me em cima. Venham c busc-lo!

No me perguntes a que vem esta
pgina dos meus hbitos.  ler, se queres. Talvez haja alguma concluso. Tudo
tem concluso neste mundo. Eu vi concluir discursos, que ainda agora suponho
estar ouvindo.

Cada coisa tem uma hora prpria,
leitor feito s pressas. Na galeria,  meu costume dividir o tempo entre ouvir e
dormir. At certo ponto, velo sempre. Da em diante, salvo rumor grande,
apartes, tumulto, cerro os olhos e passo pelo sono. H dias em que o guarda vem
bater-me no ombro.

 Que ?

 Saia da, j acabou.

Olho, no vejo ningum, recompondo
o chapu e saio. Mas estes casos no so comuns.

No Senado, nunca pude fazer a
diviso exata, no porque l falassem mal; ao contrrio, falavam geralmente
melhor que na outra Cmara. Mas no havia barulho. Tudo macio. O estilo era to
apurado, que ainda me lembro certo incidente que ali se deu, orando o finado
Ferraz, um que fez a lei bancria a de 1860. Creio que era ento Ministro da
Guerra, e dizia, referindo-se a um senador: Eu entendo, Sr. presidente, que o
nobre senador no entendeu o que disse o nobre Ministro da Marinha, ou fingiu
que no entendeu. O Visconde de Abaet, que era o presidente, acudiu logo: A
palavra fingiu acho que no  prpria. E o Ferraz replicou: Peo perdo
a V. Exa., retiro a palavra.

Ora, dem l interesse s
discusses com estes passos de minuete! Eu, mal chegava ao Senado, estava com os
anjos. Tumulto, saraivada grossa, caluniador para c, caluniador para l, eis o
que pode manter o interesse de um debate. E que  a vida seno uma troca de
cachaes?

A Repblica trouxe-me quatro
desgostos extraordinrios; um foi logo remediado; os outros trs no. O que ela
mesma remediou, foi a desastrada idia de meter as cmaras no palcio da Boa
Vista. Muito poltico e muito bonito para quem anda com dinheiro no bolso; mas
obrigar-me a pagar dois nqueis de passagem por dia, ou a ir a p, era um
despropsito. Felizmente, vingou a idia de tornar a pr as Cmaras em contato
com o povo, e descemos da Boa Vista.

No me falem nos outros trs
desgostos. Suprimir as interpelaes aos ministros, com dia fixado e anunciado;
acabar com a discusso da resposta  fala do trono; eliminar as apresentaes de
ministrios novos...

Oh! as minhas belas apresentaes
de ministrios! Era um regalo ver a Cmara cheia, agitada, febril, esperando o
novo gabinete. Moas nas tribunas, algum diplomata, meia dzia de senadores. De
repente, levantava-se um sussurro, todos os olhos voltavam-se para a porta
central, aparecia o ministrio com o chefe  frente, cumprimentos  direita e 
esquerda. Sentados todos, erguia-se um dos membros do gabinete anterior e
expunha as razes da retirada; o presidente do conselho erguia-se depois,
narrava a histria da subida, e definia o programa. Um deputado da oposio
pedia a palavra, dizia mal dos dois ministrios, achava contradies e
obscuridades nas explicaes, e julgava o programa insuficiente. Rplica,
trplica, agitao, um dia cheio.

Justia, justia. H usos daquele
tempo que ficaram. s vezes, quando os debates eram calorosos,  e
principalmente nas interpelaes,  eu da galeria entrava na dana, dava palmas.
No sei quando comeou este uso de dar palmas nas galerias. Deve vir de muitos
anos. O presidente da Cmara bradava sempre: As galerias no podem fazer
manifestaes! Mas era como se no dissesse nada. Na primeira ocasio, tornava
a palmear com a mesma fora. Vieram vindo depois os bravos, os apoiados, os
no-apoiados, uma bonita agitao. Confesso que eu nem sempre sabia das razes
do clamor, e no raro me aconteceu apoiar dois contrrios. No importa;
liberdade, antes confusa, que nenhuma.

Esse costume prevaleceu, no
acompanhou os que perdi, felizmente. Em verdade, seria lgubre, se, alm de me
tirarem as interpelaes e o resto, acabassem metendo-me uma rolha na boca. Era
melhor assassinar-me logo, de uma vez. A liberdade no  surda-muda, nem
paraltica. Ela vive, ela fala, ela bate as mos, ela ri, ela assobia, ela
clama, ela vive da vida. Se eu na galeria no posso dar um berro, onde  que o
hei de dar? Na rua, feito maluco?

Assim continuei a intervir nos
debates, e a fazer crescer o meu direito poltico; mas estava longe de esperar o
reconhecimento imediato, pleno e absoluto que me deu a intendncia nova. Tinha
ganho muito na outra galeria; enriqueci na da intendncia, onde o meu direito de
gritar, apupar e aplaudir foi bravamente consagrado. No peo que se ponha isto
por lei, porque ento, gritando, apupando ou aplaudindo, estarei cumprindo um
preceito legal, que  justamente o que eu no quero. No que eu tenha dio 
lei; mas no tolero opresses de espcie alguma, ainda em meu
benefcio.

O melhor que h no caso da
intendncia nova,  que ela mesma deu o exemplo, excitando-se de tal maneira,
que fez esquecer os mais belos dias da Cmara. Em minha vida de galeria, que j
no  curta, tenho assistido a grandes distrbios parlamentares; raro se ter
aproximado das estrias da nova representao do municpio. No desmaie a nobre
corporao. Berre, ainda que seja preciso trabalhar.

Pela minha parte, fiz o que pude,
e estou pronto a fazer o que puder e o que no puder. Embora no tenha a
superstio do respeito, quero que me respeitem no exerccio de um jus adquirido
pela vontade e confirmado pelo tempo. J'y suis, j'y reste, como tenho
ouvido dizer nas Cmaras. Creio que  latim ou francs. Digo, por linguagem, que
ainda posso ir adiante; e finalmente que, se h por a alguma frase menos
incorreta,  reminiscncia da tribuna parlamentar ou judiciria. No se arrasta
uma vida inteira de galeria em galeria sem trazer algumas amostras de
sintaxe.

4
de dezembro

Os acontecimentos parecem-se com
os homens. So melindrosos, ambiciosos, impacientes, o mais pfio quer aparecer
antes do: mais idneo, atropelam tudo, sem justia nem modstia... E quando
todos so graves? Ento  que  ver um miservel cronista, sem saber em qual
pegue primeiro. Se vai ao que lhe parece mais grave de todos, ouve clamar outro
que lhe no parece menos grave, e hesita, escolhe, torna a escolher, larga,
pega, comea e recomea, acaba e no acaba...

Justamente o que ora me sucede.
Toda esta semana falou-se na invaso do Rio Grande do Sul. Realmente, a notcia
era grave, e, embora no se tivesse dado invaso, falou-se dela por vrios
modos. Alguns tm como iminente, outros provvel, outros possvel, e no raros a
crem simples conjetura. Trouxe naturalmente sustos, ansiedade, curiosidade, e
tudo o mais que aquela parte da Repblica tem o condo de acarretar para o resto
do pas. Imaginei que era assunto legtimo para abrir as portas da
crnica.

Mal comeo, chega-me aos ouvidos o
clamor dos banqueiros que voltam do palcio do governo, aonde foram conferenciar
sobre a crise do dinheiro. E dizem-me eles que a questo financeira e bancria
afeta a toda a Repblica, ao passo que a invaso, grave embora, toca a um s
Estado. A prioridade  da crise, alm do mais, porque existia e existir, at
que algum a decifre e resolva.

Bem; atendamos  crise financeira.
Mas, eis aqui, ouo a voz do general Pego dizendo que a crise poltica do sul
afeta a todos os Estados, e pode pr em risco as prprias instituies. Uma
folha desta capital, o Tempo, pesando palavras daquele ilustre chefe,
declara que qualquer que seja o desenlace da luta (se luta houver) no cr que
a federao fique perdida, e com ela a forma republicana. De onde se infere que
depende a Repblica da federao,  ao contrrio de outra folha desta mesma
capital, o Rio News, que acha a Repblica praticvel, e a federao
impraticvel. Eu, sempre divergente do gnero humano, quisera adotar uma
opinio, mas no posso,  ao menos, por ora; esperemos que os acontecimentos me
dem lugar.

Como no me do lugar, vou fazer
com eles o que o senado no quis fazer com a questo financeira; resolv-los,
liquid-los. Talvez algum prefira ver-me calar, como o senado, e ir para casa
dormir. Mas, ai! uma coisa  ser legislador, outra  ser narrador. O senado tem
o poder de fechar os olhos, esperar o sono, no ver as coisas, nem sonhar com
elas; tem at o poder de ficar admirado, quando acordar e vir que elas
cresceram, tais como crescem as plantas, quando dormimos,  ou como ns
crescemos tambm. Todos estes poderes faltam ao simples contador da
vida.

V, liquido tudo. Liquido a jovem
intendncia, que aqui vem eleita e verificada. Grave sucesso, relativamente ao
distrito federal, pede, reclama o seu posto, e eu respondo que ela o tem a, ao
p dos maiores. No parece logo, por causa do nosso mtodo de escrever seguido.
Felizes os povos que escrevem por linhas verticais! Podem arranjar as crnicas
de maneira que os acontecimentos fiquem sempre em cima; a parte inferior das
linhas cabe s consideraes de menor monta, ou absolutamente estranhas.
Moralmente,  assim que escrevo.

Fica a, intendncia amiga, onde
te ponho, para que todos te vejam e te perguntem o que sair de ti. Responde que
s desejas o bem e o acertado; mas que tu mesma no sabes se h de sair o bem,
se o mal. O futuro a Deus pertence, dizem os cristos. Os pagos diziam mais
poeticamente:  o futuro repousa nos joelhos dos deuses. E sendo certo que, por
uma lei de linguagem, figuram as deusas entre os deuses,  doce crer que o
futuro esteja tambm nos joelhos das moas celestes. Antes a nossa cabea que o
futuro. A Intendncia, deusa desta cidade, tem nos seus joelhos o futuro dela.
Cabe-lhe ensai-la a governar-se a si prpria  ou a confessar que no tem
vocao representativa.

E a chegam outros acontecimentos
graves da semana. Para longe, caf falsificado, caf composto de milho podre e
carnaba! Geraes de lavradores, que dormis na terra me do caf; lavradores,
que ora suais trabalhando, portos de caf, alfndegas, saveiros, navios que
levais este produto rei para toda a terra, ficai sabendo que a capital do caf
bebe caf falsificado. Como faremos eleies puras, se falsificamos o caf, que
nos sobra? Esprito da fraude, talento da embaadela, vocao da mentira, fora
 engolir-vos tambm de mistura com a honestidade de tabuleta.

Outro acontecimento grave, o
anarquismo, tambm aqui fica mencionado, com o seu lema: Chi non lavora non
mangia. H divergncias, sobre os limites da propaganda de uma opinio. O
positivismo, por rgo de um de seus mais ilustres e austeros corifeus, veio 
imprensa defender o direito de propagar as idias anarquistas, uma vez que no
cheguem  execuo. Acrescenta que s a religio da humanidade pode resolver o
problema social, e conclui que os maus constituem uma pequena
minoria...

Uma pequena minoria! Ests bem
certo disso, positivismo ilustre? Uma pequena minoria de maus  e tudo o mais
puro, santo e benfico... Talvez no seja tanto, amigo meu, mas no brigaremos
por isso. Para ti, que prometes o reino da Humanidade na terra, deve ser assim
mesmo. Jesus, que prometia o reino de Deus nos cus, achava que muitos seriam os
chamados e poucos os escolhidos. Tudo depende da regio e da coroa. Em um ponto
esto de acordo a igreja positivista e a igreja catlica. Estas (assustadoras
utopias) s podem ser suplantadas pelas teorias cientficas sobre o mundo, a
sociedade e o homem, que acabaro por fazer com que a razo reconhea a sua
impotncia, e a necessidade de subordinar-se  f... Que f? Eis a
concluso do trecho de Teixeira Mendes: no mais em Deus; mas na Humanidade.
Eis a a diferena.

Pelo que me toca, eterno
divergente, no tenho tempo de achar uma opinio mdia. Temo que a Humanidade,
viva de Deus, se lembre de entrar para um convento; mas tambm posso temer o
contrario. Questo de humor. H ocasies em que, neste fim de sculo, penso o
que pensava h mil e quatrocentos anos um autor eclesistico, isto , que o
mundo est ficando velho. H outras ocasies em que tudo me parece verde em
flor.

11 de dezembro

Dizem as sagradas letras que o
homem nasceu simples, mas que ele prprio se meteu em infinitas questes. O
mesmo direi das questes. Nascem simples; depois complicam-se... Vede a questo
Chopim.

A questo Chopim  a mais antiga
de todas as questes deste mundo. Nasceu com o primeiro homem. Toda gente sabe
que o paraso terreal foi obra de um sindicato composto de Ado e Eva, para o
fim de pr a caminho a concesso da vida. O servio da organizao era gratuito;
mas a serpente persuadia aos dois organizadores da companhia que o art. 3. 
3. do decreto n 8 do primeiro ano da criao (data transferida mais tarde para
17 de janeiro de 1890) autorizava a tirar as vantagens e prmios do capital
realizado, e no dos lucros lquidos. Ado e Eva recusaram crer, a princpio;
achavam o texto claro. No desanimou a serpente, e provou-lhes: 1. que as
publicaes do Senhor eram incorretas pela ausncia obrigada da imprensa; 2.
que muitas outras companhias se tinham organizado, de acordo com a explicao
que ela dava, a das abelhas, a dos castores, a das pombas, a dos elefantes, e a
dos lobos e cordeiros; estes fizeram uma sociedade juntos, assaz engenhosa,
porque no havia dividendos, mas divididos.

Ado e Eva cederam  evidencia.
No fao, ao cristo que me l, a injustia de supor que no conhece as palavras
do Senhor a Ado: Pois que comeste da rvore que eu te havia ordenado que no
comeces (o art. 3  3), a terra te produzir espinhos e abrolhos. Da as
calamidades deste mundo; e, para s falar de Chopim, um processo, uma reunio,
uma desunio, lutas, capotes rasgados, capotes cerzidos, capotes outra vez
rasgados, o diabo!

Agora, se notarmos que ao p de
uma tal questo teve esta semana muitas outras de vrio gnero... Melhor  no
falar de nenhuma. Que direi do conflito Paula Ramos, se o no entendo? H
telegramas que atribuem o no desembarque daquele cavalheiro a agentes da
autoridade; outros afirmam que foi o povo. Os primeiros dizem que a indignao 
geral; outros que, ao contrrio, s  geral a alegria.

Outra questo complicada 
(ornitologicamente falando) a dos pica-paus e dos vira-bostas, que
so os nomes populares dos partidos do Rio Grande do Sul. Eu, quanto  poltica
daquela regio, sei unicamente um ponto,  que a Constituio poltica do Estado
admite o livre exerccio da medicina. Conquanto seja lei somente no Estado, no
faltar quem deseje v-la aplicada, quando menos ao distrito federal; eu, por
exemplo. Neste caso, entendo que no se pode cumprir a notcia dada pelo Tempo
de hoje, a saber, que vai ser preso um curandeiro conhecidssimo, do qual 
vtima uma pessoa de posio e popular entre ns.

No h curandeiros. O direito de
curar  equivalente ao direito de pensar e de falar. Se eu posso extirpar do
esprito de um homem certo erro ou absurdo, moral ou cientfico, por que no lhe
posso limpar o corpo e o sangue das corrupes? A eventualidade da morte no
impede a liberdade do exerccio. Sim, pode suceder que eu mande um doente para a
eternidade; mas que  a eternidade se no uma extenso do convento, ao qual
posso muito bem conduzir outro enfermo pela cura da alma? No h curandeiros, h
mdicos sem medicina, que  outra coisa.

No menos complexa foi a ressaca.
Deixem-me confessar um pecado; eu gosto de ver o mar agitado, encapelado,
comendo e vomitando tudo diante de si. Compreendo a observao de Lucrcio. H
certo prazer em ver de terra os nufragos lutando com o temporal. Nem sempre, 
verdade; agora, por exemplo, no gostei de ver naufragar uma parte da ponte da
Companhia de Melhoramentos da Cidade do Rio de Janeiro,  no porque seja
acionista, nem por qualquer sentimento esttico; mas, porque tenho particular
amor s obras paradas. As montanhas russas da Glria so a minha consolao. O
tapume da Carioca deu-me horas deliciosas.

E no param aqui as questes
complicadas. Um telegrama de Frana, noticiando os trabalhos da comisso de
inqurito parlamentar acerca do canal do Panam, acrescenta: Documentos achados
por ela constituem novas provas da pirataria exercida em torno daquele
extraordinrio empreendimento. Os jornais de maior circulao bradam que os
crimes cometidos precisam de um castigo correspondente  leso enorme que sofre
o povo com o processo da empresa.

Tudo o que abala aquele pas, pode
dizer-se que abala tambm o nosso. Pelo que respeita especialmente  patifaria
Panam, repitamos, com o Times de 16 do ms passado, que a deciso que
mandou meter em processo Lesseps e outros diretores da companhia,  um choque
para o mundo civilizado.

Na verdade, ser triste e duro que
Lesseps, carregado de glrias e de anos (oitenta e oito!) v acabar os seus dias
na cadeia. Esperemos que nada lhe seja achado. Oremos pelo autor de Suez. Oxal
que, no meio das provas descobertas e das que vierem a descobrir-se, nada haja
que obrigue a justia a puni-lo. A lei que se desafronte com outros, saindo
ileso e sem mcula o nome do grande homem, que a folha londrina considera o
maior dos franceses vivos. No faltam rus na porcaria Panam; sejam eles
castigados, como merecem. O que eu desejo, e o que a Frana no me pode levar a
mal, porque no lhe aconselho frouxides prprias de uma sociedade inconsciente,
 que Lesseps saia puro. Quando um homem tem a gloria de Suez e o perptuo
renome,  triste v-lo metido com papeluchos falsos.

18 de dezembro

Ontem, querendo ir pela Rua da
Candelria, entre as da Alfndega e Sabo (velho estilo), no me foi possvel
passar, tal era a multido de gente. Cuidei que havia briga, e eu gosto de ver
brigas; mas no era. A massa de gente tomava a rua, de uma banda a outra, mas
no se mexia; no tinha a ondulao natural dos cachaes. Procisso no era;
no havia tochas acessas nem sobrepelizes. Sujeito que mostrasse artes de macaco
ou vendesse drogas, ao ar livre, com discursos, tambm no.

Estava neste ponto, quando vi
subir a Rua da Alfndega um digno ancio, a quem expus as minhas
dvidas.

 No  nada disso, respondeu-me
cortesmente. No h aqui procisso nem macaco. Briga, no sentido de murros
trocados, tambm no h,  pelo menos, que me conste. Quanto  suposio de
estar a alguma pessoa apregoando medalhinhas e vidrinhos, como os bufarinheiros
da Rua do Ouvidor, esquina da do Carmo ou da Primeiro de maro, menos
ainda.

 J sei,  uma seita religiosa
que se rene aqui para meditar sobre as vaidades do mundo,  um troo de
budistas...

 No, no.

 Adivinhei:  um
meeting.

 Onde est o orador?

 Esperam o orador.

 Que orador? que meeting?
Oua calado. O senhor parece ter o mau costume de vir apanhar as palavras dentro
da boca dos outros. Sossegue e escute.

 Sou todo ouvidos.

 Este  o clebre
encilhamento.

 Ah!

 V? H mais tempo teria tido o
gosto dessa admirao, se me ouvisse calado. Este  o encilhamento.

 No sabia que era
assim.

 Assim como?

 Na rua. Cuidei que era uma vasta
sala ou um terreno fechado, particular ou pblico, no este pedao de rua
estreita e aborrecida. E olhe que nem h meio de passar; eu quis romper, pedi
licena... Entretanto, creio que temos a liberdade de circulao.

 No.

 Como no?

 Leia a Constituio, meu senhor,
leia a Constituio. O art. 72  o que compendia os direitos dos nacionais e
estrangeiros; so trinta e um pargrafos; nenhum deles assegura o direito de
circulao... O direito de reunio, porm  positivo. Est no  8: A todos 
lcito reunirem-se livremente e sem armas, no podendo intervir a polcia, seno
para manter a ordem pblica. Estes homens que aqui esto trazem
armas?

 No as vejo.

 Esto desarmados, no perturbam
a ordem pblica, exercem um direito, e, enquanto no infringirem as duas
clusulas constitucionais, s a violncia os poder tirar daqui. Houve j uma
tentativa disso. Eu, se fosse comigo, recorria aos tribunais, onde h justia.
Se eles ma negassem, pedia o jri, onde ela  indefectvel, como na velha
Inglaterra. Note que a violncia da polcia j deu algum lucro. Como as
molculas do encilhamento, por uma lei natural, tendiam a unir-se logo depois de
dispersados, a polcia, para impedir a recomposio, fazia disparar de quando em
quando duas praas de cavalaria. Mal sabiam elas que eram simples animais de
corrida. As pessoas que as viam correr, apostavam sobre qual chegaria primeiro a
certo ponto.   a da esquerda.   a da direita.  Quinhentos mil-ris. 
Aceito.  Pronto.  Chegou a da esquerda: d c o dinheiro.

 De maneira que a prpria
autoridade...

 Exatamente. Ah! meu caro,
dinheiro  mais forte que amor. Veja o negcio do chocolate. Chocolate parece
que no convida  falsificao; tem menos uso que o caf. Pois o chocolate 
hoje to duvidoso como o caf. Entretanto, ningum dir que os falsificadores
sejam homens desonestos nem inimigos pblicos. O que os leva a falsificar a
bebida no  o dio ao homem. Como odiar o homem, se no homem est o fregus? 
o amor da pecnia.

 Pecnia? chocolate?

 Sim, senhor, um negcio que se
descobriu h dias. O senhor, ao que parece, no sabe o que se passa em torno de
ns. Aposto que no teve notcia da revoluo de Niteri?

 Tive.

 Eu tive mais que notcia, tive
saudades. Quando me falaram em revoluo de Niteri, lembrei-me dos tempos da
minha mocidade, quando Niteri era Praia Grande. No se faziam ali revolues,
faziam-se patuscadas. Ia-se de falua, antes e ainda depois das primeiras barcas.
Quem ligou nunca Niteri e So Domingos a outra idia que no fosse noite de
luar, descantes, moas vestidas de branco, versos, uma ou outra charada? Havia
presidente, como h hoje; mas morava do lado de c. Ia ali s onze horas,
almoado, assinava o expediente, ouvia uma dzia de sujeitos cujos negcios eram
todos a salvao pblica, metia-se na barca, e vinha ao Teatro Lrico ouvir a
Zecchini. Havia tambm uma assemblia legislativa; era uma espcie do antigo
Colgio de Pedro II, onde os moos tiravam carta de bacharel poltico, e
marchavam para So Paulo, que era a assemblia geral. Tempos! tempos!

 Tudo muda, meu caro senhor.
Niteri no podia ficar eternamente Praia Grande.

 De acordo; mas a lgrima 
livre.

  talvez a coisa mais livre
deste mundo, seno a nica. Que  a liberdade pessoal? O senhor vinha andando,
rua acima, encontra-me, fao-lhe uma pergunta, e aqui est preso h vinte
minutos.

 Pelo amor de Deus! Tomara eu
destes grilhes! So grilhes de ouro.

 Agradeo-lhe o favor. Nunca o
favor  to honroso e grande como quando sai da boca ungida pelo saber e pela
experincia; porque a bondade  prpria dos altos espritos.

 Julga-me por si;  o modo certo
de engrandecer os pequenos.

 O que engrandece os pequenos  o
sentimento da modstia, virtude extraordinria; o senhor a possui.

 Nunca me esquecerei deste feliz
encontro.

 Na verdade,  bom que haja
encilhamento; se o no houvesse, a rua era livre, como a lgrima, eu teria ido o
meu caminho, e no receberia este favor do Cu, de encontrar uma inteligncia
to culta. Aqui est o meu carto. Aqui est o meu carto.

 Aqui est o meu. Sempre s suas
ordens.

 Igualmente.

 ( parte) Que homem
distinto!

 ( parte) Que estimvel
ancio!

25 de dezembro

 desenganar. Gente que mamou
leite romntico, pode meter o dente no rosbife naturalista; mas em lhe cheirando
a teta gtica e oriental, deixa o melhor pedao de carne para correr  bebida da
infncia. Oh! Meu doce de leite romntico! Meu licor de Granada! Como ao velho
Goethe, aparecem novamente as figuras areas que outrora vi ante os meus olhos
turvos.

Com efeito, enquanto vs outros
cuidveis da reforma financeira e tantos fatos da semana, enquanto percorreis
as salas da nossa bela exposio preparatria da de Chicago, eu punha os olhos
em um telegrama de Constantinopla; publicado por uma das nossas folhas. No so
raros os telegramas de Constantinopla, temos sabido por eles como vai a questo
dos Dardanelos; mas desta vez alguma coisa me dizia que no se tratava de
poltica. Tirei os culos, limpei-os, fitei o telegrama. Que dizia o
telegrama?

Cinco odaliscas... Parei; lidas
essas primeiras palavras, senti-me necessitado de tomar flego. Cinco odaliscas!
Murmura esse nome, leitor: faze escorrer da boca essas quatro slabas de mel, e
lambe depois os beios, ladro. Pela minha parte, achei-me, em esprito, diante
de cinco lindas mulheres, como o vu transparente no rosto, as calas largas e
os ps metidos nas chinelas de marroquim amarelo,  babuchas, que  o
prprio nome. Todas as orientais de Hugo vieram chover sobre mim as suas
rimas de ouro e sndalo. Cinco odaliscas! Mas que fizeram essas cinco odaliscas?
No fizeram nada. Tinham sido mandadas de presente ao sulto. Pobres moas!
Entraram no harm, l estiveram no sei quanto tempo, at que foram agora
assassinadas... Sim, leitor compassivo, assassinadas por mandado das outras
mulheres que j l estavam, e por cimes...

No, aqui  fora interromper o
captulo, por um instante. No continuo sem advertir que o ano  bissexto, ano
de espantos. Mseras odaliscas! Assassinadas por cimes,  no do sulto, que
tem mais que fazer com o grande urso eslavo:  por cimes dos eunucos.
Singulares eunucos! eunucos de ano bissexto! Todo o harm posto em dio, em
tumulto, em sangue, por causa de meia dzia de guardas que o sulto tinha o
direito de supor fiis ao trono e  cirurgia.

O mundo caduca  reflexionou
tristemente um dia no sei que cardeal da Santa Igreja Romana; e fez bem em
morrer pouco depois, para no ouvir da parte do oriente este desmentido de
incrus:  O mundo reconstitui-se. O sulto tem ainda um recurso, dissolver o
corpo dos seus guardas, como fizemos aqui com o corpo de polcia de Niteri, e
recomp-lo com os companheiros de Maom II. Eles acudiro  chamada do
imperador; os velhos ossos cumpriro o seu dever, atarraxando-se uns nos outros,
e, com as rbitas vazias, com o alfanje pendente dos dedos sem carne. correro a
vigiar e defender as odaliscas antigas e recentes.

Ossos embora, ho de ouvir as
vozes femininas, e, pois que tiveram outra funo social, estremecero ao eco
dos sculos extintos. A frase vai-me saindo com tal ou qual ritmo que parece
verso. Talvez por causa do assunto. Falemos de um triste leito, que ouvi
grunhir agora mesmo no Largo da Carioca. Ia atado pelos ps, dorso para baixo,
seguro pela mo de um criado, que o levava de presente a algum;  vspera de
Natal. Presente cristo, costume catlico, parece que adotado para fazer figa ao
judasmo. Ser comido amanh, domingo; ir para a mesa com a antiga rodela de
limo,  maneira velha. Pobre leito! Berrava como se j o estivessem assando.
Talvez o desgraado houvesse notcia do seu destino, por algumas relaes
verbais que passem entre eles de pais a filhos. Pode ser que eles ainda aguardem
uma desforra. Tudo se deve esperar na terra. Tout arrive, como dizem os
franceses.

No quero dizer dos franceses o
que me est caindo da pena. Melhor  cal-lo. Como se no bastassem a essa
briosa nao os delitos de Panam, est a desmoralizar-se com o escndalo de
tantos processos. Corrupo escondida vale tanto como pblica; a diferena  que
no fede. Que  que se ganha em processar? Fulano corrompeu Sicrano. Pedro e
Paulo uniram-se para embaar uma rua inteira, fizeram vinte discursos, trinta
anncios, e deixaram os ouvintes sem passo que o silncio, alm de ser outro,
conforme o adgio rabe, tem a vantagem de fazer esquecer mais depressa. Toda a
questo  que os empulhados no se deixem embair outra vez pelos
empulhadores.

1893

1 de janeiro

Inventou-se esta semana um crime.
O nosso sculo tem estudado criminologia como gente. Os italianos esto entre os
que mais trabalham. Um dos meus vizinhos fronteiros, velho advogado, com as
reminiscncias que lhe ficaram do antigo teatro Provisrio (O belalma
innamorata!  Gran Dio, morir si giovane  Eccomi in Babilonia, etc, etc.),
vai entrando pelos livros florentinos e napolitanos, como o leitor e eu entramos
por um almanaque. Pois assegurou-me esse homem, h poucos minutos, que o crime
agora inventado no existe em tratadista algum moderno, seja de Parma ou da
Siclia.

Julgue o leitor por si mesmo. O
crime foi inventado em sesso pblica do conselho municipal. Trs intendentes,
no concordando com a verificao de poderes, a qual se estava fazendo entre os
demais eleitos, tinham recorrido ao presidente da Repblica e aos tribunais
judicirios, os quais todos se declararam incompetentes para decidir a questo.
No alcanando o que pediam, resolveram tomar assento no conselho municipal. Um
deles, em discurso cordato, moderado e elogiativo, declarou que, no ponto a que
as coisas chegaram, ele e os companheiros tinham de adotar um destes dois
alvitres: renunciar ou tomar posse das cadeiras. Renunciar (disse), entendemos
que no podamos faz-lo, porquanto seria um crime...

Deus me  testemunha de ter vivido
at hoje na persuaso de que renunciar um mandato qualquer, poltico ou no
poltico, era um dos direitos do homem. Cincinatus foi o primeiro que me meteu
esta idia na cabea, quando renunciou, ao cabo de seis dias, a ditadura que lhe
deram por seis meses. Agora mesmo, um deputado ingls, e dos melhores, Balfour,
sendo presidente de uma companhia que faliu, julgou-se inabilitado para a Cmara
dos Comuns, e renunciou a cadeira, como se falncia e parlamento fossem
incompatveis; mas cada um tem a sua opinio.

Hoje, no digo que tenha mudado
inteiramente de parecer, mas vacilo. Talvez a renncia seja realmente um crime.
Os crimes nascem, vivem e morrem como as outras criaturas. Matar, que  ainda
hoje uma bela ao nas sociedades brbaras,  um grande crime nas sociedades
polidas. Furtar pode no ser punido em todos os casos; mas em muitos o . Nunca
me h de esquecer um sujeito que, com o pretexto (alis honesto) de estar
chovendo, levou um guarda-chuva que vira  porta de uma loja; o jri provou-lhe
que a propriedade  coisa sagrada, ao menos, sob a forma de um guarda-chuva e
condenou-o no sei a quantos meses de priso.

Pode ter havido excesso no grau da
pena; mas a verdade  que de ento para c no me lembra que se haja furtado um
s guarda-chuva. As amostras vivem sossegadas s portas das fabricas.  assim
que os crimes morrem;  assim que a prpria idia de furto ou fraude (sinnimos
neste escrito) ir acabando os seus dias de labutao na terra. Um publicista
ingls, tratando do recm-finado Jay Gould, rei das estradas de ferro,
aplica-lhe o dito atribudo a Napoleo Bonaparte: Os homens da minha estofa no
cometem crimes. Dito autocrtico: a democracia, que invade tudo, h de p-lo ao
alcance dos mais modestos espritos.

No falando na renncia atribuda
ao presidente do Estado do Rio de Janeiro, notcia desmentida,  tivemos esta
semana a do Banco da Repblica, relativamente  sua personalidade, e vamos ter,
na que entra, a do Banco do Brasil, para formarem o banco do Estado. J se fala
na fuso de outros, no porque os alcance o recente decreto, mas porque um po
com um pedao  po e meio. Primo vivere. Crer que tornar o banquete de
1890-1891  grande iluso. Acabaram-se os belos dias de Aranjuez. Sintamos bem
a melancolia dos tempos. Compreendamos a inutilidade das brigas dirias e
pblicas entre companhias e trechos de companhia, entre diretorias e trechos de
diretoria. Melhor  ajuntar os restos do festim, mandar fazer o que a arte
culinria chama roupa velha, e com-la com os amigos, sem vinho. Caf sim, mas
de carnaba e milho podre.

H fatos mais extraordinrios que
a desolao de Babilnia. H o fato de um preto de Uberaba, que, fugindo agora
da casa do antigo senhor, veio a saber que estava livre desde 1888, pela lei da
abolio. Faz lembrar o velho adgio ingls: Esta cabana  pobre, est toda
esburacada; aqui entra o vento, entra a chuva, entra a neve, mas no entra o
rei. O rei no entrou na casa do ex-senhor de Uberaba, nem o presidente da
Repblica. O que completa a cena,  que uns oito homens armados foram buscar o
Joo (chama-se Joo)  casa do engenheiro Tavares, onde achara abrigo. Que ele
fosse agarrado, arrastado e espancado pelas ruas, no acredito; so floreios
telegrficos. Ainda se fosse de noite, v; mas s 2 horas da tarde... Creio
antes que a polcia prendesse j dois dos sujeitos armados e esteja procedendo
com energia. Agora, se a energia ir at o fim,  o que no posso saber, porque
(emendemos aqui o nosso Schiler), os belos dias de Aranjuez ainda no
acabaram.

Renunciar ao escravo  um crime,
ter dito o senhor de Uberaba, e j  outro voto para a opinio do nosso
intendente. Tambm os mortos no renunciam ao seu direito de voto, como parece
que sucedeu na eleio da Junta Comercial. Vieram os mortos, pontuais como na
bailada, e sem necessidade de tambor. Bastou a voz da chamada; ergueram-se,
derrubaram a laje do sepulcro e apresentaram-se com a cdula escrita. Se
assinaram o livro de presena, ignoro; a letra devia ser tremula,  tremula, mas
bem pensante.

Quem me parece que renuncia, sem
admitir que comete um crime,  o Senhor Deus Sabbaoth, trs vezes santo, criador
do cu e da terra. Consta-me que abandonou completamente este mundo, desgostoso
da obra, e que o passou ao diabo pelo custo. O diabo pretende organizar uma
sociedade annima, dividindo a propriedade em infinitas aes e prazo eterno. As
aes, que ele dir nos anncios serem excelentes, mas que no podem deixar de
ser execrveis, conta vend-las com grande gio. H quem presuma que ele fuja
com a caixa para outro planeta, deixando o nosso sem diabo nem Deus. Outros
pensam que ele reformar o mundo, contraindo um emprstimo com Deus, sem lhe
pagar um ceitil. Adeus, boas sadas do outro e melhores entradas
deste.

8
de janeiro

Quem houver acompanhado, durante a
semana, as recapitulaes da imprensa, ter-se- admirado de ver o que foi aquele
ano de 1892.

A igreja recomenda a confisso, ao
menos, uma vez cada ano. Esta prtica, alm das suas virtudes espirituais, 
til ao homem, porque o obriga a um exame de conscincia. Vivemos a retalho, dia
por dia, esquecendo uma semana por outra, e os onze meses pelo ltimo. Mas o
exame de conscincia evoca as lembranas idas, congrega os sucessos
distanciados, recorda as nossas malevolncias, uma ou outra dentada nos amigos e
at nos simples indiferentes. Tudo isso junto, em poucas horas, traz  alma um
espetculo mais largo e mais intenso que a simples vida seguida de um
ano.

O mesmo sucede ao povo. O povo
precisa fazer anualmente o seu exame de conscincia:  o que os jornais nos do
a ttulo de retrospecto. A imprensa diria dispersa a ateno. O seu ofcio 
contar, todas as manhs, as notcias da vspera, fazendo suceder ao homicdio
celebre o grande roubo, ao grande roubo a opera nova,  opera o discurso, ao
discurso o estelionato, ao estelionato a absolvio, etc. No  muito que um dia
pare, e mostre ao povo, em breve quadro, a multido de coisas que passaram,
crises, atos, lutas, sangue, ascenses e quedas, problemas e discursos, um
processo, um naufrgio. Tudo o que nos parecia longnquo aproxima-se; o apagado
revive; questes que levavam dias e dias so narradas em dez minutos; polemicas
que se estenderam das cmaras  imprensa e da imprensa aos tribunais, cansando e
atordoando, ficam agora claras e precisas. As comoes passadas tornam a abalar
o peito...

Mas vamos ao meu ofcio, que 
contar semanas. Contarei a que ora acaba e foi mui triste. A desolao da rua
Primeiro de Maro  um dos espetculos mais sugestivos deste mundo. J ali no
h turcas, ao p das caixas de bugigangas; os engraxadores de sapatos com as
suas cadeiras de braos e os demais aparelhos desapareceram; no h sombra de
tabuleiro de quitanda, no h sambur de fruta. Nem ali nem alhures. Todos os
passeios das caladas esto despejados delas. Foi o prefeito municipal que
mandou pr toda essa gente fora do olho da rua, a pretexto de uma postura, que
se no cumprira.

Eu de mim confesso que amo as
posturas, mas de um amor desinteressado, por elas mesmas, no pela sua execuo.
O prefeito  da escola que d  arte um fim til, escola degradante, porque
(como dizia um esttico) de todas as coisas humanas a nica que tem o seu fim em
si mesmo  a arte. Municipalmente falando,  a postura. Que se cumpram algumas,
 j uma concesso  escola utilitria; mas deixai dormir as outras todas nas
colees edis. Elas tm o sono das coisas impressas e guardadas. Nem se pode
dizer que so feitas para ingls ver.

Em verdade, a posse das caladas 
antiga. H vinte ou trinta anos, no havia a mesma gente nem o mesmo negcio. Na
velha Rua Direita, centro do comrcio, dominavam as quitandas de um lado e de
outro, africanas e crioulas. Destas, as baianas eram conhecidas pela trunfa, 
um leno interminavelmente enrolado na cabea fazendo lembrar o famoso retrato
de Mme. de Stel. Mais de um lord Oswald do lugar, achou ali a sua
Corina. Ao lado da igreja da Cruz vendiam-se folhetos de vria espcie,
pendurados em barbantes. Os pretos minas teciam e cosiam chapus de palha. Havia
ainda... Que  que no havia na Rua Direita?

No havia turcas. Naqueles anos
devotos, ningum podia imaginar que gente de Maom viesse quitandar ao p de
gente de Jesus. Afinal um turco descobriu o Rio de Janeiro e tanto foi
descobri-lo como domin-lo. Vieram turcos e turcas. Verdade  que, estando aqui
dois padres catlicos, do rito maronita, disseram missa e pregaram domingo
passado, com assistncia de quase toda a coloria turca, se  certa a notcia que
li anteontem. De maneira que os nossos prprios turcos so cristos.
Compensam-nos dos muitos cristos nossos, que so meramente turcos, mas turcos
de lei.

Cristos ou no, os turcos
obedecem  postura, como os demais mercadores das caladas. Os italianos,
patrcios do grande Nicolau, tm o maquiavelismo de a cumprir sem perder.
Foram-se, levando as cadeiras de braos, onde o fregus se sentava, em quanto
lhe engraxavam os sapatos; levaram tambm as escovas da graxa, e mais a escova
particular que transmitia a poeira das calas de um fregus s calas de outro 
tudo por dois vintns.

O tosto era preo recente; no
sei se anterior, se posterior  geral. Creio que anterior. Em todo caso,
posterior  Revoluo Francesa. Mas aqui est no que eles so finos; os filhos,
introdutores do uso de engraxar os sapatos ao ar livre, j saram  rua com a
caixeta s costas, a servir os necessitados. Iro pouco a pouco estacionando;
depois, iro os pais, e, quando se for embora o prefeito, tornaro  rua as
cadeiras de braos, as caixas das turcas e o resto.

Assim renascem, assim morrem as
posturas. Est prestes a nascer a que restitui o Carnaval aos seus dias antigos.
O ensaio de fazer danar, mascarar e pular no inverno durou o que duram as
rosas: lespace dun matin. No me cortem esta frase batida e piegas; a
falta de carne ao almoo e ao jantar desfibra um homem; preciso ser chato como
esta folha de papel que recebe os meus suspiros. Felizmente uma notcia compensa
a outra. A volta do carnaval  uma lio cientfica. O conselho municipal, em
grande parte composto de mdicos, desmente assim a iluso de serem os folguedos
daqueles dias incompatveis com o vero. A est uma postura que vai ser
cumprida com delrio.

15 de janeiro

Onde h muitos bens, h muitos que
os coma, diz o Eclesiastes, e eu no quero outro manual de sabedoria.
Quando me afligirem os passos da vida, vou-me a esse velho livro para saber que
tudo  vaidade. Quando ficar de boca aberta diante de um fato extraordinrio,
vou-me ainda a ele, para saber que nada  novo debaixo do sol.

Nada  novo debaixo do sol. Onde
h muitos bens, h muitos que os comam. Quer dizer que j por essas centenas de
sculos atrs os homens corriam ao dinheiro alheio; em primeiro lugar para
ajuntar o que andava disperso pelas algibeiras dos outros; em segundo lugar,
quando um metia o dinheiro no bolso, corriam a dispersar o ajuntado. Apesar
deste risco, o conselho de Iago  que se meta dinheiro no bolso. Put money in
thy purse.

Esta semana tivemos boatos falsos,
e notcias que podem ser verdadeiras, tudo relativo a dinheiro, no falando na
moeda falsa, cujos fabricantes afinal foram descobertos, nem nos atos que vrios
cidados, em folhas publicas, lanam em rosto uns aos outros, os clamores por
dividendos que no aparecem, os pedidos de liquidao, os protestos contra ela,
as insinuaes, as acusaes, os murmrios. Hoje, diz um telegrama de Londres,
que Balfour, complicado em questes de bancos, embarcou de nome trocado para o
Rio de Janeiro. Ho de lembrar-se que h duas semanas dei notcia de haver esse
homem poltico renunciado a cadeira que tinha na cmara dos Comuns; mas estava
longe de crer na fuga, se h fuga. Menos ainda que viesse para a nossa capital.
Mas ento, por que  que outros de igual nome saem daqui? Mistrio dos
mistrios, tudo  mistrio.

No meio de tantos sucessos, ou 
sombra deles, o parlamentarismo quis fazer uma entrada no conselho municipal.
Felizmente, o Sr. Oscar Godoy deu alarma a tempo. Isto  parlamentarismo, 
disse o Sr. Godoy ao Sr. Franklin Dutra,  e o parlamentarismo foi abolido; V.
Ex. j no v interpelao nem nas cmaras. O Sr. Franklin Dutra, se levava a
idia de propor uma interpelao ao prefeito, abriu mo dela e limitou-se a uma
simples indicao. O assunto era a questo das carnes verdes; mas eu no falo de
carnes verdes, como no falo das congeladas, que algumas pessoas comparam s
carnes espatifadas de Maria de Macedo. Creio que esta pilheria far carreira; 
lgubre, mas  tambm medocre.

Uma s coisa me interessou no
debate municipal; foi o tratamento de Excelncia. No que seja coisa rara a boa
educao. Tambm no direi que seja nova. O que no posso,  indicar desde
quando entrou naquela casa esta natural fineza. Provavelmente, foi a reao do
legtimo amor prprio contra desigualdades injustificveis.

De feito, a antiga cmara
municipal tinha o ttulo de Senhoria e de Ilustrssima; mas pessoalmente os seus
membros no tinham nada. Um decreto de 18 de julho de 1841 concedeu aos membros
do senado o tratamento de Excelncia, acrescentando: e por ele (tratamento) se
fale e se escreva aos atuais senadores e aos que daqui em diante exercerem o
dito lugar. Aos deputados foi dado por decreto da mesma data o tratamento de
Senhoria, mas limitado aos que assistiram  coroao do finado imperador. O
tratamento era pessoal; embora sobrevivesse ao cargo, no passava dos
agraciados.

Naturalmente os deputados futuros
reagiram contra a diferena que se estabelecia entre eles e os senadores,
diferena j acentuada por outros sinais externos, desde a vitaliciedade at o
subsdio. Comearam a usar da Excelncia. O poder no teve remdio; curvou-se 
pratica. As assemblias provinciais acanharam-se; mas a antiga salinha de
Niteri (provavelmente foi a primeira) declarou por atos que as liberdades
locais no eram menos dignificveis que as liberdades imperiais, e o tratamento
de Excelncia deu entrada naquela casa. Um dos seus chefes no perdeu nunca, ou
quase nunca, o velho costume do tratamento indireto, e dizia: o honrado
membro. Perdoe-me o honrado membro; no  isso o que tenho ouvido ao
honrado membro.

J disse que no posso indicar em
que tempo a Excelncia penetrou na cmara municipal. No  provvel que fosse
antes da publicao dos debates. Sem impresso no h estilo. Verba volant,
scripta manent. Mas so cronologias estreis, que nada servem ao fim
proposto, a saber, que as maneiras finas so o freio de ouro das paixes, e no
prejudicam em nada a liberdade; s a podem ofender pela restrio aos membros de
uma cmara. Desde, porm, que se estenda a todos,  a igualdade em ao, mas em
ao graciosa e culta.

De resto, se a explicao que dou
no  aceitvel, achar-se- outra que acerte com a verdade. No h problemas
insolveis, exceto o da Paraba do Sul, cujo estado oscila entre o seio de
Abrao e a guerra de Tria (sem Homero). Ningum disse ainda, que na Paraba do
Sul se vive como nas demais cidades e vilas do Rio de Janeiro, tant bien que
mal. O pndulo da opinio vai do timo ao pssimo, do adorvel ao execrvel,
e  preciso crer uma coisa ou outra, a no querer brigar com ambas as
partes.

Tenho idia de que h ainda outro
problema insolvel; mas no me demoro em procur-lo. Di-lo-ei depois, se o
achar. Adeus. Se sair errada alguma frase ou palavra, levem o erro  conta da
letra apressada, no da reviso. Na outra semana, saiu impresso que a imprensa
diria dispensa a ateno  em vez de.  a imprensa diria dispersa a
ateno, idia mui diferente. A reviso  severa; eu  que sou desigual na
escrita, mais inclinado ao pior que ao melhor.

Dizem de Napoleo que a sua
assinatura, depois do Austerlitz, era antes Ugulai que Napolon.
H aqui na nossa Biblioteca Publica uma carta dele a D. Joo VI, outro prncipe
regente, cuja assinatura, se no  Ugulai,  coisa mais feia. Cito este
exemplo, no s porque a gente deve desculpar-se com os grandes, mas ainda
porque, escrevendo eu um pouco melhor que Bonaparte, acabo este artigo com tal
ou qual sentimento de haver ganho a batalha de Waterloo.

22 de janeiro

A questo Capital est na ordem do
dia. Tempo houve em que na Repblica Argentina no se falou de outra coisa. L,
porm, no se tratava de trocar a capital da provncia de Buenos Aires por
outra, mas de tirar  cidade deste nome o duplo carter de capital da provncia
e da Repblica. Um dia resolveram fazer uma cidade nova, La Plata, que dizem ser
magnfica, mas que custou naturalmente emprstimos grossos.

Entre ns, a questo  mais
simples. Trata-se de mudar a capital do Rio de Janeiro para outra cidade que no
fique sendo um prolongamento da Rua do Ouvidor. Convm que o Estado no viva
sujeito ao boto de Diderot, que matava um homem na China. A questo  escolher
entre tantas cidades. A idia legislativa at agora  Terespolis; assim se
votou ontem na assemblia. Era a do finado capitalista Rodrigues, que escreveu
artigos sobre isso. Grande viveur, o Rodrigues! Em verdade, Terespolis
est mais livre de um assalto,  fresca, tem terras de sobra, onde se edifique
para oficiar, para legislar e para dormir.

Campos quer tambm a
capitalizao. Rene-se, discute, pede, insta. Vassouras no quer ficar atrs.
Velha cidade de um municpio de caf, julga-se com direito a herdar de Niteri,
e oferecer dinheiros para auxiliar a administrao. Petrpolis tambm quer ser
capital, e parece invocar algumas razes de elegncia e de beleza; mas tem
contra si no estar muito mais longe da Rua do Ouvidor, e at mais perto, por
dois caminhos. Tambm h quem indique Nova Friburgo; e, se eu me deixasse levar
pelas boas recordaes dos hotis Leuenroth e Salusse, no aconselharia outra
cidade. Mas, alm de no pertencer ao Estado (sou puro carioca), jamais iria
contra a opinio dos meus concidados unicamente para satisfazer reminiscncias
culinrias. Nem s culinrias; tambm as tenho coreogrficas... Oh! bons e
saudosos bailes do salo Salusse! Convivas desse tempo, onde ides vs? Uns
morreram, outros casaram, outros envelheceram; e, no meio de tanta fuga, 
provvel que alguns fugissem. Falo de quatorze anos atrs. Resta ao menos este
miservel escriba, que, em vez de l estar outra vez, no alto da serra, aqui
fica a comer-lhes o tempo.

Niteri no pede nada, olha,
escuta, aguarda. Vai para a barca, se tem c o emprego; se o tem l mesmo, vai
ver chegar ou sair a barca. V sempre alguma coisa,  outrora as lanchas, 
depois as barcas. Pobre subrbio da velha Corte, no tens foras para reagir
contra a descapitalizao; no representas, no requeres. Vais para a galeria da
assemblia ouvir as razes com que te tiram o chapu da cabea; no indagues se
so boas ou ms. So razes.

Vale-lhe uma coisa; no est s. O
estado de Minas Gerais, que desde o tempo do Imprio j sonhava com outra
capital, pe mos  obra deveras, mandando fazer uma capital nova. J a saiu
uma comisso em busca de territrio e clima adequados. Ouro Preto tem de ceder.
Dizem que lhe custa; mas o que  que no custa? Quanto  capital da repblica, 
matria constitucional, e a comisso encarregada de escolher e delimitar a rea
j concluiu os seus trabalhos, ou est prestes a faz-lo, segundo li esta mesma
semana. Telegrama de Uberaba diz que ali chegou o chefe, Lus Cruls.

No h dvida que uma capital 
obra dos tempos, filha da histria. A histria e os tempos se encarregaro de
consagrar as novas. A cidade que j estiver feita, como no estado do Rio,  de
esperar que se desenvolva com a capitalizao. As novas devemos esperar que
sero habitadas logo que sejam habitveis. O resto vir com os anos.

Entretanto, os donativos e ofertas
por parte de algumas cidades fluminenses mostram bem, que nem as cidades querem
andar na turbamulta, por mais que a produo e a riqueza as distingam. Tudo vale
muito, mas no vale tudo, antes da coroa administrativa. Datar as leis de Campos
 dar o comando a Campos; dat-las de Vassouras  d-lo a Vassouras; e nada vale
o comando, nem a prpria santidade.

A capital da Repblica, uma vez
estabelecida, receber um nome deveras, em vez deste que ora temos, mero
qualificativo. No sei se viverei at  inaugurao. A vida  to curta, a morte
to incerta, que a inaugurao pode fazer-se sem mim, e to certo  o
esquecimento, que nem daro pela minha falta. Mas, se viver, l irei passar
algumas frias, como os de l viro aqui passar outras. Os cariocas ficaro
sempre com a baa, a esquadra, os arsenais, os teatros, os bailes, a Rua do
Ouvidor, os jornais, os bancos, a praa do comrcio, as corridas de cavalos,
tanto nos circos, como nos balces de algumas casas c embaixo, os monumentos, a
companhia lrica, os velhos templos, os rebequistas, os pianistas...

Ponhamos tambm os melhoramentos
projetados na cidade. So muitos, e creio haver boa resoluo de levar a obra ao
cabo. Oxal no desanimem os poderes do municpio. Tambm ficaremos com os
processos de toda a sorte, as sociedades sem cabea e as sociedades de duas
cabeas, como a Colonizao, imitao da gua austraca. Aqui ficar o grande
banco. A mesma ponte truncada da baa, que o mar comeou a comer, e as
montanhas-russas inacabadas da Glria tambm ficaro aqui, to inacabadas e to
truncadas como podemos pedi-los aos deuses.

Perderemos,  certo, o Supremo
Tribunal de Justia; mas, tendo a Cmara Municipal do Tubaro, em um assomo de
clera, qualificado um ato daquela instituio como ignobilmente anormal,
e no nos convindo, nem cortar as relaes com o Tubaro, nem sair da escola do
respeito, melhor  que o tribunal se mude e nos deixe. Grande Tubaro! Tudo por
causa de um homem. O que no dir ele por um princpio?

29 de janeiro

Gosto deste homem pequeno e magro
chamado Barata Ribeiro, prefeito municipal, todo vontade, todo ao, que no
perde o tempo a ver correr as guas do Eufrates. Como Josu, acaba de pr abaixo
as muralhas de Jeric, vulgo Cabea de Porco. Chamou as tropas segundo as
ordens de Jav durante os seis dias da escritura, deu volta  cidade e depois
mandou tocar as trombetas. Tudo ruiu, e, para mais justeza bblica, at
carneiros saram de dentro da Cabea de Porco tal qual da outra
Jeric saram bois e jumentos. A diferena  que estes foram passados a fio de
espada. Os carneiros, no s conservaram a vida mas receberam ontem algumas
aes de sociedades annimas.

Outra diferena. Na velha Jeric
houve, ao menos, uma casa de mulher que salvar, porque a dona tinha acolhido os
mensageiros de Josu. Aqui nenhuma recebeu ningum. Tudo pereceu portanto, e foi
bom que perecesse. L estavam para fazer cumprir a lei a autoridade policial, a
autoridade sanitria, a fora pblica, cidados de boa vontade, e c fora 
preciso que esteja aquele apoio moral, que d a opinio pblica aos vares
provadamente fortes.

No me condenem as reminiscncias
de Jeric. Foram os lindos olhos de uma judia que me meteram na cabea os passos
da Escritura. Eles  que me fizeram ler no livro do xodo a condenao das
imagens, lei que eles entendem mal, por serem judeus, mas que os olhos cristos
entendem pelo nico sentido verdadeiro. Tal foi a causa de no ir, desde anos, 
procisso de So Sebastio, em que a imagem do nosso padroeiro  transportada da
catedral ao Castelo. Sexta-feira fui v-la sair. ramos dois, um amigo e eu;
logo depois ramos quatro, ns e as nossas melancolias. Deus de bondade! Que
diferena entre a procisso de sexta-feira e as de outrora. Ordem, nmero,
pompa, tudo o que havia quando eu era menino, tudo desapareceu. Valha a piedade,
posto no faltaram olhos cristos, e femininos,  um par deles,  para
acompanhar com riso amigo e particular uma velha opa encarnada e inquieta. Foi o
meu amigo que notou essa passagem do Cntico dos Cnticos. Todo eu era pouco
para evocar a minha meninice...

E, tu, Belm Efrata... Vede ainda
uma reminiscncia bblica;  do profeta Miquias... No tenho outra para
significar a vitria de Terespolis. De Belm tinha de vir o salvador do mundo,
como de Terespolis h de vir a salvao do estado fluminense. Est feito
capital o lindo e fresco deserto das montanhas. Peso de Campos (agora  imitar o
profeta Isaas), peso de Vassouras, peso de Niteri. No valeram riquezas, nem
splicas. A ti, pobre e antiga Niteri no te valeu a eloqncia do teu
Belisrio Augusto, nem sequer a rivalidade das outras cidades pretendentes.
Tinha de ser Terespolis. E tu, Belm Efrata, tu s pequenina entre as milhares
de Jud... Pequenina tambm  Terespolis, mas pequenina em casas, terras h
muitas, pedras no faltam, nem cal, nem trolhas, nem tempo. Falta o meu velho
amigo Rodrigues,  ora morto e enterrado,  que possua uma boa parte daquelas
terras desertas. Ai, Justiniano! Os teus dias passaram como as guas que no
voltam mais.  ainda uma palavra da Escritura.

Fora com estes sapatos de Israel.
Calcemo-nos  maneira da Rua do Ouvidor, que pisamos, onde a vida passa em
burburinho de todos os dias e de cada hora. Chovem assuntos modernos. O banco,
por exemplo, o novo banco, filho de dois pais, como aquela criana divina que
era, dizia Cames, nascida de duas mes. As duas mes, como sabeis, eram a madre
de sua madre, e a coxa de seu padre, porque no tempo em que Jpiter engendrou
esse pequerrucho, ainda no estava descoberto o remdio que previne a concepo
para sempre, e de que ouo falar na Rua do Ouvidor. Dizem at que se anuncia,
mas eu no leio anncios.

No tempo em que os lia, at os ia
catar nos jornais estrangeiros. Um destes, creio que americano, trazia um de
excelente remdio para no sei que perturbaes gstricas; recomendava porm, s
senhoras que o no tomassem em estado de gravidez, pelo risco que corriam de
abortar... O remdio no tinha outro fim seno justamente este, mas a polcia
ficava sem haver por onde pegar do invento e do inventor. Era assim, por meios
astutos e grande dissimulao, que o remdio se oferecia s senhoras cansadas de
aturar crianas.

A moeda falsa, que previne a
misria, no a previne para sempre visto que a polcia tem o poder inquo de
interromper os estudos de gravura e meter toda uma academia na Deteno. J li
que se trata de demolir caracteres, e tambm que a autoridade est
atacando o capital. Eu, em se me falando esta linguagem, fico do lado do
capital e dos caracteres. Que pode, sem eles, uma sociedade?

Um criado meu, que perdeu tudo o
que possua na compra de desventuras... perdoem-lhe;  um pobre homem que
fala mal. Ensinei-lhe a correta pronncia de debntures, mas ele disse-me
que desventuras  o que elas eram, desventuras e patifarias. Pois esse criado
tambm defende o capital; a diferena  que no se acusa a si de atacar o dos
outros, e sim aos outros de lhe terem levado o seu. Quanto aos caracteres,
entendo que, se alguma coisa quer demolir no so os caracteres, mas as prprias
caras, que so os caracteres externos, e no o faz por medo da
polcia.

L tudo o que os jornais publicam,
este homem. Foi ele que me deu notcia da nova denncia contra a Geral; ele
chama-lhe nova. No sei se houve outra. Contou-me tambm uma histria de
discursos, paraninfos e retratos, e mais um contrabando de objetos de prata
dentro de um canap velho.

 No ganho dinheiro com isto,
conclui ele, mas consolo-me das minhas desventuras.

 Debntures, Jos
Rodrigues.

5
de fevereiro

Contaram algumas folhas esta
semana, que um homem, no querendo pagar por um quilo de carne preo superior ao
taxado pela prefeitura, ouvira do aougueiro que poderia pagar o dito preo, mas
que o quilo seria mal pesado.

Pra, amigo leitor; no te
importes com o resto das coisas, nem dos homens. Com um osso, queria o outro
reconstruir um animal; com aquela s palavra, podemos recompor um animal, uma
famlia, uma tribo, uma nao, um continente de animais. No  que a palavra
seja nova. E menos velha que o diabo, mas  velha. Creio que no tempo das
libras, j havia libras mal pesadas, e at arrobas. O nosso erro  crer que
inventamos, quando continuamos, ou simplesmente copiamos. Tanta gente pasma ou
vocifera diante de pecados, sem querer ver que outros iguais pecados se pecaram,
e ainda outros se esto pecando, por vrias outras terras pecadoras.

Andamos em boa companhia. No nos
ho de lapidar por atos que so antes efeito de uma epidemia do tempo. Ou
lapidem-nos, mas no sentido em que se lapida um diamante, para se lhe deixar o
puro brilho da espcie. Neste ponto, fora  confessar que ainda h por aqui
impurezas e defeitos graves; mas o belo diamante Estrela do Sul, que hoje
pertence a no sei que coroa europia, no foi achado na bagagem prestes a ser
engastado, mas naturalmente bruto. H impurezas. H inpcia, por exemplo, muita
inpcia. Quando no  inpcia, so inadvertncias. Apontam-se diamantes que
tanto tm de finos como de pataus, e s o longo estudo da mineralogia poder dar
a chave da contradio.

Mas, sursum corda, como se
diz na missa. Subamos ao alto valor espiritual da resposta do aougueiro. Um
quilo mal pesado. Pela lei, um aquilo mal pesado no  tudo, so novecentas
e tantas gramas, ou s novecentas. Mas a persistncia do nome  que d a grande
significao da palavra e a conseqente teoria. Trata-se de uma idia que o
vendedor e o comprador entendem, posto que legalmente no exista. Eles crem e
juram que h duas espcies de quilo,  o de peso justo e o mal pesado. Perdero
a carne ou o preo, primeiro que a convico.

Ora bem, no ser assim com o
resto? Que so notas falsas, se acaso esto de acordo com as verdadeiras, e
apenas se distinguem delas por uma tinta menos viva, ou por alguns pontos mais
ou menos incorretos? Falsas seriam, se se parecessem tanto com as outras, como
um rtulo de farmcia com um bilhete do Banco Emissor de Pernambuco, para no ir
mais longe; mas se entre as notas do mesmo banco houver apenas diferenas midas
de cor ou de desenho, as chamadas falsas esto para as verdadeiras, como o quilo
mal pesado para o quilo de peso justo. Excluo naturalmente o caso de emisses
clandestinas, porque as notas de tais emisses nunca se podero dizer mal
pesadas. O peso  o mesmo. A alterao nica est no acrscimo do mantimento,
determinado pelo acrscimo dos quilos. Quanto ao mais, falsas ou verdadeiras,
valha-nos aquela benta francesia que diz que tout finit par des
chansons.

Pauelo a la
cintura,
Pauelo al cuello,
Yo no s donde
salen
Tantos
pauelos!

Saiam donde for, basta que
enfeitem a moa andaluza. No lhe faltaro guitarras nem guitarreiros, que
levantem at a lua os seus mritos, ainda que eles sejam mal pesados. Que valem
cinqenta ou cem gramas de menos a um merecimento, se lhe no tiram este nome?
Tudo est no nome. Vi estadistas que tinham de cincia poltica um quilo muito
mal pesado, e nunca os vi gritar contra o aougueiro; alguns acabaram crendo que
o peso era justo, outros que at traziam um pedao de quebra...

 Isto prova, interrompe-me aqui o
aougueiro, que o senhor entende pouco do que escreve. Se realmente tivesse
idias claras saberia que no h s quilos mal pesados; tambm os h bem
pesados. Mas quem os recebe da segunda classe, no corre s folhas pblicas.
Creia-me, isto de filosofia no se faz s com a pena no papel, mas tambm com o
faco na alcatra. Saiba que o mundo  uma balana, em que se pesam
alternadamente aqueles dois quilos, entre brados de alegria e de indignao.
Para mim, tenho que o quilo mal pesado foi inventado por Deus, e o bem pesado
pelo Diabo; mas os meus fregueses pensam o contrrio, e da um povo de
cismticos, uma raa perversa e corrupta...

 Bem; faa o resto da
crnica.

12 de fevereiro

Faleci ontem, pelas sete horas da
manh. J se entende que foi sonho; mas to perfeita a sensao da morte, a
despegar-me da vida to ao vivo o caminho do Cu, que posso dizer haver tido um
antegosto da bem-aventurana.

Ia subindo, ouvia j os coros de
anjos, quando a prpria figura do Senhor me apareceu em pleno infinito. Tinha
uma nfora nas mos, onde espremera algumas dzias de nuvens grossas, e
inclinava-a sobre esta cidade, sem esperar procisses que lhe pedissem chuva. A
sabedoria divina mostrava conhecer bem o que convinha ao Rio de Janeiro; ela
dizia enquanto ia entornando a nfora:

 Esta gente vai sair trs dias 
rua com o furor que traz toda a restaurao. Convidada a divertir-se no inverno,
preferiu o vero no por ser melhor, mas por ser a prpria quadra antiga, a do
costume, a do calendrio, a da tradio, a de Roma, a de Veneza, a de Paris. Com
temperatura alta, podem vir transtornos de sade,  algum aparecimento de febre,
que os seus vizinhos chamem logo amarela, no lhe podendo chamar pior... Sim,
chovamos sobre o Rio de Janeiro.

Alegrei-me com isto, posto j no
pertencesse  terra. Os meus patrcios iam ter um bom carnaval,  velha festa,
que est a fazer quarenta anos, se j os no fez. Nasceu um pouco por decreto,
para dar cabo do entrudo, costume velho, datado da colnia e vindo da metrpole.
No pensem os rapazes de vinte e dois anos que o entrudo era alguma coisa
semelhante s tentativas de ressurreio, empreendidas com bisnagas. Eram tinas
d'gua, postas na rua ou nos corredores, dentro das quais metiam  fora um
cidado todo,  chapu, dignidade e botas. Eram seringas de lata; eram limes de
cera. Davam-se batalhas porfiadas de casa a casa, entre a rua e as janelas, no
contando as bacias d'gua despejadas  traio. Mais de uma tuberculose caminhou
em trs dias o espao de trs meses. Quando menos, nasciam as constipaes e
bronquites, ronquides e tosses, e era a vez dos boticrios, porque, naqueles
tempos infantes e rudes, os farmacuticos ainda eram boticrios.

Cheguei a lembrar-me, apesar de ir
caminho do Cu, dos episdios de amor que vinham com o entrudo. O limo de cera,
que de longe podia escalavrar um olho, tinha um ofcio mais prximo e
inteiramente secreto. Servia a molhar o peito das moas; era esmigalhado nele
pela mo do prprio namorado, maciamente, amorosamente,
interminavelmente...

Um dia veio, no Malesherbes, mas
o carnaval, e deu  arte da loucura uma nova feio. A alta roda acudiu de
pronto; organizaram-se sociedades, cujos nomes e gestos ainda esta semana foram
lembrados por um colaborador da Gazeta. Toda a fina flor da capital
entrou na dana. Os personagens histricos e os vesturios pitorescos, um doge,
um mosqueteiro, Carlos V, tudo ressurgia s mos dos alfaiates, diante de
figurinos,  fora de dinheiro. Pegou o gosto das sociedades, as que morriam
eram substitudas, com vria sorte, mas igual animao.

Naturalmente, o sufrgio
universal, que penetra em todas as instituies deste sculo, alargou as
propores do carnaval, e as sociedades multiplicaram-se, com os homens. O gosto
carnavalesco invadiu todos os espritos, todos os bolsos, todas as ruas.
Evoh! Bacchus est roi! dizia um coro de no sei que pea do Alcazar
Lrico,  outra instituio velha, mas velha e morta. Ficou o coro, com esta
simples emenda: Evoh! Momus est roi!

No obstante as festas da Terra,
ia eu subindo, subindo, at que cheguei  porta do Cu, onde So Pedro parecia
aguardar-me, cheio de riso.

 Guardaste para ti tesouros no
cu ou na terra? perguntou-me.

 Se crer em tesouros escondidos
na terra  o mesmo que escond-los, confesso o meu pecado, porque acredito nos
que esto no morro do Castelo, como nos cento e cinqenta contos fortes do homem
que est preso em Valhadolide. So fortes; segundo o meu criado Jos Rodrigues,
quer dizer que so trezentos contos. Creio neles. Em vida fui amigo de dinheiro,
mas havia de trazer mistrio. As grandes riquezas deixadas no Castelo pelos
jesutas foram uma das minhas crenas da meninice e da mocidade; morri com ela,
e agora mesmo ainda a tenho. Perdi sade, iluses, amigos e at dinheiro; mas a
crena nos tesouros do Castelo no a perdi. Imaginei a chegada da ordem que
expulsava os jesutas. Os padres do colgio no tinham tempo nem meios de levar
as riquezas consigo; depressa, depressa, ao subterrneo, venham os ricos clices
de prata, os cofres de brilhantes, safiras, corais, as dobras e os dobres, os
vastos sacos cheios de moeda, cem duzentos, quinhentos sacos. Puxa, puxa este
Santo Incio de ouro macio, com olhos de brilhantes, dentes de prolas; toca a
esconder, a guardar, a fechar...

 Pra, interrompeu-me So Paulo;
falas como se estivesses a representar alguma coisa. A imaginao dos homens 
perversa. Os homens sonham facilmente com dinheiro. Os tesouros que valem so os
que se guardam no cu, onde a ferrugem os no come.

 No era o dinheiro que me
fascinava em vida, era o mistrio. Eram os trinta ou quarenta milhes de
cruzados escondidos, h mais de sculo, no Castelo; so os trezentos contos do
preso de Valhadolide. O mistrio, sempre o mistrio.

 Sim, vejo que amas o mistrio.
Explicar-me-s este de um grande nmero de almas que foram daqui para o Brasil e
tornaram sem se poderem incorporar?

 Quando, divino
apstolo?

 Ainda agora.

 H de ser obra de um mdico
italiano, um doutor... esperai... creio que Abel, um Doutor Abel, sim Abel... 
um facultativo ilustre. Descobriu um processo para esterilizar as mulheres.
Correram muitas, dizem; afirma-se que nenhuma pode j conceber; esto
prontas.

 As pobres almas voltavam tristes
e desconsoladas; no sabiam a que atribuir essa repulsa. Qual  o fim do
processo esterilizador?

 Poltico. Diminuir a populao
brasileira,  proporo que a italiana vai entrando; idia de Crispi, aceita por
Giolitti, confiada a Abel...

 Crispi foi sempre
tenebroso.

 No digo que no; mas, em suma,
h um fim poltico, e os fins polticos so sempre elevados... Panam, que no
tinha fim poltico...

 Adeus, tu s muito falador. O
Cu  dos grandes silncios contemplativos.

19 de fevereiro

 meu velho costume levantar-me
cedo e ir ver as belas rosas, frescas murtas, e as borboletas que de todas as
partes correm a amar no meu jardim. Tenho particular amor s borboletas. Acho
nelas algo das minhas idias, que vo com igual presteza, seno com a mesma
graa. Mas deixemo-nos de elogios prprios; vamos ao que me aconteceu ontem de
manh.

Quando eu mais perdido estava a
mirar uma borboleta e uma idia, parado no jardim da frente, ouvi uma voz na
rua, ao p da grade:

 Faz favor?

No  preciso mais para fazer
fugir uma idia. A minha escapou-se-me, e tive pena. Vestia umas asas de
azul-claro, com pintinhas amarelas, cor de ouro. Cor de ouro embora, no era a
mesma (nem para l caminhava) do banqueiro Oberndrffer, que deps agora no
processo Panam. Esse cavalheiro foi quem deu  companhia a idia de emisso de
bilhetes de loteria e o respectivo plano, para falar como no Beco das
Cancelas. Pagaram-lhe s por esta idia dois milhes de francos. O presidente do
tribunal ficou assombrado. Mas um dos diretores, ru no processo, explicou o
caso dizendo que o banqueiro tinha grande influncia na praa, e que assim
trabalharia a favor da companhia, em vez de trabalhar contra. Teve uma feliz
idia, disse o juiz ao depoente; mas, para os acionistas, era melhor que no a
tivesse tido. O depoente provou o contrrio e retirou-se.

Tivesse eu a mesma idia, e no a
venderia por menos. Olhem, no fui eu que ideei esta outra loteria, mais
modesta, do Jardim Zoolgico; mas, se o houvesse feito, no daria a minha idia
por menos de cem contos de ris; podia fazer algum abate, cinco por cento,
digamos dez. Relativamente no se pode dizer que fosse caro. H invenes mais
caras.

Mas, vamos ao caso de ontem de
manh. Olhei para a porta do jardim, dei com um homem magro, desconhecido, que
me repetiu cochilando:

 Faz favor?

Cheguei a supor que era uma
relquia do carnaval; erro crasso, porque as relquias do carnaval vo para onde
vo as luas velhas. As luas velhas, desde o princpio do mundo, recolhem-se a
uma regio que fica  esquerda do infinito, levando apenas algumas lembranas
vagas deste mundo. O mundo  que no guarda nenhuma lembrana delas. Nem os
namorados tm saudades das boas amigas, que, quando eram moas e cheias, tanta
vez os cobriram com o seu longo manto transparente. E suspiravam por elas;
cantavam  viola mil cantigas saudosas, dengosas ou simplesmente tristes;
faziam-lhes versos, se eram poetas:

Era no outono, quando a imagem
tua,

 luz da lua...

C'etait dans la nuit
brune,
Sur le clocher
jauni,
La lune...

Todos os metros, todas as lnguas,
enquanto elas eram moas; uma vez encanecidas, adeus. E l vo elas para onde
vo as relquias do carnaval,  no sei se mais esfarrapados, nem mais tristes;
mas vo, todas de mistura, trpegas, deixando pelo caminho as metforas e os
descanses de poetas e namorados.

Reparando bem, vi que o
homem no era precisamente um trapo carnavalesco. Trazia na mo um papel, que me
mostrava de longe,  a princpio, calado,  depois dizendo que era para mim. Que
seria? Alguma carta,  talvez, um telegrama. Que me dir esse telegrama? Agora
mesmo, houve em Blumenau a priso do Sr. Lousada. Telegrafaram a 16 esta
notcia, acrescentando que o povo d demonstrao sensvel de indignao. Para
quem conhece a tcnica dos telegramas, o povo estava jogando o bilhar. Tanto 
assim que o prprio telegrama, para suprir a dubiedade e o vago daquelas
palavras, concluiu com estas: esperam-se acontecimentos gravssimos. Sabe-se
que o superlativo paga o mesmo que o positivo; naturalmente o telegrama no
custou mais caro.

Vejam, entretanto, como me
enganei. Realmente, houve acontecimentos gravssimos; a 17 telegrafaram que
vinte homens armados feriram gravemente o comissrio da polcia: esperavam-se
outras cenas de sangue. Vinte homens no so o algarismo ordinrio de um povo;
mas eram graves os sucessos. Outro telegrama, porm, no fala de tal ataque; diz
apenas que uma comisso do povo foi exigir providncias do juiz de direito, que
este pedia a coadjuvao do povo para manter a ordem, e ficou solto Lousada.
Tudo isto, se no  claro, traz-me recordaes da infncia, quando eu ia ao
teatro ver uma velha comdia de Scribe, o Chapu de palha da Itlia.
Havia nela um personagem que atravessa os cinco atos, exclamando
alternadamente, conforme os lances da situao:  Meu genro, tudo est
desfeito!  Meu genro, tudo est reconciliado!

 Telegrama? perguntei.

 No, senhor, disse o
homem.

 Carta?

 Tambm no. Um papel.

Caminhei at a porta. O
desconhecido, cheio de afabilidade que lhe agradeo nestas linhas, entregou-me
um pedacinho de papel impresso, com alguns dizeres manuscritos. Pedi-lhe que
esperasse; respondeu-me que no havia resposta, tirou o chapu, e foi andando.
Lancei os olhos ao papel, e vi logo que no era para mim, mas para o meu
vizinho. No importa; estava aberto e pude l-lo. Era uma intimao da
intendncia municipal.

Esta intimao comeava dizendo
que ele tinha de ir pagar a certa casa, na Rua Nova do Ouvidor, a quantia de mil
e quinhentos ris, preo da placa do nmero da casa em que mora. Conclu que
tambm eu teria de pagar mil e quinhentos quando recebesse igual papel, porque a
minha casa tambm recebera placa nova. O papel era assinado pelo fiscal. Achei
tudo correto, salvo o ponto de ir pagar a um particular, e no  prpria
intendncia; mas a explicao estava no fim.

Se a pessoa intimada no pagasse
no prazo de trs dias, incorreria na multa de trinta mil-ris. Estaquei por um
instante; trs dias, trinta mil-ris, por uma placa, era um pouco mais do que
pedia o servio,  um servio que, a rigor, a intendncia  que devia pagar. Mas
estava longe dos meus espantos. Continuei a leitura, e vi que, no caso de
reincidncia, pagaria o dobro (sessenta mil-ris) e teria oito dias de cadeia.
Tudo isto em virtude de um contrato.

O papel e a alma caram-me aos
ps. Oito dias de cadeia e sessenta mil-ris se no pagar uma placa de mil e
quinhentos! Tudo por contrato. Afinal apanhei o papel, e ainda uma vez o li;
meditei e vi que o contrato podia ser pior,  podia estatuir a perda do nariz,
em vez da simples priso. A liberdade volta; nariz cortado no volta. Alm
disso, se Xavier de Maistre, em quarenta e dois dias de priso, escreveu uma
obra-prima, por que razo, se eu for encarcerado por causa de placa, no
escreverei outra? Quem sabe se a falta da cadeia no  que me impede esta
consolao intelectual? No, no h pena; esta clusula do contrato  antes um
benefcio.

Verdade  que um legista, amigo
meu, afirma que no h carcereiro que receba um devedor remisso de placas.
Outro, que no  legista, mas  devedor, h trs meses, assevera que ainda
ningum o convidou a ir para a Deteno. A pena  um espantalho. Que desastre!
Justamente quando eu comeava a ach-la til. Pois se no h cadeia de verdade,
 caso de vistoria e demolio.

26 de fevereiro

O que mais me
encanta na humanidade,  a perfeio. H um imenso conflito de lealdades
debaixo do sol. O concerto de louvores entre os homens pode dizer-se que  j
msica clssica. A maledicncia, que foi antigamente uma das pestes da Terra,
serve hoje de assunto a comdias fsseis, a romances arcaicos. A dedicao, a
generosidade, a justia, a fidelidade, a bondade, andam a rodo, como aquelas
moedas de ouro com que o heri de Voltaire viu os meninos brincarem nas ruas de
El-Dorado.

A organizao social podia ser
dispensada. Entretanto,  prudente conserv-la por algum tempo, como um recreio
til. A inveno de crimes, para serem publicados  maneira de romances, vale
bem o dinheiro que se gasta com a segurana e a justia pblicas. Algumas dessas
narrativas so demasiado longas e enfadonhas, como a Maria de Macedo,
cujo stimo volume vai adiantado; mas isso mesmo  um benefcio. Mostrando
aos homens os efeitos de um grande enfado, prova-se-lhes que o tipo de maante,
 ou cacete, como se dizia outrora   dos piores deste mundo, e
impede-se a volta de semelhante flagelo. Uma das boas instituies do sculo 
a falange das coisas perdidas, composta dos antigos gatunos e
incumbida de apanhar os relgios e carteiras que os descuidados deixam cair, e
restitu-los a seus donos. Tudo efeito de discursos morais.

Posto que intil, pela ausncia de
crimes, o jri  ainda uma excelente instituio. Em primeiro lugar, o
sacrifcio que fazem todos os meses alguns cidados em deixarem os seus ofcios
e negcios para fingirem de rus,  j um grande exemplo de civismo. O mesmo
direi dos jurados. Em segundo lugar, o torneio de palavras a que d lugar entre
advogados, constitui uma boa escola de eloqncia. Os jurados aprendem a
responder aos quesitos, para o caso de aparecer algum crime. s vezes, como
sucedeu h dias, enganam-se nas respostas, e mandam um ru para as gals,
em vez de o devolverem  famlia; mas, como so simples ensaios, esse mesmo erro
 benefcio, para tirar aos homens alguma pontinha de orgulho de sapincia que
porventura lhes haja ficado.

Mas a perfeio maior, a perfeio
mxima,  a de que nos deu notcia esta semana o cabo submarino. O gro-turco,
por ocasio do jubileu do papa, escreveu-lhe uma carta autografada de
felicitaes acompanhada de presentes de alta valia. No se pode dizer que sejam
cortesias temporais. O papa j no governa, como o sulto da Turquia. A fineza 
o chefe espiritual, to espiritual como o jubileu. J cismticos e herticos
tinham feito a mesma coisa; faltava o gro-turco, e j no falta. Al
cumprimentou o Senhor, Maom a Cristo. Tudo o que era contraste, fez-se
harmonia, o oposto ajustou-se ao oposto. Ondas e ondas de sangue custou o
conflito de dois livros A cruz e o crescente levaram atrs de si milhares e
milhares de homens. Houve cleras grandes. Houve tambm grandes e pequenos
poetas que cantaram os feitos e os sentimentos evanglicos, ora pela nota
marcial, ora pela nota desdenhosa. Um deles dedilhou no alade romntico a
histria daquele sulto que requestava uma cantarina de Granada, e lhe prometia
tudo:

Je donneirais sans
retour
Mon royaume pour
Mdine,
Mdine pour ton
amour.

 Rei sublime, faze-te
primeiramente cristo, respondeu a bela Juana; danado  o prazer que uma mulher
pode achar nos braos de um incrdulo.

Tempos de Granada! j no 
preciso que os sultes se cristianizem. Agora  a Sublime Porta, com a sua
chancelaria, as suas circulares diplomticas, os seus gestos ocidentais, que
desaprendeu o cr ou morre para celebrar a festa de um grande incrdulo
do Coro. Onde vo as guerras de outrora? Onde param os alfanjes tintos de
sangue cristo? Naturalmente esto com as espadas tintas de sangue muulmano.
Vivam os vivos!

Eu, se pudesse dar um conselho em
tais casos, propunha a emenda do brevirio. Glria a Deus nas alturas,
deve ficar; mas para que acrescentar: e na terra paz aos homens? A
paz a est, completa, universal, perene. Vede Ub. Vede que magnfico
espetculo deu ela a todos os municpios do estado mineiro, fazendo uma eleio
tranqila, sem as ruins paixes que corrompem os melhores sentimentos deste
mundo. O governador de So Paulo achou-se em casa com cerca de oitenta bombons
de dinamite,  excelente produto da indstria local, que conseguiu reduzir um
explosivo to violento a simples doce de confeitaria.

No falo de Pernambuco, nem do Rio
Grande do Sul, nem das amazonas de Daom, nem das danas de Madri, a que
chamaram tumultos, por ignorncia do espanhol, nem da Guaratiba, nem de tantas
outras partes e artes, que so consolaes da nossa humanidade
triunfante.

Mas a paz no basta. Falta dizer
da alegria. Oh! doce alegria dos coraes! Um s exemplo, e dou fim a isto. Aqui
est o parecer dos sndicos da Geral, publicado sexta-feira. Diz que entre os
nomes da proposta da concordata h alguns jocosos e outros obscenos. O parecer
censura esse gnero de literatura concordatria. Escrito com a melancolia que a
natureza, para realar a alegria do sculo, ps na alma de todos os sndicos, o
parecer no compreende a vida e as suas belas flores. Isto quanto aos nomes
jocosos. Pelo que toca aos obscenos,  preciso admitir que, assim como h bocas
recatadas, tambm as h lbricas. A alegria tem todas as formas, no se h de
excluir uma, por no ser igual s outras. A monotonia  a morte. A vida est na
variedade.

Demais, que se h de fazer com
acionistas que ainda devem de entradas oitenta e cinco mil oitocentos e quarenta
e seis contos, cento e sessenta mil e duzentos ris (85.846:160$200)? Rir um
pouco, e bater-lhes na barriga. Ora, cada um ri com a boca que tem. Mas a prova
de que a obscenidade, como a jocosidade, formas de alegria, so de origem
legtima e autntica,  que todas as firmas foram legalmente reconhecidas.
Quando a alegria entra nos cartrios,  que a tristeza fugiu inteiramente deste
mundo.

5
de maro

Quando os jornais anunciaram para
o dia 1 deste ms uma parede de aougueiros, a sensao que tive foi muito
diversa da de todos os meus concidados. Vs ficastes aterrados; eu agradeci o
acontecimento ao Cu. Boa ocasio para converter esta cidade ao
vegetarismo.

No sei se sabem que eu era
carnvoro por educao e vegetariano por princpio. Criaram-me a carne, mais
carne, ainda carne, sempre carne. Quando cheguei ao uso da razo e organizei o
meu cdigo de princpios, inclu nele o vegetarismo; mas era tarde para a
execuo. Fiquei carnvoro. Era a sorte humana; foi a minha. Certo, a arte
disfara a hediondez da matria. O cozinheiro corrige o talho. Pelo que respeita
ao boi, a ausncia do vulto inteiro faz esquecer que a gente come um pedao de
animal. No importa, o homem  carnvoro.

Deus, ao contrrio,  vegetariano.
Para mim, a questo do paraso terrestre explica-se clara e singelamente pelo
vegetarismo. Deus criou o homem para os vegetais, e os vegetais para o homem;
fez o paraso cheio de amores e frutos, e ps o homem nele. Comei de tudo,
disse-lhe, menos do fruto desta rvore. Ora, essa chamada rvore era
simplesmente carne, um pedao de boi, talvez um boi inteiro. Se eu soubesse
hebraico, explicaria isto muito melhor.

Vede o nobre cavalo! o paciente
burro! o incomparvel jumento! Vede o prprio boi! Contentam-se todos com a erva
e o milho. A carne, to saborosa  ona,  e ao gato, seu parente pobre,  no
diz coisa nenhuma aos animais amigos do homem, salvo o co, exceo misteriosa,
que no chego a entender. Talvez, por mais amigo que todos, comesse o resto do
primeiro almoo de Ado, de onde lhe veio igual castigo.

Enfim, chegou o dia 1 de maro;
quase todos os aougues amanheceram sem carne. Chamei a famlia; com um discurso
mostrei-lhe que a superioridade do vegetal sobre o animal era to grande, que
devamos aproveitar a ocasio e adotar o so e fecundo princpio vegetariano.
Nada de ovos, nem leite, que fediam a carne. Ervas, ervas santas, puras, em que
no h sangue, todas as variedades das plantas, que no berram nem esperneiam,
quando lhes tiram a vida. Convenci a todos; no tivemos almoo nem jantar, mas
dois banquetes. Nos outros dias a mesma coisa.

No desmaieis, retalhistas, nesta
forte empresa. Dizia um grande filsofo que era preciso recomear o entendimento
humano. Eu creio que o estmago tambm, porque no h bom raciocnio sem boa
digesto, e no h boa digesto com a maldio da carne. Morre-se de porco. Quem
j morreu de alface? Retalhistas, meus amigos, por amor daquele filsofo, por
amor de mim, continuei a resistncia. Os vegetarianos vos sero gratos. Tereis
morte gloriosa e sepultura honrada, com ervas e arbustos. No  preciso pedir,
como o poeta, que vos plantem um salgueiro no cemitrio; plantar  conosco; ns
cercaremos as vossas campas de salgueiros tristes e saudosos. Que  nossa vida?
Nada. A vossa morte, porm, ser a grande reconstituio da humanidade. Que o
Senhor vo-la d suave e pronta.

Compreende-se que, ocupado com
esta passagem de doutrina  prtica, pouco haja atendido aos sucessos de outra
espcie, que, alis, so filhos da carne. Sim, o vegetarismo  pai dos simples.
Os vegetarianos no se batem; tm horror ao sangue. Gostei, por exemplo, de
saber que a multido, na noite do desastre do Liceu de Artes e Ofcios,
atirou-se ao interior do edifcio para salvar o que pudesse;  ao prpria da
carne, que avigora o nimo e a cega diante dos grandes perigos. Mas, quando li
que, de envolta com ela, entraram alguns homens, no para despejar a casa, mas
para despejar as algibeiras dos que despejavam a casa, reconheci tambm a o
sinal do carnvoro. Porque o vegetariano no cobia as coisas alheias; mal chega
a amar as prprias. Reconstituindo segundo o plano divino, anterior 
desobedincia, ele torna s idias simples e desambiciosas que o Criador incutiu
no primeiro homem.

Se no pratica o furto,  claro
que o vegetariano detesta a fraude e no conhece a vaidade. Da um elogio a mim
mesmo. Eu no me dou por apstolo nico desta grande doutrina. Creio at que os
temos aqui, anteriores a mim, e,  singular aproximao!  no prprio conselho
municipal. S assim explico a nota jovial que entra em alguns debates sobre
assuntos graves e gravssimos.

Suponhamos a instruo pblica.
Aqui est um discurso, sado esta semana, mas proferido muito antes do dia 1 de
maro; discurso meditado, estudado, cheio de circunspeo (que o vegetariano no
repele, ao contrrio) e de muitas pontuaes alegres, que so da essncia da
nossa doutrina. Tratava-se dos jardins da infncia. O Sr. Capelli notava que
tais e tantos so os dotes exigidos nas jardineiras, beleza, carinho,
idade inferior a trinta anos, boa voz, canto, que dificilmente se podero achar
neste pas moas em quantidade precisa.

No conheo o Sr. Maia Lacerda,
mas conheo o mundo e os seus sentimentos de justia, para me no admirar do
cordial no apoiado com que ele repeliu a asseverao do Sr. Capelli. No
contava com o orador, que aparou o golpe galhardamente: Vou responder ao se
no apoiado, disse ele. As que encontramos, remetendo-as para l, receio,
que, bonitas como soem ser as brasileiras, corram o risco de no voltar mais, e
sejam apreendidas como belos espcimens do tipo americano.

Outro ponto alegre do discurso  o
que trata da necessidade de ensinar a lngua italiana, fundando-se em que a
colnia italiana aqui  numerosa e crescente, e espalha-se por todo o interior.
Parece que a concluso devia ser o contrrio; no ensinar italiano ao povo, ante
ensinar a nossa lngua aos italianos. Mas, posto que isto no tenha nada com o
vegetarismo, desde que faz com que o povo possa ouvi as peras sem libreto na
mo,  um progresso.

12 de maro

Que cuidam que me
ficou dos ltimos acontecimentos polticos do Amazonas? Um verbo:
desaclamar-se. Est em um dos telegramas do Par e refere-se ao cidado
que, por algumas horas, estivera com o poder nas mos. Tendo em ofcio
participado a sua aclamao e marcado o prazo de 12 horas para a retirada do
governador, desaclamou-se em seguida por outro ofcio...

Pode ser (tudo  possvel) que o
intuito da palavra fosse antes gracejar com a ao; mas as palavras, com os
livros, tm os seus fados, e os desta sero prsperos.  uma porta aberta para
as restituies polticas. Resignar, como abdicar, exprime a entrega de um poder
legtimo, que o uso tornou pesado, ou os acontecimentos fizeram caduco. Mas,
como se h de exprimir a restituio do poder que a aclamao de alguns entregou
por horas a algum? Desaclamar-se. No vejo outro modo.

Mrime confessou um dia que da
histria s dava apreo s anedotas. Eu nem s anedotas. Contento-me com
palavras. Palavra brotada no calor do debate, ou composta por estudo, filha da
necessidade, oriunda do amor ao requinte, obra do acaso, qualquer que seja a sua
certido de batismo, eis o que me interessa na histria dos homens. Desta
maneira fico abaixo do outro, que s curava de anedotas. Sim, meus amigos, nunca
me vereis vencido por ningum. Alta ou baixa que seja uma idia, acreditei que
tenho outra mais alta ou mais baixa. Assim o autor da Crnica de Carlos IX
dava Tucdides por umas memrias autnticas de Aspsia ou de um escravo de
Pricles. Eu dou as memrias deste escravo pela notcia da palavra que Pricles
aplicava, em particular, aos cacetes e amoladores de seu tempo.

Que valem, por exemplo, todas as
lutas do nosso velho parlamentarismo, em comparao com esta palavra:
inverdade? Inverdade  o mesmo que mentira, mas mentira de luva de
pelica. Vede bem a diferena. Mentira s, nua e crua, dada na bochecha, di.
Inverdade, embora dita com energia, no obriga a ir aos queixos da pessoa que a
profere.  Perdoe-me Vossa Excelentssima, mas o que acaba de dizer  uma
inverdade; nunca o presidente da Paraba afirmou tal coisa.  Inverdade  a
sua; desculpe-me que lhe diga em boa amizade; Vossa Excelentssima neste negcio
tem espalhado as maiores inverdades possveis! para no ir mais longe, o crime
atribudo ao redator do Imparcial...  So pontos de vista; peo a
palavra.

Parece que inexatido bastava ao
caso; mas  preciso atender ao uso das palavras. No cansam s as lnguas que as
dizem; elas prprias gastam-se. Quando menos, adoecem. A anemia  um dos seus
males freqentes; o esfalfamento  outro. S um longo repouso as pode
restituir ao que eram, e torn-las prestveis.

No achei a certido de batismo da
inverdade; pode ser at que nem se batizasse. No nasceu do povo, isso creio.
Entretanto, esta moa, pode ainda casar, conceber e aumentar a famlia do
lxicon. Ouso at afirmar que h nela alguns sinais de pessoa que est de
esperanas. E o filho  macho; e h de chamar-se inverdadeiro. No se
achar melhor eufemismo de mentiroso;  ainda mais doce que sua me, posto que
seja feio de cara; mas quem v cara, no v coraes.

Vi muitos outros viventes de igual
condio, que mereceriam algumas linhas; mas o tempo urge, e fica para outra
vez. Nem h s viventes separados; tenho visto irmos, fileira de irmos, sados
da mesma coxa ou do mesmo tero, com o nome de uma s famlia, apenas
diferenado pelo sufixo, cuja significao no alcano. Um exemplo, e
despeo-me.

A chefia, e particularmente a
chefia de polcia,  uma dona robusta, de grandes predicados e alto poder. Supus
por muitos anos que era filha nica do velho chefe; mas os tempos me foram
mostrando que no. Tem irms, tem irmos, tem chefao, pessoa de igual
ou maior fora, porque a desinncia  mais enrgica. Tem chefana. Vi
muitas vezes esta outra senhora,  frente da polcia ou de um partido, disputar
s irms o domnio exclusivo, sem alcanar mais que comparti-lo com elas. Vi
ainda a nobre chefatura, to vlida e to ambiciosa como as outras. Dos
irmos s conheo o esbelto chefado, que, alegando o sexo, pretendeu
sempre a chefana, a chefatura, a chefao ou a chefia da famlia.

Parece que,  semelhana dos
filhos de Jac, invejosos de Jos, que era particularmente amado do pai, os
filhos e filhas do velho chefe, vendo a predileo deste pela linda chefia,
cuidaram de a matar. Estavam prestes a faz-lo, quando surgiu a idia de a meter
na cisterna, e diz-la morta por uma fera, como na Escritura; mas a vinda dos
mesmos israelitas, com os seus camelos, carregados de mirra e
aromas...

Velha imaginao, onde vais tu,
pelos caminhos do sonho? Deixa os camelos e a sua carga, deixa o Egito, fecha as
asas, abre os olhos, desce; esta  a Rua do Ouvidor, onde no se mata Jos nem
chefia; mas unicamente o tempo, esse bom e mau amigo, que no tem pai, nem me,
nem irmos, e domina todo este mundo, desde antes de Jac at Deus sabe
quando.

Para crnica,  pouco; mas para
matar o tempo, sobra.

19 de maro

Somos todos criados com trs ou
quatro idias que, em geral, so o nosso farnel da jornada. Felizes os que podem
colher de caminho, alguma fruta, uma azeitona, um pouco de mel de abelhas,
qualquer coisa que os tire do ramerro de todos os dias. Para esses guardam os
anjos um lugar delicioso,  um nctar, que no chamam especial para no
confundi-lo com a goiabada ou o ch dos nossos armazns humanos, mas que no ,
com certeza, o nctar do vulgacho. Deixem ir nctar com anjos: todas as crenas
se confundem neste fim de sculo sem elas.

Uma daquelas idias com que nos
criam e nos pem a andar,  a do papelrio. Julgo no ser preciso dizer o que
seja papelrio. Papelrio exprime o processo do executivo, os seus trmites e
informaes; ningum confunde esta idia com outra. Quando um homem no tem
outra clera, tem esta bela clera, contra o papelrio. Terra do papelrio!
costuma dizer um ancio que por falta de meios, amor ao distrito, medo ao mar,
doena ou afeies de famlia, nunca ps o nariz fora da barra. Terra do
papelrio! Ele no quer saber se a burocracia francesa  me da nossa. Tambm
no lhe importa verificar se a administrao inglesa  o que diz dela o filsofo
Spencer, complicada, morosa e tardia. Terra do papelrio!  uma
idia.

Essa idia, mamada com o leite da
infncia, nunca foi aplicada aos negcios judicirios. Entretanto, esta mesma
semana vi publicado o despacho de um juiz mandando que o escrivo numere os
autos da companhia Geral das Estradas de Ferro desde as folhas mil e tantas, em
que a numerao havia parado. O despacho no diz quantas so as folhas por
numerar, nem a imaginao pode calcular as folhas que tero de ser ainda
escritas e ajuntadas a este processo. Duas mil? trs mil? Estendendo pela
imaginao todas as folhas possveis, ao lado das linhas frreas que a companhia
chegaria a possuir, creio que o papel venceria o ferro.

Que papelrio maior, e, a certos
respeitos, que mais intil? Os escrives lucram, no h dvida, e escrivo
tambm  gente; mas  muita folha. Afinal, quem vem a lucrar deveras  o Taine
de 1950. Quando esse investigador curioso entrar a farejar o que est debaixo
dos tempos, para saber o que se pensou, se disse e se fez, e for s casas
particulares e s publicas, aos cartrios e aos jornais, e escavar montanhas de
papel, manuscrito ou impresso, descomposturas e defesas, arrazoados de toda a
sorte, para extrair, recolher e recompor,  ento  que podem valer demandas,
artigos, inquritos.  falta de um Taine, um Balzac retrospectivo.

Talvez o meu espanto seja risvel.
Pode ser que os processos de milhares de folhas andem a rodo; em tal caso,
perde-se no ar toda essa cantilena em que venho por aqui abaixo. No digo que
no. Eu no conheo o foro. Conheci um fiel de feitos, mas no vi se h ainda
agora fiis de feitos. O tal era um sujeito magro, esguio, velho palet, e
calas de brim safado, e uns sapatos rasos sem taco nem escova. Debaixo do
brao um protocolo e autos. Levava autos de um lado para outro, aos juzes, aos
advogados, ao cartrio. Como levaria ele o processo da Companhia Geral de
Estradas de Ferro ou qualquer outro do mesmo tamanho? De carro, naturalmente.
Talvez tivesse carro... Pobre Juvncio! Morreu tarde para as suas misrias, mas
cedo para as suas glrias.

Se j no houver fiel de feitos,
quem far hoje esse ofcio? As prprias partes no podem ser, posto que um bom
acordo e palavra dada valham mais que a diligncia de um desgraado. Os
procuradores tambm no; os escrives precisam escrever. No adivinho.  caso
para inventar um fiel mecnico, um velocpede consciente, mais rpido que o
homem, e to honrado. Tu, se tens o costume de inventar, recolhe-te em ti mesmo,
e procura, investiga, acha, compe, expe, desenha, escreve um requerimento, e
corre a sentar-te  sombra da lei dos privilgios.

Quando o velocpede assim
aperfeioado entregar autos e recolher os recibos no protocolo, pode ser
aplicado s demais esferas da atividade social, e teremos assim descoberto a
chave do grande problema. Dez por cento da humanidade bastaro para os negcios
do mundo. Os noventa por cento restantes so bocas inteis, e, o que  pior,
reprodutivas. Vinte guerras formidveis daro cabo delas; um bom preservativo
estabelecer o equilbrio para os sculos dos sculos. Talho em grande; no sou
homem de pequenas vistas nem de golpes  flor.

At l, usemos da chocadeira, que
um distinto ginecologista recomendou esta semana, em artigo sobre o famoso
assunto da esterilizao, que vai caminho das outras coisas deste mundo. A
chocadeira  conhecida; foi inventada para completar c fora a vida do ente que
no a pde acabar alhures. Por lei fatal, no viveria: a chocadeira impe-lhe a
vida, vencendo assim a natureza. Bem comparando,  o velocpede consciente. O
autor do artigo chama-lhe me artificial.

Propondo a chocadeira ao processo
da esterilizao, mostra ele que tal aparelho  necessrio para um pas que
precisa de braos. Aviso aos nativistas. Quem no quiser aqui uma Babel de
lnguas,  chocar os tristes candidatos  existncia, que no chegam a
matricular-se. A tero eles matricula e aprovao.

Quem s tu, pobre coisa de nada,
que a metafsica do amor, ajudada da fsica, trouxe at s portas da existncia?
Ego sum qui non sum. Pois sers, meio filho de entranhas impacientes;
aqui veremos com que sejas. No te digo se, uma vez conhecido, sers bispo,
general ou mendigo; digo-te que antes mendigo que nada.

Uma coisa, porm, que o autor do
artigo no previu, nem o da chocadeira,  que extintas as demais aristocracias,
vir essa outra, a dos nascidos a termo. O chocado far o papel de plebeu. A
sociedade compor-se- de nascidos e chocados; e filho de chocadeira ser a
ultima injria.

26 de maro

Entrou o outono. Despontam
as esperanas de ouvir Sarah Bernhardt e Falstaff. A arte vir assim, com
as suas notas de ouro, cantadas e faladas, trazer  nossa alma aquela paz que
alguns homens de boa vontade tentaram restituir  alma rio-grandense,
reunindo-se quinta feira na Rua da Quitanda.

Creio que a arte h de ser mais
feliz que os homens. Da reunio destes resultou saber-se que no havia soluo
prtica de acordo com os seus intuitos. Talvez os convidados que l no foram e
mandaram os seus votos em favor do que passasse, j adivinhassem isso
mesmo. Viram de longe o texto da moo final, e a assinaram de vspera. H
desses espritos que, ou por sagacidade pronta, ou por esforo grande, lem
antes da meia-noite as palavras que a aurora tem de trazer escritas na capa
vermelha e branca, sadam as estrelas, fecham as janelas e vo dormir
descansados. Alguns sonham, e creio que sonhos generosos; mas a imaginao e o
corao no mudam a torrente das coisas, e os homens acordam frescos e leves,
sem haver debatido nem incandescido nada.

Comecemos por pacificar-nos. Paz
na terra aos homens de boa vontade   a prece crist; mas nem sempre o
cu a escuta, e, apesar da boa vontade, a paz no alcana os homens e as paixes
os dilaceram. Para este efeito, a arte vale mais que o Cu. A prpria guerra,
cantada por ela, d-nos a serenidade que no achamos na vida. Venha a arte, a
grande arte, entre o fim do outono e o princpio do inverno.

Confiemos em Sarah Bernhardt com
todos os seus ossos e caprichos, mas com o seu gnio tambm. Vamos ouvir-lhe a
prosa e o verso, a paixo moderna ou antiga. Confiemos no grande Falstaff.
No  potico, decerto, aquele gordo Sir John; afoga-se em amores
lbricos e vinho das Canrias. Mas tanto se tem dito dele, depois que o Verdi o
ps em msica, que muito naturalmente  obra-prima.

O pior ser o libreto, que, por
via de regra, no h de prestar; mas leve o diabo libretos. Antes do dilvio, 
ou mais especificadamente, pelo tempo do Trovador, dizia-se que o autor
do texto dessa pera era o nico libretista capaz. No sei; nunca o li. O que me
ficou  pouco para provar alguma coisa. Quando a cigana cantava: Ai nostri
monti ritorneremo, a gente s ouvia o vozeiro da Casaloni, uma mulher que
valia, corpo e alma, por uma companhia inteira. Quando Manrico rompia o famoso:
Di quella pira l'orrendo fuoco, rasgaram-se as luvas com palmas ao
Tamberlick ou ao Mirate. Ningum queria saber do Camarano, que era o autor dos
versos.

Resignemos ao que algum mau
alfaiate houver cortado na capa magnfica de Shakespeare. Tm-se aqui publicado
notcias da obra nova, e creio haver lido que um trecho vai ser cantado em
concerto; mas eu prefiro esperar. Demais, pouco  o tempo para ir seguindo esta
outra guerra civil, a propsito do facultativo italiano, que mostra ser patrcio
de Machiavelli. Fez o seu anncio, e entregou a causa aos adversrios. Estes
fazem, sem querer, o negcio dele; e se algum vai ficando conhecido, a culpa 
das coisas, no da inteno; no se pode falar sem palavras, e as palavras
fizeram-se para ser ouvidas. No digo entendidas, posto que as haja de fina
casta, tais como a isquioebetomia, a isquiopubiotomia, a sinfisiotomia, a
cofarectomia, a histerectomia, a histerosalpingectomia, e outras que andam pelos
jornais, todas de raa grega e talvez do prprio sangue dos Atridas.

Tudo isto a propsito de um
processo ignoto e clebre. Descobriu-se agora (segundo li) que uma senhora j o
conhece e emprega. Seja o que for,  uma questo reduzida aos mdicos; no
passar aos magistrados. Vamos esquecendo;  o nosso ofcio.

Bem faz o Dr. Castro Lopes, que
trabalha no silncio, e de quando em quando aparece com uma descoberta, seja por
livro, ou por artigo. Anuncia-se agora um volume de questes econmicas, em que
ele trata, alm de outras coisas, de uma moeda universal. Um s rebanho e um s
pastor,  o ideal da Igreja Catlica. Uma s moeda deve ser o ideal da igreja do
Diabo, porque h uma igreja do Diabo, no sentir de um grande padre. Venha, venha
depressa esse volapuque das riquezas. No lhe conheo o tamanho; pode ser do
tamanho universal o mesmo que aconteceu com o volapuque. Acabo de ler que um dos
mais influentes propugnadores daquela lngua reconhece a inutilidade do esforo.
O comrcio do mundo inteiro no pega, e prefere os seus dizeres antigos s
combinaes dos que gramaticaram aquele invento curioso.  que o artificial
morre sempre, mais cedo ou mais tarde.

2
de abril

Parece que um ou mais diretores de
clubes esportivos acusaram os book-makers de atos de corrupo. J
apanhei a questo no meio, no posso dar todos os pormenores. Trata-se do
suborno de jqueis, para que estes faam perder os cavalos que lhes esto
confiados, a fim de que tais e tais outros ganhem. Justamente indignados, os
book-makers repeliram a acusao, retorquindo que os prprios diretores 
que subornam os jqueis. No tendo fundamento para crer em nenhum dos dois
libelos, rejeito-os ambos. Uma coisa, porm,  afirmada por uma e outra banda, e
dada por verdadeira:  que h jqueis subornados.

Este  o ponto.  o que se pode
chamar uma bela sociedade. Todos os domingos e dias feriados, centenas de
pessoas atiram-se aos prados de corridas. Outras centenas, menos andareiras,
deixam-se ficar aqui mesmo, apostando pelo telefone. A simpatia, a tradio, o
palpite, levam grande parte de umas e outras aos cavalos King, Otelo ou Moltke.
Tudo por Otelo! tudo por Moltke! tudo por King! D-se o sinal. Os cavalos saem,
correm, voam, chegam. Com eles vo outros, o Veloz, que os vai seguindo, depois
Vespasiano, depois Marte... L vo, l passam, l ganham. Os jqueis dos
primeiros dobram-se cada vez mais sobre eles, tomam o freio nos dentes, voam
inteiros, corpo e alma, tudo, mas no podem. Urra por Marte! Urra por Veloz!
Urra por Vespasiano.

Trs pangars, dizem os que
perdem; como  que trs animais nfimos puderam vencer trs cavalos de primeira
ordem, os primeiros da capital? Abre-se debate, faz-se tumulto; no se atina com
a razo. Algum haver que atribua o caso a milagre; outro vai logo ao suborno.
Da as acusaes.

Conversando com um senhor, um
estrangeiro, creio que polaco, disse-me ele que os que perdem, no crem jamais
que tudo se passe naturalmente; h de haver milagre ou corrupo, isto ,
interveno de Deus ou do diabo.

 Ento parece-lhe que realmente o
Moltke, o King e Otelo deviam perder a corrida?

 Se quisessem, por que
no?

 Se quisessem...?

 Oua-me. H entre os cavalos uma
espcie de maonaria. Cansados de se verem reduzidos a cartas de jogar ou dados,
com o falaz pretexto de apurar a raa, os cavalos resolvem, s vezes, entre si,
iludir as esperanas dos homens. Trocam os papis, creio que de vspera, ou no
prprio encilhamento, ao ouvido,  s  vezes por sinais de olhos. Quando a
luta comea, os homens ficam embaraados. Os cavalos, no podendo rir para fora,
riem para dentro.

 No  m!

 No mofe, que  imitar os
ignorantes. Que os cavalos faam acordos entre si,  coisa sabida por todos os
que folheiam livros antigos. Diculasius, op., lib. XXI, refere: Os
nmidas contam que os seus cavalos combinam entre si,  imitao dos homens, a
marcha que ho de ter, quando presumem que esta os fatigue em excesso, se forem
pelo acordo dos cavaleiros Cneius Publios, confirmando essa verso, acrescenta
que a espcie cavalar  daquelas em que mais se ajustam as vontades. Mas o
primeiro que estudou detidamente este assunto (no falando dos rabes), foi o
filsofo Claudicas Morbus; esse achou que os cavalos escarnecem dos homens: Os
ruins cavalos, diz ele em um dos seus tratados, so muita vez cavalos
excelentes; para escarnecer dos homens, fazem-se ruins, empacam, afrouxam o
passo, ou simplesmente os cospem de si, para que eles os no aborream mais. Os
cavalos que falam aos homens, como o de Aquiles, so raros, se  que ainda
existe algum; geralmente falam entre si. Tendo estudado gestos de cabea e de
olhos, no menos que os relinchos, cheguei a formular um vocabulrio, que me tem
servido para alguma coisa.

 O senhor est falando
srio?

 Como quer que lhe
fale?

  que no me
consta...

 Ah! isto no se acha nos grandes
autores clssicos;  preciso vasculhar livros que poucos lem, que s l a gente
erudita, desculpe a expresso.

 Ento, os cavalos...

 Os cavalos so homens; e no
est longe o sculo em que os homens correro tambm para recreio e lucro dos
cavalos. Ora, se, nessas corridas do futuro, os homens, por meio de sinais,
sussurro ou at meias palavras, combinarem entre si uma troca de palpites, de
modo que os ltimos cheguem primeiro, e os considerados primeiros cheguem por
ltimo, que dir o senhor?

 Perdo...

 Note que a hiptese  anda mais
natural com os homens, pela razo do domnio que eles tm sobre a terra, das
civilizaes anteriores e do orgulho que da nasce. Que mais natural que isto, e
que mais justo? O senhor no se admirar, decerto...

 Decerto.

 Por que se admira ento de que
os cavalos faam o mesmo?

 Eu lhe digo...

 No me diga nada. Adivinho o que
me vai dizer. Respondo-lhe que h de ser pior com o homem, sem que isso prove
que o homem seja pior, que o cavalo. O orgulho do cavalo  grande; ele no tem
s a vaidade que lhe supem os inadvertidos. Nas corridas lutam as mais das
vezes com lealdade, por amor-prprio, defendem o nome e os brios. O prprio
sangue os aguilhoa e leva. Quando, porm, os aborrecemos, dizem consigo
provavelmente que no nasceram para gamo, nem loteria, ajustam-se e trocam de
papel; King faz ganhar a Vespasiano, como Otelo cede o lugar a Veloz.

 Seja como for, perdemos o
dinheiro que estava ganho.

 Tem graa! No se perde nada,
porque assim como os que deviam ganhar, perdem, assim tambm os que deviam
perder, ganham. H compensao.  o que se pode chamar uma bela
sociedade.

9
de abril

O conselho municipal vai
regulamentar o servio domstico. J h um projeto, apresentado esta semana pelo
Sr. intendente Joo Lopes, para substituir o que se adiara, e em breve estar,
como se diz em dialeto parlamentar, no tapete da discusso.

No me atribuam nenhuma trapalhice
de linguagem, chamando intendente a um membro do conselho municipal. Assim se
chamam eles entre si. Podem retrucar que, no tempo das Cmaras municipais, os
respectivos membros eram vereadores.  verdade; mas, nesse caso, fora melhor ter
conservado os nomes antigos, que eram uma tradio popular, uma ligao
histrica, e creio at que a intendncia que primeiro substituiu a cmara, 
menos democrtica. Intendncia e intendente cheiram a ofcio
executivo.

Mas, seja cmara, intendncia ou
conselho, vai reformar o servio domstico, e desde j tem o meu apoio, embora
os balanos da fortuna possam levar-me algum dia a servir, quando menos, o
ofcio de jardineiro. As flores (no  poesia) so a minha alma. Eu daria a
coroa de Madagascar por uma rosa do Japo. Outros sacrificariam todas as flores
de leste e de oeste pela coroa da ilha das Enxadas. So gostos. Agora mesmo, o
corretor Souto, achando-se em graves embaraos pecunirios, ps termo  vida.
Pessoas h que, nas mesmas circunstncias, criam alma nova. Pontos de
vista.

Enquanto, porm, no me chega o
infortnio, quero o regulamento, que  muito mais a meu favor do que a favor do
meu criado. Na parte em que me constrange, no ser cumprido, porque eu no vim
ao mundo para cumprir lei, s porque  lei.

Se  lei, traga um pau; se no
traz um pau, no  nada.

Um exemplo  mo. Qual  a
primeira das liberdades, depois da de respirar?  a da circulao, suponho. Pois
para que a tenhamos no meio da rua da Candelria, e no princpio da da
Alfndega, vulgo Encilhamento,  preciso que andem ali a defend-la duas
praas de cavalaria. Desde 1890 estabeleceu-se naquele lugar uma massa compacta
de cidados, que no deixava passar ningum. No digo que o motivo fosse
expressamente restringir a liberdade alheia; pode ser que o intuito da reunio
fosse to-somente formar um istmo que de algum modo imitasse o de Panam, que se
desfazia todas as tardes,  mesma hora em que as antigas quitandeiras da rua
Direita levantavam as suas tendas. Pode ser; o esprito de imitao  altamente
fecundo.

Entretanto ( a minha tese), tirem
dali as duas praas de cavalaria, e o Encilhamento continua. J ali
estiveram duas, e, para manter a liberdade da circulao, eram obrigadas a
disparar de vez em quando. Dispersavam a gente,  verdade, mas faziam perder e
ganhar muito conto de ris, porque os jogadores apostavam sobre elas mesmas, a
saber, qual das duas praas chegaria a uma dada linha da rua. Saram as praas,
refez-se o istmo.

Mas venhamos ao nosso projeto
municipal. Tem coisas excelentes; entre outras, o art. 18, que manda tratar os
criados com bondade e caridade. A caridade, posta em regulamento, pode ser de
grande eficcia, no s domstica, mas at pblica. Outra disposio que merece
nota,  a que respeita aos atestados passados pelo amo em favor dos criados;
segundo o regulamento, devem ser conscienciosos. Na crise moral deste fim de
sculo, a decretao da conscincia  um grande ato poltico e filosfico. Pode
criar-se assim uma gerao capaz de encarar os tremendos problemas do futuro e
refazer o carter humano. Que tenha defeitos, admito. Assim, por exemplo, o art.
19 obriga amo e criado a darem parte  polcia dos seus ajustes, sob pena de
pagar o amo trinta mil ris de multa e de sofrer o criado cinco dias de priso;
 isto , ao amo tira-se o dinheiro, e ao criado ainda se lhe d casa, cama e
mesa.  irrisrio; mas pode emendar-se.

Quando os criados fizerem os
regulamentos, no creiam que sejam to benignos com os amos. A primeira de suas
disposies ser naturalmente que toda a pessoa que contratar um criado,
pagar-lhe- certa quantia, a ttulo de indenizao, pelo incmodo de o tirar de
seus lazeres. A segunda prover  composio de um pequeno dicionrio, em que se
inscrevam as palavras duras, ou simplesmente imundas, que os criados podero
dizer aos amos, quando estes achem um copo menos transparente. A terceira
definir os casos em que um gatuno possa perder paulatinamente o vcio, servindo
a um homem e fumando-lhe os charutos, com tal graduao que, antes de vinte
meses, s os fume comprados com o seu dinheiro.

Tudo isto quer dizer que a
legislao, como a vida,  uma luta, cujo resultado obedece  influncia
mesolgica. Oh! a influncia do meio  grande. Que vemos no Rio Grande do Sul?
Combate-se e morre-se para derrocar e defender um governo. Venhamos a Niteri,
mais prximo do teatro lrico. Trata-se de depor a intendncia. Renem-se os
autores e propugnadores da idia, escrevem e assinam uma mensagem, nomeiam uma
comisso, que sai a cumprir o mandato. A intendncia, avisada a tempo, est
reunida; talvez de casaca. A comisso sobe, entra, corteja, fala:

 Vimos pedir, em nome do povo,
que a intendncia deponha os seus poderes.

A intendncia, para imitar algum,
imita Mirabeau:

 Ide dizer ao povo, que estamos
aqui pelos seus votos, e s sairemos pela fora das baionetas!

A comisso corteja e vai levar a
resposta ao povo. O povo, na sua qualidade de Luiz XVI, exclama:

  pois uma rebelio?

 No, real senhor,  uma
conservao.

Tudo isto limpo, correto, sem dio
nem teimosia, antes do jantar, antes do voltarete, antes do sono. Se algum
ficou sem pinga de sangue, no o perdeu na ponta de uma espada; foi s por
metfora, uma das mais belas metforas da nossa lngua, e ainda assim duvido que
ningum empalidecesse. Talvez houvesse programa combinado. Quantos fatos na
histria, que, parecendo espontneos, so filhos de acordo entre as
partes!

16 de abril

H hoje um eclipse do sol. Est
anunciado. Os astrnomos chegaram a esta perfeio de descrever antecipadamente
esta casta de fenmenos, com o minuto exato do princpio e do fim, o primeiro e
o ltimo contato. No h mais que aguard-lo e mir-lo, mais ou menos, segundo
ele for total ou parcial. E assim se vai o melhor da vida, que  o inopinado. O
incerto  o sal do esprito. Ah! bons tempos em que os eclipses no andavam por
almanaques, e queriam dizer alguma coisa, tais quais os cometas, que eram um
sinal da clera dos deuses. Os deuses foram-se levando a clera consigo. Assim
pagaram as oferendas e os poemas que receberam de milhes e milhes de
criaturas.

Tudo acabou. Eclipses, cometas,
sonhos, entranhas de vtimas, nmero treze, p esquerdo, quantos captulos
rasgaram  alma humana, para substitu-los por outros, exatos e verdadeiros, mas
profundamente inspidos. Quando Jav tomou conta do Olimpo, os homens tinham um
resto dos antigos medos, e porventura criaram outros; mas o tempo os foi roendo.
Pode ser que ainda agora haja algum, em vilas interiores, como as modas do ano
passado; mas so restos de restos. O clculo substituiu a novidade, o anncio
matou o espanto.

Que lhes diga isto em verso? Ah!
leitor amigo, quisera faz-lo, e, a rigor, no era difcil, contanto que as
palavras, escritas em papelinhos e metidas dentro de um chapu fossem baralhadas
com algum furor, para no dissentir do verdadeiro nefelibatismo. Creio que 
assim que se escreve. Se  de outro modo, pacincia; antes um erro de ortografia
que de doutrina. A doutrina  sacudir bem o chapu.

E, vamos l, no faltaria matria.
Como se poderia contar, com verossimilhana, em simples prosa, o caso de Santa
Catarina? O governador dissolveu um tribunal; divergem as opinies no ponto de
saber se ele podia ou no faz-lo. Compreendo a divergncia; so questes legais
ou constitucionais, e os princpios fizeram-se para isto mesmo, para dividir os
homens, j divididos pelas paixes e pelos interesses. No compreendo, porm, os
efeitos do ato. Os telegramas noticiam que o regozijo pblico e a indignao
pblica so enormes. O governador  objeto de aclamaes e vituprios.
Gargalhadas e ranger de dentes enchem o ar do Estado. Essas contradies s o
movimento poltico as poderia fazer aceitar.

Convm notar que, a princpio,
julguei que era gracejo dos empregados do telgrafo, e gracejo comigo. Cheguei a
escrever cinco ou seis mofinas, com assinatura e estilo diferentes. Em uma delas
cotejava essas notcias contraditrias com as da Havas, todas acordes, ainda
quando esta agncia passa da notcia  profecia, como fez agora, a propsito de
dois presos polticos de Santiago, dos quais diz que vo ser condenados 
morte.  ter muita ou nenhuma confiana nos tribunais.

Fora do caso catarinense, tudo o
mais pde ser dito em prosa, nesta prosa nua e ch, como a alma do prosador. Que
metro  preciso para contar que vamos perder os quiosques? Dizem que o conselho
municipal trata de acabar com eles. No quero que morram, sem que eu explique
cientificamente a sua existncia. Logo que os quiosques penetraram aqui, foi
nosso cuidado perguntar s pessoas viajadas a que  que os destinavam em Paris,
donde vinha a imitao; responderam-me que l eram ocupados por uma mulher, que
vendia jornais. Ora, sendo o nosso quiosque um lugar em que um homem vende
charutos, caf, licor e bilhetes de loteria, no h nesta diferena de aplicao
um saldo a nosso favor? A diferena do sexo  a primeira, e porventura a maior;
a rua fez-se para o homem, no para a mulher, salvo a rua do Ouvidor. O charuto,
to universal como o licor,  uma necessidade pblica. No cito o caf;  a
bebida nacional por excelncia. Quanto ao bilhete de loteria, esse emblema da
luta de Jac com o anjo, que  como eu considero a caa  sorte grande, pode ser
que a venda dele nos quiosques diminua os lucros do beco das Cancelas; mas o
beco  triste, no solta foguetes quando lhe saem prmios, se  que lhe saem
prmios. Os quiosques alegram-se quando os vendem, e  certo que os vendem em
todas as loterias.

No obstante, l vo os quiosques
embora. Assim foram as quitandeiras crioulas, as turcas e rabes, os
engraxadores de botas, uma poro de negcios da rua, que nos davam certa feio
de grande cidade levantina. Por outro lado, se Renan fala verdade, ganhamos com
a eliminao, porque tais cidades, diz ele, no tm esprito poltico, ou sequer
municipal; h nelas muita tagarelice, todos se conhecem, todos falam um dos
outros, mobilidade, avidez de notcias, facilidade em obedecer  moda, sem
jamais invent-la. No; vo-se os quiosques, e valha-nos o conselho municipal.
Os defeitos ir-se-o perdendo com o tempo. Ganhemos desde logo ir mudando de
aspecto.

Sim, valha-nos o conselho; no
perca tempo. J perdeu algum, por ocasio de declarar um intendente haver sido
convidado a votar contra a sua prpria opinio. Logo que ele se sentou,
ergueu-se outro intendente e fez outro discurso, aprovando o primeiro; veio
terceiro, veio quarto; veio quinto. Salvo a paz de Varsvia, reminiscncia que
esmaltou dois perodos de um dos discursos, nada se disse que fosse diferente, e
para casos destes  que se fizeram os apoiados gerais.

Valha-nos tambm a polcia, no
autorizando a guarda particular que se lhe pediu, no sei para que lugar da
cidade. Isto de guarda particular de um bairro, feita  custa dos moradores, at
parece caoada com o poder pblico. H opinies contrrias a esta; mas eu, no
captulo das opinies, tenho verdadeiros despropsitos. No deferia o
requerimento; diria que quem guardava a casa era eu, e s eu responderia por
ela.

Adeus. Vou continuar a leitura do
ltimo artigo do autor da esterilizao, em resposta aos que tm deposto contra
ele.  comprido e custa ler, por causa da muita fisiologia e anatomia de alcova,
que exige palavras cientficas. Acho que ele faz bem em defender-se, mormente
depois que uma das testemunhas assegurou que no sei que senhora, depois de
operada, deixou de ter um filho para ter dois. Este efeito, se fosse verdadeiro,
seria mais grave que o efeito moral. Era a desconsiderao do processo.
Contrariamente ao velho adgio, era ir buscar tosquia e sair lanzuda. Creio que
estou ficando excessivamente cientfico...

23 de abril

Eu, se tivesse de
dar Hamlet em lngua puramente carioca, traduziria a clebre resposta do
prncipe da Dinamarca: Words, words, words, por esta: Boatos,
boatos, boatos. Com efeito, no h outra que melhor diga o sentido do grande
melanclico. Palavras, boatos, poeira, nada, coisa nenhuma.

Toda a semana finda viveu disso,
salvo a parte que no veio por boatos, mas por fatos, como o caso do coreto da
Praa Tiradentes. Ningum boquejou nada sobre aquela construo; por isso mesmo
deu de si uma poro de conseqncias graves. Os boatos, porm, andavam a rodo,
os rumores iam de ouvido em ouvido, nas lojas, corredores, em casa, entre a pra
e o queijo, entre o basto e a espadilha. Conspiraes, dissenses, exploses.
Uns davam  distribuio dos boatos a forma interrogativa, que  ainda a melhor
de todas. Homem, ser certo que X furtou um leno? O ouvinte, que nada sabe,
nada afirma; mas aqui est como ele transmite a notcia:  Parece que X furtou
um leno. Um leno de seda? Provavelmente; no valeria a pena furtar um leno de
algodo. A notcia chega  Tijuca com esta forma definitiva: X furtou dois
lenos, um de seda, e, o que  mais nojento, outro de algodo, na Rua dos
Ourives.

No me digam que imito assim a
fbula do marido e do ovo. Na fbula, quando o marido chega a ter posto uma
dzia de ovos, h ao menos o nico ovo de galinha com que ele experimentou de
manh a discrio da esposa. Aqui no h sequer as casacas. E, se no, vejam o
que me aconteceu quarta-feira.

Estava  porta de uma farmcia,
conversando com dois amigos sobre os efeitos prodigiosos do quinino, quando
apareceu outro velho amigo nosso, o qual nos revelou muito  puridade que na
quinta-feira teramos graves acontecimentos, e que nos acautelssemos. Quisemos
saber o que era, instamos, rogamos, no alcanamos nada. Graves acontecimentos.
Ele falava de boa f. Tinha a expresso ingnua da pessoa que cr, e a expresso
piedosa da pessoa que avisa. Retirou-se; ficamos a conjeturar e chegamos a esta
concluso, que os sucessos anunciados eram o desenlace fatal dos boatos que
andavam na rua. Todas essas cegonhas bateriam as asas  mesma hora, convertidas
em abutres, que nos comeriam em poucos instantes.

Para mistrio, mistrio e meio.
Sa dali, corri  casa de um armeiro, onde comprei algumas espingardas e
bastante cartuchame. Alm disso, com o pretexto de saudar o dia 21 de abril,
alcancei por emprstimo duas peas de artilharia. Assim armado, recolhi-me a
casa, jantei, digeri, e meti-me na cama. Naturalmente no dormi; mas tambm no
vi a aurora. nem o sol de quinta-feira. Portas e janelas fechadas. Nenhum rumor
em casa, comidas frias para no fazer fogo, que denunciasse pelo fumo a presena
de refugiados. Ensinei  famlia a senha monstica; andvamos calados,
interrompendo a silncio de quando em quando para dizermos uns aos outros que
era preciso morrer. Assim se passou a quinta-feira.

Na sexta-feira, pelas seis horas
da manh, ouvi tiros de artilharia. Ou  a salva de Tiradentes, disse  famlia,
ou  a revoluo que venceu. Sa  rua; era a salva. Perguntei pelos mortos. Que
mortos? Pelos acontecimentos? Nada houvera; toda a cidade vivera em paz. Assim
se desvaneceram os sustos, filhos de boatos, filhos da imaginao. Assim se
desvaneam todos os demais ovos do marido de Lafontaine.

S um fato se havia dado, como
disse o do coreto. Fui  praa ver os destroos, mas j no vi nada; achei a
esttua e curiosos. Desandei, atravessei o Largo de So Francisco e desci pela
Rua do Ouvidor, ao encontro do prstito de Tiradentes. Era pena; esta cidade
tem, pata Tiradentes, no s a dvida geral da glorificao, como precursor da
independncia e mrtir da liberdade, mas ainda a dvida particular do resgate.
Ela festejou com pompa a execuo do infeliz patriota, no dia 21 de abril de
1792, vestindo-se de galas e ouvindo cantar um Te-Deum.

Espiando para casa, lembrei-me que
esse dia 21 era ainda aniversrio de outra tentativa poltica. O povo desta
cidade e os eleitores convocados revolucionariamente pelo juiz da comarca,
reuniram-se na Praa do Comrcio e pediram ao rei a constituio espanhola,
inteiramente. A constituio foi dada na mesma noite, contra a vontade de
algumas pessoas, e retirada no dia seguinte, depois de alguns lances prprios de
tais crises, no por ser constituio,  visto que, dois anos depois, tnhamos
outra,  mas naturalmente por ser espanhola. De Espanha s mulheres, guitarras e
pintores.

Tudo so aniversrios. Que  hoje
seno o dia aniversrio natalcio de Shakespeare? Respiremos, amigos; a poesia 
um ar eternamente respirvel. Miremos este grande homem; miremos as suas belas
figuras, terrveis, hericas, ternas, cmicas, melanclicas, apaixonadas, vares
e matronas, donzis e donzelas, robustos, frgeis, plidos, e a multido, a
eterna multido forte e movedia, que execra e brada contra Csar, ouvindo a
Bruto, e chora e aclama Csar, ouvindo a Antnio, toda essa humanidade real e
verdadeira. E acabemos aqui; acabemos com ele mesmo, que acabaremos bem. All
is well that ends well.

7
de Maio

Abriu-se o Congresso Nacional. Uma
folhinha que aqui tenho d nas efemrides este nico acontecimento do dia 3 de
maio do ano findo: No se abriu o Congresso por falta de nmero. Curioso dia
em que s aconteceu no acontecer nada. No foi assim este ano. O Congresso
abriu-se no prprio dia constitucional.

H quem deseje saber o que dar de
si esta sesso. No anterior regmen j havia a mesma curiosidade. Mas eu creio,
como os antigos, que o futuro repousa nos joelhos dos deuses. Creio tambm nos
deuses; mas, se privasse com eles, e soubesse o que nos dar o Congresso este
ano, no viria diz-lo ao pblico, nem ainda aos amigos. No porque seja avaro
de notcias, mas por medo ao cdigo penal, onde h um artigo que castiga
duramente as pessoas que adivinham o futuro; to duramente como as que aplicam
drogas para excitar dio ou amor. Por que somente o dio e o amor, leitora, e
no tambm a ambio e a prodigalidade? Amiga minha, so segredos dos
cdigos.

Afinal, o melhor  fazer como os
fregueses das galerias. Esses no querem saber o que vai sair das cmaras; pedem
verbo, mas verbo grosso, discurso lacerado de apartes, apodos, violncia,
agitao. A histria das galerias no  das menos instrutivas. A princpio,
ouviam caladas o que se passava, e desciam depois  rua para ver sarem os
oradores. Um dia, intervieram com palmas. O presidente bradou-lhes c de
baixo:

 As galerias no podem dar sinais
de agrado ou desagrado.

Repetindo-se mais tarde as
manifestaes, o presidente repetiu a declarao, com o acrscimo de que as
faria evacuar, se continuassem. Quando elas viram que esta ameaa no era outra
coisa, prosseguiram nos aplausos e nos rumores. Com o tempo estabeleceu-se um
direito consuetudinrio. Quando o presidente dizia que as galerias no podiam
manifestar-se, era um modo de dividir o coro dos aplausos por estrofes. Mais
ao de artista que de autoridade. Elas tornavam a aplaudir, ele tornava a
amea-las, at dar a hora.

 Est levantada a
sesso.

De uma vez, apresenta-se  cmara
um ministrio novo. A apresentao de um ministrio era um daqueles banquetes
romanos do bravo e guloso Lculo. Tanta era a gente, que no cabia nas galerias;
desceu aos corredores laterais da cmara, ao prprio recinto, que ficou
atopetado. De repente, ergue-se um deputado, faz um discurso de vinte minutos e
termina aclamando a Repblica. As galerias de cima e de baixo repetiram os
vivas. Em vo o presidente bradava que as galerias no podiam manifestar-se;
tanto podiam que o faziam. Quando acabou a sesso, um deputado do norte, saindo
com alguns amigos, dizia-lhes: Meus amigos, a repblica est feita. Meses
depois, era verdade.

Parece que este ano a cmara
tranca o recinto aos estranhos, sem exceo. Por que sem exceo? Ni
cet excs d'honneur, ni cette indignit. Alm de que no h regra sem ela,
sucede que a exceo pode ser odiosa ou legtima, segundo os casos. Se houver
uma s pessoa admitida, e for eu, a exceo  legtima. Idia banal, no ? Mas
aqui est a razo psicolgica do meu dito. Quando a exceo recai em Pedro ou
Paulo, eu lano os olhos a Sancho e a Martinho, e a todos os nomes do
calendrio, e posso medir a injustia daquele nico ponto no meio da extenso
vastssima dos homens. Quando, porm, a escolha recai em mim, recolho-o em mim
mesmo por um movimento involuntrio; o mundo exterior desaparece, fico com a
minha individualidade, com o meu direito anterior e superior. Todo eu sou regra;
no acho, no posso achar injustia na escolha. Comigo est o
universo.

No falo das vantagens exteriores
da unidade, to bvias so. Isto de ser nico admitido no recinto, estar ao p
de uma bancada, falar aos deputados que entram e saem, aos secretrios que
descem ao prprio presidente, chama logo a ateno da galeria. E eu gosto da
galeria; todos os meus atos no tm outro fito seno ela; deleito-me com ser
visto, apontado, admirado. Da a variedade das minhas atitudes. No h uma s
que seja natural. s vezes cruzo os braos e derreio a cabea, outras meto as
mos nas algibeiras das calas; chapu na anca, ou seguro pela aba, na altura do
estmago; quatro dedos no bolso esquerdo do colete. Note-se  e esta  a minha
arte suprema,  em qualquer dessas atitudes ningum dir que olho para a
galeria, e a verdade  que no miro outra coisa. Ela  tudo; nao, opinio
pblica, histria e posteridade so outros tantos sinnimos com que eu sirvo a
minha castel.

Excetue-me a cmara, e ter dado
um passo justo. Em paga, digo-lhe que h muito que fazer, e que ela o far, com
o esforo de que  capaz. Li que se fizeram reunies de governistas e de
oposicionistas. No gosto destas denominaes vagas, mas no h ainda outras,
porque no h partidos que tragam os seus nomes prprios, e com eles as suas
idias, e por elas o seu apoio ou a sua oposio.  talvez cedo; o tempo os
trar, com os seus programas. No  que eu exija a execuo integral dos
programas. Execuo integral s a peo aos poetas, quando se dispem a cantar
alguma, a clera de Aquiles, arma virumque, a primeira desobedincia do
homem, os ritos semibrbaros dos piagas, ou o heri daquela nossa jia chamada
Uruguai. Esses ho de dar-me para ali o que prometem, e em belos versos,
 coisa que no exijo dos partidos, nem belos versos nem bela prosa.

14 de maio

Ontem de manh,
descendo ao jardim, achei a grama, as flores e as folhagens transidas de
frio e pingando. Chovera a noite inteira; o cho estava molhado, o cu feio e
triste, e o Corcovado de carapua. Eram seis horas; as fortalezas e os navios
comearam a salvar pelo quinto aniversrio do Treze de Maio. No havia
esperanas de sol; e eu perguntei a mim mesmo se o no teramos nesse grande
aniversrio.  to bom poder exclamar: Soldados,  o sol de Austerlitz! O sol
, na verdade, o scio natural das alegrias pblicas; e ainda as domsticas, sem
ele, parecem minguadas.

Houve sol, e grande sol, naquele
domingo de 1888, em que o Senado votou a lei, que a regente sancionou, e todos
samos  rua. Sim, tambm eu sa  rua, eu o mais encolhido dos caramujos,
tambm eu entrei no prstito, em carruagem aberta, se me fazem favor, hspede de
um gordo amigo ausente; todos respiravam felicidade, tudo era delrio.
Verdadeiramente, foi o nico dia de delrio pblico que me lembra ter visto.
Essas memrias atravessaram-me o esprito, enquanto os pssaros treinavam os
nomes dos grandes batalhadores e vencedores, que receberam ontem nesta mesma
coluna da Gazeta a merecida glorificao. No meio de tudo, porm, uma
tristeza indefinvel. A ausncia do sol coincidia com a do povo? O esprito
pblico tornaria  sanidade habitual?

Chegaram-me os jornais. Deles vi
que uma comisso da sociedade que tem o nome de Rio Branco, iria levar 
sepultura deste homem de Estado uma coroa de louros e amores-perfeitos.
Compreendi a filosofia do ato; era relembrar o primeiro tiro vibrado na
escravido. No me dissipou a melancolia. Imaginei ver a comisso entrar
modestamente pelo cemitrio, desviar-se de um enterro obscuro, quase annimo, e
ir depor piedosamente a coroa na sepultura do vencedor de 1871. Uma comisso,
uma grinalda. Ento lembraram-me outras flores. Quando o Senado acabou de votar
a lei de 28 de setembro, caram punhados de flores das galerias e das tribunas
sobre a cabea do vencedor e dos seus pares. E ainda me lembraram outras
flores...

Estas eram de climas alheias.
Primrose day! Oh! se pudssemos ter um primrose day! Esse dia de
primavera  consagrado  memria de Disraeli pela idealista e potica
Inglaterra.  o da sua morte, h treze anos. Nesse dia, o pedestal da esttua do
homem de Estado e romancista  forrado de seda e coberto de infinitas grinaldas
e ramalhetes. Dizem que a primavera era a flor da sua predileo. Da o nome do
dia. Aqui esto jornais que contam a festa de 19 do ms passado. Primrose
day! Oh! quem nos dera um primrose day! Comearamos,  certo, por
ter os pedestais.

Um velho autor da nossa lngua, 
creio que Joo de Barros; no posso ir verific-lo agora; ponhamos Joo de
Barros. Este velho autor fala de um provrbio que dizia: os italianos
governam-se pelo passado, os espanhis pelo presente e os franceses pelo que h
de vir. E em seguida dava uma repreenso de pena  nossa Espanha,
considerando que Espanha  toda a pennsula, e s Castela  Castela. A nossa
gente, que dali veio, tem de receber a mesma repreenso de pena; governa-se pelo
presente, tem o porvir em pouco, o passado em nada ou quase nada. Eu creio que
os ingleses resumem as outras trs naes.

Temo que o nosso regozijo v
morrendo, e a lembrana do passado com ele, e tudo se acabe naquela frase
estereotipada da imprensa nos dias da minha primeira juventude. Que eram afinal
as festas da independncia? Uma parada, um cortejo, um espetculo de gala. Tudo
isso ocupava duas linhas, e mais estas duas: as fortalezas e os navios de guerra
nacionais e estrangeiros surtos no porto deram as salvas de estilo. Com
este pouco, e certo, estava comemorado o grande ato da nossa separao da
metrpole.

Em menino, conheci de vista o
Major Valadares; morava na Rua Sete de setembro, que ainda no tinha este
ttulo, mas o vulgar nome de Rua do Cano. Todos os anos, no dia 7 de setembro,
armava a porta da rua com cetim verde e amarelo, espalhava na calada e no
corredor da casa folhas da Independncia, reunia amigos, no sei se
tambm msica, e comemorava assim o dia nacional. Foi o ltimo abencerragem.
Depois ficaram as salvas do estilo.

Todas essas minhas idias
melanclicas bateram as asas  entrada do sol, que afinal rompeu as nuvens, e s
trs horas governava o cu, salvo alguns trechos onde as nuvens teimavam em
ficar. O Corcovado desbarretou-se, mas com tal fastio, que se via bem ser
obrigao de vassalo, no amor da cortesia, menos ainda amizade pessoal ou
admirao. Quando tornei ao jardim, achei as flores enxutas e lpidas. Vivam as
flores! Gladstone no fala na Cmara dos Comuns sem levar alguma na sobrecasaca;
o seu grande rival morto tinha o mesmo vcio. Imaginai o efeito que nos faria
Rio Branco ou Itabora com uma rosa ao peito, discutindo o oramento, e dizei-me
se no somos um povo triste.

No, no. O triste sou eu.
Provavelmente m digesto. Comi favas, e as favas no se do comigo. Comerei
rosas ou primaveras, e pedir-vos-ei uma esttua e uma festa que dure, pelo
menos, dois aniversrios. J  demais para um homem modesto.

21 de Maio

Tudo se desmente neste mundo, e o
sculo acaba com os ps na cabea. Podia acabar pior. Quem se no lembra com
saudades do ltimo vero? Dias frescos, chuvas temperando os dias de algum
calor, e obiturio pobre. Chegou maro, abotoou abril, desabotoou maio, parecia
que entrvamos em um perodo de delcias ainda maiores. Justamente o oposto.
Calor, doenas, grande obiturio.

A prpria cincia parece no saber
a quantas anda. Tempo h de vir em que o xarope de Cambar no cure, e talvez
mate. J agora so os bonds que empurram as bestas; esperemos que os
passageiros os no puxem um dia. Quando ramos alegres,  o que d no mesmo,
quando eu era alegre,  aconteceu que o gs afrouxou enormemente. Como se
despicou o povo da calamidade? Com um mote: O gs virou lamparina.
Ouvia-se isto por toda a parte, lia-se no meio de grande riso pblico. L vo
trinta anos. Agora nem j sabemos pagar-nos com palavras. Quando, h tempos, o
gs teve um pequeno eclipse, levantamos as mos ao cu, clamando por
misericrdia.

A semana foi cheia desde os
primeiros dias. Novidades de todos os tamanhos e cores. Para os que as buscam
por todos os recantos da cidade, deve ter sido uma semana trapalhona; para mim,
que no as procuro fora da rua do Ouvidor, a semana foi interessante e plcida.
Pode ser que erre; mas ningum me h de ver pedir notcias em outras ruas. s
vezes perco uma verdade da rua da Quitanda por uma inveno da rua do Ouvidor;
mas h nesta rua um cunho de boa roda, que d mais brilho ao exato, e faz
parecer exato o inventado. Acresce a qualidade de pasmatrio. As ruas de simples
passagem no tm graa nem excitam o desejo de saber se h alguma coisa. O
pasmatrio obriga ao cotejo. Enquanto um grupo nos d uma notcia, outro, ao
lado, repete a notcia contrria; a gente coteja as duas e aceita uma
terceira.

Foi o que me aconteceu anteontem.
Deram-me duas verses do que se passava na cmara dos deputados; segundo uns,
no se estava passando nada; segundo outros, passava-se o diabo. Cheguei a ouvir
citar o ano de 93, como sendo primeiro aniversrio secular do Terror. E
diziam-me que, assim como h bodas de prata, bodas de ouro, bodas de diamante,
havia tambm bodas de sangue, as bodas de sangue da liberdade: eram os cem anos
da Conveno. Achei plausvel; corri  cmara. Primeira decepo: no vi
Robespierre. Discutia-se uma questo, e a cmara resolvia continuar no dia
seguinte, ontem, em comisso geral. Eram quatro horas e meia da tarde; a sesso
comeara ao meio-dia.

Sa murcho e contente. Murcho por
no achar nada, e contente por no serem as comisses gerais daqui semelhantes
s da cmara dos comuns, que so medonhas. No h dvida que a cmara dos comuns
governa; mas governa a troco de qu? Governar assim e matar-se  a mesma
coisa.

Para no ir mais longe, aqui est
a sesso do dia 24 de maro ltimo, em que houve comisso geral. Principiou pela
sesso ordinria, s duas horas e cinco minutos da tarde. O chefe da oposio
perguntou ao primeiro ministro se podia responder a um voto de censura
que lhe faria em dia que designou; respondeu o Sr. Gladstone; e comeou a
discusso de um bill financeiro. Ouviram-se cinco ou seis discursos;
s  trs e pouco, entrou em discusso outro bill, que levou at
perto de sete horas. Interrompeu-se a sesso s  sete, jantaram ali mesmo,
e continuou s  nove. Tratou-se ento do subsdio aos deputados; ouviram-se
sete discursos at que caiu o projeto, votando 276 contra e 229 a favor. Era
meia-noite. Parece que estava ganho o dia; oito horas de trabalho (descontadas
as do jantar) eram de sobra. Mas  no conhecer a cmara dos comuns, que possui
o gnio do tdio.

Era meia-noite; foi ento que a
cmara se converteu em comisso geral, para discutir o qu? O bill de
foras de terra.  uma e meia da noite, rejeitava o. art. 2, por 234 votos
contra 110. Antes das duas rejeitava uma emenda; eram trs horas, discutiam j o
art. 7; s  quatro, o art. 8; s  quatro e meia estava discutido e
votado o art. 9. Seguiu-se o art. 10, depois o art. 11. Querendo um Sr. Bartley
propor uma coisa fora de propsito, gritaram-lhe que era obstruo.
Obstruo de madrugada! Votou-se o encerramento entre aplausos, por uma maioria
de 154 votos.

Eram cinco horas e um quarto da
manh.

No contesto que a cmara dos
comuns governe; mas arrenego de tal governo. Eu, que no governo, passei a noite
de 24 de maro e todas as outras debaixo de lenis. A primeira coisa que eu
propunha, se fosse ingls, era a reforma de tal cmara. Uma instituio que me
obriga a cuidar dos negcios pblicos desde as duas horas e cinco minutos da
tarde at s  cinco e um quarto da manh, com intervalo de duas horas para
comer, pode ser muito boa a outros respeitos; mas no  instituio de
liberdade. Quando  que esses homens vo ao teatro lrico?

28 de Maio

Depois da semana da criao, no
houve certamente outra to cheia de acontecimentos como a que ontem acabou. E
ainda a semana da criao comeou por fazer a luz, separ-la das trevas e compor
o primeiro dia, enquanto que esta comeou por apagar o sol do primeiro dia e
fazer a sesso secreta do senado. Verdade  que o senado no tinha nada que
criar, mas destruir.

Quando eu cheguei  rua do
Ouvidor, segunda-feira, no levava a menor esperana de saber coisa nenhuma.
Trevas so trevas. Segredo  segredo. Quando muito, o senado comunicaria o seu
voto ao Sr. Governo; podia ser at que o fizesse com tinta invisvel ou por
sinais. S no dia seguinte saberamos da recusa ou da aceitao do prefeito, no
por indiscrio do senado, mas por declarao do governo. Compreendi e
esperei.

Nisto cai a notcia de que o
Almirante Barroso naufragara no mar Vermelho. Era j uma destruio; a
semana parecia querer ser destrutiva. Mas, enfim, que valia a perda de um navio,
to longe da casa Bernardo, para quem esperava saber se o prefeito ficava ou
no? Quantos navios no se perdem por esses mares de Cristo. Deixei que o nosso
fosse ter com as carroas de Fara, no desestimei que as vidas houvessem
escapado, e meti-me outra vez em mim,  espera da soluo. Cheguei a desconfiar
que o naufrgio era uma alegoria. O senado seria o mar, o prefeito o navio. A
salvao das vidas devia ser a reserva que o senado faria da integridade moral e
da capacidade intelectual do funcionrio. O que me confirmou esta iluso foi a
indiferena com que toda a gente falava do naufrgio. Mas em breve soube que no
podia ser alegoria; a sesso continuava e o segredo com ela.

Sintoma interessante; ningum
apostava. Esta cidade que, durante l'anne terrible (1890-91), apostou
sobre todas as coisas do cu e da terra, no apostava em relao ao desfecho da
sesso secreta. Certeza no era. Ao contrrio, justamente, quando h certeza 
que se aposta melhor,porque sempre se encontram espritos trpegos de dvida e
cobiosos de ganho. Concluir da que perdemos o senso da aposta  concluir do
fastio de uma hora para a desnecessidade da alimentao.  no acompanhar o
movimento dos bancos esportivos.  no ver por essas ruas um pobre homem
aleijado das pernas, dentro de um carrinho, que outro homem puxa. Pedia esmola e
achava aberta a bolsa da caridade; mas entendeu um dia destes que, invlido das
pernas, no o estava das mos, e podia trabalhar em vez de pedir. Vende bilhetes
de loteria, e ouo dizer que premiados.

Afinal chegou a notcia da
rejeio do prefeito por treze votos. No lhe dei credito por se tratar de
sesso secreta; na tera-feira, porm, a notcia era confirmada e sabia-se tudo,
os nomes dos senadores presentes, dos que falaram, dos que votaram contra e pr,
e at da hora em que a sesso acabou.

Espanto do senado. Como  que uma
deliberao, passada em segredo, assim se tornava publica? Realmente, era de
estranhar. Mas tudo se explica neste mundo, ainda o inexplicvel. Um filsofo do
sculo atual, para acabar com as tentativas de explicar o inexplicvel
chamou-lhe incognoscvel, que parece mais definitivamente fora do alcance do
homem. No importa; sempre h de haver curiosos. E depois as deliberaes
humanas no so o mesmo que a origem das coisas. No so precisas grandes
metafsicas para conhec-las; basta um fongrafo.

Os primeiros fongrafos que se
conheceram foram as paredes, por terem ouvidos que tudo colhem, memria para
ret-lo, e boca para repeti-lo. Ainda agora so excelentes crnicas, e as do
senado magnficas, por serem obra antiga e forte, datadas do tempo em que se
construa para um sculo. Depois das paredes, veio o barbeiro do rei Midas, que
confiou ao buraco aberto na terra a notcia das orelhas do fregus. Quem no a
supusera eternamente enterrada? Nasceram os canios, vieram os ventos, e a
notcia foi contada e sabida deste mundo. Afinal, surgiu Edison, com o seu
aparelho, guardando falas e cantigas e transmitindo-as de um mar a outro e de um
cu a outro cu. Os prprios ventos so mensageiros. Homero pe na boca dos seus
zfiros coisas bonitas e exatas. Podemos crer que, antes mesmo das paredes, j
eles eram fongrafos.

A tem o senado muito onde achar a
explicao que procura. Se nenhuma lhe servir, tem ainda aqui uma
anedota.

H longos anos, um deputado, 
chamemos-lhe Buarque de Macedo,  antes de ir para a cmara foi  casa de um dos
ministros. Discutia-se, creio que o oramento, e o deputado, membro da
respectiva comisso, quis entender-se com o ministro da pasta. Achou-o pouco
diligente, pouco falador, muito distrado, e adiando tudo; respondia-lhe que
depois, que iria  cmara, l se entenderiam... E o deputado insistia; era
conveniente assentarem ali mesmo certos pontos. Pois sim, tornava-lhe o
ministro, mas no era sangria desatada; falariam na cmara, iria cedo, s 2
horas ou antes, talvez antes... De repente, o deputado:

 Por que me no h de voc dizer
tudo?

 Tudo que?

 Ora, tudo. Eu sei que vocs
resolveram pedir demisso.

Espanto do ministro. Como  que
ele podia saber de uma resoluo concertada na vspera,  noite, em tanto
segredo, que os ministros prometeram no confi-la nem s prprias mulheres? E o
deputado sorria. E ainda sorria quando me referia o caso, anos depois, falando
de segredos polticos.

Confesso que esta anedota  que me
levou a estudar e descobrir a natureza do segredo poltico. O segredo poltico 
uma solitria do ouvido, microscpica durante os primeiros segundos, a qual
atinge o mximo desenvolvimento em um prazo que varia de dez a sessenta minutos.
As estreis so poucas. As fecundas reproduzem-se logo que chegam  maioridade.
O ovo interna-se, sobe ao crebro, desce, passa ao laringe, sai pela boca e cai
no primeiro ouvido que passa, onde cresce e concebe de igual maneira. Sobre a
causa dessa marcha imediata do ovo, no posso dizer nada com segurana. Cada
solitria engendra, termo mdio, vinte e cinco. H casos de trs ou quatro
apenas, mas so raros; tambm os h de duzentos e trezentos, mas so
rarssimos.

A verdade  que o segredo foi
publicado integralmente, e no s se soube da votao, como dos seus elementos e
tramites.  provvel que a mesma coisa acontea com o prefeito novo, pela razo
cientfica exposta acima. Ningum tem culpa das solitrias que traz e ainda
menos dos seus costumes.

4
de junho

Toda uma semana episcopal. Em vo
a maonaria procura dominar os acontecimentos. Imitando o seu grande homnimo S.
Paulo expediu esta semana a Primeira aos Corntios. Grande alarma em
Jerusalm; mas o jovem Estado, copiando o modelo evanglico, perguntou de longe
se tambm ele no  apstolo, se no pode viver sobre si, espalhar a palavra da
ordem e reger os seus conversos. E porque Pedro (em linguagem manica Macedo
Soares) inquirisse dos seus ttulos, S. Paulo resistiu-lhe na cara, tal qual o
apstolo das gentes. Assim se repete a histria.

Parece negcio de famlia, e 
mais extenso que ela. J se aventa a idia de ter cada Estado o seu Grande
Oriente particular. A ptria paulista ter assim inspirado as demais ptrias, e
a maonaria, em vez de um sol nico, passar a ser uma constelao. Perder-se-,
maonicamente falando, a unidade nacional. Talvez que este fenmeno de violenta
paixo autonmica seja efeito da excessiva centralizao de outro tempo. 
natural e til, uma vez que tudo se passe como nas famlias amigas, e no entre
vizinhos rabugentos.

Mas tudo isso  nada ao p da
troca do bispo D. Jos pelo arcebispo D. Joo. Eis a nota principal da semana.
Apesar da separao da Igreja e do Estado, viviam ambos em tal concrdia, que
antes pareciam casados de ontem, que divorciados desta manh. O esposo dava uma
penso  esposa; a esposa orava por ele. Quando se viam, no eram s corteses,
eram amigos, falavam talvez com saudades do tempo em que viveram juntos, sem
todavia querer tornar a ele. A razo do esposo  um princpio, a da esposa 
outro princpio. No sei o nome, mas ainda me lembra a figura de um velho padre
que encontrei no largo da Carioca, no dia em que apareceu o decreto abolindo o
padroado. Era a felicidade pura; tinha um grande riso nos olhos. No parecia ter
mais de vinte anos e devia orar por sessenta.

A substituio do prelado
fluminense veio alterar a harmonia das partes. Artigos e discursos, moes e
projetos de lei, representaes ao papa, uma ventania de cleras soprou por toda
esta superfcie tranqila, e as ondas ergueram-se cheias de furor. Renasceu a
questo religiosa, outros dizem que poltica; ponhamos eclesistica, palavra que
abrange ambos os sentidos, e cada um pode ler a seu modo. No faltou quem
acudisse pela liberdade da esposa na escolha dos seus servos, nem quem
replicasse que no  de boa vizinhana a escolha de servos que faam barulho.
Outros no falaram em liberdade, mas em intrigas; outros, porm, citaram
alcunhas feias e ameaaram os donos delas, coisa esta que nos empurra da igreja
para a sacristia.

Sim; h j um cheiro de sacristia
pelos jornais fora, e no de sacristia patusca somente, seno tambm penosa e
dura. H velhas cinzas mornas. No ouso falar em dios, mas rusgas. Que no
passasse disso,  o que eu quisera, porque, em suma, posto que menos nobre, a
causa seria tambm menos grvida de conseqncias. Rusgas de sacristia devem ser
como bens de sacristo: cantando vm, cantando vo. Oxal pudesse ser isto
apenas!

O pior  que o povo de Pira,
tendo lido nos nossos jornais que o bispo fora deposto, entendeu ao p da letra
a notcia e deps o vigrio. O telegrama diz: Grande massa de povo, expresso
que, tendo em vista a distncia, pode referir-se a vinte ou trinta vares
resolutos, peitos largos. No interior da Bahia, onde se deu igual ao, mas com
diferente vtima, porque o vigrio, no esperando que o depusessem, pegou em mil
pessoas e desterrou um pastor protestante,  na Bahia, digo, esse nmero de mil
pessoas no subiu provavelmente dos mesmos trinta, peitos largos, resolutos. Mas
a distncia, sendo maior, grande tinha de ser o nmero, telegraficamente
falando, para dar uma idia adequada da indignao pblica. No se me d de crer
que o que faz tamanhos os exrcitos europeus,  o Atlntico.

Com outros mil homens, um fantico
de Entre-Rios, no mesmo Estado, anda aconselhando aos contribuintes que no
paguem impostos. J destroou cinqenta policiais, matando alguns; marcharam
contra ele foras de linha. No deis a Csar o que  de Csar, tal  a mxima
desse chefe de seita. Se  certo o que ouo, acharia aqui grande safra de almas;
dizem at que h fiis a essa doutrina, que absolutamente a ignoram, nos termos
formulados; cedem ao instinto, ao forte instinto de enganar o Estado. Sim, a
moral  assaz variada, como as estaes, os climas, as cores, as disposies de
esprito. A minha  tal, que paro aqui mesmo.

11 de junho

Antes de relatar a semana, costumo
passar pelos olhos os jornais dos sete dias.  um modo de refrescar a memria.
Pode ser tambm um recurso para achar uma idia que me falha. As idias esto em
qualquer coisa; toda a questo  descobri-las.

H algumas idias boas nesta
casaca, dizia o alfaiate de um grande poeta. Es liegen einige gute Ideen in
diesen Rocke. Quantas no acharia ele em uma loja de casacas da rua Sete de
Setembro... No digo o nmero, para me no suporem scio comanditrio; mas
procurem nos anncios. Note-se que nada houve mais casual do que a achada
deste anncio, porque a semana foi, entre todas, cheia de lances, debates,
cleras, acontecimentos, notcias e boatos; tais coisas no deixam tempo 
leitura de anncios. Mas eu ia a dobrar uma folha para passar  outra,
quando ele me chamou a ateno com as suas grossas letras normandas, e um
ttulo por cima.

Nada mais simples: Casacas e
coletes para todos os corpos; alugam-se na rua...  Isto s, e no
foi preciso mais para esquecer por instantes o resto do mundo. Uma
pedrinha, uma folha seca, um fiapo de pano, tem dessas virtudes de excluso
e absoro! Eis aqui uma pequena concha velha, enegrecida, sem valor nem graa;
foi arrancada a um sof de concha  como eles se faziam antigamente  de
uma chcara sem cultura, em que h uma casa sem concerto, paredes sem caio,
varanda sem limpeza, tudo debaixo de muitos anos sem regresso. Muitos, mas
no tantos que no caibam na pequena concha enegrecida, que os encerra a todos,
com os seus bitos e npcias, alegrias e desesperos. Tornemos s casacas e
coletes de aluguel.

Quando acabei de ler o anncio,
entrei a malucar. Imaginei um baile, para o qual fossem convidados cem
homens que no possussem casaca, nem dinheiro para mandar faz-la.
Comparecimento obrigado; corriam todos  loja; onde havia justamente
cem casacas e cem coletes.  muita imaginao; mas eu no estou dosando um
elixir para crebros prticos. Estou contando o que me aconteceu.
Naturalmente, os fregueses no correram a uma; como, porm, tinham poucas
horas, houve certa aglomerao. Os matinais levaram as casacas mais adequadas;
os retardatrios saam menos bem servidos. De quando em quando, um trecho
de dilogo:

 Aquela que aquele sujeito est
vestindo,  que me servia.

 Se ele no ficar com
ela...

 Fica, mandou
embrulhar.

 No importa; as casacas agora
usam-se um pouco folgadas. As pessoas magras, como o senhor, precisam
justamente de arredondar a figura. Menino, embrulha esta casaca. Que 
que o senhor quer?

 Acho esta casaca demasiado
estreita, comprime-me as costelas; a gola enforca-me...

 Mas ento o senhor queria meter
o seu corpo num saco? As pessoas cheias precisam disfarar qualquer excesso de
gordura vestindo casacas apertadas. Demais,  a moda.

 Assim, com estas abasinhas
pendidas l atrs?

  boa! Ento as abas deviam
estar adiante? As abas da casaca no so feitas para os olhos da pessoa que
a pe, mas para os dos outros. As suas esto muito bem. Veja-se a este
espelho, assim, volte-se, volte-se mais, mais...

 No posso mais, e no vejo
nada.

 Mas, vejo eu, senhor!

A ltima casaca foi alugada sem
exame, no havia onde escolher, e o comparecimento era
obrigado.

Corri a espiar o baile. Os cem
convidados tinham acabado de danar uma polca e passeavam pelos sales as
suas casacas alugadas. Vi ento uma coisa nica. Metade das casacas no se
ajustavam aos corpos. Vi corpos grossos espremidos em casacas
estreitas; outros, magros, nadavam dentro de casacas infinitas. Alguns, de
pequena estatura, traziam abas que pareciam buscar o cho, enquanto as
golas tendiam a subir pelos lustres. Outros, de tronco extenso e pernas
compridas, pareciam estar de jaqueta, tal era a exigidade das abas. E jaqueta
curta, porque mal passava da metade do tronco.

Deu-me vontade de apitar, como nos
teatros, quando se faz mutao  vista, a fim de ver trocadas as casacas e
restituda a ordem e a elegncia; mas nem tinha apito comigo, nem era certo que
a troca das casacas melhorasse grandemente o espetculo. Quando muito
aliviaria alguns corpos e daria a outros a sensao de estarem realmente
vestidos; nada mais. Havia satisfao relativa em todos, posto que nem
sempre; uma ou outra vez, detinham-se, lanavam um olhar rpido sobre si e
ficavam embaraados, ou ento buscavam um canto ou um vo de janela.
Consolava-os a vista dos companheiros; persuadiam-se talvez de que era uma
epidemia de casacas mal ajustadas. A msica chamava a dana; todos corriam
a convidar pares.

Quando a minha imaginao cansou,
deixei o baile e recolhi-me ao gabinete. Vi as folhas de papel diante de mim,
esperando as palavras e as idias. E eu tive uma idia. Sim, considerei a
vida, remontei os anos, vim por eles abaixo, remirei o espetculo do mundo,
o visto e o contado, cotejei tantas coisas diversas, evoquei tantas imagens
complicadas, combinei a memria com a histria, e disse comigo:

 Certamente, este mundo  um
baile de casaca alugadas.

Meditei sobre essa idia, e cada
vez me pareceu mais verdadeira. Os desconcertos da vida no tm outra
origem, seno o contraste dos homens e das casacas. H casacas justas, bem
postas, bem cabidas, que valem o preo do aluguel; mas a grande maioria
delas divergem dos corpos, e porventura os afligem. A dana dissimula o aspecto
dos homens e faz esquecer por instantes o constrangimento e o tdio. Acresce que
o uso tem grande influncia, acabando por acomodar muitos homens  sua
casaca.

Condodo desse melanclico
espetculo, Jesus achou um meio de corrigir os desconcertos, removendo
deste mundo para o outro a esperana das casacas justas. Bem-aventurados os mal
encasacados, porque eles sero vestidos no cu! Profetas h, porm, que entendem
que o mal do mundo deve ser curado no prprio mundo. E muitos foram os
alvitres; vrios os processos, alguns no provaram nada, outros dizem que sero
definitivos. Pode ser; mas o mal est no nico ponto de serem alugadas as
casacas. Que a Fortuna ou a Providncia, com a melhor tesoura do globo,
talhe as casacas por medida e as prove uma e muita vez no corpo de cada pessoa,
e no as haver largas nem estreitas, longas nem curtas, todas parecero ter
sido cosidas na prpria pele dos convidados. Sem isso, o baile ser esplndido
pela profuso de luzes e flores, pelo servio de boca, pela multido e
variedade das danas, mas no haver perdido este pecado original de ser
ele um baile de casacas alugadas.

18 de junho

O amor produziu duas tragdias
esta semana. No as fez s, mas de colaborao com o cime. So dois grandes
mestres. O dio tambm cultiva o gnero, com vigor e freqncia.

H ambies trgicas; so as do
ramo nobre da famlia; porque h outros pacientes, inertes, com horror ao
sangue. Vede a inveja; tambm essa tem calado o coturno dos grandes ps de
Sfocles. S a amizade, branda e polida, restringe-se  comdia de salo; s ela
empulha sem matar, morde sem ferir, debica sem ofender, e, dada a hora de
dormir, vai para a cama sonhar tranqilamente com Castor e Plux.

Mas a amizade  nica. O resto das
afeies no se contenta com obras mdias. A planta humana precisa de sangue,
como a outra precisa de orvalho. Toda a gente lastima a morte de Abel, por um
hbito de escola e de educao; mas a verdade  que Caim deu um forte exemplo s
geraes futuras. Tendo apresentado os primeiros frutos da sua lavoura ao
Senhor, como Abel apresentara as primcias do seu rebanho, no podia tolerar que
o Senhor s tivesse olhos benvolos para o irmo, e, no podendo matar o Senhor,
matou o irmo. Daqui nasceu a iniqidade, que  o grano salis deste
mundo.

Quando eu no tenho que fazer,
entro a pensar no sangue, que tem corrido, desde a origem dos sculos, e concluo
que enchia bem uma pipa. No digo o tamanho da pipa; no os quero assustar. No
venho aqui para meter medo a ningum, mas para conversar tranqilamente. sobre
os casos ocorridos, certo de no enfadar, porque o leitor tem a porta aberta
para ir-se embora quando quiser.

H um bom costume na ndia, que eu
quisera ver adotado no resto do mundo, ou pelo menos aqui no Rio de Janeiro. A
visita no  que se despede;  o dono da casa que a manda embora. Oh! rara
penetrao oriental! Morte, oh! morte certa dos amoladores, que o diabo envia a
quem quer tentar e perder! Pois esse costume, to fcil de transportar para o
ocidente, s existe aqui no caso de leituras aborrecidas, e  muito mais
sumrio: o maado despede o maador, com um piparote, sem que ele tenha notcia
do desastre.

Tornemos ao sangue. As rivalidades
no so s deste mundo, mas ainda do outro. Um deputado queixava-se h dias de
no ver em discusso o projeto que oferecera para um monumento a Deodoro, ao
passo que caminhara o projeto de monumento a Benjamim Constant. A comisso
explicou a demora e prometeu dar parecer. Outro deputado falou a respeito de
Tiradentes, pedindo para outro precursor da Independncia os louros da
posteridade. Essa competncia na distribuio pstuma da glria mostra bem que o
repouso eterno  uma iluso. De resto, j algum disse que os mortos governam os
vivos, pura verdade; e o Sr. Senador Catunda afirmou outro dia, no senado, que o
passado governa o presente, verdade no menos pura.

Que o passado governa o presente,
houve aqui notcia, trazida por jornais americanos, descrevendo a viagem do
sino da liberdade at Chicago, onde foi tomar parte na exposio. Esse
famoso sino repicou pela liberdade das colnias americanas, h mais de sculo.
J no toca,  uma velha relquia. Eu, se ele me pertencesse, j me no lembrava
sequer do seu tamanho. Mas o yankee  uma singular mistura de dlar e
pomba mstica. Tem a venerao daquele sino. Um gentleman, escreve um
noticiarista, sado da multido, tirou uma rosa que trazia ao peito, e pediu a
um dos condutores da grande relquia que tocasse a rosa nela. Assim se fez, e o
homem reps a flor ao peito, to cheio de si como se levasse o maior brilhante
do mundo. Polticos fizeram discursos, meninas colegiais saram a saudar o sino
da liberdade; onde quer que ele passou, fez palpitar alguma coisa ntima e
profunda.

Adeus. Curta  a crnica. Se
soubessem como e onde a escrevo, com que alma turva, com que mos cansadas, e
com que olhos doentes! Tambm a semana no deu para muito mais. Houve negcios
grandes, mas eu no sou pretor, curo s dos mnimos. Adeus. No espero que
imites os filhos da ndia; no  preciso que mostres a porta da rua, l estou;
adeus, passa bem e s feliz!

25 de junho

Desde criana, ouo dizer que aos
condenados  morte cumprem-se os ltimos desejos. D-se-lhes doce de coco,
lebre, tripas, um clice de Tokay, qualquer coisa que eles peam. Nunca indaguei
se isto era exato ou no, e j agora ficaria aborrecido se o no fosse. H nesse
uso uma tal mescla de piedade e ironia, que entra pela alma da gente. A piedade,
s por si,  triste; a ironia, sem mais nada,  dura; mas as duas juntas do um
produto brando e jovial.

Li at, que um condenado  morte,
perguntando-se-lhe, na manh do dia da execuo, o que queria, respondeu que
queria aprender ingls. H de ser inveno; mas achei o desejo verossmil, no
s pelo motivo aparente de dilatar a execuo, mas ainda por outro mais sutil e
profundo. A lngua inglesa  to universal, tem penetrado de tal modo em todas
as partes deste mundo, que provavelmente  a lngua do outro mundo. O ru no
queria entrar estrangeiro no reino dos mortos.

Pois, senhores, antes de pegar na
pena para contar-lhes a semana, vendo que esta foi, entre todas, financeira,
tive idia de ir aprender primeiro finanas. O meu clculo era fino; suspendia
por algum tempo esta obrigao hebdomadria, e descansava. Mas a pessoa a quem
consultei sobre o mtodo de aprender finanas, disse-me que havia dois, alm do
nico. O mais fcil ensinava-me em duas horas ou menos, muito a tempo de
escrever estas linhas; consistia em decorar um pequeno vocabulrio de algibeira,
e no entender a teoria do cmbio. O segundo mtodo pedia mais algum tempo; era
escrever um opsculo sobre o dficit ou sobre os salvados, public-lo, e
confi-lo aos amigos, que fariam o resto. Como a maior parte dos homens no sabe
finanas, disse-me ele, ainda que os sabedores me atacassem, o pblico ficava em
dvida, se a razo estava comigo ou com eles, porque de ambas as partes ouvia
falar em converso de dvida e impostos. Quando o catlico ouve missa, uma vez
que o padre diga o que est no missal, no quer saber se ele sabe latim, ou se
quem o sabe,  o padre do altar fronteiro. Tudo  missa, tudo so
finanas.

Considerei que realmente esse
homem tinha razo, ou parecia t-la, o que vem a dar na mesma. H um ano ouvi
dizer o diabo de um plano financeiro; ouo agora dizer o diabo do plano
contrrio, e provavelmente dir-se- o diabo de algum terceiro plano que aparea
e vingue. Salvo o diabo, tudo  missa. J cheguei a suspeitar que todos esto de
acordo, no havendo outra divergncia mais que na escolha do vocbulo, querendo
uns que se diga encampao, em vez de fuso; outros fuso, em vez
de encampao; mas pessoa que reputo hbil nestas matrias, afirmou-me que as
duas palavras exprimem coisas diferentes,  o que eu acredito por ser pessoa,
alm de hbil, sisuda.

Conheci um banqueiro... Era no
tempo em que um homem s, ou com outro, podia ser banqueiro, sem incomodar
acionistas, sem gastar papel com estatutos, sem dividendos, sem assemblias.
Simples Rotschilds. Era banqueiro e voou na tormenta de 1864. Anos depois,
descobria que havia diferena entre papel-moeda e moeda-papel, e no encontrava
um amigo a quem no repetisse as duas formas. Depois de as repetir,
explicava-as; depois de as explicar, repetia-as. Se tem demorado em banqueiro,
talvez no as soubesse nunca.

O que ele fazia com os dois
papis, farei eu com a fuso e a encampao. J l vo alguns anos, deu-se na
cmara dos deputados um incidente que devia ser gravado em letras de bronze na
memria da nao, se ns tivssemos outra memria alm da que nos faz lembrar o
que almoamos hoje. Um deputado desenvolvia as suas idias polticas, e era
interrompido por dois colegas, um liberal, outro conservador. A cada coisa que
ele dizia querer, acudia o liberal  liberal! e o conservador: 
conservador! Isto durou cerca de dez minutos calculados pelo trecho impresso e
dificilmente se imaginar mais completo acordo de espritos. Quantos
desconcertos seriam evitados, se todos imitassem aqueles trs membros do
parlamento!

Repito, vou aprender finanas. Vou
aprender igualmente a teoria da propriedade, e particularmente a da propriedade
intelectual, para assistir ao debate do trabalho literrio na cmara esta
semana. A maioria da comisso nega o tratado, que os Srs. Nilo Peanha e Spencer
defendem, defendendo o direito de propriedade. A sesso h de ser brilhante. A
matria no  das que inflamam os homens; ao contrrio,  um tema para
dissertaes pausadas, sossegadas, em que Homero, se for chamado, desarmar
primeiro Aquiles e Heitor, para que eles possam ocupar um lugar na tribuna dos
diplomatas. Vnus, se baixar aos combates, no sair ferida pelas armas dos
combatentes, a no ser com beijos. Ser uma ressurreio dos torneios  maneira
da que fizeram agora em Roma,  espetculo sem sangue, rutilante e
festivo.

Vou tambm aprender a ourives,
para falar das jias de Sarah Bernhardt, e aprender tambm um pouco de histria
(pelos livros de Dumas) para compar-las ao colar da rainha. Onde estaro essas
esquivas jias? Como  que diamantes, em terra de diamantes, se lembram de
deixar o colo, o cinto e os ps de Clepatra?

Oh! bela filha do Egito! Talvez
haja no roubo um smbolo. Pode ser at que seja menos um roubo que uma idia,
como se o autor quisesse dizer que todas as jias do mundo no valem a nica
jia do Nilo. No confundas com a de Sardou. Quem sabe se no vai nisso tambm
uma lio? A Clepatra falsa de Sardou pedia pedras verdadeiras; a de
Shakespeare contentar-se-ia com pedras falsas, como devem ser as de cena, porque
as verdadeiras seriam unicamente ele e tu. Em cena,  grande imperatriz, tudo 
postio, exceto o gnio.

Que mais irei aprender? Nada mais
que tirar o chapu com graa, arrastar o p e sair. No posso aprender sequer a
acender pistolas e tirar sortes de S. Joo, companheiro do romantismo, da idade
em flor, e de vrias relquias que os santos de outra idade levaram consigo.
Vejo as moas e os moos em volta da mesa, livro de sortes aberto, dados no
copo, copo na mo, e o leitor do livro lendo o ttulo da pgina: Se algum lhe
ama em segredo. A moa deitava os dados: cinco e dois. O leitor corria ao
nmero sete, onde se dizia por verso que sim, que havia uma pessoa, um moo que,
por sinal, estava com fome.  o Rangel! bradava um gracioso; tragam o ch, que
o Rangel est com fome. E riam moos e moas, e continuavam o copo, os dados,
as quadras, o leitor do livro, o Rangel, o gracioso, at que todos iam dormir os
seus sonos desambiciosos, sem querer saber da fuso, nem de encampao, nem de
tratados literrios, nem de jias, nem de Clepatras, nem de nada.

2
de julho

Uns cheques falsos estiveram quase
a dar aos seus autores cerca de quatrocentos contos.

Descoberto a tempo este negcio,
interveio a polcia, e os inventores viram burlada a inveno.

Salvo a quantia, que era grossa, o
caso  de pouca monta, e no entraria nesta coluna, se no fora a lio que se
pode tirar dele.

De fato, eu creio que foi um erro
acabar com o movimento de trs anos atrs. Ento, os mesmos quatrocentos contos
seriam tirados, mas com cheques verdadeiros.

Vede bem a diferena. Os cheques
verdadeiros tinham por si a legitimidade e a segurana. Centenas e milhares de
contos podiam andar assim, s claras, sem canseiras da polcia, nem aborrecidos
inquritos. A. moral no condena a sada do dinheiro de uma algibeira para
outra, e a economia poltica o exige.

Uma sociedade em que os dinheiros
ficassem parados, seria uma sociedade estagnada, um pntano.

Com o desaparecimento quase
absoluto dos cheques verdadeiros, entraram os falsos em ao. Foi, por assim
dizer, um convite  fraude. Perderam-se as chaves, surdiram as gazuas, naturais
herdeiras de suas irms mais velhas. Tornemos s chaves; empulhemos os
empulhadores.

Tirando o caso dos cheques, a
morte do preto Timteo, indigitado autor do assassinato de Maria de Macedo, o
benefcio de Sarah Bernhardt, a perfdia de dois sujeitos que venderam a um
homem, como sendo notas falsas, simples papis sujos, zombando assim da lealdade
da vtima, e pouco mais, todo o interesse da semana concentrou-se no Congresso.
O benefcio da filha de Minos e de Pasfae deu ensejo a. uma bela festa ao seu
grande talento; a morte de Timteo veio suspender um

processo interminvel, e o logro
das notas falsas pe ainda uma vez em evidncia que a boa f deve fugir deste
mundo; no  aqui o seu lugar. Contra um homem leal, h sempre dois
meliantes.

Na cmara dos deputados, o Sr.
Nilo Peanha, em um brilhante discurso, defendeu a propriedade literria,
merecendo os aplausos dos prprios que a negam, e dos que, como eu, no adotam o
tratado.

Mas as questes literrias no tm
a importncia das polticas, por mais que haja dito Garret da ao das letras na
poltica. Com romances e com versos, bradava ele, fez Chateaubriand, fez Walter
Scott, fez Lamartine, fez Schiller, e fizeram os nossos tambm, esse movimento
reacionrio que hoje querem sofismar e granjear para si os prosistas e
calculistas da oligarquia.

Respeito muito o grande poeta, mas
ainda assim creio que a poltica est em primeiro lugar.

Uma revista, dizia no sei que
estadista ingls, deve ter duas pernas, uma poltica, outra literria, sendo a
poltica a perna direita. Eu, se prefiro a todas as polticas de Benjamin
Constant o seu nico Adolfo,  porque este romance tem de viver enquanto
viver a lngua em que foi escrito, no por sentimento de exclusivismo. Assim
tambm, se nunca pedi ao cu que me pusesse nos tempos dos homens de Plutarcos e
nos outros que os salvaram do esquecimento com os seus livros, foi unicamente
porque, se o cu me fizesse contemporneo de tais homens, j eu teria morrido
uma e muitas vezes,  em vez de estar aqui vivo, escrevendo esta
semana.

Houve no senado a sesso secreta
para examinar a nomeao do prefeito. Posto que secreta, a sesso foi pblica. A
mesma coisa aconteceu  sesso anterior. As outras tambm no foram reservadas.
Direi mais para acercar-me da verdade, cercando il vero, que as sesses
secretas so ainda mais pblicas que as pblicas. Basta anunciar que tratam de
material cujo exame no se pode fazer s escancaras, antes devem ficar
trancadas, para que todos as destranquem, e tragam  rua. O po vedado agua o
apetite,  verso de um poeta.

Verdade  que no basta o apetite
da pessoa,  preciso que haja da parte do po certa inrcia e vontade de ser
comido. Os segredos no se divulgam sem a ao da lngua. Da primeira ou segunda
vez que o senado fez sesso secreta e a viu divulgada, tratou-se ali de examinar
a origem da revelao. Se me no engano, o secretrio afirmou que todas as
portas estiveram fechadas. Um membro de casa achou difcil que se mantivesse o
segredo entre tantas pessoas,  o que lhe acarretou veementes protestos. No se
descobrindo nada, resolveu-se ento, como agora, que a ata da sesso fosse
impressa.

Esta impossibilidade de esconder o
que se passa no segredo das deliberaes faz-me crer no ocultismo.  ocasio de
emendar Hamlet: H entre o palcio do conde dos Arcos e a rua do Ouvidor muitas
bocas mais do que cuida a vossa intil estatstica.

A meu ver, o remdio  tornar
pblicas as sesses, anunci-las, convidar o povo a assistir a elas. Talvez o
meio seguro de as fazer tanto ou quanto secretas. Desde que as portas sejam
francas, poucas ou nenhuma gente ir assistir ao exame das` nomeaes. Distncia
 o diabo. A rua do Ouvidor  a principal causa desta tal ou qual inrcia de que
nos acusam. Em trs pernadas a andamos toda, e se o no fazemos em trs minutos,
 porque temos o passo vagaroso; mas em trs horas vamos do beco das Cancelas ao
largo de S. Francisco.

9
de julho

Uma batalha no tem o mesmo
interesse para o estrategista que para o pintor. Este cuida principalmente da
composio dos grupos, da expresso dos combatentes, do modo de obter a unidade
da ao na variedade dos pormenores, e de dar ao vencedor o lugar que lhe cabe.
O estrategista pensa, antes de tudo, na concepo do ataque, no movimento e na
distribuio das foras, na concordncia dos meios para alcanar a vitria. J o
fornecedor no  assim. Sem preocupao esttica, nem militar, cuida to somente
na execuo dos seus contratos, mediante aquela poro de fidelidade compatvel
com lucros extraordinrios.  claro que h fornecedores que acabam pobres, como
h generais que perdem batalhas, e pintores que as pintam
execravelmente.

Com os espetculos da natureza
d-se a mesma diversidade de interesse. O gelogo cuidar da composio interior
da montanha, que para o engenheiro dar idia de uma via-frrea elevada ou de um
simples tnel. Vede o mar, vede o cu. Vede esta flor. Entregue pela noiva ao
noivo,  despedida, traz consigo todos os aromas dela, as suas graas, os seus
olhos,

a poesia que ela respira e
comunica  alma do outro, e ainda as recordaes de uma noite, de um beijo, a
fugir entre a porta e a escada. Nas mos de um botnico  um simples exemplar da
espcie, a que ele d certo nome latino. Grave, seco, sem ternura, ele diz o
nome da espcie e da classe, e deita fora a flor, como um simples dirio
velho.

Quantos olhos, tantas vistas. Essa
variedade  que torna suportvel este mundo, pela satisfao das aptides, das
situaes e dos temperamentos. O contrrio seria o pior dos fastios.

Digo tudo isso, que talvez seja
banal... Mas o que no  banal debaixo do sol, desde o amor at o emprstimo?
Digo tudo isso a propsito do acontecimento central da semana, o caso dos
estudantes e da Cmara dos deputados. Esse acontecimento teve para os homens
polticos um aspecto. Condenando ou atenuando o ato, combinando ou divergindo na
soluo da crise, os polticos esto de acordo com os seus prprios olhos, aos
quais o sucesso apareceu como um incidente na vida pblica.

Eu, porm, achei nele outra coisa,
no pela origem, seno pelo efeito. Todos viram a emoo produzida pelo
caso. Viram ainda, que ele deu lugar a uma florescncia de
moes.

Na formao das lnguas
neo-latinas observou-se um fenmeno, consistente na troca, transposio ou queda
de certas letras. A cincia da linguagem remontou ainda no estudo desses e
outros fenmenos; fiquemos naquele caso particular. Sou leigo em glossologia;
mas os leigos tambm rezam, e pela cartilha dos padres. Ora, dizem os padres da
glossologia que a palavra botica, por exemplo, veio de apoteca;
perdendo a primeira vogal.

Aplicando esta observao da
fontica  psicologia poltica, no se pode dizer que entre emoo e
moo h, com a mesma perda da letra inicial, uma filiao evidente?
Explico-me.

No regmen imperial, uma emoo
destas levava  moo imediata. A Constituio republicana no mudou os hbitos
morais dos homens, e, no meio da agitao produzida pela manifestao escolar, a
primeira frmula que ocorreu para consubstanciar os sentimentos da Cmara, foi a
moo, e no uma, nem duas, mas seis e sete.

A conseqncia  que o
parlamentarismo parece estar ainda na massa do sangue,  outra idia banal, 
mas eu hoje estou banal como um triste molambo velho.

Concluir dali que sou
parlamentarista,  imitar aquele homem que me dizia, uma vez, notando-lhe eu que
certa casa estava pintada de amarelo:

 Ah! o senhor gosta do
amarelo?

 Perdo: digo-lhe que esta casa
est pintada de amarelo...

 Estou vendo; mas que graa acha
em semelhante cor?

Mandei o homem ao diabo. V o
leitor ter com ele, se concluir a mesma coisa. O que eu digo,  que esta bota
parlamentarista h de levar tempo a descalar. Que no seja prprio do clima,
no serei eu que o negue; mas a minha questo no captulo das botas (Sganarelo
achou um captulo dos chapus)  que a bota parlamentarista, por menos ajustada
que haja sido ao p, h de levar tempo a arranc-la. So costumes. Fazia doer os
calos e cambava para o lado de fora, mas era de fbrica inglesa, Westminster
& Companhia, e ns sempre gostamos de fbricas estrangeiras. Nos primeiros
tempos ramos todos franceses; no segundo reinado passamos aos bretes. Vida,
patrcios, vida para a indstria nacional!

16 de julho

Sarah Bernhardt  feliz. Sequiosa
de emoes, no ter passado sem elas, estes poucos dias que d ao Brasil.
Grande roubo de jias aqui; em S. Paulo quase uma revoluo. Eis a quanto basta
para matar a sede. Mas as organizaes como a ilustre trgica so insaciveis.
Pode ser que ela acarinhe a idia de pacificar o Rio Grande. Sim, quem sabe se,
terminando o nmero das representaes contratadas,. no  plano dela meter-se
em um iate e aproar ao sul?

O capito do navio ter medo, como
o barqueiro de Csar. Ela copiar o romano: Que temes tu? Levas Sarah e a sua
fortuna.

As guas do porto, as areias, os
ventos, os navios, as fortificaes, a gente da terra, armada e desarmada, tudo
deixar passar Semramis. Um diadema, nem castilhista, nem federalista, ou ambas
as coisas, lhe ser oferecido, apenas entre em Porto-Alegre. A notcia correr
por todo o Estado; a guerra cessar; os dios fugiro dos coraes porque no
haver espao bastante para o amor e a fidelidade. Comear no sul um grande
reino. O Congresso Federal deliberar se deve reduzi-lo pelas armas ou
reconhec-lo, e adotar o segundo alvitre, por proposta do Sr. Nilo Peanha,
considerando que no se trata positivamente de uma monarquia, porque no h
monarquia sem rei ou rainha no trono, e o gnio no tem sexo. O gnio haver
assim alcanado a paz entre os homens.

Uma vez coroada, Semramis
resolver a velha questo das obras do porto do Rio Grande, como a sua xar de
Babilnia fez com o Eufrates, apagar os males da guerra e decretar a
felicidade, sob pena de morte.

Um dia, amanhecendo aborrecida,
imitar Salomo,  se  certo que este rei escreveu o Eclesiastes,  e
repetir-nos-, como o grande enjoado daquele livro, que tudo  vaidade, vaidade,
e vaidade.

Ento abdicar; e, para maior
espanto do mundo, dar a coroa, por meio de concurso, ao mais melanclico dos
homens. Sou eu. No me demorarei um instante; irei logo, mar em fora, at  bela
capital do sul, e subirei ao trono. Para celebrar esse acontecimento, darei
festas magnficas, e convidarei a prpria rainha abdicaria a representar uma
cena ou um ato do seu repertrio.

 Peo a Vossa Majestade que me
no obrigue  recusa, responder-me- ela; eu provei a realidade do trono, e
achei que era ainda mais v que a simples imitao teatral. Omnia
vanitas. Falo-lhe em latim, mas creia que o meu tdio vai at o sueco e o
noruegus. h um refgio para todos os desenganados deste mundo; vou fundar um
convento de mulheres budistas no Malabar.

E Sarah acabar budista, se  que
acabar nunca.

Deixem-me sonhar, se 
sonho.

A realidade  o luto do mundo, o
sonho  a gala. Desde que a pena me trouxe at aqui, sinto-me rei e grande rei.
J uma vez fui santo e fiz milagres. J fui drago, bis, tamandu. Mas de todas
as coisas que tenho sido, em sonhos, a que maior prazer me deu, foi panarcio.
Questo de amores. Eu suspirava por uma moa, que, fugia aos meus suspiros. Uma
noite, como lhe apertasse os dedos, interrogativamente, ela puxou a mo e
deitou-me um tal olhar de desprezo, que me tonteou. Vaguei at tarde, jurei
mat-la, recolhi-me e fui dormir. Dormindo, sonhei que, sob a forma de
panarcio, nascia e crescia no dedo da moa.

O gosto que tive, no se descreve,
nem se imagina.  preciso ter sido ou ser panarcio, para entender esse gozo
nico de doer em uma carne odiosa. Ela gemia, mordia os beios, chorava, perdia
o sono. E eu doa-lhe cada vez mais. Doendo, falava; dizia-lhe que o meu gesto
de afeto no merecia o seu desprezo e que era em vingana do que me fez, que eu
lhe dava agora aquela imensa dor. Ela prometia a Nossa Senhora, sua madrinha, um
dedo de cera, se a dor acabasse; mas eu ria-me e ia doendo. Nunca senti regalo
semelhante ao meu despeito de tumor.

Mas nem tudo so panarcios. H
gozos, no tamanhos, mas ainda grandes e sadios. Esta noite, por exemplo, sonhei
que era um casal de burros de bond, creio que das Laranjeiras. Como  que
a minha conscincia se pode dividir em duas,  que no atino; h a um curioso
fenmeno para os estudiosos. Mas a verdade  que era um casal de burros. Eu
sentia que ramos gordos, to gordos e to fortes que pedamos ao cocheiro por
favor, que nos desse pancada, para no parecer que puxvamos de vontade livre.
Queramos ser constrangidos. O cocheiro recusava. No nos batia com um gancho de
ferro, nem com as pontas das rdeas, no nos fazia arfar, nem gemer, nem morrer.
No nos excitava sequer com estalos contnuos de lngua no paladar. Ia cheio de
si, como se a nossa robustez fosse obra dele, e ns voamos. Pagou caro a
gentileza, porque chegamos antes da hora, e ele foi multado.

Na antevspera tinha sonhado que
era um mocinho de quinze a dezesseis anos, prestes a derrubar este mundo e a
criar outro; tudo porque me deram a Lcia de Lamermoor e a
Sonmbula.

Quando eu senti no lbio superior
mais que um buozinho, e na alma umas melodias novas e ternas, fiquei fora de
mim. Que Mefistfeles era esse que me fizera voltar para trs? Estava aqui um
Fausto; faltava achar Margarida. Ei-la que sai de uma igreja; fitei-a bem, era
um anjo-cantor de procisso. O tempo do sonho era o de Bellini e das procisses,
de Donizetti e das fogueiras na rua, do primeiro Verdi e do Sinhazinha,
provincial dos franciscanos.

 ainda um sonho esse frade, uma
flor de adolescncia, que vim achar entre duas folhas secas.

De onde lhe vinha a alcunha?
Ignoro; j a achei, no lhe pedi os ttulos de origem. As alcunhas eclesisticas
so de todos os tempos. Agora mesmo andam muitas a, nessa questo que no acaba
mais, acerca do bispo e do arcebispo. A fama do pregador Sinhazinha  que
acabou. Sinhazinha! Naqueles dias at as alcunhas eram maviosas. Hoje  de
perereca seca para baixo.

23 de julho

Desde que h rebanhos, so as
ovelhas que voltam ao aprisco; c em casa foi o pastor que voltou ao rebanho,
com esta segunda diferena, que os pastores envelhecem com o tempo, e este
remoou. a est o que  aquele continente que o Sr. Luiz Gomes quer pr a
poucas horas do Rio de Janeiro. No digo que o pastor sasse daqui velho, nem
sequer maduro; saiu meio verde,  um pouco mais de meio,  e volta verde de
todo. Rijo e lpido; alegria e sade.

Neste andar pode ir longe, sem
cansar muito. Pode fazer a mesma viagem do Sr. Visconde de Barbacena, que
completou quinta-feira noventa e um anos. H mais quem tenha noventa e um anos;
mas t-los frescos e sadios, cavalgar com eles duas e trs lguas, andar por
essas ruas com eles, p firme e rpido, juzo claro, memria aguda, eis o que
no  comum.  isto o venerando Barbacena; pode s-lo um dia o nosso Ferreira de
Arajo. Creio que pelos anos de 1940 ou 1950  que meu amigo aprontar as malas
para aquele outro continente, que o Sr. Luiz Gomes no quer, nem deve aproximar
do Rio de Janeiro, qualquer que seja a garantia de juro.

J l me achar. Correrei a
receb-lo, ao sair do barco de Caronte. D c esses ossos! D c os teus! E
diremos coisas alegres e finas; ele me levar notcias deste mundo; eu lhe darei
as do outro. Compar-las-emos umas s outras e chegaremos  concluso de que
muitas delas se parecem. Falaremos primeiro dos nossos amigos; todos estaro l
menos o Joo. Que  feito do Joo que no chega  Foi promovido.  Ainda? 
Ainda; mas agora  definitivamente; foi promovido a Padre Eterno.  Havia de
acabar por a , direi eu, cheio de melancolia com a idia de que no o verei
mais, eu amo o nosso Joo, companheiro certo e amigo. Falaremos da histria do
mundo, do estado das sociedades humanas e das sociedades vegetais, do filoxera e
das faces; conversaremos das novas formas de governo, se as houver.

 C neste mundo, explicarei eu,
rege s a anarquia; ningum manda, ningum obedece; as sombras vagam de um lado
para outro,  vontade, sem se abalroarem, ligando-se, desligando-se... Olha, ali
vm duas conhecidas, o Deodoro e o Benjamin Constant.

 Como, amigos?

 Creio que eles nunca brigaram na
terra; mas, ainda que houvessem brigado, aqui somos todos amigos, e ntimos.
Queres ver? Ol, Deodoro! ol, Benjamin!

Chegaro os dois a ns, e, depois
dos primeiros cumprimentos, sabero que na terra andam brigando, por causa da
colocao das suas esttuas. Desde a terceira semana de julho de 1893 (a que ora
finda), foi votado pela Cmara dos deputados que Deodoro teria uma esttua na
Praa da Repblica; mas, havendo Deodoro decretado uma esttua a Benjamin na
mesma praa, entrou a dificuldade de saber onde se poria a esttua de Deodoro. A
idia do largo do Depsito foi logo excluda. As praas Quinze de Novembro e
Tiradentes estavam ocupadas. No largo da Prainha impediria a passagem rpida das
pessoas que buscam a Barca de Petrpolis. No do Catete estava Alencar. O da Lapa
era antes uma encruzilhada que um largo. No do Valdetaro, onde se quis pr a do
Buarque, existia um chafariz. Onde se poria Deodoro?

Algum props uma soluo que lhe
pareceu simples; era pr as duas esttuas na mesma praa da Repblica, assaz
vasta para ambas, uma dentro do parque, outra fora, caso no as quisessem
juntas. Se os dois cidados foram os fundadores da Repblica, nada mais natural
que ficarem na mesma praa, e justamente naquele lugar histrico. A primeira
impresso foi uma gargalhada universal. Como assim? Duas esttuas na mesma
praa!  irrisrio, etc. Passados dias, a idia foi parecendo a alguns menos
desprezvel; chegaram a dizer que a esttica no se opunha  soluo e que a
histria a pedia. Contestao, luta, adiamento. Decretou-se um perodo de cinco
anos para refletir. Ningum refletiu, e a questo arrastou-se assim at o fim do
sculo. De acordo tcito, calou-se o negcio at 1913.

Renovada a questo no comeo de
1914, tornou a aparecer a idia de pr as duas esttuas na mesma Praa da
Repblica; mas ento formaram-se dois partidos, o de Benjamin e o de Deodoro,
ambos fortes e intransigentes. J nenhum cedia  praa ao outro.

La maison est  moi,
c'est  vous d'en sortir.

Os partidos caim muita vez em tal
subjetividade, que a bandeira vale menos que as suas pantalonas. Assim
complicados de azedume, de irritao e de dio, cada um deles tratou menos de
erigir a esttua de um cidado que a sua prpria. Da a suspenso virtual dos
decretos comemorativos.

Deodoro e Benjamin, ao saberem
disto, olharo espantados um para o outro; depois, um ar de riso, meio piedade,
meio lstima, alumiar os seus rostos tranqilos. Enfim, daro de ombros, e
continuaro a andar e a conversar, de brao dado, enquanto eu, considerando as
notcias recentes deste mundo, comporei um discurso sobre as incompatibilidades
da vida e da morte...

Mas onde me leva a imaginao?
Criana vadia, j, j, para casa; anda, vai calar os sapatos; vai pentear essa
grenha; ests cheirando a defunto; vou trancar-te por trs meses! Tudo porque
falei no tempo e nos seus efeitos variados.

Em que h de sonhar um varo
maduro? O tempo escoa-se depressa para aqueles que j vm de longe.  o que
acontece  cmara dos deputados. Prestes a findar os dias, no quer deixar a
obra por fazer e decretou multiplicar o tempo pelo trabalho, celebrando duas
sesses, uma de dia outra de noite. Mas, como a medida arriscada, ps-lhe uma
clusula; baixou o quorum da noite; a sesso noturna pode abrir-se com
menor nmero de membros que a diurna.

Compreende-se o pensamento do
legislador;  uma combinao de oramento. e Falstaff. Para se no
arriscar a no ter sesso, s noites, aplicou ao seu regimento aquele artigo da
lei das sociedades annimas, que permite deliberar com qualquer nmero, depois
de duas convocaes sem eco. Se me fosse lcito propor alguma coisa aos
legisladores, eu lhes lembraria duas resolues da cmara dos comuns, uma de
1620, e outra de 1628. A idia de liberdade esteve sempre ligada a essa casa
clebre. Eis aqui dois exemplos.

Um investigador, um tal Gibson
Bowles, descobriu que no primeiro daqueles anos, 1620, ms de fevereiro, a
cmara resolveu mandar buscar debaixo de vara a todos e quaisquer membros que
no se achassem presentes s sesses, estando na cidade. Oito anos depois, a
cmara, no contente com haver ferido no brao, enterrou a faca na barriga, foi
s algibeiras, determinando, em 9 de abril de 1628, que cada membro que no
comparecesse  sesso pagaria a multa de 10 libras esterlinas. Legislador  fina
fora.

30 de julho

Toda esta semana se falou em paz.
Para um homem que cultiva as artes da paz, como eu, parece que no pode haver
assunto mais fagueiro. Nem sempre. A paz tem benefcios, no contesto; mas a
guerra,  aqui cito Empdocles,   a me de todas as coisas. E nem sempre vale
trocar todas as coisas por alguns benefcios. Um exemplo  mo.

Sem desdenhar dos catarinenses 
alguns conheo que honrariam qualquer comunho social  posso dizer que Santa
Catarina no faria falar de si; vivia na mais completa obscuridade. De quando em
quando vinha um telegrama do governador Machado; mas que vale, por si mesmo, um
telegrama? Santa Catarina no inventava, no criava, no gerava. De repente,
anuncia-se dali uma fagulha, uma agitao, um aspecto de guerra; digo de guerra,
posto no haja sangue; mas tambm h guerra sem sangue. J esta produziu mais do
que longos meses de sossego. Se vier sangue, a produo ser maior. A vantagem
do sangue sobre a gua  que esta rega para o presente, e aquele para o presente
e futuro. Os estragos do sangue, posto que longos, no so eternos;os seus
frutos, porm, entram no celeiro da humanidade.

Vamos ao meu ponto. Um telegrama
de Santa Catarina, esta semana, trouxe um produto novo, filho do conflito, nada
menos que um verbo. Meditai na superioridade do verbo sobre o homem, relendo S.
Joo. No princpio era o verbo, e o verbo se fez carne. E superior e anterior.
Qualquer que seja o resultado da luta entre os Srs. Machado e Herclio, h um
ganho efetivo. Temos um verbo. Os homens passam, os verbos ficam. Um dos
telegramas que do notcia da aclamao do Sr. Herclio para o lugar de
governador do Estado, acrescenta: Quedou afinal o governo do tenente
Machado.

A princpio cuidei que era um
estratagema do fio. Obrigado a passar a notcia, e no sabendo em que paravam as
modas, teria empregado um vocbulo que pelo sentido natural desse idia
contrria  que trazia. Quedou o governo, isto , ficou, prossegue, est quieto.
Mas abri mo da suspeita; o resto e o princpio do telegrama no permitiam
semelhante interpretao. Quedar, no sentido telegrfico, era levar
queda, cair.

Os substantivos, filhos de verbos,
do assim novos verbos. Se de cair se fez queda, era tempo que de
queda se fizesse quedar. Dia vir em que este verbo, como o av
cair, produza tambm um substantivo, quedao. Passados anos,
quando Herclio e Machado descansarem para sempre no seio do Senhor, a gerao
haver continuado. Santa Catarina poder ento telegrafar: Quedacionou o
governo de X... Quem calcular o limite dessa gerao contnua?

Notai que o que legitima um
vocbulo destes,  a sua espontaneidade. Eles nascem como as plantas da terra.
No so flores artificiais de academias, ptalas de papelo recortadas em
gabinetes, nas quais o povo no pega. Ao contrrio, as geradas naturalmente 
que acabam entrando nas academias. Um grave orador dizia h anos: Senhores,
sobre isto no me resta coisssima nenhuma.  um solecismo, concordo; mas vive.
Tambm os aleijados vivem. Onde param tantas palavras, bem conformadas de puros
gramticos?

No  de gramticas, nem de
solecismos, que cuida o nosso conselho municipal. Corporao til, execra todos
os ornamentos; veste pura estamenha, sem grande roda, nem cauda, nem folhos. Um
saco sem fundo, enfiado pela cabea abaixo. Em vo lhe buscareis uma florzinha
na cabea, uma fita no pescoo, um boto, nada.

Entretanto, que mais simples, mais
belo, mais barato ornamento que a modstia? Essa virtude, a um tempo crist e
pag, to pregada pelos padres da Igreja, como pelos sbios da antiguidade, a
santa, a nobre, a pura modstia, que no ocupa lugar, no tira o po nem o sono
de ningum, no mata nem esfola; a modstia no tem entrada no conselho
municipal. Um conselheiro... A propsito, se o nome da instituio  conselho,
no cabe o nome de intendente aos seus membros, e o de membro do conselho
municipal  muito comprido. Por que no adotaremos conselheiro? No era feio,
vinha deduzido do outro, e no precisava dizer conselheiro municipal.
Conselheiro bastava. O conselheiro Fulano... Que tal?  uma idia.

Como ia dizendo, um conselheiro
falava sobre um assunto, e explicava-se: Mal preparado (no apoiados),
no cursei academias, e apenas freqentei um colgio, recebendo uma parca
instruo. Que h de dizer o presidente, interrompendo o orador? Previno a V.
Ex. que isto no tem relao com o projeto.

Realmente no compreendo. Se o
orador, em vez daquilo, dissesse que se considerava um dos primeiros homens do
conselho, esprito ilustrado, sagaz, profundo, pessoa virtuosa, interessante,
dotada de graa, de piedade, de originalidade, firme nos bons sentimentos,
patriotismo inexcedvel, autor do melhor ungento contra os reumatismos
crnicos, admito a interrupo e o reparo do presidente. Mas, longe disso, o
orador confessa que tem poucas habilitaes. Se  verdade, a verdade nasceu para
se dizer; se h alguma exagerao, mais um motivo para consenti-la. Abenoada
exagerao que nos leva a desaparecer diante dos outros. Impedir esse simples
ornamento  no querer nem uma rude flor do mato. Mas ento o presidente do
conselho... Presidente do conselho! Outro modo de dizer, igualmente deduzido,
sem necessidade do adjetivo municipal, ou qualquer outro. Presidente do
conselho. Que tal  uma idia. Todo eu sou hoje idias.

6
de agosto

A Gazeta completou os seus
dezoito anos. Ao sair da festa de famlia com que ela celebrou o seu
aniversrio, fui pensando no que me disse um conviva, excelente membro da casa,
a saber, que os dois maiores acontecimentos dos ltimos trinta anos nesta cidade
foram a Gazeta e o bond.

Tens razo, Capistrano. Um e outro
fizeram igual revoluo. H um velho livro do Padre Manuel Bernardes, cujo
ttulo, Po partido em pequeninos, bem se pode aplicar  ao dos dois
poderosos instrumentos de transformao. Antigamente as folhas eram s
assinadas; poucos nmeros avulsos se vendiam e, ainda assim, era preciso ir
compr-los ao balco, e caro. Quem no podia assinar o Jornal do
Comrcio, mandava pedi-lo emprestado, como se faz ainda hoje com os livros,
 com esta diferena que o Jornal era restitudo  e com esta semelhana:
que voltava mais ou menos enxovalhado.

As outras folhas  no tinham o
domnio da notcia e do anncio da publicao solicitada, da parte comercial e
oficial; demais, serviam a partidos polticos. A mor parte delas (para empregar
uma comparao recente) vivia o que vivem as rosas de Malherbe.

Quando a Gazeta apareceu, o
bond comeava. A moa que vem hoje  Rua do Ouvidor, sempre que lhe
parece,  hora que quer, com a mame, com a prima, com a amiga, porque tem o
bond  porta e  mo, no sabe o que era morar fora da cidade ou longe do
centro. Tnhamos diligncias e nibus; mas eram poucos, com poucos lugares,
creio que oito ou dez, e poucas viagens. Um dos lugares era eliminado para o
pblico. Ia nele o recebedor, um homem encarregado de receber o preo das
passagens e abrir a portinhola para dar entrada ou sada aos passageiros. Um
cordel, vindo pelo tejadilho, punha em comunicao o cocheiro e o recebedor;
este puxava, aquele parava ou andava. Mais tarde, o cocheiro acumulou os dois
ofcios. Os veculos eram fechados, como os primeiros bonds, antes que
toda a gente preferisse os dos fumantes e inteiramente os
desterrasse.

 J passou a diligncia? L vem o
nibus! Tais eram os dizeres de outro tempo. Hoje no h nada disso. Se algum
homem, morador em rua que atravesse a da linha, grita por um bond que vai
passando ao longe, no  porque os veculos sejam raros, como outrora, mas
porque o homem no quer perder este bond, porque o bond pra, e
porque os passageiros esperam dois ou trs minutos, quietos. Esperar, se me no
falha a memria,  a ltima palavra do Conde de Monte-Cristo. Todos somos
Monte-Cristos, posto que o livro seja velho. Falemos  gente moa,  gente de
vinte e cinco anos, que era apenas desmamada, quando se lanaram os primeiros
trilhos, entre a Rua Gonalves Dias e o largo do Machado. O bond foi
posto em ao, e a Gazeta veio no encalo. Tudo mudou. Os meninos, com a
Gazeta debaixo do brao e prego na boca, espalhavam-se por essas ruas,
berrando a notcia, o anncio, a pilhria, a crtica, a vida, em suma, tudo por
dois vintns escassos. A folha era pequena; a mocidade do texto  que era
infinita. A gente grave, que, quando no  excessivamente grave, d apreo 
nota alegre, gostou daquele modo de dizer as coisas sem retesar os colarinhos. A
leitura imps-se, a folha cresceu, barbou, fez-se homem, ps casa; toda a
imprensa mudou de jeito e de aspecto.

No me puxem as orelhas pelo que
disse acerca das folhas polticas. Se no eram vivedouras outrora, se hoje o no
podem ser sem outro algum condimento, a culpa no  minha. E digo mal,
polticas; partidrias  que deve ser. De poltica tambm tratam as outras. A
questo  um pouco mais longa que esta pgina, e mais profunda que esta crnica;
mas sempre lhes quero contar uma histria.

Um telegrama datado de
Buenos-Aires, 3, deu notcia de que a Nacin, rgo do General Mitre,
aconselha a unio de todos os cidados, no meio da desordem, que vai por algumas
provncias argentinas. Ora, ouam a minha histria que  de 1868. Nesse ano,
Mitre, que assumira o poder em 1860, depois de uma revoluo, concluiu os dois
prazos constitucionais de presidente; fizera-se a eleio do presidente e sara
eleito Sarmiento, que ento era representante diplomtico da repblica nos
Estados-Unidos. Vi este Sarmiento, quando passou por aqui para ir tomar conta do
governo argentino. Boas carnes, olhos grandes, cara rapada. Tomava ch no Club
Fluminense, no momento em que eu ia fazer o mesmo, depois de uma partida de
xadrez com o professor Palhares. Pobre Palhares! Pobre Club Fluminense! Era um
ch sossegado, entre nove e dez horas, um baile por ms, moas bonitas, uma
principalmente... Une surtout, un ange... O resto est em Victor Hugo.
Un ange, une jeune espagnole. A diferena  que no era espanhola.
Sarmiento vinha, creio eu, do pao de S. Cristvo ou do Instituto Histrico;
estava de casaca, bebia o ch, trincava torradas, com tal modstia que vinguem
diria que ia governar uma nao.

Quando Sarmiento chegou a
Buenos-Aires e tomou conta do governo, quiseram fazer a Mitre, que o entregava,
uma grande manifestao poltica. A idia que vingou foi criar um jornal e
dar-lho. Esse jornal  esta mesma Nacin que  ainda rgo de Mitre, e
que ora aconselha (um quarto de sculo depois) a unio de todos os cidados. 
um jornal enorme de no sei quantas pginas. Em trocos midos, os jornais
partidrios precisam de partido, um partido faz- se com homens que votem, que
paguem, que leiam.

H ler sem pagar; no  a isso que
me refiro. H tambm pagar sem ler; falo de outra coisa. Digo ler e pagar, digo
votar, digo discutir, escolher, fazer opinio. Sem ela, sem uma boa opinio
ativa, pode haver algumas veleidades, mas no h vontade. E a vontade  que
governa o mundo.

13 de agosto

Entre tantos sucessos desta
semana, que valeu por quatro, um houve que principalmente me encheu o esprito.
Foi a proclamao do ex-governador Herclio, ao deixar o poder de algumas
horas.

Talvez o leitor nem saiba dela,
to certo  que os vencidos no merecem compaixo. Eu tambm no a li; no sei
se  longa ou breve, nem em que lngua  escrita, dado que os revolucionrios
fossem alemes, como disseram telegramas,  ou teuto-brasileiros, frmula achada
no Rio Grande do Sul para exprimir a dupla origem de alguns concidados nossos.
Tambm ignoro se a proclamao ataca o poder federal, como fez um telegrama do
prprio ex-governador. Propriamente, a minha questo no  poltica. A parte
poltica s me ocupa, quando do ato ou do fato sai alguma psicologia
interessante.

Ora, a proclamao do Sr.
Herclio, quando deixou o poder,  um documento de alta significao
psicolgica. No a conheo, mas vi notcia telegrfica de que saiu impressa em
cetim azul com letras de ouro.

 primeira vista parece nada; os
amigos e correligionrios  que naturalmente tiveram a idia de pr em relevo as
palavras do chefe, dando-lhes esse veculo de ouro e cetim. Penetrando, porm,
com olhos mais sagazes, compreende-se que essa preocupao da forma  a
manifestao inconsciente da garridice da nossa alma. Podemos matar ou ferir.
Naquele mesmo tumulto, pereceu um mdico, ainda no se sabe com bala de quem,
porque ambos os lados repelem a autoria do tiro. Mas, cessadas as hostilidades,
voltamos  graa e ao adorno. Papel preto, letras amarelas, fazendo lembrar o
aspecto dos caixes morturios, tal devia ser a proclamao de um vencido. Poeta
que a inventasse, recorreria a lminas de ao com letras de bronze. Tudo filho
da idia que conjuga o desbarato e a melancolia  ou, quando muito, a
ameaa.

A generalidade dos homens adotou,
em vez disso, o simples papel branco e letra preta. Os espritos garridos,
porm, no cedem do enfeite, e, quando tudo parece que devia estar lvido, est
cor de ouro.

Concluamos que h uma fora ntima
que nos impele a fazer de uma calamidade uma gravata, e de um tiro mortal um
sculo comprido. No; ns no levamos a paixo poltica ao ponto a que a levou
agora a gente do Rosrio, provncia argentina, onde a polcia era defendida das
sotias das casas pelos bombeiros e pelos presos.

Quando a opinio dos homens chega
a defender a prpria polcia que os encarcerou,  que eles so chegados quele
grau em que uma nao d de si Brutus. Esmagar a polcia  o impulso natural de
todo cidado capturado; mas trepar nas sotias para defend-la a tiro,  coisa
que sai do homem para entrar no romano.

Tambm isso me veio por telegrama;
eu quase no leio outra coisa, tanta  a ocupao do meu tempo. Alguma notcia
que vi, como o arrombamento de um cartrio e o desaparecimento de uns autos, 
por ouvi-la contar. Essa mesma do cartrio no a pude ouvir bem. Chovia e
ventava muito, o bond tinha as cortinas alagadas; as cortinas, longe de
serem de oleado, eram de pano de algodo, que se encharcam mais, posto custem
menos dinheiro. No devia zangar-me com isso, porque o bond era de
Botafogo, companhia de que sou acionista, e quanto menos custarem as cortinas,
mais valero os papis. Entretanto, zanguei-me, porque o pano molhado, tocado
pelo vento, batia-me na cara, nas pernas e no chapu, sem deixar-me ouvir o
lance dos autos e do cartrio. S depois de apeado e recolhido  que recobrei a
alegria. Com efeito tinha estragado o chapu; mas chapu no rende, a ao
rende.

Lembro-me que, quando entrei na
rua Gonalves Dias, ia chuviscando e ainda fui ao fim da rua do Senador Dantas
para achar lugar em bond de Botafogo.

Mandei ao diabo a idia de retirar
o ponto dos bonds, da rua Gonalves Dias; mas outra sensao expeliu a
primeira. Quando descansei da viagem, em casa, lembrei-me que esse dia era
justamente o aniversrio natalcio do nosso poeta nacional. Corri a enfeitar de
flores o seu retrato, e recitei algumas estrofes, como na missa se faz com
pedao do Evangelho. Esta semana , alis, uma semana de poetas. Nela nasceram
tambm o Magalhes, poeta e diplomata, e S. Carlos, poeta e frade. Vi Gonalves
Dias duas vezes. Da primeira adivinhei quem era, no sentindo mais que o passo
rpido de um homenzinho pequenino. Era ele, era o autor da Cano do
Exlio, que se soletrava desde os dez anos...

Vamos adiante.

Vamos  rua do Ouvidor;  um
passo. Desta rua ao Dirio de Notcias  ainda menos. Ora, foi no
Dirio de Notcias que eu li uma defesa do alargamento da dita rua do
Ouvidor,  coisa que eu combateria aqui, se tivesse tempo e espao. Vs que
tendes a cargo o aformoseamento da cidade alargai outras ruas, todas as ruas,
mas deixai a do Ouvidor assim mesma  uma viela, como lhe chama o Dirio,
 um canudo, como lhe chamava Pedro Luiz. H nela, assim estreitinha, um aspecto
e uma sensao de intimidade.  a rua prpria do boato. V l correr um boato
por avenidas amplas e lavadas de ar. O boato precisa do aconchego, da
contigidade, do ouvido  boca para murmurar depressa e baixinho, e saltar de um
lado para outro.

Na rua do Ouvidor, um homem, que
est  porta do Laemmert, aperta a mo do outro que fica  porta do Crashley,
sem perder o equilbrio. Pode-se comer um sandwich no Casteles e tomar
um clix de Madeira no Deroch, quase sem sair de casa. O caracterstico desta
rua  ser uma espcie de loja nica, variada, estreita e comprida.

Depois,  mister contar com a
nossa indolncia. Se a rua ficar assaz larga para dar passagem a carros, ningum
ir de uma calada a outra, para ver a senhora que passa,  nem a cor dos seus
olhos, nem o bico dos seus sapatos, e onde ficar em tal caso o culto do belo
sexo, se lhe escassearem os sacerdotes.

Outra prova.

Houve domingo passado o grande
prmio do Derby-Club. Dizem que se apostaram cerca de quatrocentos contos de
ris no lugar das corridas. Mais, muito mais, deram as apostas c em baixo. Uma
das vantagens das corridas de cavalos  poder agente apostar nelas sem sair da
freguesia.

Faz lembrar os velhos mendigos de
Nicolau Tolentino, que, de uma praa de Lis-bons, acompanhavam os exrcitos
europeus,marchas e contramarchas, ganhavam batalhas, retificavam fronteiras, at
que voltavam ao seu ofcio, se aparecia algum:

E tendo dado cidades,
Nos vem pedir uma
esmola.

Na Inglaterra, onde o cavalo  uma
instituio nacional, quando chega o dia do grande prmio toda a gente vai s
corridas. A prpria cmara dos comuns, que no tem folga, seja de gala, seja de
tristezas, abala e d consigo no Derby. Pode ser que, sobre a tarde, como as
suas sesses entram pela noite velha, v aos trabalhos parlamentares; mas no
perde a grande festa. L, porm, o clima  frio. Que seria aqui esse nobre
exerccio do cavalo, se, para acompanhar as corridas, fosse preciso ir v-las?
Com certeza, morria. O mesmo acontecer  rua do Ouvidor, se a fizerdes mais
larga.

20 de agosto

Ce pays ferique... Assim se exprime
Sarah Bernhardt, em relao ao Brasil, no telegrama com que desmente os
conceitos que uma folha argentina lhe atribuiu.

Cara Melpmene, quem te levou a
escrever essas palavras que me matam? Tu sabes, ou ficas sabendo que te admiro,
no s pelo gnio, mas ainda pela originalidade. O banal afoga-me. O vulgar  o
Cabrion deste teu Pipelet. Assim, tudo o que fazes, e no faz nenhuma outra
pessoa no mundo,  para mim um atrativo. Uma das minhas convices (e tenho
poucas) era esta: se algum dia Sarah escrever a nosso respeito, no empregar a
velha chapa de todos os viajantes que por aqui passam: ce pays ferique.
E tu, amiga minha, tu arrancas-me sem piedade esta iluso do meu
outono.

No  s chapa,  estilete. O meu
sentimento nativista, ou como quer que lhe chamem,  patriotismo  mais vasto, 
sempre se doeu desta adorao da natureza. Raro falam de ns mesmos; alguns mal,
poucos bem. No que todos esto de acordo,  no pays ferique. Pareceu-me
sempre um modo de pisar o homem e as suas obras. Quando me louvam a casaca,
louvam-me antes a mim que ao alfaiate. Ao menos,  o sentimento com que fico; a
casaca  minha; se no a fiz, mandei faz-la. Mas eu no fiz, nem mandei fazer o
cu e as montanhas, as matas e os rios. J os achei prontos, e no vejo que
sejam admirveis; mas h outras coisas que ver.

H anos chegou aqui um viajante,
que se relacionou comigo. Uma noite falamos da cidade e sua histria; ele
mostrou desejo de conhecer alguma velha construo. Citei-lhe vrias; entre elas
a igreja do Castelo e seus altares. Ajustamos que no dia seguinte iria busc-lo
para subir o morro do Castelo. Era uma bela manh, no sei se de inverno ou
primavera. Subimos; eu, para dispor-lhe o esprito, ia-lhe pintando o tempo que
por aquela mesma ladeira passavam os padres jesutas, a cidade pequena, os
costumes toscos, a devoo grande e sincera. Chegamos ao alto, a igreja estava
aberta e entramos. Sei que no so runas de Atenas; mas cada um mostra o que
possui. O viajante entrou, deu uma volta, saiu e foi postar-se junto  muralha,
fitando o mar, o cu e as montanhas, e, ao cabo de cinco minutos: Que natureza
que vocs tm!

Certo, a nossa baa  esplndida;
e no dia em que a ponte que se v em frente  Glria for acabada e tirar um
grande lano ao mar para aluguis, ficar divina. Assim mesmo, interrompida,
como est, a ponte d-lhe graa. Mas, naquele tempo, nem esse vestgio do homem
existia no mar; era tudo natureza. A admirao do nosso hspede exclua qualquer
idia da ao humana. No me perguntou pela fundao das fortalezas, nem pelos
nomes dos navios que estavam ancorados. Foi s a natureza.

Navios e fortalezas, a est o que
se pode ver no mar. Em terra, musa trgica, podias ver agora a morte de um bravo
soldado, um dos restantes heris da guerra do Paraguai. Tambm ns tivemos a
nossa grande guerra. Um argentino, h muitos anos, comparecendo ao jri em
Frana, por delito de imprensa, ouviu ao acusador falar com riso das pequeninas
lutas de poucas centenas de homens que se travam na Amrica, e respondeu com
acerto: Senhores, sabeis o que se faz nas nossas guerras minsculas? Faz-se o
que se faz nas vossas: morre-se. On y meurt, messieurs.

Naquela guerra morreram aos
milhares. Um dos mais gloriosos sobreviventes, o que lhe pos remate com
extraordinrio denodo,  o que ora entrou definitivamente na histria do seu
pas. A morte tem esta punio: faz viver aqueles a quem no pode matar. Mas so
tantos os que sucumbem, e to poucos os que vivem, que a punio  tolervel.
Vencedor de Aquidab, tu sers um dos grandes testemunhos da gerao que vai
morrer.

Mas em terra no h s grandes
finados, nem memrias gloriosas. H aqui obras de outra casta, seja de arte,
seja de poltica, seja de cincia, obras que podem recomendar-nos, embora no
espantem a estranhos. Nem todas sero boas. Nesta semana, por exemplo,
enlouqueceu um esprita; mas, alm de que isto no prova contra o espiritismo, 
que alguns crebros lcidos e fortes estudam e aprofundam,  em toda a parte h
crebros fracos que se perdem. Nem todos podem fitar o abismo. No  razo para
condenar as cincias ocultas. E de onde nos vieram elas? O ocultismo est em
moda na Europa. Os livreiros daqui recebem obras com ttulos ilegveis,  fora
de escuridade, e todas as folhas anunciam certo livro de S. Cipriano, vindo de
Lisboa, que dizem ser maravilhoso para achados, curas e casamentos.

A cincia da pla, dado que seja
oculta, tambm no  nossa. Veio da outra banda e de tempos idos. O que  desta
banda,  a arte de envergar o arco, em que so exmios os caboclos, se eles
ainda valem os de que fala o poeta:

So todos destros
No exerccio da flecha, que
arrebatam
Ao verde papagaio o curvo
bico
Voando pelo ar.

H a talvez uma idia para alguma
associao nova. A menos que os bicos dos papagaios sejam simples pintura,
iluso tica, no acho hiptese de fraude nesse exerccio. Contestou-se que a
poesia nacional estivesse no caboclo; ningum poder contestar, a srio, que
esteja nele a nacionalizao do sport. O caboclo e o capoeira podem
fazer-se teis, em vez de inteis e perigosos.

27 de agosto

Quando eu cheguei  rua do Ouvidor
e soube que um empregado do correio adoecera do clera, senti algo parecido com
susto, se no era ele prprio. Contaram-me incidentes. Nenhum hospital quisera
receber o enfermo. Afinal fora conduzido para o da Jurujuba, e insulado, como de
regra.

Conversei, para distrair-me, mas
no estava bom. Podia estar melhor. No bond, quando me recolhia, eram
seis horas da tarde, havia j trs casos de clera, o do correio, o de uma
senhora que estava comprando sapatos, e o de um carroceiro na Sade. Na Lapa
entrou um homem, que disse ter assistido ao caso postal. A figura do doente
metia medo. Chegaram a ver o bacilo...

 O bacilo? perguntei
admirado.

 Sim, senhor, o bacilo vrgula;
era assim, disse ele, virgulando o ar com o dedo indicador  e foi o diabo para
mat-lo. Ele corria, abaixo e acima, no ar, no cho, nas paredes, metia-se por
baixo das mesas, nos chapus, nas malas, em tudo. Felizmente, tinham-se fechado
as portas, e um servente com a vassoura deu cabo do bicho. Aquele no pega
outro.

Examinei bem o homem, que podia
ser um debicador, mas no era. Tinha a feio pura do crdulo eterno. Fosse como
fosse, no fiquei melhor do que estava na rua do Ouvidor, e cheguei  casa
sorumbtico. Jantei mal. De noite, li um pouco de Dante, e no fiz bem, porque,
no circulo de voluptuosos, aqueles versos

E come i gru van cantando lor
lai,
Facendo in aere di s lunga
riga,

foram a minha perseguio durante
o pesadelo, um terrvel pesadelo que me acometeu entre uma e duas
horas.

Com efeito, sonhei que era
esganado por uma vrgula, um bacilo, o prprio bacilo da clera, tal qual o
descrevera o homem do bond. Morto em poucos minutos, desci ao inferno,
enquanto c em cima me amortalhavam, encaixotavam e lavavam ao cemitrio. No
inferno, depois de atravessar vrios crculos, fui dar a um, cujo ar espesso era
povoado das mais infames criaturas que  possvel imaginar. Era uma longa fila
de bacilos, tamanhos como um palmo; e no s o virgula, mas todas as figuras da
pontuao.

E como i gru van cantando lor
lai,

cantavam eles uma trova, sempre a
mesma, meia triste, meia escarninha. O que dizia a trova, no sei; era uma
lngua estranhssima. Vulto humano nenhum; cuidei que ia viver ali
perpetuamente, e no pude reter as lgrimas.

Nisto, vi ao longe duas sombras,
que se aproximaram lentamente e me pegaram na mo.  Sou Epicuro, disse-me uma
delas; este  Demcrito, que recebeu de outro a doutrina dos tomos, a qual eu
perfilhei, e que tu, aps tantos sculos, vais concluir. Fica sabendo que estes
bacilos so os prprios tomos em que fizemos consistir a matria; por isso
dissemos que eles tinham todas as figuras, desde as retilneas at as curvas.
Curvo  o tal vrgula que te trouxe a este mundo, do qual vais sair para pregar
a verdade. Vamos dar-te o batismo da filosofia.

Epicuro assobiou. Correram dois
bacilos, forma de parnteses, e fecharam-me entre eles, como se faz na escrita
(assim); depois chegou o bacilo da interrogao, a que no pude responder nada.
Vendo o meu silncio, empertigou-se o bacilo da admirao, enquanto os dois
parnteses iam-me fechando cada vez mais, mais mais. J me rasgavam as carnes;
entravam-me como alfanjes; eu torcia-me sem voz, at que pude gritar: Epicuro!
Demcrito! Jos Rodrigues!

 Que , patro?

Abri os olhos, vi ao p da cama o
meu criado Jos Rodrigues,  aquele mesmo ignaro que traduzira debntures por
desventuras. Ao cabo, um bom homem; pouca suficincia intelectual, mas uma
alma... Deu-me gua e ficou ao p de mim, contando-me historias alegres, at que
adormeci.

De manh corri aos jornais para
saber quantos teriam morrido do clera durante a noite; soube que nenhum;
suspeita e medo, nada mais. Entretanto, choviam conselhos e vinham descries;
no s do bacilo vrgula, mas de todos os outros, causas das nossas
enfermidades.

Li tudo a rir. Sobre a tarde,
pensei no anncio de Epicuro. Era um sonho vo; mas trazia uma idia. Quem sabe
se eu no tinha o bacilo do gnio... Dei um pulo, estava achada mais uma
doutrina definitiva. Ei-la aqui, de graa.

Cada um de ns  um composto de
cidades, no da mesma nao, mas de varias naes e diferentes lnguas, um mundo
romano. Isto posto, as molstias que nos assaltam, so revolues interiores. As
macacoas no passam de distrbios, a que a polcia pe cobro. Tudo obra de
bacilos; mas como tambm os h da sade, bons cidados, ordeiros, amigos da lei,
da paz e do trabalho, esses no s nos conservam a sade, como subjugam e muitas
vezes eliminam os tumultuosos. Os mdicos recebem c fora honorrios que a
justia mandaria pagar a esses dignos defensores da paz interior, se eles
precisassem de dinheiro. Outras vezes so vencidos; os bacilos perversos matam o
homem;  a anarquia e a dissoluo.

Os bacilos da sade no so s
modelos de virtudes pblicas e privadas. Dotados de algum intelecto, associam-se
para compor um talento ou um gnio, e so eles que formam as novas idias,
discursos e livros. H uns poticos, outros oratrios, outros polticos, outros
cientistas. Dante era um homem de muitos bacilos. A vontade tambm se rege por
eles; uma grande ao pode no ser mais que o esforo comum dos bacilos do
corao e dos rins. Enquanto eles consolidam um tecido, Napoleo ganha a batalha
de Iena.

Por outro lado, sendo a sociedade
um organismo, ns somos os bacilos da sociedade. Segundo forem as qualidades
desta, assim se poder dizer que casta de bacilos  a que predomina no
organismo. No se pode dizer, por exemplo, que tenhamos o bacilo do jri. Aps
quatro ou cinco semanas de espera, compor-se- dois dias o tribunal, e ainda
assim s depois de vrias admoestaes e lstimas, por ver cada semelhante
instituio. Erro dos que lastimam e admoestam.  claro que no possumos o
bacilo prprio a essa espcie de justia. Uma instituio pode ser bonita,
liberal, de boa origem, sem que todos a pratiquem eficazmente, desde que falte o
bacilo criador. A considerao de julgar os pares no tira ningum de casa, e
muita gente h que confia mais na toga que na casaca, no que a casaca seja mais
cruel, ao contrario. Sobre isto o melhor  ler um autor recente, o Sr.
Conceio, rua da Alegria n. 22, um homem que foi por seu p inscrever-se na
lista dos jurados, que acudia ao jri com sacrifcio do trabalho e do descanso,
e que, ao fim de pouco tempo, viu-se recusado sempre por ambas as partes,
advogado e promotor.

Mas, enfim, tudo isso so mincias
que no importam aos lineamentos da doutrina. Talvez no nos falte o bacilo do
jri, mas o da reunio, o da assemblia, o de tudo que exige presena obrigada.
A razo de estar a rua do Ouvidor sempre cheia  poder cada um ir-se embora;
ficam todos. H nada melhor que uma opera que entra pelo ouvido, enquanto os
olhos, pegados ao binculo, percorrem a sala? So pontos que merecem estudo
particular.

Resumo a doutrina. Tudo  bacilo
no mundo, o que est dentro do homem, no homem e fora do homem. A terra  um
enorme bacilo, como os planetas e as estrelas, bacilos todos do infinito e da
eternidade  dois bacilos sem medida de algum que quer guardar o
incgnito.

3
de setembro

Quando eu soube da primeira
representao do Alfageme de Santarm, do pranteado e notabilssimo
escritor Visconde de Almeida Garret, como dizem respeitosamente os anncios, e
logo depois a do Lohengrin, de Wagner, fiz teno de dizer aos moos que
no desdenhassem do passado, e aos velhos que no recusassem o futuro.
Acrescentaria que a frescura vale a consagrao e a consagrao a frescura, e
acabaria com esta mxima:  A beleza  de todos os tempos.

No perderia muito em escrever
assim, e o papel gasto valeria o assunto. No o digo, ou no continuo a dizer o
que a fica, porque seria dar entrada nesta coluna a matrias de outra
competncia, espetculos ou livros, bitos ou discursos. Por que lancei essas
linhas? Unicamente para mostrar que h no nosso esprito, assaz confiana e
liberdade para poder aplaudir as obras de arte sem cuidar do clera, que espero
no venha, mas que pode vir. O cadver levado  Copacabana, sem cara, que
provavelmente os peixes havero comido, e esses peixes, se forem pescados,  ou
comidos por outros maiores, que se pesquem,  eis a uma poro de idias
torvas. De S. Paulo nada h mais, salvo uma carta oficial que confirma haver
aparecido e desaparecido o terrvel morbus. No Par e Santa Catarina, receios.
Enfim, estamos a trancar os portos a outros portos. Tudo isso, porm, no nos
dispensa da arte,  passada ou futura,  Lohengrin ou
Puritanos.

O prprio caso do Carlo R. dava
obra de arte nas mos de um artista, um Poe, no menos. Ningum receber esse
veculo da peste e da morte, que embarcou mil imigrantes, j iscados da
molstia, e veio por essas guas fora, em vez de tornar logo ao porto da sada.
Um Poe imaginaria que os passageiros, agora, no alto mar, desesperados, contra o
capito, pegavam dele e o alavam ao mastro grande. Um dos passageiros meio
nutico, tomaria conta do navio. Vivo e sem comer, o capito veria morrer no
tombadilho todas as suas vtimas e algozes, cinco a cinco, dez a dez, at que
ele nico escaparia ao mal, por encontro de outro vapor que passasse e o
recebesse a bordo. E de duas uma: ou o capito levava em si a molstia para
bordo do navio salvador, e pagaria o bem com o mal, sem o sentir, ou no levava
o clera, mas o espetculo do tombadilho o perseguiria por toda a parte. Deste
ou daquele modo, um Poe daria o ltimo captulo.

Esperemos que o navio nos haja
deixado o mal, como aquele rabe do poeta, que foi buscar a doena a Granada,
para comunic-la ao seus vencedores cristos. No se sabe ainda se os cadveres
de Santos so da mesma origem que o da Copacabana; sabe-se s que o mar os no
quis guardar consigo. Comeu-lhes algum pedao, mas rejeitou-os, ou por serem
colricos ou por serem cadveres. A terra que os engula. O fogo, se pega a
lembrana, que os consuma.

Seja o que for, como pode
acontecer que o navio haja deixado algum vestgio de si, vamos desinfectando o
corpo e a alma, para qualquer eventualidade futura. Nada se perde com isto. Da
alma, alm do que nos pode dar a esttica, incumbe-se a religio; e aqui devo
notar, de passagem, que tive anteontem, sexta-feira, uma viso de outros tempos.
Do bond em que ia, de manh, vi em poucos minutos quatro homens de opa,
vara e bacia. Outrora eram muitos, depois escassearam, depois acabaram. Agora,
s em uma direo achei quatro.  natural que reviva o tipo. No me parece que
seja mau;  caracterstico, ao menos, e o incolor nos vai matando. Em criana,
eu sabia de todas as cores de opas, verdes, roxas, brancas,
encarnadas.

Perdi-lhes o sentido, mas achei a
sensao. Faltava,  certo, a esses irmos, a melopia antiga; no pediam
cantando, nem na ocasio pediam nada. Iam cosidos com a parede e levavam j
muitas esmolas.

Do corpo cuidemos ao sabor da
autoridade, menos eu, talvez, mas por uma razo s minha, e que, alis, pode ser
de muita gente. Tenho um grande amigo, no menor mdico, ao qual ouvi uma vez 
pedindo-lhe eu algum xarope que me tirasse um defluxo  que no era costume
deste receitar xaropes aos amigos. No entendi bem a resposta; mas, tendo lido
algures que no h doenas, mas doentes, pareceu-me que, uma vez que eu tivesse
f, a simples vista dos anncios de xaropes me restituiria a sade. Dei-me a
essa teraputica. Pegava dos jornais, ia-me aos anncios dos xaropes, s cartas
dos curados, agradecimentos, atestados mdicos, isto durante dez minutos, em
jejum; quatro dias depois, estava pronto. Tempo vir em que os princpios sejam
regulados pelo mesmo processo, com um pouco de gua por cima. Frmulas e gua. E
talvez os princpios no esperem pelo Lohengrin, se  que j no vieram
com o Alfageme. De um ou de outro modo, direi como de comeo  aos moos
que no desdenhem o passado  e aos velhos que no recusem o futuro. A verdade,
como a beleza,  de todos os tempos. Assim para os xaropes, como para os seus
derivados.

O que tambm se pode dar
indistintamente por obra do passado ou do futuro,  o que tivemos anteontem,
pequeno drama de amor da rua do Senador Pompeu. O namorado atirou sobre ela e em
si, morreu logo, a moa escapar. Cair em cima do namorado,  o primeiro ato, em
nome da moral e da justia. O segundo  levant-lo s nuvens como um modelo de
paixo, que nem quis deixar a moa neste mundo, matando-se, nem sacrific-la s,
dando-lhe a morte, e com trs tiros buscou corrigir a fortuna e a natureza.
Qualquer que ele seja, h uma conseqncia certa,  que a vtima no esquecer o
algoz. No turbilho das coisas humanas, ms ou boas, chochas ou terrveis, ou
tudo junto, por mais que os anos se acumulem e se multipliquem, com grandes
caramelos  cabea, ou inteiramente pelados, trpegos, quase sem vida, como os
do casal austro-hngaro, que acaba de celebrar as suas bodas seculares, a ultima
idia que se apagar no crebro da vtima, ser a daquele homem que, por paixo,
tentou assassin-la. Tudo se perdoa ao amor; tudo perdoamos aos que nos adoram.
E isto quer se trate de casamento, quer de poder, quer de gloria. A diferena 
que os gloriosos esquecem, s vezes, e os poderosos podem esquecer
muitas.

10 de setembro

Quarta-feira, quando eu desci do
bond que me trouxe  cidade, a primeira voz que ouvi, foi este grito:
Olha o 2537,  a sorte grande para hoje! Mais de um homem, atordoado pelos
graves acontecimentos do dia, no chegaria a ouvir essas palavras; eu ouvi-as,
decorei-as, guardei o prprio som comigo. De cinco em cinco minutos, a voz da
pequeno (porque era um pequeno o dono da voz) berrava aos meus ouvidos: Olha o
2537,  a sorte grande para hoje!

Agora mesmo, ao escrever o caso,
ouo o mesmo grito, e no pode ser outro pequeno nem outra loteria, porque a voz
 a mesma, e o nmero  2537.  a memria que repercute o que a singularidade do
momento lhe confiou,  o espectro do largo da Carioca que me acompanha, para
lembrar-me que, no meio da maior agitao do esprito pblico, h sempre um
nmero 2.537 para ser apregoado, comprado e premiado.

Nunca mais esquecerei esse nmero.
Um amigo meu, ora finado, que havia sido poeta romntico, petimetre e prdigo,
guardava de memria o nmero 122. Tinha sempre encomendado um bilhete de loteria
com esse numero. No importa que lhe sasse branco; ele teimava em compr-lo e
perd-lo. Viveu assim anos. Poucos dias antes de morrer, saindo-lhe ainda uma
vez branco o bilhete, mandou comprar outro. Como eu lhe dissesse que era melhor
comprar bilhete para a viagem do cu (tinha bastante franqueza com ele para lhe
falar assim), respondeu-me com ternura e melancolia:

 Sei que l estarei antes do fim
da semana, mas  preciso justamente que leve este nmero. Se tal pudesse ser o
da sepultura que me h de cobrir, a minha felicidade seria completa. No te
espantes, amigo meu. Esse nmero era o do carro em que recebi pela primeira vez
a mulher que amei. Era uma calea, o cocheiro era gordo, foi no largo da Me do
Bispo...

No conto o resto; seria desvendar
muitas coisas, e tu, bela dama grisalha, com os teus olhos longos e moribundos,
podia ser que acabasses de morrer por uma vez, no de amor, mas de despeito.
Descansa; calo o resto. Fica sabendo apenas, se o no sabias at agora, que a
calea tinha o nmero 122. Era o dos amores, no podia ser o da loteria; mas
tanto vale o provrbio com a superstio. Quem perdeu com isso? A loteria teve
um fregus, tu uma saudade, ele um lugar no cu. Se entre os meus leitores h
algum confiado em nmeros, tente o 122; no sendo o da calea dos seus primeiros
amores, pode ser que lhe d a sorte grande. Eu guardo o 2537, mas por outra
razo diversa.

Diversa e grave. Esse nmero  um
documento, meio humano, meio carioca. Ele prova que h um tanto de Pitgoras na
nossa alma. Nem de outro modo se explicaria a generalidade e persistncia da
polca, seno pela harmonia das esferas. Assim tambm o valor fsico e metafsico
do nmero  uma relquia da velha filosofia. No se pode dizer que tenhamos
algum dia danado sobre um vulco, porque esse verbo  mais extenso e menos
caracterstico, alm de ser a frmula incompleta. O que ns alguma vez fizemos,
foi polcar e cantar.

O eventual seduz-nos como um
pedao de mistrio. O boi pis, se aqui viesse, ganharia mais dinheiro que a
preta velha ama de Washington, inventada por Barnum. Que nos importariam amas de
ningum? Mas um boi que faria a felicidade ou a desgraa de uma pessoa, segundo
aceitasse ou no a erva que ela lhe desse, eis a alguma coisa que fala ao
corao dos homens. O boi pis recusou a comida que Germnico lhe ofereceu,
quando foi consultado; e Plnio, que no era tolo, observa com seriedade que
Germnico morreu pouco depois.

Tu explicarias o suposto orculo
pelo fato evidente da falta de apetite. H at algum, cujo nome no me ocorre,
que afirma no haver entre o homem e a besta outra diferena seno esta: que o
homem come, ainda quando no tem fome; o que melhor explica o orculo de pis.
Mas, francamente, que  que lucramos com a explicao? A realidade  seca, a
cincia  fria; viva o mistrio e a credulidade!

Para no sair do boi, Cincinatti
conta alguns grandes ricaos de matadouro, que eram pobres h poucos anos, e ora
possuem no sei quantos milhes de dlares. O meu aougueiro  e no  porque
venda carne boa nem barata  nunca pde amuar quatro patacas no fundo da gaveta.
H pouco tempo disse consigo que o melhor era vender a carne ainda mais cara e
mais ruim, e com o lucro comprar um bilhete de Espanha. Em boa hora o fez; tirou
a sorte grande e vai fechar o aougue, ou d-lo. Eu, quando soube do caso, ouvi
cantar ao longe, com a mesma voz, qual ouvi h um quarto de sculo, este trecho
dos Bavards:

C'est l'Espagne qui nous
donne
Des bons vins, des belles
fleurs.

Vede l; outro eco da memria. Um
dia, daqui a um quarto de sculo, pode ser que algum aougueiro recorra ao mesmo
processo para enriquecer, como os de Cincinatti. Tanto melhor se o nmero de
Espanha for este mesmo 2537, porque eu referirei ambos os casos em uma s
crnica, salvo se estiver morto,  o que  possvel.

17 de setembro

No mesmo dia em que a imprensa
anunciou o bombardeamento, duas damas anunciaram coisa diversa. Uma senhora
sria precisa de um homem honesto que a proteja ocultamente; quem estiver nas
condies etc. Assim falou uma. Aqui est a linguagem da outra: Uma moa
distinta e bem educada precisa de um cavalheiro rico que a proteja ocultamente;
carta etc.

Assim, enquanto as foras pblicas
se dividiam, foras particulares cuidavam de unir-se a outras foras, e ainda
uma vez se dava esse contraste do caso particular com o social,  contraste
aparente, como todos os demais fenmenos deste mundo. No exemplo que ora cito, 
evidente que as duas obras se completam, desde que se procura corrigir a
mortalidade pela natalidade. Parece um ato de moas vadias, e  uma operao
econmica.

Vindo aos anncios, notai em ambos
eles o verbo e o advrbio: Que as proteja ocultamente. Proteger  sinnimo de
amar,  um eufemismo, diro as pessoas graves,  uma corruptela, replicaro as
pessoas leves. Eu digo que  uma revivescncia. O amor antigo era simples
proteo. Em vez da sociedade em comandita, a que a civilizao o trouxe, com
lucros iguais, era um ato de domnio do homem e de submisso da mulher. Vede os
costumes bblicos, as doutrinas muulmanas, as instituies romanas e gregas.
Tudo que  primitivo, traz esse caracterstico do amor. Agora, que a
revivescncia seja puramente verbal, como tantas outras coisas, que apenas valem
pelo nome,  o que no contesto. Mas  uma boa forma, delicada, modesta,
graciosa, e que no paga mais por linha de impresso.

Quanto ao advrbio,  o mais
ajustado e sugestivo possvel. Traz um indcio e uma promessa.  indcio do
recato e da situao da pessoa, cujas relaes sociais ou obrigaes domsticas
no permitem aceitar afoitamente um protetor oficial, confess-lo, public-lo,
imp-lo. Por outro lado,  uma porta aberta  imaginao. Porta travessa, se
querem; mas tudo so portas, uma vez que se abram e dem passagem  pessoa, 
seja para o quintal, seja para um corredor escuro. Vai-se s apalpadelas, mas os
ps e as mos tm olhos, os passos esto contados, um trecho de escada, uma
saleta, outra porta. Eis o que est no advrbio. Eis aqui agora o que no est.
No est o dio de famlia, nem o veneno de Romeu, nem a morte dele e de
Julieta, para acabar o quinto ato e a pea. H pea, mas no h quinto ato. No
 preciso disputar se canta o rouxinol ou a calhandra, se  meia-noite ou
madrugada; o protetor traz o relgio no bolso do colete. Quando muito, Julieta
argir o relgio de adiantado.

 No est adiantado; so cinco
horas e um quarto.

  impossvel.

 Acertei-o ainda hoje pelo
Castelo, ao meio-dia.

 Creio; mas pode no regular
bem.

 Regula perfeita mente. Patek
Philipe, uma das melhores fbricas do mundo.

 Cinco horas e um quarto! Como
passa o tempo!

 Agora amanhece tarde;  por isso
que est escuro. Adeus!

 Adeus! Olha a chave do trinco. 
Est aqui. Adeusinho!

 Adeusinho!

Isso, quando muito. Como vem, no
h sombra de perigo. H o mistrio bastante para dar a cor do po vedado, e por
na alma de um homem correto duas pginas de aventura. Perde a vaidade, mas nem
tudo  vaidade neste mundo, como quer o Eclesiastes.

Que a gente nem sempre se acomode
com o segredo, acredito. Tal ser possivelmente o caso da segunda anunciante. A
primeira no exige mais que amor e mistrio;  uma necessitada do corao, e da
vida; contenta-se com beijos, vestido e prato. No pede as estrelas do cu, nem
as grandes cdulas dos bancos; a casinha lhe basta, os ps podem lev-la  rua
do Ouvidor, uma vez que o protetor os calce, e no exigem botinas do
Queiroz.

A outra senhora quer mais. 
distinta, bem educada, pede proteo e segredo, mas o cavalheiro h de ser rico.
Este  o ponto grave. Certamente, no faltam homens ricos de dinheiro e de amor,
amigos do mistrio, vadios do corao, ou de tal atividade que o possam
distribuir s moas pobres. Suponho que aparece  anunciante um homem de boas
referencias.  aceito, sai de l tonto.

No se calcula at onde pode ir o
amor de um homem em tais condies. Pode ir muito alm da seda e do ouro; pode
chegar ao brilhante, ao carro,  parelha de cavalos, ao lacaio de libr, ao
camarote de assinatura,  aplice. A aplice guarda-se; mas o carro e os cavalos
fizeram-se para andar na rua. Os vestidos e os brilhantes saem a passeio. A
graa no fica em casa, nem a elegncia, nem a beleza; todos esses bens do cu e
da terra amam o ar livre: Quem  esta que sobe pelo deserto, como uma varinha
de fumo, composta de aromas de mirra e de incenso, e de toda a casta de
polvilhos odorferos? Assim falam da Sulamitas as sagradas letras. Em linguagem
menos airosa:

 Quem  esta pequena que ali vem,
rua abaixo?

 Onde?

 Quase a chegar 
Gazeta.

 Ah!

 No ? No a conheo; mas j vi
aquela cara no sei bem onde. A figura  esbelta; pisa que parece uma rainha. E
que luxo!

 Parou; est falando com o
desembargador Garcia.

 Quem ser?

 No sei, mas  de truz. Ora,
espera, ontem vi-a passar no Catete, de carro, um lindo coup, cavalos
negros, branquejando de espuma que fazia gosto. Toda a gente do bond
voltou a cabea para o lado.

 Libr escura?

 Cor de azeitona.

 Ento  a mesma que vi, h dias,
em Botafogo; agora me lembro, era esta mesma moa.

Ao lado dos interlocutores,
parado, est o homem das boas referncias, triste e aborrecido por no poder
arrancar da boca a rolha do mistrio, e bradar a todos os ventos: Sou eu! eu 
que sou o dono e o autor. Eu sou o cavalheiro rico; eu  que a protejo
ocultamente, que a visto, que a calo, que a adorno, que lhe pus carro e cavalo.
So cavalos russos. Eu, no outro, eu  que a amo e sou amado. Toda ela  minha;
aquele pisar  meu, aquela graa pertence-me, aquela beleza existia, mas fui eu
que lhe dei essa rica e linda moldura. Imprimam que sou eu. Adeus, muros, chaves
do trinco, passos surdos, vozes baixas, adeus! Adeus, relgios certos ou
incertos! Entre o sol pela casa dela, como pela minha alma; abram todas as
janelas do mundo. Sou eu! sou eu! sou eu!

24 de setembro

H uma cantiga andaluza, to
apropriada ao meu intento, que  por ela que comeo esta crnica:

Un remendero fue a
missa,
Y no sabia rezar,
Y andaba por los
altares:
Zapatos que
remendar?

Eu sou esse remendo da cantiga.
Ao p dos altares, pergunto por taces corrodos e solas rotas;  o meu
brevirio. Nem sou o nico remendo deste mundo. Dizem de Alexandre Magno, que
costumava dormir com a Ilada  cabeceira. Conquanto ele fosse amigo de ler
poetas e filsofos, creio que esta preferncia dada a Homero resultava da
opinio que tinha do poema, a saber, que era um manancial das artes blicas.
Assim, naquilo em que todos vo buscar modelos de poesia, ele, grande general,
buscava a arte de combater. Eu sou um Alexandre s avessas. Nas artes blicas
procuro a lio do estilo. Ides v-lo.

Neste momento, sete horas da
manh, ouo uns tiros ao longe. So fortes, mas no sei se to fortes como os de
ontem, sexta-feira,  tarde, quando toda a gente correu s praias e aos morros.
Nenhum deles, porm, vale o bombardeamento do princpio da semana, entre 2 horas
e duas e meia, e mais tarde entre quatro e cinco. Eu, nessa noite, acordei
assombrado. Sonhava, ah! se soubessem em que sonhava! Sonhava que dormia, e era
despertado por umas ccegas na testa. Abri os olhos, dei com um raio da lua, que
entrara pela janela aberta. E dizia-me o raio da lua: Monta em mim, nobre
mortal, anda fazer uma viagem pelo infinito acima. Perguntei-lhe se a viagem
era por tempo limitado ou eterna; respondeu-me que eterna. Eu gosto das coisas
eternas. Eia, belo raio da lua, holofote da natureza, eu vou contigo, deixa-me
s enfiar as calas. A toilette  na lua, replicou ele. Montei e
subimos.

No ponho aqui a impresso que me
fez o cu, e principalmente a terra,  medida que eu ia subindo. Guardo essa
parte para um livro sobre a teoria dos sonhos. Cheguei  beira do astro,
desmontei, e pus o p no cho. Segui por um caminho estreito, que ia ter a uma
vasta praa, onde um nmero infinito de criaturas humanas mudara as vestes
carnais por outras fludas. A operao foi rpida. Depois seguia-se a segunda
parte da toilette, a restituio das idias. Todas as pessoas que tinham vivido
de idias alheias entregava-as a um coletor, que as restitua logo aos donos, ou
ficava com elas para quando os donos houvessem de subir. Um compadre meu, que me
fez sempre pasmar pela variedade e profundeza das concepes, ficou sem migalha
delas; eu, para que ele no aparecesse absolutamente varrido, emprestei-lhe duas
idias chochas; que ele beijou e guardou, como fazem os pobres com os vintns de
esmolas. Despidos da humanidade, seguimos todos para a outra beira da lua, onde
uma infinidade de raios nos esperavam para levar-nos ao paraso celestial.
Quando eu ia montar no meu raio, ouvi na grande noite um grito enorme e
pavoroso; estremeci todo e achei-me na cama; logo depois outro grito, eram os
tiros do bombardeamento.

Sentei-me na cama, e fiquei como o
leitor h de ter ficado durante os primeiros segundos. Os tiros continuaram,
levantei-me e fui  janela. Qualquer pessoa acharia naquele rumor tremendo as
idias de combate que ele trazia em si; eu, em todo esse tumulto blico, achei
uma idia literria. Zapatos que remendar.

Realmente, dizia eu comigo, quem
uma vez tiver ouvido este rumor enorme, que abala tudo, dificilmente acabar de
crer que haja entrado em circulao o verbo explodir. Ponho de lado a
circunstncia de o achar detestvel; so antipatias, e antipatias no so
razes. Outrossim, no nego que ele venha do latim, ainda que por via de Frana;
nunca me ho de ver contestar genealogias ilustres. Fiquemos no fato material.
Quem no sente, ouvindo estes tiros medonhos, que estouram como diabo? Quem no
v que eles saem dos canhes com verbos enrgicos, e que  por isso que fazem
estremecer as casas?

Uma vez metido nessa ordem de
raciocnios, esqueci completamente as coisas e os efeitos dos tiros, para
ficar-me s com as sugestes lxicas. Eu escrevo,  no sei se lhes disse isto
alguma vez,  pela lngua do meu criado, imitando Molire com a cozinheira. Ora,
o Jos Rodrigues nunca absolutamente viu explodir uma bomba, uma granada, um
simples gro de milho posto ao fogo. Para ele tudo estala, rebenta, estoura. O
que ele faz,  graduar a aplicao dos verbos, de modo que jamais a pipoca
estoura. Quem lhe ensinou isto, no sei. Talvez o leite de sua me.

Quando dei por mim, tudo estava
silencioso. Foi o prprio silencio que me chamou  realidade. Eram duas horas e
meia passadas. Meti-me outra vez na cama, fechei os olhos, e,  caso
extraordinrio,  achei-me no mesmo sonho, exatamente no ponto em que o deixara.
Estava  beira da lua; cavalguei o meu raio, e, em menos tempo do que ponho aqui
esta vrgula, cheguei  porta do cu. Mas vede agora o reflexo da realidade na
cerebrao inconsciente. ramos milhares. S. Pedro,  porta do cu, acolhia as
almas com benevolncia. O cu  de todos, dizia ele; mas, para no haver
tumulto, entrem por classes. Quinze ou vinte vezes, tentei entrar, mas era
sempre detido por ele, com um santo gesto misericordioso. E acrescentava que
esperasse, que eu era dos pedantes. Afinal, chegou a minha vez.

Vexado da designao, entrei. Um
serafim veio ter comigo e deu-me um grosso livro fechado. Fui dar a um
vastssimo espao, onde S. Paulo dizia missa, no diante da imagem de Jesus, mas
do prprio Jesus ressuscitado. Milhes de milhes de criaturas estavam ali
ajoelhadas. Ajoelhei-me tambm, e, vendo que todos tinham os seus livros
abertos, abri o meu... Oh! que no sei de nojo como o conte! Era um dicionrio.
Era o brevirio dos pedantes. Corri as pginas todas  cata de uma reza, no
achei nada, um Padre Nosso que fosse, uma Ave Maria, nada; tudo palavras,
definies e exemplos. Zapatos que remendar.

A missa foi longa. Quando acabou,
fiquei ajoelhado, sem ousar erguer o corpo nem os olhos. Uma idia ruim
atravessou minha alma; preferi a terra com os seus pecados ao cu e suas
bem-aventuranas. Quando este desejo me corrompeu, ouvi um clamor enorme;
pareceu-me que eram as vozes de todos os eleitos que me repeliam dali, mas no
eram. Senti faltar-me o cho, achei-me solto no ar, para no rolar, cavalguei o
livro, e vim por ali abaixo, at cair na cama, com os olhos abertos e uma zoada
nos ouvidos. Recomeava o bombardeamento. Rebentavam, estouravam as primeiras
granadas.

1
de outubro

Leitor, o mundo est para ver
alguma coisa mais grave do que pensas. Tu crs que a vida  sempre isto, um dia
atrs do outro, as horas a um de fundo, as semanas compondo os meses, os meses
formando os anos, os anos marchando como batalhes de uma revista que nunca mais
acaba. Quando olhas para a vida, cuidas que  o mesmo livro que leram os outros
homens,  um livro delicioso ou nojoso, segundo for o teu temperamento, a tua
filosofia ou a tua idade. Enganas-te, amigo. Eu  que no quero fazer um sermo
sobre tal assunto; diria muita coisa longa e aborrecida, e  meu desejo ser, se
no interessante, suportvel.

Este , alis, o dever de todos
ns. Sejamos suportveis, cada um a seu modo, com perdigotos, com charadas,
puxando as mangas ao adversrio, dizendo ao ouvido, baixinho, todas as coisas
pblicas deste mundo  que choveu, que no choveu, que vai chover, que chove.
Este ltimo gnero  o do homem discreto. Antes mil indiscretos; antes uma boa
loja de barbeiro, uma boa farmcia, uma boa rua. Mas, enfim, cada um tem o seu
jeito peculiar. Pela minha parte, no farei o sermo. Esto brevis. Vamos
ao ponto do comeo.

J notaste que o inverno vai sendo
mais longo e mais intenso do que costuma. Os ltimos trs dias foram quentes, 
verdade; mas logo o primeiro deu sinal de chuva; no seguinte ventou e choveu;
agora venta e chove. Com mais dois ou trs dias, tornamos  temperatura de
inverno. Quem acorda cedo, quando a Aurora, como na antiguidade, abre as portas
do cu com os seus dedos cor de rosa, entender bem o que digo. Eu levanto-me
com ela, aspiro o ar da manh, e no me queixo; eu amo o frio. De todos os belos
versos de lvares de Azevedo, h um que nunca pude entender:

Sou filho do calor, odeio o
frio.

Eu adoro o frio: talvez por ser
filho dele; nasci no prprio dia em que o nosso inverno comea. Procura no
almanaque, leitor; marca bem a data, escreve-a no teu canhenho, e manda-me nesse
dia alguma lembrana. No quero prendas custosas, uma casa, cem aplices, um
cronmetro, nada disso. Um quadro de Rafael, basta; um mrmore grego, um bronze
romano, uma edio princeps, objetos em que o valor pecunirio, por maior
que seja, fica a perder de vista do valor artstico. Sei que tais objetos podem
no achar-se aqui,  mo; mas tens tempo de os mandar buscar  Europa. S na
hiptese de no os haver disponveis, aceito a casa ou as cem aplices. Quanto a
retrato a leo, no aceito seno com a condio de trazer moldura riqussima, a
fim de que se diga que o acessrio vale mais que o principal.

Voltemos ao comeo. Enquanto o
nosso frio tem sido mais prolongado e intenso, noto que os povos da Europa
sentem um calor demorado e fortssimo. Diz-se que os homens andam com o chapu
na mo, bufando, ingerindo gelados, dando ao diabo a estao. Apesar disso,
fizeram-se as eleies em Frana, operao formidvel por causa dos inmeros
comcios em que  preciso estar, falar ou ouvir. De Londres referiu-nos o cabo
telegrfico, esta semana, que se tinham realizado as corridas de Epsom. Pior que
Epsom, pior que as eleies francesas, devem ter sido as sesses parlamentares
de Inglaterra. O primeiro ministro deu-se ao trabalho de contar os discursos
proferidos na discusso do famoso projeto irlands, e somou 1.393 (mil trezentos
e noventa e trs), isto quando ele encetava justamente a ultima srie deles.
Verdade  que todos esses discursos gastaram apenas 210 horas (duzentas e dez),
nmero que, dividido pelos discursos, d a estes uma mdia muito pequena. No
posso explicar isto. Talvez os ingleses falem depressa; talvez seja uso tratar
somente do objeto em discusso,  verdadeira restrio  liberdade da tribuna.
Se um homem no pode, a propsito da Irlanda, falar da pesca e da demisso de um
carteiro, dem ao diabo o parlamento e o editor dos homens que falam. Ora, nunca
os editores dos homens que escrevem, cortam ou riscam o que estes pem nos seus
livros, tenha ou no cabida ou relao com o assunto, desde o micrbio at o
macrbio. Enfim, so costumes.

Comparando os dois fenmenos, l e
c, repito o que disse a princpio. Leitor, o mundo est para ver alguma coisa
mais grave do que pensas. Que tenhamos de patinar na neve, que cair na rua do
Ouvidor, e que os parisienses, os londrinos e outros cidados europeus hajam de
dormir em redes, na calada, ou com as portas abertas,  matria que deixo 
cincia. No me cabe saber de climatologia, nem de geologias; basta-me crer que
anda alguma coisa no ar.

Que coisa? No sei. Qualquer
coisa, um feto que est nas entranhas do futuro,  ou cinco fetos para imitar
uma senhora de Aracati, estao da estrada de ferro Leopoldina, que acaba de dar
 luz cinco criaturas. Todas gozam perfeita sade. Eis o que se chama vontade de
criar. Parecem uns retardatrios, munidos de bilhetes, que receiam perder o
espetculo, e entram aos magotes. No, amiguinhos, no  tarde; qualquer que
seja a hora, chegareis a tempo. O espetculo  semelhante ao panorama do Rio de
Janeiro, de Victor Meirelles; est sempre no mesmo pavilho. Assim pensam
espritos aborrecidos, desde a Judia at  Alemanha. Um padre do sculo...
Esqueceu-me o sculo; mas h muitos sculos. Esse padre dizia que o mundo, j
naquele tempo, ia envelhecendo. Vedes bem que errava; o padre  que envelhecia.
Como os seus cabelos brancos se refletissem nas folhas verdes da primavera,
imaginou que a primavera morrera e que as neves estavam caindo. Boca que perdeu
todos os dentes, pode descrer da rigidez do coco; mas o coco existe, e no 
preciso correr aos grupos de cinco para trinc-lo. Fique isto de conselho s
futuras crianas.

Mas como ligo eu esta idia da
constncia das coisas  da probabilidade de uma coisa nova? No peas lgica a
uma triste pena hebdomadria. A regra  deix-la ir, papel abaixo, pingando as
letras e as palavras, e, se for possvel, as idias. Estas acham-se muita vez
desconcertadas, entre outras que no conhecem, ou so suas inimigas. No ligo
nada, meu amigo. Quem puder que as ligue; eu escrevo, concluo e
despeo-me.

8
de outubro

Segunda-feira desta semana, o
livreiro Garnier saiu pela primeira vez de casa para ir a outra parte que no a
livraria. Revertere ad locum tuum  est escrito no alto da porta do
cemitrio de S. Joo Baptista. No,  murmurou ele talvez dentro do caixo
morturio, quando percebeu para onde o iam conduzindo,  no  este o meu lugar;
o meu lugar  na rua do Ouvidor 71, ao p de uma carteira de trabalho, ao fundo,
 esquerda;  ali que esto os meus livros, a minha correspondncia, as minhas
notas, toda a minha escriturao.

Durante meio sculo, Garnier no
fez outra coisa seno estar ali, naquele mesmo lugar, trabalhando. J enfermo
desde alguns anos, com a morte no peito, descia todos os dias de Santa Tereza
para a loja, de onde regressava antes de cair a noite. Uma tarde, ao encontr-lo
na rua, quando se recolhia, andando vagaroso, com os seus ps direitos, metido
em um sobretudo, perguntei-lhe porque no descansava algum tempo. Respondeu-me com outra
pergunta: Pourriez-vous rsister, si vous tiez forc de ne plus faire ce que
vous auriez fait pendant cinquante ans? Na vspera da morte, se estou bem
informado, achando-se de p, ainda planejou descer na manh seguinte, para dar
uma vista de olhos  livraria.

Essa livraria  uma das ltimas
casas da rua do Ouvidor; falo de uma rua anterior e acabada. No cito os nomes
das que se foram, porque no as conhecereis, vs que sois mais rapazes que eu, e
abristes os olhos em uma rua animada e populosa onde se vendem, ao par de belas
jias, excelentes queijos. Uma das ltimas figuras desaparecidas foi o Bernardo,
o perptuo Bernardo, cujo nome achei ligado aos charutos do duque de Caxias, que
tinha fama de os fumar nicos, ou quase nicos. H casas como a Laemmert e o
Jornal do Comrcio, que ficaram e prosperaram, embora os fundadores se
fossem; a maior parte, porm, desfizeram-se com os donos.

Garnier  das figuras derradeiras.
No aparecia muito; durante os 20 anos das nossas relaes, conheci-o sempre no
mesmo lugar, ao fundo da livraria, que a princpio era em outra casa, n 69,
abaixo da rua Nova. No pude conhec-lo na da Quitanda, onde se estabeleceu
primeiro. A carteira  que pode ser a mesma, como o banco alto onde ele
repousava, s vezes, de estar em p. A vivia sempre, pena na mo, diante de um
grande livro, notas soltas, cartas que assinava ou lia. Com o gesto obsequioso,
a fala lenta, os olhos mansos, atendia a toda gente. Gostava de conversar o seu
pouco. Neste caso, quando a pessoa amiga chegava, se no era dia de mala, ou se
o trabalho ia adiantado e no era urgente, tirava logo os culos, deixando ver
no centro do nariz uma depresso do longo uso deles. Depois vinham duas
cadeiras. Pouco sabia de poltica da terra, acompanhava a de Frana, mas s o
ouvi falar com interesse por ocasio da guerra de 1870. O francs sentiu-se
francs. No sei se tinha partido; presumo que haveria trazido da ptria, quando
aqui aportou, as simpatias da classe mdia para com a monarquia orleanista. No
gostava do imprio napolenico. Aceitou a repblica, e era grande admirador de
Gambetta.

Daquelas conversaes tranqilas,
algumas longas, esto mortos quase todos os interlocutores, Liais, Fernandes
Pinheiro, Macedo, Joaquim Norberto, Jos de Alencar, para s indicar estes. De
resto, a livraria era um ponto de conversao e de encontro. Pouco me dei com
Macedo, o mais popular dos nossos autores, pela Moreninha e pelo
Fantasma Branco, romance e comdia que fizeram as delcias de uma gerao
inteira. Com Jos de Alencar foi diferente; ali travamos as nossas relaes
literrias. Sentados os dois, em frente  rua, quantas vezes tratamos daqueles
negcios de arte e poesia, de estilo e imaginao, que valem todas as canseiras
deste mundo. Muitos outros iam ao mesmo ponto de palestra. No os cito, porque
teria de nomear um cemitrio, e os cemitrios so tristes, no em si mesmos, ao
contrrio. Quando outro dia fui a enterrar o nosso velho livreiro, vi entrar no
de S. Joo Batista, j acabada a cerimnia e o trabalho, um bando de crianas
que iam divertir-se. Iam alegres, como quem no pisa memorial nem saudades. As
figuras sepulcrais eram, para elas, lindas bonecas de pedra; todos esses
mrmores faziam um mundo nico, sem embargo das suas flores mofinas, ou por elas
mesmas, tal  a viso dos primeiros anos.

No citemos nomes.

Nem mortos, nem vivos. Vivos h-os
ainda, e dos bons, que alguma coisa se lembraro daquela casa e do homem que a
fez e perfez. Editar obras jurdicas ou escolares no  mui difcil; a
necessidade  grande, a procura certa. Garnier, que fez custosas edies dessas,
foi tambm editor de obras literrias, o primeiro e o maior de todos. Os seus
catlogos esto cheios dos nomes principais, entre os nossos homens de letras.
Macedo e Alencar, que eram os mais fecundos, sem igualdade de mrito, Bernardo
Guimares, que tambm produziu muito nos seus ltimos anos, figuram ao p de
outros, que entraram j consagrados, ou acharam naquela casa a porta da
publicidade e o caminho da reputao.

No  mister lembrar o que era
essa livraria to copiosa e to variada, em que havia tudo, desde a teologia at
 novela, o livro clssico, a composio recente, a cincia e a imaginao, a
moral e a tcnica. J a achei feita; mas vi-a crescer ainda mais, por longos
anos. Quem a v agora, fechadas as portas, trancados os mostradores,  espera da
justia, do inventrio e dos herdeiros, h de sentir que falta alguma coisa 
rua. Com efeito, falta uma grande parte dela, e bem pode ser que no volte, se a
casa no conservar a mesma tradio e o mesmo esprito.

Pessoalmente, que proveito deram a
esse homem as suas labutaes? O gosto do trabalho, um gosto que se transformou
em pena, porque no dia em que devera libertar-se dele, no pde mais; o
instrumento da riqueza era tambm o do castigo. Esta  uma das misericrdias da
Divina Natureza. No importa: laboremos. Valha sequer a memria, ainda que
perdida nas pginas dos dicionrios biogrficos. Perdure a notcia, ao menos, de
algum que neste pais novo ocupou a vida inteira em criar uma indstria liberal,
ganhar alguns milhares de contos de ris, para ir afinal dormir em sete palmos
de uma sepultura perptua. Perptua!

15 de outubro

Entrou a estao eleitoral. Comea
a florescncia das circulares polticas. H climas em que este gnero de planta
 mais decorativo que efetivo; as arengas a valem mais. Entre ns, sem deixar
de ser decorativa, a circular dispensa o discurso.

Realmente, ajuntarem-se trezentas,
seiscentas, mil, duas, trs, cinco mil pessoas para escutar durante duas horas o
que pensa o Sr. X. de algumas questes pblicas, no  negcio de fcil
desempenho. Creio que vai nisso mais costume ou afetao que necessidade
poltica. Vai tambm um tanto de astcia. Os candidatos percebem naturalmente
que homens juntos so mais aptos para aceitar uma banalidade do que
absolutamente separados. Mais aptos, note-se, no nego que, dentro do prprio
quarto, sem mulher, sem filhos, sem criados, sem retratos, sem sombra de gente,
um homem tenha a aptido precisa para aceitar uma idia sem valor. A aptido,
porm, cresce com o nmero e a comunho das pessoas.

A circular  outra coisa. A
primeira vantagem da circular  no ser longa. No pode ser longa;  cada vez
mais curta, algumas so curtssimas. A segunda vantagem  ir buscar o eleitor;
no  o eleitor que vai ouvi-la da boca do candidato. Vede bem a diferena. Em
vez de convidar-me a deixar a famlia, o sossego, o passeio, a palestra, a
circular deixa-me digerir em paz o jantar e dormir. Na manh seguinte, ao caf,
 que ela aparece, ou em forma de carta selada, ou simplesmente impressa nos
jornais, o que  mais expedito e mais para se ler.  preciso no conhecer a
natureza humana para no ver que h j em mim alguma simpatia para o homem que
assim me comunica as suas idias, no remanso do meu gabinete, pelo telefone de
Gutenberg.

Agora mesmo acabo de ler a
circular do Sr. Malvino Reis.  um documento interessante e prtico. Tenho
notado que o esprito acadmico, o scholar, inclina-se particularmente 
teoria, pronto em admitir uma idia apenas indicada no livro de propaganda. O
homem de outra origem e diversa profisso  essencialmente prtico; vai ao
necessrio e ao possvel. No se deixa levar pela beleza de uma doutrina, muita
vez inconsciente, muita vez oposta  realidade das coisas. Por exemplo, o Sr.
Malvino Reis no apresenta programa poltico, e d a razo desta lacuna: No
momento atual em que, infelizmente, nossa ptria se acha envolvida em uma
comoo interna, que todos lastimamos e que todo o corao brasileiro acha-se
enlutado, no  ocasio prpria para a apresentao de programas
polticos...

A tese  discutvel. Parece, ao
contrrio, que os programas polticos so sempre indispensveis, uma vez que 
por estes que o eleitor avalia a candidatura; mas  preciso ler para diante, a
fim de apanhar todo o pensamento: ... programas polticos, que geralmente so
alterados... Aqui est o esprito prtico. Explica-se a lacuna, porque os
programas costumam ser alterados; no alterados ao sabor do capricho ou do
interesse, mas segundo a hiptese formulada no final do perodo: ... alterados,
quando assim o exige o bem pblico. No  usual esta franqueza; por isso mesmo
 que esse documento poltico se destacar da grande maioria deles.

Outro ponto em que a circular
confirma o meu juzo  o post-scriptum. Diz-se a que o 2 distrito 
composto das freguesias de S. Jos, Sacramento, Santo Antnio, Sant'Ana.
Esprito-Santo e S. Cristvo. Aparentemente  ocioso. Indo ao mago, v-se a
necessidade, e descobre-se quanto o candidato conhece o eleitor. O eleitor , em
grande parte, distrado, indolente e um pouco ignorante. Pode saber a que
freguesia pertence, mas, em geral, no suspeita do seu distrito. Da o
memento final.  prtico. Outros cuidariam mais da linguagem; melhor 
curar do que interessa ao voto e seus efeitos.

No me acusem de parcialidade, nem
de estar a recomendar um nome. No conheo nomes, emprego-os porque  um modo de
distinguir os homens. Um ponto h em que a circular do Sr. Malvino Reis combina
com as do Sr. Ribeiro de Almeida e Dr. Alves da Silva, candidatos pelo 7
distrito de Minas:  a economia dos dinheiros pblicos. Nunca leio esta frase
que me no lembre de um ministrio de 186..., cujo programa, exposto pelo
respectivo chefe, consistia em duas coisas: a economia dos dinheiros pblicos e
a execuo das leis. Eis a um credo universal, um templo nico. Eu, se
estivesse ento na cmara, qualquer que fosse o meu programa poltico,
alterava-o com certeza. Assim o exigia o bem pblico.

No pus o ano exato do ministrio,
por me no lembrar dele, no por esconder a minha idade. Assim tambm,  entre
parntesis,  se na crnica passada disse conhecer o finado Garnier, h vinte
anos, a culpa no foi minha, nem da composio, nem da reviso, mas desta letra
do diabo. Trinta anos  que devia ter sado. Mas que querem? Tambm a letra
envelhece. A minha, quando moa, no era bonita, mas fazia-se entender melhor.
H dias dei com um antigo bilhete de Jos Telha. Que corte de letra, Deus dos
exrcitos! era um regimento de soldados, mais ou menos bem alinhados, marchando
com regularidade, a tempo. Hoje  uma turba de recrutas. Entretanto, Jos Telha
no  velho; mas, se h pessoas que precedem a letra, como o Sr. senador
Cristiano Otoni, cuja escrita de octogenrio tem a virilidade antiga, letras h
que precedem a pessoa;  o caso de Jos Telha. Em qual das classes estarei eu?
retournons  nos moutons.

Estes carneiros eram, se bem me
lembro, a execuo das leis e a economia dos dinheiros pblicos.

Seria injustia dizer que os dois
candidatos do 7 distrito de Minas limitam  economia o seu programa. H mais
que ela. Uma das circulares, posto tenha apenas dez linhas, encerra quatro
idias. No so novas, mas so idias. A outra  menos curta, mas pouco mais tem
do dobro. Entre os artigos do programa desta, figura a liberdade religiosa, que
no parece bastante ao candidato, uma vez que o casamento civil  obrigatrio;
quer torn-lo facultativo. A circular fala tambm da necessidade de medidas que
fixem o trabalhador nas fazendas. Pela minha parte, no vejo nada to eficaz
como o contrato da antiga cmara municipal com um empresrio da numerao de
casas, legalizado por uma postura. Muda-se o nmero de uma casa, pe-se-lhe
placa nova, e o morador recebe um aviso impresso desse benefcio, no qual se lhe
diz que v pagar o preo  rua (creio que Nova do Ouvidor) sob pena de
cadeia.

Quanto s outras partes do
programa da circular... Mas aonde vou eu neste andar administrativo e poltico?
Musa da crnica, musa vria e leve, sacode essas grossas botas eleitorais, cala
os sapatinhos de cetim, e dana, dana na pontinha dos ps, como as bailarinas
de teatro; gira, salta, deixa-te cair de alto, com todas as tuas escumilhas e
pernas postias. Antes postias que nenhumas.

29 de outubro

... Mas por que  que no adoece
outra vez? No domingo passado, esteve aqui um senhor alto, cheio, bem-nascido,
que me deu notcias suas, disse-me que havia adoecido,  adoecido ou
nadado?

 Adoecido; mas doenas, minha
senhora, no se compram na botica, posto se agravem nela, alguma vez. A minha
achou felizmente um boticrio consciencioso, que, depois de me haver dado um
vidro de remdio e o troco do dinheiro, disse-me com um gesto mais doutoral que
farmacutico: No desanime; a sua molstia tem um prazo certo; so trs
perodos. Quis pedir o dinheiro, restituir o vidro e esperar o fim do prazo
certo, mas o homem j ouvia outro fregus, igualmente enfermo dos olhos, e
naturalmente ia preparar-lhe o mesmo remdio, pelo mesmo preo, com o mesmo
prazo e igual animao.

 Ento, no foi nadando
que...

 No, bela criatura, eu no sei
nadar. Outrora, quando tomava banhos de mar... Sim, houve tempo em que penetrei
no seio de Anfitrite, com estes ps que a senhora est vendo, e com estes
braos; ficvamos peito a peito; eu chegava a meter a cabea na bela coma verde
da deusa, mas no saa da beira da praia. Se o seio lhe intumescia um pouco
mais, por efeito de algum suspiro, eu, cheio de respeito, desandava. Quando
Vnus a flagelava muito, eu no penetrava; deixava-me ficar do lado de
fora, olhando com vontade e com pena.

 ( parte) Singular
banhista!

 A senhora diz?

 Que tinha bem vontade de ver
outra vez o senhor que aqui esteve, domingo passado. Ele que faz?

 Minha senhora, ele presentemente
cessa de engordar. Anda lpido, come bem, dorme bem, escreve bem, nada bem.
Quer-me at parecer que o nadador de que lhe falou,  ele mesmo; disse aquilo
para desviar as atenes, mas no  outro.

 Ah! tambm penetra no seio de
Anfitrite?

 Penetra, e sempre com estes dois
versos de Cames, na boca:

Todas as deusas desprezei do
Cu,
S por amar das guas a
princesa.

 Gracioso!

 Gracioso, mas falso;  um modo
de cativar a deusa. A senhora sabe que no h coisa que mais enternea uma
deusa, que falar de sentimentos exclusivos. Ele  fino; no h de ir dizer a
Anfitrite que a todas as deusas prefere a majestosa Juno ou a guerreira Palas;
mas creia que  tambm guerreiro e majestoso. Naquele dia, enquanto bracejava
atravs da onda marinha, fazia de Mercrio, com a diferena que levava os
recados na barriga.

 Ento, deveras, foi
ele?

 Positivamente, no sei: mas vou
dizendo que foi, j por vingana, j porque no conheo nada mais recreativo que
espalhar um boato. O vcio  muita vez um boato falso, e h virtudes que nunca
foram outra coisa. Digo-lhe mais: este mundo em que a senhora supe viver, no
passa talvez de um simples boato. Os anjos, para matar o imortal tempo, fizeram
correr pelo infinito o boato da criao, e ns, que imaginamos existir, no
passamos das prprias palavras do boato, que rolam por todos os sculos dos
sculos.

 Palavras apenas?

 Palavras, frases. A senhora 
uma linda frase de artista. Tem nas formas um magnfico substantivo: os
adjetivos so da casa de Madame Guimares. A boca  um verbo. Et verbo caro
facta est.

 A vem o senhor com as suas
graas sem graa. No me h de fazer crer que a exploso da ilha Mocangu foi
uma vrgula...

 No foi outra coisa. O
bombardeio  uma reticncia, a molstia um solecismo, a morte um hiato, o
casamento um ditongo, as lutas parlamentares, eleitorais e outras uma
cacofonia.

 Ainda uma vez, por que no
adoeceu esta semana? Est soporfero. Quisera saber de uma poro de coisas, mas
no lhe pergunto nada. Adeus.

 No, no me mande embora,
deixe-me ficar ainda um instante.  to bom v-la, mir-la... E depois, advirto
que estou apenas na tira oitava, e tenho de dar, termo mdio, doze.

 Vamos; fale por
tiras.

 Tomara poder falar-lhe por
volumes, por bibliotecas. No esgotaria o assunto; tudo seria pouco para dizer
os seus feitios e o gosto que sinto em estar a seu lado. Compreendo Tartufo ao p de
Elmira: Je tte votre habit; l'toffe en est moelleuse... V; responda que a
senhora  fort chatouilleuse, para conservar a rima do texto, mas
emendemos Molire. Eu, para mim, tenho que Tartufo  um caluniado. A verdade 
que, sem acomodaes com o Cu, este mundo seria insuportvel. E o Cu  o mais
acomodatcio dos credores. Judas ainda pode ser perdoado. Pilatos tambm;
lembre-se que ele comeou por lavar as mos; lave a alma, e est a caminho.
Sendo assim, que mal h na bonomia que Tartufo atribui ao Cu? Oh! fazenda
macia que  a deste seu vestido! Que estremees so esses, meu
Deus?

 Ouo o bombardeio.

 No  bombardeio.  o meu
corao que bate. A artilharia do meu amor  extraordinria; no digo nica,
porque h a de Otelo. Pouco abaixo de Otelo, estamos Fedra e eu. J notou que
no me comparo nunca a gente mida?

 J; assim como tenho notado que
o senhor  muito derretido.

 Querida amiga, isso no depende
da cera, mas do fogo. Que h de fazer uma vela acesa, seno derreter-se?  a
nica razo de haver fbrica de velas; se elas durassem sempre, acabavam as
fbricas, os fabricantes, e conseqentemente as prprias velas. Creio que h
aqui alguma contradio; mas a contradio  deste mundo. Para longe os
raciocnios perfeitos e os homens imutveis! Cada erro de lgica pode ser um
tento que a imaginao ganhe, e a imaginao  o sal da vida. Quanto aos homens
imutveis, so de duas ordens,  os que se limitam a s-lo sem confess-lo,  e
os que o so, e o proclamam a todos os ventos. A perfeio  diz-lo sem o ser.
Um homem que passe por vrias opinies, e demonstre que s teve uma opinio na
vida, esse  a perfeio buscada e alcanada. A modo que a senhora est
bocejando? A culpa  sua, se me meto em assuntos ridos; podamos ter continuado
Tartufo.

 Quantas tiras?

 Comeo a dcima segunda. A
senhora faz-me lembrar uma borboleta que encontrei ontem na Rua da Assemblia. A
Rua da Assemblia no  passeio ordinrio de borboletas; no h ali flores nem
rvores. Esta de que lhe falo, agitava as asas de um lado para outro, abaixo e
acima, de porta em porta. Suspendendo as minhas reflexes aborrecidas, parei
alguns instantes para observar. Evidentemente, estava perdida; descera de algum
morro ou fugira de algum jardim, se os h por ali perto. De repente, sumiu-se;
eu meti a cabea no cho e segui com as minhas cogitaes ttricas. Mas a
borboleta apareceu de novo, para tomar a sumir-se e reaparecer, segundo eu
estacava o passo ou ia andando. Finalmente, encontrei um amigo que me convidou a
tornar uma xcara de caf e quatro boatos. A borboleta sumiu-se de todo.
Conclua.

 As asas eram azuis?

 Azuis.

 Rajadas de ouro?

 De ouro.

 No era eu; era um fiozinho de
poeira, que forcejava por arranc-lo aos pensamentos lgubres. H desses
fenmenos. Agora mesmo, parece-me ver, ao longe, um pontozinho
luminoso.

 No, senhora; est perto, e 
escuro;  o ponto final.

 Que no seja boato, como
tantos!

5
de novembro

H na comdia Verso e Reverso,
de Jos de Alencar, um personagem que no v ningum entrar em cena, que no
lhe pergunte:  Que h de novo? Esse personagem cresceu com os
trinta e tantos anos que l vo, engrossou, bracejou por todos os cantos da
cidade, onde ora ressoa a cada instante:  Que h de novo? Ningum sai de
casa que no oua a infalvel pergunta, primeiro ao vizinho, depois aos
companheiros de bond. Se ainda no a ouvimos ao prprio condutor do
bond, no  por falta de familiaridade, mas porque os cuidados
polticos ainda o no distraram da cobrana de passagens e da troca de idias
com o cocheiro. Tudo, porm, chega a seu tempo e compensa o perdido.

Confesso que esta semana entrei a
aborrecer semelhante interrogao. No digo o nmero de vezes que a ouvi, na
segunda-feira, para no parecer inverossmil. Na tera-feira, cuidei l-la
impressa nas paredes, nas caras, no cho, no cu e no mar. Todos a repetiam em
torno de mim. Em casa,  tarde, foi a primeira coisa que me perguntaram. Jantei
mal; tive um pesadelo; trezentas mil vozes bradaram do seio do infinito: 
Que h de novo? Os ventos, as mars, a burra de Balao, as locomotivas,
as bocas de fogo, os profetas, todas as vozes celestes e terrestres formavam
este grito unssono:  Que h de novo?

Quis vingar-me; mas onde h tal
ao que nos vingue de uma cidade inteira? No podendo queim-la, adotei um
processo delicado e amigo. Na quarta-feira, mal sa  rua, dei com um conhecido
que me disse, depois dos bons dias costumados:

 Que h de novo?

 O terremoto.

 Que terremoto? Verdade  que
esta noite ouvi grandes estrondos, tanto que supus serem as fortalezas todas
juntas. Mas h de ser isso, um terremoto; as paredes da minha casa estremeceram;
eu saltei da cama; estou ainda surdo... Houve algum desastre?

 Runas, senhor, e grandes
runas.

 No me diga isso! A Rua do
Ouvidor, ao menos...

 A Rua do Ouvidor est intacta, e
com ela a Gazeta de Notcias.

 Mas onde foi?

 Foi em Lisboa.

 Em Lisboa?

 No dia de hoje, 1 de novembro,
h sculo e meio. Uma calamidade, senhor! A cidade inteira em runas. Imagine
por um instante, que no havia o Marqus de Pombal,  ainda o no era, Sebastio
Jos de Carvalho, um grande homem, que ps ordem a tudo, enterrando os mortos,
salvando os vivos, enforcando os ladres, e restaurando a cidade. Fala-se da
reconstruo de Chicago; eu creio que no lhe fica abaixo o caso de Lisboa,
visto a diferena dos tempos, e a distncia que vai de um povo a um homem.
Grande homem, senhor! Uma calamidade! uma terrvel calamidade!

Meio embaado, o meu interlocutor
seguiu caminho, a buscar notcias mais frescas. Peguei em mim e fui por a fora
distribuindo o terremoto a todas as curiosidades insaciveis. Tornei satisfeito
a casa; tinha o dia ganho.

Na quinta-feira, dois de novembro,
era minha inteno ir to-somente ao cemitrio; mas no h cemitrio que valha
contra o personagem do Verso e Reverso. Pouco depois de transpor o porto
da lgubre morada, veio a mim um amigo vestido de preto, que me apertou a mo.
Tinha ido visitar os restos da esposa (uma santa!), suspirou e
concluiu:

 Que h de novo?

 Foram executados.

 Quem?

 A coragem, porm, com que
morreram, compensou os desvarios da ao, se ela os teve; mas eu creio que no.
Realmente, era um escndalo. Depois, a traio do pupilo e afilhado foi
indigna; pagou-se-lhe o prmio, mas a indignao pblica vingou a morte do
trado.

 De acordo: um pupilo... Mas quem
 o pupilo?

 Um miservel, Lzaro de
Melo.

 No conheo. Ento, foram
executados todos?

 Todos; isto , dois. Um dos
cabeas foi degredado por dez anos.

 Quais foram os
executados?

 Sampaio...

 No conheo.

 Nem eu; mas tanto ele, como o
Manuel Beckman, executados neste triste dia de mortos... L vo dois sculos! Em
verdade, passaram mais de duzentos anos, e a memria deles ainda vive. Nobre
Maranho!

O vivo mordeu os beios; depois,
com um toque de ironia triste, murmurou:

 Quando lhe perguntei o que havia
de novo, esperava alguma coisa mais recente.

 Mais recente s a morte de Rocha
Pita, neste mesmo dia, em 1738. Note como a histria se entrelaa com os
historiadores; morreram no mesmo dia, talvez  mesma hora, os que a fazem e os
que a escrevem.

O vivo sumiu-se; eu deixei-me ir
costeando aquelas casas derradeiras, cujos moradores no perguntaram nada,
naturalmente porque j tiveram resposta a tudo. Necrpole da minha alma, a 
que eu quisera residir e no nesta cidade inquieta e curiosa, que no se farta
de perscrutar, nem de saber. Se a estivesse de uma vez, no ouviria como no dia
seguinte, sexta-feira, a mesma eterna pergunta. Era j cerca de 11 horas quando
sa de casa, armado de um naufrgio, um terrvel naufrgio, meu
amigo.

 Onde? Que naufrgio?

 O cadver da principal vtima
no se achou; o mar serviu-lhe de sepultura. Natural sepultura; ele cantou o
mar, o mar pagou-lhe o canto arrebatando-o  terra e guardando-o para si. Mas v
que se perdesse o homem; o poema, porm, esse poema, cujos quatro primeiros
cantos a ficaram para mostrar o que valiam os outros... Pobre Brasil! pobre
Gonalves Dias! Trs de novembro, dia terrvel; 1864, ano detestvel! Lembro-me
como se fosse hoje. A notcia chegou muitos dias depois do desastre. O poeta
voltava ao Maranho...

Raros ouviam o resto. Os que
ouviam, mandavam-me interiormente a todos os diabos. Eu, sereno, ia contando,
contando, e recitava versos, e dizia a impresso que tive a primeira vez que vi
o poeta. Estava na sala de redao do Dirio do Rio, quando ali entrou um
homem pequenino, magro, ligeiro. No foi preciso que me dissessem o nome;
adivinhei quem era. Gonalves Dias! Fiquei a olhar, pasmado, com todas as minhas
sensaes e entusiasmos da adolescncia. Ouvia cantar em mim a famosa Cano
do Exlio. E toca a repetir a cano, e a recitar versos sobre versos. Os
intrpidos, se me agentavam at o fim, marcavam-me; eu s os deixava
moribundos.

No sbado, notei que os
perguntadores fugiam de mim, com receio, talvez, de ouvir a queda do imprio
romano ou a conquista do Peru. Eu, por no fiar dos tempos, sa com a morte de
Torres Homem no bolso; era recentssima, podia enganar o estmago. Creio, porm,
que a exploso da vspera bastou s curiosidades vadias. No me argam de
impiedade. Se  certo, como j se disse, que os mortos governam os vivos, no 
muito que os vivos se defendam com os mortos. D-se assim uma confederao
tcita para a boa marcha das coisas humanas.

Hoje no saio de casa; ningum me
perguntar nada. No me perguntes tu tambm, leitor indiscreto, para que eu te
no responda como na comdia, aps o desenlace:  Que h de novo? inquire
o curioso, entrando. E um dos rapazes:  Que vamos almoar.

12 de novembro

Durante a semana houve
algumas pausas, mais ou menos raras, mais ou menos prolongadas; mas os tiros
comeram a maior parte do tempo. Basta dizer que foram mais numerosos que os
boatos. Aquela quadra pr-histrica, em que um tiro de pea, ouvido  noite, era
o sinal para consultar e acertar os relgios, no se pode j comparar a estes
dias terrveis, em que os tiros parecem pancadas de um relgio enorme, de um
relgio que pra s vezes, mas a que se d corda com pouco:

Never 
forever,
Forever 
 never,

tal qual na balada de Longfellow.
A poesia, meus amigos, est e tudo, na guerra como no amor.

Relevem-me aqui uma ilustre
banalidade. Que  o amor mais que uma guerra, em que se vai por escaramuas e
batalhas, em que h mortos e feridos, heris e multides ignoradas? Como os
outros bombardeios, o amor atrai curiosos. A vida, neste particular,  uma
interminvel Praia da Glria ou do Flamengo. Quando Dafne e Clo travam as suas
lutas, so poucos os culos e binculos da gente vadia para contar as balas, ou
que se perdem, ou que se aproveitam, no falando dos naturais holofotes que
todos trazemos na cara.

De mim digo, porm, que aborreo a
galeria. Uma vez desci do bond, na Praia da Glria, para ceder ao convite
de um amigo que queria ver o bombardeio. Desci ainda outra vez para escapar a um
sujeito que me contava a Guerra da Crimia, onde no esteve, no havendo nunca
sado daqui, mas que se ligava  sua adolescncia, por serem contemporneos.
Ningum ignora que os sucessos deste mundo, domsticos ou estranhos, uma vez que
se liguem de algum modo aos nossos primeiros anos, ficam-nos perpetuados na
memria. Por que  que, entre tantas coisas infantis e locais, nunca me esqueceu
a notcia do golpe de Estado de Lus Napoleo? Pelo espanto com que a ouvi ler.
As famosas palavras: Sa da legalidade para entrar no direito
ficaram-me na lembrana, posto no soubesse o que era direito nem
legalidade. Mais tarde, tendo reconhecido que este mundo era uma infncia
perptua, conclu que a proclamao de Napoleo III acabava como as histrias de
minha meninice: Entrou por uma porta, saiu por outra, manda el-rei nosso senhor
que nos conte outra. Por exemplo, o dia de hoje, 12 de novembro,  o
aniversrio do golpe de Estado de Pedro I, que tambm saiu da legalidade para
entrar no direito.

Mas no quero ir adiante sem lhes
dizer o que me sucedeu, quando pela segunda vez desci na Praia da Glria, a
pretexto de ver o bombardeio. Estive ali uns dez minutos, os precisos para ouvir
a um homem, e depois a outro homem, coisas que achei dignas do prelo. O primeiro
defendia a tese de que os tiros eram necessrios, mormente os de
canho-revlver, e tambm as exploses de paiis de plvora. Dizia isto com tal
placidez, que cuidei ouvir um simples amador; mas o segundo homem retificou esta
minha impresso, dizendo-me, logo que o outro se retirou:   um vidraceiro;
no quer a morte de ningum, quer os vidros quebrados. E o segundo homem, ar
grave, declarou que abominava as lutas civis, concluindo que ningum tinha a
vida segura nesta troca de bombardas; ele, pela sua parte, j fizera testamento,
no sabendo se voltaria para casa, visto que a existncia dependia agora de uma
bala fortuita. Gostei de ouvi-lo. Era o contraste judicioso e melanclico do
primeiro. Quando ele se despediu, perguntei a um terceiro: Quem  este senhor?
  um tabelio, respondeu-me.

Assim vai o mundo. Nem sempre o
cidado mata o homem. E Bruto, o cidado, tambm  homem, diz um
verso de Garret. Deixem-me acrescentar, em prosa, que o homem  muitas vezes
mulher, por esse vcio de curiosidade que herdou da nossa me Eva,  outra
ilustre banalidade.  a segunda que digo hoje. Rigorosamente, devia parar aqui;
mas ento no falaria das emisses particulares que esto aparecendo em
Joinville, Cataguases e Campos. A Gazeta, anteontem, transcreveu trs
notas campistas, e indignou-se. Prova que  mais moa que eu. H muitos anos,
1868 ou 1869, lembro-me bem ter visto em Petrpolis bilhetes de emisses
particulares, no impressos, mas ingenuamente manuscritos. No traziam filetes
nem emblemas; no se davam ao escrpulo dos nmeros de srie. Vale
tanto, ou vale isto, mais nada. No posso afirmar com segurana se
ainda se conhecia a origem de alguns; mas creio que sim.

Esta questo prende com uma
teoria, que reputo verdadeira, a saber, que o direito de emitir  individual.
Cada homem pode pr em circulao o nmero de bilhetes que lhe parecer. Sero
aceitos at onde for a confiana. O crdito responder pelo valor. Nesta
hiptese, melhor  o manuscrito que o impresso; porque o impresso  de todos, e
o manuscrito  meu. Entendam-me bem. No admiro a clusula forada da troca do
bilhete por outro, prata ou papel do Estado; seria rebaixar a uma permuta de
coisas tangveis uma operao que deve repousar pura e simplesmente no crdito,
essa alavanca do progresso e da civilizao, para falar como o meu criado.
Isto posto, a sociedade ter achado o eixo que perdeu desde a morte do
feudalismo. A fome morrer de fome. Ningum pedir, todos daro.

No me acordeis, se  sonho. Mas
no  sonho. Vejo mais que todos vs que vos supondes acordados. Se descreis
disto, chegareis a descrer do espiritismo, perdereis a prpria razo. Que
radioso paraso! Nesse dia, o tempo ser aquele mesmo relgio que o poeta
americano ps na escada dos seus versos; mas a pndula no bater mais que amor,
paz e abundncia, com esta pequena alterao do estribilho:

Ever  forever!
Forever  ever!

19 de
novembro

Um dia destes, lendo
nos dirios alguns atestados sobre as excelncias do xarope Cambar, fiz lima
observao to justa que no quero furt-la aos contemporneos, e porventura aos
psteros. Verdadeiramente, a minha observao  um problema, e, como o de
Hamlet, trata da vida e da morte. Quando a gente no pode imitar os grandes
homens, imite ao menos as grandes fices.

E por que no hei de eu imitar os
grandes homens? Conta-se que Xerxes, contemplando um dia o seu imenso exrcito,
chorou com a idia de que, ao cabo de um sculo, toda aquela gente estaria
morta. Tambm eu contemplo, e choro, por efeito de igual idia; o exrcito  que
 outro. No so os homens que me levam  melancolia persa, mas os remdios que
os curam. Mirando os remdios vivos e eficazes, fao esta pergunta a mim mesmo:
Por que  que os remdios morrem?

Com efeito, eu assisti ao
nascimento do xarope... Perdo; vamos atrs. Eu ainda mamava, quando apareceu um
mdico que restitua a vista a quem a houvesse perdido. Chamava-se o autor
Antnio Gomes, que o vendia em sua prpria casa, Rua dos Barbonos n 26. A Rua
dos Barbonos era a que hoje se chama do Evaristo da Veiga. Muitas pessoas
colheram o benefcio inestimvel que o remdio prometia. Saram da noite para a
luz, para os espetculos da natureza, dispensaram a muleta de terceiro, puderam
ler, escrever, contar. Um dia, Antnio Gomes morreu. Era natural; morreu como os
soldados de Xerxes. O inventor da plvora, quem quer que ele fosse, tambm
morreu. Mas por que no sobreviveu o colrio de Antnio Gomes, como a plvora?
Que razo houve para acabar com o autor uma inveno to til 
humanidade?

No se diga que o colrio foi
vencido pelo rap Grimstone, vulgarmente denominado de alfazema, seu
contemporneo. Esse, conquanto fosse um bom especfico para molstias de olhos,
no restitua a vista a quem a houvesse perdido; ao menos, no o fazia contar.
Quando, porm, tivesse esse mesmo efeito, tambm ele morreu, e morreu duas
vezes, como remdio e como rap.

As inflamaes de olhos tinham,
alis, outro inimigo terrvel nas plulas universais americanas; mas, como
estas eram universais, no se limitavam aos olhos, curavam tambm sarnas,
lceras antigas, erupes cutneas, erisipela e a prpria hidropisia. Vendiam-se
na farmcia de Loureno Pinto Moreira; mas o nico depsito era na Rua do
Hospcio n 40. Eram plulas provadas; no curavam a todos, visto que h
diferena nos humores e outras partes; mas curavam muita vez e aliviavam,
sempre. Onde esto elas? Sabemos nmero da casa em que moravam; no conhecemos o
da cova e que repousam. No se sabe sequer de que morreram; talvez um duelo com
as plulas catrticas do farmacutico Carvalho Jnior, que tambm curavam as
inflamaes de olhos e molstias da pele com esta particularidade que dissipavam
a melancolia. Eram teis no reumatismo, eficazes nos males de estmago, e faziam
vigorar cor do rosto. Mas tambm estas descansam no Senhor, como os velhos
hebreus.

Para que falar do elixir
antiflegmtico, do blsamo homogneo e tantos outros preparados
contemporneos da Maioridade? O xarope a cujo nascimento assisti, foi o Xarope
do Bosque, um remdio composto de vegetais, como se v do nome, e deveras
miraculoso. Era bem pequeno, quando este preparado entrou no mercado; chego 
maturidade, j no o vejo entre os vivos.  certo que a vida no  a mesma em
todos; uns a tiveram mais longa, outros mais breve. H casos particulares, como
o das sanguessugas; essas acabaram por causa do gasto infinito. Imagine-se que
h meio sculo vendiam-se aos milheiros na Rua da Alfndega n 15. No h
produo que resista a tamanha procura. Depois, o barbeiro sangrador  ofcio
extinto.

Por que  que morreram tantos
remdios? Por que  que os remdios morrem? Tal  o problema. No basta exp-lo;
fora  achar-lhe soluo. H de haver uma razo que explique tamanha runa. No
se pode compreender que drogas eficazes no princpio de um sculo, sejam inteis
ou insuficientes no fim dele. Tendo meditado sobre este ponto algumas horas
longas, creio haver achado a soluo necessria.

Esta soluo  de ordem
metafsica. A natureza, interessada na conservao da espcie humana, inspira a
composio dos remdios, conforme a graduao patolgica dos tempos. J algum
disse, com grande sagacidade, que no h doenas, mas doentes. Isto que se diz
dos indivduos, cabe igualmente aos tempos, e a molstia de um no  exatamente
a de outro. H modificaes lentas, sucessivas, por modo que, ao cabo de um
sculo, j a droga que a curou no cura;  preciso outra. No me digam que, se
isto  assim, a observao basta para dar a sucesso dos remdios. Em primeiro
lugar, no  a observao que produz todas as modificaes teraputicas; muitas
destas so de pura sugesto. Em segundo lugar, a observao, em substncia, no
 mais que uma sugesto refletida da natureza.

Prova desta soluo  o fato
curiosssimo de que grande parte dos remdios citados e no citados, existentes
h quarenta e cinqenta anos, curavam particularmente a erisipela. Variavam as
outras molstias, mas a erisipela estava inclusa na lista de cada um deles.
Naturalmente, era molstia vulgar; da a florescncia dos medicamentos
apropriados  cura. O povo, graas  iluso da Providncia, costuma dizer que
Deus d o frio conforme a roupa; o caso da erisipela mostra que a roupa vem
conforme o frio.

No importa que daqui a algumas
dezenas de anos, um sculo ou ainda mais, certos medicamentos de hoje estejam
mortos. Verificar-se- que a modificao do mal trouxe a modificao da cura.
Tanto melhor para os homens. O mal ir recuando. Essa marcha gradativa ter um
termo, remotssimo,  verdade, mas certo. Assim, chegar o dia em que, por falta
de doenas, acabaro os remdios, e o homem, com a sade moral, ter alcanado a
sade fsica, perene e indestrutvel, como aquela.

Indestrutvel? Tudo se pode
esperar da indstria humana, a braos com o eterno aborrecimento. A monotonia da
sade pode inspirar a busca de uma ou outra macacoa leve. O homem receitar
tonturas ao homem. Haver fbricas de resfriados. Vender-se-o calos
artificiais, quase to dolorosos como os verdadeiros. Alguns diro que
mais.

1894

1
de janeiro

Sombre
quatre-vingt-treize!  o caso de dizer, com o
poeta, agora que ele se despede de ns, este ano em que perfaz um sculo o ano
terrvel da Revoluo. Mas a crnica no gosta de lembranas tristes por mais
hericas que tambm sejam; no vai para epopias, nem tragdias. Coisas doces,
leves, sem sangue nem lgrimas.

No banquete da vida, para falar
como outro poeta... J agora falo por poetas; est provado que, apesar de
fantsticos e sonhador so ainda os mais hbeis contadores de histria e
inventores de imagens. A vida, por exemplo, comparada a um banquete  idia
felicssima. Cada um de ns tem ali o seu lugar; uns retiram-se logo depois da
sopa, outros do coup du milieu, no raros vo at  sobremesa. Tem havido
casos em que o conviva se deixa estar comido, bebido, e sentado.  o que os
noticirios chamam macrbio,  e, quando a pessoa  mulher, por
uma dessas liberdades que toda gente usa com a lngua,
macrbia.

Felizes esses! No que o banquete
seja sempre uma delcia. H sopas execrveis, peixes podres e no poucas vezes
esturro. Mas, uma vez que a gente se deixou vir para a mesa, melhor  ir farto
dela para no levar saudades. No se sente a marcha; vai-se pelos ps dos
outros. Houve desses retardatrios, Moltke esteve prestes a s-lo, Gladstone
creio que acaba por a, como os nossos Saldanha Marinho e Tamandar. Deus os
fade a todos!

Imaginemos um homem que haja
nascido com o sculo e morra com ele. Victor Hugo j o achou com dois anos
(ce sicle avait deux ans), e pode ser que contasse viver at o
fim; no passou da casa dos oitenta. Mas Heine, que veio ao mundo no prprio dia
1 de janeiro de 1800, bem podia ter vivido at 1899, e contar tudo o que passou
no sculo, com a sua pena mestra de humour... Oh! pgina imortal!
Assistir  Santa Aliana e  dinamite! Vir do legitimismo ao anarquismo, parando
aqui e ali na liberdade, eis a uma viagem interessante de dizer e de ouvir.
Revolues, guerras, conquistas, uma infinidade de constituies, grande
variedade de calas, casacas chapus, escolas novas, novas descobertas, idias,
palavras, dana, livros, armas, carruagens, e at lnguas... Viver tudo isso, e
referi-lo ao sculo XX, grande obra, em verdade. Deus ou a paralisia no o quis.
Heine notaria, melhor que ningum o advento do anarquismo, se  certo que este
governo indito tem de sair  luz com o fim do sculo. Ningum melhor que ele
faria o paralelo do legitimismo do princpio com o anarquismo do fim, Carlos X e
Nada. Que excelentes concluses! Nem todas seriam cabais, mas seriam todas
belas. Aos homens da cincia ficam razes slidas com que afirmam a marcha
ascendente para a perfeio. Os poetas variam; ora crem no paraso, ora no
inferno, com esta particularidade que adotam o pior para exp-lo em versos
bonitos. Heine tinha a vantagem de o saber expor em bonita prosa.

Mas, como ia dizendo, no banquete
da vida... Leve-me o diabo se sei a que  que vinha este banquete. Talvez para
notar que a distribuio dos lugares pe a gente, s vezes, ao p de maus
vizinhos, em cujo caso no h mais poderoso remdio que descansar do paradoxo da
esquerda na banalidade da direita, e vice-versa. Se a idia no foi essa, ento
foi dizer que a crnica  prato de pouca ou nenhuma resistncia, simples molho
branco. Idia velha, mas antes velha que nada. Uns fazem a histria pela ao
pessoal e coletiva, outros a contam ou cantam pela tuba canora e belicosa...
Tuba canora e belicosa  expresso de poeta  de Cames, creio. A crnica 
frauta rude ou agreste avena do mesmo poeta. Vivam os poetas! No me acode outra
gente para coroar este ano que nasce.

Quanto ao que morre, 1893, no vai
sem pragas nem saudades, como os demais anos seus irmos, desde que h
astronomia e almanaques. Tal  a condio dos tempos, que so todos duros e
amenos, segundo a condio e o lugar. Se esta banalidade da direita lhe parece
cansativa, volte-se o leitor para a esquerda, e ouvir algum paradoxo que o
descanse dela  este, por exemplo, que o melhor dos anos  o pior de todos. Toda
a questo (lhe dir a esquerda) est em definir o que seja bom ou
mau.

Por exemplo, a guerra  m, em si
mesma; mas a guerra pode ser boa, comparada com o anarquismo. Se este vier,
1893, tu havers sido uma das suas datas histricas, pelos golpes que deste,
pelo princpio de sistematizao do mal. Que ser o mundo contigo? No
consultemos Xenofonte, que, ao ver as trocas de governo nas repblicas,
monarquias e oligarquias, conclua que o homem era o animal mais difcil de
reger, mas, ao mesmo tempo, mirando o seu heri e a numerosa gente que lhe
obedecia, conclua que o animal de mais fcil governo era o homem. Se j por
essa noite dos tempos fosse conhecido o anarquismo,  provvel que a opinio do
historiador fosse esta: que, embora pssimo, era um governo timo. A variedade
dos pareceres, a sua prpria contradio, tem a vantagem de chamar leitores,
visto que a maior parte deles s l os livros da sua opinio.  assim que eu
explico a universalidade de Xenofonte.

No me atribuam desrespeito ao
escritor; isto  rir, para no fazer outra coisa que deixe de aliviar o bao. Em
todo caso, antes gracejar de um homem finado h tantos sculos, que estrear j o
carnaval com este imenso calor, como fez ontem lima associao. Agora tu,
Terpscore, me ensina...

7
de janeiro

Quem ser esta cigarra que
me acorda todos os dias neste vero do diabo,  quero dizer, de todos os diabos,
que eu nunca vi outro que me matasse tanto. Um amigo meu conta-me coisas
terrveis do vero de Cuiab, onde, a certa hora do dia, chega a parar a
administrao pblica. Tudo vai para as redes. Aqui no h rede, no h
descanso, no h nada. Este tempo serve, quando muito, para reanimar
conversaes moribundas, ou para dar que dizer a pessoas que conhecem pouco e
so obrigadas a vinte ou trinta minutos de bond. Comea-se por uma
exclamao e um gesto, depois uma ou duas anedotas, quatro reminiscncias, e a
declarao inevitvel de que pessoa passa bem de sade, a despeito da
temperatura.

 Custa-me a suportar o calor, mas
de sade passo maravilhosamente bem.

No sei se  isso que me diz todas
as manhs a tal cigarra. Seja que for,  sempre a mesma coisa, e  notcia
d'alma, porque  dita com um grau de sonoridade e tenacidade que excede os
maiores exemplos de gargantas musicais, serviais e rijas. A minha memria que
nunca perde essas ocasies, recita logo a fbula de Lafontaine e reproduz a
famosa gravura de Gustavo Dor, a bela moa da rabeca, que o inverno veio achar
com a rabeca na mo, repelida p uma mulher trabalhadeira, como faz a formiga 
outra. E o quadro e os versos misturam-se, prendem-se de tal maneira, que acabo
recitando as figuras e contemplando os versos.

Nisto entra um galo. O galo  um
maometano vadio, relgio certo, cantor medocre, ruim vianda. Entra o galo e faz
com a cigarra um concerto de vozes, que me acorda inteiramente. Sacudo a
preguia, colijo os trechos de sonho que me ficaram, se algum tive, e fito
dossel da cama ou as tbuas do teto. s vezes fito um quintal de Roma, de onde
algum velho galo acorda o ilustre Virglio, e pergunto se no ser o mesmo galo
que me acorda, e se eu no serei o mesmssimo Virglio.  o perodo de loucura
mansa, que em mim sucede ao sono. Subo ento pela Via pia, dobro a Rua do
Ouvidor, e barro com Mecenas, que me convida a cear com Augusto e um
remanescente da Companhia Geral. Segue-se a vez de um passarinho que me canta no
jardim, depois outro, mais outro. Pssaros, galo, cigarra, entoam a sinfonia
matutina, at que salto da cama e abro a janela.

Bom dia, belo sol. J vejo as
guias torcidas dos teus magnficos bigodes de ouro. Morro verde e crestado,
palmeiras que recortais o cu azul, e tu, locomotiva do Corcovado, que trazes o
sibilo da indstria humana ao concerto da natureza, bom dia! Prego da
indstria, tu, duzentos contos, Paran, ltimo de resto!, recebe tambm a
minha saudao. Que s tu, seno a locomotiva da Fortuna? Tempo houve em que a
gente ia dos arrabaldes  casa do Joo Pedro da Veiga, Rua da Quitanda, comprar
o nmero da esperana. Agora s tu mesmo, nmero solcito, que vens c ter aos
arrabaldes como os simples mascates de fazendas e os compradores de garrafas
vazias. Progresso quer dizer concorrncia e comodidade. Melhor que eu compre a
riqueza a duas pessoas,  porta de minha casa, do que v comprar  casa de uma
s, a dois tostes de distncia.

Eis a comeam a deitar fumo as
chamins vizinhas; tratam do caf ou do almoo. Na rua passa assobiando um
moleque, que faz lembrar aquele chefe do ministrio austraco, a que se referiu
quinta feira, na Gazeta de Notcias, Max Nordau. Ouo tambm uma cantiga,
um choro de criana, um bond, os preldios de alguma coisa ao piano, e
outra vez e sempre a cigarra cantando todos os seus erres sem efes,
enquanto o sol espalha as barbas louras pelo ar transparente.

Ir-me- cantar, todo o vero, esta
cigarra estrdula? Canta, e que eu te oua, amiga minha;  sinal de que no
haverei entrado no obiturio do mesmo vero, que j sobe a cinqenta pessoas
dirias. Disseram-mo; eu no me dou ao trabalho de contar os mortos. Percebo que
morre mais gente, pela freqncia dos carros de defuntos que encontro, quando
volto para casa e eles voltam do cemitrio, com o seu aspecto fnebre e os seus
cocheiros menos fnebres. No digo que os cocheiros voltem alegres; posso at
admitir, para facilidade da discusso, que tornem tristes; mas h grande
diferena entre a tristeza do veculo e a do automedonte. Este traz no rosto uma
expresso de dever cumprido e conscincia repousada, que inteiramente escapa s
frias tbuas de um carro.

De mim peo ao cocheiro que me
levar, que j na ida para o cemitrio v francamente satisfeito, com uma
pontinha de riso e outra de cigarro ao canto da boca. Pisque o olho s amas
secas e frescas, e criaturas anlogas que for encontrando na rua; creia que os
meus manes no sofrero no outro mundo; ao contrrio, alegrar-se-o de saber a
cara ajustada ao corao, e a indiferena interior no desmentida pelo gesto.
Imite as suas mulas, que levam com igual passo Csar e Joo
Fernandes.

Ah! enquanto eu ia escrevendo
essas melancolias aborrecidas, o sol foi enchendo tudo; entra-me pela janela, j
tudo  mar; ao mar j faltam praias, dizia Ovdio por boca de
Bocage. Aqui o dilvio  de claridade; mas uma claridade cantante, porque a
cigarra no cessa, continua a cigarrear no arvoredo, fundindo o som no
espetculo. Como h pouco, na cama, miro a cantiga e ouo o claro. Se todos
estes dias no fossem isto mesmo, eu diria que era a comemorao da chegada dos
trs Reis.

Essa festa popular, no sei se
perdurar no interior; aqui morreu h muitos anos. Cantar os Reis era uma dessas
usanas locais, como o presepe, que o tempo demoliu e em cujas runas brotou a
rvore do Natal, produo do norte da Europa, que parece pedir os gelos do
inverno. O nosso presepe era mais devoto, mas menos alegre. Durava, em alguns
lugares, at o dia de Reis. A cantiga da festa de ontem era a mesma em toda a
parte,

 de casa, nobre
gente,
Acordai, e
ouvireis,

e o resto, que pode parecer
simplrio e velho, mas o velho foi moo e simplrio tambm  sinal de
ingnuo.

14 de janeiro

Anda a nas folhas pblicas um
aviso esportivo que me tem dado que pensar. Diz-se nele que, do dia 1 do
corrente em diante, as apostas ganhas e no reclamadas no prazo mximo de trinta
dias, contados da respectiva data, prescrevem e ficam sem valor.

No nego a prescrio. Tudo
prescreve debaixo do sol, desde o amor at o furor. O prprio sol tem os seus
sculos contados. Por que estaria fora dessa lei universal o simples esporte?
No; no nego a prescrio, nem a sua convenincia. No presente caso,  decisivo
que uma instituio no se organiza para guardar apostas atrasadas; seria
preciso uma turma de empregados e um lote de livros especiais para a respectiva
escriturao. Despesas maiores. Maiores responsabilidades.

O que me d que pensar, no  o
aviso em si,  a causa dele. Pois que! h apostas esquecidas? Quando eu vou a
uma dessas casas fazer uma quiniela, pelotaris ou qualquer outra ao hngara,
castelhana ou latina, no  para esperar a p firme e trazer comigo o meu
dinheiro, quero dizer, o dinheiro dos meus adversrios?  para l deixar essa
quantia, qualquer que seja, ganha com o suor de um cavalo ou de um homem,  de
algum, em suma? Eis a um fato novo para mim; vivi todos estes anos com a
persuaso contraria.

Repito: era crena minha que uma
pessoa no se abala de casa para apostar, seno com a idia de trazer o dinheiro
dos outros. Pode l deixar o seu, mas  raro. Ainda nesse caso, no se perde
propriamente, ganha-se por outra via, porquanto tu s eu e eu sou tu. Perdendo,
ganho por tuas mos e para as tuas algibeiras. Ao contrrio, quando eu ganho uma
aposta, a aposta  nossa. Eu a trago, ns a ganhamos. Esta definio do gnero
humano explica todos os grandes sentimentos de piedade, de amor, de dedicao.
No  sem razo que existe nas lnguas cultas o vocbulo humanidade; ele exprime
um sentimento que, em resumo,  a afirmao da unidade espiritual dos homens.
No somos todos uns, mas todos somos um; no sei se me explico.

Entretanto,  claro que Pedro no
vai apostar com Paulo para deixar a aposta nas mos de Sancho ou Martinho. O
natural  que a traga consigo. Admito que a deixe por um dia ou dois,
casualmente, dada alguma razo de ordem superior, uma causa inesperada; mas 30
dias, 6 semanas, 2, 6,meses, eis o que dificilmente se poderia crer, no fosse
este aviso. Assim que, tudo se esquece neste mundo, as alegrias, as opinies, as
paixes velhas, os emprstimos novos e velhos, e agora as apostas. Que pode
haver seguro, se nem as quinielas esto certas de viver na memria dos
vencedores? Tudo perece. To precria  esta mquina humana, que uma pessoa
capaz de desmaiar, se perder uma aposta,  igualmente capaz de a esquecer, se a
ganhar. Em que fiar, ento? Assim vai um homem reformando as suas idias,
deitando fora as que ficam ranosas, ou as que reconhece que eram
falsas.

O pior  quando essa limpa do
esprito pode deitar abaixo planos longamente meditados. Um desses, que eu
trazia desde alguns anos, era suprimir o cavalo e fazer sem ele apostas de
corridas; no para substitu-lo pelo homem, pois entrava no meu plano a
supresso do homem e de qualquer outro instrumento de luta, que pudesse pr em
jogo a fora, a agilidade ou a destreza. A idia fundamental da minha reforma
era que, assim como h comedia e pantomima, eu podia fazer corridas por simples
gestos e apostas por sinais; pantomima, nada mais. A principio, para ir gastando
a dureza do hbito, daria nomes a cavalos imaginrios. Podia descer ao
trocadilho, e dizer que, em vez de construir um Hipdromo, construa uma
Hiptese. Pelo som, pareceria que a primeira parte era a mesma em ambos
vocbulos, hipos, cavalo. Jogo grego, calendas gregas, tudo grego.

Podem elogiar-me  vontade. No me
cansaro com boas palavras, antes me daro alma nova para outros cometimentos.
Quem sabe se no irei ainda mais longe? Um homem no sabe o que far neste
mundo, antes de fazer alguma coisa, e ainda assim pode no saber nada
imediatamente. A glria leva s vezes um ano, outras vinte, outras dois meses,
cinco semanas, e no so raras as de vinte e quatro horas. Depende da espcie do
tempo e do meio. H glorias tardias e glorias prontas, como devia dizer La
Palisse. Eu, desde que faa corridas de cavalos sem cavalos, posso ir longe,
muito longe. Que no suprimirei eu depois disso? Inventarei vinho sem vinho. O
po, que a piedade dos nossos padeiros reduziu s propores da divina partcula
da comunho, pode ainda subir, por esforo meu, na graduao do mistrio; ns o
comeremos sem v-lo, quase sem hav-lo. Hav-lo-, porque os mistrios existem
ainda fora do alcance dos sentidos humanos; mas po, propriamente po, no
haver mais. E, todavia, ele dar alimento, como uma simples quiniela, a tal
ponto que muitos o deixaro na padaria, como hoje se deixam as apostas, e os
padeiros sero obrigados a marcar trinta dias de espera. No haja medo de o
receber duro.

No me censurem se a pena me levou
a este elogio de mim mesmo. Bem sei que  feio; algum, que no foi o marqus de
Maric, escreveu que louvor em boca prpria  vituprio. No conheo o autor da
mxima; ouvi-a muita vez, em pequeno, a um vizinho que no era capaz de a ter
inventado; creio at que morreu sem saber o que era vituprio... Memrias da
infncia! Tempos em que eu tinha corridas de cavalos sem quinielas; eram cavalos
de pau.

21 de janeiro

Acha-se impresso mais um livro que
estes meus olhos nunca ho de ler;  o Cdigo de Posturas. No por ser cdigo,
nem por serem posturas; as leis devem ser lidas e conhecidas. Mas eu conheo
tanta postura que se no cumpre, que receio ir
dar com outras no mesmo caso e
acabar o livro cheio de melancolia.

Tambm no  por serem posturas
que muitos no gostam de obedecer-lhes; o nome no faz mal  coisa.  por ser
coisa legal. Pessoas h que acham palavras duras contra a inobservncia de um
decreto federal, e, ao dobrar a primeira esquina, infringem tranquilamente o
mais simples estatuto do municpio. O sentimento da legalidade, vibrante como
oposio, no o  tanto como simples dever do indivduo. A primeira criatura que
me falou indignada (h quantos anos!) da postergao das leis, era um homem
ruivo, que no pagava as dcimas da casa.

Agora mesmo deu-se uma ocorrncia
de alguma significao. Um homem fez um cortio no quintal. No sei o nome do
homem, nem o da rua; ignoro o prprio nome da freguesia. Sei apenas que, no
podendo por lei municipal fazer o cortio, o proprietrio deixou de tirar
licena. Realmente, seria loucura, uma vez que tinha de infringir a lei, ir
declar-lo  autoridade; e se era vedada a construo, vedada era a licena.
Tudo isso  elementar. Sucedeu que o Conselho Municipal acudiu a tempo, querelou
do homem e venceu a demanda. Mas os pedreiros foram mais ativos, e, acabado o
processo, estava finda a construo.

Suscitou-se a questo de saber se
a sentena devia ser executada, ou se era melhor que a municipalidade desistisse
da demanda, embora com perda das custas. rdua questo! Venceu o segundo
alvitre, pela considerao de que, havendo falta de casinhas para as pessoas
pobres, e satisfazendo aquelas as prescries higinicas, segundo se provou com
vistoria, era absurdo mand-las pr abaixo. Eu teria votado o contrario, sem
todavia afirmar que a verdade estivesse comigo; votaria para machucar o infrator
da postura.

No debate desse negcio declarou
um dos membros do Conselho que a municipalidade, em regra, perde as suas
demandas. Da tirou argumento para exortar os colegas a aceitarem aquela vitria
rara; mas no props, como lhe cumpria, mandar benzer a instituio. No se
podendo admitir que a municipalidade deixe de ter razo em tudo o que reclama, e
sendo incrvel que os juizes a aborream, a concluso  que h mau olhado,
quebranto ou coisa anloga, leso para a qual  remdio eficacssimo um livro de
S. Cipriano, que por a se vende, e tira tudo, at o diabo do corpo.

Mas se no  caso de benzedura, 
de encomendar a alma a Deus, e esperar. Tempo vir em que a municipalidade
tambm ganhe as suas demandas. A questo dos micrbios nada tem com o
oramento, disse h dias o presidente do conselho municipal, advertindo um
orador. Dia vir tambm em que tenham tudo, quando esses interessantes
colaboradores da morte entrarem definitivamente na cogitao de todos os
mortais. Notai que o orador, que proferira, dias antes, um discurso, que  a
mais extensa e completa monografia que tenho lido dos usos funerrios dos povos,
desde a mais remota antiguidade, podia responder que, havendo falado ento de
Drio e dos citas, nada obstava a que tratasse agora dos micrbios mais recentes
que eles; limitou-se, porem, a continuar o discurso. Talvez eu fizesse a mesma
coisa.

Esta questo de acomodar o
discurso  matria em discusso no  to fcil como parece. Em primeiro lugar,
onde  que a matria acaba? Em segundo lugar, se  verdade que o regimento da
casa  a postura que obriga os seus membros, no menos o  que no h ali artigo
restringindo os discursos. So coisas de praxe e de costume, que se iro
estabelecendo com o andar dos anos. No se h de regular instantaneamente a
liberdade oral, e acaso cerce-la, o que  pior. Quem imaginar que se pegue de
um homem dos campos, onde respira o ar livre e puro, para meter-lhe uns cales
de corte e faz-lo danar o minuete? Sucede mais que, em outras partes, lia
variedade de tribunas e de jornais, onde um pensador pode publicar o fruto dos
seus estudos e meditaes; aqui no. A imprensa diria pouco espao deixa a tais
trabalhos; a tribuna comum no existe, no por falta de direito, mas de gosto e
de uso. Resta a tribuna legislativa, onde os assuntos podem ser tratados com
certa amplitude, introduzindo memrias dessas, que mais tarde se desliguem dos
anais, como se faz com os trechos de eloqncia que vo para as
seletas.

Nem isso, quando fosse mal, seria
mal grande. Maior que ele  o que eu disse a principio, o gosto de no obedecer
s leis. Aqui vai um exemplo.  mnimo; mas nem todas as flores so dlias e
camlias; o pequeno miostis tambm ocupa lugar ao sol. Ontem, ia andando um
bond, com pouca gente, trs pessoas. A uma destas pareceu que o cocheiro
estava fumando um cigarro; via-lhe ir a mo esquerda freqentes vezes  boca, de
onde saa um fiozinho de fumo, que no chegava a envolver-lhe a cabea, porque,
com o andar do veculo, espalhava-se pelas pessoas que iam dentro
deste.

 Os cocheiros podem fumar em
servio? perguntou a pessoa ao condutor?

F-lo em voz baixa, tranqila como
quem quer saber, s por saber.

O condutor, no menos serenamente,
respondeu-lhe que no era permitido fumar.

 Ento...?

 Mas ele fuma s aqui, no
arrabalde; l para o centro da cidade no fuma, no senhor.

Grande foi o espanto da pessoa,
ouvindo essa traduo de Pascal, to ajustada ao cigarro e ao bond.
Verit en de, erreur au del. Mas, pensando bem, este caso no  igual
aos outros; aqui a singeleza da resposta mostra a sinceridade da interpretao.

No lhes disse, em tudo isto, que
o Dr. Melo Morais foi o compilador do cdigo. As musas, por mais que sejam
musas, no so avessas s obras de utilidade. Outra prova disso deu-nos o mesmo
Dr. Melo Morais, que  poeta, iniciando a publicao dos documentos da cidade.
Verdade seja que, a despeito do ar administrativo dos papis, h neles aquela
vetustez, que ainda  poesia, e o carter da histria a que preside uma das
musas.

Eu, como gosto muito da minha
Carioca, por maiores taxas que lhe ponham, amo os que a amam tambm, e os que a
bendizem. Ter defeitos esta minha boa cidade natal, reais ou fictcios, nativos
ou de emprstimo; mas eu execro as perfeies. Tudo h de ter o jeito de coisa
nascida,  e no cabal, portanto.

28 de janeiro

Dizem que esta semana ser
sancionada a lei que transfere provisoriamente para Petrpolis a capital do
Estado do Rio de Janeiro. J se trata da mudana; compram-se ou arrendam-se
casas para alojar s reparties pblicas. Com poucos dias, estar Niteri
restituda s velhas tradies da Praia grande. A escolha de Petrpolis fez-se
sem bula, nem matinada, com pouca e leve oposio. Campos queria a eleio.
Vassouras e Nova Friburgo apresentaram-se igualmente; mas Petrpolis  to cheia
de graa que no lhe foi difcil ouvir: Ave, Maria; a assemblia  contigo;
bendita s tu entre as cidades.

Terespolis, que tem de ser a
capital definitiva, no ver naturalmente essa eleio com os olhos quietos.
Conhece os feitios da outra, e recear que o provisrio se perpetue. Bem
pode ser que Vassouras, Campos e Nova Friburgo tivessem a mesma idia, e da os
seus requerimentos.  mui difcil sair donde se est bem. Esperemos, porm, que
o medo no passe de medo. Em verdade, Petrpolis ficar sendo uma cidade
essencialmente federal e internacional, sem embargo dos aparelhos da
administrao complexa e numerosa de capital de Estado. Que fazer? Deixemos
Pompia a Diomedes e aos seus cios. O meu voto, se tivesse voto, seria por
Niteri, no provisria, mas definitiva.

De resto, estamos assistindo a uma
florescncia de capitais novas. A Bahia trata da sua; turmas de engenheiros
andam pelo interior cuidando da zona em que deve ser estabelecida a futura
cidade. Sabe-se que Minas j escolheu o territrio da sua capital, cuja
descrio Olavo Bilac est fazendo na Gazeta. Chama-se Belo Horizonte. Eu, se
fosse Minas, mudava-lhe a denominao. Belo Horizonte parece antes uma
exclamao que um nome. Sobram na histria mineira nomes honrados e
patriotas para designar a capital futura. Quanto  nova capital da
Repblica, no  mister lembrar que j est escolhido o territrio, faltando s
a obra da construo e da mudana, que no  pequena.

Esta nova Carioca, ou que outro
nome tenha ou merea, ficar decapitada, como Niteri. Contentemos-nos com ser
uma espcie de Nova York, aperfeioemos a nova Broadway, e no abramos
mo da pera italiana. C viro os deputados, por turmas, ouvir as sumidades
lricas. Se j ento estiver resolvido o problema da navegao area (dizem os
jornais que Edison est em via de resolv-lo) os deputados viro todos, depois
de jantar, assistiro ao espetculo, e voltaro no balo da madrugada para
estarem presentes  sesso do meio-dia. Como viver, como legislar, sem musica?
No me falem de telefones. O telefone transmite, ainda que mal, as vozes dos
cantores e as notas da partitura, mas no transmite os olhos das prima-donas,
nem as pernas dos pajens, papis que, em geral, so dados a moas
bem-feitas.

Que essa mudana de capitais seja
um fenmeno poltico interessante,  fora de dvida. Eu  que no entro nele,
por no entender cabalmente de poltica. Nestes negcios, vou pouco alm de um
vizinho meu, homem quadragenrio e discreto, que no tem profisso nem dinheiro,
mas possui em grau altssimo a vocao de publico. No perde sesso de cmaras.
Atento e curioso, quando assiste a algum duelo de discursos, torna-se cheio de
entusiasmo, se sobrevm uma saraivada de apartes, mas apartes fortes. Comeado o
exame do oramento, cochila, e, se dura muito tempo, passa pelo sono. Os
algarismos, o dficit, o saldo, a taxa agrria, o imposto industrial, o
quilograma, o quilmetro, so outras tantas papoulas que lhe fariam cair as
plpebras. Mas no se fiem no sono do homem, acorda  primeira troca de palavras
duras, tem para elas o olhar aceso e as orelhas escancaradas. J uma vez deu
palmas da galeria, com outros, obrigando a repetir esta velha formula: as
galerias no podem manifestar-se, e a no mandar pr fora os
manifestantes.

Falei em sono, e sinto cochilar a
penha. O calor no pede outra coisa, este calor to grande e mortfero, que
comea a meter medo aos mais animosos. O obiturio sobe com ele; estamos j na
casa dos setenta. Que melanclica semana!

Felizmente, trata-se de impor s
casas que se construrem algum meio de ventilao, que minore tal flagelo. Esta
semana assisti ao debate final da postura relativa  construo, e
particularmente ao do art. 15, creio eu, que determina haja no forro das casas
umas gregas para ventilao ou ventiladores especiais. Um membro do Conselho
Municipal props que o artigo fosse ampliado, e apresentou emenda indicando um
meio de ventilao, as telhas higinicas Nascimento. Com oito telhas
dessas, disse o orador, tem-se um metro quadrado coberto, ao passo que das
telhas comuns so necessrias quinze. Assim, h uma economia de nove por cento.
No props que o uso das telhas higinicas Nascimento fosse obrigatrio,
mas facultativo. O Conselho aprovou a emenda.

Tambm eu aprovo, conquanto me
parea restritiva de mais. Tenho um amigo, chamado Navarro, que estuda o assunto
com afinco, e presume ter descoberto umas telhas higinicas, ainda mais
econmicas, pois apenas bastaro sete para cobrir um metro quadrado. Suponhamos,
porm, que h iluso no clculo; basta que a economia seja igual. Pela redao
da emenda ficam excludas as telhas higinicas Navarro. No  justo. Eu
proporia, se ainda fosse tempo, que se dissesse no artigo, depois da palavra
Nascimento, estas: ou outras quaisquer nas mesmas condies. Tambm
concordaria em restringir um pouco o texto, dizendo: as te- lhas higinicas
Nascimento e as telhas higinicas Navarro conquanto o Navarro ainda no haja
chegado  publicao do invento, nem o faa to cedo, ficava j com uma espcie
de garantia provisria que seria definitiva no dia em que as telhas estivessem
prontas. Convm animar as invenes; este Navarro pode vir a ser o nosso
dison.

4
de fevereiro

Quando eu li que este ano
no pode haver carnaval na rua, fiquei mortalmente triste.  crena minha, que
no dia em que deus Momo for de todo exilado deste mundo, o mundo acaba. Rir no
 s le propre de l'homme,  ainda uma necessidade dele. E s h
riso, e grande riso, quando  pblico, universal, inextinguvel,  maneira
deuses de Homero, ao ver o pobre coxo Vulcano.

No veremos Vulcano estes dias,
cambaio ou no, no ouviremos chocalhos, nem guizos, nem vozes tortas e finas.
No sairo as sociedades, com os seus carros cobertos de flores e mulheres, e as
ri roupas de veludo e cetim. A nica veste que poder aparecer,  cinta
espanhola, ou no sei de que raa, que dispensa agora os coletes e d mais graa
ao corpo. Esta moda quer-me parecer que pega; por ora, no h muitos que a
tragam. Quatrocentas pessoas? Quinhentas? Mas toda religio comea por um
pequeno nmero de fiis. O primeiro homem que vestiu um simples colar de
miangas, no viu logo todos os homens com o mesmo traje; mas pouco a pouco a
moda foi pegando, at que vieram atrs das miangas, conchas, pedras ver e
outras. Da at o capote, e as atuais mangas de presunto, em que as senhoras
metem os braos, que caminho! O chapu baixo, feltro ou palha, era h 25 anos
uma minoria nfima. H uma chapelaria nesta cidade que se inaugurou com chapus
altos em toda a parte, nas portas, vidraas, balces, cabides, dentro das
caixas, tudo chapus altos. Anos depois, passando por ela, no vi mais um s
daquela espcie; eram muitos e baixos, de vria matria e formas
variadssimas.

No admira que acabemos todos de
cinta de seda. Quem sabe no  uma reminiscncia da tanga do homem primitivo?
Quem sabe se no vamos remontar os tempos at ao colar de miangas? Talvez a
perfeio esteja a. Montaigne  de parecer que no fazemos mais que repisar as
mesmas coisas e andar no mesmo crculo; e o Eclesiastes diz claramente que o que
, foi, e o que foi,  o que h de vir. Com autoridades de tal porte, podemos
crer que acabaro algum dia alfaiates e costureiras. Um colar apenas, matria
simples, nada mais; quando muito, nos bailes, um simulacro de gibus para
pedir com graa uma quadrilha ou uma polca. Oh! a polca das miangas! H de
haver uma com esse ttulo, porque a polca  eterna, e quando no houver mais
nada, nem sol, nem lua, e tudo tornar s trevas, ltimos dois ecos da catstrofe
derradeira usaro ainda, no fundo do infinito, esta polca, oferecida ao Criador:
Derruba, meu Deus, derruba!

Como se disfararo os homens pelo
carnaval quando voltar idade da mianga? Naturalmente com os trajes de hoje.
A Gazeta de Notcias escrever por esse tempo um artigo, em que
dir:

Pelas figuras que tm aparecido
nas ruas, tero visto os nossos leitores at onde foi, sculos atrs, j no
diremos o mau gosto, que  evidente, mas violao da natureza, no modo de vestir
dos homens. Quando possuam as melhores casacas e calas, que so a prpria
epiderme, to justa ao corpo, to sincera, inventaram umas vestiduras perversas
falsas. Tudo  obra do orgulho humano, que pensa aperfeioar a natureza, quando
infringe as suas leis mais elementares. Vede o leno; o homem de outrora achou
que ele tinha uma ponta de mais, e fez um tecido de quatro pontas, sem msculos,
sem nervos, sem sangue, absolutamente imprestvel, desde que no esteja a da
pessoa. H no nosso museu nacional um exemplar dessa ridicularia. Hoje, para dar
uma idia viva da diferena das duas civilizaes, publicam um desenho
comparativo, dois homens, um moderno, outro dos fins do sculo XIX;  obra de um
jovem pintor, que diz ser descendente de Belmiro; foi descoberto por um dos
redatores desta folha, o nosso excelente companheiro Joo, amigo de todos os
tempos.

Que no possa eu ler esse artigo,
ver as figuras, compar-las, e repetir os ditos do Eclesiastes e de
Montaigne, e anunciar aos povos desse tempo que a civilizao mudar outra vez
de camisa! Irei antes, muito antes, para aquela outra Petrpolis, capital da
vida eterna. L ao menos h fresco, no se morre de insolao, nome que j
entrou no nosso obiturio, segundo me disseram esta semana. No se pode imaginar
a minha desiluso. Eu cria que, apesar de termos um sol de rachar, no
morreramos nunca de semelhante coisa. H anos deram-se aqui alguns casos de no
sei que molstia fulminante, que disseram ser isso; mas vo l provar que sim ou
que no. Para se no provai nada,  que o mal fulmina. Assim, nem tudo acaba em
cajuada, como eu supunha; tambm se morre de insolao. Morreu um, morrero
ainda outros. A chuva destes dias no fez mais que aular a cancula.

De resto, a morte escreveu esta
semana em suas tabelas, algumas das melhores datas, levando consigo um Dantas,
um Jos Silva, um Coelho Bastos. No se conclui que ela tem mais amor aos que
sobrenadam, do que aos que se afundam; a sua democracia no distingue. Mas h
certo gosto particular em dizer aos primeiros, que nas suas guas tudo se funde
e confunde, e que no h servios  ptria ou  humanidade, que impeam de ir
para onde vo os inteis ou ainda os maus. Vingue-se a vida guardando a memria
dos que o merecem, e na proporo de cada um, distintos com distintos, ilustres
com ilustres.

Essa h de ser a moda que no
acaba. Ou caminhemos para a perfeio deliciosa e terna, ou no faamos mais que
ruminar, perptuo camelo, o mesmo jantar de todas as idades, a moda de morrer 
a mesma... Mas isto  lgubre, e a primeira das condies do meu ofcio  deitar
fora as melancolias, mormente em dia de carnaval. Tornemos ao carnaval, e
liguemos assim o princpio e o fim da crnica. A razo de o no termos este ano,
 justa; seria at melhor que a proibio no fosse precisa, e viesse do prprio
nimo dos folies. Mas no se pode pensar em tudo.

11 de fevereiro

Nunca houve lei mais fielmente
cumprida do que a ordem que proibiu, este ano, as folias do carnaval. Nem sombra
de mscara na rua. Fora da cidade, diante de uma casa, vi quarta-feira de cinza
algum confete no cho. Crianas naturalmente que brincaram da janela para a rua,
a menos que no fosse da rua para a janela. Os chapus altos, que desde tempos
imemoriais no ousavam atravessar aquela regio no mundo que fica entre a rua
dos Ourives e a rua Gonalves Dias, e que  propriamente a rua do Ouvidor, iam
este ano abaixo e acima sem a menor surriada. Quem nos deu tal rigorismo na
observncia de um preceito? Se eu falasse em verso, diria que era o sentimento
da situao, pois o verso tem vantagens que faltam inteiramente  prosa, no lhe
sendo, alis, superior em nada. Em prosa, creio que foi a certeza de que a ordem
era sria. Pode ser tambm que a escassez do dinheiro...

No se diga que calunio o meu
sculo. Quem tem culpa, se h culpa,  o sr. Dr. Souza Lima, que todos os anos
d uma edio nova dos seus conselhos e splicas, lembra os regulamentos
sanitrios, e mostra a vaidade dos seus esforos higinicos. Isto quando se
trata de morrer, que  a ao mais dura da gente viva. Talvez haja demasiada
confiana nos conselhos. Quanto aos regulamentos, se os considerarmos  luz da
verdadeira filosofia (a falsa  a do meu vizinho) reconheceremos que no passam
de puras abstraes. H coisas mais concretas.

Tambm o cu possui os seus
regulamentos, e nem por serem obra divina, so mais eficazes que os nossos. Pelo
menos h duvida sobre a significao de alguns dos respectivos artigos. Haja
vista o desacordo do astrnomo Falb com o Dr. Anto de Vasconcelos. Aprova o
primeiro que o fim do sculo  o fim do mundo pelo encontro que se dar em 1899,
entre a terra e certo cometa, o segundo contesta energicamente a predio alem,
e no com palavras, mas com raciocnio, com algarismos, com leis cientficas,
por onde se v que a destruio da terra, nos termos anunciados,  meramente
impossvel. Quando muito, se acaso fosse admissvel o encontro do cometa,
haveria tal chuva de fogo, que acabaria a vida animal; mas a terra propriamente
dita continuaria a andar como dantes.

No aparecendo ningum para
rebater ou apoiar as afirmaes do nosso patrcio, a questo morreu de silncio.
Entretanto, no falta amor  astronomia. Flammarion, citado pelo Dr.
Vasconcelos,  lido e meditado por muitas pessoas, que o cu atrai, como h de
sempre atrair os homens. Creio at que, de todas as cincias,  a astronomia a
que maior numero conta de amadores. Qual ser a causa deste fenmeno? Talvez a
vertigem dos nmeros. Realmente, por mais que a invisibilidade dos micrbios
assombre a gente, no chega a estontear como os algarismos
astronmicos.

Por exemplo, o cometa de 1811  li
contestao do sr. Vasconcelos  media da cabea ao ncleo 1.800.000 (um milho
oitocentos mil) quilmetros. Que extenso tinha a cauda de tal monstro?.....
76.000.000 de quilmetros. A marcha  de 42.000 metros por segundo; calculem por
minuto, por hora, por dia e por ano. Mais tarde, o cometa de 1811 dividiu-se em
dois, ficando vizinhos, com a distancia apenas de 500.000 lguas. Essa orgia de
lguas e quilmetros  que h de dar sempre  astronomia maior numero de
amadores do que tm a arte dramtica e a poltica. Sabe-se que estes dois
ofcios do esprito humano contam grande numero de curiosos. Um homem desde que
tenha a voz dura e certo ar ferrenho, faz os pais desnaturados, os perseguidores
dos rfos e das vivas. A voz meiga escolhe as partes de gal. s vezes,  o
contrrio, como nos teatros de obrigao; mas cada um fica com o seu prprio ar,
para no desmentir a natureza. A poltica seduz tanto ou mais. Nenhuma delas,
porm,  comparvel  astronomia.

A imaginao gosta de mergulhar
nestes abismos de nmeros que nunca mais acabam.  um modo que o homem tem de se
fazer crescer a si mesmo. H tambm um sentimento, que no sei como defina;
melhor  dizer a coisa com muitas palavras que com uma. A pessoa que nos refere
de um cometa que anda quarenta mil metros por segundo, parece que os contou por
si mesmo, relgio na mo. Tem no sei que conscincia de haver andado por seus
prprios ps os cento e oitenta milhes de quilmetros de um desses bichos.  um
sentimento muito particular.

Quem sabe se a vertigem dos
nmeros no  a explicao dos oito mil e tantos contos, pedidos ao Conselho
Municipal por quinhentos e tantos bois?

H duas astronomias, a do cu e a
da terra; a primeira tem astros e algarismos, a segunda dispensa os astros e
fica s com os algarismos. Mas h tambm entre o cu e a terra, Horcio, muitas
coisas mais do que sonha a v filosofia. Uma dessas coisas , como digo, a
vertigem dos nmeros. No tempo do dilvio (1890-1891) havia aqui um homem que
acordou um dia com vinte mil contos; foi o que me disseram. Uma semana depois
afirmaram que tinha trinta mil, e dois dias mais tarde quarenta cinqenta,
sessenta mil contos de ris. Antes de um ms subira a cento e dez mil.
Empobreceu com duzentos mil contos. A verdade  que nunca tivera mais de quinze
mil. Mas a imaginao do vulgo, principalmente o vulgo pobre, no se contenta em
dar a um homem pequenas quantias. Gosta dos Cresos. Suas esmolas so minas de
diamantes. Ofir e Golconda so os seus bancos.
Os bois parecem explicar-se por
essa razo psicolgica.

Senhores, eu conheci um homem que
durante a guerra de 1870, no era francs nem alemo, mas aritmtico. A volpia
com que ele falava das centenas de milhares de soldados era nica; parecia que
ele os comandava todos de um e de outro lado, que compusera os dois exrcitos,
que eram seus, sangue do seu sangue, carne da sua carne. A batalha de 24 de
maio, na guerra do Paraguai, mostrou-me igual fenmeno; um sujeito, alis bom
patriota, to fascinado ficou pelo nmero dos combatentes, que no atendia ao
fulgor da batalha, e dizia que era a primeira da Amrica do Sul, no pelos
prodgios de valor, mas pela quantidade de homens.

Assim este caso. Oito mil contos,
guardada a distancia que vai da terra ao cu,  alguma coisa parecida com a
cauda do cometa de 1811.

18 de fevereiro

H uma leva de broquis, vulgo
dinamite, que parece querer marcar este final de sculo. De toda a parte vieram
esta semana notcias de exploses, e aqui mesmo houve tentativa de uma. Digam-me
que paz de esprito pode ter um pobre historiador de coisas leves, para quem a
plvora devia ser, como os maus versos, o termo das cogitaes destrutivas.
Inventou-se, porm, maior resistncia, e da o maior ataque, naturalmente, a
plvora sem fumaa, o torpedo, a dinamite; mas, que diabo! basta-lhes a guerra,
como necessidade que  da vida universal. A paz universal, esse belo sonho de
almas pias e vadias, seria a dissoluo final das coisas. Faamos guerra, mas
fiquemos nela.

Talvez haja nisso um pouco de
rabugem  e outro pouco de injustia. A anarquia pode acabar sendo uma
necessidade poltica e social, e o melhor dos governos humanos, aquele que
dispensa os outros. Voltaremos ao paraso terrestre, sem a serpente, e com todas
as frutas. Ado e Eva dormiro as noites, passearo as tardes: Caim e Abel
escrevero um jornal sem ortografia nem sintaxe, porque a anarquia social e
poltica haver sido precedida pela da lngua. Antes do ltimo ministro ter
expirado o derradeiro gramtico. Os adjetivos ganharo o resto de liberdade que
lhes falta. Muitos que viviam atrelados e substantivos certos, no tero agora
nenhum, e podero descer a preposies, a artigos.

H de ser rabugem, creio. Acordei
hoje mal disposto. Sei que nada tendes com disposies ms nem boas, quereis a
obrigao cumprida, e, se estou doente, que me meta na cama. Que me meta na
cova, se estou morto. No, a cova h de ser quente como trinta mil diabos. A
terra fria que tem de me comer os ossos, segundo a frmula, no ser to fria,
neste tempo em que tudo arde. L mesmo o vero me flagelar com o seu aoite de
chamas. Certo, este final de semana  menos quente que os primeiros dias, graas
 chuva de quinta-feira; mas esse dia enganou-me. Pelo ar brusco, pela carga de
nuvens, tive esperanas de mais oito de grandes guas, e no vieram grandes nem
pequenas. Eis a explicada a minha rabugem.

J uma vez disse, e ora, repito:
no nasci para os estos do vero. Quem me quiser,  com invernos. Deus, se eu
lhe merecesse alguma coisa, diria ao estio de cada ano: Vai, estio, faze arder
a tudo e a todos, menos o meu fiel servo, o semanista da Gazeta, no tanto pelas
virtudes que o adornam e so dignas de apreo particular, como porque lhe di
suar e bufar, e os seus padecimentos afligiriam ao prprio cu. Mas Deus gosta
de parecer, s vezes, injusto. Essa exceo, que no faria a mais ningum, para
no vulgar o benefcio, mostraria ainda uma vez um ato de alta justia divina. A
exceo s  odiosa para os outros; em si mesma  necessria.

A terra  quente. L mesmo haver
epidemias, que no sabemos, e um sub-obiturio mais numeroso que o obiturio
destes dias.  a nossa enfatuao de vivos que nos leva a crer que s h
calamidades para ns; tambm os mortos tero as suas, acomodadas ao estado. Nem
o purgatrio significa outra coisa seno as doenas de que os mortos podem sarar
e saram. O inferno  um hospcio de incurveis. Raros, bem raros, cinco por
sculo, subiro logo para o cu.

O que me consola um pouco,  que
em outras partes esto morrendo de frio. A certeza de que, quando eu bufo aqui e
corro a comprar gelo, morre algum na Noruega, por hav-lo de graa, ajuda a
suportar o calor. No  preciso o boto de Diderot; no fica na alma essa sombra
de sombra de remorso, que pode trazer a idia de haver apunhalado diretamente,
ainda que de longe, uma pessoa. A certeza basta, e sem interesse pecunirio,
note-se bem.  o que o povo formulou, dizendo que o mal de muitos consolo .
Expirai s mos de vossa me, filhos da neve, enquanto os filhos do sol aqui
morremos s mos do nosso grande pai.

Que isto no seja pio, creio; mas
 verdade.  o que comea a pr uma nota doce na cara ttrica e feroz com que me
levantei hoje da cama. Assim o diz o espelho. Realmente, se tanto se morre ao
frio como ao sol, no vale a pena deixar este clima; tudo  morrer, poupemos a
viagem. Deixai correr os dias, at que o equincio de maro traga outros ares,
maio outros legisladores, julho e agosto outras peras, porque os Huguenotes j
comeam a afligir-nos.

Digo isto de passagem, como um
aviso aos empresrios lricos; no vos amofineis com Huguenotes. Eles j vo
orando pela Favorita. Esse par de muletas, que ajudaram o bom Ferrari a levar
esta vida, ameaam deixar o coxo na rua. Il nous faut du nouveau, n'en
fut-il plus au monde. Sempre h de haver por esse mundo
uma Cavaleria rusticana indita.

Antes dos legisladores, vm as
eleies, que chegam ainda antes do equincio. Vm com os idos de maro. H j
candidatos, mas no se sabe ainda quais os candidatos recomendados pelos chefes.
Aparecem nomes nos a pedidos,  maneira da terra; mas o ato  to solene
e a ocasio to grave, que podamos mudar de processo. Que os chefes digam, que
os jornais repitam o que disserem os chefes, para que os eleitores saibam o que
devem fazer; sem o que  provvel que no faam nada... Deus de misericrdia!
Creio que estou ainda mais lgubre que no princpio; tornemos  morte, s
febres,  dinamite; tornemos aos cemitrios, aos epitfios:

AQUI
JAZ
UMA
CRNICA DA SEMANA,
TRISTSSIMA,
BREVSSIMA.
ORAI
POR ELA!

25 de fevereiro

Toda esta semana foi dada 
literatura eleitoral. No digo que se discutisse largamente a matria, mas
escreveram-se muitos nomes, surgiram candidaturas novas e novssimas,
organizaram-se chapas e contra-chapas, e, desde a circular at  simples
indicao de uma pessoa, feita por um grupo de eleitores, por alguns eleitores
firmes ou simplesmente pelos eleitores da Gamboa, quase que se no leu outra
coisa. Lembra-me que um amigo meu, h  anos, querendo ser eleito, teve a
idia singularssima de recomendar o seu nome nos a pedidos dos jornais (!) com
esta assinatura: A aclamao pblica. Recolheu dois votos, o meu e o
dele.

No entendo de poltica, limito-me
a ouvir as consideraes alheias. Uns notam que os elementos so cabais para uma
boa eleio, outros que h tal ou qual desorientao na movimentao, pouca
responsabilidade poltica, incluses, excluses, transposies; alguns mais
rspidos falam de um tumulto semelhante  confuso das lnguas. No posso dizer
at que ponto a segunda observao  verdadeira, nem se o fenmeno  inevitvel.
No distingo bem as palavras na multido de vozes que estamos ouvindo, mas  o
que me acontece com quase todos os cantores italianos ou nacionais. Parte da
culpa ser da articulao imperfeita; mas  preciso convir que o acompanhamento
da msica ajuda muito a falta de audincia. Eu por mim entendo as peras mais
pelos gestos que pelas palavras. Os coros ento so impossveis.

No meio da grande partitura desta
semana, apareceu uma atriz-cantora que aumentou a minha confuso. Atriz-cantora
 uma espcie de artista particular ao nosso clima, e no conta vinte anos de
existncia. Antigamente, havia na companhia Joo Caetano (dizem) uma D.
Margarida Lemos, incumbida de cantar alguma coisa no intervalo dos atos ou entre
o drama e a comdia. Era um modo de dar msica italiana aos freqentadores do
teatro dramtico. O Martinho (ainda o alcancei) cantava tambm nos intervalos
uma das suas melhores rias, mas era s ator. A atriz-cantora nasceu com a
Sra. Rosa Villiot, creio, ou com outra, no sei bem.  planta local. No digo
que se no recite e cante a um tempo; seria negar o vaudeville e negar o
francs, que o inventou; digo, sim, que o titulo dobrado  que  nosso.

Tudo isto para falar da confuso
eleitoral que me trouxe a Sra. Irene Manzoni. Vi este nome assinando um artigo,
com a dupla qualidade de atriz-cantora. Se ouvisse antes do titulo do artigo,
no se daria o que se deu; mas eu li primeiro o ttulo, era o nome de um senhor
que no conheo; imaginei uma candidatura poltica. A assinatura feminina era
nova; mas todas as velharias foram novidades, e o direito eleitoral da mulher 
matria de propaganda, de discusso e at de legislao. Gostei dever a novidade
da assinatura; eu sou daquela escola que no deixa secar a tinta de uma idia no
livro propagandista, e j quer ver aplicada. Fui talvez o primeiro que bradou
entre ns pela representao das minorias, sem embargo de no termos ainda
maioria,  ou por isso mesmo.

Corri ao artigo; era um
agradecimento e uma recomendao de no sei que xarope eficacssimo. Fiz o que
fazem todos os espritos de boa f: ca das nuvens. Depois lancei a apostrofe do
estilo: Mulher perversa, quem te deu o direito de intervir nas preocupaes
eleitorais por essa forma dbia, que parece recomendar mais um candidato, e
apenas louva uma droga e um droguista? Quem principalmente te ensinou a bulir
comigo? Disse ainda outras palavras fortes e acerbas; mas no pude acabar,
porque a reflexo veio logo com o seu passo lento e olhos baixos, e me disse o
que vou repetir no pargrafo que se segue.

Pode ser que o droguista seja
realmente um candidato e a droga um programa. Tem-se discutido se pode haver
agora programas polticos, e as opinies dividem-se, sendo uns pela afirmativa,
outros pela negativa. Talvez a droga seja veculo de idias. Suponhamos que 
adstringente; significar os planos radicais da pessoa. A droga emoliente
corresponder ao temperamento moderado das opinies. Assim a farmcia ter um
prstimo poltico, e a Sra. Irene Manzoni imitar, de longe, a Menenius Agripa.
Quando o povo romano quis castigar o senado para comprar mais barato o trigo,
sabe-se que foi aquele cidado, com o aplogo do estmago e dos membros do
corpo, que salvou a paz pblica. A fisiologia serviu assim de arma  poltica;
por que no servir a farmcia? a cirurgia? a medicina? Todas as comparaes
esto na natureza. A questo  sab-las achar e compor.

Quem, por exemplo, comparar a
eleio e a loteria ter achado uma idia, posto que bvia, interessante. O
cotejo da roda que anda com a urna que fala  o mais justo possvel, dada a
diferena nica, talvez, que no caso da urna eleitoral sempre se h de saber
quem tirou a sorte grande. Publica-se o nome, a pessoa aparece,  aclamada,
louvada, pode ser que descomposta, uma vez que as opinies so livres. Sendo
assim,  na quarta-feira que anda a roda. No conheo o plano desta loteria; no
sei se h terminaes premiadas, nem se se tira o mesmo dinheiro. Provavelmente
os bilhetes brancos sero muitos.  o que faz da eleio e da loteria uma
espcie de evangelho, onde tambm os chamados so muitos e os escolhidos
poucos.

Mas fora comparaes! Venhamos 
idia direta e nica. Trata-se de teu dia, povo soberano, rei sem coroa nem
herdeiro, porque s continuamente rei,  o dia em que tens de escolher os teus
ministros, a quem confias, no o principio soberano, que esse fica sempre em ti,
mas o exerccio do teu poder. Vais dar o que, por outras palavras, se chama
veredictum da opinio ou sentena das urnas.

Certo, o teu reino no  como a
ilha de Prspero; no tens a fora de criar tempestades, por mais que te arguam
delas. Sers o mar, quando muito; o vento  outro. Mais depressa seria eu o
Prspero do poeta; no qual este o criou, acabando por tornar ao seu ducado de
Milo e mandando embora os ministros das suas mgicas. Eu ficaria na ilha, com
os bailados e mascaradas. Quando muito, diria  velha poltica: Vai, Calib,
tartaruga, venenoso escravo! E a Anel: Tu fica, meu querido esprito. E no
sairia mais da ilha, nem por Milo, nem pelas milanesas. Comporia algumas peas
novas; diria  bela Miranda que jogasse comigo o xadrez, um jogo delicioso, por
Deus! imagem da anarquia, onde a rainha come o pio, o pio come o bispo, o
bispo come o cavalo, o cavalo come a rainha, e todos comem a todos. Graciosa
anarquia, tudo isso sem rodas que andem, nem urnas que falem!

4
de maro

Quando eu cheguei  seo onde
tinha de votar, achei trs mesrios e cinco eleitores. Os eleitores falavam do
tempo. Contavam os maiores veres que temos tido um deles opinava que o vero,
em si mesmo no era mau, mas que as febres  que o tornavam detestvel. A quanto
no ia a amarela? Chegaram mais trs eleitores, depois um, depois sete, que,
pelo ar, pareciam da mesma casa. Os minutos iam com aquele vagar do costume
quando a gente est com pressa. Mais trs eleitores. Nove horas e meia. Os
conhecidos faziam roda. Uns falavam mal dos gelados, outros tratavam do cmbio.
Um velho, ainda maduro, aventou uma boceta de rap. Foi uma alegria universal.
Com que, ainda tomava rap? No meu tempo, disse o velho sorrindo, era o melhor
lao de sociabilidade; agora todos fumam, e o charuto  egosta.

Nove e trs quartos. Trinta e
cinco eleitores. Alguns almoados. Os almoados interpretavam o regulamento
eleitoral diferentemente dos que o no eram. Da algumas conversaes
particulares  meia voz, dizendo uns que a chamada devia comear s dez horas em
ponto, outros que antes.

 Meus senhores, vai comear a
chamada, disse o presidente da mesa.

Eram dez horas, menos um minuto.
Havia quarenta e sete eleitores. Abriram-se as urnas, que foram mostradas aos
eleitores, a fim de que eles vissem que no havia nada dentro. Os cinco mesrios
j estavam sentados, com os livros, papis e penas. O presidente fez esta
advertncia:

 Previno aos Srs. eleitores que
as cdulas que contiverem nomes riscados e substitudos no sero apuradas; 
disposio da lei nova.

Quis protestar contra a lei nova.
Pareceu-me (e ainda me parece) opressiva da liberdade eleitoral. Pois eu escolho
um nome, para presidente da Repblica, suponhamos; ou senador, ou deputado que
seja; em caminho, ao descer do bond, acho que o nome no  to bom como o
outro, e no posso entrar numa loja, abrir a cdula e trocar o voto? No posso
tambm ceder a um amigo que me diga que a nossa amizade crescer se eu preferir
o Bernardo ao Bernardino? Que  ento liberdade?  o verso do poeta: E o que
escrevo uma vez nunca mais borro? Pelo amor de Deus! Tal liberdade  puro
despotismo, e o mais absurdo dos despotismos, porque faz de mim mesmo o dspota.
Obriga-me a no votar, ou a votar s dez e meia em pessoa que, pouco depois das
dez, j me parecia insuficiente. No  que eu tivesse de alterar as minhas
cdulas; mas defendo um principio.

Tinha comeado a chamada e
prosseguia lentamente para no dar lugar a reclamaes. Nove dcimos dos
eleitores no respondiam por isto ou por aquilo.

 Antonio Jos Pereira, chamava o
mesrio.

 Est na Europa, dizia um
eleitor, explicando o silncio.

 Poncio Pilatos!

 Morreu, senhor; est no
Credo.

Um eleitor, brasileiro
naturalizado, francs de nascimento, disse-me ao ouvido:

 Por que no se pe aqui a lei
francesa? Na Frana, para cada eleio h diplomas novos com o dia da eleio
marcado, de maneira que s serve para esse. Se fizssemos isto, no chamaramos
o Sr. Pereira, que desde 1889 vive em Paris, 28 bis, rua Breda, nem o procurador
da Judia, pela razo de que eles no teriam vindo tirar o diploma, oito dias
antes. Compreendeis?

 Compreendi; mas h tambm
abstenes.

 No haveria absteno de votos.
Os abstencionistas no teriam diplomas.

A chamada ia coxeando. Cada nome,
como de regra, era repetido, com certo intervalo, e eu estava trs quarteires
adiante. Queixei-me disto ao ex-francs, que me disse:

 Mas, senhor, tambm este mtodo
de chamar pelos nomes  desusado.

 Como  ento? Chama-se pelas
cores? pelas alturas? pelos nmeros das casas?

 No, senhor; abre-se o escrutino
por certo numero de horas; os eleitores vo chegando, votando e
saindo.

 Srio?

 Srio.

 No creio que nos Estados-Unidos
da Amrica...

Outro eleitor, brasileiro
naturalizado, norte-americano de nascimento, acudiu logo que l era a mesma
coisa.

 A mesma coisa, senhor. No se
esquea que o time is money  inveno nossa. No seriamos ns que
iramos perder uma infinidade de tempo a ouvir nomes. O eleitor entra,
vota, retira-se e vai comprar uma casa, ou vend-la. s vezes mais, vai
casar-se.

 Sem querer saber do resultado da
eleio?

 Perdo, o resultado h de
ser-lhe dito em altos brados na rua, ou em grandes cartazes levados por homens
pagos para isso. J tem acontecido a um noivo estar dizendo  noiva que a ama,
que a adora, e ser interrompido por um pregoeiro que anuncia a eleio do
presidente da Repblica. O noivo, que viveu dois meses em
meetings, bradando contra os republicanos, se  democrata, ou contra
os democratas, se  republicano, solta um hurrah cordial, e repete
que a ama, que a adora...

 Padre Diogo Antnio Feij!
prosseguia o mesrio.

Pausa.

 Padre Diogo Antnio Feij!

Pausa.

Eu gemia em silncio. Consultei o
relgio; faltavam sete minutos para as onze, e ainda no comeara o meu
quarteiro. Quis espairecer, levantei-me, fui at  porta, onde achei dois
eleitores, fumando e falando de moas bonitas. Conhecia-os; eram do meu
quarteiro. Um era o farmacutico Xisto, outro um jovem mdico, formado h um
ano, o Dr. Zzimo. Feliz idade! pensei comigo; as moas fazem passar o
tempo; e da talvez j tenham almoado...

Enfim, comeou o meu quarteiro;
respirei, mas respirei cedo, porque a lista era quase toda composta de
abstencionistas, e os nomes dos ausentes ou mortos gastam mais tempo, pela
necessidade de esperar que os donos apaream. Outra demora: cinco eleitores
fizeram a toilette das cdulas  boca da urna, quero dizer que ali mesmo
 que as fecharam, passando a cola pela lngua, alisando o papel com vagar, com
amor, quase que por pirraa. Para quem guarda Deus as paralisias repentinas? As
congestes cerebrais? As simples clicas? No me pareciam homens que pusessem os
princpios acima de uma pontada aguda. Mas Deus  grande! chegou a minha vez.
Votei e corri a almoar. Relevem a vulgaridade da ao. Tartufo, neste ponto,
emendaria o seu prprio autor:

Ah! pour tre lecteur, je n'en
suis pas moins homme.

11 de maro

Escrevo com o p no estribo.  um
modo de dizer que talvez esteja prestes a mudar de clima. Para onde, no sei. Se
consultasse o meu desejo, iria para a ilha da Trindade. Pelo que leio, foi um
cidado norte-americano, casado, com uma linda moa de New York, que entrou pela
ilha dentro, no achou viva alma, tomou conta do territrio e trata de
coloniz-lo. Dizem as notcias que a ilha ser um principado, e j tem o seu
braso; um tringulo de ouro com uma coroa ducal. Dizem mais que o posseiro
j embarcou para a Europa, a fim de ser reconhecido pelas potncias.
Justamente o contrrio do que eu faria; mas se os gostos fossem iguais, j no
haveria mundo neste mundo.

Eu, entrando que fosse na ilha,
comeava por no sair mais dela; far-me-ia rei sem sditos. Ficaramos trs
pessoas, eu, a rainha e um cozinheiro. Mais tarde, poetas e historiadores
concordariam em dizer que as trs pessoas da ilha  que deram ocasio ao ttulo
desta diferena  que os poetas diriam a coisa em verso, sem documentos, e os
historiadores di-la-iam em prosa com documentos. Entretanto, no s o ttulo 
anterior, como no haveria em mim a menor inteno simblica.

Rei sem sditos! Oh! sonho
sublime! imaginao nica! Rei sem ter a quem governar, nem a quem ouvir, nem
peties, nem aborrecimentos. No haveria partido que me atacasse, que me
espiasse, que me caluniasse, nem partido que me bajulasse, que me beijasse os p
que me chamasse sol radiante, leo indmito, cofre de virtudes, o ar e a vida do
universo. Quando me nascesse uma espinha na cara, no haveria uma corte inteira
para me dizer que era uma flor, uma aucena, que todas as pessoas bem
constitudas usavam por enfeite; nenhum, mais engenhoso que os outros,
acrescentaria: Senhor, natureza tambm tem as suas modas. Se eu perdesse um
p, no teria o desprazer de ver coxear os meus vassalos.

Entretanto, para que a mentira no
se pudesse supor exilada do meu reino, eu ensinaria  rainha e ao cozinheiro uma
geografia nova; dir-lhes-ia que a Terra era um po de acar, ou uma pirmide,
par ser mais egpcio, e que a minha ilha era o cume da pirmide. Tudo mais
estava abaixo. O sol no era propriamente um sol, mas um mensageiro que me
traria todos os dias as saudaes da parte inferior da terra. As estrelas, suas
filhas, incumbidas de velar-me  noite eram as aias destinadas unicamente ao rei
da Trindade.

 Mas tambm em New York h
estrelas e na Virgnia, e na Califrnia, diria a rainha da Trindade durante as
primeiras lies.

 Jasmim do cabo (este  o nome
que eu lhe daria), Jasmim do Cabo e do meu corao, as estrelas de New York, da
Califrnia e Virgnia no so filhas do sol, mas enteadas. Hs de saber que o
Sol  casado em segundas npcias com a Lua, que lhe trouxe todas e filhas que
operam l embaixo. As daqui so filhas dele mesmo; so as de raa pura e
divina.

E eu acabaria crendo nos meus
prprios sonhos, que  a vantagem deles, e a mais positiva do mundo. Prova disso
 a notcia da moratria dada esta semana a um comerciante, por credores de
cerca de sete mil contos. Foi tal o efeito que isto produziu em mim, que entrei
a supor-me devedor de sete, de dez, de vinte mil contos. Comecei por uma
pontinha de inveja; no pela moratria, que para mim seria indiferente; com ela
ou sem ela, o principal  dever tantos mil contos de ris. As pequenas dvidas
so aborrecidas como moscas. As grandes, logicamente. deviam ser terrveis como
lees, e so mansssimas.

Cri-me devedor dos sete mil
contos, tanto mais feliz quanto q no lidara com dinheiros to altos. Este
sonho, que afligiria a espritos menos sublimes, para mim foi tal que se
converteu em realidade, e no pude acabar de crer que no devia nada, quando o
meu cria me quis provar hoje de manh que todas as minhas pequenas contas
estavam pagas. As pequenas, creio; mas as grandes? Sim, eu devo, ainda, pelo
menos uns cinco mil contos. Que no possa dever vinte mil! Quem no prefere ser
devedor de vinte mil contos, a ser credor de quatro patacas?

Demais, tenho venerao aos
grandes nmeros. Acho que a marcha da civilizao explica-se pelo crescimento
numeroso dos sculos. Que podia ser o sculo IV em comparao com o sculo XIX?
Que poder ser o sculo XIX, em comparao com o sculo MDCCCXXXVIII? O maior
nmero implica maior perfeio.

Vede o obiturio.  medida que vai
crescendo, deixa de ser a lista vulgar dos outros dias: impe, aterra. J 
alguma coisa morrerem ara mais de cento e setenta pessoas. Podemos chegar a
duzentas e a trezentas. Certamente no  alegre; h espetculos mais joviais,
leituras mais leves; mas o interesse no est na leveza nem na alegria. A
tragdia  terrvel,  pavorosa, mas  interessante. Depois, se  verdade que os
mortos governam os vivos, tambm o  que os vivos vm dos mortos. Esta outra
idia  banal, mas no podemos deixar reconhecer que os alugadores de carros, os
cocheiros, os farmacuticos, os fsicos (para falar  antiga), os marmoristas,
os escrives, os juzes, alfaiates, sem contar a Empresa Funerria, ganham com o
que os outros perdem. Ex fumo dare lucem.

Mas deixemos nmeros tristes, e
venhamos aos alegres. O dos concorrentes literrios da Gazeta 
respeitvel. Por maior que seja a lista os escritos fracos, certo  que ainda
ficou boa soma de outros, e dos vencidos ainda os haver que pugnem mais tarde e
venam. Bom  que, no meio das preocupaes de outra ordem, as musas no tenham
perdido os seus devotos e ganhem novos. Magalhes de Azeredo, que ficou  frente
de todos, pode servir de exemplo aos que, tendo talento como ele, quiserem
perseverar do mesmo modo. Vivam as musas! belas moas antigas no envelhecem nem
desfeiam. Afinal  o  mais firme debaixo do sol.

18 de maro

Que se anunciou a batalha
do dia 13, recolhi-me a casa, disposto a no aparecer antes de tudo acabado.
Convidaram-me a subir a um dos morros, onde o perigo era muito menor que o sol;
mas o sol era grande. Nem a vista dos homens que passavam, desde manh, com
culos e binculos, me animou a ir tambm ver a batalha. A preguia ajudou o
temor, e ambos me ataram as pernas.

Em casa, ocorreu-me que podia ter
a viso da batalha, sem sol nem fadiga. Era bastante que me ajudasse o gnio
humano com o seu poder divino. A histria, por mais animada que fosse, no sei
se me daria a prpria sensao da coisa. A poesia era melhor; Homero, por
exemplo, com a Ilada. Nada mais apropriado que este poema. Tria, um
campo entre a cidade e os navios, e no campo e nos navios as tropas gregas. Aqui
as fortalezas e as balas formariam o campo.

Ouo uma objeo. A plvora no
estava inventada no tempo de Homero.  certo; mas tambm  certo que outras
coisas havia no tempo de Homero, que totalmente se perderam. Nem eu pedia mais
que a vista da realidade por sugesto da poesia.

Ao meio-dia, troando os primeiros
tiros, abri o poeta. Pouco a pouco fui mergulhando na ao cantada. As pancadas
que os cocheiros de bonds davam com os ps, para instigar as mulas,
cansadas de puxar tanta gente, j me pareciam o tumulto dos carros dos
guerreiros. Percebi o efeito da leitura. Quando o meu criado me levou ao
gabinete uma cajuada, cuidei que era a deusa Hebe que me servia uma taa de
nctar, e disse:

 Hebe divina, graas  tua
excelsa bondade, vou apreciar esta delcia, desconhecida aos homens.

Jos Rodrigues, com espanto de si
mesmo, retorquia-me:

 Tu s j um deus, tu ests no
prprio Olimpo, ao lado de Jpiter.

Vi que era assim mesmo. Mas, em
vez de entrar na luta dos homens, como os outros deuses, meus colegas, deixei-me
estar mirando o furor dos combates, o retinir das lanas nos broquis, o
estrondo das armaduras quebradas, o sangue que corria dos peitos, das pernas e
dos ombros, os homens que morriam e as vozes grandes de todos. Era belo ver os
deuses intervindo na pugna, disfarados em pessoas da terra, desviando os golpes
de uns, guiando a mo de outros, cobrindo a estes com uma nuvem opaca, faz-los
sair do campo, falando, animando, descompondo, se era preciso. Os seus prprios
ardis eram admirveis.

De quando em quando, a memria e o
ouvido juntavam-se  leitura, e a realidade ia de par com a fico. Assim, no
momento em que Marte, lanceado por Diomedes, volta ao Cu, onde Paeon lhe deita
um blsamo suavssimo, na ferida, que o faz sarar logo, veio-me  lembrana a
notcia lida naquela manh de estarem fechadas todas as farmcias da cidade,
menos a do Sr. Honrio Prado. Depois, quando o capacete de Agamenon recolhe os
sinais dos guerreiros, o arauto os agita, e, tira-se  sorte qual ser o valente
que ter de lutar com Heitor, ouvi, lembro-me bem que ouvi uma voz conhecida na
rua: Um resto! vinte contos! Tudo, porm, se confundia na minha imaginao; e
a realidade presente ou passada era prontamente desfeita na contemplao da
poesia.

Todos os guerreiros me apareciam,
com as armas homricas, rutilantes e fortes, com os seus escudos de sete e oito
couros de boi, cobertos de bronze, os arcos e setas, as lanas e capacetes.
Agamenon, rei dos reis, o divino Aquiles, Diomedes, os dois jax, e tu,
artificioso Ulisses, enfrentando com Heitor, com Enias, com Pris, com todos os
bravos defensores da santa lion. Via o campo coalhado de mortos, de armas, de
carros. As cerimnias do culto, as libaes e os sacrifcios vinham temperar o
espetculo da clera humana; e, posto que a cozinha de Homero seja mais
substancial que delicada, gostava de ver matar um boi, pass-lo pelo fogo e
com-lo com essa mistura de mel, cebola, vinho e farinha, que devia ser muito
grata ao paladar antigo.

A ao ia seguindo, com a
alternativa prpria das batalhas. Ora perdia um, ora outro. Este avanava at 
praia, depois recuava, terra dentro. O clamor era enorme, as mortes infinitas.
Heris de ambos os lados caam, ensopados em sangue. O terror desfazia as
linhas, a coragem as recompunha, e os combates sucediam aos combates. Eu, do
Olimpo, mirava tudo, tudo tranqilo como agora que escrevo isto. Minto; no
podia esquivar-me  comoo dos outros deuses. Assim, quando Ptroclo, vendo os
seus quase perdidos, saiu a combater com as armas de Aquiles, senti a grandeza
do espetculo; mas nem esse nem outro gosto algum pode ser comparado ao que me
deu o prprio Aquiles, quando soube que o amigo morrera s mos de
Heitor.

Vi, ningum me contou, vi as
lgrimas e a fria do heri. Vi-o sair com as novas armas que o prprio Vulcano
fabricou para ele; vi depois ainda novos e terrveis combates. No mais renhido
deles, desceram todos os deuses e dividiram-se entre os exrcitos, conforme as
suas simpatias. S ficamos Jpiter e eu. E disse-me o rei dos deuses:

 Annimo (chamo-te assim, porque
ainda no tens nome no Cu), contempla comigo este quadro no menos deleitoso
que acerbo. At os rios buscaram combater Aquiles; mas o filho de Peleu vencer
a todos.

No direi o que vi, nem o que
ouvi; teria de repetir aqui uma interminvel histria. Foi medonho e belo. Os
deuses, mais que nunca, ajudavam os homens. Momento houve em que eles prprios
combateram uns com outros, entre grandes palavradas, co, cadela, e muito murro,
muita pedrada, uma luta de raivas e despeitos. Enfim, Aquiles matou Heitor.
Jamais esquecerei as lamentaes das mulheres troianas. Assisti depois s festas
da vitria, corridas a cavalo e a p, o disco e o pugilato.

Eram seis horas da tarde, quando
me chamaram para jantar. Pessoas vindas dos morros prximos contaram que no
houvera batalha nenhuma; desmenti esse princpio de balela, referindo tudo o que
vira, que foi muito, longo e spero. No me deram crdito. Um insinuou que eu
tinha o juzo virado. Outro quis fazer-me crer que a fogueira em que ardiam os
restos de Heitor, era um simples incndio na ilha das Cobras. Os jornais esto
de acordo com os meus contraditores; mas eu prefiro crer em Homero, que  mais
velho.

25 de maro

A semana foi santa,  mas
no foi a semana santa que eu conheci, quando tinha a idade de mocinho nascido
depois da guerra do Paraguai. Deus meu! H pessoas que nasceram depois da guerra
do Paraguai! H rapazes que fazem a barba, que namoram, que se casam, que tm
filhos, e, no obstante, nasceram depois da batalha de Aquidab! Mas ento que 
o tempo?  a brisa fresca e preguiosa de outros anos, ou este tufo impetuoso
que parece apostar com a eletricidade? No h dvida que os relgios, depois da
morte de Lpez, andam muito mais depressa. Antigamente tinham o andar prprio de
uma quadra em que as notcias de Ouro Preto gastavam cinco dias para chegar ao
Rio de Janeiro. Ia-se a So Paulo por Santos. Ainda assim, na semana, os
estudantes de Direito desciam a Serra de Cubato e vinham tomar o vapor de
Santos para o Rio. Que digo? Caso houve em que vieram unicamente assistir 
primeira representao de uma pea de teatro. Lembras-te, Ferreira de Meneses?
Lembras-te, Sizenando Nabuco? No respondem; creio que esto mortos.

A vou escorrendo para o passado,
coisa que no interessa no presente. O passado que o jovem leitor h de saborear
 o presente l para 1920, quando os relgios e os almanaques criarem asas.
Ento, se ele escrever nesta coluna, aos domingos, ser igualmente inspido com
as suas recordaes:

Tempo houve (dir ele) em que o
primeiro Fronto da Rua do Ouvidor, descendo,  esquerda, perto da Rua de
Gonalves Dias, era uma confeitaria, Confeitaria Pascoal. Este nome, que nenhuma
comoo produz na alma do rapaz nascido com o sculo, acorda em mim saudades
vivssimas. A casa da mesma rua, esquina da dos Ourives, onde ainda ontem
(perdoem ao guloso) comprei um excelente paio, era uma casa de jia, pertencente
a um italiano, um Farani, Csar Farani, creio, na qual passei horas excelentes.
Fora, fora, memrias importunas!

Assim poder escrever o leitor, em
1920, nesta ou noutra coluna para os jovens desse ano no ser menos
aborrecido.

Mas, por isso mesmo que os h de
enfadar, deixe-me enfad-lo um pouco, repetindo que a semana santa que acabou
ontem ou acaba hoje no  a semana santa anterior  passagem do Passo da Ptria
ou ao ltimo ministrio Olinda.

As semanas santas de outro tempo
eram, antes de tudo, muito mais compridas. O Domingo de Ramos valia por trs. As
palmas que traziam das igrejas eram muito mais verdes que as de hoje, mais e
melhor. Verdadeiramente j no h verde. O verde de hoje  um amarelo escuro. A
segunda-feira e a tera-feira eram lentas, no longas; no sei se percebem a
diferena. Quero dizer que eram tediosas, por serem vazias. Raiava, porm, a
quarta-feira de trevas; era princpio de uma srie de cerimnias, e de ofcios,
de procisses, sermes de lgrimas, at o Sbado de Aleluia, em que a alegria
reaparecia, e finalmente o Domingo de Pscoa que era a chave de ouro.

Tenho mais critrio que meu
sucessor de 1920; no quero mat-lo com algumas notcias que ele no h de
entender. Como entender, depois da passagem de Humait, que as procisses do
enterro, uma de So Francisco de Paula, outra do Carmo, eram to compridas que
no acabavam mais? Como pintar-lhe os andores, as filas de tochas inumerveis,
as Marias Bes, segundo a forma popular, o centurio, e tantas outras partes da
cerimnia, no contando as janelas das casas iluminadas, acolchoadas e
atapetadas de moas, bonitas,  moas e velhas  porque j naquele tempo havia
algumas pessoas velhas, mas poucas. Tudo era da idade e da cor das palmas
verdes. A velhice  uma idia recente. Data do bero de um menino que vi nascer
com o ministrio Sinimbu. Antes deste,  ou mais exatamente, antes do ministrio
Rio Branco,  tudo era juvenil no mundo, no juvenil de passagem, mas
perpetuamente juvenil. As excees, que eram raras, vinham confirmar a
regra.

No entendereis nada. Nem sei se
chegareis a entender o que sucedeu agora, indo ver o ofcio da Paixo em uma
igreja. Outrora, quando de todo o Sermo da Montanha eu s conhecia o
Padre-Nosso, a impresso que recebia era muito particular, uma mistura de f e
de curiosidade, um gosto de ver as luzes, de ouvir os cantos, de mirar as alvas
e as casulas, o hissope e o turbulo. Entrei na igreja. A gente no era muita;
sabe-se que parte da populao est fora daqui. Metade dos fiis ali presentes
eram senhoras, e senhoras de chapu. Nunca me esqueceu o escndalo produzido
pelos primeiros chapus que ousaram entrar na igreja em tais dias; escndalo sem
tumulto, nada mais que murmurao. Mas o costume venceu a repugnncia e os
chapus vo  missa e ao sermo. Algumas senhoras rezavam por livros, outras
desfiavam rosrios, as restantes olhavam s ou rezariam mentalmente. No quero
esquecer um velho cantor de igreja, que ali achei, e que, em criana, ouvira
cantar nas festas religiosas; creio que nunca fez outra coisa, salvo o curto
perodo em que o vi no coro da defunta pera Nacional. Que idade teria?
Sessenta, setenta, oitenta...

Soou o cantocho. Chegou-me o
incenso. A imaginao deixou-se-me embalar pela msica e inebriar pelo aroma,
duas fortes asas que a levaram de oeste a leste. Atrs dela foi o corao,
tornado  simpleza antiga. E eu ressurgi, antes de Jesus. E Jesus apareceu-me
antes de morto e ressuscitado, como nos dias em que rodeava a Galilia, e,
abrindo os lbios, disse-me que a sua palavra d soluo a tudo.

 Senhor, disse eu ento, a vida 
aflitiva, e a est o Eclesiastes que diz ter visto as lgrimas dos inocentes, e
que ningum os consolava.

 Bem-aventurados os que choram,
porque eles sero consolados.

 Vede a injustia do mundo. Nem
sempre o prmio  dos que melhor correm, diz ainda o Eclesiastes, e tudo
se faz por encontro e casualidade.

 Bem-aventurados os que tm fome
e sede de justia, porque eles sero fartos.

 Mas  ainda o Eclesiastes
que proclama haver justos, aos quais provm males...

 Bem-aventurados os que so
perseguidos por amor da justia, porque deles  o reino do Cu.

E assim por diante. A cada palavra
de lstima respondia Jesus com uma palavra de esperana. Mas j ento no era
ele que me aparecia, era eu que estava na prpria Galilia, diante da montanha,
ouvindo com o povo. E o sermo continuava. Bem aventurados pobres de esprito.
Bem aventurados os pacficos. Bem-aventurados os mansos...

1
de abril

Enfim! Vai entrar em discusso no
Conselho Municipal o projeto que ali apresentou o Sr. Dr. Capelli, sobre
higiene. Ainda assim, foi preciso que o autor o pedisse, anteontem. J tenho
lido que o Conselho trabalha pouco, mas no aceito em absoluto esta afirmao.
Conselho Municipal ou Cmara Municipal, a instituio que dirige os servios da
nossa velha e boa cidade, foi sempre objeto de censuras, s vezes com razo,
outras sem ela, como alis acontece a todas as instituies humanas.

Trabalhe pouco ou muito,  de
estimar que traga para a discusso o projeto do Sr. Dr. Capelli. Se ele no
resolve totalmente a questo higinica, nem a isso se prope, pode muito bem
resolv-la em parte. No entro no exame dos seus diversos artigos; basta-me o
primeiro. O primeiro artigo estabelece concurso para a nomeao dos comissrios
de higiene, que se chamaro de ora avante inspetores sanitrios.

 discutvel a idia do concurso.
No me parece claro que melhore o servio, e pode no passar de simples iluso.
O artigo, porm, dispe, como ficou dito, que os comissrios de higiene se
chamem de ora avante inspetores sanitrios, e essa troca de um nome para outro 
meio caminho andado para a soluo. Os nomes velhos ou gastos tornam caducas as
instituies. No se melhora verdadeiramente um servio deixando o mesmo nome
aos seus oficiais.  do Evangelho, que no se pe remendo novo em pano velho. O
pano aqui  a denominao. O prprio Conselho Municipal tem em si um exemplo do
que levo dito. Cmara Municipal no era mau nome, tinha at um ar democrtico;
mas estava pudo. O nome criou a personagem da coisa, e a m fama levou consigo
a obra e o ttulo. Conselho Municipal, sendo nome diverso, exprime a mesma idia
democrtica,  bom e  novo.

Outro exemplo, e de fora. Sabe-se
que a Cmara dos Lords est arriscada a descambar no ocaso, ou a
ver-se muito diminuda. No duvido que os seus ltimos atos tenham dado lugar 
guerra que lhe movem, com o prprio chefe do governo  frente, se  certo o que
nos disse h pouco um telegrama. Mas quem sabe se, trocando oportunamente o
ttulo, no teria ela desviado o golpe iminente, embora ficasse a mesma coisa,
ou quase?

Conta-se de um homem (creio que j
referi esta anedota) que no podia achar bons copeiros. De dois em dois meses,
mandava embora o que tinha, e contratava outro. Ao cabo de alguns anos chegou ao
desespero; descobriu, porm, um meio com que resolveu a dificuldade. O copeiro
que o servia ento, chamava-se Jos. Chegado o momento de substitu-lo,
pagou-lhe o aluguel e disse:

 Jos, tu agora chamas-te
Joaquim. Vai pr o almoo, que so horas.

Dois meses depois, reconheceu que
o copeiro voltava a ser insuportvel. Fez-lhe as contas, e concluiu:

 Joaquim, tu passas agora a
chamar-te Andr. Vai l para dentro.

F-lo Joo, f-lo Manuel, f-lo
Marcos, f-lo Rodrigo, percorreu toda a onomstica latina, grega, judaica,
anglo-saxnia, conseguindo ter sempre o mesmo ruim criado, sem andar a busc-lo
por essas ruas. Entendamo-nos; eu creio que a ruindade desaparecia com a
investidura do nome, e voltava quando este principiava a envelhecer. Pode ser
tambm que no fosse assim, e que a simples novidade do nome trouxe ao amo a
iluso da melhoria. De um ou de outro modo, a influncia dos nomes 
certa.

Por exemplo, quem ignora a vida
nova que trouxe ao ensino da infncia a troca daquela velha tabuleta Colgio de
Meninos por esta outra Externato de Instruo Primria? Concordo que o
aspecto cientfico da segunda forma tenha parte no resultado; antes dele, porm,
h o efeito misterioso da simples mudana. Mas eu vou mais longe.

Vou to longe, que ouso crer nas
reabilitaes histricas, unicamente ou quase unicamente pelo alterao do nome
das pessoas. O atual processo para esses trabalhos  rever os documentos,
avaliar as opinies, e contar os fatos, comparar, retificar, excluir, incluir,
concluir. Todo esse trabalho  intil, se no trocar o nome por outro.
Messalina, por exemplo. Esta imperatriz chegou  celebridade do substantivo, que
 a maior a que pode aspirar uma criatura real ou fingida: uma messalina, um
tartufo. Se quiserdes tir-la da lama histrica, em que ela caiu, no vos
bastar esgravatar o que disseram dela os autores; arranca-lhe violentamente
o nome. Chama-lhe Anastcia. Quereis fazer uma experincia? Pegai
em Suetnio e lede com o nome de Anastcia tudo o que ele se refere de
Messalina;  outra coisa. O asco diminui, o horror afrouxa, o escndalo
desaparece; e a figura emerge, no digo para o cu, mas para uma colina. Em
histria, o ocupar uma colina  alguma coisa. Gregorovius, como outros autores
deste sculo, quis reabilitar Lucrcia Brgia; acho que o fez, mas esqueceu-se
de lhe mudar o nome, e toda gente continua a descomp-lo em prosa com Victor
Hugo, ou em verso e por msica com Donizetti.

Voltando aos comissrios de
higiene, futuros inspetores sanitrios, repito que o servio melhorar muito com
essa alterao do ttulo, e no  pouco. Mas  preciso que, sem diz-lo na lei,
nem no parecer, nem nos debates, fiquem todos combinados em alterar
periodicamente o ttulo, desde que o servio precise reforma. No me compete
lembrar outros, nem me ocorre nenhum. Digo s que, passados mais quatro ou cinco
ttulos, no ser m poltica voltar ao primeiro. Os nomes tm, s vezes, a
propriedade de criar pele nova, s com o desuso ou descanso. Comissrio de
higiene, que vai ser descalado agora, desde que repouse alguns anos, ficar com
sola nova e taco direito. Assim acontecesse aos meus sapatos!

8
de abril

Quinta-feira  tarde, pouco mais
de trs horas, vi uma coisa to interessante, que determinei logo de comear por
ela esta crnica. Agora, porm, no momento de pegar na pena, receio achar no
leitor menor gosto que eu para um espetculo, que lhe parecer vulgar, e
porventura torpe. Releve-me a impertinncia; os gostos no so
iguais.

Entre a grade do jardim da Praa
Quinze de novembro e o lugar onde era o antigo passadio, ao p dos trilhos de
bonds, estava um burro deitado. O lugar no era prprio para remanso de
burros, donde conclu que no estaria deitado, mas cado. Instantes depois,
vimos (eu ia com um amigo), vimos o burro levantar a cabea e meio corpo. Os
nossos furavam-lhe a pele, os olhos meio mortos fechavam-se de quando em quando.
O infeliz cabeceava, mas to frouxamente, que parecia estar prximo do
fim.

Diante do animal havia algum capim
espalhado e uma lata com gua. Logo, no foi abandonado inteiramente; alguma
piedade houve no dono ou quem quer que  que o deixou na praa, com essa ltima
refeio  vista. No foi pequena ao. Se o autor dela  homem que leia
crnicas, e acaso ler esta, receba daqui um aperto de mo. O burro no comeu do
capim, nem bebeu da gua; estava para outros capins e outras guas, em campos
mais largos e eternos.

Meia dzia de curiosos tinham
parado ao p do animal. Um deles, menino de dez anos, empunhava uma vara, e se
no sentia o desejo de dar com ela na anca do burro para espert-lo, ento eu
no sei conhecer meninos, porque ele no estava do lado do pescoo, mas
justamente do lado da anca. Diga-se a verdade; no o fez  ao menos enquanto ali
estive, que foram poucos minutos. Esses poucos minutos, porm, valeram por uma
hora ou duas. Se h justia na terra, valero por um sculo, tal foi a
descoberta que me pareceu fazer, e aqui deixo recomendada aos
estudiosos.

O que me pareceu,  que o burro
fazia exame de conscincia. Indiferente aos curiosos, como ao capim e  gua,
tinha no olhar a expresso dos meditativos. Era um trabalho interior e profundo.
Este remoque popular: por pensar morreu um burro mostra que o fenmeno
foi mal entendido dos que a princpio o viram; o pensamento no  a causa da
morte, a morte  que o torna necessrio. Quanto  matria do pensamento, no h
dvida que  o exame da conscincia. Agora, qual foi o exame da conscincia
daquele burro,  o que presumo ter lido no escasso tempo que ali gastei. Sou
outro Champollion, porventura maior; no decifrei palavras escritas, ms idias
ntimas de criatura que no podia exprimi-las verbalmente.

E diria o burro
consigo:

Por mais que vasculhe a
conscincia, no acho pecado que merea remorso. No furtei, no menti, no
matei, no caluniei, no ofendi nenhuma pessoa. Em toda a minha vida, se dei
trs coices, foi o mais, isso mesmo antes de haver aprendido maneiras de cidade
e de saber o destino do verdadeiro burro, que  apanhar e calar. Quanto ao
zurro, usei dele como linguagem. Ultimamente  que percebi que me no entendiam,
e continuei a zurrar por ser costume velho, no com idia de agravar ningum.
Nunca dei com homem no cho. Quando passei do tlburi ao bond, houve
algumas vezes homem morto ou pisado na rua, mas a prova de que a culpa
no era minha,  que nunca segui o cocheiro na fuga; deixava-me estar aguardando
a autoridade.

Passando a ordem mais elevada de
aes, no acho em mim a menor lembrana de haver pensado sequer na perturbao
da paz pblica. Alm de ser a minha ndole contrria a arruaas, a prpria
reflexo me diz que, no havendo nenhuma revoluo declarando os direitos do
burro, tais direitos no existem. Nenhum golpe de Estado foi dado em favor dele;
nenhuma coroa os obrigou. Monarquia, democracia, oligarquia, nenhuma forma de
governo, teve em conta os interesses d minha espcie. Qualquer que seja o
regmen, ronca o pau. O pau  a minha instituio um pouco temperada pela teima,
que , em resumo, o meu nico defeito. Quando no teimava, mordia freio, dando
assim um bonito exemplo de submisso e conformidade. Nunca perguntei por sis
nem chuvas; bastava sentir o fregus o tlburi ou o apito do bond, para
sair logo. At aqui os males que no fiz; vejamos os bens que
pratiquei.

A mais de uma aventura amorosa
terei servido, levando depressa tlburi e o namorado  casa da namorada  ou
simplesmente empacando em lugar onde o moo que ia no bond podia mirar a
moa que estava na janela. No poucos devedores terei conduzido para longe de um
credor importuno. Ensinei filosofia a muita gente, esta filosofia que consiste
na gravidade do porte e na quietao dos sentidos. Quando algum homem, desses
que chamam patuscos, queria fazer rir os amigos, fui sempre em auxlio dele,
deixando que me desse tapas e punhadas na cara. Enfim...

No percebi o resto, e fui
andando, no menos alvoroado que pesaroso. Contente da descoberta, no podia
furtar-me  tristeza de que um burro to bom pensador ia morrer. A considerao,
porm, de que todos os burros devem ter os mesmos dotes principais, fez-me ver
que os que ficavam, no seriam menos exemplares que esse. Por que se no
investigar mais profundamente o moral do burro? Da abelha j se escreveu que 
superior ao homem, e da formiga tambm, coletivamente falando, isto , que as
suas instituies polticas so superiores s nossas, mais racionais. Por
que no suceder o mesmo ao burro, que  maior?

Sexta-feira, passando pela Praa
Quinze de novembro, achei o animal j morto.

Dois meninos, parados,
contemplavam o cadver, espetculo repugnante; mas a infncia, como a cincia, 
curiosa sem asco. De tarde j no havia cadver nem nada. Assim passam os
trabalhos desse mundo. Sem exagerar o mrito do finado, fora  dizer que, se
ele no inventou a plvora, tambm no inventou a dinamite. J  alguma
coisa neste final de sculo. Requiescat in pace.

15 de abril

Tudo est na China. De quando em
quando aparece notcia nas folhas pblicas de que um invento, de que a gente
supe da vspera, existe na China desde muitos sculos. Esta Gazeta, para no ir
mais longe, ainda anteontem noticiou que o socialismo era conhecido na China
desde o sculo XI. Os propagandistas da doutrina diziam ento que era preciso
destruir o velho edifcio social. Verdade seja que muito antes do sculo XI se
formos  Palestina, acharemos nos profetas muita coisa que h quem diga que 
socialismo puro. Por fim, quem tem razo  ainda o Eclesiastes: Nihil sub
sole novum.

A notcia da Gazeta deu-me que
pensar. Creio que j li (ou estarei enganado) que o telefone tambm existia na
China, antes do descoberto pelos americanos. O velocpede no sei, mas 
possvel que l exista igualmente, no com o mesmo nome, porque os chins teimam
em falar chins, mas com outro que signifique a mesma coisa ou d o som
aproximado da forma original. O bond vero que  j usado naquelas
partes, talvez com outros cocheiros e condutores. No falo dos grandes inventos
que tiveram bero naquela terra prodigiosa.

Confesso que, s vezes,  a
prpria China que est com a gente ocidental. H dias, por exemplo, houve aqui
no conselho municipal um trecho de debate que talvez haja passado despercebido
ao leitor ocupado com outros negcios. Um dos conselheiros reclamando contra
alguns apartes que lhe puseram na boca, afirmou estranh-los tanto mais quanto
que nenhuma razo via para proferi-los. E acrescentou, explicando-se: Eu sou
dos poucos que ouvem os discursos do meu colega. Outro conselheiro protestou,
dizendo que era dos muitos. Mas o reclamante insistiu que dos poucos, e lembrou
que, por ocasio do ltimo discurso, ele estivera ao p da meia, outro ao p da
porta, algum sentado, creio que, ao todo, havia uns cinco ouvintes. Se na China
h conselhos municipais  e tudo h nela   provvel que os debates tenham
desses clares sbitos.

O que a China no faz,  deixar os
seus trajes velhos, nem o arroz, nem o pagode, nem nada. Quando eu vejo a nas
ruas algum filho do Celeste Imprio mascarado com as nossas roupas crists,
cai-me o corao aos ps. Imagino o que ter padecido essa triste alma
desterrada, sem as vestes com que veio da terra natal. Jovem leitor, eu os vi a
todos os que aqui amanheceram um dia e se fizeram logo quitandeiros de mariscos.
Vi-os correr por essas ruas fora, vestidos  sua maneira, longa vara ao ombro e
um cesto pendente em cada ponta da vara. Ao italiano, que o substituiu, falta a
novidade, a cara feia, a perna fina, rija e rpida...

Mas basta de chins e de incrus.
Venhamos  nossa terra. No nos aflijamos se o socialismo apareceu na China
primeiro que no Brasil. C vir a seu tempo. Creio at que h j um esboo dele.
Houve, pelo menos, um princpio de questo operria, e uma associao de
operrios, organizada para o fim de no mandar operrios  cmara dos deputados,
o contrrio do que fazem os seus colegas ingleses e franceses. Questo de meio e
de tempo. C chegar; os livros j a esto h muito; resta s traduzi-los e
espalh-los. Mas basta principalmente de incrus; venhamos aos
cristos.

Tivemos esta semana uma cerimnia
rara. Uma moa de 23 anos recebeu o vu de irm conversa da Congregao dos
Santos Anjos. No assisti  cerimnia, mas pessoa que l esteve, diz-me que foi
tocante. Eu quisera ter ido tambm para contemplar essa moa que d demo ao
mundo e suas agitaes, troca o piano pelo rgo, e o figurino vrio como a
fortuna pelo vestido nico e perptuo de uma congregao.

Certo, o espetculo devia ser
interessante.  comum amar a Deus e  modista, ouvir missa e pera, no ao mesmo
tempo, mas a missa de manh e a opera de noite. Casos h em que se ouvem as duas
coisas a um tempo, mas ento no  opera,  opereta, como nos d o carrilho de
S. Jos, que chama os fieis pela voz de D. Juanita, ou coisa que o valha.
No h maldizer do duplo ofcio do ouvido, uma vez que se oua a missa de um
modo e a opera de outro... Isto leva-me a interromper o que ia dizendo, para
publicar uma anedota.

H muitos anos, houve aqui um
tenor italiano, chamado Gentili, que fez as delcias, como se costuma dizer, da
populao carioca. Esteve aqui mais de uma estao lrica, talvez trs ou
quatro. Era simptico, patusco e benquisto. Fisionomia alegre, baixo, um tanto
calvo, se me no engana a memria, e olhos vivos. Fez o que fazem tenores,
cantou, amou, bateu-se em cenas pelas amadas, arrebatou-as algumas vezes, salvou
a me da fogueira, como no Trovador, viu-se entre duas damas, como na Norma,
assaltou castelos, tudo com grandes aplausos, at que se foi embora, como sucede
a tenores e diplomatas. Passaram anos. Um dia, um amigo meu, o C. C. P.,
viajando pela Itlia, achava-se, no me lembro onde, e no posso mandar agora
perguntar-lho. Suponhamos que em Palermo. Era manh, domingo, saiu de casa e foi
 missa. Esperou; da a pouco entrou o padre e subiu ao altar. Deus eterno! Era
o Gentili. Duvidou a principio; mas sempre que o celebrante mostrava o rosto,
aparecia o tenor. Podia ser algum irmo. Acabada a missa, correu o meu amigo 
sacristia; era ele, o prprio, o nico, o Gentili. Foi visit-lo depois, falaram
do Rio de Janeiro e dos tempos passados. Vieram nomes de c, fatos, um mundo de
reminiscncias e saudades, que, se no eram inteiramente de Sio, tambm no
eram de Babilnia. O padre era jovial, sem destempero.

Como ia dizendo, a cerimnia da
recepo do vu deve ter sido interessante. Que no temos muitas vocaes
religiosas, parece coisa sabida. Ontem, vendo descer de um bond um
seminarista, lembrei-me da carta recente do ex-bispo do Rio de Janeiro, em que
trata da escassez de padres ordenados no nosso seminrio,  um por ano, h vinte
anos. No tendo estatsticas  mo, nem papel bastante, concluo aqui
mesmo.

22 de abril

Uma das nossas folhas deu notcia
de haver morrido em Paris uma bailarina, que luziu nos ltimos anos do imprio,
e deixa no menos de trs milhes de francos. Trs milhes! Abenoadas pernas!
Pernas dignas de serem fundidas em ouro e penduradas em um templo de gata ou
safira! Onde est Fdias, que no as transfere ao mrmore eterno? Que msculos,
que sangue, que tecidos as fizeram Que mestre as instruiu? Trs
milhes!

Alguns cariocas ho de lembrar-se
de uma bailarina que aqui houve, h bastantes anos, chamada Riciolini. Era um
destroo, creio eu, de algum corpo de baile antigo. Como o pblico de ento no
dispensava algumas piruetas, qualquer que fosse a pea da noite, tragdia ou
comdia, Olgiato ou Fantasma Branco, a Riciolini danava muitas vezes; mas no
consta, ainda assim, que deixasse trs milhes. Questo de data, questo de
meio. A evoluo, porm, pode levar esta cidade aos trs, aos quatro, aos cinco
milhes. Este ltimo quarto de sculo  o principio de uma era nova e
extraordinria.

E  aqui que eu pego os
anarquistas. Como j esto em S. Paulo, no  preciso levantar muito a voz para
ser ouvido alm do Atlntico. Concordo com eles que a sociedade est mal
organizada; mas para que destru-la? Se a questo  econmica, a reforma deve
ser econmica; abramos mos dos sonhos legislativos de Bebel, de Liebknecht, de
Proudhon, de todos os que procuram, mais generosos que prudentes, concertar as
costelas deste mundo. O remdio est achado. A repartio das riquezas faz-se
com pouco, trs rabecas, um regente de orquestra, uma batuta e
pernas.

Quando a arte se contentava com
ser gloriosa, as pernas rendiam pouco. Vestris, o famoso deus da dana do sculo
passado no sei se deixou vintm. O filho de Vestris, to hbil que diziam dele
que, para no vexar os colegas, punha algumas vezes os ps no cho, no foi
mais nababo que o pai. Entretanto, em monografia que se publicou h pouco,
referem-se os tumultos, paixes, aclamaes, havidos por causa dele,
verdadeiramente populares e gloriosos.

Quem l a correspondncia de
Balzac, fica triste, de quando em quando, ao ver as aflies do pobre diabo,
correndo abaixo e acima,  cata de dinheiro, vendendo um livro futuro para pagar
com o preo uma letra e o aluguel da casa, e metendo-se logo no gabinete para
escrever o livro vendido, entreg-lo, imprimi-lo, e correr outra vez a buscar
dinheiro com que pague o aluguel da casa e outra letra. Glria e
dvidas!

Vede agora Zola.  o sucessor de
Balzac. Talento pujante, grande romancista, mas que pernas! Como Vestris Junior,
pe algumas vezes os ps no cho. Inventou passos extraordinrios e complicados,
todos os de Citera, inclusive o da vaca. Inventou o sapateado de Jesus Cristo,
com aquele famoso passo a dois do canap. Trabalha agora no bailado religioso de
Lourdes. Gloria e trs milhes.

Questo de data. Balzac foi
contemporneo da nossa Riciolini. Zola da bailarina que acaba de falecer. Os
resultados correspondem-se. Trago essas duas figuras principais, com o fim de
comparar as situaes, e tambm para mostrar que a arte da dana no edifica,
apenas destri e altera. Com ela, o anarquismo dispensa todas as artes, no se
fazendo mais que ao violenta e arrasadora. Para que livros? No se iro compor
frases, mas decomp-las; no se tratar j de metforas, mas de formas de
linguagem diretas e positivas.

Como disse, porm, o remdio est
achado:  a pirueta. Quando toda a gente danar,  claro que ningum ganhar
trs milhes, mas cada pessoa pode ganhar dois, um que seja.  quanto basta para
universalizar as riquezas, e acabar de vez com o duelo do capital e do trabalho.
Um que dana hoje, ir amanh para a platia ver danar os outros, e danar
outra vez, e assim se alternaro os bailarinos; a arte ganhar, no menos que as
algibeiras. Mas as mos? As mos serviro de instrumento ao esprito. A orao,
a escrita, as artes, o gesto no parlamento, o adeus, a saudao, o juramento de
vria espcie, judicirio ou amoroso, tudo o que  gratuito ou sublime, caberia
s mos. S o lucro pertenceria aos ps. Eis a o homem dividido mais
racionalmente do que at agora; eis a a sociedade reconstituda e a criao
acabada.

Certamente que isto se no far em
vinte e quatro horas, nem em vinte e quatro semanas; tudo precisa de noviciado,
e as melhores construes so as que levam mais tempo. Comparam uns chamados
chalets que a h, com o convento da Ajuda; os chalets vo-se com
os aluguis, o convento, quando o quiserem deitar abaixo, h de custar.
Instituam-se desde j cadeiras de dana em todos os estabelecimentos de ensino,
pblicos e particulares. Outrora aprendia-se a danar por mestre, e era apenas
uma prenda, igual ao piano. Que no ser quando a dana for uma instituio
social e definitiva?

Corrijam-se as lnguas no sentido
da reforma. Emendem-se os adgios. Dize-me com quem danas, dir-te-ei quem s.
Quem no dana, no mama. O frade onde dana, a janta. Invente-se uma filosofia
em que todas as coisas provenham da dana; e mostre-se que a tentao de Eva no
paraso foi o primeiro exemplo da dana das serpentes. Pinte-se o Criador com
uma batuta de fogo na mo, tirando do nada um grande bailado.

Quando todos danarem, a vida ser
alegre, e a prpria morte no ser morte, mas transferncia de benefcio ou
rompimento de contrato. Assim se dar ao mundo, alm de justia, o prazer.
Nenhuma diviso, nenhuma tristeza entre os homens. Antes disso, ai de ns! h de
correr muita gua para o mar.

6
de maio

A pessoa que me substituiu na
semana passada, em vez de me mandar os ltimos sacramentos, veio mofar de mim
coram populo. Entretanto,  certo que estive  morte, e s por milagre
ainda respiro. So assim os homens. O vil interesse os guia; almas baixas, duras
e negras, no vem no mal de um amigo outra coisa mais que uma ocasio de
brilhar. No falemos nisto. Desde pequeno, ouo dizer que a m ao fica com
quem a faz.

Estive doente, muito doente. Que 
que me salvou? A falar verdade, no sei. A primeira coisa que me receitaram, foi
a medicina do padre Kneipp. Este padre, que, em vez de curar as almas, deu para
tratar dos corpos, tem-me aborrecido grandemente. No o li a principio. Desde
que percebi que se tratava de nova teraputica, imaginei que era uma das muitas
descobertas que vi nascer, crescer e morrer, como aquela de que j aqui falei e
falarei sempre que vier a propsito  o xarope do Bosque, que Deus haja. Assisti
 carreira brilhante desse preparado nico. Que outro houve, nem haver jamais,
que se lhe compare? Curava tudo e todos, integralmente. Pessoas circunspetas
afirmavam t-lo visto arrancar do leito morturio cadveres amortalhados, que
descruzavam as mos, pediam alguma coisa, mudavam de roupa, e no dia seguinte
iam para os seus empregos. Alguns desses cadveres, por serem mais nervosos,
escapavam da molstia, mas faleciam segunda vez do temor que lhes causava a
prpria mortalha. Esses no saravam mais, visto que o xarope no se obrigava a
curar da segunda morte, mas s da primeira. Nem todos, porm, so nervosos, e
salvou-se muita gente.

Se a gua do padre Kneipp  isto,
far sua carreira; no  preciso quebrar-me os ouvidos com anncios. Foi o que
pensei; mas afinal li alguma coisa sobre o invento e achei interesse. Realmente,
no s cura e ressuscita, como  a mais gratuita das farmcias deste mundo. S o
que parece custar algum dinheiro,  a roupa, que h j feita e apropriada; o
mais  a gua, que Deus d. gua e pouca. Venha de l a inveno, disse eu, e,
lembrando-me que era cisma dos nossos indgenas que a gua da Carioca adoava a
voz da gente, imaginei mandar busc-la ao grande chafariz histrico. Era um modo
de adquirir a sade e o d do peito. O meu fiel criado Jos Rodrigues fez-me
ento algumas ponderaes, no sentido de dizer que gua sem alma dificilmente
pode dar vida a ningum.

 Pois se ela no a tem em si,
como h de d-la a um homem?

 Mas que chamas tu gua sem alma?
perguntei-lhe.

 Senhor, a alma da gua
(perdoe-me vosmec que lhe ensine isto)  a uva. Ponha-lhe dois ou trs dedos do
tinto, e beba-a, em vez de se meter nela;  o que lhe digo. O vendeiro da
esquina podia muito bem, agora ainda a esse doutor Naipe... Naipe de que? h de
ser copas, de certo. Copas como elas se pintavam nas cartas antigas, que eram o
que chamamos copos  copos de beber.

 No  isso:  Kneipp.

 Ou o que quer que seja, que a
mim nunca me importaram nomes, desde que no sejam cristos. Pois o vendeiro da
esquina, como ia dizendo, podia muito bem vend-la pura, e ganhava dinheiro; mas
 consciencioso, pe-lhe uns dois dedos de alma, e  o que eu bebo todos os
dias. Vosmec sabe que sade  a deste seu criado. gua no corpo de um homem,
pelo lado de fora, isso d maleitas, senhor; eu tive umas sezes, h muitos
anos, que com certeza foram obra de um banho frio que me deram pelo entrudo. O
banho deve ser pouco e morno, para a limpeza que Deus ama, contanto que nos no
leve a sustncia, que  o principal...

 A sustncia  a liquidao do
acervo da Geral...

 No me fale nisso, patro! Eu j
lhe pedi que me no falasse em semelhante bandalheira.

E, perguntando-lhe eu que lhe
parecia do plano de vender em leilo o acervo da companhia, ou combinar em um
negocio, para ver se vendia alguma coisa mais, vi-o meditar profundamente, e
depois soltar um suspiro to grande, que pareceu trazer-lhe as entranhas para
fora. Ho de lembrar-se que este pobre diabo  portador de debntures.
Acabado o suspiro, disse-me que havia sido to comido neste negocio, que no
podia escolher, e que o melhor de tudo era passar-me os papeluchos por cem mil
ris; no queria saber mais nada. Ponderei-lhe que isto nem era imitar o
vendeiro da esquina, pois esse deitava dois dedos de alma na gua, e o que ele
me queria vender, era gua pura ou impura, gua sem nada. Concordou que assim
era, mas que, sendo eu mais atilado que ele, acharia maneira de descobrir alguma
coisa, ainda que fosse um micrbio  porque os micrbios (ficasse eu certo
disso), com os progressos da cincia em que vamos, ainda acabam alimentando a
gente em vez de nos pr a espinhela abaixo. De si no achava escolha; at os
dois caminhos que lhe mostravam, leilo ou combinao, no sabia em qual deles
devia meter o p, salvo se fosse p de verso, porque as duas palavras rimavam;
mas no se tratando de poesia, e sim de dinheiro, que  a prosa do bom cristo,
no acabava de saber se era melhor vender hoje por nada ou amanh por menos.
Concluiu...

No concluiu; eu  que, para
estancar-lhe o discurso, ordenei que fosse ao chafariz da Carioca buscar um
barril dgua. Saiu e fiquei esperando. No havia passado meia hora, voltou Jos
Rodrigues  casa, sem gua, cheio de espanto. O chafariz no tinha gua. A gua
nica que achou, escorria a um lado, no cho, em frente  rua de S. Jos; mas
no era gua comum, nem pela cor, nem pelo cheiro, e ainda assim ouviu que por
causa da chuva  que o cheiro era pouco; em havendo sol, fortalece-se mais e
parece botica. Perguntou a um morador do lugar se ali continuavam pousar ou
dormir os cavalos e burros dos bonds da Companhia Jardim Botnico; soube
que no, que ali s iam homens, e de passagem, em quantidade grande, e a
qualquer hora do dia ou da noite, e mais ainda de dia que de noite.

Eu, que conheo a minha gente,
percebi que a lembrana da Geral o havia transtornado muito, tal era a confuso
das palavras, a trapalhice das idias. Ordenei-lhe que se recolhesse e dormisse.
Ficando s, levantei-me, vesti-me e sa; quando tornei a casa, estava so e
salvo. Qual foi o remdio que me curou, no sei; talvez a vista de algum mais
doente que eu. Uma vez curado, quis mandar um cartel de desafio  pessoa que me
substituiu na semana passada, exigindo satisfao das injurias que me lanou
nesta mesma coluna. Adverti que era tempo perdido. Homem que l Tu, s tu,
puro amor, no se bate, suspira. Ergo bibamus, como diz
Goethe:

Ich hate mein freundliches
Liebchen geseh'n,
Da dacht' ich mir: Ergo
bibamus!

13 de maio

Escreveu um grande pensador, que a
ultima coisa que se acha, quando se faz uma obra,  saber qual  a que se h de
pr em primeiro lugar. A cmara dos deputados, com a escolha do presidente,
prova que esta mxima pode ser tambm poltica. E eu gosto de ver a poltica
entrar pela literatura; anima a literatura a entrar na poltica, e dessa troca
de visitas  que saem as amizades. Mas ser amigo no  intervir no governo da
casa dos outros. Os sonetos podem continuar a ser feitos sem o regimento da
cmara, e os discursos, uma vez que sejam eloqentes, claros, sinceros,
patriticos, no precisam de arabescos literrios. Portanto, aqui me fico, em
relao ao presidente, atestando pela coincidncia que o dito de Pascal no 
to limitado como ele supunha.

J no fao a mesma coisa com
relao ao presidente do conselho municipal. Releve o digno representante do
nosso distrito que lhe diga: acho que, para presidente, faz amiudados discursos.
Ainda esta semana, deixou a cadeira presidencial para discutir um projeto. No
acho esttico. A esttica  o nico lado por onde vejo os negcios pblicos; no
sei de praxes nem regras.  possvel at que as regras e praxes fundamentem o
meu modo de ver, mas eu fico na esttica.

Note-se que, a respeito do
Instituto Comercial, talvez tenha alguma razo o presidente. No li o projeto;
mas pode ser que haja ensino de mais, sem que eu queira com isto aceitar o
gracioso exemplo alegado por um intendente, a saber: que os aougueiros, sem
estudos acadmicos, sabem muito bem que um quilo pesa setecentas e cinqenta
gramas. Isto apenas mostra vocao. H vocaes sem estudos. Mas os estudos
servem justamente para afiar, armar, dar asas s vocaes. Um homem que, alm de
conhecer o peso prtico do quilo, souber cientificamente que a lebre  uma
exagerao do gato, exagerao intil, e acaso perigosa, renovar a alimentao
pblica sem deixar de enriquecer.

Quaisquer, porm, que sejam as
opinies, insisto em que o presidente deve presidir. Uma das qualidades do cargo
 a impassibilidade. O senador Nabuco, combatendo um dia a interveno imperial
na luta dos partidos, citou o lance do poema de Homero, quando Vnus desce entre
os combatentes e sai ferida por um deles. O poder moderador  a Vnus, concluiu
Nabuco. Sabe-se que esse ilustre jurisconsulto intercalava o Pegas com Homero, e
chegava ao extremo (desconfio) de achar Homero ainda superior ao Pegas. Eu, sem
conhecer o Pegas, sou de igual opinio. Apliquemos a comparao ao nosso caso; 
a mesma coisa. A presidncia precisa ser, no s imparcial, mas
impassvel.

Ah! no falemos de
impassibilidade, que me faz lembrar um caso ocorrido na matriz da Glria.
Imaginai que era a hora da missa. Havia na igreja pouca gente, era cedo, umas
vinte pessoas ao todo. Senhoras ajoelhadas, outras sentadas, homens em p,
esperando. Profundo silncio. Eis que aparece o sacristo com uma toalha.
Imediatamente, algumas senhoras, que estavam orando, mudaram de lugar e foram
ajoelhar-se mais acima, em fila. O sacristo estendeu diante delas a toalha, em
que cada uma pegou com os dedos. J percebeis que iam comungar.

Desaparece o sacristo, e torna
alguns segundos depois, acompanhando o padre. Conheceis a cerimnia; no 
preciso entrar em minudncias. O padre foi buscar o cibrio. Chegou s
penitentes, tendo ao lado o sacristo com uma tocha acesa. Tambm conheceis o
gesto e as palavras: Senhor, eu no sou digno, etc. Ia j na terceira penitente,
quando sucedeu uma coisa extraordinria. Aqui  que eu quisera ver trabalhar a
imaginao das pessoas que me lem. Cada qual adivinhar a seu modo o que poder
ter acontecido, quando o padre ia dando a sagrada partcula  penitente.
Trabalhai, dramaturgos e romancistas; forjai de cabea mil coisas novas ou
complicadas, escandalosas ou terrveis, e ainda assim no atinareis com o que
sucedeu na matriz da Gloria, naquele instante em que o padre ia dar  penitente
a sagrada partcula.

Sucedeu isto: o sacristo
distraiu-se, ou fraqueou-lhe a mo, inclinou a tocha, e a manga da sobrepeliz do
padre pegou fogo. O melhor modo de julgar um caso  p-lo em si. Que farias tu?
Fogo no brinca nem espera. Tu saltavas; adeus, cibrio! adeus, particular!
penitentes, adeus! E se no te acudissem a tempo, o fogo ia andando, voando,
podias morrer queimado, que  das piores mortes deste mundo, onde s  boa a de
Csar. Pois foi o contrario, meu amigo.

O padre viu o fogo e no se mexeu,
no deixou cair a partcula dos dedos, nem o cibrio da mo, no deu um passo,
no fez um gesto. Disse apenas ao sacristo, em voz baixa: Apague. E o
sacristo, atarantado, s pressas, com as mos tratou de abafar o fogo que ia
subindo. O padre olhava s, esperando. Quando o fogo morreu, inclinou-se para a
penitente e continuou tranqilo: Senhor, eu no sou digno...

Padre que eu no conheo, recebe
daqui as minhas invejas, se essa impassibilidade  o teu estado ordinrio. Se
foi ato de virtude, esforo do esprito sobre o corpo, pela conscincia da
santidade do ofcio e da gravidade do momento, s tambm invejvel, e
relativamente mais invejvel. Mas eu contento-me com o menos, padre amigo.
Basta-me a impassibilidade natural, no ser abalado por nenhuma coisa, nem do
cu nem da terra, nem por fogo nem por gua. Esta  meia liberdade, meu caro
levita do Senhor, ou antes toda, se  certo que no a h inteira; mas eu no
estou aqui para discutir questes rduas ou insolveis.

Mire-se no espelho que a lhe
deixo, o presidente do conselho municipal. Quando a discusso lhe fizer o mesmo
efeito da chama na sobrepeliz do padre da Glria, no deixe a cadeira para
atalhar o incndio; diga ao sacristo que apague. O sacristo dos leigos  o
tempo. No me retruque que no pode. Ainda agora um digno intendente, entrando
em ltima discusso este ltimo artigo de um projeto: Ficam revogadas as
disposies em contrrio, pediu a palavra para examinar todo o projeto,
confessando nobremente, lealmente, que, quando se discutiram os outros artigos,
estava distrado. Ora, eu no li que o presidente redargisse com afabilidade e
oportunidade: Mas, meu caro colega, nos no estamos aqui para nos distrairmos.
Salvo se o taqugrafo eliminou por sua conta o reparo; mas se os taqugrafos
passam a governar os debates, melhor  que componham logo os discursos e os
atribuam a quem quiser. Os supostos oradores, faro apenas os gestos. Quem sabe?
Ser talvez a ultima perfeio dos corpos legislativos.

20 de maio

Creio em poucas coisas, e uma das
que entram no meu credo,  a justia, tanto a do cu quanto a da terra, assim a
pblica como a particular. Alm da f, tinha a vocao, e, mais dia menos dia,
no seria de estranhar que propusesse uma demanda a algum. O adgio francs diz
que o primeiro passo  que  difcil; autuada a primeira petio, iriam a
segunda e a terceira, a dcima e a centsima, todas as peties todas as formas
de processo, desde a ao de dez dias at  de todos os sculos.

Tal era o meu secreto impulso,
quando o Instituto dos Advogados teve a idia de escrever e votar que a justia
no  exercida, porque dorme ou conversa, no sabe o que diz, tudo de mistura
com uma historia de leiloeiros, sndicos e outras coisas que no entendi bem.
Como nos grandes dias do romantismo, senti um abismo aberto a meus ps. A f,
que abala montanhas, chegou a ficar abalada em si mesma, e estive quase a perder
uma das partes do meu credo. Concertei-o depressa; mas no  provvel que nestes
meses mais prximos litigue nada ou querele de ningum. Poupo as custas, 
verdade, do mesmo modo que poupo o dinheiro, no assinando um lugar no teatro
lrico; quem me dar Lohengrin e um libelo

Entretanto, sem examinar o
captulo da conversao nem o dos leiloeiros, creio que a inconsistncia ou
variedade das decises pode ser vantajosa em alguns casos. Por exemplo, um dos
nossos magistrados decidiu agora que a briga de galos no  jogo de azar, e no
o fez s por si, mas com vrios textos italianos e adequados. Realmente,  e sem
sair da nossa lngua,  parece que no h maior azar na briga de galos que na
corrida de cavalos, pelotaris e outras instituies. O fato da aposta no
muda o carter da luta. Dois cavalos em disparada ou dois galos s cristas so,
em principio, a mesma coisa. As diferenas so exteriores. H os palpites na
corrida de cavalos, prenda que a briga de galos ainda no possui, mas pode vir a
ter. Os cavalos no se distinguem uns dos outros. Enfim, parece que j chegamos
 economia de fazer correr s os nomes sem os cavalos, no havendo o menor
desaguisado na diviso dos lucros. Desceremos s silabas, depois s letras; no
iremos aos gestos, que  o exerccio do pick-pocket.

Sim, no  jogo de azar; mas se a
sentena fosse outra, podia no ser legal, mas seria justa, ou quando menos,
misericordiosa. Os galos perdem a crista na briga, e saem cheios de sangue e de
dio; no  o brio que os leva, como aos cavalos, mas a hostilidade natural, e
isto no lhes di somente a eles, mas tambm a mim. Que briguem por causa de uma
galinha, est direito; as galinhas gostam que as disputem com alma, se so
humanas, ou com o bico, se so propriamente galinhas. Mas que briguem os galos
para dar ordenado a curiosos ou vadios, est torto.

Se o homem, como queria Plato, 
um galo sem penas, compreende-se esta minha linguagem; trato de um semelhante,
defendendo a prpria espcie. Mas no  preciso tanto. Pode ser tambm que haja
em mim como que um eco do passado. O espiritismo ainda no chegou ao ponto de
admitir a encarnao em animais, mas l h de ir, se quiser tirar todas as
conseqncias da doutrina. Assim que, pode ser que eu tenha sido galo em alguma
vida anterior, h muitos anos ou sculos. Concentrando-me, agora, sinto um eco
remoto, alguma coisa parecida com o canto do galo. Quem sabe se no fui eu que
cantei as trs vezes que serviram de prazo para que S. Pedro negasse a Jesus?
Assim se explicaro muitas simpatias.

S a doutrina esprita pode
explicar o que sucedeu a algum, que no nomeio, esta mesma semana.  homem
verdadeiro; encontrei-o ainda espantado. Imaginai que, indo ao gabinete de um
cirurgio dentista, achou ali um busto, e que esse busto era o de Ccero. A
estranheza do hospede foi enorme. Tudo se podia esperar em tal lugar, o busto de
Cadmo, alguma alegoria que significasse aquele velho texto: Aqui h ranger de
dentes, ou qualquer outra composio mais ou menos anloga ao ato; mas que
ia fazer Ccero naquela galera? Prometi  pessoa, que estudaria o caso e lhe
daria daqui a explicao.

A primeira que me acudiu, foi que,
sendo Ccero orador por excelncia, representava o nobre uso da boca humana, e
consequentemente o da conservao dos dentes, to necessrios  emisso ntida
das palavras. Como bradaria ele as catilinrias, sem a integridade daquele
aparelho? Essa razo, porm, era um pouco remota. Mais prxima que essa, seria a
notcia que nos d Plutarco, relativamente ao nascimento do orador romano;
afirma ele,  e no vejo por onde desmenti-lo, que Ccero foi parido sem dor.
Sem dor! A supresso da dor  a principal vitria da arte dentria. O busto do
romano estaria ali como um smbolo eloqente,  to eloqente como o prprio
filho daquela bendita senhora. Mas esta segunda explicao, se era mais prxima,
era mais sutil; pu-la de lado.

Refleti ainda, e j desesperava da
soluo, quando me acudiu que provavelmente Ccero fora dentista em alguma vida
anterior. No me digam que no havia ento arte dentria; havia a China, e na
China,  como observei aqui h tempos,  existe tudo, o que no existe,  porque
j existiu. Ou dentista, ou um daqueles mandarins que sabiam proteger as artes
teis, e deu nobre impulso  cirurgia da boca. Tudo se perde na noite dos
tempos, meus amigos; mas a vantagem da cincia,  e particularmente da cincia
esprita,   clarear as trevas e achar as coisas perdidas.

Um sabedor dessa escola vai dar em
breve ao prelo um livro, em que se vero a tal respeito revelaes
extraordinrias. H nele espritos, que no s vieram ao mundo duas e trs
vezes, mas at com sexo diverso. Um tempo viveram homens, outro mulheres. H
mais! Um dos personagens veio uma vez e teve uma filha; quando tornou, veio o
filho da filha. A filha, depois de nascer do pai, deu o pai  luz.

Algum dia (creio eu) os espritos
nascero gmeos e j casados. Ser a perfeio humana, espiritual e social.
Cessar a aflio das famlias, que buscam aposentar as moas, e dos rapazes que
procuram consortes. Viro os casais j prontos, danando o minueto da gerao...
Haver assim grande economia de espritos, visto que os mesmos iro mudando de
consortes, depois de um pequeno descanso no espao.

Nessa promiscuidade geral dos
desencarnados, pode suceder que os casais se recomponham, e aps duas ou trs
existncias com outros, Ado tornar a nascer com Eva, Fausto com Margarida,
Filemon com Baucis. Mas a perfeio das perfeies ser quando os espritos
nascerem de si mesmos. Com alguns milhes deles se ir compondo este mundo, at
que, pela decadncia natural das coisas, baste um nico esprito dentro da nica
e derradeira casa de sade.  abismo dos abismos!

27 de maio

Morreu um rabe, morador na rua do
Senhor dos Passos. No h que dizer a isto; os rabes morrem e a rua do Senhor
dos Passos existe. Mas o que vos parece nada, por no conhecerdes sequer esse
rabe falecido, foi mais um golpe nas minhas reminiscncias romnticas. Nunca
desliguei o rabe destas trs coisas: deserto, cavalo e tenda. Que importa
houvesse uma civilizao rabe, com alcaides e bibliotecas? No falo da
civilizao, falo do romantismo, que alguma vez tratou do rabe civilizado, mas
com tal aspecto, que a imaginao no chegava a desmembrar dele a tenda e o
cavalo.

Quando eu cheguei  vida, j o
romantismo se despedia dela. Uns versos tristes e chores que se recitavam em
lngua portuguesa, no tinham nada com a melancolia de Ren, menos ainda com a
sonoridade de Olimpio. J ento Gonalves Dias havia publicado todos os seus
livros. No confundam este Gonalves Dias com a rua do mesmo nome; era um homem
do Maranho, que fazia versos. Como ele tivesse morado naquela rua, que se
chamava dos Latoeiros, uma folha desta cidade, quando ele morreu, lembrou 
cmara municipal que desse o nome de Gonalves Dias  dita rua. O Sr. Malvino
teve igual fortuna, mas sem morrer, afirmando-se ainda uma vez aquela lei de
desenvolvimento e progresso, que os erros dos homens e as suas paixes no
podero jamais impedir que se execute.

Cumpre lembrar que, quando falo da
morte de Gonalves Dias, refiro-me  segunda, porque ele morreu duas vezes, como
sabem. A primeira foi de um boato. Os jornais de todo o Brasil disseram logo,
estiradamente, o que pensavam dele, e a notcia da morte chegou aos ouvidos do
poeta como os primeiros ecos da posteridade. Este processo, como experincia
poltica, pode dar resultados inesperados. Eu, deputado ou senador, recolhia-me
a alguma fazenda, e ao cabo de trs meses expedia um telegrama, anunciando que
havia morrido. Conquanto sejamos todos benvolos com os defuntos recentes,
sempre era bom ver se na gua benta das necrologias instantneas no cairiam
algumas gotas de fel. Tal que houvesse dito do orador vivo, que era uma das
bocas de ouro do parlamento, podia ser que escrevesse do orador morto, que se
nunca se elevou s culminncias da tribuna poltica, jamais aborreceu aos que o
ouviam.

A propsito de orador, no
esqueamos dizer que temos agora na cmara um deputado Lamartine, e que
estivemos quase a ter um Chateaubriand. Estes dois nomes significam certamente o
entusiasmo dos pais em relao aos dois homens que se tornaram famosos.
Recordem-se do espanto que houve na Europa, e especialmente em Frana, quando a
revoluo de Quinze de Novembro elevou ao governo Benjamin Constant. Perguntaram
se era francs ou filho de francs. Neste ltimo caso, no sei se foi o homem
poltico ou o autor de Adolfo, que determinou a escolha do nome. Os Drs.
Washington e Lafaiete foram evidentemente escolhidos por um pai republicano e
americano. Que concluo daqui? Nada, em relao aos dois ltimos; mas em relao
aos primeiros acho que  ainda um vestgio de romantismo. Estou que as opinies
polticas de Lamartine e Chateaubriand no influram para o batismo dos seus
homnimos, mas sim a poesia de um e a prosa de outro. Foi homenagem aos cantores
de Elvira e de Atal, no ao inimigo de Bonaparte, nem ao domador da insurreio
de junho.

Vede, porm, o destino. No so s
os livros que tm os seus fados; tambm os nomes os tm. Os portadores
brasileiros daqueles dois nomes so agora meramente polticos. Assim, a amorosa
superstio dos pais achou-se desmentida pelo tempo, e os nomes no bastaram
para dar aos filhos idealidades poticas. No obstante esta limitao, devo
confessar que me afligiu a leitura de um pequeno discurso do atual deputado. No
foi a matria, nem a linguagem; foi a senhoria. H casos em que as formulas
usuais e corteses devem ser, por exceo, suprimidas. Quando li: O Sr.
Lamartine, repetido muitas vezes, naquelas grossas letras normandas do
Dirio Oficial, senti como que um sacudimento interior. Esse nome no permite
aquele ttulo; soa mal. A glria tem desses nus. No se pode trazer um nome
imortal como a simples gravata branca das cerimnias. Ainda ontem vieram
falar-me dos negcios de um Sr. Lenidas; creio que rangeram ao longe os ossos
do grande homem.

Mas tudo isso me vai afastando do
meu pobre rabe morto na rua do Senhor dos Passos. Chamava-se Assef Aveira. No
conheo a lngua arbica, mas desconfio que o segundo nome tem feies crists,
salvo se h erro tipogrfico. Entretanto, no foi esse nome o que mais me
aborreceu, depois da residncia naquela rua, sem tenda nem cavalo; foi a
declarao de ser o rabe casado. No diz o obiturio se com uma ou mais
mulheres; mas h nessa palavra um aspecto de monogamia que me inquieta. No
compreendo um rabe sem Alcoro, e o Alcoro marca para o casamento quatro
mulheres. Dar-se- que esse homem tenha sido to corrompido pela monogamia
crist, que chegasse ao ponto de ir contra o preceito de Mafoma? Eis a outra
restrio ao meu rabe romntico.

No me demoro em apontar as
obrigaes da carta de fiana, da conta do gs e outras necessidades prosaicas,
to alheias ao deserto. O pobre rabe trocou o deserto pela rua do Senhor dos
Passos, cujo nome lembra aqueles religionrios, em quem seus avs deram e de
quem receberam muita cutilada. Pobre Assef! Para cmulo, morreu de febre
amarela, uma epidemia exausta  fora de civilizao ocidental, to diversa do
clera-morbo, essa peste medonha e devastadora como a espada do
profeta.

Miservel romantismo, assim te
vais aos pedaos. A anemia tirou-te a pouca vida que te restava, a corrupo no
consente sequer que fiquem os teus ossos para memria. Adeus, rabes! adeus,
tendas! adeus, deserto! Cimitarras, adeus! adeus!

3
de junho

No mistureis alhos com bugalhos;
 o melhor conselho que posso dar s pessoas que lem de noite na cama. A noite
passada, por infringir essa regra, tive um pesadelo horrvel. Escutai; no
perdereis os cinco minutos de audincia.

Foi o caso que, como no tinha
acabado de ler os jornais de manh, fi-lo  noite. Pouco j havia que ler, trs
notcias e a cotao da praa. Notcias da manh, lidas  noite, produzem sempre
o efeito de modas velhas, donde concluo que o melhor encanto das gazetas est na
hora em que aparecem. A cotao da praa, conquanto tivesse a mesma feio, no
a li com igual indiferena, em razo das recordaes que trazia do ano terrvel
(1890-91). Gastei mais tempo a l-a e rel-la. Afinal pus os jornais de lado, e,
no sendo tarde, peguei de um livro, que acertou de ser Shakespeare. O drama era
Hamlet. A pgina, aberta ao acaso, era a cena do cemitrio, ato V. No h que
dizer ao livro nem  pagina; mas essa mistura de poesia e cotao de praa, de
gente morta e dinheiro vivo, no podia gerar nada bom; eram alhos com
bugalhos.

Sucedeu o que era de esperar; tive
um pesadelo. A princpio, no pude dormir; voltava-me de um lado para outro,
vendo as figuras de Hamlet e de Horcio, os coveiros e as caveiras, ouvindo a
bailada e a conversao. A muito custo, peguei no sono. Antes no pegasse!
Sonhei que era Hamlet; trazia a mesma capa negra, as meias, o gibo e os cales
da mesma cor. No sei se vos lembrais ainda de Rossi e de Salvino? Pois era a
mesma figura. Era mais: tinha a prpria alma do prncipe de Dinamarca. At a
nada houve que me assustasse. Tambm no me aterrou ver, ao p de mim, vestido
de Horcio, o meu fiel criado Jos. Achei natural: ele no o achou menos. Samos
de casa para o cemitrio; atravessamos urna rua que nos pareceu ser a Primeiro
de Maro e entramos em um espao que era metade cemitrio, metade sala. Nos
sonhos h confuses dessas, imaginaes duplas ou incompletas, mistura de coisas
opostas, dilaceraes, desdobramentos inexplicveis; mas, enfim, como eu era
Hamlet e ele Horcio, tudo aquilo devia ser cemitrio. Tanto era, que ouvimos
logo a um dos coveiros esta estrofe:

Era um ttulo novinho,
Valia mais de oitocentos;

Agora que est velhinho

No chega a valer
duzentos.

Entramos e escutamos. Como na
tragdia, deixamos que os coveiros falassem entre si, enquanto faziam a cova de
Oflia. Mas os coveiros eram ao mesmo tempo corretores, e tratavam de ossos e
papis. A um deles ouvia bradar que tinha trinta aes da Companhia Promotora
das Batatas Econmicas. Respondeu-lhe outro que dava cinco mil ris por elas.
Achei pouco dinheiro e disse isto mesmo a Horcio, que me respondeu, pela boca
de Jos: Meu senhor, as batatas desta companhia foram prsperas enquanto os
portadores dos ttulos no as foram plantar. A economia da nobre instituio
consistia justamente em no plantar o precioso tubrculo; uma vez que o
plantassem, era indcio certo da decadncia e da morte.

No entendi bem; mas os coveiros,
fazendo saltar caveiras do solo, iam dizendo graas e apregoando ttulos.
Falavam de bancos, do Banco nico, do Banco Eterno, do Banco dos Bancos, e os
respectivos ttulos eram vendidos ou no, segundo oferecessem por eles sete
tostes ou duas patacas. No eram bem ttulos nem bem caveiras; eram as duas
coisas juntas, urina fuso de aspectos, letras com buracos de olhos, dentes por
assinaturas. Demos mais alguns passos, at que eles nos viram. No se admiraram;
foram indo com o trabalho de cavar e vender.  Cem da Companhia Balsmica! 
Trs mil ris. - So suas.  Vinte e cinco da Companhia Salvadora!  Mil ris! 
Dois mil ris!  Dois mil e cem!  E duzentos!  E quinhentos!  So
suas.

Cheguei-me a um, ia a falar-lhe,
quando fui interrompido pelo prprio homem:
 Pronto Alvio! meus senhores!
-Dez do Banco Pronto Alvio! No do nada, meus senhores? -- Pronto Alvio!
senhores... Quanto do? Dois tostes! Oh! no! no! valem mais! Pronto Alvio!
Pronto Alvio! O homem calou-se afinal, no sem ouvir de outro coveiro que,
como alvio, o banco no podia ter sido mais pronto. Faziam trocadilhos, como os
coveiros de Shakespeare. Um deles, ouvindo apregoar sete aes do Banco Pontual,
disse que tal banco foi realmente pontual at o dia em que passou do ponto 
reticncia. Como esprito, no era grande coisa; da a chuva de tbias que caiu
em cima do autor. Foi uma cena lgubre e alegre ao mesmo tempo. Os coveiros
riam, as caveiras riam, as arvores, torcendo-se aos ventos da Dinamarca,
pareciam torcer-se de riso, e as covas abertas riam,  espera que fossem chorar
sobre elas.

Surdiram muitas outras caveiras ou
ttulos. Da Companhia Exploradora de Alm-Tumulo apareceram cinqenta e quatro,
que se venderam a dez ris. O fim desta companhia era comprar para cada
acionista um lote de trinta metros quadrados no Paraso. Os primeiros ttulos,
em maro de 1891, subiram a conto de ris; mas se nada h seguro neste mundo
conhecido, pode hav-lo no incognoscvel? Esta dvida entrou no esprito do
caixa da companhia, que aproveitou a passagem de um paquete transatlntico, para
ir consultar um telogo europeu, levando consigo tudo o que havia mais
cognoscvel entre os valores. Foi um coveiro que me contou este antecedente da
companhia. Eis aqui, porm, surdiu uma voz do fundo da cova, que estavam
abrindo. Uma debnture! Uma debnture!

Era j outra coisa. Era uma
debnture. Cheguei-me ao coveiro, e perguntei que era que estava dizendo.
Repetiu o nome do ttulo. Uma debnture?  Uma debnture. Deixe
ver, amigo. E, pegando nela, como Hamlet, exclamei, cheio de
melancolia:

 Alas, poor Iorick! Eu a
conheci, Horcio. Era um ttulo magnfico. Estes buracos de olhos foram
algarismos de brilhantes, safiras e opalas. Aqui, onde foi nariz, havia um
promontrio de marfim velho lavrado; eram de ncar estas faces, os dentes de
ouro, as orelhas de granada e safira. Desta boca saam as mais sublimes
promessas em estilo alevantado e nobre. Onde esto agora as belas palavras de
outro tempo? Prosa eloqente e fecunda, onde param os longos perodos, as frases
galantes, a arte com que fazias ver a gente cavalos soberbos com ferraduras de
prata e arreios de ouro? Onde os carros de cristal, as almofadas de cetim?
Dize-me c, Jos Rodrigues.

 Meu senhor...

 Crs que uma letra de Scrates
esteja hoje no mesmo estado que este papel?

 Seguramente.

 Assim que, uma promessa de
dvida do nobre Scrates no ser hoje mais que uma debnture
escangalhada?

 A mesma coisa.

 At onde podemos descer,
Horcio! Uma letra de Scrates pode vir a ter os mais tristes empregos deste
mundo; limpar os sapatos, por exemplo. Talvez ainda valha menos que esta
debnture.

 Saber Vossa Senhoria que eu no
dava nada por ela.

 Nada? Pobre Scrates! Mas
espera, calemos-nos, a vem um enterro.

Era o enterro de Oflia. Aqui o
pesadelo foi-se tornando cada vez mais aflitivo. Vi os padres, o rei e a rainha,
o squito, o caixo. Tudo se me fez turvo e confuso. Vi a rainha deitar flores
sobre a defunta. Quando o jovem Laertes saltou dentro da cova, saltei tambm;
ali dentro atracamo-nos, esbofeteamo-nos. Eu suava, eu matava, eu sangrava, eu
gritava...

 Acorde, patro!
acorde!

10 de junho

Ontem de manh, indo ao jardim,
como de costume, achei l um burro. No leram mal, no est errado (como na
Semana passada, em que saiu Banco Unio, em vez de Banco nico); no,
meus senhores, era um burro de carne e osso, de mais osso que carne. Ora, eu
tenho rosas no jardim, rosas que cultivo com amor, e que me querem bem, que me
sadam todas as manhs com os seus melhores cheiros, e dizem sem pudor coisas
muito galantes sobre as delcias da vida, porque eu no consinto que as
cortem do p. Ho de morrer onde nasceram.

Vendo o burro naquele lugar,
lembrei-me de Lucius, ou Lucius da Tesslia, que, s com mastigar algumas rosas,
passou outra vez de burro a gente. Estremeci, e,  confesso a minha ingratido,
 foi menos pela perda das rosas, que pelo terror do prodgio. Hipcrita, como
me cumpria ser, saudei o burro com grandes reverncias, e chamei-lhe Lucius. Ele
abanou as orelhas, e retorquiu:

 No me chamo Lucius.

Fiquei sem pinga de sangue; mas
para no agrav-lo com demonstraes de espanto, que lhe seriam duras,
disse:

 No? Ento o nome de Vossa
Senhoria...?

 Tambm no tenho senhoria. Nomes
s se do a cavalos, e quase exclusivamente a cavalos de corrida. No leu hoje
telegramas de Londres, noticiando que nas corridas de Oaks venceram os cavalos
Fulano e Sicrano? No leu a mesma coisa quinta-feira, a respeito das
corridas de Epsom? Burro de cidade, burro que puxa bond ou carroa no
tem nome; na roa pode ser. Cavalo  to adulado que, vencendo uma corrida na
Inglaterra, manda-se-lhe o nome a todos os cantos da Terra. No pense que fiz
verso: s vezes saem-me rimas da boca, e podia achar editor para elas, se
quisesse; irias no tendo ambies literrias. Falo rimado, porque falo poucas
vezes, e atrapalho-me. Pois, sim senhor. E sabe de quem  o primeiro dos cavalos
vencedores de Epsom, o que se chama Ladas?  do prprio chefe do governo,
lord Roseberry, que ainda no h muito ganhou com ele dois mil
guinus.

 Quem  que lhe conta todas essas
coisas inglesas?

 Quem? Ah! meu amigo, 
justamente o que me traz a seus ps, disse o burro ajoelhando-se, mas
levantando-se logo, a meu pedido. E continuou: Sei que o senhor se d com gente
de imprensa, e vim aqui para lhe pedir que interceda por mim e por uma classe
inteira, que devia merecer alguma compaixo...

 Justia, justia, emendei eu com
hipocrisia e servilismo.

 Vejo que me compreende. Oua-me;
serei breve. Em regra, s se devia ensinar aos burros a lngua do pas; mas o
finado Greenough, o primeiro gerente que teve a companhia do Jardim Botnico,
achou que devia mandar ensinar ingls aos burros dos bonds. Compreende-se
o motivo do ato. Recm-chegado ao Rio de Janeiro, trazia mais vivo que nunca o
amor da lngua natal. Era natural crer que nenhuma outra cabia a todas as
criaturas da Terra. Eu aprendi com facilidade...

 Como? Pois o senhor 
contemporneo da primeira gerncia?

 Sim, senhor; eu e alguns mais.
Somos j poucos, mas vamos trabalhando. Admira-me que se admire. Devia conhecer
os animais de 1869 pela valente decrepitude com que, embora deitando a alma pela
boca, puxamos os carros e os ossos. H nisto um resto da disciplina, que nos deu
a primeira educao. Apanhamos,  verdade, apanhamos de chicote, de ponta de p,
de ponta de rdea, de ponta de ferro, mas  s quando as poucas foras no
acodem ao desejo; os burros modernos, esses so teimosos, resistem mais 
pancadaria. Afinal, so moos.

Suspirou e continuou:

 No meio da tanta aflio,
vale-nos a leitura, principalmente de folhas inglesas e americanas, quando algum
passageiro as esquece no bond. Um deles esqueceu anteontem um nmero do
Truth. Conhece o Truth?

 Conheo.

  um peridico radical de
Londres, continuou o burro, dando  fora a notcia, como um simples homem.
Radical e semanal.  escrito por um cidado, que dizem ser deputado. O nmero
era o ltimo, chegadinho de fresco. Mal me levaram  manjedoura, ou coisa que o
valha, folheei o peridico de Labouchre... Chamava-se Labouchre o redator. O
peridico publica sempre em duas colunas, notcia comparativa das sentenas
dadas pelos tribunais londrinos, com o fim de mostrar que os pobres e
desamparados tm mais duras penas que os que o no so, e por atos de menor
monta. Ora, que hei de ler no nmero chegado? Coisas destas. Um tal John Fearon
Bell, convencido de maltratar quatro potros, no lhes dando suficiente comida e
bebida, do que resultou morrer um e ficarem trs em msero estado, foi condenado
a cinco libras de multa; ao lado desse vinha o caso de Fuo Thompson, que foi
encontrado a dormir em um celeiro e condenado a um ms de cadeia. Outra
comparao. Eliott, acusado de maltratar dezesseis bezerros, cinco libras de
multa e custas. Mary Ellen Connor, acusada de vagabundagem, um ms de priso.
William Poppe, por no dar comida bastante a oito cavalos, cinco libras e
custas. William Dudd, aprendiz de pescador, ru de desobedincia, vinte e dois
dias de priso. Tudo mais assim. Um rapaz tirou um ovo de faiso de um ninho:
quatorze dias de cadeia. Um senhor maltratou quatro vacas, cinco libras e
custas.

 Realmente, disse eu sem grande
convico, a diferena  enorme...

 Ah! meu nobre amigo! Eu e os
meus pedimos essa diferena, por maior que seja. Condenem a um ms ou a um ano
os que tirarem ovos ou dormirem na rua; mas condenem a cinqenta ou cem mil ris
aqueles que nos maltratam por qualquer modo, ou no nos dando comida suficiente,
ou, ao contrrio, dando-nos excessiva pancada. Estamos prontos a apanhar,  o
nosso destino, e eu j estou velho para aprender outro costume; mas seja com
moderao, sem esse furor de cocheiros e carroceiros. O que o tal ingls acha
pouco para punir os que so cruis conosco, eu acho que  bastante. Quem  pobre
no tem vcios. No exijo cadeia para os nossos opressores, mas uma pequena
multa e custas, creio que sero eficazes. O burro ama s a pele; o homem ama a
pele e a bolsa. D-se-lhe na bolsa; talvez a nossa pele padea menos.

 Farei o que puder;
mas...

 Mas qu? O senhor afinal  da
espcie humana, h de defender os seus. Ela, fale aos amigos da imprensa;
ponha-se  frente de um grande movimento popular. O conselho municipal vai
levantar um emprstimo, no? Diga-lhe que, se lanar uma pena pecuniria sobre
os que maltratam burros, cobrir cinco ou seis vezes o emprstimo, sem pagar
juros, e ainda lhe sobrar dinheiro para o Teatro Municipal, e para teatros
paroquiais, se quiser. Ainda uma vez, respeitvel senhor, cuide um pouco de ns.
Foram os homens que descobriram que ns ramos seus tios, seno diretos, por
afinidade. Pois, meu caro sobrinho,  tempo de reconstituir a famlia. No nos
abandone, como no tempo em que os burros eram parceiros dos escravos. Faa o
nosso treze de Maio. Lincoln dos teus maiores, segundo o evangelho de
Darwin, expede a proclamao da nossa liberdade!

No se imagina a eloqncia destas
ltimas palavras. Cheio de entusiasmo, prometi, pelo cu e pela terra, que faria
tudo. Perguntei-lhe se lia o portugus com facilidade; e, respondendo-me que
sim, disse-lhe que procurasse a Gazeta de hoje. Agradeceu-me com voz
lacrimosa, fez um gesto de orelhas, e saiu do jardim vagarosamente, cai aqui,
cai acol.

17 de junho

Um membro do conselho municipal,
discutindo-se ali esta semana a questo que os jornais chamaram tentativa de
Panam, deu dois apartes, que vou transcrever aqui, sem dizer o nome do autor.
No h neles nada que ofenda a ningum; mas eu s falo em nomes, quando no
posso evit-los. Tenho meia dzia de virtudes, algumas grandes. Uma das mais
apreciveis  este horror invencvel aos nomes prprios. Mas vamos aos dois
apartes.

A propsito da notcia que as
folhas deram da chamada tentativa, reabriu-se esta semana a discusso dos
papelinhos. Vrios falaram, varrendo cada um a sua testada, e fizeram muito bem.
A opinio geral foi que a questo no devia ser trazida a pblico, opinio que 
tambm a minha, e era j a de Napoleo. Uma vez trazida, era preciso
liquid-la.

Entre as declaraes feitas, em
discurso, uma houve de algum valor; foi a de um conselheiro que revelou
terem-lhe oferecido muitos contos de ris para no discutir certo projeto. No
se lhe pediu defesa, mas absteno, to certo  que a palavra  prata e o
silncio  ouro. O conselheiro recusou; eu no sei se recusaria. Certamente, no
me falta hombridade, nem me sobra cobia, mas distingo. Dinheiro para falar, 
arriscado; naturalmente (a no ser costume velho), a gente fala com a impresso
de que traz o preo do discurso na testa, e depois  fcil cotejar o discurso e
o boato, e a est um homem perdido. Ou meio perdido: um homem no se perde
assim com duas razes. Mas dinheiro para calar, para ouvir atacar um projeto sem
defend-lo, dar corda ao relgio, enquanto se discute, concertar as suas,
examinar as unhas, adoecer, ir passar alguns dias fora, no acho que envergonhe
ningum, seja a pessoa que prope, seja a que aceita.

H quem veja nisso algo imoral; 
opinio de espritos absolutos, e tu, meu bom amigo e leitor, foge de espritos
absolutos. Os casustas no eram to maus como nos fizeram crer. Atos h que,
aparentemente repreensveis, no o so na realidade, ou pela pureza da inteno,
ou pelo benefcio do resultado; e ainda os h que no precisam de condio
alguma para serem indiferentes. Depois, quando seja imoralidade, convm advertir
que esta tem dois gneros,  ativa ou passiva. Quando algum, sem nenhum impulso
generoso, pede o preo do voto que vai dar, prtica a imoralidade ativa, e ainda
assim  preciso que o objeto do voto no seja repreensvel em si mesmo. Quando,
porm,  procurado para receber o dinheiro, essa outra forma, no s  diversa,
mas at contrria,  a passiva, e tanto importa dizer que no existe. Ningum
afirmar que cometi suicdio porque me caiu um raio em casa.

A prpria lei faz essa distino.
Supe que ests com sete contos na carteira, para sares a umas compras no
interior. Vs ao Passeio Pblico ouvir msica ou ver o mar. Chega-se um homem e
prope-te vender pelos sete contos uma caixa contendo duzentos contos de notas
falsas. Tu refletes, tu calculas: O negcio  bom; eu preciso justamente de
duzentos contos para comprar a fazenda do Chico Marques e pagar a casa em que
est o Banco Indestrutvel. Matuto no conhece nota falsa nem verdadeira; passo
tudo na roa e volto com o dinheiro bom... duzentos contos... Est feito!
Ajustas lugar e hora, levas os sete contos, ele d-te a caixa, levantas a tampa,
est socada de bilhetes novos em folha. De noite ou na manh seguinte, queres
contar os duzentos contos e abres a caixa. Que achas tu? Que todas as notas de
cima so verdadeiras,  uns quinhentos mil ris. Tudo o mais so panos velhos e
retalhos de jornais. O primeiro gesto  levar as mos  cabea, o segundo 
correr  polcia. A polcia ouve, escreve, sai no encalo do homem, que ainda
est com os sete contos intactos. Ele vai para a cadeia e tu para a
roa.

Por que vais tu para a roa e ele
para a cadeia? No  s, como te diro, por no teres praticado nem tentado
delito algum, no podendo a lei alcanar os recessos da conscincia, nem punir a
iluso.  tambm, e principalmente, pela passividade do teu papel. Tu estavas
muito sossegado, mirando o mar e escutando a banda de msica. Quem te veio
tentar, foi ele. No Fausto  a mesma coisa. Margarida sobe ao  cu. Fausto
sai arrastado por Mefistfeles.

Mas vamos aos dois apartes. J
disse em que consistiu o principal da discusso outro dia. Esse principal,
convm not-lo, no foi a maior parte. Examinaram-se projetos de lei, com
ateno, com zelo, sem que a primeira parte da sesso influsse na segunda. Os
apartes, porm, a que me refiro, foram dados na primeira hora, quando se
discutia justamente a questo principal. Dois oradores tinham opinio diversa
sobre ela. Um condenou francamente a idia de trazer ao conhecimento pblico o
negcio dos papis, e f-lo por este modo: Para que trazer tais coisas ao
conhecimento do conselho, dando lugar a murmuraes?  Isso  tristssimo!
apoiou um membro. Mas dizendo outro orador que o lugar prprio para liquidar o
negcio era o tribunal, acudiu o membro que sim:  Apoiado: a mesa saber
cumprir o seu dever.

H a duas opinies, uma em cada
aparte. Com a de Napoleo, que  a minha, so trs.  o que parece; mas tambm
pode suceder que as duas se combinem ou se completem. O primeiro aparte condenou
a publicidade; o segundo, uma vez que a publicidade se fez, pede o tribunal.
Creio que  isto mesmo. Assim pudesse eu _ explicar a contradio dos aguaceiros
de ontem e de hoje com a hora de sol desta manh. Sol divino, Hlios amado,
quando te vi hoje espiar para todas as rvores que me cercavam fiquei alegre.
Havia um pedao de cu azul, no muito azul; tinha ainda umas dedadas de nuvens
grossas, mas caminhava para ficar todo azul. O vento era frio. Duas palmeiras,
distantes no espao, mas abraadas  vista, recortavam-se justamente no pedao
azul, movendo as folhas de um verde cristalino. Viva o sol! bradei eu, atirando
a perna. Eis que a chuva, aborrecida velha de capote, entra pela cidade,
deixando flutuar ao vento as saias cheias de lama...

24 de
junho

Peguei na pena, e ia comear esta Semana,
quando ouvi uma voz de espectro: S. Joo! sortes de S. Joo! A principio
cuidei que era alguma loteria nova, e molhei a pena para cumprir esta obrigao.
No tinha assunto, tantos eram eles; mas a boa regra, quando eles so muitos, 
deixar ir os dedos pelo papel abaixo, como animais sem rdea nem chicote. Os
dedos do conta da mo, salvo o trocadilho.

Mal escrevera o ttulo, ouvi outra vez bradar: S.
Joo! sortes de S. Joo! Ergui-me como um s homem, desci  rua e fui direito
ao espectro. O espectro levava meia dzia de folhetinhos na mo; eram sortes,
eram versos para a noite de S. Joo, que foi ontem. Arregalei os olhos, que  o
primeiro gesto, quando se v alguma cousa incrvel; depois fechei-os para no
ver o espectro, mas o espectro bradava-me aos ouvidos; tapei os ouvidos, ele
fitava-me os velhos olhos cavados de alma do outro mundo. Vai, disse eu, o
Senhor te d a salvao. O vulto pegou em si e continuou a apregoar as sortes do
santo, arrastando os ps e a voz, como se realmente fizesse
penitncia.

Tornei a casa, e, como nos mistrios espritas,
concentrei-me. A concentrao levou-me a anos passados, se muitos ou poucos no
sei, no os contei; era no tempo em que havia S. Joo e a sua noite. Gente moa
em volta da mesa, um copo de marfim e dois ou trs dados. Fora, ardiam as
ltimas achas da fogueira; tinham-se comido cars e batatas; ia-se agora 
consulta do futuro. Um ledor abria o livro das sortes, e dizia o ttulo do
captulo: Se h de ser feliz com a pessoa a quem adora.

Corriam os dados. O ledor buscava a quadrinha
indicada pelo nmero, e sibilava:

Felicidades no busques,
Incauta...

Vs que nascestes depois da morte de S. Joo, e
antes da Morte de D. Joo, no cuideis que invento. No invento nada; era
assim mesmo. Remontemos ao dia 24 de junho de 1841... Se pertenceis ao nmero
dos meus inimigos, como Lulu Senior, repetireis a velha chalaa de que foi nesse
ano que eu fiz a barba pela primeira vez. Eu me calo, Adalberto, ou no
respondo, como dizia Joo Caetano em no sei que tragdia, contempornea do
santo do seu nome. Tudo morto, o santo, a tragdia, o autor, talvez o teatro, 
o nacional, que o municipal a vem.

Remontemos ao dito ano de 1841. Aqui est uma folha
do dia 23 de junho. Como  que veio parar aqui  minha mesa? O vento dos tempos
nem sempre  a brisa igual e mansa que tudo esfolha e dispersa devagar. Tem
lufadas de tufo, que fazem ir parar longe as folhas secas ou somente murchas.
Esta desfaz-se de velha; no tanto, porm, que se no leiam nela os anncios de
livros de sortes.  o Fado, que a casa Laemmert publicava, quando estava
na rua da Quitanda, um livro repleto de promessas, que mostrava tudo o que se
quisesse saber a respeito de riquezas, heranas, amizades, contendas, gostos.
Aqui vem outro, o Novssimo jogo de sortes, por meio do qual as senhoras
podem vir ao conhecimento do que mais lhes interessa saber, como seja o estado
que tero na vida, se encontraro um consorte que as estime e respeite, se tero
abundncia de bens de fortuna, se sero felizes com amores. C est A mulher
de Simplcio, que dava uma edio extraordinria com mais de mil sortes.
Eis agora o Orculo das senhoras, conselheiro oculto, diz o subttulo, e
acrescenta: respondendo de um modo infalvel a todas as questes sobre as
pocas e acontecimentos mais importantes da vida, confirmado pela opinio de
filsofos e fisiologistas mais celebres, Descartes, Buffon, Lavater, Gall e
Spurzheim.

Quem no ia pela f, ia pela cincia, e,  fora do
Batista ou de Descartes, agarravam-se pelas orelhas os segredos mais recnditos
do futuro, para traz-los ao claro das velas, porque ainda no havia gs. Tudo
por dez tostes, brochado; encadernado, dois mil ris. O mistrio ao
alcance de todas as bolsas era uma bela instituio
domstica. As cartomantes creio que levam dois ou cinco mil ris, segundo as
posses do fregus;  mais caro. Quanto  Ptia, av de todas elas, os presentes
que iam ter ao templo de Delfos, eram custosos, ouro para cima. E nem sempre
falava claro, que parece ter sido o defeito dos adivinhos antigos e de alguns
profetas. Ao contrrio, os nossos livros eram francos, diziam tudo, bem e com
graa, uma vez que os buscassem unicamente em trs dias do ano.

Agora j no h dias especiais para consultar a
Fortuna. Os santos do cu rebelaram-se, deram com a oligarquia de junho abaixo e
proclamaram a democracia de todos os meses. No se limitaram a anunciar coisas
futuras, disseram claramente que j as traziam nas algibeiras, e que era s
pedi-las. A terra estremeceu de ansiedade. Todas as mos estenderam-se para o
cu. No atropelo era natural que nem todas apanhassem tudo. No importa:
continuaram estendidas, esperando que lhes casse alguma coisa.

Entretanto, a fartura precisa de limite, e onde
entra excesso, pode muito bem entrar aflio. Os orculos vieram c abaixo
disputar a veracidade dos seus dizeres, e cada um pede para os outros o rigor da
autoridade. A opinio de uns  que os outros corrompem os coraes imberbes ou
barbados, que tm a f pura e o sangue generoso. Tal  a luta que a vemos, em
artigos impressos, entre Santa Loteria, S. Book-Maker, S. Fronto, e no sei se
tambm S. Prado, dizendo uns aos outros palavras duras e agrestes. Parece que a
liberdade da adivinhao, proclamada contra a oligarquia de junho, no est
provando bem, e que o meio de todos comerem,  no comerem todos. Esta
descoberta, a falar verdade,  antiga,  o fundamento da esmola; mas nenhum dos
contendores quer receber esmola, todos querem d-la, e da o
conflito.

Que sair deste? No creio na exterminao de
ningum; pode haver algum acordo que permita a todos irem comendo, ainda que
moderadamente. Uma religio no se destri por excesso de religionrios. O po
mstico h de chegar a todos, e basta que um par de queixos mastigue de verdade,
para fazer remoer todos os queixos vazios. O que eu quisera,  que, no meio da
consulta universal, S. Joo continuasse o seu pequeno e ingnuo negcio,
congregando a gente moa, como em 1841, para lhes dizer pela boca do Fado
ou do Orculo das senhoras:

Felicidade no busques,
Incauta...

Poetas, completai a estrofe. Cabe  poesia
eternizar a mocidade, e este Batista, que nos pintam com o seu carneirinho
branco,  patro natural dos moos  e das moas tambm. Digo-vos isto no
prprio estilo adocicado daquele tempo.

1
de julho

Quinta-feira de manh fiz como
No, abri a janela da arca e soltei um corvo. Mas o corvo no tornou, de onde
inferi que as cataratas do cu e as fontes do abismo continuavam escancaradas.
Ento disse comigo: As guas ho de acabar algum dia. Tempo vir em que este
dilvio termine de uma vez para sempre, e a gente possa descer e palmear a Rua
do Ouvidor e outros becos. Sim, nem sempre h de chover. Veremos ainda o cu
azul como a alma da gente nova. O sol, deitando fora a carapua, espalhar outra
vez os grandes cabelos louros. Brotaro as ervas. As flores deitaro aromas
capitosos.

Enquanto pensava, ia fechando a
janela da arca e tornei depois aos animais que trouxera comigo,  imitao de
No. Todos eles aguardavam notcias do fim. Quando souberam que no havia
notcia nem fim, ficaram desconsolados.

 Mas que diabo vos importa um dia
mais ou menos de chuva? perguntei-lhes, Vocs aqui esto comigo, dou-lhes tudo;
alm da minha conversao, viveis em paz, ainda os que sois inimigos, lobos e
cordeiros, gatos e ratos. Que vos importa que chova ou no chova?

 Senhor meu, disse-me um
espadarte, eu sou grato, e todos os nossos o so, ao cuidado que tivestes em
trazer para aqui uma piscina, onde podemos nadar e viver  mas piscina no vale
o mar; falta-nos a onda grossa e as corridas de peixes grandes e pequenos, em
que nos comemos uns aos outros, com grande alma. Isto que nos destes, prova que
tendes bom corao, mas ns no vivemos do bom corao dos homens. Vamos
comendo,  verdade, mas comendo sem apetite, porque o melhor
apetite...

Foi interrompido pelo galo, que
bateu as asas, e, depois de cantar trs vezes, como nos dias de Pedro, proferiu
esta alocuo:

 Pela minha parte, no  a chuva
que me aborrece. O que me aborreceu desde o princpio do dilvio, foi a vossa
idia de trazer sete casais de cada vivente, de modo que somos aqui sete galos e
sete galinhas, proporo absolutamente contrria s mais simples regras da
aritmtica, ao menos as que eu conheo. No brigo com os outros galos, nem eles
comigo, porque estamos em trguas, no por falta de casus belli.
H aqui seis galos de mais. Se os mandssemos procurar o corvo?

No lhe dei ouvidos. Fui dali ver
o elefante enroscando a tromba no surucucu, e o surucucu enroscando-se na tromba
do elefante. O camelo esticava o pescoo, procurando algumas lguas de deserto,
ou quando menos, uma rua do Cairo. Perto dele, o gato e o rato ensinavam
histrias um ao outro. O gato dizia que a histria do rato era apenas uma longa
srie de violncias contra o gato, e o rato explicava que, se perseguia o gato,
 porque o queijo o perseguia a ele. Talvez nenhum deles estivesse convencido. O
sabi suspirava. A um canto, a lagartixa, o lagarto e o crocodilo palestravam em
famlia. Coisa digna da ateno do filsofo  que a lagartixa via no crocodilo
uma formidvel lagartixa, e o crocodilo achava a lagartixa um crocodilo
mimoso; ambos estavam de acordo em considerar o lagarto um ambicioso sem
gnio (verso lagartixa) e um presumido do sem graa (verso
crocodilo).

 Quando lhe perguntaram pelos
avs, observou o crocodilo, costuma responder que eles foram os mais belos
crocodilos do mundo, o que pode provar com papiros antiqssimos e
autnticos...

 Tendo nascido, concluiu a
lagartixa, tendo nascido na mais humilde fenda de parede, como eu... Crocodilo
de bobagem!

 Notai que ele fala muito do loto
e do nenfar, refere casos do hipoptamo, para enganar os outros, confunde
Clepatra com o Kediva e as antigas dinastias com o governo ingls...

Tudo isso era dito sem que
o lagarto fizesse caso. Ao contrrio, parecia rir, e costeava a parede da
arca, a ver se achava algum calor de sol. Era ento sexta-feira, 
tardinha. Pareceu-me ver por uma fresta uma linha azul. Chamei uma pomba
e soltei-a pela janela da arca. Nisto chegou o burro, com uma guia pousada na
cabea, ente as orelhas. Vinha pedir-me, em nome das outras alimrias, que as
soltasse. Falou-me teso e quieto, no tanto pela circunspeo da raa, como pelo
medo, que me confessou, de ver fugir-lhe a guia, se mexesse muito a cabea. E
dizendo-lhe eu que acabava de soltar a pomba, agradeceu-me e foi andando. Pelas
dez horas da noite, voltou a pomba com uma flor no bico. Era o primeiro sinal de
que as guas iam descendo.

 As guas so ainda grandes,
disse-me a pomba, mas parece que foram maiores. Esta flor no foi colhida de
erva, mas atirada pela janela fora de uma arca, cheia de homens, porque h
muitas arcas boiando. Esta de que falo, deitou fora uma poro de flores, colhi
esta que no  das menos lindas.

Examinei a flor; era de retrica.
Nenhum dos animais conhecia til planta. Expliquei-lhes que era uma flor de
estufa, produto da arte humana, que ficava entre a flor de pano e a da campina.
H de haver alguma academia a perto, conclu, academia ou
parlamento.

Ontem, sobre a madrugada, tornei a
abrir a janela e soltei outra vez a pomba, dizendo aos outros que, se ela
no tornasse, era sinal de que as guas estavam inteiramente acabadas. No
voltando at o meio-dia, abri tudo, portas e janelas, e despejei toda aquela
criao neste mundo. Desisto de descrever a alegria geral. As borboletas e as
aranhas iam danando a tarantela, a vbora adornava o pescoo do co, a
gazela e o urubu, de asa e brao dados, voavam e saltavam ao mesmo tempo... Viva
o dilvio! e viva o sol!

8 de
julho

O empresrio Mancinelli vem fechar a era das
revolues. O nosso engano tem sido andar por vrios caminhos  cata de uma
soluo que s podemos achar na msica. A msica  a paz, a opera  a
reconciliao. A unidade alem e a unidade italiana so dividas, antes de tudo,
 vocao lrica das duas naes. Cavour sem Verdi, Bismarck sem Wagner no
fariam o que fizeram. A msica  a ilustre matemtica, apta para resolver todos
os problemas.  pelo contraponto que o presente corrige o passado e decifra o
futuro.

No quero ir agora a escavaes histricas nem a
estudos tnicos, por onde mostraria que os povos maviosos so os que tm vida
fcil, forte e unida. Os judeus unem-se muito, sem terem sido grandes msicos,
exceto David e Meyerbeer. O primeiro, como se sabe, aplacava as
frias
de Saul, ao som da ctara. Os cativos de Babilnia
penduravam as harpas dos salgueiros, para no cantarem, donde se infere que
cantavam antes. H ainda o famoso canto de Dbora, os salmos e alguma coisa mais
que me escapa. Esse pouco basta para que os descendentes de Abrao, Isaac e Jac
no desprezem totalmente a msica. Vede Rothschild; apesar de saber que adoramos
a msica, jamais nos respondeu com o sarcasmo da formiga  cigarra: Vous
chantiez? J'en suis fort aise. No, senhor; sempre nos emprestou os
seus dinheiros, certo de que a msica faz os devedores honestos. E se, fechado o
emprstimo, nos dissesse: Eh bien! dansez maintenant, seria por
saber que h em ns uma gota de sangue do rei David, que saa a danar diante da
arca santa. Ns descansamos da pera no baile, e do baile na pera.

Os franceses dizem que entre eles tout finit par
dez chansons. Digamos, pela mesma lngua, que entre ns tout finit par
des opras. Sim, Mancinelli veio trancar a era das revolues. Notai que a
pera coincide com a representao nacional. No  s a comunho da arte, onde
gregos e troianos, entre duas voltas, esquecem o que os divide e irrita. 
ainda, at certo ponto, a reproduo paralela da legislatura.

A questo  demasiado complexa para ser tratada
sobre a perna. J a ficam algumas indicaes, s quais acrescento uma, a saber,
que a prpria estrutura dos corpos deliberantes reproduz a cena lrica. A mesa 
a orquestra, o chefe da maioria o bartono, o da oposio o tenor; seguem-se os
comprimrios e os coros. No sistema parlamentar, cada ministrio novo canta
aquela ria: Eccomi al fine in Babylonia. Quando sucede cair um gabinete,
a ria  esta: Gran Dio, morir si giovane. Antes, muito antes que algum
se lembrasse de pr em msica o Hamlet, j nas assemblias legislativas se
cantava ( surdina) o monlogo da indeciso: To be or not to be, that is the
question. Aquela frase de Hamlet, quando Oflia lhe perguntou o que est
lendo: Words, words, words, muita vez a ouvi com
acompanhamento de violinos. Ouvi tambm a talentos de primeira ordem rias e
duos admirveis, executados com rara mestria e verdadeira paixo.

Quem quiser escrever a histria do canto entre ns,
h de ter diante dos olhos os efeitos polticos desta arte. Sem isso, far uma
crnica, no uma histria. Pela minha parte, no conhecendo a crnica, no
poderia tentar a histria. Pouco sei dos fatos. No remontando a um soprano que
aqui viveu e morreu, homem alto, gordo e italiano, que cantava somente nas
igrejas, sei que a pera lrica, propriamente dita, comeou a luzir de 1840 a
1850, com outro soprano, desta vez mulher, a clebre Candiani. Quem no a haver
citado? Netos dos que se babaram de gosto nas cadeiras e camarotes do teatro de
S. Pedro, tambm vs a conheceis de nome, sem a terdes visto, nem provavelmente
vossos pais. J  alguma coisa viver durante meio sculo na memria de uma
cidade, no tendo feito outra cousa mais que cantar o melanclico
Bellini.

Ao que parece, o canto era tal que arrebatava as
almas e os corpos, elas para o cu, eles para o carro da diva, cujos cavalos
eram substitudos por homens de boa vontade. No mofeis disto; para a cantora
foi a glria, para os seus aclamadores foi o entusiasmo, e o entusiasmo no 
to mesquinha coisa que se despreze. Invejai antes esses cavalos de uma hora...

A raa acabou. Hoje os homens ficam homens,
aplaudem sem transpirar, muitos com as palmas, alguns com a ponta dos dedos, mas
sentem e basta. A ingenuidade  menor? a expresso comedida? No importa,
contanto que vingue a arte. Onde ela principia, cessam as canseiras deste mundo.
Partidos irreconciliveis, partidrios que se detestam, conciliam-se e amam-se
por um minuto ao menos. Grande minuto, meus caros amigos, um minuto grandssimo,
que vale por um dia inteiro.

Vivam os povos cantarinos, as almas entoadas e
particularmente a terra da modinha e da viola. A viola foi-se da capital com os
cavalos, recolheu-se ao interior, onde os peregrinismos so menos aceitos. As
peregrinas pode ser que sim; mas novas cantoras j se no deixam ir dos braos
de Polio ou de Manrico aos de um senhor da platia, como a La-Grua, e antes
dela a Candiani. guas passadas; mas nem por serem passadas deixam de refrescar
a memria dos seus contemporneos. O caso da La-Grua entristece-me, porque um
amigo meu a amava muito. Tinha vinte anos, uma lira nas mos, um triste emprego
e aquele amor, no sabido de ningum. Salvo o emprego, era riqussimo. No
combatia entre os lagrustas contra os cartonistas; era franco-atirador. No
queria meter o seu amor na multido dos entusiasmos de passagem. O seu amor era
eterno, dizia em todos os versos que compunha,  noite, quando vinha do teatro
para casa. E ria-se muito de um senhor de suas que, da platia, devorava com
os olhos a La-Grua.

Uma noite, acabado o espetculo, o moo poeta
recolheu-se, comps dois sonetos e dormiu com os anjos. O mais adorvel deles
era a prpria imagem da La-Grua. Na manh seguinte, ele e a cidade acordaram
assombrados. A diva desaparecera, o senhor das suas no tornou  platia, e o
meu rapaz adoeceu, definhou, at morrer de melancolia. Assim lhe fecharam a era
das revolues.

15 de
julho

Quando estas linhas aparecerem aos olhos dos
leitores,  de crer que toda a populao eleitoral de Rio de Janeiro caminhe
para as urnas, a fim de eleger o presidente do Estado. Renhida  a luta. Como na
Farslia, de Lucano, pela traduo de um finado sabedor de coisas
latinas,

Nos altos, frente a frente, os dois caudilhos,

Sfregos de ir-se s mos, j se
acamparam.

No sei quem seja aqui Csar nem Pompeu.
Contento-me em que no haja morte de homem, nem outra arma alm da cdula. Se
falo na batalha de hoje, no  que me proponha a cant-la; eu, nestas campanhas,
sou um simples Suetnio, curioso, anedtico, desapaixonado. Assim que, propondo
aos meus concidados uma reforma eleitoral, no cedo a interesse poltico, nem
falo em nome de nenhuma faco; obedeo a um nobre impulso que eles mesmos
reconhecero, se me fizerem o favor de ler at ao fim.

Ningum ignora que nas batalhas como a de hoje
costuma roncar o pau. Esta arma, fora  diz-lo, anda um tanto desusada, mas 
to til, to sugestiva, que dificilmente ser abolida neste final do sculo e
nos primeiros anos do outro. No  pica nem mstica, est longe de competir com
a lana de Aquiles, ou com a espada do arcanjo. Mas a arma  como o estilo, a
melhor  que se adapta ao assunto. Que viria fazer a lana de Aquiles entre um
capanga sem letras e um leitor sem convico? Menos, muito menos que o vulgar
cacete. A pena, o bico de pena, segundo a expresso clssica, traz vantagens
relativas, no tira sangue de ningum; no faz vtimas, faz atas, faz pleitos. O
vencido perde o lugar, mas no perde as costelas.  preciso forte vocao
poltica para preferir o contrrio.

O grande mal das eleies no  o pau, nem talvez a
pena,  a absteno, que d resultados muita vez ridculos. Urge combat-la.
Cumpre que os eleitores elejam, que se movam, que saiam de suas casas para
correr s urnas, que se interessem, finalmente, pelo exerccio do direito que a
lei lhes deu, ou lhes reconheceu. No creio, porm, que baste a exortao. A
exortao est gasta. A indiferena no se deixa persuadir com palavras nem
raciocnios;  preciso estmulo. Creio que uma boa reforma eleitoral, em que
esta considerao domine, produzir efeito certo. Tenho uma idia que reputo
eficacssima.

Consiste em pouco. A imprensa tem feito reparos
acerca do estado do nosso turf, censurando abusos e pedindo reformas,
que, segundo acabo de ler, vo ser iniciadas. Um cidado, por nome M. Elias,
dirigiu a este respeito uma carta ao Jornal do Comrcio, concordando com
os reparos, e dizendo: Ora, a nossa populao esportiva, constituda por dois
teros da populao municipal, pode assim continuar sujeita, como at agora, ao
assalto de combinaes escandalosas? Foi este trecho da carta do Sr. Elias, que
me deu a idia da reforma eleitoral.

A princpio no pude raciocinar. A certeza de que
dois teros da nossa populao  esportiva, deixou-me assombrado e estpido.
Voltando a mim, fiquei humilhado. Pois qu! dois teros da populao 
esportiva, e eu no sou esportivo! Mas que sou ento neste mundo'?
Melancolicamente adverti que talvez me faltem as qualidades esportivas, ou no
as tenha naquele grau eminente ou naquele extenso nmero em que elas se podem
dizer suficientemente esportivas. A memria ajudou-me nesta investigao.
Recordei-me que, h alguns anos, trs ou quatro, fui convidado por um amigo a ir
a uma corrida de cavalos. No me sentia disposto, mas o amigo convidava de to
boa feio, o carro dele era to elegante, os cavalos to galhardos e briosos,
que no resisti, e fui.

No tendo visto nunca uma corrida de cavalos,
imaginei coisa mui diversa do que , realmente, este nobre exerccio. Fiquei
espantado quando vi que as corridas duravam trs ou quatro minutos, e os
intervalos meia hora. Nos teatros, quando os intervalos se prolongam, os
espectadores batem com os ps, uso que no vi no circo, e achei bom. Vi que, no
fim de cada corrida, toda a gente ia espairecer fora dos seus lugares, e tornava
a encher as galerias, apenas se comunicava a corrida seguinte. Uma destas
ofereceu-me um episdio interessante. Ao sarem os cavalos, caiu o jockey
de um, ficando imvel no cho, como morto. Cheio de um sentimento pouco
esportivo, quis gritar que acudissem ao desgraado; mas, vendo que ningum se
movia, cuidei que era uma espcie de partido que o jockey dava aos adversrios;
no tardaria a levantar-se, correr, apanhar o cavalo, mont-lo e vencer. Dois
verbos mais que Csar. De fato, o cavalo dele ia correndo; mas, pouco a pouco,
vi que o animal, no se sentindo governado, afrouxava, at que de todo parou.
Nisto entraram dois homens no circo, tomaram do jockey imvel, cujas pernas e
braos caam sem vida, e levaram o cadver para fora. No lhe rezei por alma,
unicamente por no saber o nome da pessoa. No veio no obiturio, nem os jornais
deram notcia do desastre. Perder assim a vida e a corrida, obscuro e
desprezado,  por demais duro.

Vindo  minha idia, acho que a reforma eleitoral,
para ser til e fecunda, h de consistir em dar s eleies um aspecto
acentuadamente esportivo. Em vez de esperar que o desejo de escolher
representantes leve o eleitor s urnas, devemos suprir a ausncia ou a frouxido
desse impulso pela atrao das prprias urnas eleitorais. A lei deve ordenar que
os candidatos sejam objeto de apostas, ou com os prprios nomes, ou (para ajudar
a inrcia dos espritos) com outros nomes convencionais, um por pessoa, e curto.
No entro no modo prtico da idia; cabe ao legislador, ach-lo e decret-lo. A
absteno ficar vencida, e nascer outro benefcio da reforma.

Este benefcio ser o aumento das naturalizaes.
Com efeito, se nos dois teros da populao esportiva h naturalmente certo
nmero de estrangeiros, no  de crer que essa parte despreze uma ocasio to
esportiva, pela nica dificuldade de tirar carta de naturalizao. A lei deve
at facilitar a operao, ordenando que o simples talo da aposta sirva de
ttulo de nacionalidade.

Se a idia no der o que espero, recorramos ento
ao exemplo da Nova Zelndia, onde por uma lei recente as mulheres so eleitoras.
Em virtude dessa lei, qualificaram-se cem mil mulheres, das quais logo na
primeira eleio, h cerca de um ms, votaram noventa mil. Elevemos a mulher ao
eleitorado;  mais discreta que o homem, mais zelosa, mais desinteressada. Em
vez de a conservarmos nessa injusta minoridade, convidemo-la a colaborar com o
homem na oficina da poltica.

Que perigo pode vir da? Que as mulheres, uma vez
empossadas das urnas, conquistem as cmaras e elejam-se entre si, com excluso
dos homens? Melhor. Elas faro leis brandas e amveis. As discusses sero
pacficas. Certos usos de mau gosto desaparecero dos debates. Aquele, por
exemplo, que consiste em dizer o orador que lhe faltam os precisos dotes de
tribuna, ao que todos respondem: No apoiado! havendo sempre uma voz que
acrescenta:  um dos ornamentos mais brilhantes desta cmara, esse uso, digo,
no continuar, quando as cmaras se compuserem de mulheres. Qualquer delas que
tivesse o mau gosto de comear o discurso alegando no poder competir em beleza
e elegncia com as suas colegas, ouviria apenas um silncio respeitoso e
aprovador.

Os homens, que fariam os homens nesse dia? Deus
meu, iriam completar o ltimo tero que falta para que a populao inteira fique
esportiva. O contagio far-nos-ia a todos esportivos. Seria a vitria ltima e
definitiva da esportividade.

22 de
julho

Telegrama da Bahia refere que o Conselheiro est em
Canudos com 2.000 homens (dois mil homens) perfeitamente armados. Que
Conselheiro? O Conselheiro. No lhe ponhas nome algum, que  sair da poesia e do
mistrio.  o Conselheiro, um homem dizem que fantico, levando consigo a toda a
parte aqueles dois mil legionrios. Pelas ltimas notcias tinha j mandado um
contingente a Alagoinhas. Temem-se no Pombal e outros lugares os seus
assaltos.

Jornais recentes afirmam tambm que os clebres
clavinoteiros de Belmonte tm fugido, em turmas, para o sul, atravessando a
comarca de Porto-Seguro. Essa outra horda, para empregar o termo do profano
vulgo que odeio, no obedece ao mesmo chefe. Tem outro ou mais de um, entre eles
o que responde ao nome de Cara de Graxa. Jornais e telegramas dizem dos
clavinoteiros e dos sequazes do Conselheiro que so criminosos; nem outra
palavra pode sair de crebros alinhados, registrados, qualificados, crebros
eleitores e contribuintes. Para ns, artistas,  a renascena,  um raio de sol
que, atravs da chuva mida e aborrecida, vem dourar-nos a janela e a alma.  a
poesia que nos levanta do meio da prosa chilra e dura deste fim de sculo. Nos
climas speros, a rvore que o inverno despiu  novamente enfolhada pela
primavera, essa eterna florista que aprendeu no sei onde e no esquece o que
lhe ensinaram. A arte  a rvore despida: eis que lhe rebentam folhas novas e
verdes.

Sim, meus amigos. Os dois mil homens do
Conselheiro, que vo de vila em vila, assim como os clavinoteiros de Belmonte,
que se metem pelo serto, comendo o que arrebatam, acampando em vez de morar,
levando moas naturalmente, moas cativas, chorosas e belas, so os piratas dos
poetas de 1830. Poetas de 1894, a tendes matria nova e fecunda. Recordai
vossos pais; cantai, como Hugo, a cano dos piratas:

En mer, les hardis cumeurs!
Nous allions de Fez  Catane...

Entrai pela Espanha,  ainda a terra da imaginao
de Hugo, esse homem de todas as ptrias; puxai pela memria, ouvireis Espronceda
dizer outra cano de pirata, um que desafia a ordem e a lei, como o nosso
Conselheiro. Ide a Veneza; a Byron recita os versos do Corsrio no regao da
bela Guiccioli. Tornai  nossa Amrica, onde Gonalves Dias tambm cantou o seu
pirata. Tudo pirata. O romantismo  pirataria,  o banditismo,  a aventura do
salteador que estripa um homem e morre por uma dama.

Crede-me, esse Conselheiro que est em Canudos com
os seus dois mil homens, no  o que dizem telegramas e papeis pblicos.
Imaginai uma legio de aventureiros galantes, audazes, sem ofcio nem benefcio,
que detestam o calendrio, os relgios, os impostos, as reverncias, tudo o que
obriga, alinha e apruma. So homens fartos desta vida social e pacata, os mesmos
dias, as mesmas caras, os mesmos acontecimentos, os mesmos delitos, as mesmas
virtudes. No podem crer que o mundo seja uma secretaria de Estado, com o seu
livro do ponto, hora de entrada e de sada, e desconto por faltas. O prprio
amor  regulado por lei; os consrcios celebram-se por um regulamento em casa do
pretor, e por um ritual na casa de Deus, tudo com etiqueta dos carros e casacas,
palavras simblicas, gestos de conveno. Nem a morte escapa  regulamentao
universal; o finado h de ter velas e responsos, um caixo fechado, um carro que
o leve, uma sepultura numerada, como a casa em que viveu...
No, por Satans! Os partidrios do Conselheiro
lembraram-se dos piratas romnticos, sacudiram as sandlias  porta da
civilizao e saram  vida livre.

A vida livre, para evitar a morte igualmente livre,
precisa comer, e da alguns possveis assaltos. Assim tambm o amor livre. Eles
no iro s vilas pedir moas em casamento. Suponho que se casam a cavalo,
levando as noivas  garupa, enquanto as mes ficam soluando e gritando  porta
das casas ou  beira dos rios. As esposas do Conselheiro, essas so raptadas em
verso, naturalmente:

Sa Hautesse aime les primeurs,
Nous vous ferons
mahomtane...

Maometana ou outra cousa, pois nada sabemos da
religio desses, nem dos clavinoteiros, a verdade  que todas elas se afeioaro
ao regmen, se regmen se pode chamar a vida errtica. Tambm h estrelas
errticas, diro elas, para se consolarem. Que outra cousa podemos supor de
tamanho nmero de gente? Olhai que tudo cresce, que os exrcitos de hoje no so
j os dos tempos romnticos, nem as armas, nem os legisladores, nem os
contribuintes, nada. Quando tudo cresce, no se h de exigir que os aventureiros
de Canudos, Alagoinhas e Belmonte cantem ainda aquele exguo nmero de piratas
da cantiga:

Dans la galre capitaine,
Nous tions quatre-vingts rameurs,

mas mil, dois mil, no mnimo. Do mesmo modo, 
poetas, devemos compor versos extraordinrios e rimas inauditas. Fora com as
cantigas de pouco flego; vamos faz-las de mil estrofes, com estribilho de
cinqenta versos e versos compridos, dois decasslabos atados por um alexandrino
e uma redondilha. Plion sobre Ossa, versos de Adamastor, versos de Enclado.
Rimemos o Atlntico com o Pacfico, a via-lctea com as areias do mar, ambies
com malogros, emprstimos com calotes, tudo ao som das polcas que temos visto
compor, vender e danar s no Rio de Janeiro.  vertigem das
vertigens!

29 de
julho

Trapisonda j no existe! Dizem telegramas que um
terremoto a destruiu inteiramente. Constantinopla, a dar credito s notcias
telegrficas que h cerca de duas semanas so aqui recebidas, deve estar quase
destruda tambm. Os mortos so muitos, os feridos muitssimos, as perdas
materiais calculam-se por milhes de piastras.

Tempo houve em que tais fenmenos seriam
considerados como provas claras de que a inteno de Deus era destruir a casa
otomana. Hoje, no s no se diz isso, mas ainda pode ser que os cardeais da
santa igreja catlica assinem algumas liras em benefcio das vtimas do
desastre. Outro  o sculo. Vimos o papa escrever s igrejas cismticas e
herticas, para aconselhar-lhes que se acolhessem ao grmio catlico, formando
um s rebanho e um s pastor. O czar reata as relaes com o sumo pontfice. O
prprio sulto da Turquia, se bem me recordo, mandou uma carta de parabns a
Leo XIII, quando este celebrou o seu jubileu de ordenao. Agora mesmo o rabino
de Frana teceu grandes louvores  cabea visvel da Igreja.

H um vento de tolerncia no mundo, vento brando,
como lhe cumpre, feito de amor e boa vontade. Deixai l que a China e o Japo
declarem guerra entre si, e que o pobre rei da Coria, segundo soubemos ontem
pelo cabo, seja o primeiro prisioneiro dos japoneses ou dos japes, como diziam
os velhos clssicos. No duvido que seja a ltima guerra. Pode ser que, alm
dessa, ainda haja outra; mas depois esto acabadas as guerras, o mundo
espiritual em perfeita unidade concilia todos os antagonismos sociais, nacionais
e polticos, e faz caminhar a civilizao para aquele sumo grau que a
espera.

Nisso estamos de acordo. A questo  saber onde
fica esse grau sumo, se no fim, quando o mundo no chegar para mais ningum, se
no princpio, quando ele era de sobra. Questo mais rdua do que parece. Podemos
conceber que, quando  terra faltar espao, este mundo ser uma infinita
Chicago, com casas de vinte e trinta andares. O dinheiro, que  primeira vista
pode parecer que no baste, h de bastar, se a produo do ouro continuar na
proporo dos algarismos publicados anteontem por uma das nossas folhas, dos
quais se v que s a produo africana dobra ps
com cabea. A famlia Rothschild no morrer, por
aquela lei que pe o remdio ao p do mal, e o emprstimo  mo das urgncias.
Quando venha a faltar o ouro, teremos a prata, e, acabada a prata, ficar o
nquel, com as modificaes do projeto Coelho Rodrigues, para que no emigre.
Em
ltimo caso, recorreremos ao honesto papel, mais
valioso, pela sua fabricao, que todas outras matrias, e, por isso mesmo que 
moeda fiduciria, melhor exprime a solidariedade humana.

Tudo isso  verdade. Mas, no cessando a produo
da gente humana, a conseqncia  que tudo h de ir crescendo, at que o
solvet soeclum venha destruir o que a civilizao fez desde o primeiro ao
sumo grau. Teste David cum Sybilla. Ora, eu contesto, ambas estas
autoridades. No creio que um sonho to bonito acabe to friamente. Mais vale
ento continuar a guerra, que se incumbir de preparar alojamentos para as
geraes vindouras, e liquidar os oramentos, com saldos,  verdade, mas sem
aquele excesso de saldos que ainda h pouco perturbavam as finanas
anglo-americanas.

Outro  o meu sonho. Creio que o sumo grau est no
principio, e a ele tornaremos. Eis aqui o processo. A civilizao remontar o
rio bblico, a Escritura ser vivida para traz, at chegar ao ponto em que Deus
ps Ado e Eva no paraso. Haver outro paraso, com Ado e Eva, ltimo casal,
que resumir em si os tempos, as idias, os sentimentos, toda a florescncia
moral e mental da primavera humana, atravs dos sculos. A lngua atual no
conhece palavras que pintem o que ser esse dia paradisaco, os campos verdes,
os ares lavados, as guas purssimas e frescas.
Surge uma dvida. 0 ultimo casal acabar tudo, no
derradeiro enlevo do sumo grau, ou repetir a conversao do Genesis,
para dar outro surto  humanidade, j ento perfeita e mais que perfeita?
Problema difcil. H razes boas para crer na extino, e outras no menos boas
para admitir a renovao aperfeioada. Talvez a mesma dvida assalte o esprito
do derradeiro casal. Cuido ouvir este trecho de dilogo no paraso do
fim:

 Que te parece, Eva?

Ado,  certo que h boas razes de um lado e boas
razes de outro, como dizia, h muitos sculos, um escritor...

 Paz  sua alma!

 Amm!

 Mas, dada a igualdade das razes, quais preferes
tu, mulher?

 Homem, eu dizer as que prefiro, no digo.
Pergunta-me se o dia  claro e se a noite  escura, e a minha resposta ser que
a noite  escura, quando no h luar, e o dia  claro, quando h sol.

 Bem, ento parece-te...

 Parece-me que os figos e os sapotis esto
frescos. Ontem, as guas do rio desusavam com muita velocidade. O colibri dana
em cima da flor, e a flor exala um cheiro suavssimo. Que flor preferes tu,
Ado?

 A da tua boca, Eva. E que flor preferes
tu?

 A que deve estar no cimo daquela montanha,
Ado.

 Vou colh-la para ti, Eva.

Nisto a serpente dir com a voz melflua que o
diabo lhe deu:

Si cette histoire vous embte,
Nous allons la
recomencer.

Mas, Deus, vendo o que  bom, como na Escritura,
acudir:   No, meus filhos, para experincia basta.

5
de agosto

Quereis ver o que so destinos?
Escutai.

Ultrajada por Sexto Tarqnio, uma
noite, Lucrcia resolve no sobreviver a desonra, mas primeiro denuncia ao
marido e ao pai a aleivosia daquele hspede, e pede-lhes que a vinguem. Eles
juram ving-la, e procuram tir-la da aflio dizendo-lhe que s a alma 
culpada, no o corpo, e que no h crime onde no houve aquiescncia. A honesta
moa fecha os ouvidos  consolao e ao raciocnio, e, sacando o punhal que
trazia escondido, embebe-o no peito e morre.

Esse punhal podia ter ficado no
peito da herona, sem que ningum mais soubesse dele; mas, arrancado por Bruto,
serviu de lbaro  revoluo que fez baquear a realeza e passou o governo 
aristocracia romana. Tanto bastou para que Tito Livio lhe desse um lugar de
honra na histria, entre enrgicos discursos de vingana. O punhal ficou sendo
clssico. Pelo duplo carter de arma domstica e pblica, serve tanto a exaltar
a virtude conjugal, como a dar fora e luz  eloqncia poltica.

Bem sei que Roma no  a
Cachoeira, nem as gazetas dessa cidade baiana podem competir com historiadores
de gnio. Mas  isso mesmo que deploro. Essa parcialidade dos tempos, que s
recolhem, conservam e transmitem as aes encomendadas nos bons livros,  que me
entristece, para no dizer que me indigna. Cachoeira no  Roma, mas o punhal de
Lucrcia, por mais digno que seja dos encmios do mundo, no ocupa tanto lugar
na histria, que no fique um canto para o punhal de Martinha. Entretanto,
vereis que esta pobre arma vai ser consumida pela ferrugem da
obscuridade.

Martinha no  certamente
Lucrcia. Parece-me at, se bem entendo uma expresso do jornal A Ordem,
que  exatamente o contrrio. Martinha (diz ele)  uma rapariga franzina,
moderna ainda, e muito conhecida nesta cidade, de onde  natural. Se  moa, se
 natural da Cachoeira, onde  muito conhecida, que quer dizer moderna?
Naturalmente quer dizer que faz parte da ltima leva de Citera. Esta
condio, em vez de prejudicar o paralelo dos punhais, d-lhe maior realce, como
ides ver. Por outro, lado, convm notar que, se h contrastes das pessoas, h
uma coincidncia de lugar: Martinha mora na Rua do Pago, nome que faz lembrar a
religio da esposa de Colatino.

As circunstncias dos dois atos
so diversas. Martinha no deu hospedagem a nenhum moo de sangue rgio ou de
outra qualidade. Andava a passeio,  noite, um domingo do ms passado. O Sexto
Tarqnio da localidade, cristmente chamado Joo, com o sobrenome de Limeira,
agrediu e insultou a moa, irritado naturalmente com os seus desdns. Martinha
recolheu-se  casa. Nova agresso,  porta. Martinha, indignada, mas ainda
prudente, disse ao importuno: No se aproxime, que eu lhe furo. Joo Limeira
aproximou-se, ela deu-lhe uma punhalada, que o matou
instantaneamente.

Talvez espersseis que ela se
matasse a si prpria. Esperareis o impossvel, e mostrareis que me no
entendesses. A diferena das duas aes  justamente a que vai do suicdio ao
homicdio. A romana confia a vingana ao marido e ao pai. A cachoeirense
vinga-se por si prpria, e, notai bem, vinga-se de uma simples inteno. As
pessoas so desiguais, mas fora  dizer que a ao da primeira no  mais
corajosa que a da segunda, sendo que esta cede a tal ou qual sutileza de
motivos, natural deste sculo complicado.

Isto posto, em que  que o punhal
de Martinha  inferior ao de Lucrcia? Nem  inferior, mas at certo ponto 
superior. Martinha no profere uma frase de Tito Livio, no vai a Joo de
Barros, alcunhado o Tito Livio portugus, nem ao nosso Joo Francisco Lisboa,
grande escritor de igual valia. No quer sanefas literrias, no ensaia atitudes
de tragdia, no faz daqueles gestos oratrias que a histria antiga pe nos
seus personagens. No; ela diz simplesmente e incorretamente: No se aproxime
que eu lhe firo. A palmatria dos gramticos pode punir essa expresso; no
importa, o eu lhe furo traz um valor natal e popular, que vale por todas
as belas frases de Lucrcia. E depois, que tocante eufemismo! Furar por matar;
no sei se Martinha inventou esta aplicao; mas, fosse ela ou outra a autora, 
um achado do povo, que no manuseia tratados de retrica, e sabe s vezes mais
que os retricos de ofcio.

Com tudo isso, arrojo de ao,
defesa prpria, simplicidade de palavra, Martinha no ver o seu punhal no mesmo
feixe de armas que os tempos resguardam da ferrugem. O punhal de Carlota Corday,
o de Ravaillac, o de Booth, todos esses e ainda outros faro cortejo ao punhal
de Lucrcia, luzidos e prontos para a tribuna, para a dissertao, para a
palestra. O de Martinha ir rio abaixo do esquecimento, Tais so as coisas deste
mundo! Tal  a desigualdade dos destinos!

Se, ao menos, o punhal de Lucrcia
tivesse existido, v; mas tal alma, nem tal ao, nem tal injria, existiram
jamais,  tudo uma pura lenda, que a histria meteu nos seus livros. A mentira
usurpa assim a coroa da verdade, e o punhal de Martinha, que existiu e existe,
no lograr ocupar um lugarzinho ao p do de Lucrcia, pura fico. No quero
mal s fices, amo-as, acredito nelas, acho-as preferveis s realidades; nem
por isso deixo de filosofar sobre o destino das coisas tangveis em comparao
com as imaginrias. Grande sabedoria  inventar um pssaro sem asas,
descrev-lo, faz-lo ver a todos, e acabar acreditando que no h pssaros com
asas... Mas no falemos mais em Martinha.

12 de
agosto

Anteontem, dez de agosto, achando-se reunidas
algumas pessoas, falou-se casualmente da emisso de trezentos contos de ttulos,
autorizada pela assemblia do Maranho. Queriam uns que fosse papel-moeda,
outros que no. Dos primeiros alguns davam o ato por legtimo, outros negavam a
legitimidade, mas admitiam a convenincia. Travou-se debate. O mais extremado
opinou que o direito de emitir era inerente ao homem, qualquer um podia imprimir
as suas notas, e tanto melhor se as recebessem. Citou, como argumento, os
bilhetes que circulam no interior, e concluiu sacando do bolso uma cdula de
duzentos mil ris, que apanhou em Maragogipe, impressa na mesma casa de
Nova-York que imprime as nossas notas pblicas.

Nesse terreno o debate foi no s brilhante mas
fastidioso. As matrias financeiras e econmicas so graves. Geralmente, os
espritos que no conseguem ver claro nem dizer claro do para a economia
poltica e as finanas, atribuindo assim  cincia de muitos vares ilustres a
obscuridade que est neles prprios. Conheci um homem, primor de alegria, que
andou carrancudo um ano inteiro, por haver descoberto que papel-moeda era uma
coisa e moeda-papel outra; no dizia mais nada, no dava bons dias, mas
papel-moeda, nem boas noites, mas moeda-papel. Era lgubre; um cemitrio, ainda
com chuva, ainda de noite, era um centro de hilaridade ao p daquele desgraado.
Melhorou no fim de um ano, mas j no era o mesmo. A alegria, trazia-lhe no sei
que ar torcido que mais parecia escrnio...

Do debate travado saiu, entretanto, uma idia, a
idia de termos aqui a nossa moeda municipal. Contra ela protestavam os que eram
pela unidade da emisso; os outros pegaram deles pelos ombros e os puseram na
rua, esquecendo que as assemblias no se inventaram para conciliar os homens,
mas para legalizar o desacordo deles. Ficamos ns. A idia foi estudada e
desenvolvida. Chegamos a formular um projeto autorizando o prefeito a emitir at
dois mil contos de ris. Um, mais escrupuloso, queria que a emisso fosse
garantida pelas propriedades municipais; mas esta sub-idia no foi aceita. Com
efeito, a propriedade municipal  incerta e difcil de definir. As rvores das
ruas so prprios municipais? No caso afirmativo, como se explica que o meu
criado Jos Rodrigues as tenha comprado ao empreiteiro dos calamentos do
bairro, para me poupar as despesas da lenha? A discusso tornou-se bizantina,
resolvemo-nos pela emisso pura e simples, sem garantia, alm da confiana do
contribuinte e da lealdade do emissor. Concludo o projeto, acrescentou-se que
um de ns iria d-lo de presente ao conselho municipal.

Mas aqui surgiu uma dvida: Haver conselho
municipal? A legislao era pela afirmativa. A imprensa diria, superficialmente
lida, no o era menos. Vrios fenmenos, porm, faziam suspeitar que o conselho
municipal no existia. A linguagem atribuda ao seu presidente, na sesso de
quarta-feira, era um desses fenmenos. Disse ele (pelo que referem os jornais)
que o conselho, convocado desde 3 do ms passado, raras vezes se reunira; assim,
vendo que os membros no compareciam, ia oficiar-lhes pessoalmente chamando-os
aos trabalho. H a contradio nos termos, porquanto, se o conselho foi
convocado desde mais de um ms, e no se reunia,  que no tinha membros, e se
no tinha membros no era conselho. Um dos presentes defendeu, entretanto, a
probabilidade da existncia.

 H razes para crer que o conselho existe, disse
ele. A primeira  que a vinte e oito do ms passado houve sesso, proferiram-se
alguns discursos, resolvendo-se afinal que era preciso ler e meditar as matrias
sujeitas a deliberao. Deu-se at um incidente que explica at certo ponto a
falta de sesso nos outros dias. Um dos intendentes, referindo-se a um velho
projeto, disse: Estando a comisso em dvida sobre alguns pontos do projeto,
desejava que o seu autor aparecesse neste casa, a fim de interrog-lo; S. Ex.
porm, no tem aparecido... Daqui se pode concluir que no h freqncia, que
um intendente aparece, s vezes, que  recebido com demonstraes de saudade:
Ora seja muito bem aparecido! Mas no parece clara a concluso contra a
existncia do conselho. A segunda razo que me faz vacilar na negativa da
existncia  que, intimados pessoalmente no dia 7, o conselho fez sesso logo a
9. Verdade  que j hoje, 10, no houve sesso. Enfim, tenho um indcio veemente
de que o conselho existe,  a resignao do cargo por dois membros. Est nos
jornais.

A maioria no aceitou este modo de ver. A
publicao dos atos do conselho no era prova da existncia deste, podiam ser
variedades literrias. A literatura, como Proteu, troca de formas, e nisso est
a condio da sua vitalidade. Podia ser tambm um processo engenhoso de mostrar
a necessidade de termos um conselho municipal. Quem se no lembra da famosa
Batalha de Dorking, opsculo publicado h anos, descrevendo uma batalha
que no houve, mas pode haver, se a Inglaterra no aumentar as foras navais? J
se escreveu uma Histria do que no aconteceu. Demais,  necessidade da
imprensa agradar aos leitores, dando-lhes matria interessante e principalmente
nova. Ora, se o conselho municipal no existe, nada mais novo que sup-lo
trabalhando.

Essa opinio da maioria irritou os poucos que
admitiam a probabilidade da existncia, dando em resultado afirmarem agora o que
antes era para eles simples presuno. Um da minoria ergueu-se e demonstrou a
existncia do conselho pela considerao de que o municpio  a base da
sociedade e dizendo cousas latinas acerca do municpio romano. Naturalmente, a
maioria indignou-se. Um, para provar que o preopinante errava, chamou-lhe asno,
ao que retorquiu aquele que as suas orelhas eram felizmente curtas. Essa aluso
s orelhas compridas do outro fez voar um tinteiro e ia comear a dana das
bengalas, quando me ocorreu uma idia excelente.

 Meus amigos, disse eu, peo-vos um minuto de
ateno. Estamos aqui a discutir a existncia do conselho municipal, a propsito
da emisso de ttulos maranhenses, que talvez no exista, tal qual o conselho.
Mas, dado que a emisso de ttulos seja real,  certo que h de durar pouco,
tanto mais que  por antecipao de receita, enquanto que aqui est outra
emisso do Maranho, muito mais duvidosa que essa. Este dia 10 de agosto  o
aniversrio do nascimento de Gonalves Dias. H setenta e um anos que o Maranho
no-lo deu, h trinta que o mar no-lo levou, e os seus versos de grande poeta
perduram, to viosos, to coloridos, to vibrantes como nasceram. Viva a
poesia, meus amigos! Viva a sacrossanta literatura! como dizia Flaubert. No sei
se existem intendentes, mas os Timbiras existem.

19 de agosto

Tem havido grandes cercos e
entradas da polcia em casas de jogo. Sistematicamente, a autoridade procura
dispersar os religionrios da Fortuna, e trancar os antros da perdio. Esta
frase no  nova, mas o vcio tambm  velho, e no se pe remendo novo em pano
velho, diz a Escritura. J se jogava no tempo da Escritura; lanaram-se dados
sobre a tnica de Jesus Cristo. Na China, em que h tudo desde muitos milhares
de anos,  provvel que o jogo se perca na noite dos tempos. Maom, que tinha
algumas partes de grande homem, apesar de ser o prprio co tinhoso, consentiu o
uso do xadrez aos seus rabes, e fez muito bem;  um jogo que no admite
quinielas, e, apesar de ter cavalos, no se d ao aperfeioamento da raa
cavalar, como os vrios derbys deste mundo.

Antes de ir adiante, deixem-me pr
aqui uma observao que fiz e me pareceu digna de nota. Compilador do sculo
vinte, quando folheares a coleo da Gazeta de Notcias, do ano da graa
de 1894, e deres com estas linhas, no vs adiante sem saber qual foi a minha
observao. No  que lhe atribua nenhuma mina de ouro, nem grande mrito; mas
h de ser agradvel aos meus manes saber que um homem de 1944 d alguma ateno
a uma velha crnica de meio sculo. E se levares a piedade ao ponto de escrever
em algum livro ou revista: Um escritor do sculo XIX achou um caso de cor local
que no nos parece destitudo de interesse..., se fizeres isto, podes
acrescentar como o soldado da cano francesa:

Du haut du ciel,  ta demeure
dernire, 
Mon colonel, tu dois tre
content.

Sim, meu jovem capito, ficarei
contente, desde j te abenoou, compilador do sculo vinte; mas vamos  minha
observao.

A marcha ordinria da polcia 
entrar na casa, apreender a roleta, as cartas, os dados, multar o dono em
quinhentos mil-ris e sair. Enquanto ela entra, os fregueses escondem-se ou
fogem pelos muros ou pelos telhados. O dono da casa raramente foge; afeito 
guerra, sabe que recebeu um balzio, e fora  deixar algum sangue. Quando,
porm, acontece serem todos apanhados entre o 10 e o 22, ou entre a sota e o s,
parece que h gestos de acatamento e considerao.  quase provvel que,
terminada a ao policial, todos eles acompanhem os agentes at o patamar, com
reverncias.

Ora bem; telegramas de Espanha
dizem que a polcia deu em uma casa de jogo de Madri, onde achou muitos
fidalgos. Que pensais que fizeram os fregueses? Que fugiram pelos fundos ou
pelos telhados? No, senhor, os fregueses correram aos trabucos que haviam
trazido consigo e travaram combate com a polcia. No dizem os telegramas se
venceram ou foram vencidos, nem quantos morreram. Tambm no quero sab-lo. O
que me importa em tudo isso  a cor local. Vede bem como estamos na Espanha. Um
fidalgo, que ter talvez o direito de se cobrir diante do rei, jamais consentir
que um aguazil lhe deite mo ao ombro, e primeiro a decepar com uma
bala.

Essa notcia, que parece nada,
explica o fracasso da nossa pera Nacional. O caso da tavolagem de Madri daria
nas mos de um Mrime uma novela como a Carmen, de onde viria um maestro
extrair uma pera. Os espanhis tm a sua pera, que  a zarzuela. No
lhes ho de faltar assuntos, pois que sabem fugir da realidade chata das lutas
incruentas, e os bons fidalgos defendem o rei de copas com o mesmo brio e
prontido com que defenderiam o rei da Espanha. Como fazermos a mesma coisa? No
s no h trabucos nas nossas casas de jogo, mas as prprias bengalas so
esquecidas nos momentos de crise. Ao primeiro apito, pernas. Ao primeiro vulto,
muros. Quando sucede faltarem as pernas e os muros, sobram sorrisos e
barretadas. Nunca deixarei de aprovar uma atitude ou um movimento que exprima
respeito  autoridade e reconhecimento implcito do erro; mas com isto fazem-se
catecismos, aplogos morais e partes de polcia. peras  que no.

Explicado assim o fracasso da
nossa pera Nacional, deixem-me confessar que nem tudo so peras neste mundo.
H palavras sem msica. Da as nossas diligncias, que, se perdem pelo lado
esttico, lucram pelo lado moral. Por isso mesmo, convm apoi-las. Toda
represso  pouca. Se, porm, basta o zelo da autoridade e a energia dos seus
agentes, no sei. Pode suceder que a ao da polcia seja igual  das Danaides,
e que o imenso tonel no chegue a depositar um litro de gua. Primeiro seria
preciso calafet-lo, a fim de que a gua no se escoe da Rua do Lavradio para a
dos Invlidos. Onde est, porm, esse tanoeiro ciclpico?

No induzam daqui que eu quero ver
interrompido o servio das Danaides, nem concluam da citao do telegrama de
Madri que aprovo o uso do trabuco. No, Deus meu; tanto no quero uma coisa, nem
aprovo outra, que aplaudo ambas as contrrias. E perdoem-me se insisto neste
ponto. Nem todos os leitores concluem logicamente. Muitos h que, se algum acha
o Rangel mais elegante que o Bastos, exclamam convencidos:

 Ah! j sei,  amigo do
Rangel!

E todo o tempo  pouco para
replicar:

 No, homem de Deus, no sou
amigo nem inimigo do Rangel; creio at que ele me deve dez tostes. O que digo,
 que, comparado com o Bastos, o Rangel  mais elegante.

 Pobre Bastos! dio velho no
cansa. Por que no confessa logo que o detesta?

 Mas eu no detesto o Bastos;
simpatizo at com ele, e, se bem me lembro, devo-lhe um favor, no pequeno, aqui
h anos, tanto mais digno de lembrana quanto foi espontneo...

 Mas por que lhe chama
lapuz?

 Que lapuz? No disse tal. Disse
que acho o Rangel mais elegante...

 Que o adora, em suma.

No h sair daqui. O melhor, em
tais casos  calar a boca, ou encerrar o escrito, se se escreve. Viva Deus!
Creio que est finda a crnica.

28 de
agosto

Que vale a runa de uma cidade ao p da runa de um
corao? Crenas santas, crenas abenoadas, que so quarteires de casas, ruas
inteiras, palcios, monumentos que o tempo desfaz, comparados com uma s de vs
que se perde? Eu cria em S. Bartolomeu. Esperava o dia 24 de agosto, como quem
espera o dia do noivado, to somente por causa daqueles grandes ventos que o
santo mandava a este mundo. Quando era criana, diziam-me que era o diabo que
andava solto, e acreditei que sim; mas, com os anos percebi que o diabo  menos
violento que insidioso; quando se faz vento,  antes brisa que tufo. A brisa 
mansa e velhaca,  a prpria serpente tentadora do mal que se mete entre Ado e
Eva para seduzi-los e perd-los:

Lembras-te ainda dessa noite, Elisa?
Que doce brisa respirava ali!

Outro  o processo de Deus. O vento do cu 
furaco, destri, arrasa, castiga. Foi o que achei em relao ao dia de S.
Bartolomeu, logo que tive o uso da razo. Compreendi que era o santo que soprava
todas as cleras celestes. Este ano esperei, como nos outros, o dia 24 de
agosto. Assim, quando na vspera,  tarde, comecei a ver poeira e a ouvir uma
cousa parecida com vento forte, senti um alegro. Notai que eu execro o vento,
maiormente o tufo. De todos os meteoros  o que me bole com os nervos e me tira
o sono. Trovoadas so comigo; aguaceiros, principalmente se estou em casa, so
agradveis de escutar. Vento, nem sopro. Por este ano esperava o dia de S.
Bartolomeu com extraordinria ansiedade,  talvez para ver se o vento levava
aquele resto de ponte que fica em frente  praia da Glria.

Creio que essa obra prendia-se ao plano de atestar
uma parte do mar; no se tendo realizado o plano, a ponte ficou, do mesmo modo
que ficaram na rua dos Ourives os trilhos de uma linha de bonds que se
no fez. Nisto o mar parece-se com a terra. Nem h razo clara para ao
diferente. O tempo trouxe algumas injrias  obra, mas a ponte subsiste com os
seus danos,  espera que os anos mais vagarosos para as obras dos homens, que
para os mesmos homens, consuma esse produto da engenharia hidrulica.

Entre parntesis, no se pense que sou oposto a
qualquer idia de aterrar parte da nossa baa. Sou de opinio que temos baa de
mais. O nosso comrcio martimo  vasto e numeroso, mas este porto comporta mil
vezes mais navios dos que entram aqui, carregam e descarregam, e para que h de
ficar intil uma parte do mar? Calculemos que se aterrava metade dele; era o
mesmo que alargar a cidade. Ruas novas, casas e casas, tudo isso rendia mais que
a simples vista da gua movedia e sem prstimo. As ruas podiam ser de dois
modos, ou estreitas, para se alargarem daqui a anos, mediante uma boa lei de
desapropriao, ou j largas, para evitar fadigas ulteriores. Eu adotaria o
segundo alvitre, mas por uma razo oposta, para estreitar as ruas, mais tarde,
quando a populao crescesse.  bom ir pensando no futuro. Telegramas de S.
Paulo dizem que foram edificadas naquela cidade, nos ltimos seis meses, mais de
quatrocentas casas; naturalmente, havia espao para elas. No o havendo aqui,
fora  prev-lo.

No sei por que razo, uma vez comeado o aterro do
porto, em frente  Glria, no iramos ao resto e no o aterraramos
inteiramente. Nada de abanar a cabea; leiam primeiro. No est provado que os
portos sejam indispensveis s cidades. Ao contrrio, h e teria havido grandes,
fortes
e prsperas cidades sem portos. O porto  um
acidente. Por outro lado, as populaes crescem, a nossa vai crescendo, e ou
havemos de aumentar as casas para cima, ou alarg-las. J no h espao c
dentro. Os subrbios no esto inteiramente povoados, mas so subrbios. A
cidade, propriamente dita,  c em baixo.

Se tendes imaginao, fechai os olhos e contemplai
toda essa imensa baa aterrada e edificada. A questo do corte do Passeio
Pblico ficava resolvida; cerceava-se-lhe o preciso para alargar a rua, ou
eliminava-se todo, e ainda ficava espao para um passeio pblico enorme. Que
metrpole! que monumentos! que avenidas! Grandes obras, uma estrada de ferro
area entre a Laje e Mau, outra que fosse da atual praa do Mercado a Niteri,
iluminao eltrica, aquedutos romanos, um teatro lrico onde est a ilha
Fiscal, outro nas imediaes da igrejinha de S. Cristvo, dez ou quinze circos
para aperfeioamento da raa cavalar, esttuas, chafarizes, piscinas naturais,
algumas ruas de gua para gndolas venezianas, um sonho.

Tudo isso custaria dinheiro,  verdade, muito
dinheiro. Quanto? Quinhentos, oitocentos mil contos, o duplo, o triplo, fosse o
que fosse, uma boa companhia poderia empreender esse cometimento. Uma entrada
bastava, dez por cento do capital, era o preciso para os primeiros trabalhos do
aterro; depois levantava-se um emprstimo. Convm notar que a renda da companhia
principiaria desde as primeiras semanas. Como os pedidos de chos para casas
futuras deviam ser numerosssimos, a companhia podia vend-los antes do aterro,
sob a denominao de chos ulteriores, com certo abatimento. Assim tambm
venderia o privilgio da iluminao, dos esgotos, da viao pblica. Podia
tambm vender os peixes que existissem antes de comear a aterrar o mar. Eram
tudo fontes de riqueza e auxlios para a realizao da obra.

Bem; mas, no se realizando este sonho, parece-me
que o frangalho de ponte que existe diante da praia da Glria,  antes um
desadorno que um adorno. til no , visto achar-se j com duas ou trs solues
de continuidade. Nem til, nem moral.  uma srie de paus fincados, com outros
convulsos. Na mesma praia da Glria, c em cima, houve at h pouco uma relquia
de no sei que cousas russas, montanhas, creio, que ali estaria at agora
tapando a vista e aborrecendo a alma, se um incndio benfico no acabasse com o
que os donos abandonaram. No peo fogo para a ponte; mas  por isso mesmo que
esperava ansiosamente o dia de So Bartolomeu.

Veio o dia... Primeiro veio a vspera, que me deu
alguma esperana, como acima ficou dito; houve poeira, galhos de rvores
arrancados, voaram alguns chapus. O dia, porm, oh! triste dia de S.
Bartolomeu, chuvoso e pacato, sem um soprozinho para consolao. O nico
fenmeno importante foi o desconcerto de um bond eltrico, que obrigou
muita gente a vir a p da Glria at a rua do Ouvidor; mas quando me lembro que
isto se pode dar em qualquer dia, deixo de atribuir o caso ao santo. Vo-se os
deuses. Morrem as doces crenas abenoadas. Runas morais, que so ao p de vs
as runas de um imprio?

2
de setembro

Acabo de ler que os condutores de
bonds tiram anualmente para si, das passagens que recebem, mais de mil
contos de ris. S a Companhia do Jardim Botnico perdeu por essa via, no ano
passado, trezentos e sessenta contos. Escrevo por extenso todas as quantias, no
s por evitar enganos de impresso, fceis de dar com algarismos, mas ainda para
no assustar logo  primeira vista, se os nmeros sarem certos. Pode acontecer
tambm, que tais nmeros, sendo grandes, gerem incredulidade, e nada mais duro
que escrever para incrdulos.

Parece que as companhias tm
experimentado vrios meios de fiscalizar a cobrana, sem claro efeito.
Atribui-se ao finado Miller, gerente que foi da Companhia do Jardim Botnico, um
dito mais gracioso que verdadeiro, assaz expressivo do ceticismo que distinguia
aquele amvel alemo. Dizia ele (se  verdade) que, pondo fiscais aos
condutores, comiam condutores e fiscais, melhor era que s comessem condutores.
H nisso parcialidade. Ou o espiritismo  nada, ou Miller foi condutor de
bond em alguma existncia anterior, e da essa proteo exclusiva a uma
classe. No haveria bonds, mas havia homens. Miller ter sido condutor de
homens, os quais, juntos em nao, formam um vasto bond, ora atolado e
parado, como a China, ora tirado por eletricidade, como o Japo.

Mas eu no creio que Miller tenha
dito semelhante coisa; h de ser inveno do cocheiro. Ningum acusa o cocheiro
de conivncia na subtrao dos mil e tantos contos, sendo alis certo que, no
organismo poltico e parlamentar do bond, ele  o presidente do conselho,
o chefe do gabinete. O condutor  o rei constitucional, que reina e no governa,
os passageiros so os contribuintes. Que o condutor no governa, v-se a todo
instante pela desateno do cocheiro  campainha, que o manda parar. Advirto
Vossa Majestade, diz o cocheiro com o gesto, que a responsabilidade do governo 
minha, e eu s obedeo  vontade do Parlamento, cujas rdeas levo aqui seguras.
Segundo toque de campainha recomenda ao chefe do gabinete que, nesse caso, pea
s Cmaras um voto de aprovao. Perfeitamente, responde o cocheiro, e requer
o voto com duas fortes lambadas. O parlamento, cioso das suas prerrogativas,
empaca;  justamente a ocasio que o passageiro gil e sagaz aproveita para
descer e entrar em casa.

No  preciso demonstrar que as
sociedades annimas, como as polticas, so outros tantos bonds, e se
Miller no foi condutor de algumas destas,  que o foi de algumas daquelas. Mas
deixemos suposies gratuitas. Ningum jura ter ouvido ao prprio Miller as
palavras que a lenda lhe atribui. Que ficam elas valendo? Valem o que valem
outras tantas palavras histricas. No percamos tempo com fices.

Vamos antes a duas espcies de
subtrao, que devem ser contadas na soma total,  uma contra as companhias,
outra contra os passageiros. A primeira  rara, mas existe, como as anomalias do
organismo. Tem-se visto algum passageiro tirar modestamente do bolso o nquel da
passagem,  ou no tir-lo (h duas escolas)  e ir olhando cheio de melancolia
pelas casas que lhe ficam  direita ou  esquerda, segundo a ponta do banco em
que est. Os olhos derramam idias tristes. Se o condutor, distrado ou
atrapalhado na cobrana, no convida o passageiro a idias chistosas, d-se este
por pago, e o nquel torna surdamente para a algibeira de onde saiu, ou, se no
saiu, l fica.

A segunda espcie de subtrao 
tambm rara, e ainda mais prejudicial ao passageiro  companhia. Consiste em
pedir ao condutor que espere o troco da nota que este lhe deu. s vezes nem 
preciso pedir, faz um gesto ou no faz nada: subentende-se que toda nota tem
troco. O passageiro prossegue na leitura ou na conversao interrompida, se no
vai simplesmente pensando na instabilidade das coisas desta vida. Acontece que
chega a casa ou  esquina da rua em que mora, e manda parar o bond.
Igualmente sensvel ao aspecto melanclico das habitaes humanas, o condutor
toca maquinalmente a campainha, e o homem desce, louvando ainda uma vez esta
conduo to barata, que lhe permite ir por um tosto do Largo de So Francisco
ao Campo de So Cristvo.

Este segundo caso  de
conscincia. Com efeito, se o condutor no deu troco ao passageiro, h de
entregar a nota  companhia? No; seria fazer com que cobrasse dez vezes a mesma
passagem. H de trocar a nota para entregar s a passagem e ficar com o resto?
Seria legitimar uma diviso criminosa. H de anunciar a nota? Seria publicar a
sua prpria distrao, e demais arriscar o emprego, coisa que um pai de famlia
no deve fazer. A nica soluo  guardar tudo.

Mas, ainda sem estes dois
elementos, parece que a perda anual  grande, e algum remdio  necessrio. A
idia de interessar os prprios passageiros, ligados por um lao de caridade,
pode ser fecunda, e, em todo caso,  elevada. O nico receio que tenho,  da
pouca resistncia nossa, por preguia de nimo ou outra coisa. O interesse 
mais constante. Jos Rodrigues, a quem consultei sobre esta matria, disse-me
que isto de perder so os nus do ofcio; tambm a companhia de que ele tinha
debntures, perdeu-os todos. Mas lembrou-me um meio engenhoso e til: incumbir
os acionistas de vigiarem por seus prprios olhos a cobrana das passagens.
Interessados em recolher todo o dinheiro, sero mais severos que ningum, mais
pontuais, no ficar vintm nem conto de ris da caixa.

9
de setembro

A morte de Mancinelli deu lugar a
uma observao, naturalmente to velha ou pouco menos velha que o mundo, a
saber, que o homem  um animal de sonhos e mistrios. No gosta das verdades
simples. Assim, relativamente no motivo do suicdio, ouvi muitas verses remotas
e complicadas. A mais espantosa foi que Mancinelli estava com ordem de priso,
por ter mandado lanar fogo ao Politeama, e recorrera  morte, no por
desespero, mas por temor.

Confessemos que  ir um pouco
longe. Entretanto, faamos justia aos homens, a realidade era mais difcil de
crer que a inveno e a fantasia. Um empresrio que se mata por no poder pagar
aos credos, ora pela Fnix e pela Sibila. Era natural no admitir que, em tal
situao, um empresrio prefira a bala ao paquete. O paquete  a soluo comum,
mas tambm h casos de simples discurso explicativo, palavras duras, uma
reduo, uma conveno, uma infrao e o silncio. No me lembra nenhum caso
mortal.

O pobre e fino artista foi o
primeiro, e por muitos e muitos anos ser o nico. porque eu no creio que
nenhum outro, nas mesmas condies, se meta to cedo em tal ofcio, para o qual
no basta o sentimento da arte. No o conheci de perto, nem de longe, mas parece
que era profundamente sensvel, tinha o orgulho alto, o pundonor agudo e o
sentimento da responsabilidade vivssimo. No podendo lutar, preferiu a morte,
que se lhe afigurou mais fcil que a vida e mais necessria tambm.

H justamente um ms, deu-se em
Oxford um suicdio, que, a certo respeito  o de Mancinelli. Foi o de John
Mowat. Este erudito era bibliotecrio da Universidade. Nomeado membro do
Congresso das Cincias que ali se reunia agora, teve medo de no poder
desempenhar cabalmente o mandato, pegou de uma corda e enforcou-se. Sabia-se que
era homem de grande impressionabilidade. Vivendo feliz, sossegado, entregue aos
livros, temeu c fora um fiasco. Compreendendo que a gente inglesa tambm
recusasse tal motivo, e preferisse crer, visto tratar-se de um bibliotecrio,
que ele deitara fogo  biblioteca de Alexandria.

Realmente, matar-se um homem por
suspeitar que pode ficar abaixo de um cargo  coisa que, ainda escrita, ningum
cr; parece uma pgina de Swift. Antes de tudo, esse sentimento de inferioridade
 rarssimo. Quando existe, fica to fundo na conscincia, que s o olho
perspicaz do observador pode senti-lo e palp-lo c de fora. A aparncia 
contrria; o ar da pessoa, o tom, o aspecto, tudo persuade  multido que o
cargo  que  pequeno. A verdade, porm,  que Mowat matou-se por causa dessa
modstia doentia, quando o seu dever era ser sadio e forte, crer que podia
arrancar uma estrela do cu, e, obrigado a faz-lo, tir-la da
algibeira.

Num e noutro caso, como nos
demais, surge a questo de saber se o suicdio  um ato de coragem ou de
fraqueza. Questo velha. Tem sido muito discutida, como a de saber qual  maior,
se Csar ou Napoleo; mas esta  a mais recente e indgena. Pode dizer-se que os
dois grandes homens equilibram-se, nos votos, mas a questo do suicdio  antes
resolvida no sentido da fraqueza que no da coragem.  um problema psicolgico
fcil de tratar entre o Largo do Machado e o da Carioca. Se o bond for
eltrico, a soluo  achada em metade do caminho.

Segundo os cnones, o suicdio 
um atentado ao Criador, e o nosso primeiro e recente arcebispo aproveitou o caso
Mancinelli para lembr-lo aos procos e a todo o clero, e conseqentemente que
os sufrgios eclesisticos so negados aos que se matam. A circular de D. Joo
Esberard  sbria, enrgica e verdadeira; recorda que a sociedade civil e a
filosofia condenam o suicdio, e que a natureza o considera com horror. No mesmo
dia da expedio da circular (quinta-feira) um homem que padecia de molstia
dolorosa ou incurvel, talvez uma e outra coisa, recorreu  morte como a melhor
das tisanas. Suponho que no ter lido a palavra do prelado; mas outros suicidas
viro depois dela, pois que os cnones so mais antigos, a filosofia tambm, e
mais que todos a natureza.

Conta Plutarco que houve, durante
algum tempo, em Mileto, uma coisa que ele chama conjurao, mas que eu, mais
moderno, direi epidemia, e era que as moas do lugar entraram a matar-se umas
aps outras. A autoridade pblica, para acudir a tamanho perigo, decretou que os
cadveres das moas que dali em diante se matassem, seriam arrastados pelas
ruas, inteiramente nus. Cessaram os suicdios. O pudor acabou com o que no
puderam conselhos nem lgrimas. A privao dos sufrgios eclesisticos  assaz
forte para os crentes, embora no seja sempre decisiva: mas a incredulidade do
sculo e a frouxido dos prprios crentes ho de tornar improfcua muita vez a
interveno do prelado.

Pela minha parte, estou com os
cnones, com a filosofia, com a sociedade e com a natureza, sem negar so dois
belos versos aqueles com que o poeta Garo fecha a ode que comps ao suicdio:

Todos podem tirar a vida ao
homem,
Ningum lhe tira a
morte.

Convenho que a morte seja
propriedade inalienvel do homem, mas h de ser com a condio de a conservar
inculta, de lhe no meter arado nem enxada. Condio que no se pode crer
segura, nem geralmente aceita. So matrias complicadas, longas, e cada vez
sinto menos papel debaixo da pena. Enchamos o que falta com uma revelao e uma
observao.

A revelao  um grito d'alma que
ouvi, quando a notcia do suicdio de Mancinelli chegou a um lugar onde
estvamos eu e um amigo. Ora plulas! bradou este meu amigo;  outro empresrio
que me leva a assinatura. Consolei-o dizendo que as assinaturas do Teatro
Lrico, perdidas ou interrompidas neste mundo, so pagas em tresdobro no Cu. A
esperana de ouvir eternamente os Huguenotes e o Lohengrin alegrou
a alma diletante e crist do meu amigo. Disse-lhe que os anjos, como a
eternidade  longa, estudam as peras todas, para indenizao das algibeiras e
dos ouvidos defraudados pelo suicdio ou pelo paquete; acrescendo que os
maestros no Cu sero os regentes da orquestra das suas peras, menos os judeus,
que podero mandar pessoa de confiana.

Quanto ao reparo,  um pouco
velho, mas serve. Verificou-se ainda uma vez a supremacia da msica em nossa
alma. Certamente, as circunstncias da morte de Mancinelli, as qualidades
simpticas do homem, os dons do artista, a honradez do carter, contriburam
muito para o terrvel efeito da notcia. Creio, porm, que uma parte do efeito
originou-se na condio de empresrio lrico. A verdade  que ns amamos a
msica sobre todas as coisas e as prima-donas como a ns mesmos.

16 de setembro

Que boas que so as semanas
pobres! As semanas ricas so ruidosas e enfeitadas, aborrecveis, em suma. Uma
semana pobre chega  porta do gabinete, humilde  medrosa:

 Meu caro senhor, eu pouco tenho
que lhe dar. Trago as algibeiras vazias; quando muito, tenho aqui esta cabea
quebrada, a cabea do Matias...

 Mas que quero eu mais, minha
amiga? Uma cabea  um mundo... Matias, que Matias?

 Matias, o leiloeiro que passava
ontem pela Rua de So Jos, escorregou e caiu... Foi uma casca de
banana.

 Mas h cascas de banana na Rua
de So Jos?

 Onde  que no h cascas de
bananas? Nem no cu, onde no se come outra fruta, com toda certeza, que  fruta
celestial. Mate-me Deus com bananas. Gosto delas cruas, com queijo de Minas,
assada com acar, acar e canela... Dizem que  muito nutritiva.

Confirmo este parecer, e a vamos,
eu a semana pobre, papel abaixo, falando de mil coisas que se ligam  banana,
desde a botnica at a poltica. Tudo sai da cabea do Matias. No h tempo nem
espao, h s eternidade e infinito, que nos levam consigo; vamos pegando aqui
de uma flor, ali de uma pedra, uma estrela, um raio, os cabelos de Medusa, as
pontas do Diabo, micrbios e beijos, todos os beijos que se tm consumido, at
que damos por ns no fim do papel. So assim as semanas pobres.

Mas as semanas ricas! Uma semana
como esta que ontem acabou farta de sucessos, de aventuras, de palavras, uma
semana em que at o cmbio comeou a esticar o pescoo pode ser boa para quem
gostar de bulha e de acontecimentos. Para mim que amo o sossego e a paz  a pior
de todas as visitas. As semanas ricas exigem vrias cerimnias, algum servio,
muitas cortesias. Demais, so trapalhonas, despejam as algibeiras sem ordem e a
gente no sabe por onde lhe pegue, tantas e tais so as coisas que trazem
consigo. No h tempo de fazer estilo com elas, nem abrir a porta  imaginao.
Todo ele  pouco para acudir aos fatos.

 Como  que V. Exa. pde vir to
carregado assim, no me dir?

 No  tudo.

 Ainda h mais fatos?

 Tenho-os ali fora, na carruagem;
trouxe comigo os de maior melindre, e vou mandar trazer os outros pelo lacaio...
Pedro!

 No se incomode V. Exa.; eu
mando o Jos Rodrigues. Jos Rodrigues! V ali  carruagem desta senhora e traga
os pacotes que l achar. Vm todos os pacotes?

 Todos, menos o edifcio da
Fbrica da Chitas, que afinal recebeu o ltimo piparote do tempo e caiu. Pelo
resultado, podemos dizer que foi o dedo da Providncia que o deitou abaixo; no
matou ningum. Imagine se o bond que descia passasse no momento de cair o
monstro, e que o homem que queria ir ver na casa arruinada a cadela que dava
leite aos filhos houvesse chegado ao lugar onde estavam os ces. Que desastre,
santo Deus! Que terrvel desastre!

 Terrvel, minha senhora? No
nego que fosse feio, mas o mal seria muito menor que o bem. Perdo; no
gesticule antes de ouvir at o fim... Repito que o bem compensaria o mal.
Imagine que morria gente, que havia pernas esmigalhadas, ventres estripados,
crnios arrebentados, lgrimas, gritos, vivas, rfos, angstias, desesperos...
Era triste, mas que comoo pblica! que assunto frtil para trs dias!
Recorde-se da Mortona.

 Que Mortona?

 Creio que houve um desastre
deste nome; no me lembro bem, mas foi negcio em que se falou trs dias. Ns
precisamos de comoes pblicas, so os banhos eltricos da cidade. Como duram
pouco, devem ser fortes. Olhe o caso Mancinelli...

 A minha mana mais velha  que o
trouxe consigo. Foi um suicdio, creio.

 Foi, um horrvel suicdio que
abalou a cidade em seus fundamentos. No dia da morte, cerca de mil pessoas foram
ver o cadver do triste empresrio. Quando se deu o primeiro espetculo a favor
dos artistas, acudiram ao teatro dezessete pessoas, no contando os porteiros,
que entram por ofcio. No h que admirar nessa diferena de algarismos; as
comoes fortes so naturalmente curtas. Fortes e longas, seriam a mais horrvel
das nevroses. Foi uma pena no ter passado um bond cheio de gente, na
ocasio em que ruiu a Fbrica das Chitas; cheio de gente, isto , de crianas
sem mes, maridos sem esposas, vivas costureiras, sem os filhos, e muitos
passageiros, muitos pingentes, como dizem dos que vo pendurados nos estribos,
incomodando os outros. Creia V. Exa.; uma vez que os homens j no compem
tragdias,  preciso que Deus as faa, para que este teatro do mundo varie de
espetculo. Tudo fandango, minha senhora! Seria demais.

 Como o senhor 
perverso!

 Eu? Mas...

 Vamos aos outros sucessos destes
sete dias; trago muitos.

 Perdo; quero primeiro lavar-me
da pecha que me ps. Eu perverso?

 Danado.

 Eu danado? Mas em que  que sou
danado e perverso? No lhe disse, note bem, que eu faria ruir o edifcio da
Fbrica das Chitas, quando passasse o bond, mas que era bom que ele
russe quando o bond passasse. H um abismo...

 Pois sim; vamos ao mais. Aqui
esto dois fatos importantes... um grande abismo. Nem falo s pelas outros, mas
tambm por mim. No tenho dvida em confessar que o espetculo de uma perna
alanhada, quebrada, ensangentada,  muito mais interessante que o da simples
cala que a veste. As calas, esses simples e banais canudos de pano, no do
comoo. As prprias calas femininas, quando comovem no  por serem
calas...

 Vamos aos sucessos.

... mas por serem calas
caladas.  outro abismo. Repare que hoje s vejo abismos. H uma chuva de
abismos; a imagem no  boa, mas que h bom neste sculo, minha senhora,
excluindo a ocupao do Egito? Dizem que se descobriu um elemento novo. Talvez
seja falso, mas pode ser que no; tudo  relativo. O relativo  inimigo do
absoluto: o absoluto, quando no  Deus,  (com licena) o tenor que canta as
glrias divinas. Comeo a variar, minha senhora; no me sinto bem...

 Ento acabemos depressa; 
tarde, preciso retirar-me.

...se  que no estou pior. O
pior  inimigo do bom, dizem; mas os dicionrios negam absolutamente essa
proposio, e eu vou com eles...

 Oh! o senhor faz-me
nervosa!

...no s por serem dicionrios,
mas por serem livros grossos. Oh! V. Exa. no sabe o que so esses livros altos
e de ponderao. Os dicionrios, se no so eternos, deviam s-lo. Uma s
pgina, um s dicionrio, eterno; era o ideal da sistematizao. A
sistematizao , para falar verdade...

 No posso mais,
adeus!

 Jos Rodrigues, fecha a porta;
se esta senhora voltar, dize-lhe que sa. Ah!

23 de setembro

Os depoimentos desta semana
complicaram de tal maneira o caso da bigamia Louzada, que  impossvel
destrinch-lo, sem o auxlio de uma grande doutrina. Essa doutrina, eu, que
algumas vezes me ri dela, venho proclam-la bem alto, como a ltima e
verdadeira.

Com efeito, vimos que a primeira
mulher do capito  negada por ele, que afirma ser apenas sua cunhada. Outros,
porm, dizem que a primeira mulher  esta mesma que a est, e quem o diz  o
vigrio que os casou em 1870, e o padrinho, que assistiu  cerimnia. Mas eis a
surge a certido de bito e o nmero da sepultura da primeira esposa, que, de
outra parte, so negadas, porque a pessoa morta no  a mesma e tinha nome
diverso. H assim uma pessoa enterrada e viva, mulher, cunhada e estranha, um
enigma para cinco polcias juntas, quanto mais uma.

Vinde, porm, ao espiritismo, e
vereis tudo claro como gua. Eu no cria no espiritismo at junho ltimo, quando
li na Unio Esprita que, h anos, um distinto jurisconsulto nosso,
antigo deputado por Mato Grosso, consentiu em assistir a uma experincia. Foi
invocado o esprito da sogra do deputado e respondeu o Marqus de Abaet: Meu
amigo; o espiritismo  uma verdade. Abaet. Caram-me as cataratas dos
olhos. Certamente o caso no era novo; mais de uma resposta destas aparecem, que
eu sempre atribu  simulao. A circunstncia, porm, da assinatura  que me
clareou a alma, no s porque o marqus era homem verdadeiro, mas ainda porque o
esprito assinara, no o seu nome de batismo, mas o ttulo mobilirio. Se
houvesse charlatanismo, teria sado o nome de Antnio, para fazer crer que os
espritos desencarnados deixam neste mundo todas as distines. A assinatura do
ttulo prova a autenticidade da resposta e a verdade da doutrina.

Sendo a doutrina verdadeira, est
explicada a confuso da esposa, da cunhada e da senhora estranha, que se d no
processo do capito, porquanto os doutores da escola ensinam que os espritos
renascem muita vez mortos, isto , os filhos encarnam-se nos pais, nas mes e
no  raro um menino voltar a este mundo filho de um primo. Da essa complicao
de pessoas, que a polcia no deslindar nunca, sem o auxlio desta grande
doutrina moderna e eterna.

Converta-se a polcia. No h
desdouro em abraar a verdade, ainda que outros a contestem; todas as grandes
verdades acham grandes incrdulos. A resposta do marqus prova que os homens, de
envolta com a carne, que  matria, no deixam o ttulo, que  uma forma
particular de esprito. Quando o Japo comeou a ter esprito, no adotou s o
regmen parlamentar, nacionalizou tambm os condes, e l tem, entre outros, o
seu Conde Ito, que dizem ser estadista eminente. A China, invejosa e preguiosa,
ergueu a custo as plpebras e murmurou como no nosso antigo Alcazar da Rua
Uruguaiana: Vous avez de l'esprit? Nous aussi. E criou um marqus, o
Marqus Tcheng, mas no foi adiante.

Quanto a mim, no s creio no
espiritismo, mas desenvolvo a doutrina. Desconfiai de doutrinas que nascem 
maneira de Minerva, completas e armadas. Confiai nas que crescem com o tempo.
Sim, vou alm dos meus doutores; creio firmemente que um esprito de homem pode
reencarnar-se em um animal. Em Mogi-Mirim, Estado de So Paulo, acaba de
enlouquecer um burro. Assim o conta a Ordem por estas palavras:
Segunda-feira passada, um burro do Dr. Santo di Prospero enlouqueceu
repentinamente. E refere os destroos que o animal fez at achar a morte. Ora,
esta loucura do burro mostra claramente que o infeliz perdeu a razo. Que
esprito estaria encarnado nesse pobre animal, amigo do homem, seu companheiro,
e muita vez seu substituto? Talvez um gnio. A prova  que o perdeu. Com quatro
ps, no pode entrar onde ns entramos com dois. Quanta vez teria ele dito
consigo:  No fosse a minha iluso em reencarnar-me nesta besta, e estaria
agora entre pessoas honradas e ilustradas, falando em vez de zurrar, colhendo
palmas, em vez de pancadaria.  bem feito; a minha idia de incorporar o burro
na sociedade humana, se era generosa, no era prtica, porque o homem nunca
perder o preconceito dos seus dois ps.

Outro ponto que me parece deve ser
examinado e adicionado  nossa grande doutrina,  a volta dos espritos,
encarnados (se assim posso dizer) em simples obras humanas, veculo ou outro
objeto. Penso, entretanto, que a gradao necessria a todas as coisas exige
para esta nova encarnao que o esprito haja primeiro tornado em algum bruto.
Assim  que um esprito, desde que tenha sido reencarnado na tartaruga, logo que
se desencarne, pode voltar novamente encarnado no bond eltrico. No dou
isto como dogma, mas  doutrina assaz provvel. J no digo o mesmo da idia (se
a h) de que um servio pode ser reencarnado em outro. Servio  propriamente o
efeito da atividade e do esforo humano em uma dada aplicao. Tirai-lhe essa
condio, e no h servio.  um resultado, nada mais. Pode no prestar, ser
descurado, no valer dois caracis, ou ao contrrio pode no ser excelente e
perfeito, mas  sempre um resultado. Quem disser, por exemplo, que o servio da
antiga Companhia de Bonds do Jardim Botnico est reencarnado no novo,
provar com isto que de certo tempo a esta parte s tem andado de carro, mas
andar de carro no  condio para ser espiritista. Ao contrrio, a nossa
doutrina prefere os humildes aos orgulhosos. Quer a f e a cincia, no
cocheiros embonecados, nem cavalos briosos.

Voltando  bigamia do capito,
digo novamente  polcia que estude o espiritismo e achar p nessa confuso de
senhoras. Sem ele, nada h claro nem slido, tudo  precrio, escuro e
anrquico. Se vos disserem que  vezo de todas as doutrinas deste mundo darem-se
por salvadoras e definitivas, acreditai e afirmai que sim, excetuando sempre a
nossa, que  a nica definitiva e verdadeira. Amm.

30 de
setembro

No escrevo para ti, leitor do costume, nem para
ti, venerando arcebispo, que ainda h pouco recebeste o plio na nossa catedral
de S. Sebastio. No esperes que venha dizer mal de ti, em primeiro lugar porque
o mal s se diz por trs das pessoas, locuo popular e graciosa; em segundo
lugar, porque venho pedir-te um favor.

O favor que te peo, meu caro arcebispo, no  um
benefcio prpriamente eclesistico, nem carta de empenho, nem dinheiro de
contado. Bno no  preciso pedir-ta; ela  de todo o rebanho, e, ainda que em
mim os vcios superem as virtudes, terei sempre a poro dela que me sirva, no
de prmio, que o no mereo, mas de vitico.

Meu caro arcebispo, no te peo nenhum milagre. Nem
milagres so obras fceis de fazer ou de aceitar. A mais incrdula, a respeito
deles,  a prpria igreja, que acaba de declarar que os milagres de Maria de
Arajo so simples embustes. Os louros de Bernadette tiravam o sono a essa moa
do Juazeiro, que se meteu a milagrar tambm, nas ocasies da comunho, e 
provvel que comungasse todos os dias. Em vo o bispo do Cear, depois de bem
examinado o caso, reconheceu e declarou, em carta pastoral, que eram fatos
naturais, acompanhados de algumas circunstncias artificiais; o povo continuava
a crer em Maria de Arajo, e no s leigos mas at padres iam v-la ao Juazeiro.
Como sabes, venerando prelado, a questo foi submetida  Santa S, que
considerou os fatos e os condenou, tendo-os por gravssima e detestvel
irreverncia  santa eucaristia, e ordenando que as peregrinaes  casa de
Maria de Arajo fossem vedadas, e assim tambm quaisquer livros que a
defendessem, e a simples conversao sobre tais milagres, e por fim que se
queimassem os nos ensangentados e outras relquias da miraculosa
senhora.

Eis a Maria de Arajo obrigada a trocar de ofcio.
Eu, se fosse ela, casava-me e tinha filhos, que no  pequeno milagre, por mais
natural que no-lo digam.

Perde a celebridade,  certo, mas no se pode ter
tudo neste mundo, alguma coisa se h de guardar para o outro, e particularmente
aos famintos anunciou Jesus que seriam fartos. No haver Zola que a ponha em
letra redonda e vibrante, para deleite de ambos os mundos. Pacincia; ter nos
filhos os seus melhores autores, e basta que um deles seja um Santo Agostinho,
para canoniz-la pelo louvor filial, antes que a igreja o faa pela autoridade
divina, como sucedeu  Santa Mnica. Esta no fez milagres na terra, no teve
panos ensangentados, nem outros artifcios; ganhou o cu com piedade e doura,
virtudes to excelsas que domaram a alma do marido e da prpria me do
marido.

Mas a quem estou ensinando os fastos da igreja?
Perdoa, meu rico prelado, perdoa-me esses descuidos da pena, to pouco experta
em matrias eclesisticas. Perdoa-me, e vamos ao meu pedido. Hs de ter notado
que, para pedinte, sou um tanto falador, sem advertir que a melhor splica  a
mais breve. Tambm eu ouo a suplicantes, porque tambm sou bispo, e a minha
diocese, caro D. Joo Esberard, no tem menos nem mais pecados que as outras, e
da a necessidade da pacincia, para que nos toleremos uns aos outros. Mas no
h pacincia que baste para ouvir um suplicante derramado. Todo suplicante
conciso pode estar certo de despacho pronto, porque fixou bem o que disse, sem
cansar com palavras sobejas. Vs bem que sou o contrrio. Colhamos pois a vela
ao estilo.

Peo-te um favor grande, em nome da esttica. A
esttica, venerando pastor,  a nica face das coisas que se me apresenta de
modo claro e inteligvel. Tudo o mais  confuso para estes pobres olhos que a
terra h de comer, e no comer grande coisa, que a vista  pouca e a beleza
nenhuma. No cuides que, falando assim, peo coisa estranha ao teu ofcio. H
muitos anos, li em qualquer parte, que a moral  a esttica das aes. Pois
troquemos a frase, e digamos que a esttica  a moral do gosto, e a tua
obrigao, caro mestre da tica,  defender a esttica.

Eis aqui o favor. Manda deitar abaixo uma torre.
No me refiro a torres dessas cujos sinos tocam operetas e chamam  orao por
boca de D. Juanita. A torre cuja demolio te peo,  a da Matriz da
Glria. Conheces bem o templo e o frontispcio. No sei se eles e a torre
entraram no mesmo plano do arquiteto; todos os monstros, por isso mesmo que
esto na natureza, podem aparecer na arte. Mas no  fora de propsito imaginar
que a torre  posterior, e que foi ali posta para corrigir pela voz dos sinos o
silncio das colunas. Bom sentimento, decerto, religioso e pio, mas o efeito foi
contrrio, porque a torre e as colunas detestam-se, e a casa de Deus deve ser a
casa do amor.

Sei o que valem sinos, lembra-me ainda agora a doce
impresso que me deixou a leitura do captulo de Chateaubriand, a respeito
deles. Mas, prelado amigo, uma s exceo no ser mais que a confirmao da
regra. Manda deitar abaixo a torre da Glria. Se os sinos so precisos para
chamar os fiis  missa, manda p-los no fundo da igreja, sem torre, ou na casa
do sacristo, e benze a casa, e benze o sacristo, tudo  melhor que essa torre
em tal templo. Ou ento faze outra coisa,  mais difcil,  verdade, mas que me
no ofender em nada, - manda sacrificar o templo  torre, e que fique a torre
s.

E aqui me fico, para o que for do teu servio.
Relendo estas linhas, advirto que uma s vez te no dei Excelncia, como te cabe
pela elevao do posto. No foi por imitar a Bblia, nem a Conveno Francesa,
mas por medo de ficar em caminho. So tantas as Excelncias que se cruzam nas
sesses da Intendncia Municipal, que bem poucas ho de ficar disponveis nas
tipografias. Para no deixar a carta em meio, falei-te a ti, como se fala ao
Senhor.

7 de
outubro

Esta semana devia ser escrita com letras de ouro.
Aps trs meses de espera, de sorteio, de convites, de multas, de pacincia e de
citaes, constituiu-se o jri!  a segunda vez este ano. Talvez seja a
penltima vez deste sculo.

Quando eu abri os olhos  vida achei do jri a
mesma noo que passei aos outros meninos que viessem depois:  uma nobre
instituio, uma instituio liberal, o cidado julgado por seus pares, etc.,
toda aquela poro de frases feitas que se devem dar aos homens para o caso em
que estes precisem de idias.
As frases feitas so a companhia cooperativa do
esprito. Do o trabalho nico de as meter na cabea, guard-las e aplic-las
oportunamente, sem dispensa de convico,  claro, nem daquele fino sentimento
de originalidade que faz de um molambo seda. Nos casos apertados do
matria para um discurso inteiro e longo,  dizem,
mas pode ser exagerao.

Um dia,   dia nefasto!  descobri em mim dois
homens, eu e eu mesmo, tal qual sucedeu a Cames, naquela redondi-
lha clebre: Entre mim mesmo e mim. A
semelhana do fenmeno encheu-me a alma com grandes abondanas, para
falar ainda como o prprio poeta. Sim; eu era dois, senti bem que, alm de mim,
havia eu mesmo. Ora, um dos homens que eu era dizia ao outro que a nobre
instituio do jri, instituio liberal, o julgamento dos pares, etc., no
parecia estar no gosto do nosso povo carioca. Este povo era intimado e multado,
e nem por isso deixava os seus negcios para ir ser juiz. Ao que respondeu o
outro homem que a culpa era da cmara municipal que no cobrava as multas. Se
cobrasse as multas, o povo iria. Espanto do primeiro homem, acostumado a crer
que tudo o que se imprime acontece ou acontecer.
Retificao do primeiro: Nem sempre;  preciso
deixar uma parte para ingls ver. Ingls gosta de ver suas instituies armadas
em toda a parte.

Assisti a esse duelo de razes, examinando-as com
tal imparcialidade, que no estou longe de crer que, alm dos dois homens,
surdira em mim um terceiro. Nisto fui superior ao poeta. Examinei as razes, e
desesperando de conciliar os autores, aventei uma idia que me pareceu fecunda:
estipendiar os jurados. Todo servio merece recompensa, disse eu, e se o juiz de
direito  pago, por que o no ser o juiz de fato? Replicaram os dois que no
era uso em tal instituio; ao que o terceiro homem (sempre eu!) replicou
dizendo que os usos amoldam-se aos tempos e aos lugares. Usos no so leis, e as
prprias leis no so eternas, salvo os tratados de perptua amizade, que ainda
assim tm durao mdia de 17 1/2 anos. Tempo houve em que as comisses fiscais
das sociedades annimas eram gratuitas; hoje so pagas. So pagos todos os que
compem o tribunal do jri, o presidente, o procurador da justia, os advogados,
os porteiros, possivelmente as testemunhas; a que ttulo s os jurados, que
deixam os seus negcios, ho de trabalhar de graa?

Notemos que o jri, difcil de constituio, uma
vez constitudo,  pontual e cumpre o seu dever. Tem at uma particularidade, as
suas sesses secretas so secretas, ao contrrio das sesses secretas no senado,
que so pblicas. Esta semana foi particularmente frtil em sesses secretas do
senado, as quais foram mais pblicas ainda que as pblicas, por isso que sendo
secretas, toda a gente gosta de saber o que l se passou. A prpria reclamao
de um dos membros do senado contra a divulgao das sesses foi
divulgada.

Eu, antes de ver explicada a divulgao, quisera
ver explicado o segredo.  assim no senado de Washington; mas, l mesmo, por
ocasio de algumas nomeaes de Cleveland, na anterior presidncia deste homem
de Estado, membros houve que lembraram a idia de fazer tais sesses pblicas.
Um escritor clebre, admirador da Amrica, ponderou a tal respeito que a
discusso pblica dos negcios  o que mais convm s democracias. Deus meu! 
uma banalidade, mas foi o que ele escreveu; no lhe posso atribuir um pensamento
raro, profundo ou inteiramente novo. O que ele disse foi isso. Nem por ser
banal, a idia  falsa; ao contrrio, h nela a sabedoria de todo mundo. Pelo
que, e o mais dos autos, no vejo clara a necessidade das sesses secretas, mas
tambm no digo que no seja clarssima. Todas as concluses so possveis, uma
vez que  o mesmo sol que as alumia, com igual imparcialidade. A lua, me das
iluses, no tem parte nisto; mas o sol, pai das verdades, no o  s das
verdades louras, como os seus raios fazem crer; tambm o  das verdades
morenas.

Isto posto, no admira que se d em mim, neste
instante, uma equao de sentimentos relativamente  lei municipal que
estabelece lotao de passageiros para os bonds, sob pena de serem
multadas as companhias. Entre mim mesmo e mim travou-se a princpio grande
debate. Um quer que a autoridade no tire ao passageiro o direito de ir
incomodado, quando se pendura feito pingente. Outro replica que o passageiro
pode ir incomodado uma vez que no incomode os demais, e mostra o remdio ao
mal, que  aumentar o nmero dos veculos e alterar as tabelas das viagens.
Protesto do primeiro, que  acionista, e defende os dividendos. O segundo alega
que  pblico e quer ser bem servido.

Grande seria o meu desconsolo e terrvel a luta, se
eu no achasse um modo de conciliar as opinies; digo mal, de as afastar para os
lados. Esse modo  a esperana que nutro de que a lei municipal no ser
cumprida. Os seis meses dados, para que ela entre em execuo, so suficientes
para que os novos carros se comprem e as tabelas se alterem; mas no haver
carros novos no fim dos seis meses, e aparecer um pedido de prorrogao por
mais um semestre, digamos um ano. D- se o ano. No fim dele a tera parte dos
atuais intendentes estaro mortos, outra tera parte haver abandonado a
poltica, poucos restaro nos seus lugares. Mas, francamente, quem mais se
lembrar da lei? Leis no so dores, que se fazem lembrar doendo; leis no doem.
Algumas s doem, quando se aplicam; mas no aplicadas, elas e ns gozamos
perfeita sade. Quando muito, marcar-se- novo prazo, e ser o ltimo, dois
anos, que no acabaro mais. Um conselho dou aqui s companhias: no discutam
este negcio, deixem passar o tempo, e o silncio far da s.

14 de
outubro

Um cabograma... Por que no adotaremos esta
palavra? A rigor no preciso dela; para transmitir as poucas notcias que tenho,
basta-me o velho telegrama. Mas as necessidades gerais crescem, e a alterao da
cousa traz naturalmente a alterao do nome. Vede o homem que vai na frente do
bond eltrico. Tendo a seu cargo o motor, deixou de ser cocheiro, como os
que regem bestas, e chamamos-lhe motorneiro em vez de motoreiro, por uma
razo de eufonia. H quem diga que o prprio nome de cocheiro no cabe aos
outros, mas  ir longe de mais, e em matria de lngua, quem quer tudo muito
explicado, arrisca-se a no explicar nada.

Custa muito passar adiante, sem dizer alguma coisa
das ltimas interrupes eltricas; mas se eu no falei da morte do mocinho
grego, vendedor de balas, que o bond eltrico mandou para o outro mundo,
h duas semanas, no  justo que fale dos terrveis sustos de quinta-feira
passada. O pobre moo grego se tivesse nascido antigamente, e entrasse nos jogos
olmpicos, escapava ao desastre do largo do Machado. Dado que fosse um dia
destrudo pelos cavalos, como o jovem Hiplito, teria cantores clebres, em vez
de expirar obscuramente no hospital, to obscuramente que eu prprio, que lhe
decorara o nome, j o esqueci.

Mas, como ia dizendo, um cabograma ou telegrama, 
escolha, deu-nos notcia de haver falecido o clebre humorista americano Holmes.
No  matria para crnica. Se os mortos vo depressa, mais depressa vo os
mortos de terras alongadas, e para a minha conversao dominical
tanto importam clebres como obscuros. Holmes,
entretanto, escreveu em um de seus livros, o Autocrata  meta do almoo,
este pensamento de natureza social e poltica: O cavalo de corrida no 
instituio republicana; o cavalo de trote  que o  . Tal  o seu bilhete de
entrada na minha crnica. Aprofundemos este pensamento.

Antes de tudo, notemos que ao nosso Conselho
Municipal, por inexplicvel coincidncia, foi apresentado esta mesma semana um
projeto de resoluo, cujo texto, se fosse claro, poderia corresponder ao
pensamento de Holmes; mas, conquanto a se fale em corridas a cavalo, no
estando estas palavras ligadas s outras por ordem natural e lgica, antes
confusamente, no tm sentido certo, nada se podendo concluir com segurana. A
verdade, porm,  que o conselho trata de combater por vrios modos, no sei se
sempre adequados, mas de corao, as mltiplas formas do jogo pblico. Um dos
seus projetos, redigido em 1893, e revivido agora pelo prprio autor, que vai
longe neste particular que no se contenta de proibir a venda dos bilhetes de
loteria nas ruas, chega a proibi-la expressamente.  expressamente proibido
vend-los nas rua e praas, etc. diz o art. 2.  Expressamente  no h
por onde fugir.

Indo ao pensamento de Holmes, descubro que a melhor
maneira de penetr-lo  to somente l-lo. Que o leitor o leia; penetre bem o
sentido daquelas palavras, no lhe sendo preciso mais que pacincia e tempo; eu
no tenho pressa, e aqui o espero, com a pena na mo. Talvez haja alguma
exagerao quando o ilustre americano compara o cavalo de corrida s mesas de
roleta,  roulette tables; mas quando, assim considerado, o apropria a
duas fases sociais, definidas por ele com grande agudeza, no parece que exagero
muito. Em compensao, a pintura do cavalo de trote, puxando o nibus, o carro
do padeiro e outros veculos teis, basta que seja to til como os veculos,
para que a devamos ter ante os olhos, de preferncia a outros
emblemas.

No tenho pressa. Enquanto meditas e eu espero,
Artur Napoleo conclui o hino que vai ser oferecido ao Estado do Esprito Santo
por um de seus filhos. Sobre isto ouvi duas opinies contrrias. Uma dizia que
no achava boa a oferta.

 No o digo por desfazer na obra, que no conheo,
nem na inteno, que  filial, menos ainda no Estado, que a merece. Eu preferia
mandar comprar um exemplar nico da Constituio Federal, impresso em
pergaminho, encadernado em couro ou em ouro. Ou ento uma carta proftica do
Brasil,  o Brasil um sculo depois. Tambm podia ser um grande lbum em que os
chefes de todos os Estados brasileiros escrevessem algumas palavras de
solidariedade e concrdia, qualquer cousa que pudesse meter cada vez mais fundo
na alma dos nossos patrcios do Esprito Santo o sentimento da unidade
nacional... Um hino parece levar idias de particularismo...

 Discordo, respondeu a outra opinio, pela boca de
um homem magro, que ia na ponta do banco, porque esta conversao era no
bond, ontem de manh, em viagem para o Jardim Botnico.

 Discorda?

 Sim, no acho inconveniente o hino, e tanto
melhor se cada Estado tiver o seu hino particular. As flores que compem um
ramalhete, Sr. Demtrio, podem conservar as cores e formas prprias, uma vez que
o ramilhete esteja bem unido e fortemente apertado. A grande unidade faz-se de
pequenas unidades...

A conversao foi andando assim, talhada em
aforismos, enquanto eu descia do bond, metia-me em outro e tornava atrs.
Os animais, apesar de serem de trote, ignoravam este outro aforismo - time is
money  ou por no saberem ingls, ou por no saberem capim. Tinha
chuviscado, mas o chuvisco cessou, ficando o ar sombrio e meio fresco. Apesar
disso, ou por isso, trago uma dor de cabea enfadonha que me obriga a parar
aqui.

21 de
outubro

Toda esta semana foi de amores. A Gazeta
deu-nos o captulo exotrico do anel de Vnus desenhado a trao grosso na mo
aberta do costume. Da Bahia veio a triste notcia de um assassinato por amor, um
cadver de moa que apareceu, sem cabea nem vestidos. Aqui foi envenenada uma
dama. Julgou-se o processo do bgamo Louzada. Enfim, o intendente municipal Dr.
Capelli fundamentou uma lei regulando a prostituio pblica,  a vaga Vnus,
diria um finado amigo meu, velho dado a clssicos.

Outro amigo meu, que no gostava de romances,
costumava excetuar to somente os de Julio Verne, dizendo que neles a gente
aprendia. O mesmo digo dos discursos do Dr. Capelli. No so simples
justificaes rpidas e locais de um projeto de lei, mas verdadeiras
monografias. Que se questione sobre a oportunidade de alguns desenvolvimentos, 
admissvel, mas ningum negar que tais desenvolvimentos so completos, e que o
assunto fica esgotado. Quanto ao estilo, meio didtico, meio imaginoso, est com
o assunto. No perde por imaginoso. Na historia h Macaulay e Michelet, e tudo 
histria. Nas nossas cmaras legislativas perde-se antes por seco e desordenado.
Moos que brilharam nas associaes acadmicas e literrias entendem que, uma
vez entrados na deliberao poltica, devem despir-se da clmide e da metfora,
e falar cho e natural. No pode ser; o natural e o cho tm cabida no
parlamento, quando so as prprias armas do lutador; mas se este as possui mais
belas, com incrustaes artsticas e ricas,  insensato deix-las  porta e
receber do porteiro um canivete ordinrio.

Amor! assunto eterno e fecundo! Primeiro vagido da
terra, ltimo estertor da criao! Quem, falando de amor, no sentir
agitar-se-lhe a alma e reverdecer a natureza, pode crer que desconhece a mais
profunda sensao da vida e o mais belo espetculo do universo. Mas, por isso
mesmo que o amor  assim, cumpre que no seja de outro modo, no permitir que se
corrompa, que se desvirtue, que se acanalhe. Onde e quando no for possvel
tolher o mal,  necessrio acudir-lhe com a lei, e obstar  inundao pela
canalizao. Creio ser esta a tese do discurso do Sr. Capelli. No a pode haver
mais alta nem mais oportuna.

Direi de passagem que apareceram ontem alguns
protestos contra dois ou trs perodos do discurso, vinte e quatro horas depois
deste publicado, por parte de intendentes que declaram no os ter ouvido. No
conheo a acstica da sala das sesses municipais; no juro que seja m, visto
que o texto impresso do discurso est cheio de aplausos, e houve um ponto em que
os apartes foram muitos e calorosos. Um dos intendentes que ora protestam
atribui as injustias de tais trechos  reviso do manuscrito. Assim pode ser;
em todo caso, as intenes esto salvas.

O que fica do discurso, excludos esses trechos, e
mais um que no cito para no alongar a crnica,  digno de apreo e
considerao. No h monografia do amor, digna de tal nome, que no comece pelo
reino vegetal. O Sr. Capelli principia por a, antes de passar ao animal;
chegando a este, explica a diviso dos sexos e o seu destino. Num perodo
vibrante, mostra o nosso fsico alcanando a divinizao, isto , vindo da
promiscuidade at Epaminondas, que defende Tebas, at Coriolano, que cede aos
rogos da me, at Scrates, que bebe a cicuta. Todos os nomes simblicos do amor
espiritual so assim atados no ramalhete dos sculos: Colombo, Gutenberg, Joana
d'Arc, Werther, Julieta, Romeu, Dante e Jesus Cristo. Feito isso, como o
principal do discurso era a prostituio, o orador entra neste vasto captulo.

O histrico da prostituio  naturalmente extenso,
mas completo. Vem do mundo primitivo, Caldia, Egito, Prsia, etc., com larga
cpia de nomes e aes, mitos e costumes. Da passa  Grcia e a Roma. As
mulheres pblicas da Grcia so estudadas e nomeadas com esmero, os seus usos
descritos minuciosamente, as anedotas lembradas  lembradas igualmente as
comdias de Aristfanes, e todos quantos, homens ou mulheres, esto ligados a
tal assunto. Roma oferece campo vasto, desde a loba at Heliogbalo. No
transcrevo os nomes; teria de contar a prpria histria romana. Nenhum escapou
dos que valiam a pena, porm de imperadores ou poetas, de deusas ou matronas, as
instituies com os seus ttulos, as depravaes com as suas origens e
conseqncias. Chegando a Heliogbalo, mostrou o orador que a degenerao humana
tocara o znite. O momento histrico era solene, disse ele, foi ento que
apareceu Cristo.

Cristo trouxe naturalmente  memria a Madalena, e
depois dela algumas santas, cuja vida impura se regenerou pelo batismo e pela
penitncia. A apoteose crist  brilhante; mas histria  historia, e fora foi
dizer que a prostituio voltou ao mundo. Na descrio dessa recrudescncia do
mal, nada  poupado nem escondido, seja a hediondez dos vcios, seja a grandeza
da consternao. Aqui ocorreu um incidente que perturbou a serenidade do
discurso. O orador apelou para um novo Cristo, que viesse fazer a obra do
primeiro, e disse que esse Cristo novo era Augusto Comte...

Muitos intendentes interromperam com protestos, e
estavam no seu direito, uma vez que tm opinio contrria; mas podiam ficar no
protesto. No sucedeu assim. O Sr. Maia de Lacerda bradou: Oh! oh! e
retirou-se da sala. O Sr. Capelli insistiu, os protestos continuaram.

O Sr. Barcellos afirmou que o positivismo era
doutrina subversiva. Defendeu-se o orador, pedindo que lhe respeitassem a
liberdade de pensamento. Travou-se dilogo. Cresceram os no-apoiados. O
Sr. Capelli parodiou Voltaire, dizendo que, se Augusto Comte no tivesse
existido, era preciso invent-lo. O Sr. Pinheiro bradou:  Chega de malucos!.
Enfim, o orador compreendendo que iria fugindo ao assunto, limitou-se a
protestar em defesa das suas idias e continuou.

Esse lastimvel incidente ocorreu na terceira
coluna do discurso, e ele teve sete e meia. V-se que no posso acompanh-lo, e,
alis, a parte que ento comeou no foi a menos interessante. O discurso
enumera as causas da prostituio. A primeira  a prpria constituio da
mulher. Segue-se o erotismo, e a este propsito cita o clebre verso de Hugo:
Oh! n'insultez jamais une femme qui tombe! Vem depois a educao, e
explica que a educao  prefervel  instruo... O luxo e a vaidade so as
causas imediatas. A escravido foi uma. Os internatos, a leitura de romances, os
costumes, a mancebia, os casamentos contrariados e desproporcionados, a
necessidade, a paixo e os D. Juans. De passagem, historiou a prostituio no
Rio de Janeiro, desde D. Joo VI, passando pelos bailes do Rachado, do Pharoux,
do Rocambole e outros. Nomeando muitas ruas degradadas pela vida airada, repetia
naturalmente muitos nomes de santos, dando lugar a este aparte do Sr. Duarte
Teixeira: Arre! quanto santo!

Vieram finalmente os remdios, que so quatro: a
educao da mulher, a proibio legal da mancebia, o divrcio e a regulamentao
da prostituio pblica. Toda essa parte  serena. H imagens tocantes. No
prtico da humanidade a mulher aparece como a estrela do amor. Depois, vem o
projeto, que contm cinco artigos. Ser aprovado? H de ser. Ser
cumprido

28 de
outubro

O momento  japons. Vede o contraste daquele povo
que, enquanto acorda o mundo com o anncio de uma nova potncia militar e
poltica, manda um comissrio ver as terras de So Paulo, para c estabelecer
alguns dos seus braos de paz. Esse comissrio, que se chama Sho  Nemotre,
escreveu uma carta ao Correio Paulistano dizendo as impresses que leva
daquela parte do Brasil. Levo, da minha visita ao Estado de S. Paulo, as
impresses mais favorveis, e no vacilo em afirmar que acho esta regio uma das
mais belas e ricas do mundo. Pela minha visita posso afianar que o Brasil e o
Japo faro feliz amizade, a emigrao ser em breve encetada e o comrcio ser
reciprocamente grande.

Ao mesmo tempo, o Sr. Dr. Lacerda Werneck, um dos
nossos lavradores esclarecidos e competentes, acaba de publicar um artigo
comemorando os esforos empregados para a prxima vinda de trabalhadores
japoneses.  do Japo (diz ele) que nos h de vir a restaurao da nossa
lavoura. S. Ex. fala com entusiasmo daquela nao civilizada e prspera, e das
suas recentes vitrias sobre a China.

No esqueamos a circunstncia de vir do Japo o
novo ministro italiano, segundo li na Notcia de quinta-feira, fato que,
se  intencional, mostra da parte do rei Humberto a inteno de ser agradvel ao
nosso pas, e, se  casual, prova o que eu dizia a princpio e, repito, que o
momento  japons. Tambm eu creio nas excelncias japonesas, e daria todos os
tratados de Tien-Tsin por um s de Yokohama.

No sou nenhuma alma ingrata que negue ao chim os
seus poucos mritos; confesso-os, e chego a aplaudir alguns. O maior deles  o
ch, merecimento grande, que vale ainda mais que a filosofia e a porcelana. E o
maior valor da porcelana, para mim,  justamente servir de veculo ao ch. O ch
 o nico parceiro digno do caf. Temos tentado fazer com que o primeiro venha
plantar o segundo, e ainda me lembra a primeira entrada de chins, vestidos de
azul, que deram para vender pescado, com uma vara ao ombro e dois cestos
pendentes,  o mesmo aparelho dos atuais peixeiros italianos. Agora mesmo h
fazendas que adotaram o chim, e, no h muitas semanas, vi aqui uns trs que
pareciam alegres,  por boca do interprete,  verdade, e das tradues faladas
se pode dizer o mesmo que das escritas, que as h lindas e prfidas. De resto,
que nos importa a alegria ou a tristeza dos chins?

A tristeza  natural que a tenham agora, se acaso o
interprete lhes l os jornais; mas  provvel que no os leia. Melhor  que
ignorem e trabalhem. Antes plantar caf no Brasil que plantar figueira na
Coria, perseguidos pelo marechal Yamagata. J este nome  clebre! J o
almirante Ito  famoso! Do primeiro disse a Gazeta que  o Moltke do
Japo. Um e outro vo dando galhardamente o recado que a conscincia nacional
lhes encomendou para fins histricos.

Aqui, h anos, o mundo inventou uma cousa chamada
japonismo. Nem foi precisamente o mundo, mas os irmos de Goncourt, que assim o
declaram e eu acredito, no tendo razo para duvidar da afirmao. O Journal
des Goncourt est cheio de japonismo. Uma pgina de 31 de maro de 1875 fala
do grande movimento japons, e acrescenta, por mo de Edmundo: a t tout
d'abord quelques originaux, comme mon frre et moi...

Esse grande movimento japons no era o que
parece  primeira vista; reduzia-se a colecionar objetos do Japo, sedas, armas,
vasos, figurinhas, brinquedos. Espalhou-se o japonismo. Ns o tivemos e o temos.
Esta mesma semana fez-se um grande leilo na rua do Senador Vergueiro, em que
houve larga cpia de sedas e mveis japoneses, dizem-me que bonitos. Muitos os
possuem e de gosto. Chegamos (aqui ao menos) a uma cousa, que no sei se defina
bem chamando-lhe a banalidade do raro.

Mas, enquanto os irmos de Goncourt inventaram o
japonismo, que faria o Japo, propriamente dito? Inventava-se a si mesmo.
Forjava a espada que um dia viria pr na balana dos destinos da sia. Enquanto
uns coligiam as suas galantarias, ele armava as couraas e foras modernas e os
aparelhos liberais. Mudava a forma de governo e apurava os costumes, decretava
uma constituio, duas cmaras, um ministrio como outras naes cultas vieram
fazendo desde a Revoluo Francesa, cuja alma era mais ou menos introduzida em
corpos de feio britnica. Vimos agora mesmo que o Mikado, abertas as cmaras,
proferia a fala do trono, e ouvia delas uma resposta,  maneira dos comuns de
Inglaterra, mas uma resposta de todos os diabos, mais para o resto do mundo que
para o prprio governo. Este acaba de recusar intervenes da Europa, nega
armistcios, no quer padrinhos nem mdicos naquele duelo, e parece que h de
acabar por dizer e fazer coisas mais duras.

So dois inimigos velhos; mas no basta que o dio
seja velho,  de mister que seja fecundo, capaz e superior. Ora,  tal o
desprezo que os japoneses tm aos chins, que a vitria deles no pode oferecer
dvida alguma. Os chins no acabaro logo, nem to cedo,  no se desfazem
tantos milhes de haveres como se despacha um prato de arroz com dois pauzinhos,
 mas, ainda que se fossem embora logo e de vez, como o ch no  s dos chins,
eu continuaria a tomar a minha chvena, como um simples russo, e as cousas
ficariam no mesmo lugar.

O momento  japons. Que esses braos venham lavrar
a terra, e plantar, no s o caf, mas tambm o ch, se quiserem. Se forem
muitos e trouxerem os seus jornais, livros e revistas de clubes, e at as suas
moas, alguma necessidade haver de aprender a lngua deles. O padre Lucena
escreveu, h trs sculos, que  lngua superior  latina, e tal opinio, em
boca de padre, vale por vinte academias. Tenho pena de no estar em idade de a
aprender tambm. Estudaria com o prprio comissrio Sho Nemotre, que esteve
agora em S. Paulo; ensinar-lhe-ia a nossa lngua, e chegaramos  convico de
que o almirante Ito  descendente de uma famlia de Itu, e que os japoneses
foram os primeiros povoadores do Brasil, tanto que aqui deixaram a japona. Ruim
trocadilho; mas o melhor escrito deve parecer-se com a vida, e a vida , muitas
vezes, um trocadilho ordinrio.

4
de novembro

 verdade trivial que, quando o
rumor  grande, perdem-se naturalmente as vozes pequenas. Foi o que se deu esta
semana.

A semana foi toda de
combatividade, para falar como os frenologistas. Tudo esteve na tela da
discusso, desde a luz esterica at a demora dos processos, desde as carnes
verdes at a liberdade de cabotagem. De algumas questes, como a da luz
esterica, sei apenas que, se a lesse, no estaria vivo. A das carnes verdes 
propriamente de ns todos; mas a disposio em que me acho, de passar 
vegetariano, desinteressa-me da soluo, e tanto faz que haja monoplio, como
liberdade. A liberdade  um mistrio, escreveu Montaigne, e eu acrescento
que o monoplio  outro mistrio, e, se tudo so mistrios neste mundo, como no
outro, fiquem-se com os seus mistrios, que eu me vou aos meus
espinafres.

De resto, nos negcios que no
interessam diretamente, no  meu costume perder o tempo que posso empregar em
coisas de obrigao.  assim que aprovo e aprovarei sempre uma passagem que li
na ata da reunio de comerciante, que se fez na Intendncia Municipal, para
tratar da crise de transportes. Orando, o Sr. Antnio Wernek observou que havia
pouca gente na sala. Respondeu-lhe um dos presentes, em aparte: Eu, se no
fosse o pedido de um amigo, no estaria aqui. Digo que aprovo, mas com
restries, porque no h amigos que me arranquem de casa, para ir cuidar dos
seus negcios. Os amigos tm outros fins, se no amigos, se no so mandados
pelo diabo para tentar um homem que est quieto.

No obstante a pequena
concorrncia, parece que o rumor do debate foi grande, pouco menor que o da
questo de cabotagem na Cmara dos Deputados. Mas, para mim, em matria de
navegao, tudo  navegar, tudo  encomendar a alma a Deus e ao piloto. A melhor
navegao  ainda a daquelas conchas cor de neve, com uma ondina dentro, olhos
cor do cu, tranas de sol, toda um verso e toda no aconchego do gabinete.
Mormente em dias de chuva, como os desta semana,  navegao excelente, e aqui a
tive, em primeiro lugar com o nosso Coelho Neto, que alis no falou em verso,
nem trouxe daquelas figuras do Norte ou do Levante, ainda a musa costuma
lev-lo, vestido, ora de nvoas, ora de sol. No foi o Coelho Neto das
Baladilhas, mas o dos Bilhetes Postais (dois livros em um ano),
por antonomsia Anselmo Ribas. Pginas de humour e de fantasia, em
que a imaginao e o sentimento se casam ainda uma vez, ante esse pretor de sua
eleio. Derramados na imprensa, pareciam esquecidos; coligidos no livro, v-se
que deviam ser lembrados e relembrados. A segunda concha...

A segunda concha trouxe deveras
uma ondina, uma senhora, e veio cheia de versos, os Versos, de Jlia
Cortines. Esta poetisa de temperamento e de verdade disse-me coisas pensadas e
sentidas, em uma linguagem inteiramente pessoal e forte. Que poetisa  esta?
Lcio de Mendona  que apresenta o livro em um prefcio necessrio, no s para
dar-nos mais uma pgina vibrante de simpatia, mas ainda para convidar essa
multido de distrados a deter-se um pouco a ler. Lede o livro; h nele uma
vocao e uma alma, e no  sem razo que Jlia Cortines traduz  pg. 94, um
canto de Leopardi. A alma desta moa tem uma corda dorida de Leopardi. A dor 
velha; o talento  que a faz nova, e aqui a achareis novssima. Jlia Cortines
vem sentar-se ao p de Zalina Rolim, outra poetisa de verdade, que sabe rimar os
seus sentimentos com arte fina, delicada e pura. O Corao, livro desta
outra moa, terno, a espaos tristes, mas  menos amargo que o daquela; no tem
os mesmos desesperos...

Eia! foge, foge, poesia amiga,
basta de recordar as horas de ontem e de anteontem. A culpa foi da Cmara dos
Deputados, com a sua navegao de cabotagem, que me fez falar da tua concha
eterna, para a qual tudo so mares largos e no h leis nem Constituies que
vinguem. Anda, vai, que o cisne te leve gua fora com as tuas hspedes novas e
nossas.

Voltemos ao que eu dizia do rumor
grande, que faz morrer as vozes pequenas. No ouviste decerto uma dessas vozes
discretas, mas eloqentes; no leste a punio de trs jqueis. Um, por nome
Jos Nogueira, no disputou a corrida com nimo de ganhar; foi suspenso por trs
meses. Outro, H. Cousins, atrapalhou a carreira ao cavalo Slvio; teve a multa
de quinhentos mil-ris. Outro, finalmente, Horcio Perazzo, foi suspenso por
seis meses, porque, alm de no disputar a corrida com nimo de ganhar, ofendeu
com a espora uma gua.

Estes castigos encheram-me de
espanto, no que os ache duros, nem injustos; creio que sejam merecidos, visto o
delito, que  grave. Os captulos da acusao so tais, que nenhum esprito reto
achar defesa para eles. O meu assombro vem de que eu considerava o jquei parte
integrante do cavalo. Cuidei que, lanados na corrida, formavam uma s pessoa,
moral e fsica, um lutador nico. No supunha que as duas vontades se
dividissem, a ponto de uma correr com nimo de ganhar a palma, e outra de a
perder; menos ainda que o complemento humano de um cavalo embaraava a marcha de
outro cavalo, e muito menos que se lembrasse de ofender uma gua com a espora.
Se os animais fossem cartas, em vez de cavalos, dir-se-ia que os homens furtavam
no jogo.

Quinhentos mil-ris de multa!
Pelas asas do Pgaso! devem ser ricos, esses funcionrios. Trs e seis meses de
suspenso! Como sustentaro agora as famlias, se as tm, ou a si mesmos, que
tambm comem? No iro empregar-se na Intendncia Municipal, onde a demora dos
ordenados faz presumir que os jqueis do expediente andam suspensos por aes
semelhantes. No ho de ir puxar carroa. Vocao teatral no creio que possuam.
Se so ricos, bem; mas, ento, por que  que no fundaram, h dois ou trs anos,
uma sociedade bancria, ou de outra espcie, onde podiam agora atrapalhar a
marcha dos outros cavalos, esporear as guas alheias, e, em caso de necessidade,
correr sem nimo de ganhar a partida? Este ltimo ponto no seria comum, antes
rarssimo; mas basta que fosse possvel. Nem  outra a regra crist, que manda
perder a terra para ganhar o cu. Sem contar que no haveria suspenses nem
multas.

11 de novembro

A antiguidade cerca-me por todos
os lados. E no me dou mal com isso. H nela um aroma que, ainda aplicado a
coisas modernas, como que lhes toca a natureza. Os bandidos da atual Grcia, por
exemplo, tm melhor sabor que o clavinoteiros da Bahia. Quando a gente l que
alguns sujeitos foram estripados na Tesslia ou Maratona, no sabe se l um
jornal ou Plutarco. No sucede o mesmo com a comarca de Ilhus. Os gatunos de
Atenas levam o dinheiro e o relgio, mas em nome de Homero. Verdadeiramente no
so furtos, so reminiscncias clssicas.

Quinta-feira um telegrama de
Londres noticiou que acabava de ser publicada uma verso inglesa da
Eneida, por Gladstone. Aqui h antigo e velho. No  o caso do Sr. Zama,
que, para escrever de capites, foi busc-los  antiguidade, e aqui no-los deu
h duas semanas; o Sr. Zama  relativamente moo. Gladstone  velho e teima em
no envelhecer.  octogenrio, podia contentar-se com a doce carreira de
macrbio e s vir  imprensa quando fosse para o cemitrio. No quer; nem ele,
nem Verdi. Um faz peras, outro saiu do parlamento com uma catarata, operou a
catarata e publicou a Eneida em ingls, para mostrar aos ingleses como
Virglio escreveria em ingls, se fosse ingls. E no ser ingls
Virglio?

Como se no bastasse essa
revivescncia antiga, e mais o livro do Sr. Zama, parece-me Carlos Dias com os
Cenrios, um banho enorme da antiguidade. J  bom que um livro responda
ao ttulo, e  o caso deste, em que os cenrios so cenrios, sem ponta de
drama, ou raramente. Que levou este moo de vinte anos ao gosto da antiguidade?
Diz ele, na pgina ltima, que foi uma mulher; eu, antes de ler a ltima pgina,
cuidei que era simples efeito de leitura, com extraordinria tendncia natural.
Leconte de Lisle e Flaubert lhe tero dado a ocasio de ir s grandezas mortas,
e a Profisso de F, no desdm dos modernos, faz lembrar o soneto do
poeta romntico.

Mas no se trata aqui da
antiguidade simples, herica ou trgica, tal como a achamos nas pginas de
Homero ou Sfocles. A antiguidade que este moo de talento prefere,  a
complicada, requintada ou decadente, os grandes quadros de luxo e de luxria, o
enorme, o assombroso, o babilnico. H muitas mulheres neste livro, e de toda
casta, e de vria forma. Pede-lhe vigor, pede-lhe calor e colorido, ach-los-s.
No lhe peas,  ao seu Nero, por exemplo,  a filosofia em que Hamerling
envolve a vida e a morte do imperador. Este grande poeta deu  farta daqueles
quadros lascivos ou terrveis, em que a sua imaginao se compraz; mas, corre
por todo o poema um fluido interior, a ironia final do Csar sai de envolta com
o sentimento da realidade ltima: O desejo da morte acabou a minha insacivel
sede da vida.

Ao fechar o livro dos
Cenrios, disse comigo: Bem, a antiguidade acabou.  No acabou,
bradou um jornal; aqui est uma nova descoberta, uma coleo recente de papiros
gregos. J esto discriminados cinco mil.  Cinco mil! pulei eu. E o jornal,
com bonomia: Cinco mil, por ora; dizem coisas interessantes da vida comum dos
gregos, h entre eles uma pardia da Ilada, uma novela, explicaes de
um discurso de Demstenes... Pertence tudo ao museu de Berlim.

 Basta,  muita antiguidade;
venhamos aos modernos.

 Perdo, acudiu outra folha, a
Frana tambm descobriu agora alguma coisa para competir com a rival germnica;
achou em Delos duas esttuas de Apolo. Mais Apolos. Puro mrmore. Achou tambm
paredes de casas antigas, cuja pintura parece de ontem. Os assuntos so
mitolgicos ou domsticos, e servem...

 Basta!

 No basta; Babilnia tambm 
gente, insinua uma gazeta; Babilnia, em que tanta coisa se tem descoberto,
revelou agora uma vasta sala atulhada de retbulos inscritos... Coisas
preciosas! j esto com a Inglaterra, a Frana, a Alemanha e os Estados Unidos
da Amrica. Sim; no   toa que estes americanos so ingleses de origem. Tm o
gosto da antiguidade; e, como inventam telefone e outros milagres, podem pagar
caro essas relquias. H ainda...

Sacudi fora os jornais e cheguei 
janela. A antiguidade  boa, mas  preciso descansar um pouco e respirar ares
modernos. Reconheci ento que tudo hoje me anda impregnado do antigo e, que, por
mais que busque o vivo e o moderno, o antigo  que me cai nas mos. Quando no 
o antigo,  o velho, Gladstone substitui Virglio. A comisso uruguaia que a
est, trazendo medalhas comemorativas da campanha do Paraguai, no sendo
propriamente antiga, fala de coisas velhas aos moos. Campanha do Paraguai! Mas
ento, houve alguma campanha do Paraguai? Onde fica o Paraguai? Os que j forem
entrados na histria e na geografia, podero descrever essa guerra, quase to
bem como a de Jugurta. Faltar-lhes-, porm, a sensao do tempo.

Oh! a sensao do tempo! A vista
dos soldados que entravam e saam de semana em semana, de ms em ms, a nsia
das notcias, a leitura dos feitos hericos, trazidos de repente por um paquete
ou um transporte de guerra... No tnhamos ainda este cabo telegrfico,
instrumento destinado a amesquinhar tudo, a dividir as novidades em talhadas
finas, poucas e breves. Naquele tempo as batalhas vinham por inteiro, com as
bandeiras tomadas, os mortos e feridos, nmero de prisioneiros, nomes dos heris
do dia, as prprias partes oficiais. Uma vida intensa de cinco anos. J l vai
um quarto de sculo. Os que ainda mamavam quando Osrio ganhava a grande
batalha, podem aplaudi-lo amanh revivido no bronze, mas no tero o sentimento
exato daqueles dias...

18 de novembro

Uma semana que inaugura na
segunda-feira uma esttua e na quinta um governo, que  qualquer dessas outras
semanas que se despacham brincando. Isto em princpio; agora, se atenderdes 
solenidade especial dos dois atos,  significao de cada um deles,  multido
de gente que concorreu a ambos, chegareis  concluso de que tais sucessos, no
cabem numa estreita crnica. Um mestre de prosa, autor de narrativas lindas,
curtas e duradouras, confessou um dia que o que mais apreciava na histria, eram
as anedotas. No discuto a confisso; digo s que, aplicada a este ofcio de
cronista,  mais que verdadeira. No  para aqui que se fizeram as
generalizaes, nem os grandes fatos pblicos. Esta , no banquete dos
acontecimentos, a mesa dos meninos.

J a imprensa, por seus
editoriais, narrou e comentou largamente os dois acontecimentos. Osrio foi
revivido, depois de o ser no bronze, e Bernardelli glorificado pela grandeza e
perfeio com que perpetuou a figura do heri. Quando  posse do Sr. presidente
da Repblica, as manifestaes de entusiasmo do povo, e as esperanas dessa
primeira transmisso do poder, por ordem natural e pacfica, foram registradas
na imprensa diria,  espera que o sejam devidamente no livro. Nem foram
esquecidos os servios reais daquele que ora deixou o poder, para repousar das
fadigas de dois longos anos de luta e de trabalho.

No nego que um pouco de filosofia
possa ter entrada nesta coluna, contanto que seja leve e ridente. As sensaes
tambm podem ser contadas, se no cansarem muito pela extenso ou pela matria;
para no ir mais longe, o que se deu comigo, por ocasio da posse, no Senado.
Quinta-feira, quando ali cheguei, ia achei mais convidados que congressistas, e
mais pulmes que ar respirvel. Na entrada da sala das sesses, fronteira  mesa
da presidncia, muitas senhoras iam invadindo pouco a pouco  mesa da
presidncia, muitas senhoras iam invadindo pouco a pouco o espao at
conquist-lo de todo. Era novo; mais novo ainda a entrada de uma senhora, que
foi sentar-se na cadeira do Baro de So Loureno. Ao menos, o lugar era o
mesmo; a cadeira pode ser que fosse outra. Da a pouco, alguns deputados e
senadores ofereciam s senhoras as suas poltronas, e todos aqueles vestidos
claros vieram alternar com as casacas pretas.

Quando isto se deu, tive uma viso
do passado, uma daquelas vises chamadas imperiais (duas por ano), em que o
regimento nunca perdia os seus direitos. Tudo era medido, regrado e solitrio.
Faltava agora tudo, at a figura do porteiro, que nesses dias solenes calava as
meias pretas e os sapatos de fivela, enfiava os cales, e punha aos ombros a
capa. Os senadores, como tinham farda especial, vinham todos com ela, exceto
algum padre, que trazia a farda da igreja. O Baro de So Loureno se ali
ressuscitasse, compreenderia, ao aspecto da sala, que as instituies eram
outras, to outras como provavelmente a sua cadeira. Aquela gente numerosa,
rumorosa e mesclada esperava algum, que no era o imperador. Certo, eu amo a
regra e dou pasto  ordem. Mas no  s na poesia que
souvent un beau dsordre est un effet de l'art. Nos atos pblicos tambm; aquela
mistura de damas e cavalheiros de legisladores e convidados, no das
instituies, mas do momento, exprimia um estado da alma popular. No seria
propriamente um efeito da arte, concordo, e sim da natureza; mas que  a
natureza seno uma arte anterior?

Gambetta achava que a Repblica
Francesa no tinha mulheres. A nossa, ao que vi outro dia, tem boa cpia
delas. Elegantes, cumpre diz-lo, e to cheias de ardor, que foram as primeiras
ou das primeiras pessoas que deram palmas, quando entrou o presidente da
Repblica. Vede a nossa felicidade: sentadas nas prprias cadeiras do
legislador, nenhuma delas pensava ocupar, nem pensa ainda em ocup-las  fora
de votos.

No as teremos to cedo em clubes,
pedindo direitos polticos. So ainda caseiras como as antigas romanas, e, se
nem todas fiam l, muitas a vestem, e vestem bem, sem pensar em construir ou
destruir ministrios.

Ns  que fazemos ministrios, e,
se j os no fazemos nas Cmaras, h sempre a imprensa, por onde se podem dar
indicaes ao chefe de Estado. O velho costume de recomendar nomes, por meio de
listas publicadas a pedido nos jornais, ressuscitou agora, de onde se deve
concluir que no havia morrido. Vimos listas impressas, desde muito antes da
posse, a maior parte com algum nome absolutamente desconhecido. Esta
particularidade deu-me que pensar. Por que esses colaboradores annimos do Poder
Executivo? E por que, entre nomes sabidos, um que se no sabe a quem pertence?
Resolvi a primeira parte da questo, depois de algum esforo. A segunda foi mais
difcil, mas no impossvel. No h impossveis.

O que me trouxe a chave do enigma,
foi a prpria eleio presidencial. As urnas deram cerca de trezentos mil votos
ao Sr. Dr. Prudente de Morais, muitas centenas a alguns nomes de significao
republicana ou monrquica, algumas dezenas a outros, seguindo-se uma multido de
nomes sabidos ou pouco sabidos, que apenas puderam contar um voto. Quando se
apurou a eleio, parei diante do problema. Que queria dizer essa multido de
cidados com um voto cada um? A razo e a memria explicaram-me o caso. A
memria repetiu-me a palavra que ouvi, h ano, a algum, eleitor e organizador
de uma lista de candidatos  deputao. Vendo-lhe a lista, composta de nomes
conhecidos, exceto um, perguntei quem era este.

 No  candidato, disse-me ele,
no ter mais de vinte a vinte e cinco votos, mas  um companheiro aqui do
bairro; queremos fazer-lhe esta manifestaozinha de amigos.

Conclu o que o leitor j
percebeu, isto , que a amizade  engenhosa, e a gratido infinita, podendo ir
do pudim ao voto. O voto, pela sua natureza poltica,  ainda mais nobre que o
pudim, e deve ser mais saboroso, pelo fato de obrigar  impresso do nome
votado. Guarda-se a ata eleitoral, que no ter nunca outono. Toda glria 
primavera.

Toda glria  primavera. A esttua
de Osrio vinha naturalmente depois desta mxima, mas o pulo  to grande, e o
papel vai acabando com tal presteza, que o melhor  no tornar ao assunto. Fique
a esttua com os seus dois colaboradores, o escultor e o soldado; eu contento-me
em contempl-la e passar, e a lembrar-me das geraes futuras que no ho
de contemplar como eu.

25 de novembro

Vo acabando as festas uruguaias.
Daqui a pouco, amanh, no haver mais que lembranas das luminrias, msicas,
flores, danas, corridas, passeios, e tantas outras coisas que alegraram por
alguns dias a cidade. Hoje  a regata de Botafogo, ontem foi o baile do Cassino,
anteontem foi a festa do Corcovado... No escrevo pic-nic, por ter a
respeito deste vocbulo duas dvidas, uma maior outra menor, como diziam os
antigos pregoeiros de praas judiciais

Aqui est a maior. Sabe-se que
esta palavra veio-nos dos franceses que escrevem pique-nique. Como  que
ns, que temos o gosto de adoar a pronncia e muitas vezes alongar a palavra,
adotamos esta forma rspida e breve: pic-nic! Eis a um mistrio, tanto
mais profundo quanto que eu, quando era rapaz (anteontem, pouco mais ou menos),
lia e escrevia pique-nique,  francesa. Que a forma pic-nic nos
viesse de Portugal nos livros e correspondncias dos ltimos anos sendo a forma
que mais se ajusta  pronncia da nossa antiga metrpole,  o que primeiro
ocorre aos inadvertidos. Eu, sem negar que assim escrevam os ltimos livros e
correspondncias daquela origem, lembrei que Caldas Aulete adota
pique-nique; resposta que no presta muito para o caso, mas no tenho
outra  mo.

No me digas, leitor esperto, que
a palavra  de origem inglesa, mas que os ingleses escrevem pick-nick.
Sabes muito bem que ela nos veio de Frana, onde lhe tiraram as calas
londrinas, para vesti-la  moda de Paris, neste caso particular  a nossa
prpria moda. Vede frac dos franceses. Usamos hoje esta forma, que  a
original, ns que tnhamos adotado anteontem (era eu rapaz) a forma adoada de
fraque.

A outra dvida, a menor, quase no
chega a ser dvida, se refletirmos que as palavras mudam de significado com o
andar do tempo ou quando passam de uma regio a outra. Assim que,
pique-nique era aqui, banquete, ou como melhor nome haja, em que cada
conviva entra com a sua quota. Quando um s  que paga o pato e o resto, a coisa
tinha outro nome. A palavra ficou significando, ao que parece, um banquete
campestre.

Foi naturalmente para acabar com
tais dvidas que o Sr. Dr. Castro Lopes inventou a palavra convescote. O
Sr. Dr. Castro Lopes  a nossa Academia Francesa. Esta, h cerca de um ms,
admitiu no seu dicionrio a palavra atualidade. Em vo a pobre
atualidade andou por livros e jornais, conversaes e discursos; em vo
Littre a incluiu no seu dicionrio. A Academia no lhe deu ouvidos. S quando
uma espcie de sufrgio universal decretou a expresso,  que ela canonizou.
Donde se infere que o Sr. Castro Lopes, sendo a nossa Academia Francesa, 
tambm o contrrio dela.  a academia pela autoridade,  o contrrio pelo
mtodo. Longe de esperar que as palavras envelhecem c fora, ele as compe
novas, com os elementos que tira da sua erudio, d-lhes a bno e manda-as
por esse mundo. O mesmo paralelo se pode fazer entre ele e a Igreja Catlica.
Igreja, tendo igual autoridade, procede como a academia, no inventa dogmas,
define-os.

Convescote tem prosperado, posto
no seja claro,  primeira vista, como engrossador, termo recente, de
aplicao poltica, expressivo que faz imagem, como dizem os franceses.  certo
que a clareza de vem do verbo donde saiu. Quem o inventou? Talvez algum ctico,
por horas mortas, relembrando uma procisso qualquer; mas tambm pode ser obra
de algum religionrio, aborrecido com ver aumentar o nmero de fiis. As
religies polticas diferem das outras em que os fiis da primeira hora no
gostam de ver fiis das outras horas. Parecem-lhes inimigos;  verdade que as
converses, tendo os seus motivos na conscincia, escapam  verificao humana e
 possvel que um homem se ache, repentinamente, catlico menos pelos dogmas que
pelas galhetas. As galhetas fazem engrossar muito. Mas fosse quem fosse o
inventor do vocbulo, certo  que este, apesar da annimo e popular, ou por isso
mesmo, espalhou-se e prosperou; no admirar que fique na lngua, e se houver,
a por 1950, uma Academia Brasileira, pode bem ser que venha a inclu-lo no seu
dicionrio. O Sr. Dr. Castro Lopes poderia recomend-lo a um alto
destino.

Oh! se o nosso venerando latinista
me desse uma palavra que, substituindo mentira, no fosse
inverdade! Creio que esta segunda palavra nasceu no parlamento, obra de
algum orador indignado e cauteloso, que, no querendo ir at a mentira,
achou que inexatido era frouxa demais. No nego perfeio 
inverdade, nem eufonia, nem coisa nenhuma. Digo s que me  antiptica. A
simpatia  o meu lxico. A razo por que eu nunca explodo, nem gosto que
os outros explodam, no  porque este verbo no seja elegante, belo,
sonoro, e principalmente necessrio;  porque ele no vai com o meu corao.
Le coeur a
des raisons que la raison ne connat pas, disse um moralista.

A outra palavra, mentira,
essa  simptica, mas faltam-lhe maneiras e anda sempre grvida de tumultos. H
cerca de quinze dias, em sesso do Conselho Municipal, caiu da boca de um
intendente no rosto de outro, e foi uma agitao tal, que obrigou o presidente a
suspender os trabalhos por alguns minutos. Reaberta a sesso, o presidente pediu
aos seus colegas que discutissem com a maior moderao; pedido excessivo, eu
contentar-me-ia com a menor, era bastante para no ir to longe.

De resto, a agitao  sinal de
vida e melhor  que o Conselho se agite que durma. Esta semana o caso da
bandeira, que  um dos mais graciosos, agitou bastante a alma municipal. Se o
leste,  intil contar; se o no leste,  difcil. Refiro-me  bandeira que
apareceu hasteada na sala das sesses do Conselho, em dia de gala, sem se saber
o que era nem quem a tinha ali posto. Pelo debate viu-se que a bandeira era
positivista e que um empregado superior a havia hasteado, depois de consentir
nisso o presidente. O presidente explicou-se. Um intendente props que a
bandeira fosse recolhida ao Museu Nacional, por ser obra de algum merecimento.
Outro chamou-lhe trapo. O positivismo foi atacado. Crescendo o debate,
alargou-se o assunto e as origens da revoluo do Rio Grande do Sul foram
achadas no positivismo, bem como a esttua de Monroe e um episdio do asilo de
mendicidade.

Se assim , explica-se o
apostolado antipositivista, fundado esta semana, e no pode haver maior alegria
para o apostolado positivista; no se faz guerra a fantasmas, a no ser no livro
de Cervantes. Mas que pensa de tudo isto um habitante do planeta Marte, que est
espiando c para baixo com grandes olhos irnicos?

A bandeira no teve destino, foi a
concluso de tudo, e no ser de admirar que torne a aparecer no primeiro dia de
gala, para da lugar a nova discusso,  coisa utilssima, pois da discusso
nasce a verdade. Para mim, a bandeira caiu do cu. Sem ela esta pgina que
comeou pedante, acabaria ainda mais pedante.

2
de dezembro

Quando me leres, poucas horas
tero passado depois da tua volta do Cassino. Vieste a festa Alencar,  domingo,
no tens de ir aos teu negcios, ou aos teus passeios, se s mulher, como me
pareces. Os teus dedos no so de homem. Mas, homem ou mulher, quem quer que
sejas tu, se foste ao Cassino, pensa que fizeste uma boa obra, e, se no foste,
pensa em Alencar, que  ainda uma obra excelente. Vers em breve erguida a
esttua. Uma esttua por alguns livros!

Olha, tens um bom meio de examinar
se o homem vale o monumento, etc.  domingo, l alguns dos tais livros. Ou
ento, se queres uma boa idia dele, pega no livro de Araripe Jnior, estudo
imparcial e completo, publicado agora em segunda edio. Araripe Jnior nasceu
para a crtica; sabe ver claro e dizer bem.  o autor de Gregrio de
Matos, creio que basta. Se j conheces Jos de Alencar, no perdes
nada em rel-lo; ganha-se sempre em reler o que merece, acrescendo que achars
aqui um modo de amar o romancista, vendo-lhe distintamente todas as feies, as
belas e as menos belas, que  perptuo, e o que  perecvel. Ao cabo, fica
sempre uma esttua do chefe dos chefes.

Queres mais? Abre este outro livro
recente, Estudos Brasileiros, de Jos Verssimo. A tens um captulo
inteiro sobre Alencar, com particularidade de tratar justamente da cerimnia da
primeira pedra do monumento, e, a propsito dele, da figura do nosso grande
romancista nacional.  a segunda srie de estudos que Jos Verssimo publica, e
cumpre o que diz no ttulo;  brasileiro, puro brasileiro. Da competncia dele
nada direi que no saibas:  conhecida e reconhecida. H l certo nmero de
pginas que mostram que h nele muita benevolncia. No digo quais sejam:
adivinha-se o enigma lendo o livro; se, ainda lendo, no o decifrares,  que me
no conheces.

E assim, relendo as crticas,
relendo os romances, ganhars o teu domingo, livre das outras lembranas, como
desta ruim semana. Guerra e peste; no digo fome, para no mentir, mas os preos
das coisas so j to atrevidos, que a gente come para no morrer.

A peste, essa anda perto, como
espiando a gente. Oh! gro de areia de Cromwell, que vales tu, ao p do bacilo
vrgula? Qualquer Cromwell de hoje, com infinitamente menos que um gro de areia
cai do mais alto poder da terra no fundo da maior cova. Francamente, prefiro os
tempos em que as doenas, se no eram maleitas, barrigas d'gua, ou espinhela
cada, tinham causas metafsicas e curavam-se com rezas e sangrias, benzimentos
e sanguessugas. A descoberta bacilo foi um desastre. Antigamente, adoecia-se;
hoje mata-se primeiro o bacilo de doena, depois adoece-se, e o resto da vida d
apenas para morrer.

Tantas pessoas tm j visto o
bacilo vrgula e toda a mais pontuao bacilar, que no se me d dizer que o vi
tambm. Comea a ser distino. Um homem capaz no pode j existir sem ter
visto, uma vez que seja, essa extraordinria criatura. O bacilo vrgula  a
Sarah Bernhardt da patologia, o cisne preto dos lagos intestinais, o bicho de
sete cabeas, no to raro, nem to fabuloso. Quero crer que todas essas
vrgulas que vou deitando entre as oraes, no so mais que bacilos, j sem
veneno, temperando assim a patologia com a ortografia,  ou
vice-versa.

Quanto  guerra, houve apenas duas
noites de combate, investidas a quartis e corpos de guarda, nacionais contra
policiais, gregos contra troianos, tudo por causa de uma Helena, que se no sabe
quem seja. Ouvi ou li que foi por causa de um chapu.  pouco; mas lembremo-nos
que assim como o bacilo vrgula substituiu o gro de areia de Cromwell, assim o
chapu substitui a mulher, e tudo ir diminuindo... Somos chegados s coisas
microscpicas, no tardam as invisveis, at que venham as impossveis. Um
chapu de palhinha de Itlia deu para um vaudeville; este, de palha mais
rude, deu para uma tragdia. Tudo  chapu.

No quero saber de assassinatos,
nem de suicdios, nem das longas histrias que eles trouxeram  hora da
conversao;  sempre demais. Tambm no vi nem quero saber o que houve com as
pernas de um pobre moo, no Catete, que ficaram embaixo de um bond da
Companhia Jardim Botnico. Ouvi que se perderam. No  a primeira pessoa a quem
isto acontece, nem ser a ltima. A Companhia pode defender-se muito bem,
citando Victor Hugo, que perdeu uma filha por desastre, e resignadamente
comparou a criao a uma roda:

Que la cration est une grande
roue
Qui ne peut se mouvoir sans
craser quelqu'un.

A mesma coisa dir a Companhia
Jardim Botnico, em prosa ou verso, mas sempre a mesma coisa:  Eu sou como a
grande roda da criao, no posso andar sem esmagar alguma pessoa. Comparao
enrgica e verdadeira. A fatalidade do ofcio  que a leva a quebrar as pernas
aos outros. O pessoal desta companhia  carinhoso, o horrio pontual, nenhum
atropelo, nenhum descarrilamento, as ordens policiais contra os reboques so
cumpridas to exatamente, que no h corao bem formado que no chegue a
entusiasmar-se. Se ainda vemos dois ou trs carros puxados por um eltrico, 
porque a eletricidade atrai irresistivelmente, e os carros prendem-se uns aos
outros; mas a administrao estuda um plano que ponha termo a esse escndalo das
leis naturais.

Terras h em que os casos, como os
do Catete, so punidos com priso, indenizao e outras penas; mas para que mais
penas, alm das que a vida traz consigo? Demais, os processos so longos, no
contando que a admirvel instituio do jri   a melhor escola evanglica
destes arredores: Quem estiver inocente, que lhe atire a primeira pedra!
exclama ele com o soberbo gesto de Jesus. E o ru, seja de ferimento ou simples
estelionato,  restitudo ao ofcio de roda da criao.

O melhor  no punir nada. A
conscincia  o mais cru dos chicotes. O dividendo  outro. Uma companhia de
carris que reparta igualmente aleijes ao pblico e lucros a si mesma, ver
nestes o seu prprio castigo se  caso de castigo; se o no , para que faz-la
padecer duas vezes?

No creio que o perodo anterior
esteja claro. Este vai sair menos claro ainda, visto que  difcil ser fiel aos
princpios e no querer que o prefeito saia das urnas. A verdade, porm,  que
eu prefiro um prefeito nomeado a um prefeito eleito,  ao menos, por ora. Jos
Rodrigues, a quem consulto em certos casos, vai mais longe, entendendo que os
prprios intendentes deviam ser nomeados.  homem de arrocho; o pai era
saquarema.

Menos claro que tudo,  este
perodo final. Tem-se discutido se o Hospcio Nacional de Alienados deve ficar
com o Estado ou tornar  Santa Casa de Misericrdia. Consultei a este respeito
um doido, que me declarou chamar-se Duque do Cucaso e da Cracvia, Conde
Estelrio, filho de Prometeu, etc., e a sua resposta foi esta:

 Se  verdade que o Hospcio foi
levantado com o dinheiro de loterias e de ttulos mobilirios, que o Jos
Clemente chamava impostos sobre a vaidade,  evidente que o Hospcio deve ser
entregue aos doidos, e eles que o administrem. O grande Erasmo ( Deus!)
escreveu que andar atrs da fortuna e de distines  uma espcie de loucura
mansa; logo, a instituio, fundada por doidos, deve ir aos doidos,  ao menos,
por experincia.  o que me parece!  o que parece ao grande prncipe Estelrio,
bispo, episcopus, papam... seu a seu dono.

9 de
dezembro

Tudo tende  vacina. Depois da varola, a raiva;
depois da raiva, a difteria; no tarda a vez do clera-morbo. O bacilo-vrgula,
que nos est dando que fazer, passar em breve do terrvel mal que , a uma
simples cultura cientfica, logo de amadores, at roar pela banalidade. Uma vez
regulamentado, far parte dos cafs e confeitarias. Que digo? Entrar nos
cdigos de civilidade, oferecer-se- s visitas um clix de clera-morbo ou de
outro qualquer licor. Os cavalheiros perguntaro graciosamente s damas: V. Ex.
j tomou hoje o seu bacilo? Far-se-o trocadilhos.

 Que tal este vrgula?

 Vale um ponto de admirao!

Todas as molstias iro assim cedendo ao homem, no
ficando  natureza outro recurso mais que reformar a patologia. No bastaro
guerras e desastres para abrir caminho s geraes futuras; e demais a guerra
pode acabar tambm, e os prprios desastres, quem sabe? obedecero a uma lei,
que se descobrir e se emendar algum dia. Sem desastres nem guerras, com as
doenas reduzidas, sem conventos, prolongada a velhice at s idades bblicas,
onde ir parar este mundo? S um grande carregamento,  doce me e amiga
Natureza; s um carregamento infinito de molstias novas.

Mas a vacina no se deve limitar ao corpo; 
preciso aplic-la  alma e aos costumes, comeando na palavra e acabando no
governo dos homens. J a temos na palavra, ao menos, na palavra poltica. Graas
s culturas sucessivas, podemos hoje chamar bandido a um adversrio, e, s
vezes, a um velho amigo, com quem tenhamos alguma pequena desinteligncia. Est
assentado que bandido  um divergente. Corja de bandidos  um grupo de pessoas
que entende diversamente de outra um artigo da Constituio. Quando os bandidos
so tambm infames,  que venceram as eleies,ou legalmente, ou
aproximativamente. Com tais culturas enrija-se a alma, poupam-se dios, no se
perde o apetite nem a considerao. Antes do fim do sculo, bandido valer tanto
como magro ou canhoto.

Assim tambm as opinies. A vacina das opinies 
difcil, no como operao, mas como aceitao do princpio. Diz-se, e com
razo, que o micrbio  sempre um mal; ora, a minha opinio  um bem, logo...
Erro, grande erro. A minha opinio  um bem, de certo, mas a tua opinio  um
mal, e do veneno da tua  que eu me devo preservar, por meio de injees a
tempo, a fim de que, se tiver a desgraa de trocar a minha opinio pela tua, no
padea as terrveis conseqncias que as idias detestveis trazem sempre
consigo. E porque no  s a tua idia que  perversa, mas todas as outras,
desde que eu me vacine de todas, estou apto a receb-las sucessivamente, sem
perigo, antes com lucro.

O bacilo zig-zag, causa da embriaguez... Mas para
que ir mais longe? Conhecido o princpio, sabido que tudo deriva de um micrbio,
inclusive o vcio e a virtude, obtm-se pelo mesmo processo a eliminao de
tantos males. O boato tem sido descomposto de lngua e de pena,  um monstro, um
inimigo pblico,  o diabo, sem advertirem os autores de nomes to feios, que o
boato  a cultura atenuada do acontecimento. Daqui em diante a histria se far
com auxlio da bacteriologia.

As eleies,  uma das mais terrveis enfermidades
que podem atacar o organismo social,  perderam a violncia, e dentro em pouco
perdero a prpria existncia nesta cidade, graas  cultura do respectivo
bacilo. Aposto que o leitor no sabe que tem de eleger no ltimo domingo deste
ms os seus representantes municipais? No sabe. Se soubesse, j andaria no
trabalho da escolha do candidato, em reunies pblicas, ouvindo pacientemente a
todos que viessem dizer-lhe o que pensam e o que podem fazer. Quando menos,
estaria lendo as circulares dos candidatos, cujos nomes andariam j de boca em
boca, desde dois e trs meies, ou apresentados por si mesmos, ou indicados por
diretrios.

Nem o leitor julgaria somente das idias e dos
planos dos candidatos, conheceria igualmente do estilo e da linguagem deles. Sei
que a circular no basta; pode ser obra de algum amigo, sabedor de gramtica e
de retrica. O discurso, porm, mostrar o homem, e, ainda quando seja alheio e
decorado, os ouvintes tm o recurso de lanar a desordem no rebanho das palavras
e das idias do orador. Este, roto o fio da orao, acabar dando por paus e por
pedras. Deus meu! no exijo raptos de eloqncia. Os discursos municipais podem
ser mal feitos, sem conexo, nem lgica, nem clareza, atrapalhados, aborrecidos;
 negcio que, salvos os gastos da impresso, s importa  fama dos autores. Mas
as leis? O municpio tem leis, e as leis devem ser escritas.

Agora mesmo, anteontem, foi promulgada a lei que
autoriza o Prefeito a regularizar a direo dos veculos. Esta lei tem um art.
2 que diz assim:

Art. 2. Os trilhos que servem de leito a veculos
(bonds), os quais sobre os mesmos rodam normalmente, podero ser mudados
para lugares diversos dos que ocupam, somente com prvia aquiescncia do
conselho, exceto quando se tratar de ligeiras mudanas de trilhos na mesma rua
ou outra mais prxima e mais larga do que aquela em que entronca, os mesmos
assentados.

Este art. 2. no est escrito. As palavras que o
deviam compor, no saram do tinteiro; saram outras, inteiramente estranhas, e
ainda assim, com a grande pressa que havia, foram deixadas no papel para que se
arrumassem por si mesmas; ora, as oraes, como os regimentos, no marcham bem
seno com muita lio do instrutor. As conseqncias so naturalmente graves.
Como h de o Prefeito cumprir esse artigo? Como hei de eu obedecer a outras leis
que saiam assim desconjuntadas? J no trato de algumas conseqncias mnimas.
Conheo uma pessoa, muito dada a metforas, que nunca mais dir bond, e
sim veculo que roda normalmente sobre trilhos.

O legislador municipal achou-se aqui na mesma
dificuldade em que, h anos, esteve o redator de um projeto de lei contra os
capoeiras. No me recordo das palavras todas empregadas na definio dos
delitos; as primeiras eram estas: Usar de agilidade... Compreendo o escrpulo
em definir bem o capoeira; mas porque no disse simplesmente capoeira? No
estivesse eu com pressa (os minutos correm) e iria pesquisar o texto de um ato
ministerial do princpio do sculo, em que se davam ordens contra os capoeiras 
mas s capoeiras, nada mais.

Sendo preciso escrever as leis municipais, no
seria fora de propsito criar um ou dois lugares de redatores, nomeando-se para
eles pessoas gramaticadas. A est uma idia que podia servir a algum candidato,
em circular ou discurso, se no estivssemos vacinados contra o vrus eleitoral.
A capital no quer saber de si. Alguns candidatos obscuros, lembrados por
cidados ainda mais obscuros, iro aparecendo na ltima semana. Os mais
econmicos mandaro apontar o seu nome, com duas linhas de impresso, entre o
licor depurativo de taiui e o xarope de alcatro e jata. 0 mais ser
trabalhinho surdo, pedido particular e absteno do costume, achaques leves que
no matam nem amofinam. Teremos, depois do ltimo domingo deste ms, outro
vaudeville como o de anteontem? Mudemos os homens se  preciso, mas no
se perca a boa e velha chalaa. A pea  da verdadeira escola dos
vaudevilles, enredo complicado, ditos alegres, muito qui-pro-quo,
dilogo vivo, desfecho inesperado, ainda que pouco claro. Os couplets
finais vivssimos. Mas por que chamar a esta pea Sunt lacrymae
rerum?

16 de dezembro

Um telegrama de So Petersburgo
anunciou anteontem que a bailarina Labushka cometeu suicdio. No traz a causa;
mas, dizendo que ela era amante do finado imperador, fica entendido que se matou
de saudade.

Que eu no tenha,  alma eslava, 
Clepatra sem Egito, que eu no tenha a lira de Byron para cantar aqui a tua
melanclica aventura! Possuas o amor de um potentado. O telegrama diz que eras
amante declarada, isto , aceita como as demais instituies do pas. Sem
protocolo, nem outras etiquetas, pela nica lei de Eros, danavas com ele a
redowa da mocidade. Naturalmente eras a professora, por isso que eras
bailarina de ofcio; ele, discpulo, timbrava em no perder o compasso, e a
Santa Rssia, que dizem ser imensa, era para vs ambos infinita.

Um dia, a morte, que tambm gosta
de danar, pegou no teu imperador e transferiu-o a outra Rssia, ainda mais
infinita. A tristeza universal foi grande, porque era um homem bom e justo.
Daqui mesmo, desta remota capital americana, vimos os grandiosos funerais e
ouvimos as lamentaes pblicas. No nos chegaram as tuas, porque h sempre um
recanto surdo para as dores irregulares. Agora, porm, que tudo acabou, eis a
reboa o som de um tiro, que faltava, para completar os funerais do autocrata.
Rival da morte, quiseste ir danar com ele a redowa da eternidade.

H aqui um mistrio. No  vulgar
em bailarinas essa fidelidade verdadeiramente eterna. Muitas vezes choram;
estanques as lgrimas, recolhem as recordaes do morto, outras tintas lgrimas
cristalizadas em diamantes, contam os ttulos de dvida pblica, esto certos;
as sedas so ainda novas, todos os tapetes vieram da Prsia ou da Turquia. Se h
palacete, dado em dia de anos, as paredes, que viram o homem, passam a ver
to-somente a sombra do homem, fixada nos ricos mveis do salo e do resto. Se
no h palacete, h leiloeiros para vender a moblia. Como lev-la  velha
hospedaria de outras terras, Belgrado ou Veneza, aonde a meia viva se abriga
para descansar do morto, e de onde sai, s vezes, pelo brao de um marido, baro
autntico e mais autntico mendigo?

Eis o que se d no mundo da
pirueta. O teu suicdio, porm, ltima homenagem, e (perdoem-me a exagerao) a
mais eloqente das milhares que recebeu a memria do imperador, o teu suicdio 
um mistrio. Grande mistrio, que s o mundo eslavo  capaz de dar. Foi
telegrama o que li? Foi alguma pgina de Dostoievski? A concluso ltima  que
amavas. Sacrificaste uma aposentadoria grossa, a fama, a curiosidade pblica, as
memrias que podias escrever ou mandar escrever, e, antes delas, as entrevistas
para os jornais, os interrogatrios que te fariam sobre os hbitos do imperador
e os teus prprios hbitos, e quantos copos de ch bebias diariamente, as cores
mais do teu gosto, as roupas mais do teu uso, quem foram teus pais, se tiveste
algum tio, se esse tio era alto, se era coronel, se era reformado, quando se
reformou, quem foi o ministro que assinou a reforma, etc., um rosrio de
notcias interessantes para o pblico de ambos os mundos. Tudo sacrificaste por
um mistrio.

Mistrios nunca nos aborreceram; a
prova  que folgamos agora diante de dois mistrios enormes, dois verdadeiros
abismos (insondveis). Sempre gostamos do inextricvel. Este pas no detesta as
questes simples, nem as solues transparentes, mas no se pode dizer que as
adore. A razo no est s na seduo do obscuro e do complexo, est ainda em
que o obscuro e o complexo abrem a porta  controvrsia. Ora, a controvrsia, se
no nasceu conosco, foi pelo fato inteiramente fortuito, de haver nascido antes;
se se no tem apressado em vir a este mundo, era nossa irm gmea; se temos de a
deixar neste mundo,  porque ainda c ficaro homens. Mas vamos aos nossos dois
mistrios.

O primeiro deles anda j to
safado, que at me custa escrever o nome;  o cmbio. Est outra vez no tapete
da discusso. O segundo  recente,  novssimo, comea a entrar no debate;  o
bacilo vrgula. Os mistrios da religio no nos ascendem uns contra os outros;
para crer neles basta a f, e a f no discute. Os do encilhamento aturdiram por
alguns dias ou semanas; mas desde que se descobriu que o dinheiro caa do cu, o
mistrio perdeu a razo de ser. Quem, naquele tempo, ps uma cesta, uma gamela,
uma barrica, uma vasilha qualquer, no luar ou s estrelas, e achou-se de manh
com cinco, dez, vinte mil contos, entendeu logo que s por falsificao  que
fazemos dinheiro c embaixo. Ouro puro e copioso  que cai do eterno
azul.

Eu, quando era pequenino, achei
ainda uma usana da noite de So Joo. Era expor um copo cheio dgua ao sereno,
e despejar dentro um ovo de galinha. De manh ia-se ver a forma do ovo; se era
navio, a pessoa tinha de embarcar; se era uma casa, viria a ser proprietria,
etc. Consultei uma vez o bom do santo; vi, claramente visto,  vi um navio;
tinha de embarcar. Ainda no embarquei, mas enquanto houver navios no mar, no
perco a esperana. Por ocasio do encilhamento, a maior parte das pessoas, no
podendo sacudir fora as crenas da meninice, no punham gamelas vazias ao
sereno, mas um copo com gua e ovo. De manh, viam navios, e ainda agora no
vem outra coisa. Por que no puseram gamelas? Vivam as gamelas! Ou, se  lcito
citar versos, digamos com o cantor dos Timbiras:

.........Paz aos
Gamelas
Renome e glria...

H quem queira filiar o cmbio aos
costumes do encilhamento. A pessoa que me disse isto, provavelmente soube
explicar-se; eu  que no soube entend-la.  uma complicao de dinheiro que se
ganha ou se perde, sem saber como, anonimamente, com resignao geral de
baixistas e altistas. Um embrulho. Mas h de ser iluso, por fora. Quem se
lembra daqueles belos dias do encilhamento, sente que eles acabaram, como os
belos dias de Aranjuez. Onde est agora o delrio? onde esto as imaginaes? As
estradas na lua, o anel de Saturno, a pele de ursos polares, onde vo todos
esses sonhos deslumbrantes, que nos fizeram viver, pois que a vida es
sueo, segundo o poeta?

Tais sonhos ainda so possveis
com o mistrio do bacilo vrgula. Toda esta semana andou agitado esse bicho da
terra to pequeno, para citar outro poeta, o terceiro ou quarto que me vem ao
bico da pena. H dias assim; mas eu suponho que hoje esta afluncia de
lembranas poticas  porque a poesia  tambm um mistrio, e todos os mistrios
so mais ou menos parentes uns dos outros. Suponho, no afirmo; depois do que
tenho lido sobre o famoso bacilo, no afirmo nada; tambm no nego. Autoridades
respeitveis dizem que o bacilo mata, pelo modo asitico; outras tambm
respeitveis juram que o bacilo no mata.

Hippocrate dit oui, et Gallien dit
non.

23 de dezembro

A semana acabou fresca, tendo
comeado e continuado horrivelmente clida. At quinta-feira  noite ningum
podia respirar. Sexta-feira trouxe mudana de tempo e baixa de temperatura. O
fenmeno explicar-se-ia naturalmente, em qualquer ocasio, mas houve uma
coincidncia que me leva a atribu-lo a causas transcendentais. Se cuidas que
aludo ao encerramento do Congresso Nacional, enganaste. O calor do Congresso
tinha-se ido, h muito, com a Cmara dos Deputados. O Senado, apesar da troca de
regmen e do mnimo da idade, h de ser sempre a antiga Sibria, pelo prprio
carter da instituio. No, a causa foi outra.

A causa foi o banquete que o
ministro da Sucia e Noruega deu aos comandantes e oficiais da corveta e da
canhoneira ancoradas no nosso porto, banquete a que assistiram os cnsules da
Holanda e da Dinamarca. Homens do Norte, amassados com gelo, curtidos com ventos
speros, uma vez reunidos  volta da mesa, comunicaram uns aos outros as
sensaes antigas, e, por sugesto, transportaram para aqui algumas braadas
daqueles climas remotos. Estando em dezembro, evocaram o seu inverno deles, que
no  o nosso moo lpido de So Joo, mas um velho pesado do Natal. J antes da
sopa, deviam tremer de frio. Eu prprio, ao ler-lhes os nomes, levantei a gola
do fraque. Os bigodes pingavam neve. As rajadas de vento levavam os
guardanapos.

Tendo sido na noite de
quarta-feira o banquete escandinavo, o nosso cu ainda resistiu durante a
quinta-feira, e com tal desespero que parecia queimar tudo; mas na sexta-feira
j no pde, e no teve remdio seno chover e ventar. No choveu, nem ventou
muito, no chegou a nevar, mas fez-nos respirar, e basta. O que talvez no
baste,  a explicao. Espritos rasteiros no podem aceitar razes de certa
elevao, mas com esses no se teima. Faz-se o que fiz sexta-feira ao meu
criado, quando ele me entrou no gabinete para anunciar que no havia carne.
Trazia os cabelos em p, os olhos esbugalhados, a boca aberta, e s falou depois
que a minha frieza, totalmente escandinava, no correspondendo a tanto assombro,
acendeu nele o desejo de me dar a grande novidade. Eu, cada vez mais
escandinavo, respondia-lhe que, se no havia carne, havia outras coisas. No
contestou a sabedoria da resposta, mas confessou que a razo do espanto e
consternao em que vinha, era o receio de no haver mais carne neste
mundo.

 No entendo de leis, concluiu
Jos Rodrigues, cuidei que era alguma lei nova que mandava acabar com a
carne...

Este Jos Rodrigues  bom, 
diligente, respeitoso, mas coxeia do intelecto, no que seja doido, mas 
estpido. No digo burro; burro com fala seria mais inteligente que ele. Ontem,
depois do almoo, veio ter comigo, trazendo uma folha na mo:

 Patro, leio aqui estes dois
anncios: Para tosses rebeldes, xarope de jaramacaru.  Para intendente
municipal, Calisto Jos de Paiva. Qual destes dois remdios  melhor? E que
molstia  essa que nunca vi?

 Tu s tolo, Jos
Rodrigues.

 Com perdo da palavra, sim,
senhor.

 Pois se as molstias so duas,
como  que me perguntas qual dos remdios  melhor?  claro que ambos so bons,
um para tosses rebeldes, outro para intendente municipal.

 E esta molstia  como a
neurastenia, que o patro me ensinou a dizer, e ainda no sei se digo direito, 
a tal molstia nova, que  bem antiga;  a que chamvamos espinhela cada. Ou
intendente ser assim coisa de dentes?... O patro desculpe; eu no andei por
escolas, no aprendi leis nem medicina...

 Jos Rodrigues, h coisas que,
no se entendendo logo, nunca mais se entendem. Onde andas tu que no sabes o
que  intendente? Sabes o que  vereador?

 Vereador, sei;  o homem que o
povo pe na Cmara para ver as coisas da cidade, a limpeza, a gua, os
lampies.

 Pois  a mesma coisa.

 A mesma coisa? Entendo;  como a
espinhela cada, que hoje se chama anatomia ou neurastenia. Pois, sim, senhor.
Intendente  o mesmo que vereador. Cura-se ento com o Paiva do anncio? Mas, se
o Paiva  remdio, conforme diz o patro, no entendo que se aplique a
neurastenia ou intendente...

 Tu no ests bom, Jos
Rodrigues; vai-te embora.

 Para dizer a minha verdade, bom,
bom, no estou; amanheci com uma dor do lado, que no posso respirar, e  por
isso que vim perguntar ao patro se era melhor o xarope, se o Paiva. Talvez o
Paiva seja mais barato que o xarope. Isto de remdios, no  o serem mais
caros... s vezes os mais caros no prestam para nada, e um de pouco preo cura
que faz gosto. Mas, enfim, no fao questo de preo. A sade merece tudo: Vou
ao Paiva... isto , o jornal fala tambm de um Canedo, para a mesma molstia...
No  Canedo que se diz? Talvez o Canedo seja ainda mais barato que o
Paiva.

 Isto  coisa que s  vista das
contas do boticrio. Toma o que puderes; mas, antes disso, faz-me um favor. Vai
ver se estou no Largo da Carioca.

 Sim, senhor... Se no estiver,
volto?

 Espera primeiro at s cinco
horas; se at s cinco horas no me achares,  que eu no estou, e ento volta
para casa.

 Muito bem; mas se o patro l
estiver, que quer que lhe faa?

 Puxa-me o nariz.

 Ah! isso no! Confianas dessas
no so comigo. Gracejar, gracejo e o patro faz-me o favor de rir; mas no se
puxa o nariz a um homem...

 Bem, d-me ento as boas tardes
e vem-te embora para casa.

 Perfeitamente.

Enquanto ele ia ao Largo da
Carioca, fui-me eu s notas da semana, e no achei mais nada que valesse a pena,
salvo o planeta que se descobriu entre Marte e Mercrio. Mas isso mesmo, para
quem no  astrnomo, vale pouco ou nada; no que as grandezas do Cu estejam
trancadas aos olhos ignaros, francas esto, e o nfimo dos homens pode
admir-las. No  isso;  que um astrnomo diria sobre este novo planeta coisas
importantes. Que direi eu? Nada ou algum absurdo. Buscaria achar alguma relao
entre os planetas que aparecem e as cidades que ameaam desaparecer com
terremotos. A Calbria padeceu mais com eles que com os salteadores; pouco  o
cho seguro debaixo dos ps das belas italianas ou do fortssimo Crispi. Na
Hungria houve um tremor h dois dias; outras partes do mundo tm sido
abaladas.

Andar a Terra com dores de parto,
e alguma coisa vai sair dela, que ningum espera nem sonha? Tudo  possvel.
Quem sabe se o planeta novo no foi o filho que ela deu  luz por ocasio dos
tremores italianos? Assim, podemos fazer uma astronomia nova; todos os planetas
so filhos do consrcio da Terra e do Sol, cuja primognita  a Lua, anmica e
solteirona. Os demais planetas nasceram pequenos, cresceram com os anos, casaram
e povoaram o cu com estrelas. A est uma astronomia que Jlio Verne podia
meter em romances, e Flammarion em dcimas.

Tambm se pode tirar daqui uma
poltica internacional. Quando a frica e o que resta por ocupar e civilizar,
estiver ocupado e civilizado, os planetas que aparecerem, ficaro pertencendo
aos pases cujas entranhas houverem sido abaladas na ocasio com terremotos; so
propriamente seus filhos. Restar conquist-los; mas o tetraneto de Edison ter
resolvido este problema, colocando os planetas ao alcance dos homens, por meio
de um parafuso eltrico e quase infinito.

30 de dezembro

A sorte  tudo. Os acontecimentos
tecem-se como as peas de teatro, e representam-se da mesma maneira. A nica
diferena  que no h ensaios; nem o autor nem os atores precisam deles.
Levantado o pano, comea a representao, e todos sabem os papis sem os terem
lido. A sorte  o ponto.

Esse pequeno exrdio  a melhor
explicao que posso dar do drama da Praa da Repblica, e a mais viva
condenao da teimosia com que alguns jornais pediram a demolio dos pavilhes
e arcos das festas uruguaias. Ainda bem que no pediram tambm a eliminao de
trs grinaldas de folhas secas, j sem cara de folhas, que ainda pendem dos
arcos de gs na Rua de So Jos. Oh! no me tirem essas pobres grinaldas! No
fazem mal a ningum, no tolhem a vista, no escondem gatunos, e so verdadeiras
mximas. Quando deso por ali, com a memria cheia de algumas folhas verdes que
vieram comigo no bond, acontece-me quase sempre parar diante delas. E
elas dizem-me coisas infinitas sobre a caducidade das folhas verdes, e o prazer
com que as ouo no tem nome na Terra nem provavelmente no Cu. Ergo
bibamus! E a me vou contente ao trabalho. No  novo o que elas dizem, nem
sero as ltimas que o diro. A banalidade repele-se de sculo a sculo, e ir
at  consumao dos sculos; no  folha que perca o vio.

Vindo ao pavilho da Praa da
Repblica, o acontecimento de quinta-feira provou que ele era necessrio, porque
a sorte, que rege este mundo, j estava com o drama nas mos para apont-lo aos
atores! E os atores foram cabais no desempenho. O gatuno que resistiu ao ataque
de alguns homens de boa vontade dava um magnfico bandido. Um simples gatuno no
defende com tanto ardor a liberdade, posto que a liberdade seja um grande
benefcio. As armas do gatuno so as pernas. Ele foge ao clamor pblico, 
espada da polcia,  cadeia; pode dar um cascudo, um empurro; matar, no mata.
 certo que o tal Puga no podia fugir; mas os Pugas de lenos e outras
miudezas, em casos tais, no tendo por onde fugir, entregam-se; preferem a
priso simples aos complicados remorsos. A prpria casa, aplices, terrenos e
outros bens, havidos capciosamente, no tiram o sono. O sangue, sim, o sangue
perturba as noites.

Da veio a suspeita de ser este
Puga doido,  e parece confirm-la a declarao que ele fez de chamar-se Jesus
Cristo. A declarao no basta, e podia ser um estratagema; mas h tal
circunstncia que me faz crer que ele  deveras alienado:  ser espanhol. Os
bandidos espanhis, embora salteiem e despojem a gente, no deixam de respeitar
a religio. Dizem que levam bentinhos consigo, ouvem missas, quase que confessam
os seus pecados.

A tragdia, se deveras  doido,
foi assim mais trgica. Essa luta em um desvo, entre um louco e alguns homens
valentes, um dos quais morreu e os outros saram feridos, deve ter sido
extraordinariamente lgubre. Tal espetculo,  claro, estava determinado. Era
preciso que fosse em lugar que pudesse conter o milhar de espectadores que teve;
logo, a Praa da Repblica; devia ser o alto de edifcio vazio e livre, para
onde s se pudesse ir por uma escada de mo; logo, o pavilho das festas. Tudo
vinha assim disposto, era s cumpri-lo  risca.

Os espectadores, que tambm
fizeram parte do espetculo, desempenharam bem o seu papel, mas parece que o
haviam aprendido em Shakespeare. Assim  que, simultaneamente, aplaudiram os
corajosos que subiam a escada de mo, e apupavam os que iam s a meio caminho e
desciam amedrontados. Aclamaes e assobios, de mistura, enchiam os ares, at a
cena final, quando o Puga, subjugado, desceu ferido tambm. A Shakespeare cedeu
o passo a Lynch, outro trgico, sem igual gnio, mas com a mesma inconscincia
do gnio, cujo nico defeito  no ter feito mais que uma tragdia em sua vida.
A polcia interveio para se no representar outra pea, e, se salvou a vida ao
Puga, praticou um ato muito menos liberal, que foi restaurar a censura
dramtica.

Ao enterramento do soldado que
acabou a vida naquela luta, creio que acompanhou menos gente, os que pegaram no
caixo, e alguns amigos particulares, se  que os tinha. O cocheiro acompanhou
porque ia guiando os burros. Concluamos que o homem ama a luta e respeita a
morte; entusiasta diante do heri, fica naturalmente triste e solitrio diante
do cadver, e deixa-o ir para onde todos havemos de ir, mais tarde ou mais
cedo.

Resumindo, direi ainda mais uma
vez que a sorte  tudo, e no so os livros que tm os seus fados. Tambm os tm
os arcos e os pavilhes. Que digo? Tambm os tm as prprias palavras. H dias,
o Sr. General Roberto Ferreira, referindo-se a uma notcia, encabeou o seu
artigo com estas palavras: Consta no;  exato. E todos discutiram o
artigo, afirmando uns que constava, outros que era exato. A reflexo que tirei
da foi longa e profunda, no por causa da matria em si mesma, no  comigo,
mas por outra coisa que vou dizer, no tendo segredos para os meus
leitores.

Conheo desde muito o velho
Constar, era eu bem menino; lembra-me remotamente que foi um carioca,
Antnio de Morais Silva, que o apresentou em nossa casa. Velho, disse eu? Na
idade, era-o; mas na pessoa era um dos mais robustos homens que tenho visto.
Alto, forte, pulso grosso, espduas longas; dir-se-ia um Atlas. O moral
correspondia ao fsico. Era afirmativo, autoritrio, dogmtico. Quando referia
um caso, havia de crer-se por fora. As prprias histrias da carocha, que
contava para divertir-nos, deviam ser aceitas como fatos autnticos. O carioca
Morais, que tenho grande f nele, dizia que era assim mesmo, e ningum podia
descrer de um, que era arriscar-se a levar um peteleco de ambos.

Poucos anos depois, tornando a
v-lo, caiu-me a alma aos ps  a alma e o chapu, porque ia justamente
cumpriment-lo, quando lhe ouvi dizer com a voz trmula e abafada: Suponho...
ouvi que... dar-se- que seja?... Tudo  possvel. No me conhecia!
Respondi-lhe que era eu mesmo, em carne e osso, e indaguei da sade dele. Algum
tempo deixou vagar os olhos em derredor, cochilou do esquerdo, depois do
direito, e com um grande suspiro, redargiu que ouvira dizer que ia bem, mas no
podia afirm-lo; era matria incerta. Macacoas, disse-lhe eu rindo para
anim-lo. Tambm no, isto , creio que no, respondeu o homem. Dei-lhe o
brao, e convidei-o a ir tomar caf ou sorvete. Hesitou, mas acabou
aceitando.

Conversamos cerca de meia hora.
Deus de misericrdia! No era j o dogmtico de outro tempo, cujas afirmaes,
como espadas, cortavam toda discusso. Era um velho tonto, vago, dubitativo,
incerto do que via, do que ouvia, do que bebia. Tomou um sorvete, crendo que era
caf e achou o caf extremamente gelado. H sorvetes de caf, disse eu, para ver
se o traria  afirmao antiga; concordou que sim, embora pudesse ser que no.
Um ctico! um triste ctico!

Que  isto seno a sorte? A sorte,
e s ela, tirou ao velho Constar o gosto das idias definitivas e dos
fatos averiguados. A sorte, e s ela, decidir da eleio do dia 6 de janeiro.
Podem contar, somar e multiplicar os votos; a eleio h de ser o que ela
quiser. A pea est pronta. No nos espantemos do que virmos; preparemo-nos para
analisar as cenas, os lances, o dilogo, porque a pea est feita.

A sorte acaba de golpear-me
cruamente. Sempre cuidei que o meu silncio modesto e expressivo indicasse ao
Sr. Presidente da Repblica onde estava a pessoa mais apta (posso agora diz-lo
sem modstia) para o cargo de prefeito. S. Exa. no me viu. Outrageons
Fortune! Tu s a causa desta preterio. Sem ti, o prefeito era eu, e eu te
pagaria, sorte afrontosa, elevando-te um templo no mesmo lugar onde est o
pavilho das festas uruguaias.

1895

6
de janeiro

Se a pedra de Ssifo no andasse
j to gasta, era boa ocasio de dar com ela na cabea dos leitores, a propsito
do ano que comea. Mas tanto tem rolado esta pedra, que no vale um dos
paraleleppedos das nossas ruas. Melhor  dizer simplesmente que a chegou um
anuo, que veio render o outro, montando guarda s nossas esperanas,  espera
que venha rend-lo outro ano, o de 1896, depois o de 1897, em seguida o de 1898,
logo o de 1899, enfim o de 1900...

Que inveja que tenho ao cronista
que houver de saudar desta mesma coluna o sol do sculo XX! Que belas coisas que
ele h de dizer, erguendo-se na ponta dos ps, para crescer com o assunto, todo
auroras e folhas verdes! Naturalmente maldir o sculo XIX, com as suas guerras
e rebelies, pampeiros e terremotos, anarquia e despotismo, coisas que no trar
consigo o sculo XX, um sculo que se respeitar, que amar os homens,
dando-lhes a paz, antes de tudo, e a cincia, que  ofcio de
pacficos.

A doutrina microbiana, vencedora
na patologia, ser aplicada  poltica, e os povos curar-se-o das revolues e
maus governos, dando-se-lhes um mau governo atenuado e logo depois uma injeo
revolucionria. Tero assim uma pequena febre, suaro um tudo-nada de sangue e
no fim de trs dias estaro curados para sempre. Chamfort, no sculo XVIII,
deu-nos a clebre definio da sociedade, que se compe de duas classes, dizia
ele, uma que tem mais apetite que jantares, outra que tem mais jantares que
apetite.

Pois o sculo XX trar a
equivalncia dos jantares e dos apetites, em tal perfeio que a sociedade, para
fugir  monotonia e dar mais sabor  comida, adotar um sistema de jejuns
voluntrios. Depois da fome, o amor. O amor deixar de ser esta coisa corrupta e
supersticiosa; reduzido a funo pblica e obrigatria, ficar com todas as
vantagens, sem nenhum dos nus. O Estado alimentar as mulheres e educar os
filhos, oriundos daquela sineta dos jesutas do Paraguai, que o senador Zacarias
fez soar um dia no senado, com grave escndalo dos ancios colegas. Grave  um
modo de dizer, o escndalo  outro. No houve nada, a no ser o efeito explosivo
da citao, caindo da boca de homem no menos austero que eminente.

Mas no roubemos o cronista do ms
de janeiro de 1900. Ele, se lhe der na cabea, que diga alguma palavra dos seus
antecessores, boa ou m, que  tambm um modo de louvar ou descompor o sculo
extinto. Venhamos ao presente.

O presente  a chuva que cai menos
que em Petrpolis, onde parece que o dilvio arrasou tudo, ou quase tudo, se
devo crer nas notcias; mas eu creio em poucas coisas, leitor amigo. Creio em
ti, e ainda assim  por um dever de cortesia, no sabendo quem sejas, nem se
mereces algum crdito. Suponhamos que sim. Creio em teu av, uma vez que s seu
neto, e se j  morto; creio ainda mais nele que em ti. Vivam os mortos! Os
mortos no nos levam os relgios. Ao contrrio, deixam os relgios, e so os
vivos que os levam, se no h cuidado com eles. Morram os vivos!

Podeis concluir da a disposio
em que estou. Francamente, se esta chuva que vai refrescando o vero, fosse, no
digo um dilvio universal, mas uma calamidade semelhante  de Petrpolis, eu
aplaudiria dalma, contanto que me ficasse o gosto poeta, e pudesse ver da minha
janela naufrgio dos outros.

Hoje h aqui, na capital da Unio
grandes naufrgios e alguns salvamentos: Falo por metfora, aludo s eleies.
Recompe-se a intendncia, e os primeiros naufrgios esto j decretados, so os
intendentes antigos. Com todo o respeito devido  lei, no entendi bem a razo
que determinou a incompatibilidade dos intendentes que acabaram. S se foi
poltica, matria estranha s minhas cogitaes; mas indo s, pelo juzo
ordinrio, no alcano a incompatibilidade dos antigos intendentes. Se eram
bons, e fossem eleitos, continuvamos a gozar das douras de uma boa legislatura
municipal. Se no prestavam para nada, no seriam reeleitos; mas supondo que o
fossem, quem pode impedir que o povo queira ser mal governado?  um direito
anterior e superior a todas as leis. Assim se perde a liberdade. Hoje impedem-me
de meter um pulha na intendncia, amanh probem-me andar com o meu colete de
ramagens, depois de amanh decreta-se o figurino municipal.

Entretanto (vede as
inconseqncias de um esprito reto!) entretanto, foi bom que se
incompatibilizassem os intendentes; no incompatibilizados, eram quase certo que
seriam eleitos, um por um, ou todos ao mesmo tempo, e eu no teria o gosto de
ver na intendncia dois amigos particulares, um amigo velho, e um amigo moo, um
pelo 2 distrito, outro pelo 3, e no digo mais para no parecer que os
recomendo. So do primeiro turno.

Mas deixemos a poltica e
voltemo-nos para o acontecimento literrio da semana, que foi a Revista
Brasileira.  a terceira que com este ttulo se inicia. O primeiro nmero
agradou a toda gente que ama este gnero de publicaes, e a aptido especial do
Sr. J. Verssimo, diretor da Revista,  boa garantia dos que se lhe seguirem.
Citando os nomes de Araripe Jnior, Affonso Arinos, Slvio Romero, Medeiros e
Albuquerque, Said Ali e Parlagreco, que assinam os trabalhos deste nmero, terei
dito quanto baste para avali-lo. Oxal que o meio corresponda  obra.
Franceses, ingleses e alemes apiam as suas publicaes desta ordem, e, se
quisermos ficar na Amrica,  suficiente saber que, no hoje, mas h meio
sculo, em 1840, uma revista para a qual entrou Poe, tinha apenas cinco mil
assinantes, os quais subiram a cinqenta e cinco mil, ao fim de dois anos. No
paguem o talento, se querem; mas dem os cinco mil assinantes  Revista
Brasileira.  ainda um dos melhores modos de imitar New York.

13 de janeiro

Foi a semana dos cadveres; mas,
por mais que eles aparecessem e me entrassem pelos olhos, custou-me desviar a
vista deste telegrama de Viena: Embaixadores japoneses procuram uma princesa
europia para casar com o prncipe herdeiro, e, se no acharem, procuraro
uma americana opulenta.

Pelo que vai grifado, deveis
perceber que o que mais me atrai nesse telegrama, no  a arte oportuna do
Japo, que pede uma princesa europia no momento em que afirma o seu poder
poltico e militar. As famlias rgias no podem estranhar o pedido; tendo
adotado instituies europias,  natural que o Japo queira complet-las por
meio de uma princesa, instituio viva. Eleies, ministrio, parlamento, moes
de confiana, oramento e impostos votados, todo esse aparelho de civilizao e
de liberdade funciona perfeitamente em Tkio; por que no h de funcionar uma
princesa?  Racionalmente, no h negativa que valha.

 possvel, porm, que as
princesas europias no aceitem a proposta e dem pretextos em vez de razes.
Tkio  to longe! A lngua  to difcil! e to complicada! Tudo isso previa a
chancelaria japonesa; se nenhuma princesa europia quiser o trono que se lhe
oferece, recorrer s grandes herdeiras americanas.  isto que me prende os
olhos. Sim, eu creio que os embaixadores japoneses no tornam com o tlamo
vazio. H herdeira americana destinada a ser imperatriz do
sol-nascente.

Que destino que  o das herdeiras
norte-americanas! Muitas delas penetraram e penetram nas mais cerradas
aristocracias europias. H duquesas, cujos pais no foram nada, antes de
milionrios deste lado do Atlntico. Brases velhos e dollars novos fazem
boa companhia. Na batalha da vida, como na de Ricardo III, o grito  o mesmo:
Um cavalo! um cavalo! meu reino por um cavalo! Um milho! um milho! meu nome
por um milho! Um castelo! um castelo! meu milho por um castelo! Tal  a
universalidade de Shakespeare. Demais, (no sou mulher, no posso sentir bem o
que digo) creio que h de haver certo gosto particular em dar  luz um duque.
Que no ser em dar  luz um imperador?

Se algum fabricante de papel de
Pensilvnia tem de ser av do futuro mikado, este sculo acaba como principiou,
e o pai de Bernadotte acha um emulo no industrial americano. Este, pensando em
dar nova forma aos trapos velhos, fundar uma dinastia. Do papel que houver
fabricado,  provvel que muitas folhas hajam servido para escrever belas
pginas; mas a melhor delas, a magnfica, ser esse poema, conto ou ode, que
fizer de uma simples herdeira a imperatriz futura. O resto  com os cronistas
japoneses. No faltar algum que o d por um grande rei, to amigo das letras e
protetor de livros, que os seus sditos lhe puseram o cognome de fabricante
de papel. A histria  muitas vezes isso: um trocadilho.

Assim explicada a atrao do
telegrama, no tenho dvida em fitar os cadveres da semana, que foi uma semana
de cadveres, como ficou dito. Outro trocadilho. Muitos foram os que viemos
recolhendo, de domingo para c ou diretamente do mar, ou das praias a que ele os
arrojou. Alguns foram barra fora, como se achassem curto o trajeto entre a vida
e a morte. Ainda podem aparecer outros, a morte  fecunda.

Muita gente citou agora, por
ocasio da Terceira, o desastre da Especuladora, h meio sculo. H quem
se lembre que o mundo existia h cinqenta anos, e que as mquinas no so mais
novas. Algum dia, se o mundo ainda durar meio sculo, e houver outra exploso
nas barcas de Niteri,  provvel que algum se lembre da catstrofe da
Terceira, e at as notcias e artigos de hoje. Estilo, meus senhores,
deitem estilo nas descries e comentrios; os jornalistas de 1944 podero muito
bem transcrevei-os, e no  bonito aparecer despenteado aos olhos do futuro.
Como se chamar a barca desse tempo? A est um objeto de apostas, agora que
frontes e book-makers tiveram alguns dias de frias.

Uma das coisas que me doeram na
catstrofe da Terceira foi a injustia feita aos passageiros da
Quinta. Todos,  uma, condenaram esses homens que, segundo se disse,
ameaaram o mestre da barca com revlveres, palavras e punhos, se ele fosse em
socorro dos passageiros da Terceira. Taxou-se este procedimento de
desumano, de feras, de inqualificvel, e o que vale aos pobres homens da
Quinta,  no se haver nomeado ningum. Um deles  que se nomeou no
inqurito. Aos outros fica o recurso de dizer que no vinham na
Quinta.

J se lhes deixou uma pequena
aberta, dizendo que no foram todos que ameaaram o mestre, mas certo nmero
deles. A unanimidade desumana pode ficar assim reduzida a uma piedosa maioria,
que no teve meio de reagir contra meia dzia de perversos.

Ningum defendeu essas vtimas,
no menos lastimosas que as outras, e mais interessantes, pois esto vivas, e as
outras morreram. Cavemos fundo no assunto. No consta que houvesse entre os
passageiros das duas barcas a menor sombra de inimizade pessoal. O que se disse,
 e raras vezes a imprensa se ver assim to concorde,   que os passageiros da
Quinta, por medo de alguma exploso, deixaram morrer os da
Terceira. No houve propsito, mas um arrebatamento geral, e no contra a
Terceira, mas em favor da Quinta. Compreendeis a diferena? 
mister distinguir os motivos. Se o ato da Quinta fosse aproveitar o
desastre da Terceira para deixar morrer a gente que l vinha, no havia
nos dicionrios nem nas brigas de carroceiros vocbulo assaz duro para condenar
semelhante ato de covardia.

Tratando-se, porm, de salvar os
passageiros da Quinta, a que cederam, eles, seno a um sentimento de
conservao, mais forte neles que o da caridade, mas no menos legtimo?
Serva te ipsum. A blague francesa disse que o conde Ugolino comeu
os filhos para conservar-lhes um pai. Os passageiros da Quinta, sem
chegar a esse extremo de voracidade, conservaram s vtimas alguns cidados
sobreviventes, com tanto maior mrito que nenhum lao de sangue os prendia aos
outros.

H anos, deu-se um naufrgio no
Rio da Prata. No me lembra o nome nem a nao do navio; ficou-me de memria um
episdio. Vinham a bordo um noivo e uma noiva, ambos na flor da idade, e a gua
ia ser para eles, a um tempo, o tlamo e o tmulo. Os poetas, que estavam em
terra almoando, perderam essa bela idia, porque os noivos no morreram. Um
velho conseguira agarrar-se a uma tbua ou o que quer que era, que o arrancava 
morte certa. Os dois noivos estavam prestes a perder-se. Ento o velho, vendo a
aflitiva situao de ambos, lembrou-se de lhes dar a tbua ou cinta de salvao,
dizendo-lhes com doura: Vocs esto moos, devem viver. E, ficando sem algum
socorro, mergulhou na gua e sucumbiu. Os noivos, escapando com vida, referiram
o caso em terra, onde o entusiasmo foi enorme. Os dirios escreveram brilhantes
artigos em homenagem ao velho. A opinio moveu-se; surgiu a idia de perpetuar
em bronze a memria de to nobre ao, mas no foi adiante.

Certamente a ao foi sublime; mas
nem todas as aes podem ser sublimes. Nem todas so simplesmente belas, como a
daqueles que salvaram alguns passageiros da Terceira, sem os conhecer,
por impulso de humanidade. Belas foram e virtuosas; mas a beleza e a virtude no
so as notas surradas de papel-moeda, que andam em todas as algibeiras. So as
moedas de ouro que os cambistas da rua Primeiro de Maro expem nas vitrinas,
que pelo atual cmbio custam caro. Nem h s pessoas que salvaram vidas. H
outras que do dinheiro para os rfos e vivas, e outras que se oferecem para
educar as crianas cujos pais pereceram na catstrofe da Terceira. Nem
tudo  o tombadilho da Quinta.

20 de janeiro

A semana ia andando, meia
interessante, com os seus book-makers, frontes e outras liberdades, e
mais a lei municipal, que as regulou, segundo uns, e, segundo outros, as
suprimiu. No examino qual dos verbos cabe ao caso; mas, relativamente aos
substantivos regulados ou suprimidos, guio-me pela significao direta. Por isso
indignei-me, quando vi o ato do prefeito e da policia. Pois que! exclamei;
pases como a Rssia tm ou tiveram censura literria, mas nunca se lembraram de
regular ou suprimir escritores e arquitetos; por que  que, no regime
democrtico, a autoridade me impede de pr um fronto na minha casa, ou fazer um
livro, se no tiver mais que fazer?

Um senhor que ia a meu lado (era
no bond, e eu penso alto nos bonds) fez-me o favor de dizer que
era engano meu, que os book-makers, apesar do nome nunca escreveram
livros e que h entre uma casa e outra mais frontes do que sonha minha v
filologia. Perguntei-lhe se falava serio ou brincando; respondeu-me que srio, e
deu-me em penhor o seu carto. No digo o nome porque este senhor quer conservar
o incgnito; nem posso afirmar se cheguei a l-lo, tais eram os ttulos
cientficos, honorrios e outros que o precediam.

Agradeci-lhe a explicao; ele
retrucou afavelmente que esta vida  uma troca de favores, e bem podia ser que
eu lhe explicasse algum dia por que  que as colunas telefnicas, derrubadas na
praia da Glria, h trs meses, em um conflito de eletricidade, continuam
deitadas no cho. Disse-lhe que ia estudar essa problema, no momentoso, e
recordei-lhe que as montanhas russas duraram muito mais tempo, na rua da mesma
Glria, e que a ponte que entra pelo mar da mesma Glria, se a mar a no levar
no sculo entrante, no a levaro os homens.

 As foras cegas da natureza so
mais poderosas que as foras humanas, disse ele axiomaticamente.

Gostei da resposta. Eu aprecio
muito os axiomas, mormente se a pessoa que os emite traz j um ar axiomtico.
Satisfeito com a explicao do que era book-maker e fronto, no sentido
legislativo e municipal, entendi que se tratava de vedar ou regular uma
liberdade ou duas, e que toda a questo versava sobre o verbo aplicvel ao ato.
Assim posta a questo, reduzida unicamente  aplicao do verbo, estamos como no
conclio de Nicia, e o smbolo que sair daqui ser no menos respeitvel que o
outro, mal comparando. Qual  o verbo, na minha opinio? Leitor, eu entendo que
o homem tem duas pernas para ir por dois caminhos. O verbo, a meu ver, depende
do sujeito. Se o sujeito  sapiente, o verbo  rir. Ride, si sapis. Se 
melanclico, o verbo  chorar. Sunt lacrymae rerum.  a nica soluo
razovel, porque atende ao temperamento de cada um.

Quanto ao paciente da orao,
leitor e discpulo amigo, a minha perna direita afirma que  o que sai perdendo;
mas a esquerda, que tambm estuda sintaxe, diz que  o que sai ganhando. Eu,
como ambas as pernas so minhas, hesito na soluo. Se a civilizao ainda
estivesse em outra idade, eu responderia de um modo evasivo. Mas j no h
fronteiras. O ltimo que vi foi em cena, o Fronteiro d' frica, escrito no sei
por quem (tenho idia vaga de que era um Abrantes), o qual arrancava palmas no
teatro de S. Pedro de Alcntara. Tempos dos mouros. Muita cutilada, muito viva,
muita fidelidade portuguesa, tudo por dois mil ris, cadeira. Onde vo esses
dias? Tornemos  semana.

A semana ia andando, como disse,
cai aqui, cai acol, e teria chegado ao fim, sem grandes assombros nem lances
inesperados, se no fosse o trovo de Frana. Quando menos cuidvamos, resignou
o presidente, um presidente que havia sido achado para no resignar nunca. Dizem
que foi ato de fraqueza. A mensagem dele confessa que lhe faltava apoio.
Qualquer que seja a causa, ou sejam ambas,  matria poltica, e naturalmente
estranha s minhas cogitaes. Venhamos  esttica.

Pelo lado esttico  que o ato de
Casimiro Prier me pareceu. medocre. Diz um telegrama, que a me do
ex-presidente ops-se  renncia. A recente morte do ltimo rei de Npoles,
trouxe  memria o herosmo da jovem princesa, sua mulher, em Gaeta que encheu o
mundo inteiro de admirao. Os dois fatos provam que a repblica, como a
monarquia, pode achar no governo mais do que a graa e a distino de uma
senhora. Por que se no h de abolir a lei slica nas repblicas? Se a mulher
pode ser eleitora, por que no poderemos elevai-a  presidncia? O nascimento d
uma Catarina da Rssia ou uma Isabel de Inglaterra, por que no h de o sufrgio
da nao escolher uma dama robusta capaz de governo? Onde h melhor regime que
entre as abelhas? O mais que pode suceder, em um povo de namorados como o nosso,
 dispersarem-se os votos, pela prova de afeio que muitos eleitores querero
dar s amigas da sua alma; mas com poucos votos se governa muito bem.

Talvez estejamos a julgar mal, c
de longe. Pode ser que a impopularidade do ex-presidente comeasse a separar
dele os homens pblicos, e, para se no achar amanh s, ele preferiu sair hoje
mesmo. Isto, dado que realmente fosse impopular. Donde viria a impopularidade de
Prier? Do nome? Da pessoa? Dos colarinhos? Realmente, os colarinhos,  maruja,
em qualquer tempo no eram graves; vindos depois dos de Carnot, eram
inadmissveis. Um chefe de Estado, rigorosamente falando, no pode ter a
liberdade dos colarinhos. Nesse ponto o novo presidente  mais correto. Os
retratos que vi dele trazem o colarinho teso e alto. Assim que, alm das suas
qualidades polticas e morais, Flix Faure possui mais a de saber concordar o
pescoo com o poder.

27 de janeiro

Se h ainda boas fadas por esse
mundo, com certeza estaro agora junto ao bero do partido parlamentar, que vai
nascer ou nasceu esta semana. O bero h de ser enorme, muito maior que o tmulo
que Heine queria para o seu amor. E elas predir-lhe-o grande futuro, brilhante
e talvez prximo. No vs contar a proximidade como  uso daqueles que pensam
que o mundo acaba sexta-feira ou sbado; falo de uma proximidade relativa. No
sou procurador de fadas, mas juro que h de ser, assim; se for o contrrio,
faamos de conta que no jurei nada.

Aparentemente, a ocasio no 
prpria  criao de um partido parlamentar, agora que os presidentes esto
abdicando por no poderem formar ministrios. Mas  s aparentemente. Indo ao
fundo das coisas, veremos que o caso do presidente argentino (alis no
aplicvel) pode explicar-se com os suicdios de imitao, o do presidente
francs ter tido causas diversas. Ainda quando os dois fenmenos procedam da
mesma causa nica, resta provar que isto tem alguma coisa com o parlamentarismo.
E quando provado, ainda h que provar que um sistema acarreta consigo as mesmas
conseqncias, qualquer que seja o meio em que respire. A prpria diversidade
daquelas duas repblicas mostra que tenho razo.

Relevem-me que lhes fale assim
grosso, fora das minhas frouxas melodias de menino, porque eu sou menino, leitor
da minha alma; assim me chama um velho amigo, olho claro, cabea firme, sobre a
qual, s por esta exata noo que ele tem dos tempos e das pessoas, edificarei a
minha igreja. Apesar disso, tenho uns dias, umas horas, em que dou para subir a
montanha e doutrinar os homens. A natureza, que no faz saltos, me repe no
caminho direito, que  na plancie.

Mas, enfim, para acabar com isto,
uma vez que comecei por a, direi que o partido parlamentar est com visos de
querer viver. Cabe aos presidencialistas, lutar bastante para no correrem o
risco de verem o princpio contrrio infiltrar-se nas instituies. O Sr.
Saraiva, que nunca foi inventor de governos, props na Constituinte uma emenda
que ningum quis, e realmente no trazia boa cara. Refiro-me  emenda que
reduzia a dois anos o prazo da presidncia da Repblica.  primeira vista era um
presidencialismo vertiginoso; mas, bem considerado, era um parlamentarismo
automtico. Os dois anos no eram s da presidncia, mas virtualmente eram
tambm do ministrio. No se pode dizer que tal prazo fosse excessivamente
curto, mas estava longe de ser uma eternidade; era meia eternidade. Se tivesse
sido deputado, o Sr. Cezar Zama, dado aos seus estudos romanos, viria propor ao
congresso uma emenda constitucional que reduzisse a presidncia ao consulado, e
os dois anos a um. Os ministrios teriam assim um anuo apenas. Era o
parlamentarismo hiper-automtico.

No me digas que confundo alhos
com bugalhos, ignorando que parlamentarismo quer dizer governo de parlamento, 
coisa que nada tem com prazos curtos nem compridos. Eu sei o que digo, leitor;
tu  que no sabes o que ls. Desculpa, se falo assim a um amigo, mas no  com
estranhos que se h de ter tal ou qual liberdade de expresso,  com amigos, ou
no h estima nem confiana.

Para no ouvir novo dichote,
calo-me em relao a outro partido, que tambm nasceu esta semana, e j publicou
manifesto.  do primeiro distrito da capital. No pede parlamentarismo, embora
admita alguma reforma constitucional, quando houvermos entrado no regime
metlico e outros. Tem por fim organizar a opinio pblica. O fim  til e o
estilo no  mau, salvo alguns modos de dizer, alis bonitos, mas que esta pobre
alma cansada e sptica j mal suporta. Tal qual o estmago, que no mais aceita
certos manjares. Como Epicuro pe a alma no estmago, vem da essa coincidncia
de fastio. A terra da promisso, por exemplo, j no  comigo. Citei-a muita
vez, chamando-lhe, no segundo caso, pelo nome de Cana, por causa das belas
rimas (manh, lou, etc.) mas tudo isso foi-se com os ventos.

Prosa ou verso, no quero j saber
de Cana, a no ser que me levem at l os pretores encarregados de apurar as
eleies municipais. Mas quando? O fim da apurao, se eu a vir algum dia, h de
ser como Moiss viu a terra da promisso, de longe e do alto,  digamos por um
culo, pois que o culo est inventado. S Josu a pisar, mas Josu ainda no
nasceu. Bem sei que os pretores, em vez de fazer trabalho a olho, esgaravatam
todas as atas, e, o que  mais, todos os artigos de lei. Sendo assim severos,
que ser da virtude e da verdade,  da verdade eleitoral, ao menos? Que importa
que em uma seo de distrito haja mais cdulas que eleitores? Outra ter mais
eleitores que cdulas, e tudo se compensa. Adeus, o calor  muito.

3
de fevereiro

Andam listas de assinaturas para
uma petio ao Congresso Nacional. H j cerca de duzentas assinaturas, e
espera-se que daqui at maio passaro de mil. Com o que se conta obter dos
Estados, chegar-se- a um total de cinco ou seis mil.

No  demais para reformar a
Constituio. Com efeito, trata-se de reform-la, embora os inventores da idia
declarem que no  propriamente reforma, mas acrscimo de um artigo. Este
sofisma  transparente. No se emenda nenhum dos artigos constitucionais, mas a
matria do artigo aditivo  tal que altera o direito de representao,
estabelecendo um caso de hereditariedade, contrrio ao principio
democrtico.

No li a petio, mas algum que a
leu afirma que o que se requer ao congresso  nada menos que isto: Quando
acontecer que um deputado, senador ou intendente municipal, deixe de tomar
assento ou por morte, ou porque a apurao das atas eleitorais seja to demorada
que primeiro se esgote o prazo do mandato, o diploma do intendente, do deputado
ou do senador passar ao legtimo herdeiro do eleito, na linha direta. Quis-se
estender ao genro o direito ao diploma, visto que a filha no pode ocupar nenhum
daqueles cargos; mas, tal idia, foi rejeitada por grande maioria. Tambm se
examinou se o eleito, em caso de doena mortal, sobrevinda seis meses depois de
comeada a apurao dos votos, e na falta de herdeiro direto, podia legar o
diploma por testamento. Os que defendiam essa outra idia, e eram poucos,
fundavam-se em que o mandato  uma propriedade temporria de natureza poltica,
dada pela soberania nacional, para utilidade pblica, se era transmissvel por
efeito do sangue, igualmente o podia ser por efeito da vontade.

Negou-se esta concluso, e a
petio limita-se ao exposto.

O exposto  incompreensvel.
Entendo o caso de morte; mas, como se h de entender o de demora na apurao dos
votos Se a petio desse, para essa segunda hiptese, um tero do prazo do
mandato ou um limite fixo, digamos um ano, isto , se determinasse que, no caso
em que a apurao eleitoral durasse um ano, o intendente, deputado ou senador
poderia transmitir ao seu herdeiro varo o mandato recebido nas urnas,
entendia-se a medida. Mas estabelec-la para quando a apurao v alm do prazo
do mandato,  absurdo. Que  ento que o eleito transmite se o mandato acabou?
No desconheo que a apurao pode ultrapassar o prazo do mandato, mas para esse
caso a medida h de ser outra.

Outra objeo. Suponhamos que a
apurao das ltimas eleies municipais, j adiantada, acabe dentro de trs
meses. Pode um intendente eleito transmitir o mandato, no fim de to curto
prazo? Parece que devia haver um limite mnimo e outro mximo, seis meses e um
ano. No faltam objees  reforma que se vai pedir ao Congresso. Uma das mais
srias  a que respeita s opinies polticas. Pode haver transmisso de diploma
no caso em que o filho do eleito professa opinies diversas ou contrarias s do
pai? Evidentemente no, porque os eleitores, votando no pai, votaram em certa
ordem de idias, que no podem ser excludas da representao, sem audincia
deles.  verossmil que alguns filhos mudem de idias, ajustando as suas ao
diploma, desde que no podem ajustar o diploma s suas; Lambem se pode dizer,
com bons fundamentos, que um diploma  em si mesmo um mundo de idias. Conheci
um homem que no possua nenhuma antes de diplomado; uma vez diplomado, no s
as tinha para dar, como para as vender. Talvez o leitor conhecesse outro homem
assim. O que no falta neste mundo so homens.

Esperemos o resultado. No creio
que tal reforma passe; ela  contraria, no s aos princpios democrticos, mas
 boa razo. O que louvo na petio que est sendo assinada  o uso desse
direito por parte do povo para requerer o que lhe parece necessrio ao bem
pblico. S condeno a circulao clandestina. Que h que esconder no uso da
petio? Que mania  essa de tratar um direito como se fora um crime?

Afinal, talvez fosse melhor trocar
o modo eleitoral, substituindo o voto pela sorte. A sorte  fcil e expedita;
escrevem-se os nomes dos candidatos, metem-se as cdulas dentro de um chapu, e
o nome escrito na cdula que sair  o eleito. Com este processo, fica reduzida a
apurao a quinze dias, mais ou menos. No  menos democrtico. Cidades, antigas
o tiveram, de parceria com o outro, e Aristteles faz a tal respeito excelentes
reflexes no captulo dos chapus. Que seja sujeito  fraude, acredito; mas tudo
corre o mesmo perigo. Um amigo meu, tendo de deixar o lugar que exercia em um
conselho de cinco, assistia  cerimnia das cdulas e do chapu. Saa o seu nome
e saa ele. De noite, quando dormia, apareceu-lhe um anjo, que lhe falou por
estas palavras: Procpio, todas as cdulas tinham o teu nome, porque nenhum dos
outros queria sair; para outra vez l as cdulas, antes que as enrolem e te
enrolem.

Disse que bastava isto; resta-me
agora, j que estamos no captulo das peties, propor uma aos altos poderes do
cu. H mostras evidentes de nojo de Deus para com os homens; tal  a explicao
dos desastres contnuos, das tempestades de neve na Europa, das de gua, ventos
e raios nesta cidade, quarta-feira ltima, da manga d'gua no Amparo, de tantos
outros temporais, males diversos, grandes e acumulados.

As criaturas humanas vo imitando
os desconcertos da natureza. Na Espanha, o general Fuentes pespega um sopapo no
embaixador marroquino, diz um telegrama. Outro refere que na ustria a
embaixatriz japonesa acaba de converter-se ao catolicismo... Deus meu, no h
loucura em ser catlico; mas as embaixatrizes no nos tinham acostumado a esses
atos de divergncia com os embaixadores, seus maridos. Assim, s por uma sublime
loucura se explicar esta converso, que o marido chamar apostasia. Tambm pode
ser que a converso no passe de um ardil diplomtico do embaixador, para ser
agradvel ao governo de Sua Majestade Catlica. Se estivesse na Turquia, talvez
a esposa se fizesse muulmana. Quando fores a Roma, ser romano, diz o
adgio.

Oh! sculos idos em que S.
Francisco Xavier andou por aquelas partes do Japo, China e ndia, a recolher
almas dentro da rede crist! Hoje so elas mesmas que vo buscar o pescador
catlico.  verdade que o papa acaba de condecorar um raj, sectrio de Buda;
mas  tambm verdade que este raj auxilia do seu bolsinho a fundao de
conventos cristos. Vento de conciliao e de eqidade, tempera estes nossos
ares controversos e turvos.

10 de fevereiro

As pessoas que foram crianas, no
esqueceram de certo a velha questo que se lhes propunha, sobre qual nasceu
primeiro, se o ovo, se a galinha. Eu, cuja astcia era ento igual, pelo menos,
 de Ulysses, achava uma soluo ao problema, dizendo que quem primeiro nasceu
foi o galo. Replicavam-me que no era isto, que a questo era outra, e repetiam
os termos dela, muito explicados. Debalde citava eu o caso de Ado, nascido
antes de Eva e de Caim; fechavam a cara e tornavam ao ovo e 
galinha.

Esta semana lembrei-me do velho
problema insolvel. Com os olhos,  no nos camarotes da quarta ordem, ao fundo,
e o p na casinha do ponto, como o Rossi,  mas pensativamente postos no cho,
repeti o monlogo de Hamlet, perguntando a mim mesmo o que  que nasceu
primeiro, se a baixa do cmbio, se o boato. Se ainda tivesse a antiga astcia,
diria que primeiro nasceram os bancos. Onde vai, porm, a minha astcia? Perdi-a
com a infncia. A inocncia em mim foi uma evoluo, apareceu com a puberdade,
cresceu com a juventude, vai subindo com estes anos maduros, a tal ponto que
espero acabar com a alma virgem das crianas que mamam.

No citei os bancos e continuei a
recitar o monlogo. O enigma no queria sair do caminho. Quem nasceu primeiro?
No podia ser a baixa do cmbio. Esta semana, quando ele entrou a baixar,
disseram-me que era por efeito de um boato sinistro; logo, quem primeiro nasceu
foi o boato. Mas tambm me referiram que depois da baixa  que o boato nasceu;
logo, a baixa  anterior. Os primeiros raciocinam alegando a sensibilidade
nervosa do cmbio, que mal ouve alguma palavra menos segura, fica logo a tremer,
enfraquecem-lhe as pernas, e ele cai. Ao contrrio, redargem os outros, 
quando ele cai que o boato aparece, como se a queda fosse, mal comparando, a
prpria dor do parto. O diabo que os entenda, disse comigo; mas o problema
continuava insolvel, com os seus grandes olhos fulvos espetados em
mim.

Nisto ouo uma terceira opinio,
aqui mesmo, na Gazeta, uma pessoa que no conheo, e que em artigo de
quinta-feira opinou de modo parecido com a minha soluo do galo. Quem primeiro
nasceu foi o papel-moeda; esse peso morto  a causa da baixa, e uma vez que se
elimine a causa, eliminado fica o efeito. O remdio  reduzir o papel-moeda,
mandando vir ouro de fora, e, como no seja possvel mandai-o vir a ttulo de
emprstimo,  chegada a oportunidade de vender a estrada de ferro Central do
Brasil.

A queda que este final do perodo
me fez dar, foi maior que a do cmbio; fiquei a 8 15/16. Se o perodo conclusse
pela venda das Pirmides, da ponte de Londres ou da Transfigurao, no
me assombraria mais. Esperava cmbio, papel-moeda, ouro, depois mais ouro, mais
papel-moeda e mais cmbio, mas estava to pouco preparado para a Central do
Brasil, que nem tinha arrumado as malas. Entretanto, o artigo no ficou a;
depois da venda da Central, lembra o resgate da estrada de Santos a Jundia, em
1897, venda subseqente, e mais ouro. Em seguida, comeam os milhes de libras
esterlinas e os milhares de contos de ris, crescendo e multiplicando-se, com
tal fecundidade e cintilao, que me trouxeram  memria os grandes discursos de
Thiers, quando ele despejava na cmara dos deputados, do alto da tribuna, todos
os milhes e bilhes do oramento francs e da aritmtica humana. O cmbio, pelo
artigo, no tem outro remdio seno subir a 20 e a 24; no logo, logo, mas
devagar, para o fim de no produzir crises. Acaba-se a baixa, e resolve-se o
problema.

O conhecimento que tenho de que a
economia poltica no  a particular, impede-me dizer que tambm eu recebo, no
milhes, mas milhares de ris, e, se no h deselegncia em comparar o brao
humano ao trilho de uma estrada de ferro, e a cabea a uma locomotiva, do-me
esse dinheiro pela minha Central; mas to depressa me do, como me levam tudo,
visto que o homem no vive s da palavra de Deus, mas tambm de po, e o po
est caro. A economia poltica, porm,  outra coisa; ouro entrado, ouro
guardado. Por saber disto  que no me cito; alm de que, no  bonito que um
autor se cite a si mesmo.

H s uma sombra no quadro
cintilante do cmbio alto pelo ouro entrado.  que o Congresso Nacional
resolveu, por disposio de 1892, examinar um dia se h de ou no alienar as
estradas federais, todas ou algumas, ou se as h de arrendar somente, ou
continuar a trafeg-las; e, porque no se possa fazer isso sem estudo, ordenou
primeiro um inqurito, que o governo est fazendo, segundo li nas folhas
publicas, h algumas semanas. A disposio legal de que trato, arreda um pouco a
data dos deslumbramentos cambiais, e pode ser at que quando a Unio tiver
resolvido transferir ao particular alguma estrada, j o cmbio esteja to alto,
que mal se lhe possa chegar, trepado numa cadeira. No digo trepado num banco,
para no parecer que fao trocadilho,  cette fiente de l'esprit, qui
vole,  como se dizia em no sei que comdia do Alcazar.

Ao demais, o Congresso no tinha
em vista o cmbio, e menos ainda o desta semana. E, francamente,  sem tornar ao
problema da anterioridade do cmbio ou do boato,  quem  que pode com o
primeiro destes dois amigos? Contaram-me que na quinta-feira, tendo a Alfndega
suspendido o servio e fechado as portas, em regozijo da soluo das Misses,
lembrou-se um inventivo de dizer que a causa da suspenso e do fechamento era a
revoluo que ia sair  rua. O cmbio esfriou, como se estivesse na Noruega, e
caiu.

E em que dia, Deus de paz e de
conciliao! No prprio dia em que uma sentena final e sem apelao punha termo
 nossa velha querela diplomtica. Quando nos alegrvamos com a vitria, e
repetamos o nome do homem eminente, Rio Branco, filho de Rio Branco, a cuja
sabedoria, capacidade e patriotismo confiramos a nossa causa,  que o cmbio
desmaia ao primeiro dito absurdo. No; no creio na anedota; a prova  que a
Alfndega j reabriu as portas, e o cmbio continua baixo. Por S. Crispim e S.
Crispiniano, metam-lhe uns taces debaixo dos ps!

17 de fevereiro

Se a rainha das ilhas Sandwich
tivesse procedido como acaba de proceder o rei de Sio, talvez no se achasse,
como agora, despojada do trono e condenada  morte, segundo os ltimos
despachos.

O rei de Sio, prncipe que acode
ao doce nome de Chulalongkorn, teve uma idia, no direi genial, antes banal, e
 sobremodo espantosa para mim, que supunha esse potentado superior s
aspiraes liberais do nosso tempo. O rei decretou uma assemblia legislativa.
No houve revoluo,  claro; tambm no houve tentativa de revoluo,
conspirao,. petio, qualquer causa que mostrasse da parte do povo o desejo de
emparelhar com o Japo no parlamentarismo. Foi tudo obra do rei (com licena)
Chulalongkorn.

Tudo faz crer que a idia do
soberano foi antes criar um enfeite para a coroa, que propriamente servir 
liberdade.  sabido que o homem selvagem comea pelo adorno, e no pelo vestido,
ao contrrio do civilizado, que primeiro se veste, e s depois de vestido, caso
lhe sobre algum dinheiro, busca a ornamentao. Liberalmente falando, os
siameses estavam nus; o rei quis pr-lhes um penacho encarnado.

Se no foi isso, se o rei est
verdadeiramente atacado de liberalismo ou libralit, conforme lhe seja
mais aplicvel, convm notar que a doena no  mortal. O decreto, que estatui a
assemblia legislativa, tem uma fina clusula,  a de acabar com ela logo que
lhe d na veneta. Francamente, assim  que deviam ser todas as assemblias deste
mundo. O receio de morrer obrig-las-ia a beber a droga do boticrio,  ou, em
estilo nobre, a receber as algemas do poder.. H uma assemblia neste mundo (e
haver outras) que pede muita vez a prpria dissoluo:  a cmara dos comuns.
Mas dissoluo no  revogao;  a volta dos que forem mais hbeis ou mais
fortes. O terror da morte  salutar. Desde que uma assemblia saiba que pde
morrer de morte natural para sempre, como sucedia aos enforcados
judicialmente,  de crer que se faa mansa, corts, solicita, e no encete
debate sem perguntar ao seu criador quais so as idias do anuo, e para onde ho
de convergir os votos.

Alm dessa clusula, que evita os
descaminhos, o rei de Sio comps a assemblia de poucos membros, os ministros e
doze fidalgos.  pouco; mas a experincia tem mostrado que as assemblias
numerosas so antes prejudiciais que teis. No haver campainha para chamar 
ordem, nem os insuportveis tmpanos da nova cmara dos deputados. Tambm no
haver contnuos para levar os papeis ao presidente. Uma mesa e algumas cadeiras
em volta bastaro. Os negcios podem ir de par com o almoo, e a jovem
assemblia siamesa votar o oramento do futuro exerccio bebendo as ltimas
garrafas do exerccio atual  sade do rei e das novas instituies.

Mui sagaz ser quem nos disser o
anuo em que desse embrio legislativo sair o parlamentarismo. Entretanto, j
no  difcil prever o tempo em que teremos o nosso parlamentarismo. No dou
cinco anos; mas suponhamos oito. Os que o fizerem, devem excluir a dissoluo,
conquanto digam alguns que  condio indispensvel desse sistema de governo.
No h nada indispensvel no mundo. Copiar o parlamentarismo ingls ser repetir
a ao de outros Estados; faamos um parlamentarismo nosso, local, particular.
Sem o direito de dissolver a cmara, o poder executivo ter de concordar com os
ministros, ficando unicamente  cmara o direito de discordar deles e de os
despedir, entre maio e outubro. Tenho ouvido chamar isto vlvula. Tambm se pode
completar a obra reduzindo o presidente da Repblica s funes mnimas de
respirar, comer, digerir, passear, valsar, dar corda ao relgio, dizer que vai
chover, ou exclamar: Que calor!

Mas h ainda um ponto no decreto
siams, que, por ser siams, no deixa de ser imitvel.  que a assemblia
legislativa, nos casos de impedimento do rei por molstia ou outra causa,
promulga as suas prprias leis, uma vez que sejam votadas por dois teros.
Pde-se muito bem incluir esta clusula no nosso estatuto parlamentar, reduzindo
os dois teros  maioria simples (metade e mais um). Destarte no h receio de
ver o chefe do Estado descambar das funes fisiolgicas ou de salo para as de
natureza poltica. A assemblia facilmente o persuadir de que h lindas
perspectivas no alto Tocantins, e assumir por meses os dois poderes
constitucionais.

Se a rainha Lilinakalon tem feito
o mesmo que acaba de fazer o seu colega de Sio, no estaria em terra desde
alguns meses. No o fez, ou porque no tivesse a idia (e h quem negue
originalidade poltica s mulheres), ou por no achar meio adequado  reforma.
Mas, Deus meu! onde  que no h doze fidalgos para compor uma assemblia
legislativa? Pode ser tambm que no previsse a revoluo contra uma rainha
jovem, graas  leitura de Cames, que s viu isso entre brbaros
lusitanos:

Contra uma dama,  duros
cavalheiros,
Feros vos amostrais e carniceiros?

No valem Calopes, quando falam
outras musas, seja a liberdade, seja a bolsa, se  certo que no movimento de
Honolulu entrou uma operao mercantil. Menos ainda pode valer o puro galanteio
ou a piedade. A verdade  que a rainha caiu.

No satisfeita da queda, tentou
reaver o trono, e creio haver lido nos ltimos despachos que a pobre moa foi
condenada  morte, e tambm que a pena lhe fora comutada. Antes assim. Tudo isso
lhe teria sido poupado, se ela decretasse a tempo uma pequena assemblia
legislativa.

Mas deixemos Honolulu e Bangkok;
deixemos nomes estranhos, mormente os de Sio. Daqui a pouco talvez esteja no
trono o filho da segunda mulher do rei, atual herdeiro, o prncipe Chuufa Maha
Majiravadh, nome ainda mais doce que o do pai. No  na doura do nome que esto
os bons sentimentos liberais. Csar  o mais belo nome do mundo, e foi o dono
dele que confiscou a liberdade romana. Esperemos que o futuro rei de Sio no
repita o exemplo, antes conclua o reinado decretando que a cmara legislativa de
Bangkok dar uma resposta  fala do trono. Um de seus filhos aceitar os
ministros da assemblia, um de seus netos decretar a eleio dos deputados, tal
como em Yeddo, Londres e Rio.

24 de fevereiro

Refere um telegrama do sul, que o
general Mitre deu esta semana, em no sei que cidade argentina, um jantar de
quinhentos talheres. Dispensem-me de dizer desde quando acompanho com admirao
o general Mitre. No o vi nascer, nem crescer, nem sentar praa. O buo mal
comeava a pungir-me, j ele comandava uma revoluo, ganhava uma batalha, creio
que em Pavon, e assumia o poder. Eleito presidente da repblica, foi reeleito
por novo prazo, e, terminado este, assistiu  eleio de Sarmiento, um advogado
que era ento ministro em Washington. Vi este Sarmiento, quando ele aqui esteve
de passagem para Buenos Aires, uma noite, s dez horas e meia, no antigo Clube
Fluminense, onde se hospedava. O clube era na casa da atual secretaria da
justia e do interior. Sarmiento tomava ch, sozinho, na grande sala, porque
nesses tempos pr-histricos (1868) tomava-se ch no clube, entre nove e dez
horas. Era um homem cheio de corpo, cara rapada, olhos vivos e grandes. Vinha de
estar com o imperador em S. Cristvo e trazia ainda a casaca, a gravata branca
e, se me no falha a memria, uma comenda.

Os amigos do general Mitre,
deixando este o poder, deram-lhe em homenagem um jornal, a Nacin, que ainda
agora  dos primeiros e mais ricos daquela Repblica. Ao patriota seguiu-se o
jornalista, cujos artigos li com muito prazer. Sendo orador, proferia discursos
eloqentes. Generalssimo dos exrcitos aliados contra Lopes, fez baixar a
clebre proclamao dos trs dias em quartis, trs semanas em campanha e trs
meses em Assuno, que no foi sublime, unicamente porque a sorte da guerra
disps as coisas de outra maneira. A histria  assim. A eternidade depende de
pouco.

Pois bem, admirando o general
Mitre nas vrias fases da vida pblica e no exerccio dos seus mltiplos
talentos, confesso que no senti jamais o atordoamento, o alvoroo, uma coisa
que no sei como defina, ao ler a notcia do jantar de quinhentos talheres! 
preciso ler isto, no com os olhos, no com a memria, mas com a imaginao. E
de onde viria a diferena da sensao ltima?

Talvez haja em mim, sem que eu
saiba, algo pantagrulico. Confesso que, em relao a Lculo, as batalhas que
ele ganhou contra Mitrdates nunca me agitaram tanto a alma como os seus
banquetes. No conheo golpe dado por ele em inimigo que valha este dito ao
mordomo, que, por estar o patro sozinho, lhe apresentou uma ceia de
meia-tigela: No sabes que Lculo ceia em casa de Lculo' Comidas homricas,
tripas rabelaisianas, tudo que excede o limite ordinrio, acende naturalmente a
imaginao. Jantares de famlia so a canalha das refeies.

Pode ser tambm que a causa da
extraordinria sensao que me deu o jantar de quinhentos talheres, fosse a
triste, a lvida, a miservel inveja da minha alma. Neste caso, se invejei o
jantar de quinhentos talheres, foi menos pela comida que pelo preo. Eu quisera
poder d-lo, para no o dar. Que necessidade h de fazer quatrocentos e
cinqenta estmagos ingratos, que  o mnimo das digestes esquecidas em um
banquete de quinhentos? Os cinqenta estmagos fiis valem certamente a despena;
mas a psicologia do estmago  to complicada e obscura, que a fidelidade
gstrica pode ser muita vez uma esperana no menos gstrica.

To de perto seguiu a este jantar
de quinhentos talheres a parede dos operrios de Cascadura, que no pude
espantar da memria uma observao de Chamfort, a saber, que a sociedade 
dividida em duas classes, uma que tem mais apetite que jantares, outra que tem
mais jantares que apetite. Os paredistas queriam maior salrio e buscavam o pior
caminho. H meios pacficos e legais para obter melhoria de vencimentos. O
direito de petio  de todos. Com ele, pode um cidado s, e assim trinta,
trezentos ou trs mil, obter justia e satisfao dos seus legtimos interesses.
No  novo nada disto, nem eu estou aqui para dizer coisas novas, mas velhas,
coisas que paream ao leitor descuidado que  ele mesmo que as est
inventando.

No estranhei a parede em si
mesma; estranhei que a fizessem operrios sem chefes, porque o chefe do partido
operrio no Distrito Federal  um cidado que no est aqui. No me consta que
esse cidado, representante do distrito na cmara dos deputados, capitaneasse
nem animasse jamais coligaes com o fim de suspender o trabalho; no me lembro,
pelo menos. O que sei, e toda gente comigo,  que defendia com calor a classe
operria e os seus interesses.

Nem ainda me esqueceu o dia em
que, metendo-se um deputado do norte ou do sul a propor alguma coisa em favor
dos operrios da Central do Brasil, o chefe do partido emendou a mo ao intruso,
redargindo-lhe que fosse cuidar dos operrios do seu Estado. Para mim,  este
o verdadeiro federalismo. No bastam divises escritas. Partidos locais,
operrios estaduais. O problema operrio  terrvel na Europa, em razo de ser
internacional; mas, se nem o consentirmos nacional, e apenas distrital, teremos
facilitado a soluo, porque a iremos achando por partes, no se ocupando os
respectivos chefes seno do que  propriamente seu. As classes conservadoras,
desde que no virem os chefes juntos, formando um conclio, perdem o susto, e
mais depressa podero ser vencidas e convencidas.

Tudo isso  pesado, e comeo a
achar-me to srio, que desconfio j do meu juzo. Em dia de carnaval, a loucura
 de rigor, mas h de ser a loucura alegre no a lgubre. Sinto-me lgubre. O
melhor  recolher-me, apesar da saraivada de confete que principia.

3
de maro

Tantas so as matrias em que
andamos discordes, que  grande prazer achar uma em que tenhamos a mesma
opinio. Essa matria  o carnaval. No h dois pareceres; todos confessam que
este ano foi brilhante, e a mais de um esprito azedo e difcil de contentar
ouvi que a rua do Ouvidor esteve esplndida.

Ouvi mais. Ouvi que houve ali
janela que se alugou por duzentos mil ris, e ter havido outras muitas.  ainda
uma causa da harmonia social, porquanto se h dinheiro que sobre, h
naturalmente conciliao pblica: Nas casas de pouco po  que o adgio acha
muito berro e muita sem razo. Uma janela e trs ou quatro horas por duzentos
mil ris  alguma coisa, mas a alegria vale o preo. A alegria  a alma da vida.
Os mscaras divertem-se  farta, e aqueles que os vo ver passar no se divertem
menos, no contando a troca de confete e de serpentinas, que tambm se faz entre
desmascarados. Uns e outros esquecem por alguns dias as horas aborrecidas do
ano.

Tal  a filosofia do carnaval; mas
qual  a etimologia? O Sr. Dr. Castro Lopes reproduziu tera-feira a sua
explicao do nome e da festa. Discordando dos que vem no carnaval uma
despedida da carne para entrar no peixe e no jejum da quaresma (caro vale,
adeus, carne), entende o nosso ilustrado patrcio que o carnaval  uma imitao
das lupercais romanas, e que o seu nome vem dali. Nota logo que as
lupercais eram celebradas em 15 de fevereiro; matava-se uma cabra, os sacerdotes
untavam a cara com o sangue da vtima, ou atavam uma mscara no rosto e corriam
seminus pela cidade. Isto posto, como  que nasceu o nome carnaval?

Apresenta duas conjecturas, mas
adota somente a segunda, por lhe parecer que a primeira exige uma ginstica
difcil da parte das letras. Com efeito, supe essa primeira hiptese que a
palavra lupercalia perdeu as letras l, p, i, ficando uercala;
esta, torcida de trs para diante, d careual; a letra u entre vogais
transforma-se em v, e da careval; finalmente, a corrupo popular teria
introduzido um n depois do r, e ter carneval, que, com o andar dos
tempos, chegou a carnaval. Realmente, a marcha seria demasiado longa. As
palavras andam muito, em verdade, e nessas jornadas  comum irem perdendo as
letras; mas, no caso desta primeira conjectura, a palavra teria no s de as
perder, mas de as trocar tanto, que verdadeiramente meteria os ps pelas mos,
chegando ao mundo moderno de pernas para o ar. Ginstica difcil. A segunda
conjectura parece ao Sr. Dr. Castro Lopes mais lgica, e  a que nos d por
soluo definitiva do problema.

Ei-la aqui. Era muito natural,
diz o ilustrado lingista, que nessas festas se entoasse o canto dos irmos
arvais; muito naturalmente tambm ter-se- dito, s vezes, a festa do
canto arval (cantus arvalis), palavras que produziram o termo carnaval,
cortada a ltima slaba de cantos e as duas letras finais de
arvalis. De canarval a carnaval a diferena  to fcil,
que ningum a por em dvida.

A etimologia tem segredos
difceis, mas no inviolveis. A genealogia  a mesma coisa. Quem sabe se o
leitor, plebeu e manso, jogador do voltarete e mestre-sala, no descende de Nero
ou de Cames. As famlias perdem as letras, como as palavras, e a do leitor ter
perdido a crueldade do imperador e a inspirao do poeta; mas se o leitor ainda
pode matar uma galinha, e se entre os dezoito e vinte anos comps algum soneto,
no se despreze; no s pode descender de Nero ou de Cames, mas at de
ambos.

Por isso, no digo sim nem no 
explicao do Sr. Dr. Castro Lopes. Digo s que o sbio Mnage achou, pelo mesmo
processo, que o haricot dos franceses vinha do latim faba. 
primeira vista parece gracejo; mas eis aqui as razes do etimologista: On a
d dire faba, puis fabaricus, puis fabaricotus, aricotus et enfin haricot.
H seguramente um ponto de partida conjectural, em ambos os casos. O on a d
dire de Mnage e o ter-se- dito de Castro Lopes so indispensveis, uma vez
que nenhum documento ou monumento nos d a primeira forma da palavra. O resto 
lgico. Toda a questo  saber se esse ponto de partida conjetural  verdadeiro.
Mas que h neste mundo que se possa dizer verdadeiramente verdadeiro Tudo 
conjetural. Dai-me um axioma: a linha reta  a mais curta entre dois pontos.
Parece-nos que  assim, porque realmente, medindo todas as linhas possveis,
achamos que a mais curta  a reta; mas quem sabe se  verdade?

O que eu nego ao nosso Castro
Lopes,  o papel de Cassandra que se atribui, afirmando que no  atendido em
nada. No o ser em tudo; mas h de confessar que o  em algumas coisas. H
palavras propostas por ele, que andam em circulao, j pela novidade do cunho,
j pela autoridade do emissor. Cardpio e convescote, so usados. No  menos
usado preconcio, proposto para o fim de expelir o reclame dos franceses, embora
tenhamos reclamo na nossa lngua, com o mesmo aspecto, origem e significao.
Que lhe falta ao nosso reclamo? Falta-lhe a forma erudita, a novidade, certo
mistrio. Eu, se no emprego convescote,  porque j no vou a tais patuscadas,
no  que lhe no ache graa expressiva. O mesmo digo de cardpio.

Nem tudo se alcana neste mundo.
Um homem trabalha quarenta anos para s lhe ficar a obra de um dia. Felizes os
que puderem deixar uma palavra ou duas: tero contribudo para o lustre do
estilo dos psteros, e dado veculo asseado a uma ou duas idias. Filinto Elsio
mostra o exemplo do marqus de Pombal, que, tendo de expedir uma lei, introduziu
nela a palavra apangio, logo aceita por todos. Apangio passou; hoje 
corrente, disse o poeta em verso. Ai, marqus! marqus! digo eu em prosa, quem
sabe se de tantas coisas que fizeste, no  esta a nica obra que te h de
ficar?

10 de maro

A autoridade recolheu esta semana
 deteno duas feiticeiras e uma cartomante, levando as ferramentas de ambos os
ofcios. Achando-se estes includos no cdigo como delitos, no fez mais que a
sua obrigao, ainda que incompletamente.

A minha questo  outra. As
feiticeiras tinham consigo uma cesta de bugigangas, aves mortas, moedas de dez e
vinte ris, uma perna de ceroula velha, saquinhos contendo feijo, arroz,
farinha, sal, acar, canjica, penas e cabeas de frangos. Uma delas, porm,
chamada Umbelina, trazia no bolso no menos de quatrocentos e treze mil-ris.
Eis o ponto. Peo a ateno das pessoas cultas.

Nestes tempos em que o po  caro
e pequeno, e tudo o mais vai pelo mesmo fio, um ofcio que d quatrocentos e
treze mil-ris pode ser considerado delito? Parece que no. Gente que precisa
comer, e tem que pagar muito pelo pouco que come, podia roubar ou furtar,
infringindo os mandamentos da lei de Deus. Tais mandamentos no falam de
feitiaria, mas de furto. A feitiaria, por isso mesmo que no est entre o
homicdio e a impiedade,  delito inventado pelos homens, e os homens erram.
Quando acertam,  preciso examinar a sua afirmao, comparar o ato ao
rendimento, e concluir.

No se diga que a feitiaria 
iluso das pessoas crdulas. Sou indigno de criticar um cdigo, mas deixem-me
perguntar ao autor do nosso: Que sabeis disso? Que  iluso? Conheceis Poe? No
 jurisconsulto, posto desse um bom juiz formador da culpa. Ora, Poe escreveu a
respeito do povo: O nariz do povo  a sua imaginao; por ele  que a gente
pode lev-lo, em qualquer tempo, aonde quiser. O que chamais iluso  a
imaginao do povo, isto , o seu prprio nariz. Como fazeis crime a feitiaria
de o puxar at o fim da rua, se ns podemos pux-lo at o fim da parquia, do
distrito ou at do mundo?

No nosso ano terrvel, vimos esse
nariz chegar mais que ao fim do mundo, chegar ao cu. Ningum fez disso crime,
alguns fizeram virtude, e ainda os h virtuosos e credores. Realmente, prometer
com um palmo de papel um palcio de mrmore  o mesmo que dar um verdadeiro amor
com dois ps de galinha. A feiticeira fecha o corpo s molstias com uma das
suas bugigangas, talvez a ceroula velha,  e h facultativo (no digo
competente) que faz a mesma coisa, levando a ceroula nova. Que razo h para
fazer de um ato malefcio, e benefcio de outro?

O cdigo, como no cr na
feitiaria, faz dela um crime, mas quem diz ao cdigo que a feiticeira no 
sincera, no cr realmente nas drogas que aplica e nos bens que espalha? A
psicologia do cdigo  curiosa. Para ele, os homens s crem aquilo que ele
mesmo cr; fora dele, no havendo verdade, no h quem creia outras verdades, 
como se a verdade fosse uma s e tivesse trocos midos para a circulao moral
dos homens.

Tudo isto, porm, me levaria
longe; limitemo-nos ao que fica; e no falemos da cartomante, em quem se no
achou dinheiro, provavelmente porque o tem na caixa econmica. Relativamente s
cartomantes, confesso que no as considero como as feiticeiras. A cartomancia
nasceu com a civilizao, isto , com a corrupo, pela doutrina de Rousseau. A
feitiaria  natural do homem; vede as tribos primitivas. Que tambm o  da
mulher, confess-lo- o leitor. Se no for pessoa extremamente grave, j h de
ter chamado feiticeira a alguma moa. Vo meter na cadeia uma senhora s porque
fecha o corpo alheio com os seus olhos, que valem mais ainda que cabeas de
frangos ou ps de galinha. Ou ps de galinha!

Podia dizer de muitas outras
feitiarias, mas seria necessrio indagar o ponto de semelhana, e no estou de
alma inclinada  demonstrao. Nem  simples narrao, Deus dos enfermos! Isto
vai saindo ao sabor da pena e tinta. E por estar doente, e com grandes desejos
de acudir  feitiaria,  que me di (sempre o interesse pessoal!) a priso das
duas mulheres. Talvez a moeda de dez ris me desse sade, no digo uma s moeda,
mas um milho delas.

Sim, eu creio na feitiaria, como
creio nos bichos de Vila Isabel, outra feitiaria, sem sacos de feijo. So
sistemas. Cada sistema tem os seus meios curativos e os seus emblemas
particulares. Os bichos de Vila Isabel, mansos ou bravios, fazem ganhar dinheiro
depressa, e sem trabalho, tanto como fazem perd-lo, igualmente depressa e sem
trabalho, tudo sem trabalho, no contando a viagem de bond, que  longa,
vria e alegre. Ganha-se mais do que se perde, e tal  o segredo que esses bons
animais trouxeram da natureza, que os homens, com toda a civilizao antiga e
moderna, ainda no alcanaram. No sei se a feitiaria dos bichos d mais dos
quatrocentos e treze mil-ris da Umbelina; talvez d mais, o que prova que 
melhor.

Alm dessas, temos muitas outras
feitiarias; mas j disse, no vou adiante. A pena cai-me. No trato sequer da
poltica, alis assunto que d sade. H quem creia que ela  uma bela
feitiaria, e no falta quem acrescente que nesta, como na outra, o povo no
pode nem anda desnarigado;  horrendo e incmodo.

Tambm no cito o jri,
instituio feiticeira, dizem muitos. Ser-me-ia preciso examinar este ponto,
longamente, profundamente, independentemente, e no h em mim agora profundeza,
nem independncia, nem me sobra tempo para tais estudos. Eu aprecio esta
instituio que exprime a grande idia do julgamento pelos pares; examina-se o
fato sem preveno de magistrados, nem cmara prpria de ofcio, sem nenhuma
ateno  pena. O crime existe? Existe; eis tudo. No existe; eis ainda mais.
Depois,  para mim instituio velha, e eu gosto particularmente dos meus velhos
sapatos; os novos apertam os ps, enquanto que um bom par de sapatos folgados 
como os dos prprios anjos guerreiros, Miguel, etc., etc., etc.

17 de maro

O primeiro dia desta semana foi
assinalado por um sucesso importante: venceu o burro. Venceu no Jardim
Zoolgico, onde vencem o ganso e o tigre. Mas no importa o lugar; uma vez que
venceu,  para se lhe dar parabns, a esse bom e santo companheiro de S. Jorge,
na estrada de Jerusalm, e de Sancho Pana, em toda a sua vida, amigo do nosso
sertanejo, e, ainda agora, em alguns lugares, rival da estrada de
ferro.

Estvamos afeitos a dizer e ouvir
dizer que venciam cavalo Fulano e Sicrano.  verdade que era no Derby e outras
arenas de luta animal; mas, enfim, era s o cavalo que vencia, porque s ele
apostava, deixando dez ou vinte mil ris nas algibeiras de Pedro, e outras
tantas saudades nas de Paulo, Sancho e Martinho. Dizem at que eram os mil ris
que corriam, e centenas de pessoas que vo s prprias arenas crem que os
cavalos so puras entidades verbais. Fenmeno explicvel pela freqncia das
casas em que no h cavalos: acaba-se crendo que eles no existem.

Venceu o burro. Digo venceu para
usar do termo impresso; mas o verbo da conversao  dar. Deu o burro, amanh
dar o macaco, depois dar a ona, etc. Sexta-feira, achando-me numa loja, vi
entrar um mancebo, extraordinariamente jovial,  por natureza ou por outra coisa
 e bradava que tinha dado a avestruz, expresso obscura para quem no conhece
os costumes dos nossos animais.  mais breve, mais viva, e no duvido que mais
verdadeira. No duvido de nada. A zoologia corre assim parelha com a loteria, e
tudo acaba em cincia, que  o fim da humanidade.

Tambm a arqueologia  cincia,
mas h de ser com a condio de estudar as coisas mortas, no ressuscit-las. Se
quereis ver a diferena de uma e outra cincia, comparai as alegrias vivas do
nosso jardim Zoolgico com o projeto de ressuscitar em Atenas, aps dois mil
anos, os jogos olmpicos. Realmente,  preciso ter grande amor a essa cincia de
farrapos para ir desenterrar tais jogos. Pois  do que trata agora uma comisso,
que j dispe de fundos e boa vontade. Est marcado o espetculo para abril de
1896. No h l burros nem cavalos; h s homens e homens. Corridas a p, luta
corporal, exerccios ginsticos, corridas nuticas, natao, jogos atlticos,
tudo o que possa esfalfar um homem sem nenhuma vantagem dos espectadores, porque
no h apostas. Os prmios so para os vencedores e honorficos. Toda a
metafsica de Aristteles. Parece que h idia de repetir tais jogos em Paris,
no fim do sculo, e nos Estados Unidos em 1904. Se tal acontecer, adeus,
Amrica! No valia a pena descobri-la h quatro sculos, para faz-la recuar
vinte.

Oxal no se lembrem de ns.
Fiquemos com os burros e suas prendas. Bem sei que eles no do s dinheiro, do
tambm a morte e pernas quebradas.  o que dizem as estatsticas do Dr. Viveiros
de Castro, o qual acrescenta que o maior nmero de desastres dessa espcie 
causado pelos bonds. Parece-lhe que o meio de diminuir tais calamidades 
responsabilizar civilmente as companhias; desde que elas paguem as vidas e as
pernas dos outros, procuraro ter cocheiros hbeis e cautelosos, em vez de os
ter maus, dar-lhes fuga ou abafar os processos com empenhos.

A primeira observao que isto me
sugere,  que h j muitos responsveis, o burro, o cocheiro, o bond e a
companhia.  provvel que a eletricidade tambm tenha culpa. Por que no o Padre
Eterno, que nos fez a todos? A segunda observao  que tal remdio, excelente e
justo para que os criados no nos quebrem os pratos, uma vez que os paguem, 
injusto e de duvidosa eficcia, relativamente s companhias de bonds.
Injusto, porque o dinheiro da companhia  para os dividendos semestrais aos
acionistas, e para o custeio do material. Os burros comem pouco, mas comem; os
carros andam aos solavancos e descarrilam a mido, mas algum dia tero de ser
concertados, no todos a um tempo, mas um ou outro; seria desumano, alm de
contrrio aos interesses das companhias, fazer andar carros que se desfizessem
na rua, ao fim de cinco minutos. Ora, se os desastres houvessem de ser pagos por
elas, que ficar no cofre para as despesas necessrias?

Terceira observao. Se as
companhias, no dizer do abalizado criminalista, abafam agora com empenhos os
processos dos cocheiros, porque no abafaro os seus prprios, quando houverem
de pagar vidas e pernas quebradas? Ou j no haver empenhos? Pode hav-los at
maiores, uma vez que as companhias tratem de defender, no j os seus
auxiliares, mas os prprios fundos.

Vamos  quinta e derradeira
observao. O autor afirma que a lei de 1871, feita para punir os delitos
cometidos por impercia ou imprudncia, tem sido letra morta. Pergunto eu: quem
nos dir que a lei que se fizer para obrigar civilmente as companhias, no ser
tambm letra morta? Que direito de preferncia tem a lei de 1871? Ou,
considerando que a morte da letra de uma lei  antes um desastre que um
privilgio, por que razo a nova lei estar fora do alcance do mesmo astro ruim
que matou a antiga? Por outro lado, incumbindo aos juzes a execuo da lei de
1871, e tendo esta ficado letra morta, acaso consta que algum deles a tenha
indenizado da vida que perdeu? Como obrigar as companhias  indenizao da vida
de um homem? Em que  que o homem  superior   lei?

So questes melindrosas. No dia
27 deste ms, por exemplo, comear a ter execuo a lei de lotao dos
bonds. Suponhamos que no comea; leis no so eclipses, que, uma vez
anunciados cumprem-se pontualmente; e ainda assim esta semana houve um eclipse
da lua que ningum viu aqui, no por falta do eclipse,  verdade, mas por falta
da lua. Leis so obras humanas, imperfeitas, como os autores. Suponhamos que no
se cumpre a lei no dia 27; apostemos at alguma cosa, estou que este burro d.
Como exigir que a lei, no cumprida a 27, venha a s-lo a 28, ou em abril, maio
ou qualquer outro ms do ano? Tambm h leis do esquecimento.

24 de maro

Divino equincio, nunca me hei de
esquecer que te devo a idia que vou comunicar aos meus concidados. Antes de
ti, nos trs primeiros dias hrridos da semana, no  possvel que tal idia me
brotasse do crebro. Depois, tambm no. Conheo-me, leitor. H quem pense,
transpirando; eu, quando transpiro, no penso. Deixo essa funo ao meu criado,
que, do princpio ao fim do ano, pensa sempre, embora seja o contrrio do
que me  agradvel; por exemplo, escova-me o chapu s avessas. Naturalmente,
ralho.

 Mas, patro, eu
pensava...

 Jos Rodrigues, brado-lhe
exasperado; deixa de pensar alguma vez na vida.

 H de perdoar, mas o pensamento
 influncia que vem dos astros; ningum pode ir contra eles.

Ouo, calo-me e vou andando. Nos
dias que correm, ter um criado que pense barato,  to rara fruta, que no vale
a pena discutir com ele a origem das idias. Antes mudar de chapu que de
ordenado.

A idia que tive quinta-feira, em
parte se pode comparar ao chapu escovado de encontro ao plo; mas ser culpa da
escova ou do chapu? Cuido que do chapu. O dia correu fresco, a noite
fresqussima, as estrelas fulguravam extraordinariamente, e se o meu criado tem
razo, foram elas que me influram o pensamento. Sa para a rua. Havia prximo
umas bodas. A casa iluminada chamava a ateno pblica, muita gente fora, moas
principalmente, que no perdem festas daquelas, e correm  igreja, s portas, 
rua, para ver um noivado. Qualquer pessoa de mediano esprito cuidar que era
este assunto que me preocupava. No, no era; cogitava eleitoralmente, ao passo
que rompia os grupos, perguntava a mim mesmo: Por que no faremos uma reforma
constitucional?

Fala-se muito em eleies
violentas e corruptas, a bico de pena, a bacamarte, a faca e a pau. Nenhuma
dessas palavras  nova aos meus ouvidos. Conheo-as desde a infncia. Crespas
so deveras; na entrada do prximo sculo  fora mudar de mtodo ou de
nomenclatura. Ou o mesmo sistema com outros nomes, ou estes nomes com diversa
aplicao. Como em todas as coisas, h uma parte verdadeira na acusao, e outra
falsa, mas eu no sei onde uma acaba, nem onde outra comea. Pelo que respeita 
fraude, sem negar os seus mritos e proveitos, acho que algumas vezes podem dar
canseiras inteis. Quanto  violncia, sou da famlia de Stendhal, que escrevia
com o corao nas mos: Mon seul dfaut est de ne pas aimer le
sang.

No amando o sangue, temendo as
incertezas da fraude, e julgando as eleies necessrias, como achar um modo de
as fazer sem nenhum desses riscos? Formulei ento um plano comparvel ao gesto
do meu criado, quando escova o chapu s avessas. Suprimo as eleies. Mas como
farei as eleies, suprimindo-as? Fao-as conservando-as. A idia no  clara;
lede-me devagar.

Sabeis muito bem o que eram os
pelouros antigamente. Eram umas bolas de cera, onde se guardavam, escritos em
papel, os nomes dos candidatos  vereao; abriam-se as bolas no fim do prazo da
lei, e os nomes que saam, eram os escolhidos para a magistratura municipal.
Pois este processo do antigo regmen  o que me parece capaz de substituir o
atual mecanismo, desenvolvido, adequado ao nmero de eleitos. Um grave tribunal
ficar incumbido de escrever os nomes, no de todos os cidados que tiverem
condies de elegibilidade, mas s daqueles que, trs ou seis meses antes, se
declararem candidatos. Outro tribunal ter a seu cargo abrir os pelouros, ler os
nomes, escrev-los, atest-los, proclam-los e public-los. Esta  a metade da
minha idia.

A outra metade  o seu natural
complemento. Com efeito, restaurar os pelouros, sem mais nada, seria
desinteressar o cidado da escolha dos magistrados e universalizar a absteno.
Quem quereria sair de casa para assistir  estril cerimnia da leitura de
nomes? Poucos, decerto, pouqussimos. Acrescentai a gravidade do tribunal e
teremos um espetculo prprio para fazer dormir. No tardaria que um partido se
organizasse pedindo o antigo processo, com todos os seus riscos e perigos,
far-se-ia provavelmente uma revoluo, correria muito sangue, e este aparelho,
restaurado para eliminar o bacamarte, acabaria ao som do bacamarte.

Eis o complemento. O meneio das
palavras ser nem mais nem menos o dos bichos do Jardim Zoolgico. O cidado, em
vez de votar, aposta. Em vez de apostar no gato ou no leo, aposta no Alves ou
no Azambuja. O Azambuja d, o Alves no d, distribuem-se os dividendos aos
devotos do Azambuja. Para o ano dar o Alves, se no der o Meireles.

Nem h razo para no amiudar as
eleies, faz-las algumas vezes semestrais, bimestrais, mensais, quinzenais, e,
tal seja a pouquidade do cargo, semanais. O esprito pblico ficar deslocado; a
opinio ser regulada pelos lucros, e dir-se- que os princpios de um partido
nos ltimos dois anos tm sido mais favorecidos pela Fortuna que os princpios
adversos. Que mal h nisso? Os antigos no se regeram pela Fortuna? Gregos e
romanos, homens que valeram alguma coisa, confiavam a essa deusa o governo da
Repblica. Um deles (no sei qual) dizia que trs poderes governam este mundo:
Prudncia, Fora e Fortuna. No podendo eliminar esta, regulemo-la.

O interesse pblico ser enorme.
Haver palpites, pedir-se-o palpites; far-se- at, se for preciso, uma legio
de adivinhos, incumbidos de segredar aos cidados os nomes provveis ou certos.
Haver folhas especiais, bonds especiais, botequins especiais, onde o
cidado receba um refresco e um palpite, deixando dois ou trs mil-ris. Esta
quantia parece ser mais, e  menos que os mil e duzentos homens que acabam de
morrer nas ruas de Lima. Sendo as pequenas revolues, em substncia, uma
questo eleitoral, segue-se que o meu plano zoolgico  prefervel ao sistema de
suspender a matana de tanta gente, por interveno diplomtica. A zoologia
exclui a diplomacia e no mata ningum. Mon seul dfaut etc.

31 de maro

De quando em quando aparece-nos o
conto do vigrio. Tivemo-lo esta semana, bem contado, bem ouvido, bem vendido,
porque os autores da composio puderam receber integralmente os lucros do
editor.

O conto do vigrio  o mais antigo
gnero de fico que se conhece. A rigor, pode crer-se que o discurso da
serpente, induzindo Eva a comer o fruto proibido, foi o texto primitivo do
conto. Mas, se h dvida sobre isso, no a pode haver quanto ao caso de Jac e
seu sogro. Sabe-se que Jac props a Labo que lhe desse todos os filhos das
cabras que nascessem malhados. Labo concordou, certo de que muitos trariam uma
s cor; mas Jac, que tinha plano feito, pegou de umas varas de pltano,
raspou-as em parte, deixando-as assim brancas e verdes a um tempo, e, havendo-as
posto nos tanques, as cabras concebiam com os olhos nas varas, e os filhos saam
malhados. A boa f de Labo foi assim embaada pela finura do genro; mas no sei
que h na alma humana que Labo  que faz sorrir, ao passo que Jac passa por um
varo arguto e hbil.

O nosso Labo desta semana foi um
honesto fazendeiro do Chiador, que, estando em uma rua desta cidade, viu
aparecer um homem, que lhe perguntou por outra rua. Nem o fazendeiro, nem o
outro desconhecido que ali apareceu tambm, tinha notcia da rua indicada.
Grande aflio do primeiro homem recentemente chegado da Bahia, com vinte contos
de ris de um tio dele, j falecido, que deixara dezesseis para os nufragos da
Terceira e quatro para a pessoa que se encarregasse da
entrega.

Quem  que, nestes ou em quaisquer
tempos, perderia to boa ocasio de ganhar depressa e sem cansao quatro contos
de ris? eu no, nem o leitor, nem o fazendeiro do Chiador, que se ofereceu ao
desconhecido para ir com ele depositar na Casa Leito, Largo de Santa Rita, os
dezesseis contos, ficando-lhe os quatro de remunerao.

 No  preciso que o acompanhe,
respondeu o desconhecido; basta que o senhor leve o dinheiro, mas primeiro 
melhor juntar a este o que traz a consigo.

 Sim, senhor, anuiu o fazendeiro.
Sacou do bolso o dinheiro que tinha (um conto e tanto), entregou-o ao
desconhecido, e viu perfeitamente que este o juntou ao mao dos vinte; ao
anloga  das varas de Jac. O fazendeiro pegou do mao todo, despediu-se e
guiou para o Largo de Santa Rita. Um homem de m f teria ficado com o dinheiro,
sem curar dos nufragos da Terceira, nem da palavra dada. Em vez disso,
que seria mais que deslealdade, o portador chegou  Casa do Leito, e tratou de
dar os dezesseis contos, ficando com os quatro de recompensa. Foi ento que viu
que todas as cabras eram malhadas. O seu prprio dinheiro, que era de uma s
cor, como as ovelhas de Labo, tinha a pele variegada dos jornais velhos do
costume.

A prova de que o primeiro
movimento no  bom,  que o fazendeiro do Chiador correu logo  polcia;  o
que fazem todos. Mas a polcia, no podendo ir  cata de uma sombra, nem
adivinhar a cara e o nome de pessoas hbeis em fugir, como os heris dos
melodramas, no fez mais que distribuir o segundo milheiro do conto do vigrio,
mandando a notcia aos jornais. Eu, se algum dia os contistas me pegassem,
trataria antes de recolher os exemplares da primeira edio.

Aos sapientes e pacientes
recomendo a bela monografia que podem escrever estudando o conto do vigrio
pelos sculos atrs, as suas modificaes segundo o tempo, a raa e o clima. A
obra, para ser completa, deve ser imensa.  seguramente maior o nmero das
tragdias, tanta  a gente que se tem estripado, esfaqueado, degolado, queimado,
enforcado, debaixo deste belo sol, desde as batalhas de Josu at aos combates
das ruas de Lima, onde as autoridades sanitrias, segundo telegramas de ontem,
esforam-se grandemente por sanear a cidade empestada pelos cadveres que
ficaram apodrecidos ao ar livre. Lembrai-vos que eram mais de mil, e imaginai
que o detestvel fedor de gente morta no custa a vitria de um princpio. O
conto  menos numeroso, e, seguramente, menos sublime; mas ainda assim ocupa
lugar eminente nas obras de fico. Nem  o tamanho que d primazia  obra,  a
feitura dela. O conto do vigrio no  propriamente o de Voltaire, Boccaccio ou
Andersen, mas  conto, um conto especial, to clebre como os outros, e mais
lucrativo que nenhum.

Pela minha parte no escrevo nada,
limito-me a esta breve histria da semana, em que tanta vez perco o fio, como
agora, sem saber como passe do conto aos bichos. A proposta municipal para
transformar o Jardim Jocolgico em Jardim Zoolgico, apresentada anteontem, at
certo ponto ata-me as mos; aguardo a votao do Conselho. Quando muito, visto
que a proposta ainda no  lei, e ainda os bichos guardaro dinheiro, podia
escrever uma petio em verso. Vi que esta semana a borboleta ganhou um dia.
Juro-vos que no sabia da presena dela na coleo dos bichos recreativos, e no
descrevo a pena que me ficou, porque a lngua humana no tem palavras para tais
lstimas.

Deus meu! a borboleta na mesma
caixa do porco! O lindo inseto to prezado de todos, e particularmente dos
vitoriosos japoneses, agitando as assas naquele espao em que costuma grunhir o
animal detestado de Abrao, de Isaac e de Jac! Onde nos levareis, anarquia da
tica e da esttica? Poetas moos, juntai-vos e componde a melhor das
poliantias, um soneto nico, mas um soneto-legio, em que se pea aos poderes
da Terra e do Cu a excluso da borboleta de semelhante orgia. Ganhe o pato, o
porco, o peru, o diabo, que  tambm animal de lucro, mas fique a borboleta
entre as flores, suas primas.

7
de abril

No h quem no conhea a minha
desafeio  poltica, e, por deduo, a profunda ignorncia que tenho desta
arte ou cincia. Nem sequer sei se  arte ou cincia; apenas sei que as opinies
variam a tal respeito. Faltam-me os meios de achar a verdade. Quando era vivo um
boticrio que tive, lido em matrias especulativas, a tal ponto que me trocava
os remdios, recorria a ele comumente, e nunca o apanhei descalo. A razo que o
levava a estudar a literatura poltica, em vez da farmacutica, no a pude
entender nunca, salvo se era o natural pendor do homem, que vai para onde lhe
leva o esprito. J perguntei a mim mesmo se era porque na poltica haja de
tudo, como na botica; mas no acertei com a resposta. Deus lhe fale
n'alma!

Depois que ele morreu, se acontece
algum caso poltico em que deva falar, dou-me ao trabalho asprrimo de ler tudo
o que se tem escrito, desde Aristteles at s mais recentes publicaes a
pedido, e acabo sabendo ainda menos que os autores destas publicaes. Foi o
que me aconteceu esta semana com o caso da Bahia.

No confundam com outro caso da
Bahia, que chamarei especialmente da povoao dos Milagres, onde quatrocentos
bandidos, depois de muitas mortes e arrombamentos, destruio de altares e de
imagens, levaram o ardor ao ponto de desenterrar o cadver de um capito Canuto,
e, depois de o castrarem, arrancaram-lhe uma orelha e a lngua, e queimaram o
resto.

Pode ser que haja poltica nesses
movimentos, porque os bandidos de verdade no desenterram cadveres seno para
levar as jias, se as tem; mas eu inclino-me antes a crer em algum sentimento
religioso. Esses inculcados bandidos so talvez portadores de uma nova f. A f
abala montanhas: como no h de desenterrar cadveres, operao muito mais
fcil? No se destroem imagens, no se queimam altares, no se matam famlias
inteiras, no se queima um homem morto, seno por algum sentimento superior e
forte. A inquisio tambm queimava gente, mas gente viva, e depois de um
processo enfadonhamente comprido, com certos regulamentos, tudo frio e sem alma.
No tinha aquela fria, aquele desatino, aquela paixo formidvel e
invencvel.

No trato desses missionrios, que
talvez sejam os mesmos que andaram h tempos em Canavieiras e varias partes, e
mataram h pouco em Santa Quitria umas cinco pessoas, sem outro suplcio alm
dos aparelhos naturais da morte. No conheo o credo novo; os recentes profetas
no escrevem nem imprimem nada.

Talvez at falem pouco. Os
melhores operrios so silenciosos. No trato deles, nem do moo que acaba de
morrer, por ao de um bond eltrico, que  o nosso bandido poltico ou
missionrio religioso, com um toque cientfico, inteiramente estranho aos de
Milagres e Canavieiras. Concordo que o caso de anteontem  triste; no nego que
os cocheiros (com perdo da palavra) dos bonds eltricos entendem pouco
ou nada do ofcio; mas a morte de um ou mais homens no vale um problema
poltico.

Outrossim, no quero saber de
bichos, que j me enfadam, nem do jogo de flores. Noutro tempo, este jogo era um
divertimento de famlia; cada pessoa era uma flor, por escolha prpria, camlia,
sempre-viva, amor perfeito, violeta, e travavam uma conversao em que as flores
nomeadas, se no acudiam em tomar a palavra, pagavam prenda. Tempos buclicos.
Hoje parece que cada flor ou pessoa significa dez tostes. Tempos
pecunirios.

Fiquemos no caso da Bahia. Os dois
partidos daquele Estado tratam da apurao dos votos eleitorais; mas sendo a
situao gravssima, e conveniente a paz, fazem-se tentativas de conciliao,
tendo j entrado nisso o arcebispo, que nada alcanou. A interveno do prelado
e o nenhum efeito dos seus esforos provam que  sria a crise.

Uma das tentativas esteve quase a
produzir fruto; foi intil, porque um dos partidos cedia o tero no senado e na
cmara dos deputados, soluo que o outro partido recusou, exigindo dezoito
deputados, maioria e presidncia do senado. Ecco il problema.

Esse ceder um tero, esse exigir
dezoito deputados, no ato da apurao, juro por todos os santos do cu e por
todas as santas da terra, no me entra na cabea. Virei e revirei o telegrama,
confrontei-o com autores antigos e modernos, estudei a repblica de Plato e
outras concepes filosficas, interroguei os princpios, encarei-os de face e
de perfil, passei-os da mo direita para a esquerda, e vice-versa; sem achar em
nenhuma gente, por mais grega ou italiana que fosse, um raio de luz que me
explicasse a cesso do tero e a exigncia dos dezoito.

Menos difcil problema  o que
resulta de outro telegrama da mesma procedncia, ontem publicado, em que se d o
numero total de votos de um distrito superior ao da respectiva populao;
porquanto, se o que eu ouvia em pequeno, deriva de alguma lei biolgica, as
urnas concebem. Quando era menino, ouvi muita vez afirmar que um grupo de Santa
Rita, um eleitor de S. Jos, um mesrio de Sant'Anna, s vezes um simples
inspetor de quarteiro de Santo Antonio, punha a urna de esperanas. Se isto 
verdade, no h problema, h um mero fenmeno interessante, digno de estudo, e
porventura de saudades.

O primeiro caso, sim,  que 
problema escuro e indecifrvel. Como entender o que  acordo na apurao de
votos, cedendo um tero ou exigindo dezoito deputados? h presuno em dizer
isto, pois que da prpria averso  poltica nasce a minha falta de
entendimento; mas, enfim,  o que sinto. Dizia o meu boticrio que, de quando em
quando, se devem corrigir os costumes polticos. A carta rgia de 1671, ao
governador do Rio de Janeiro, recomendando-lhe que se no entromettesse nas
eleioens de sojeitos para o governo da Repblica, ficou servindo-nos de norma
poltica; mas as normas devem alterar-se para se acudir s necessidades e
feies do sculo. A prpria igreja, conservando os seus dogmas, tem variado no
que  terreno e perecvel. h praticas boas, justas e teis em um sculo, e ms
ou inteis em outro. Era uma das plulas que me aplicava o meu defunto
amigo.

14 de abril

Nada h pior que oscilar entre
dois assuntos. A semana santa chama-me para as coisas sagradas, mas uma idia
que me veio do Amazonas chama-me para as profanas, e eu fico sem saber para onde
me volte primeiro. Estou entre Jerusalm e Manaus; posso comear pela cidade
mais remota, e ir depois  mais prxima; posso tambm fazer o
contrrio.

Havia um meio de combin-las: era
meter-me em uma das montarias ou igarits do Amazonas, com o meu amigo Jos
Verssimo, e deixar-me ir com ele, rio abaixo ou acima, ou pelos confluentes, 
pesca do pirarucu, do peixe-boi, da tartaruga ou da infinidade de peixes que h
no grande rio e na costa martima. No podia ter melhor companheiro; pitoresco e
exato, erudito e imaginoso, d-nos na monografia que acaba de publicar, sob o
ttulo A Pesca na Amaznia, um excelente livro para consulta e deleite.
Como se trata do pescado amaznico e acabamos a semana santa, iria eu assim a
Jerusalm e a Manaus, sem sair do meu gabinete. Mas o bom cristo acharia que
no basta pescar, como So Pedro, para ser bom cristo, e os amigos de idias
novas diriam que no h idia nem novidade em moquear o peixe  maneira dos
habitantes de bidos ou Rio Branco. Fora  ir a Manaus e a
Jerusalm.

J que estou no Amazonas, comeo
por Manaus. As folhas chegadas ontem referem que naquela capital a Cmara dos
Deputados dividiu-se em duas. Essa dualidade de cmaras de deputados e de
senados tende a repetir-se, a multiplicar-se, a fixar-se nos vrios Estados
deste pas. No so fenmenos passageiros; so situaes novas, idnticas,
perdurveis. Os olhos de pouca vista alcanam nisto um defeito e um mal, e no
falta quem pea o conserto de um e a extirpao de outro. No ser consertar uma
lei natural, isto , viol-la? No ser extirpar uma vegetao espontnea, isto
, abrir caminho a outra?

Geralmente, as oposies no
gostam dos governos. Partido vencido contesta a eleio do vencedor, e partido
vencedor  simultaneamente vencido, e vice-versa. Tentam-se acordos, dividindo
os deputados; mas ningum aceita minorias. No antigo regmen iniciou-se uma
representao de minorias, para dar nas cmaras um recanto ao partido que estava
de baixo. No pegou bem,  ou porque a porcentagem era pequena,  ou porque a
planta no tinha fora bastante. Continuou praticamente o sistema da lavra
nica.

Os fatos recentes vo revelando
que estamos em vsperas de um direito novo. Sim, leitor atento,  certo que a
luta nasce das rivalidades, as rivalidades da posse e a posse da unidade de
governo e de representao. Se, em vez de uma cmara, tivermos duas, dois
senados em vez de um, tudo coroado por duas administraes, ambos os partidos
trabalharo para o benefcio geral. No me digam que tal governo no existe nos
livros, nem em parte alguma. Scrates,  para no citar Taine e consortes 
aconselhava ao legislador que, quando houvesse de legislar, tivesse em vista a
terra e os homens. Ora os homens aqui amam o governo e a tribuna, gostam de
propor, votar, discutir, atacar, defender e os demais verbos, e o partido que
no folheia a gramtica poltica acha naturalmente que j no h sintaxe; ao
contrrio, o que tem a gramtica na mo julga a linguagem alheia obsoleta ou
corrupta. O que estamos vendo  a impresso em dois exemplares da mesma
gramtica. Viro breve os tempos messinicos,  melhores ainda que os de Israel,
porque l os lobos deviam dormir com os cordeiros, mas aqui os cordeiros
dormiro com os cordeiros,  falta de lobos.

Enquanto no vm esses tempos
messinicos, vamo-nos contentando com os da Escritura, e com a semana santa que
passou. Assim passo eu de Manaus a Jerusalm.

H meia dzia de assuntos que no
envelhecem nunca; mas h um s em que se pode ser banal, sem parec-lo,  a
tragdia do Glgota. To divina  ela que a simples repetio  novidade. Essa
coisa eterna e sublime no cansa de ser sublime e eterna. Os sculos passam sem
esgot-la, as lnguas sem confundi-la, os homens sem corromp-la. O Evangelho
fala ao meu corao escrevia Rousseau;  bom que cada homem sinta este pedao
de Rousseau em si mesmo...

Entretanto, se eu adoro o belo
Sermo da Montanha, as parbolas de Jesus, os duros lances da semana divina,
desde a entrada em Jerusalm at  morte no Calvrio, e as mulheres que se
abraaram  cruz, e cuja distino foi to finamente feita por Lulu Senior,
quinta-feira, se tudo isso me faz sentir e pasmar, ainda me fica espao na alma
para ver e pasmar de outras coisas. Perdoe-me a grandeza do assunto uma
reminiscncia, alis incompleta, pois no me lembra o nome do moralista, mas foi
um moralista que disse ser a fidelidade dos namorados uma espcie de
infidelidade relativa, que vai dos olhos aos cabelos, dos cabelos  boca, da
boca aos braos, e assim passeia por todas as belezas da pessoa amada.
Espiritualizemos a observao, e apliquemo-la ao Evangelho.

Assim  que, no meio das
sublimidades do livro santo, h lances que me prendem a alma e despertam a
ateno dos meus olhos terrenos. No  am-lo menos;  am-lo em certas pginas.
Grande  a morte de Jesus, divina  a sua pacincia, infinito  o seu perdo. A
fraqueza de Pilatos  enorme, a ferocidade dos algozes inexcedvel...

Mas, no sendo primoroso o ltimo
ato dos discpulos, no deixa de ser instrutivo. Um, por trinta dinheiros,
vendeu o Mestre; os outros, no momento da priso, desapareceram, ningum mais os
viu. Um s deles, sem se declarar, meteu-se entre a multido, e penetrou no
pretrio entre os soldados. Trs vezes lhe perguntaram se tambm no andava com
os discpulos de Cristo; respondeu que no, que nem o conhecia, e,  terceira
vez, cantando o galo, lembrou-se da profecia de Cristo, e chorou. So Mateus,
contando o ato deste discpulo, diz que ele entrara no pretrio, com os
soldados, a ver em que parava o caso. Hoje diramos, se o Evangelho fosse de
hoje, a ver em que paravam as modas. Tal  a mudana das lnguas e dos
tempos!

Este versculo do evangelista no
vale o Sermo da Montanha, mas, usando da teoria do moralista a que h pouco
aludi, esta  a pontinha da orelha do Evangelho.

21 de abril

Esto feitas as pazes da China e
do Japo.

H muitos anos apareceu aqui uma
companhia de acrobatas japoneses. Eram artistas perfeitos, davam novidades,
tinham idias prprias. O efeito foi grande; representaram no sei se no Teatro
de S. Pedro, onde agora representam, fora de portas, uns engraxadores italianos,
se no antigo Provisrio, cuja historia no conto, por muito sabida, mas que
devia ser ensinada nas escolas para exemplo do que pode a vontade. Lembro s que
se chamava Provisrio, e foi construdo em cinco meses para substituir o Teatro
de S. Pedro, que ardera. J isto  bastante: mas, se nos lembrarmos tambm que o
Provisrio foi tal que ficou permanente, e passou a Grande Opera, teremos visto
que a vontade  a grande alavanca... O resto acha-se nos discursos de
inaugurao. Tambm se pode achar em verso, em algum hino ao progresso, pouco
mais ou menos assim:

Bate, Corta, Desfaz, Quebra,
Arranca,
Estas pedras que esto pelo
cho;
A vontade  a grande
alavanca.

Etc., etc.

Sabe-se o resto;  no perder de
vista a alavanca da vontade e ir por diante derrubando pedreiras, morros, casas
velhas, compondo estradas, muros, jardins, muita porta franca, muita parede
branca. A vontade  a grande alavanca. Tambm se pode fazer o hino sem sentido;
 mais difcil, mas uma vez que se lhe conserve a rima, tem vida, tem graa,
ainda que lhe falte metro. Afinal, que  o metro? Uma conveno. O sentido 
outra conveno.

Bem; onde estvamos ns? Ah! nos
japoneses. Eram exmios; a opinio geral  que eles no prestariam para mais
nada, mas que, em subir por uma escada de uma maneira torta, e fazer outras
dificuldades, ningum os desbancava. Deixaram saudades. Grandes artistas tivemos
de outras naes, Miss Kate Ormond, os irmos Lees... Onde vo eles? Talvez ela
tenha fundada alguma seita religiosa no Alabama; eles, se no dirigem alguma
companhia de vapores transatlnticos,  que dirigem outra coisa... Tudo mudado,
tudo passado. Os japoneses, no me canso de o dizer, eram exmios.

Meti-me, logo que eles se foram
embora, a estudar o Japo, de longe e nos livros. O pas tinha adotado
recentemente o governo parlamentar, o ministrio responsvel, a fala do trono, a
resposta, a interpelao, a moo de confiana e de desconfiana, os oramentos
ordinrios, extraordinrios, e suplementares. Parte da Europa achava bom, parte
ria; uma folha francesa de caricaturas deu um quadro representando a sada dos
ministros do gabinete imperial com as pastas debaixo do brao. Que chapus! Que
casacos! Que sapatos! O Japo deixava rir e ia andando, ia estudando, ia
pensando. Tinha uma idia. Os povos so como os homens; quando tm uma idia,
deixam rir e vo andando. Parece que a idia do Japo era no continuar a ser um
pas unicamente de curiosos ou de estudiosos, de Loti e outros navegadores.
Queria ser alguma coisa mais alta, coisa que at certo ponto mudasse a face da
terra.

No me digam que a idia era
ambiciosa. Sei que sim; a questo  se a frase  ambiciosa tambm, e aqui  que
eu vacilo, no por falta de convico, mas de papel e de tempo. A demonstrao
seria longa. Contentem-se em crer, e vo seguindo, meio desconfiados, se querem.
Concordo que, depois dos boatos montevideanos e rio-grandenses, sobre
revolues, separaes e saques, h lugar para duvidar um pouco das vitrias
japonesas.

Eu creio no Japo. Na tragdia
conjugal que houve h dias na rua do Mattoso, at a acho o meu ilustre valente
Japo. No  s porque tais peas tm l o mesmo desfecho, mas pelo estilo dos
depoimentos das testemunhas do caso. Segundo um velho frade que narrou as
viagens de S. Francisco Xavier por aquelas terras, h ali diversos vocabulrios
para uso das pessoas que falam, a quem falam, de que falam, que idade tm quando
falam e quantos anos tm aquelas a quem falam, no sabendo unicamente se h
diferena de vares ou damas; o Padre Lucena  muito conciso neste capitulo.
Pois depoimentos das testemunhas de c usaram, quando muito, dois vocabulrios,
sendo um deles inteiramente contrrio ao de Sfocles. Po po, queijo queijo. E'
claro que a justia, sendo cega, no v se  vista, e ento no cora.

Viva o japonismo! Dizem telegramas
que a idia secreta do Japo  japonizar a China. Acho bom, mas se  s
japonizar a crosta, no era preciso fazer-lhe guerra. No faltam aqui salas, nem
gabinetes, nem adornos japnicos. Os irmos Goncourts gabam-se de terem sido na
Europa os inventores do japonismo. Um bom leiloeiro, quando apregoa um vaso sem
feies vulgares, chama-lhe japons, e vende-o mais caro. Viva o japonismo!
Quanto a mim, as pazes com a China esto feitas, e, por mais que as condies
irritem a Europa, como h agora mais uma grande potncia no mundo,  preciso
contar com a vontade desta, e eu continuarei a ler com simpatia, mas sem f, a
propaganda do Sr. Dr. Nilo Peanha a favor do arbitramento entre as naes. Para
deslindar questes, creio que o arbitramento vale mais que uma campanha; mas
para fazer andar as coisas do mundo e do sculo, fio mais de Yamagata e seus
congneres.

28 de abril

Que dilvio, Deus de No! Escrevo
esta semana dentro de uma arca, esperando acab-la, quando as guas todas
houverem desaparecido. Caso fiquem, e no cessem de cair outras, conclu-la-ei
aqui mesmo, e mand-la-ei por um pombo-correio. A arca  um bond. No 
um No deste sculo industrial; leva-nos pagando. Fala espanhol, que  com
certeza a lngua dos primeiros homens.

A princpio no tive medo; cuidei
que eram dessas chuvas que passam logo. Quando, porm, os elementos se
desencadearam deveras, e as ruas ficaram rios, as praas mares, ento supus que
realmente era o fim dos tempos. As rvores retorciam-se, os chapus voavam,
toalhas de gua entravam pelas casas, outras desciam dos morros, cor de barro.
Carro nem tlburi disponveis. Algum veiculo particular que aparecia, ou levava
o dono, ou esperava por ele. Bonds apenas, mas poucos, alagados, sem
horrio, quase sem cortinas. Entramos alguns em um, e o bond comeou, no
a andar, mas a boiar, boiou a noite inteira, ainda agora bia.

Impossvel foi dormir. Ento
conversamos, lemos, contamos histrias; as senhoras rezavam, as meninas riam. Um
sujeito, querendo ligar o interesse municipal ao interesse humano, falou do
recuo. A ateno foi geral e pronta. Vinte minutos depois j ningum queria
ouvir as opinies consubstanciadas no discurso do orador, nem as deste, nem os
textos legais e outros. A palavra amolao comeou a roar os lbios.
Notei que a maioria presente era de proprietrios, e naquela situao e hora era
difcil achar matria mais deleitosa de conversao; mas o nosso mal verdadeiro,
local e perpetuo  a amolao. H anos sem febre amarela, o clera-morbo aparece
s vezes, o crupe tambm e outras enfermidades, mas todas se vo, e alguns vamos
com elas; a amolao no sai nem entra; aqui mora, aqui h de morrer. O sujeito
do recuo teimou, outro desafiou-o, as senhoras pediram que no
brigassem.

Os homens, cavalheiros at no
dilvio, intervieram no debate e falaram de outras tantas coisas, uns do sul,
outros do norte, alguns do negcio dos bichos. Os bichos trouxeram-nos o
pensamento ao dilvio presente e passado, ao bond e a arca de No.
Pediram-me a velha histria bblica. Contei-a, como podia, e perguntei-lhes se
conheciam o Fruto Proibido. Como a fala no sai em grifo, no se pode
conhecer se a pessoa repete um ttulo ou alguma frase. Da o gesto indecoroso de
um passageiro, que entrou a assobiar a Norma. Citei ento o nome do
Coelho Neto, e disse que se tratava de um livro agora publicado.

Coelho Neto conhece a Escritura e
gosta dela; mas ser o seu amor daqueles que aceitam a pessoa amada, apesar de
alguns defeitos, ou at por causa deles? perguntei. Toda a gente se calou,
exceto um ingls, que me retorquiu que a Bblia no tinha defeitos. Concordei
com ele, mas expliquei-lhe que, amando Coelho Neto a Bblia, escreveu um livro
que a emenda, de onde se v que no  to cego o seu amor, que lhe no veja
algumas lacunas. Mostrei-lhe ento que o Fruto Proibido  o contrrio dos
captulos II e III do Gnesis. Em vez de permitir o uso de toda a fruta
do paraso, menos a da arvore da cincia do bem e do mal, Coelho Neto encheu o
paraso de frutos proibidos, e disse aos homens, mais ou menos, isto:

 Dou-vos aqui um jardim, de cujas
arvores no podeis comer um s fruto; mas, como  preciso que vos alimenteis,
untei cada fruto com o mel do meu estilo, e ele s bastara para
nutrir-vos.

Os homens obedeceram e obedecem 
vontade do jovem Senhor; mas o mel esta to entranhado no fruto, e  to
saboroso, que lamber um e comer o outro  a mesma coisa. Deste modo eliminou a
viscosa serpente, e no atirou toda a culpa para cima de Eva; guardou a maior
parte para si.

Todos acharam engenhosa a idia do
autor, emendando a escritura, sem parecer faz-lo, menos o ingls, que me
perguntou se esse moo no tinha outra coisa em que ocupar o esprito. Tem
outras coisas, respondi; ele mesmo confessa no prefacio que escreveu este livro
para repousar de outros.  um trabalhador que acha meio de descansar carregando
pedra. Compe romances, compe artigos, compe contos, e ainda agora vai tomar a
si uma parte da redao dos debates parlamentares...

 Sim? interrompeu-nos uma
senhora, a mim e a um padre-nosso. Pois se se d com ele, pea-lhe que, depois
das paginas que houver de escrever em casa, recolha o seu estilo a algum vaso de
porcelana da Saxnia ou vidro de Veneza, e v sem ele aos debates. Meu marido,
que l muito (onde andara ele a esta hora, meu Deus!) afirma que  de boa regra
no confundir os gneros. Se houver discursos proibidos, literariamente falando,
no lhes ponha o mel do seu estilo; talvez que assim a virtude torne a este
mundo.

Francamente, no entendi a
senhora, que continuou a rezar o seu padre-nosso: ...seja feita a vossa
vontade, assim na terra... Eu deixei-me ir ao assunto natural da ocasio, a
abertura do Congresso Nacional. Alguns duvidavam, por causa do dilvio. Era
impossvel que deputados e senadores se reunissem debaixo de tanta gua e vento.
Um adversrio ou inimigo pessoal do Sr. Zama censurou fortemente a este
deputado, que traz a histria romana na ponta dos dedos e ainda se no lembrou
de dizer a Bahia, seu Estado natal, que Roma no prosperou com dois senados, mas
com um, de onde lhe veio a fora grande, e escrever por a um Tito Livio. A
poltica, durante alguns instantes, tomou conta da conversao. Ambos os
senadores tiveram defensores, e ardentes. No faltou quem os adotasse juntos. Eu
cheguei a pensar comigo, se no melhorariam as coisas havendo um terceiro
senado...

Assim passamos as horas, e rompeu
o dia de sbado, sempre debaixo de gua. J havia fome, porque o No espanhol
que nos levava, no cuidara da comida, ningum jantara, o cu continuava turvo e
a gua caa a jorros. Deu-nos ento para dizer mal dos amigos, e afinal de nos
mesmos. Raro vinham coisas estranhas ou passadas. Algum lembrou a revoluo de
Santiago, provncia argentina, no princpio da semana, revoluo em que morreu
um homem e fugiu o governador. O ingls disse que no se devia chamar revoluo
ao movimento em que morre uma pessoa s. Qual  a semana, perguntou bufando, em
que no morre algum debaixo de um bond eltrico? E bond eltrico
 revoluo? No sentido cientfico, de certo; mas, como ao popular, no. A
diferena nica  que o governador de Santiago desapareceu, coisa que j no faz
nenhum cocheiro de bond, para no perder dois ou trs dias de ordenado
sem necessidade alguma...

A fadiga era tal que ningum
contestou o ingls, e deixou-o falar enquanto quis. Todos abrimos a boca de fome
e de sono. Continuamos a boiar, no sei por quanto tempo; os nossos relgios
tinham parado. De repente ouvimos um clamor vago, depois mais claro e forte. Era
um rapaz que berrava:

 Vinte contos! Loteria Nacional!
Hoje!

Estvamos em terra.

5
de maio

Antes de acabar o sculo, quisera
dar-lhe um titulo; falo do nosso sculo fluminense. No  de uso que os sculos
se contem na vida das cidades. Roma era o mundo romano. Atenas era a civilizao
grega. A rigor, as cidades mdias e mnimas deviam ter os seus sculos menores,
cinqenta anos as primeiras e vinte e cinco as outras,  um quarteiro, como se
dizia outrora das sardinhas, e creio que das laranjas tambm. Mas a nossa boa
capital, por ser a ditosa ptria minha amada, ou por diversa causa, poderia ter
o seu sculo mais crescido que os de cinqenta anos. V cinqenta anos. Antes
que termine este prazo, contado de 1850, procuremos ver que nome se lhe h de
por.

Puxei pela memria, achei, tirei,
comparei, fiz, desfiz, sem positivamente chegar a resultado certo at ontem.
Notai que vim desde o princpio da semana. No quis saber de boatos, nem
sucessos, nem dos movimentos de mar e terra, nem da deposio e reposio do
governador das Alagoas, abertura de congresso, nada, nada. Ao cabo de muita
pesquisa v, quase desesperado dos meus esforos, consegui achar o nome do
sculo. Pode ser que haja erro; mas essa parte da critica fica para o leitor, a
minha parte  crer,  crer e louvar,  no digo louvar a maneira de Garret, que
atribua ao editor todas as coisas excelentes que pensava de si, e ns com ele.
No; basta um louvor discreto, meio apagado, leve e breve, um sussurro de
admirao.

Que achei eu do nosso sculo
carioca? Achei que ser contado como o sculo dos jardins.  primeira vista
parece banalidade. O jardim nasceu com o homem. A primeira residncia do
primeiro casal foi um jardim, que ele s perdeu por se atrasar nos alugueis da
obedincia, donde lhe veio o mandado de despejo. Verdade  que, sendo meirinho
no menos que o arcanjo Miguel, e o texto do mandado a poesia de Milton, segundo
crem os poetas, valeu a pena perder a casa e ficar ao relento. Vede, porm, o
que  o homem. O arcanjo, depois de lhe revelar uma poro de coisas sublimes e
futuras, disse-lhe que tudo que viesse a saber, no o faria mais eminente; mas
que, se aprendesse tais e tais virtudes (f, pacincia, amor), no teria j
saudades daquele jardim perdido, pois levaria consigo outro melhor e mais
deleitoso. No obstante, o homem meteu-se a comprar muitos jardins, alguns dos
quais ficaram na memria dos tempos, no contando os particulares, que so
infinitos.

Sendo assim, em relao ao homem,
que h a respeito do carioca, para se lhe dar ao sculo a denominao especial
que proponho? Certo, no  s o amor das flores, em gozo sumo, que me leva a
isto.  a elevao do sentimento,  a crescente espiritualidade deste amor. Ns
amamos as flores, embora nos reservemos o direito de deitar as arvores abaixo, e
no nos aflijamos que o faam sem graa nem utilidade.

Nos primeiros tempos do Passeio
Publico, o povo corria para ele, e o nome de Belas Noites, dado a rua das
Marrecas, vinha de serem as noites de luar as escolhidas para as passeatas.
Sabeis disso; sabeis tambm que o povo levava a guitarra, a viola, a cantiga, e
provavelmente o namoro. O namoro devia ser inocente, como a viola e os costumes.
Onde iro eles, costumes e instrumentos? Eram contemporneos da Revoluo
Francesa, foram com os discursos dela. Enquanto Robespierre caa na Conveno,
ouvindo este grito: Desgraado!  o sangue de Danton que te afoga! o nosso
armador cantava com ternura na guitarra:

Vou-me embora, vou-me
embora,
Que me do para levar?
Saudades, penas e
lgrimas
Eu levo para chorar.

Mas reduzamos tudo aos trs
jardins, que me levam a propor tal titulo a este sculo da nossa
cidade.

O primeiro, chamado Jardim
Botnico, no tinha outrora a concorrncia do Passeio Pblico, antes e depois do
Glaziou; ficava longe da cidade, no havia bonds; apenas nibus e
diligncia. O lugar, porm, era to bonito, a grande alameda de palmeiras to
agradvel, que dava gosto ir l, por patuscada, ou com a segurana de no achar
muita gente, coisa que para alguns espritos e para certos estados era a delcia
das delicias. Os monlogos de uns e os dilogos dos outros no ficaram escritos;
menos ainda foram impressos; mas haveria que aprender neles. Defronte havia uma
casa de comida, onde os cansados do passeio iam restaurar as foras. Tambm se
ia ali  noite. Uma noite...

Uma noite (v esta velha anedota)
estava um amigo meu no Clube Fluminense, jogando o xadrez, entre nove e dez
horas. Era um mocinho, com uma ponta de bigode, e outra de constipao. Tinha o
plano de acabar a partida, e ir deitar-se. Vieram dizer-lhe que estavam em baixo
dois carros abertos, com pessoas dentro, que o mandavam chamar. De um golpe
acabou a partida, e desceu.

 Leandrinho, anda ao Jardim
Botnico; vamos cear.

 No posso, estou constipado, e
j tomei ch; no posso.

 Pois no ceies, mas fala s;
constipao cura-se com a lua. Olha que luar!

Leandrinho subiu a um dos carros,
onde iam dois amigos e uma bela moa; arranjou-se como pde, e os carros
entraram pela rua do Lavradio. Chegaram ao Jardim Botnico. A casa de comida
estava fechada; abriu as portas e foi fazer ceia. Eram trs as moas amadas,
trs os rapazes amados, e outros trs apenas alegres. Um destes, o Leandrinho,
quis tratar a constipao pela conversao; mas foi triste e mero desejo. O amuo
de dois namorados, a rusga de outros dois, trouxeram o constrangimento 
reunio. Quando veio a ceia, todos estavam aborrecidos, mais que todos o
Leandrinho, que suspirava pelo momento da volta. A comida e a bebida trouxeram
alguma animao; ao champanhe estava quase restabelecida a alegria. Recusando
tudo, comida ou bebida, Leandrinho no pde deixar de aceitar uma ameixa seca,
oferecida por uma das mos femininas.

 Que mal lhe pode fazer esta
fruta inocente?

Realmente, nenhum; Leandrinho
comeu a ameixa. Ergueram-se todos da mesa, cantaram ao piano, danaram uma
quadrilha, fumaram, at que ouviram bater duas horas. Dispuseram-se  volta, e
pediram a conta. Leandrinho, tonto de febre, no viu a soma total; ouviu s que,
rateadas as despesas, tinha ele que entrar com a quantia de nove mil e
quatrocentos.

 No se imagina, dizia ele alguns
anos antes de morrer, contando esse caso, no se imagina o meu assombro. Tive
mpeto de quebrar tudo; mas era to sincero o aspeto dos rapazes, e a presena
das moas obrigava a tanto, que no recusei a minha quota. Uma ameixa e uma
febre por nove mil e quatrocentos.

Quando ele morreu, o Jardim
Botnico via j crescer o numero dos visitantes. No transcrevo aqui a
estatstica do ms passado, para no atravancar este artigo com algarismos.
Podeis l-la nos jornais de ontem. O total das pessoas foi 2.950, a saber, 1.461
homens, 990 senhoras e 499 crianas. A cidade ama os jardins.

Logo depois do Jardim Botnico,
surgiu o Jardim Zoolgico. No  possvel contar a concorrncia deste; tem sido
enorme, e seria infinita, se lhe no fechassem as portas; mas h quem diga que 
fechamento temporrio, para o fim nico de reformar e limpar as plantaes,
iniciar outras, e abrir as portas oportunamente. No sei se a este foram tambm
Leandrinhos, nem se l perderam nove mil e quatrocentos; se os no perderam, 
porque os ganharam.

Terceiro jardim:  o recente
jardim Lotrico. No ligo bem estes dois nomes; parece que h l corridas, ou
que quer que seja, pois as vezes ganha o Camelo, outras o Avestruz, ou o Burro.
No dia 3 ganhou o Leo. No dia 4 at a hora em que escrevo, no sei quem ter
vencido... A cidade  sempre o homem do primeiro jardim. Tem a f, tem a
pacincia, tem o amor, mas no h meio de achar um jardim em si mesma, e vai
tecendo o sculo com outros. Creio que fiz um verso: E vai tecendo o sculo com
outros.

12 de maio

No meio dos problemas que nos
assoberbam e das paixes que nos agitam, era talvez ocasio de falar da
escritura fontica. O fonetismo  um calmante. H quem o defenda
convencidamente, mas ningum se apaixona a tal ponto, que chegue a perder as
estribeiras.  um princpio em flor, uma aurora, um esboo que se completara
algum dia, daqui a um sculo, ou antes. A Academia Francesa, bastilha
ortogrfica, ruir com estrondo; os direitos do som, como os do homem, sero
proclamados a todo o universo. A revoluo estar feita. A tuberculose
continuara a matar, mas os remdios viro da farmcia. Talvez haja um
perodo de transio e luta, em que as escolas se definam s pelo nome; e a
pharmacia e a farmcia defendam o valor das suas drogas pela
tabuleta. Ph contra f. Vira a um problema de pacificao, como o
que temos no Sul, mas muito fcil; bastar restaurar por decreto a velha botica,
vocbulo que s se pode escrever de um modo. Todos morrero com a mesma tisana e
pelo mesmo preo.

A Amrica segue os passos da
Europa, estudando estas matrias. Na do Norte, em New York, uma
associao filolgica prope grandes alteraes no ingls e no francs. No
francs acha que  bonito ou fontico escrever demagog, em vez
demagogue, e prope que se substitua gazete por gazet. Nos
aqui poderamos adotar j este processo, escrevendo cacet  em vez de
cacete; a economia ser grande, quer se trate de gente viva, quer
propriamente de pau. Quanto ao ingls, a associao de New York converte
o benefcio em dollars, que  ainda mais fontico: Milhes de
dollars so gastos todos os anos em escritura e impresso de letras
inteis. Enfim leio no Jornal do Comrcio que a associao props j ao
Congresso uma lei que obrigue os tipgrafos a se conformarem com alteraes que
ela indicara ou j indicou.

O mal que vejo nessa lei, se vier,
 um s;  que os partidos possam adotar cada um o seu sistema. A eleio
alterar as feies do impresso. Mas tambm isto pode ser vantajoso no futuro;
as folhas, os anais, as leis, as proclamaes, e finalmente os versos e
romances, diro pelo aspeto das palavras e perodo a que pertencem, auxiliando
assim a histria e a crtica.

As senhoras, enquanto no
principia essa guerra de escritas, vivem em paz com ortografias e naes.
Sabe-se que as herdeiras americanas fornecem duquesas s velhas famlias da
Europa, casando com duques de verdade. Todas as naes daquele continente
possuem belos exemplares da moa dos Estados Unidos. H cerca de dois meses
estavam para casar, ou j tinham casado, no sei que duque ou marqus da legao
francesa com uma das belas herdeiras da Amrica. Ora, como o amor tem uma s
ortografia, pode a Associao Filolgica de New York lutar com a Academia
Francesa, para saber como se h de escrever love e amour; jovem
casal usara da nica ortografia real e verdadeira.

Essa fascinao pela Europa  vezo
de mulheres. Tambm h dois meses casou em Tquio, Japo, um conde diplomata,
encarregado de negcios da ustria, com uma moa japonesa. Essa  fidalga; no
foi pois o gosto do ttulo que a levou ao consrcio; foi o amor, naturalmente, e
logo o desejo da Europa. Era da religio bdica, fez-se catlica romana. No
tardar que chegue a Viena, onde brilhar ao lado do esposo, por mais que a
matem as saudades de Tquio.

As moas brasileiras tambm gostam
da Europa. J desde o princpio do sculo XVIII morriam por ela, recitando de
corao este verso, ainda no composto:

Eu nunca vi Lisboa e tenha
pena.

Lisboa era ento, para esta
colnia, toda a Europa. Tinham pena de no conhecer Lisboa; mas, como ir at l,
se os pais no podiam deixar o negocio? As moas eram inventivas, entraram a
padecer de vocao religiosa, queriam ser freiras. Como nesse tempo havia mais
religio que hoje, ningum podia ir contra a voz do cu, e as nossas patrcias
saam a rasgar as salsas ondas do oceano, como ento se dizia do mar, at
desembarcar em Lisboa.

O governo ficou aterrado. Tal
emigrao despovoava a mais rica das suas colnias. Cogitou longamente, e
expediu o alvar de 10 de maro de 1732 proibindo a ida das mulheres do Brasil
para Portugal, com o pretexto de ser freira. O pensamento do alvar era s
poltico; mas teve tambm um efeito literrio, conservando neste pas uma das
avs do meu leitor. No bastando a proibio escrita, o alvar estabeleceu que
fossem castigados os portadores de to gracioso contrabando. Eis os seus termos:
O capito ou mestre do navio pagar por cada mulher que trouxer 2.000 cruzados,
pagos da cadeia, onde ficar por tempo de dois meses.

Dois meses de priso, e dois mil
cruzados de multa; eram duros; cessou o transporte. Nesse ato do governo da
metrpole, o que mais me penetra a alma,  a frase: pagos da cadeia. Quem seria
o oficial de secretaria que achou tal frase, se  que no era algum chavo de
leis? Nasceu para escritor, com certeza. Busquem-me a outra mais simples, mais
forte e mais elegante. Os governos modernos tm a linguagem frouxa, derramada,
vaga principalmente, cheia de atenes e liberalismo. Qualquer lei moderna mais
ou menos diria assim: O capito ou mestre de navio, logo que verifique o delito
de que trata o artigo tal, ficar incurso na pena de dois meses e na multa de
oitocentos mil ris por cada mulher que transportar, sendo a multa recolhida ao
tesouro, etc.. Comparai isto com a rudeza e conciso do alvar: pagos da
cadeia. Quer dizer: primeiro  pegado o. sujeito e metido na priso, a entrega
os milhares de cruzados da multa, e depois fica ainda uns dois meses sossegado.
Pagos da cadeia!

19 de Maio

Quando visitei a frica, em 1891,
fui encontrando muitos senadores e deputados, que percorriam aquela regio, a
fim de averiguar-lhe os recursos e as necessidades. A questo argelina tinha
sido novamente levantada nas cmaras; discutira-se muito sem resultado; e, como
 de uso, resolveram fazer um inqurito. Os polticos iam assim esclarecer-se no
prprio territrio.

No citaria to longo pedao de um
livro, seno pela utilidade que ele pode ter relativamente aos nossos costumes
parlamentares. Entenda-se bem; no abri o livro para conhecer da questo
argelina, mas porque o autor, arquelogo de nomeada, convidava-me a ir ver as
runas de Cartago. No faltam guias sagazes para as terras cartaginesas, sem
contar Flaubert, com o gnio da ressurreio, nem Virgilio com o da inveno.
Assim que, foi s o acaso que me ps ante os olhos o trecho transcrito. Sabem
que no entendo de poltica, nem de agronomia.

Nem tudo exigira entre nos exame
local; mas casos h em que ele pode ser til. A questo do sul, por
exemplo.

A questo do sul  o nosso n
grdio. H geral acordo em acabar com ele; a divergncia esta no modo, querendo
uns que se desate, outros que se corte. Na Cmara dos deputados, aberta h oito
dias, no se tem tratado de outra coisa; todos os discursos, ainda os que no
querem tocar no sul, acabam nele, ou passam por ele. No se fala tranqilo, mas
ardendo, os apartes fervem, o sussurro cobre a voz dos oradores, no h acordo
em suma. Tal qual a questo argelina, nas cmaras francesas.

Que competncia tenho eu para
aconselhar alvitres? Tanto quanto para fazer caramelos. Contudo, quer-me parecer
que, antes de qualquer tentativa de acordo parlamentar, no ficava mal um
inqurito. No digo rigoroso inqurito, pois que este substantivo s se liga
quele adjetivo, nos casos meramente policiais. Uma firma comercial de So Paulo
perdeu esta semana um dos seus scios, que se retirou deixando saudades e um
desfalque. O telgrafo referiu o caso, acrescentando que a polcia abrira
inqurito. ' a primeira vez, desde que me entendo, que vejo abrir nesses casos
um simples inqurito. Tais inquritos so sempre rigorosos. Formam estas duas
palavras o complemento de um verso para a tragdia que houver de por em cena
algum grave crime:

Crime nefando! Rigoroso
inqurito!

Nos casos de cincia ou de
poltica, os inquritos so simples. Se tal recurso for agora adotado, podem
muitos membros do Congresso ir ver as coisas do sul por seus prprios olhos, a
fim de recolher informaes locais e diretas. Aqui surge uma dificuldade no
pequena. Se, depois de tudo visto, observado, comparado, cada um voltar com a
sua opinio? No  improvvel este resultado. Geralmente, as lutas polticas so
j efeito de opinies anteriores. Os partidos formam-se pela comunho das
idias, e duram pela constncia das convices. Se a vista de um fato, a
audincia de um discurso, bastassem para mudar as opinies de uma pessoa, onde
estariam os partidos? H pessoas que se persuadem com muito pouco, e mudam de
acampamento, mas  com o direito implcito de tornar ao primeiro, ou ir a outro,
logo que as despersuadam da idia nova. So casos raros de filosofia. O geral 
persistir. Dai s pedras de uma muralha a faculdade de trocar de atitude, e no
tereis j muralha, mas um acervo de fragmentos.

Se alguma beleza h no que acabo
de dizer,  o senso comum que lha d. So trusmos, so velhas banalidades.
Renan defendeu a banalidade com tal graa, que eu, apesar de ter opinio
adversa, acabei crendo nela a pu-la na minha ladainha: Santa Banalidade, ora
pro nobis. Talvez Renan quisesse debicar-me; os grandes escritores tm
dessas tentaes nfimas, mas  preciso que no sejam pedras de muralhas. E da
pode ser que as prprias pedras debiquem os homens...

As pedras valem tambm como
runas. Possuo um pedacinho de muro antigo de Roma, que me trouxe um dos nossos
homens de fino esprito e provado talento. Quando h muita agitao em volta de
mim, vou  gaveta onde tenho um repositrio de curiosidades, e pego deste pedao
de runa;  a minha paz e a minha alegria. Orgulhoso por ter um pedao de Roma
na gaveta, digo-lhe: Cascalho velho, d-me notcias das tuas faces antigas.
Ao que ele responde que houve efetivamente grandes lutas, mais ou menos
renhidas, mas acabaram h muitos anos. Os prprios pssaros que voavam ento
sobre elas, sem medo, ou por qualquer outra causa, esses mesmos acabaram. Vieram
outros pssaros, mas filhos e netos dos primeiros. Nunca dir que entre os
pardais que tem visto, nenhum fosse o prprio pardalzinho de Lsbia... E cita
logo uns versos de Catulo.

 Latinidade! exclamo;  com o
nosso Carlos de Laet. Onde estar ele?

 Em Minas, respondeu-me
hoje o editor de um livro cheio de boa linguagem, de boa lio, de boa vontade,
e tambm de coisas velhas contadas a gente nova, e coisas novas contadas a gente
velha. Compreendi que este Em Minas era antes o nome do livro de Laet,
que a indicao do lugar em que ele estava. No sendo novidade, porque acabava
de o ler, e trazia na memria a erudio e a graa do ilustre escritor, no
disse mais nada ao meu torro de muro romano; ele, porm, quis saber que tinha
esse homem com a cidade antiga, e eu respondi que muito, e li-lhe ento uma
pgina do livro.

 Com efeito, disse o meu pedao
de muro, a lngua que ele escreve, com pouca corrupo, creio que  latina. H
Catulos tambm por esta terra?

 A ternura  a nossa corda, e o
entusiasmo tambm. Ambos esses dotes possui este poeta, Alberto de Oliveira,
segundo nos diz o mestre introdutor Araripe Jnior, do recente livro Versos e
Rimas. Ttulo simples, mas no te fieis em ttulos simples; so inventados
para guardar versos deleitosos. H aqui desses que te fartaro por horas; l a
Extrema Verba, Num telhado, Metempsicose, O muro,
Teoria do Orvalho, l o mais. Esse moo sente e gosta de dizer como
sente. Canta o eterno feminino.

 No conheo a
expresso.

  moderna; inveno do homem,
naturalmente, mas uma mulher vingou-se, h dias  mulher ou pseudnimo de mulher
 Dlia... No  a Dlia de Tbulo, Dlia apenas, que escreveu uma pagina na
Notcia de sexta-feira, onde diz com certa graa que o mal do mundo vem
do eterno masculino.

26 de Maio

Sou eleitor, voto, desejo saber o
que fazem e dizem os meus representantes. No podendo ir s cmaras, aprovo este
meio de fazer da prpria casa do eleitor uma galeria, taquigrafando e publicando
os discursos.  assim que acompanho a vida dos meus representantes, as opinies
que exprimem, o estilo em que o fazem, as risadas que provocam e os apoiados que
alcanam. A publicao  a fotografia dos debates.

Entretanto, disse-se agora uma
coisa no Conselho Municipal que absolutamente me deixou s escuras. Um
intendente,  e, no havendo injria, nisto, no sei por que lhe no ponho o
nome, o Sr. Cesrio Machado deu este aparte: H carros da Companhia Carris
Urbanos que podem comportar perfeitamente quatro passageiros em cada banco. A
isto replicou o Sr. Julio Carmo: Magros como eu, mas no gordos como V. Ex.
Explicou o Sr. Cesrio Machado: Passageiros regulares.  claro que, em tais
casos, no h meio de conhecer o alcance das afirmaes. Se os intendentes
falassem de gordura e magreza, em geral, teramos uma idia aproximada dos
bancos; mas um deles definiu a gordura e a magreza pelos nomes das pessoas, e
no conhecendo ns a gordura do Sr. Cesrio, nem a magreza do Sr. Carmo, ficamos
sem entender esta explicao do primeiro: Passageiros regulares. O regular
aqui  o termo mdio entre o primeiro e o segundo.

Como suprir essa lacuna e outras
da publicao dos debates? Empregando a gravura. Uma gravura que nos desse no
prprio texto, no lugar da troca dos apartes, as figuras dos dois intendentes,
com a diferena visual da abundancia e da escassez das carnes, e a competente
escala mtrica, poria a idia inteiramente clara, e qualquer de ns acharia na
prpria ata os elementos para julgar da votao do conselho. Fora disso,
palavras, palavras, palavras.

A gravura pode, na verdade,
prestar grandes servios a este respeito. Falo aqui, porque j em outras partes,
mormente nos Estados Unidos da Amrica, ela  a irm natural do texto. As folhas
andam cheias de retratos, cenas, salas, campos, armas, mquinas, tudo o que
pode, melhor ou mais prontamente que palavras, incutir a idia no crebro do
leitor. No h por essas outras terras notcia de casamento sem retrato dos
noivos, nem decreto de nomeao sem a cara do nomeado. Ns podamos ensaiar
politicamente, e mais extensamente, essa parte do jornalismo.

Os discursos ilustrados teriam
outra vida e melhor efeito. O pensamento do orador, nem sempre claro no texto,
ficaria clarssimo. As cenas tumultuosas seriam reproduzidas. Uma das regras,
que podiam ser fixas, era fazer preceder cada discurso pelo retrato do orador,
com a atitude que lhe fosse prpria e habitual, ou a que tivesse naquela
ocasio. Tambm se podiam reproduzir pela gravura as figuras de retrica, e,
quando conviesse, as peroraes.

A amizade pessoal ou poltica
podia favorecer assim mais um orador que outros, dando maior nmero de gravuras
a um amigo ou correligionrio. Nem contesto que um ou outro orador, sabendo
desenhar, levasse por si mesmo  imprensa as imagens que lhe parecessem
necessrias e dignas. O primeiro caso podia trazer inconvenientes, mas tendo
cada um os seus amigos, nenhum ficaria propriamente na misria. O segundo era
legtimo. Alm de auxiliar a imprensa, aquele orador que assim praticasse, faria
a maior parte da sua reputao, dever que no cabe s ao homem particular, mas
tambm ao publico

A mim poucas coisas me fortalecem
tanto como ver cumprir da parte de um homem, particular ou pblico, esse dever
humano: O verdadeiro homem pblico  o que no deixa esse encargo exclusivamente
aos outros, mas toma uma parte, a mais pesada, sobre os seus prprios ombros.
Nem de outro modo se pode servir utilmente a ptria. A ptria  tudo, a rua, a
casa, o gabinete, o templo, o campo, o poro, o telhado,  mais ainda o telhado
que o poro; o telhado confina com o azul, e o azul  o zimbrio da
felicidade...

Nem sempre o ser, creio; mas os
conceitos falsos, e principalmente absolutos, sendo brilhantes, parecem verdades
puras. Toda a questo  express-los com o gesto largo e a convico nos beios.
Imaginai que o perodo anterior  a concluso de uma arenga, dita com os braos
estendidos, as mos abertas e voltadas para baixo, os polegares unidos, dando
uma imagem vaga do zimbrio. Imaginai isto, dizei se o prprio teto azul no
viria abaixo com palmas.

Alguns, vendo esta minha
insistncia, suporo que ando com o crebro um pouco desequilibrado. Melancolia
 meia demncia. Ora, eu ando melanclico, depois que li que acabou a parede dos
alfaiates de Buenos Aires. A elegante Buenos Aires  um ponto da terra; mas
Nazar tambm o era, e de l saiu Jesus; tambm o era Meca, e de l saiu
Mafamede. Comparo assim coisas to essencialmente opostas, como a f crist e a
peste muulmana, para mostrar que o bem e o mal do mundo podem vir de um ponto
escasso. De Buenos-Aires contava eu que viesse uma religio nova.

A parede dos alfaiates ia
estender-se, alastrar pela Amrica, transportar-se  Europa, e passar de l a
toda a parte do globo onde o homem veste o homem. A constncia dos paredistas, o
orgulho do desespero, ajudados pela ao do tempo, iriam acabando com as
casacas, coletes e calas. Os criados receberiam ordem de servir em mangas de
camisa. A criada obrigaria os amos  adoo da simples camisa e do resto. A
natureza readquiriria assim metade dos seus direitos; era a nova religio
esperada. Se no falo da costureira,  porque a natureza  s uma, e os vestidos
seguiriam o rumo das casacas... A decncia seria muito menor; mas que
economia!

2
de junho

Quando me deram notcia da morte
de Saldanha Marinho, veio-me  lembrana aquele dia de julho de 1868, em que a
Cmara liberal viu entrar pela porta o Partido Conservador. H vinte e sete
anos; mas os acontecimentos foram tais e tantos, depois disso, que parece muito
mais.

Os liberais voltaram mais tarde,
tornaram a cair e a voltar, at que se foram de vez, como os conservadores, e
com uns e outros o Imprio.

Jovem leitor, no sei se acabavas
de nascer ou se andavas ainda na escola. Dado que sim, ouvirs falar daquele dia
de julho, como os rapazes de ento ouviam falar da Maioridade ou do fim da
Repblica de Piratinim, que foi a pacificao do Sul, h meio sculo.

Certo, no ignoras o que eram as
recepes de ministrios ou de partidos, viste muitas delas, e a ltima h seis
anos. Hs de lembrar-te que a Cmara enchia-se de gente, galerias, tribunas,
recinto. Na ltima recepo, em 1889, ouvi que alguns espectadores, cansados de
estar em p, sentaram-se nas prprias cadeiras dos deputados. Creio que
antigamente no vinha muita gente ao recinto, mas a populao da cidade era
muito menor. A estatstica  a chave dos costumes. Demais, no esqueas a
ternura do nosso corao, a cultura da amizade, o gosto de servir, a necessidade
de mostrar alguma influncia, e por fim a indignao, que leva um grande nmero
de pessoas a entrar com os ombros. Compreende-se, alis, a curiosidade pblica.
O acontecimento em si mesmo era sempre interessante; depois, a certeza de que se
no ia ouvir falar de impostos, dava nimo de penetrar no recinto sagrado.
Acrescentai que ns amamos a esgrima da palavra, e aplaudimos com prazer os
golpes certos e bonitos.

Tambm houve aplausos em 1868,
como em 1889, como nas demais sesses interessantes, ainda que fossem de simples
interpelaes  aos ministros. As galerias no podem dar sinais de aprovao ou
reprovao, diziam sonolentamente os presidentes da Cmara. A primeira vez que
ouvi esta advertncia, fiquei um pouco admirado; supunha que o presidente
presidia, e que o mais era uma questo de polcia interior; mas explicaram-me
que a mesa  que era a comisso de polcia. Compreendi ento, e notei uma
virtude da galeria,  que aplaudia sempre e no pateava nunca.

Ouo ainda os aplausos de 1868,
estrepitosos, sinceros e unnimes. Os ministros entraram, com Itabora  frente,
e foram ocupar as cadeiras onde dias antes estavam os ministros liberais. Um
destes ergueu-se, e em poucas palavras explicou a sada do gabinete. No me
esqueceu ainda a impresso que deixou em todos a famosa declarao de que a
escolha de Torres Homem no era acertada. Zacarias acabava de repeti-la
no Senado. Geralmente, as dissolues dos gabinetes eram explicadas por frases
vagas, e porventura nem sempre verdicas. Daquela vez conheceu-se que a
explicao era verdadeira. Disse-se ento que a palavra fora buscada para dar ao
gabinete as honras da sada. Algum ouviu por esse tempo, ao prprio Zacarias,
naquela grande chcara de Catumbi, que desde a quaresma sentia que a queda era
inevitvel. Grande atleta, quis cair com graa.

ltabora levantou-se e pediu os
oramentos. Foi ento que desabou uma tempestade de vozes duras e vibrantes.
Posto soubesse que se despedia a si mesma, a Cmara votou uma moo de despedida
ao ministrio conservador. Um s esprito sups que a moo podia desfazer o que
estava feito; no me lembra o nome, talvez no soubesse ler em poltica, e da
essa credulidade natural, que se manifestou por um aparte cheio de
esperanas.

Uma das vozes duras e vibrantes
foi a de Saldanha Marinho. Escolhido senador pelo Cear, nessa ocasio,
bastava-lhe pouco para entrar no Senado  para esper-lo, ao menos. O silncio
era o conselho do sbio. Diz um provrbio rabe que da rvore do silncio pende
o seu fruto, a tranqilidade. Diz mal ou diz pouco este provrbio, porque a
prosperidade  tambm um fruto do silncio. Saldanha Marinho podia calar-se e
votar,  votar contra o ministrio, incluir o nome entre os que o recebiam na
ponta da lana, e at menos. Crises dessas alcanam as pessoas. Tambm se brilha
pela ausncia. O senador escolhido deitou fora at a esperana. Ergueu-se, e com
poucas palavras atacou o ministrio e a prpria coroa; lembrou 1848, a que
chamou estelionato, e deixou-se cair com os amigos. O Senado anulou a eleio, e
Saldanha Marinho no tornou na lista trplice.

Caiu com os amigos. A ao foi
digna e pode dizer-se rara. Para ir ao Senado, no faltavam seges, nem animais
seguros. Saldanha ficou a p. No lhe custava nada ser firme; desde que, em
1860, tornara  poltica pelo jornalismo, nunca soube ser outra coisa. 1860!
Quem se no lembra da clebre eleio desse ano, em que Otaviano, Saldanha e
Otoni derribaram as portas da Cmara dos Deputados  fora de pena e de palavra?
O lencinho branco de Otoni era a bandeira dessa rebelio, que ps na
linha dos suplentes de eleitores os mais ilustres chefes conservadores... 
tempos idos! Vencidos e vencedores vo todos entrando na histria. Alguns restam
ainda, encalvecidos ou encanecidos pelo tempo, e dois ou trs cingidos de honras
merecidas. O que ora se foi, separara-se h muito dos companheiros, sem
perder-lhes a estima e a considerao. Mudara de campo, se  que se no
restituiu ao que era por natureza.

9
de junho

No estudei com Pangloss; no
creio que tudo v pelo melhor no melhor dos mundos possveis. Por isso, quando
acho que censurar na nossa terra, digo com os meus botes: H de haver males nas
terras alheias, olhemos para a Frana, para a Itlia, para a Rssia, para a
Inglaterra, e acharemos defeitos iguais, e alguma vez maiores. No costumo
dizer: Olhemos para o Japo, porque  o nico pas onde parece que tudo se
aproxima do otimismo de Pangloss. Vede este pedacinho da proclamao do mikado
ao povo, depois de vencida a China: Regozijemos-nos pelas nossas recentes
vitrias, mas  ainda longe o caminho da civilizao que temos de percorrer...
No nos deixemos guiar por sentimentos de amor prprio excessivo, caminhemos
modesta e esforadamente para a perfeio das nossas defesas militares, sem cair
no extremo... O governo opor-se- a todos quantos, desvanecidos pelas nossas
recentes vitrias, buscarem ofender as potncias amigas do Japo, e
principalmente a China... Que diferena entre esta e as proclamaes dos outros
grandes Estados! Em verdade, essa linguagem prova que o Japo  algum; mas,
ainda assim, impossvel que l no haja tratantes. Notemos uma coisa: nos no
lemos os jornais da oposio de Tquio.

A que propsito isto? A propsito
da eleio da Bahia. Li que na apurao dos votos apareceram agora centenas de
eleitores inventados, contando varias parquias trs e quatro vezes mais do que
tinham h um ano. O espanto e a indignao que este fato causou a algumas
pessoas, foram grandes, mas a falta de memria dos nossos concidados no 
menor. Quem pode ignorar que essa multiplicao de eleitores no  coisa nova,
nem baiana? Sabe-se muito bem que a urna  um tero. Peo licena para recordar
uma frase, no delicada, no corts, mas vigorosa, que antigamente se aplicava
aos casos em que era preciso aumentar as cdulas; dizia-se: emprenhar a urna.
Que admira, com tal fora de natalidade, que os eleitores cresam e
apaream?

 um mal, concordo; mas no haver
males anlogos em outras terras? Olhemos para a Itlia. As urnas italianas no
so fecundas: a vai, porm, um extraordinrio fenmeno eleitoral.

Sabemos telegraficamente o
resultado total da eleio da cmara. H uns tantos deputados governistas, uns
tantos radicais, uns tantos socialistas, finalmente um pequeno nmero de
indecisos. Leitor, imita o meu gesto, deixa cair o queixo. Certamente a
indeciso  um estado ou uma qualidade do esprito, mas o que me abalou estes
pobres nervos cansados, foi imaginar a inteno dos eleitores que os mandaram
para a cmara. Compreendo que os eleitores governistas perguntassem aos
candidatos se eram pelo governo, e votassem neles, e assim os outros seus
colegas. No acabo de crer que inquirissem de alguns candidatos o que eram, e,
ouvindo-lhes que ainda no estavam certos disso, corressem a eleg-los
deputados. Uma s coisa pode explicar o fenmeno, a indeciso dos prprios
eleitores; da a escolha de pessoas no mais decididas que eles. Pode ser; mas
semelhante mal parece-me ainda maior que a simples fecundao das urnas ou a
multiplicao dos algarismos. Onde no h opinies,  til invent-las; mas no
as ter e mandar para a cmara pessoas igualmente pobres, nem  til, nem
legitimo.

Vejamos. Qual ser a situao de
tais deputados, quando comearem os seus trabalhos? A indeciso, antes de fazer
mal ao pas, faz mal ao prprio individuo que a tem consigo. Como falar? Como
votar? Podem falar contra e votar a favor, e vice-versa, mas isso mesmo  sair
da indeciso. J no sero indecisos, sero inconsistentes. Hamlet, indeciso
entre o ser e o no ser, tem o nico recurso de sair de cena; os deputados podem
fazer a mesma coisa. Saiam do recinto, quando se votar. Enquanto se discutir,
no falem, no dem apartes, leiam uma pagina de Dante, posto que a leitura seja
amarga, uma vez que o poeta pe justamente os indecisos logo no princpio do
inferno, almas que no deixaram memria de si e so desprezadas tanto pela
misericrdia como pela justia:

Fama di loro it mondo esser non
lassa;
Misericordia e giustizia li
sdegna:
Non ragioniam di lor, ma guarda e
passa.

Melhor que tudo, porm, ser
imitar aquele personagem de uma velha comdia, que atravessa cinco atos sem
saber com qual de duas moas h de casar, e acaba escolhendo uma delas, mas
dizendo a parte (o que o deputado pode fazer em voz alta para que os eleitores
ouam): Creio que teria feito melhor casando com a outra. Assim se podem
fundir a indeciso e o voto.

Dei um exemplo de defeitos que
acham anlogos em outras terras, sem diminu-las da grandeza, como nos no
diminuem os nossos. Nem por isso deixamos de caminhar todos na estrada da
civilizao, uns mais acelerados, outros mais moderados. No vamos crer que a
civilizao  s este desenvolvimento da histria, esta perfeio do esprito e
dos costumes. Nem por ser uma galera magnfica, deixa de ter os seus mariscos no
fundo, que  preciso limpar de tempos a tempos, e assim se explicam as guerras e
outros fenmenos.

Um daqueles mariscos... Perdoem-me
a comparao;  o mal de quem escreve com retricas estafadas. O melhor estilo 
o que narra as coisas com simpleza, sem atavios carregados e inteis. V este e
seja o ultimo. Um daqueles mariscos da galera  a desconfiana mtua dos homens
e a convico que alguns tm da patifaria dos outros. A confiana nasceu com a
terra; a inocncia e a ingenuidade foram os primeiros lrios. No fim do sculo
passado dormia-se no Rio de Janeiro com as janelas abertas. Mais tarde, a
polcia j apalpava as pessoas que eram encontradas, horas mortas, a ver se
traziam navalha ou gazua. Afinal, comeamos a ajudar a polcia; vendo que outros
povos usam do revlver, para defesa prpria e natural, pegamos do costume, e a
maior parte da gente traz agora o seu.

Conquanto a necessidade seja
triste, sai da um melhoramento. Era costume nesta cidade, sempre que a polcia
prendia algum, entoar em volta do agente aquele belo coro da liberdade: No
pode! No pode! Vai acabando o costume. H dias, tendo um sujeito ferido ou
matado a outro, foi perseguido pelo clamor publico; como arrancasse a espada ao
agente de polcia e usasse dela correndo, muitas pessoas correram atrs e a
tiros de revolver conseguiram det-lo e prend-lo. O assassino ficou em sangue,
verificando-se assim a sentena da Escritura: Quem com ferro fere, perecera
pelo ferro. Este processo de capturar a distncia impedira a fuga dos
malfeitores.

16 de junho

Guimares chama-se ele; ela
Cristina. Tinham um filho, a quem puseram o nome de Ablio. Cansados de lhe dar
maus tratos, pegaram do filho, meteram-no dentro de um caixo e foram p-lo em
uma estrebaria, onde o pequeno passou trs dias, sem comer nem beber, coberto de
chagas, recebendo bicadas de galinhas, at que veio a falecer. Contava dois anos
de idade. Sucedeu este caso em Porto Alegre, segundo as ltimas folhas, que
acrescentam terem sido os pais recolhidos  cadeia, e aberto o inqurito. A dor
do pequeno foi naturalmente grandssima, no s pela tenra idade, como porque
bicada de galinha di muito, mormente em cima de chaga aberta. Tudo isto, com
fome e sede, f-lo passar um mau quarto de hora, como dizem os franceses, mas
um quarto de hora de trs dias; donde se pode inferir que o organismo do menino
Ablio era apropriado aos tormentos. Se chegasse a homem, dava um lutador
resistente; mas a prova de que no iria at l,  que morreu.

Se no fosse Schopenhauer, 
provvel que eu no tratasse deste caso diminuto, simples notcia de gazetilha.
Mas h na principal das obras daquele filsofo um captulo destinado a explicar
as causas transcendentes do amor. Ele, que no era modesto, afirma que esse
estudo  uma prola. A explicao  que dois namorados no se escolhem um ao
outro pelas causas individuais que presumem, mas porque um ser, que s pode vir
deles, os incita e conjuga. Apliquemos esta teoria ao caso Ablio.

Um dia Guimares viu Cristina, e
Cristina viu Guimares. Os olhos de um e de outro trocaram-se, e o corao de
ambos bateu fortemente. Guimares achou em Cristina uma graa particular, alguma
coisa que nenhuma outra mulher possua. Cristina gostou da figura de Guimares,
reconhecendo que entre todos os homens era um homem nico. E cada um disse
consigo: Bom consorte para mim! O resto foi o namoro mais ou menos longo, o
pedido da mo da moa, as formalidades, as bodas. Se havia sol ou chuva, quando
eles casaram, no sei; mas, supondo um cu escuro e o vento minuano, valeram
tanto como a mais fresca das brisas debaixo de um cu claro. Bem-aventurados os
que se possuem, porque eles possuiro a terra. Assim pensaram eles. Mas o autor
de tudo, segundo o nosso filsofo, foi unicamente Ablio. O menino, que ainda
no era menino nem nada, disse consigo, logo que os dois se encontraram:
Guimares h de ser meu pai, e Cristina h de ser minha me; no quero outro
pai nem outra me;  preciso que nasa deles, levando comigo, em resumo, as
qualidades que esto separadas nos dois. As entrevistas dos namorados era o
futuro Ablio que as preparava; se eram difceis, ele dava coragem a Guimares
para afrontar os riscos, e pacincia a Cristina para esper-lo. As cartas eram
ditadas por ele. Ablio andava no pensamento de ambos, mascarado com o rosto
dela, quando estava no dele, e com o dele, se era no pensamento dela. E fazia
isso a um tempo, como pessoa que, no tendo figura prpria, no sendo mais que
uma idia especfica, podia viver inteiro em dois lugares, sem quebra da
identidade nem da integridade. Falava nos sonhos de Cristina com a voz de
Guimares, e nos de Guimares com a de Cristina, e ambos sentiam que nenhuma
outra voz era to doce, to pura, to deleitosa.

Naturalmente, houve alguma vez
arrufos. Como explic-los? Explico-os a meu modo; creio que Ablio teve momentos
de Hamlet. Uma ou outra vez haver hesitado e meditado, como o outro: Ser ou
no ser, eis a questo. Valer a pena sair da espcie para o indivduo, passar
deste mar infinito a uma simples gota dgua apenas visvel, ou no ser melhor
ficar aqui, como outros tantos que se no deram ao trabalho de nascer? Nascer,
viver, no mais. Viver? Lutar, quem sabe? It is the rub, continuou ele
em ingls, nos termos do poeta, to universal  Shakespeare, que os prprios
seres futuros j o trazem de cor.

Enfim, nasceu Ablio. No contam
as folhas coisa alguma acerca dos primeiros dias daquele menino. Podiam ser
bons. H dias bons debaixo do sol. Tambm no se sabe quando comearam os
castigos,  refiro-me aos castigos duros, os que abriram as primeiras chagas,
no as pancadinhas do princpio, visto que todas as coisas tm um princpio, e
muito provvel  que nos primeiros tempos da criana os golpes fossem aplicados
diminutivamente. Se chorava,  porque a lgrima  o suco da dor. Demais, 
livre,  mais livre ainda nas crianas que mamam, que nos homens que no
mamam.

Chagado, encaixotado, foi levado 
estrebaria, onde, por um desconcerto das coisas humanas, em vez de burros, havia
galinhas. Sabeis j que estas, mariscando, comiam ou arrancavam somente pedaos
da carne de Ablio. A, nesses trs dias, podemos imaginar que Ablio, inclinado
aos monlogos, recitasse este outro de sua inveno: Quem mandou aqueles dois
casarem-se para me trazerem a este mundo? Estava to sossegado, to fora dele,
que bem podiam fazer-me o pequeno favor de me deixarem l. Que mal lhes fiz eu
antes, se no era nascido? Que banquete  este em que a primeira coisa que negam
ao convidado  po e gua?

Nesse ponto do discurso  que o
filsofo de Dantzig, se fosse vivo e estivesse em Porto Alegre, bradaria com a
sua velha irritao: Cala a boca, Ablio. Tu no s ignoras a verdade, mas at
esqueces o passado. Que culpa podem ter essas duas criaturas humanas, se tu
mesmo  que os ligaste? No te lembras que, quando Guimares passava e olhava
para Cristina, e Cristina para ele, cada um cuidando de si, tu  que os fizeste
atrados e namorados? Foi a tua nsia de vir a este mundo que os ligou sob a
forma de paixo e de escolha pessoal. Eles cuidaram fazer o seu negcio, e
fizeram o teu. Se te saiu mal o negcio, a culpa no  deles, mas tua, e no sei
se tua somente... Sobre isto,  melhor que aproveites o tempo que ainda te
sobrar das galinhas, para ler o trecho da minha grande obra, em que explico as
coisas pelo mido.  uma prola. Est no tomo II, livro IV, captulo XLIV...
Anda, Ablio, a verdade  verdade  ainda  hora da morte. No creias nos
professores de filosofia, nem na peste de Hegel...

E Ablio, entre duas
bicadas:

 Ser verdade o que dizes, Artur;
mas  tambm verdade que, antes de c vir, no me doa nada, e se eu soubesse
que teria de acabar assim, s mos dos meus prprios autores, no teria vindo
c. Ui! Ai!

23 de junho

No vou ao extremo de atribuir 
Fnix Dramtica qualquer inteno filosfica ou simplesmente histrica. No; a
Fnix, como todos os teatros, publicou um anncio. Mas o que  que no h dentro
de um anncio? Durante muitos anos acreditei que as moas distintas, de boa
educao que pedem pelos jornais a proteo de um senhor vivo, eram vtimas
de dios de famlia ou da fatalidade, que buscavam um resto de sentimento
medieval neste sculo de guarda-chuvas. Como supor que eram damas nobremente
desocupadas que procuravam emprego honesto? Um anncio  um mundo de
mistrios.

O que a Fnix mandou inserir nos
jornais no traz mistrios.  a lista do espetculo composto de vrias partes,
das quais duas especialmente fazem assunto desta meditao. A primeira  uma
comdia: Artur ou dezesseis anos depois. Quando li este ttulo tive um
sobressalto; depois, no sei que fada pegou em mim, pelos cabelos, e levou-me
atravs dos anos at aos meus tempos de menino. Ca em cheio entre os primeiros
bonecos que vi na minha vida: eram de pau e tinham graa. Santos bonecos, oh!
bonecos do meu corao, reis sublimes, falveis com eloqncia e sintaxe,
conquanto fosse eu que falasse por vs; mas criana tem o mau vezo de crer que
tudo o que diz  perfeito. reis sinceros; no conheceis isto que os franceses
chamam fumisterie, e que, pela nossa lngua, poderamos dizer
(aproximadamente) debique. No, bonecos da minha infncia, vs no me
debicveis; nem com a sintaxe, nem sem ela.

Nesse tempo no tinha visto a
comdia, que era, pelo seu verdadeiro gnero, um vaudeville. Tambm no a
vi depois, nem agora. Sei que antigamente se representou no Teatro de So Pedro
de Alcntara e no de So Francisco. A data da composio est no prprio
subttulo, moda que se perdeu, e na denominao dos atos: 1 O Batismo do
Barco; 2 O Amor de Me. Ignoro os nomes dos artistas que a
representavam. Podia ser a Jesuna Montani, que se fizera clebre na Graa de
Deus, ou a Leonor Orsat, afamada na Vendedora de Perus,
ttulos que trazem a mesma data e o mesmo esquecimento. Em volta da pea agora
anunciada, vi aparecer uma infinidade de sombras, como D. Joo viu surgir as das
mulheres que o tinham amado e perdido. As velhas reminiscncias tm a
particularidade de trazerem a frescura antiga; eu fiquei calado e
cabisbaixo.

Pedro Lus, o epigramtico forrado
de poeta, contou-me um dia que, estando em Roma, certa noite, ouviu tocar um
realejo e no pde suster as lgrimas. Que os manes de meu amigo me perdoem esta
revelao! Aquele esprito fino e sarcstico chorou ao som de um banal
instrumento. Certo, ele no estava ao p das runas da antiga Roma, pois que
tais runas pediam antes a msica do silncio. Havia de ser em alguma rua ou
hospedaria; mas demos que fossem runas. A linguagem natural delas  a da
caducidade das coisas; nada mais fcil, em dado caso, que achar nelas um pouco
de ns mesmos. Revia ele os dias da meninice, as festas da roa e da cidade? Foi
ento que algum tocador perdido na noite entrou a moer a msica do seu realejo;
era a prpria voz dos tempos que dava alma s reminiscncias antigas; da
algumas lgrimas.

Eu, no por ser mais forte, mas
talvez por no estar em Roma, no chorei quando li o ttulo de Artur ou
Dezesseis Anos Depois. Nem foi porque este outro realejo me trouxesse
lembranas perdidas ou que eu julgava tais. Tambm eu vi, na infncia, tocadores
que paravam na rua, moam a msica e estendiam o chapu para receberem os dois
vintns de esprtula. Cuido que ainda hoje fazem o mesmo; os meninos  que so
outros, e os dois vintns subiram a tosto. Deus meu! eu bem sei que um trecho
de msica de realejo no vale os Huguenotes, como aquela comdia pacata e
sentimental no valia o Filho de Giboyer nem o Pai Prdigo, que
ns amos ver, tempos depois, no Ginsio Dramtico,  o teatro que h pouco
chamei So Francisco, e hoje , se me no engano, uma loja de
fazendas.

Agora a segunda parte do anncio
da Fnix, que parece dar ao todo um ar de paralelo e compensao. A segunda
parte  uma canoneta, com este ttulo sugestivo: Ora Toma, Mariquinhas!
No posso julgar da canoneta, porque no a ouvi nunca; mas, se, como dizia
Garret, h ttulos que dispensam livros, este dispensa as coplas; basta-lhe ser
o que  para se lhe adivinhar um texto picante, brejeiro, em fraldas de camisa.
No so dezesseis anos, como na comdia, mas trinta anos ou mais, que decorrem
daquele Artur a esta Mariquinhas. H uma histria entre as duas
datas, histria gaiata, ou no, segundo a idade e os temperamentos. Da a
significao do anncio e a sua inconsciente filosofia.

Os que tiverem ido ao teatro,
levados uns pela velha comdia, outros pela canoneta nova, saram de l
satisfeitos, a seu modo. Tambm pode suceder,  e isto ser a glria do anncio,
 que os da canoneta no achassem inteiramente inspido o sabor da pea velha,
e que os da pea velha sentissem o vinho das coplas subir-lhes  cabea. Esses
foram pela rua abaixo, de brao dado; enquanto o moo gargareja com a
ingenuidade de Artur a rouquido da cantiga nova, o velho recompe um pouco da
vida exausta com dois trinados da canoneta.

A canoneta, como gnero, nasceu
no antigo Alcazar. A princpio as cantoras levantavam uma pontinha de nada do
vestido, isso mesmo com gesto encolhido e delicado. Anos depois, nos grandes
cancs, mandavam a ponta do p aos narizes dos cantores. O gesto era feio, mas
haviam-se com tal arte que no se descompunham, posto se lhes vissem as saias e
as meias,  meias lavadas. Enfin, Malherbe vint...

30 de junho

O destino, que conhece o desfecho
de cada drama, sorri dos nossos clculos, e choraria, se pudesse chorar, das
previses humanas. Quem volve os olhos atrs, at setembro de 1893, naquela
manh em que a cidade acordou com a notcia de que um almirante sublevara a
esquadra, reconhece que estava longe de imaginar o desfecho de semelhante ato,
dois amuos depois, no Campo Osrio. Outro almirante, tomando o comando da
sublevao, foi perecer em combate na fronteira rio-grandense, e o que parecia
um episdio curto da Repblica, transformou-se em longo duelo, terrvel e
mortal. Os acontecimentos levam os homens, como os ventos levam as
folhas.

De Saldanha da Gama se pode dizer
que, qualquer que seja o modo de julgar o ltimo ato da sua vida, h um s
parecer e sentimento a respeito do homem de guerra e do que ele pessoalmente
valia. As folhas pblicas de todos os matizes deram-lhe o apelido de Coriolano;
os mais fortes adversrios puderam dizer, como Tulus, pela lngua de
Shakespeare:

My rage is gone
And I am struck with
sorrow...

Mas, deixemos este assunto
melanclico, para ir a outro no menos melanclico,  verdade, mas de outra
melancolia. Muitas so as melancolias deste mundo. A de Saul no  a de Hamlet,
a de Lamartine no  a de Musset. Talvez as nossas, leitor amigo, sejam
diferentes uma da outra, e nesta variedade se pode dizer que est a graa do
sentimento.

O Sr. conde de Herzberg, por
exemplo, devia ser um homem melanclico, e talvez seja intensamente alegre. No
tenho a honra de conhec-lo. Parece que a maior parte dos que travam relaes
com ele, fazem-no por toda a eternidade. Eu no cheguei ainda quele apuro de
maneiras que permite ser apresentado ao digno conde, nos seus prprios carros.
Um coveiro de Hamlet diz que o ofcio de coveiro  o mais fidalgo do mundo, por
ter sido o ofcio de Ado; mas  preciso lembrar que a Empresa Funerria no
estava inventa- da, nem no tempo de Ado, nem sequer no de Hamlet.

Seja como for, o que  certo  que
a Empresa. Funerria, por mais triste que possa ser, no  menos lucrativa. Nem
h incompatibilidade entre a melancolia e o lucro; so dois fenmenos que se
temperam e se completam. O poeta que comparou as lgrimas as perolas
(perdeu-se-lhe o nome, tantos so os inventores da comparao), mostrou clara e
poeticamente que a riqueza pode ir com o desespero. Vamos agora ao ponto
imediato e principal.

Anuncia-se que a seco da Empresa
Funerria, que estava sob a direo do Sr. conde de Herzberg, foi vendida por
duzentos e cinqenta contos. Quando li esta notcia, senti naturalmente aquele
fenmeno que produzem todas as coisas boas deste mundo: veio-me gua a boca.
Depois a reflexo tomou conta de mim. Duzentos e cinqenta contos de ris! Uma
seco da Empresa Funerria! Duzentos contos de ris para enterrar
mortos...

Muito se morre nesta vida, e
especialmente nesta cidade. No h, certamente, mais mortos que vivos, mas os
mortos so muitos. Quanto s molstias que os levam, crescendo com a
civilizao, fazem to bem o seu ofcio, que raro se dir que matam de mentira.
E tudo  preciso enterrar. No chego a entender como outrora, e ainda neste
sculo, chegavam s igrejas para guardar cadveres. Os cemitrios vieram,
cresceram, multiplicaram-se, e a temos cinco ou seis dessas necrpoles,
inclusive o cemitrio dos Ingleses, que eu j conhecia desde criana, como uma
coisa muito particular. Dizia-se o cemitrio dos ingleses, como se dizia a
constituio inglesa, ou o parlamento ingls  uma instituio das ilhas
britnicas.

Naturalmente, com o tempo foi-se
morrendo mais, j pelas molstias entradas, j pela populao crescida, j pelos
nascimentos novos.

A questo, porm, no  morrer. A
questo  o preo por que se morre. Uma seo da Empresa Funerria que se pode
vender por 250 contos de ris, prova que a morte no Rio de Janeiro no  mais
barata que a vida. O po  caro, mas o galo no o  menos; a carne e a
belbutina correm parelhas. Os carros, que suponho constituem a seo vendida,
tm o preo marcado nas colunas, nos dourados, nos animais, e parece que tambm
no cocheiro. O chapu deste  que  sempre o mesmo, chapu de couro luzidio, ou
matria anloga, largo em umas cabeas, estreito em outras, pela razo talvez de
que o desacordo da cabea e do chapu d certo tom de melancolia ao cocheiro. Os
animais variam, se o preo  magro ou gordo. H casos em que se pe no cocheiro
um pedao de pano, casos em que no. Os anjinhos, salvo a substituio do preto
pelo encarnado, so tratados com a mesma altura de preos e variao de
esplendor e modstia.

Se se morresse barato, valia a
pena morrer. Comparativamente, entra-se na vida por menor preo do que se sai. 
uma espcie de engodo, um convite em boas maneiras; chega-se a porta, d-se uma
pequena esprtula, entra-se e fica-se. Quando se trata de ir embora, acabada a
festa, todas as portas esto tomadas, um guarda em p, com a tabela dos preos
na mo. Precisa-se saber, antes de tudo, qual  a classe em que o vivo quer ir a
enterrar:  Na minha classe; eu sou sapateiro. O guarda sorri e responde:  
A morte no conhece classes sociais, no quer saber delas; prncipe ou
sapateiro, pode ir em primeira ou terceira, uma vez que pague o preo, que 
tanto. Quem no iria como prncipe, se o preo fosse mdico? Valia a pena de um
sacrifcio para ser prncipe, ainda na morte.

No sei quem ter comprado a seo
da Empresa Funerria; mas creiam que se tivesse dinheiro, quem a comprava era
eu. Para que lutar na vida, com a vida e pela vida, se a morte nos pode dar bons
lucros. Vede quantas riquezas se fizeram e desfizeram no ano terrvel e depois
dele. Grande parte delas voltou ao seio da iluso que as ajudou a nascer. Eram
tudo obras da vida, mas a vida no  menos voraz que a morte, e devorou as mais
pujantes. A morte, ao certo, com os seus carros e cocheiros, chapu com fumo ou
sem fumo, animais magros ou gordos, lutou contra os coches luxuosos da vida, as
belas parelhas e as librs herldicas, venceu-os a todos, e foi vendida
por duzentos e cinqenta contos. Viva a morte! Pode no ser muito, mas 
certo.

7
de julho

Os mortos no vo to depressa,
como quer o adgio; mas que eles governam os vivos,  coisa dita, sabida e
certa. No me cabe narrar o que esta cidade viu ontem, por ocasio de ser
conduzido ao cemitrio o cadver de Floriano Peixoto, nem o que vira antes, ao
ser ele transportado para a Cruz dos Militares. Quando, h sete dias, falei de
Saldanha da Gama e dos funerais de Coriolano que lhe deram, estava longe de
supor que, poucas horas depois, teramos notcia do bito do marechal. O destino
ps assim, a curta distncia, uma de outra, a morte de um dos chefes da rebelio
de 6 de setembro e a do chefe de Estado que tenazmente a combateu e
debelou.

A histria  isto. Todos somos os
fios do tecido que a mo do tecelo vai compondo, para servir aos olhos
vindouros, com os seus vrios aspectos morais e polticos. Assim como os h
slidos e brilhantes, assim tambm os h frouxos e desmaiados, no contando a
multido deles que se perde nas cores de que  feito o fundo do quadro. O
Marechal Floriano era dos fortes. Um de seus mais ilustres amigos e
companheiros, Quintino Bocaiva, definiu na tribuna do Senado, com a eloqncia
que lhe  prpria, a natureza, a situao e o papel do finado vice-presidente.
Bocaiva, que tanta parte teve nos sucessos de 15 de novembro,  um dos
remanescentes daquele grupo de homens, alguns dos quais a morte levou, outros se
acham dispersos pela poltica, restando os que ainda une o mesmo pensamento de
iniciao. A verdade  que temos vivido muito nestes seis anos, mais que nos que
decorreram do combate de Aquidab  revoluo de 15 de novembro, vida agitada e
rpida, to depressa quo cheia de sucessos.

Mas, como digo, os mortos no vo
to depressa que se percam todos de nossa vista. Ontem era um ex-chefe de Estado
que a populao conduzia ou via conduzir ao ltimo jazigo. Hoje comemora-se o
centenrio de um poeta. Digo mal. Nem se comemora, nem  ainda o centenrio.
Este  no fim do ms; o que se faz hoje, segundo li nas folhas,  convidar os
homens de letras para tratarem dos meios de celebrar o primeiro centenrio da
morte de Jos Baslio da Gama. No conheo o pio brasileiro que tomou a si essa
iniciativa; mas tem daqui todo o meu apoio. No se vive s de poltica. As musas
tambm nutrem a alma nacional. Foi o nosso Gonzaga que escreveu com grande
acerto que as pirmides e os obeliscos arrasam-se, mas que as Iladas e
as Eneidas ficam.

Jos Baslio no escreveu
Eneidas nem Iladas, mas o Uruguai  obra de um grande e
doce poeta, precursor de Gonalves Dias. Os quatro cantos dos Timbiras,
escapos ao naufrgio, so da mesma famlia daqueles cinco cantos do poema de
Jos Baslio. No tem este a popularidade da Marlia de
Dirceu, sendo-lhe, a certos respeitos, superior, por mais incompleto e
menos limado que o ache Garrett; mas o prprio Garrett escreveu em 1826 que os
brasileiros tm no poema de Jos Baslio da Gama a melhor coroa da sua poesia,
que nele  verdadeiramente nacional, e legtima americana.

Neste tempo em que o uso do verso
solto se perdeu inteiramente, tanto no Brasil como em Portugal, Gonzaga tem essa
superioridade sobre o seu patrcio mineiro. As rimas daquele cantam de si
mesmas, quando no baste a perfeio dos seus versos, ao passo que o verso solto
de Jos Baslio tem aquela harmonia, seguramente mais difcil, a que  preciso
chegar pela s inspirao e beleza do metro. No sero sempre perfeitos. O meu
bom amigo Muzzio, companheiro de outrora, crtico de bom gosto, achava
detestveis aqueles dois famosos versos do Uruguai:

Tropel confuso de
cavalaria,
Que combate
desordenadamente.

 Isto nunca ser onomatopia,
dizia ele; so dois maus versos.

Concordava que no eram
melodiosos, mas defendia a inteno do poeta, capaz de os fazer com a tnica
usual. Um dia, achei em Filinto Elsio uma imitao daqueles versos de Jos
Baslio da Gama, por sinal que ruim, mas o lrico portugus confessava a
imitao e a origem. No quero dizer que isto tornasse mais belos os do poeta
mineiro; mas  fora lembrar o que valia no seu tempo Filinto Elsio, to
acatado, que meia dzia de versos seus, elogiando Bocage, bastaram a inspirar a
este o clebre grito de orgulho e de glria:  Zoilos, tremei! Posteridade,
s minha!

A reunio de hoje pode ser
prejudicada pela grande comoo de ontem. Outro dia seria melhor. Se alguns
homens de letras se juntarem para isto, faam obra original, como original foi o
poeta no nosso mundo americano. Antes de tudo, seja-me dado pedir alguma coisa:
excluam a poliantia. Oh! a poliantia! Um dia apareceu aqui uma poliantia; da
em diante tudo ou quase tudo se fez por essa forma. A coisa, desde que lhe no
presida o gosto e a escolha, descai naturalmente at a vulgaridade; o nome,
porm, f-la- sempre odiosa, to usado e gasto se acha. No lhe ponham tal
designao; qualquer outra, ou nenhuma,  prefervel, para coligir as homenagens
da nossa gerao.

No meu tempo de rapaz, era certo
fazer-se uma reunio literria, onde se recitassem versos e prosas adequadas ao
objeto. No aconselho este alvitre; alm de ser costume perdido, e bem perdido,
seria grandemente arriscado reviv-lo. No se podem impor programas, nem se h
de tapar a boca aos que a abrirem para dizer alguma coisa fora do ajuste. Uma
daquelas reunies foi notvel pela leitura que algum fez de um relatrio, no
sei sobre que, mas era um relatrio comprido e mal recitado. Um dos convidados
era oficial do exrcito, estava fardado, e passeava na sala contgua, obrigando
um chocarreiro a dizer que a diretoria da festa mandara buscar o oficial para
prender o leitor do relatrio, apenas acabada a leitura; mas a leitura, a falar
verdade, creio que ainda no acabou.

No; h vrios modos de comemorar
o poeta de Lindia, dignos do assunto e do tempo. No busquem grandeza nem
rumor; falta ao poeta a popularidade necessria para uma festa que toque a
todos. Uma simples festa literria  bastante, desde que tenha gosto e arte.
Oficialmente se poder fazer alguma coisa, o nome do poeta, por exemplo, dado
pelo Conselho Municipal a uma das novas ruas. Devo aqui notar que Minas Gerais,
que tem o gosto de mudar os nomes s cidades, no deu ainda a nenhuma delas o
nome de Gonzaga, e bem podia dar agora a alguma o nome de Lindia, se o do
cantor desta lhe parece extenso em demasia; qualquer ato, enfim, que mostre o
apreo devido  musa deliciosa de Jos Baslio, o mesmo que, condenado a
desterro, pde com versos alcanar a absolvio e um lugar de oficial de
secretaria.

Eu no verei passar
teus doze anos,
Alma de amor e de
piedade cheia,
Esperam-me os desertos
africanos,
spera, inculta,
monstruosa areia,
Ah! tu fazes cessar os
tristes danos...

Assim falou ele  filha do Marqus
de Pombal, como sabeis, e dos versos lhe veio a boa fortuna. A m fortuna
veio-lhe do carter, que se conservou fiel ao marqus, ainda depois de cado, e
perdeu com isso o emprego...

Para acabar com poetas. Valentim
Magalhes tornou da Europa. Viu muito em pouco tempo e soube ver bem. Parece-me
que teremos um livro dele contando as viagens. Com o esprito de observao que
possui, e a fantasia original e viva, dar-nos- um volume digno do assunto e de
si. O que se pode saber j,  que, indo a Paris, no se perdeu por l; viu
Burgos e Salamanca, viu Roma e Veneza,  Veneza que eu nunca verei, talvez, se a
morte me levar antes, como diria M. de La Palisse  Veneza, a nica, como
escrevia h pouco um autor americano.

14 de julho

Carne e paz foram as doaes
principais da semana. A carne  municipal, a paz  federal, mas nem por isso so
menos aprazveis ao homem e ao cidado, uma vez que a carne seja barata e a paz
eterna. Eterna! Que paz h eterna neste mundo? A mesma paz dos tmulos  uma
frase. L h guerra  guerra no prprio homem, luta pela vida. Nem  raro ir c
de fora buscar o morto ao jazigo derradeiro para isto ou para aquilo, como o
clebre prncipe D. Pedro, que, unia vez rei, fez coroar o cadver de D. Ins de
Castro. O nosso Joo Caetano, quando queria dar alguma solenidade s
representaes da Nova Castro, anunciava que a tragdia acabaria com a
cena da coroao. Obtinha com isto mais uma ou duas centenas de mil-ris. No
ficava mais bela a tragdia; mas o espectador gostava tanto de prolongar a sua
prpria iluso!

Paz e carne. Faz lembrar os
jantares de S. Bartolomeu dos Mrtires: vaca e riso. Se com estas duas coisas o
arcebispo no deixou de ser canonizado, esperemos que nos canonizem tambm. Nem
creio que haja melhor caminho para o cu. No nego as belezas do jejum, mas o
cu fica to longe, que um homem fraco pode cair na estrada, se no tiver alguma
coisa no estmago. Que essa seja barata,  o que presumo sair do ato da
intendncia; e basta isso para ter feito uma sesso til.

Um dos intendentes pensa o
contrrio; acha que s se fizeram torneios oratrios. Foi o Sr. Honrio Gurgel.
Ao que retorquiu o Sr. Vieira Fazenda: Comeando pelos de V. Ex.. Replicou o
Sr. Honrio Gurgel: Verdadeiros jogos florais, onde o Sr. Fazenda, como sempre,
brilhou pela sua facndia. E o Sr. Vieira Fazenda: V. Ex. est continuando a
tornar tempo ao Conselho com longos discursos.  difcil crer que haja paz
depois de tais remoques; mas se h leis que explicam tudo, alguma explicar este
fenmeno. Pouco visto em legislao, prefiro crer que, se algum sangue correu
depois daquilo, foi somente o da vaca aprovada e contratada.

Vaca e riso. Agora  o riso que se
anuncia, por meio da pacificao do Sul. A guerra  boa, e, dado que seja exato,
como pensa um filsofo, que ela  a me de todas as coisas, preciso  que haja
guerras, como h casamentos. A leitura de batalhas  agradvel ao esprito. As
proclamaes napolenicas, as descries homricas, as oitavas camonianas, lidas
no gabinete, do idia do que ser o prprio espetculo no campo. A mais de um
combatente ouvi contar as belezas trgicas da luta entre homens armados, e tenho
acompanhado muita vez o jovem Fabrcio del Dongo na batalha de Waterloo, levados
ambos ns pela mo de Stendhal. O destino trouxe-me a este campo quieto do
gabinete, com sada para a Rua do Ouvidor, de maneira que, se adoeci de um olho,
no o perdi em combate, como sucedeu a Cames. Talvez por isso no componha
iguais versos. Homero, que os perdeu ambos, deixou um grande modelo de
arte.

Entre parntesis, uma patrcia
nossa que no perdeu nenhum dos seus belos olhos de vinte e um anos, mostrou
agora mesmo que se podem compor versos, sem quebra da beleza pessoal. No  a
primeira, decerto. A Marquesa de Alorna j tinha provado a mesma coisa. A
Svign, se no comps versos, fez coisas que os merecem, e era bonita e me.
No cito outras, nem George Sand, que era bela, nem George Eliot, que era feia.
Francisca Jlia da Silva, a patrcia nossa, se  certo o que nos conta Joo
Ribeiro, no excelente prefcio dos Mrmores, j escrevia versos aos
quatorze anos. Bem podia dizer, pelo estilo de Bernardim: Menina e moa me
levaram da casa de meus pais para longes terras... Essas terras so as da pura
mitologia, as de Vnus talhada em mrmore, as terras dos castelos medievais,
para cantar diante deles e delas impassivamente. Musa Impassvel, que  o
ttulo do ltimo soneto do livro, melhor que tudo pinta esta moa insensvel e
fria. Essa impassibilidade ser a prpria natureza da poetisa, ou uma impresso
literria? Eis o que nos dir aos vinte e cinco anos ou aos trinta. No nos
sair jamais uma das choramingas de outro tempo; mas aquele soneto da p. 74, em
que a alma vive e a dor exulta, ambas unidas, mostra que h nela uma corda de
simpatia e outra de filosofia.

Outro parntesis. A Gazeta
noticiou que alguns habitantes da estao de Lima Duarte pediram ao
presidente da Companhia Leopoldina a mudana do nome da localidade para o de
Lindia, agora que  o centenrio de Baslio da Gama. Pela carta que me deram a
ler, vejo que pem assim em andamento a idia que me ocorreu h sete dias. Eu
falei ao governo de Minas Gerais; mas os habitantes de Lima Duarte deram-se
pressa em pedir para si a designao, e  de crer que sejam servidos. Ao que
suponho, o presidente da Companhia  o Sr. conselheiro Paulino de Sousa, lido em
coisas ptrias, que no negar to pequeno favor a to grande brasileiro.
Demais, a histria tem encontros: o filho do Visconde de Uruguai honrar assim o
cantor do Uruguai.  quase honrar-se a si prprio. Provemos sue o
lemos:

Sers lido, Uruguai.
Cubra os meus olhos
Embora um dia a escura
noite, eterna,
Tu, vive e goza a luz
serena e pura;
Vai aos
bosques...

Fechados ambos os parntesis,
tornemos  paz anunciada. Tambm ela  til, como a guerra, e tem a sua hora. O
mundo romano dormia em paz algumas vezes. Venha a paz, unia vez que seja honrada
e til. No falo por interesse pessoal. Como eu no saio a campo a combater,
deixo-me nesta situao que o povo chama: ver touros de palanque. O poeta
Lucrcio, mais profundamente, dizia que era doce, estando em terra, ver
naufragar, etc. O resto  sabido. Carne e paz:  muito para uma semana nica.
Vaca e riso: no  preciso mais para uma vida inteira  salvo o que mais vale e
no cabe na crnica.

21 de
julho

Ontem, sbado, fez-se a eleio de um senador pelo
Distrito Federal. Votei; estou bem com a lei e a minha conscincia. Enquanto se
apuravam os votos, vim escrever estas linhas, que provvelmente ningum hoje
ler. No me perguntem a quem dei o voto; ao eleitor cabe tambm o direito de
ser discreto.  at certo ponto um segredo profissional.

A coincidncia da eleio aqui com a da cmara dos
comuns de Inglaterra fez-me naturalmente refletir sobre os processos de ambos os
pases. No aludo aos trinta mil discursos que se fazem nas ilhas britnicas
diante de eleitores que desejam ouvir o pensamento dos candidatos. Os candidatos
aqui estariam prontos a dizer o que pensam; mas  incerto que as reunies fossem
concorridas. Demais, basta ler a ltima sesso da cmara dissolvida para
conhecer a diversidade dos costumes. Quando um dos ministros deu notcia de que
o gabinete estava demitido e havia sido chamada a oposio ao governo,
levantou-se o lder desta, e bradou contra o gabinete liberal, por no ter
dissolvido a cmara, impondo agora essa tarefa  oposio. Ns, quando tnhamos
parlamentarismo, o ato da oposio seria diverso; dir-se-iam algumas palavras
duras  coroa, outras mais duras aos ministros novos, e cada qual ia cuidar do
seu ofcio.

Se cada pas tem os seus costumes eleitorais, nem
por isso a Inglaterra usa s de discursos e meetings; h tambm cabala, e
grossa. H at fraude, se  certo o que dizem telegramas de ontem, sobre haverem
os governadores usado dela para impedir a eleio do lder liberal, do que
resultaram meetings, discursos, e pancadaria. Antes a cabala;  legtima,
natural, verdadeira seleo de espertos e ativos.

Dizem at (e para isto chamo a ateno das
leitoras), dizem que as ladies ajudam a cabala eleitoral com grande
animao. Afirmam que fazem visitas aos eleitores, entram nas pocilgas mais
repugnantes, falam ao eleitor e  mulher, pegam dos filhos deles e os pem ao
colo. Acrescentam que, quando saem dali, sacodem as sandlias, mas contam com o
voto; e o voto  certo, porque as ladies do partido adverso fazem a mesma
coisa, e o eleitor serve a uma delas, embora seja obrigado a roer a corda 
outra. Ningum ignora o caso da bela fidalga que concedeu um beijo a um
aougueiro,  porta do aougue, para que ele votasse em Fox.

No aconselho s damas deste pas o beijo aos
aougueiros, nem a outros quaisquer eleitores. Sei que h muito Fox que
mereceria o sacrifcio: mas nem todos os sacrifcios se fazem. Entretanto, as
moas podiam cabalar modestamente. Um aperto de mo, um requebro de olhos,
quatro palavrinhas doces, valem mais que os rudes pedidos masculinos.

Uma coisa que as moas podiam alcanar, era o
comparecimento de todos os mesrios s respectivas sees, para que os eleitores
votassem certos e descansados. Ontem encontrei alguns deles inquietos, por
acharem uma seo vazia, sem sombra de mesa que lhes recebesse as cdulas.
Disse-lhes que a doena de um, a morte de outro, uma visita, a demora do
barbeiro, um carro quebrado, mil acidentes podiam explicar a ausncia dos
membros da mesa, sem que da viesse mal ao mundo, uma vez que no caa o cu
abaixo. No obstante, quiseram votar em separado na minha seo.

No entendi a resoluo, como no entendi o boato
da Repblica em Portugal (j agora desmentido oficialmente). No tendo havido
sequer um conto a que se acrescentasse um ponto, era evidente que o boato
nascera aqui mesmo de coisa nenhuma. Se o fim era influir no cmbio, estava
justificado. Negcio  negcio, e no sei que seja mais desonesto inventar uma
revoluo incorreta e uma repblica sem realidade, que levar-me cem mil-ris por
um objeto do valor de setenta. Ao contrrio, levando-me cem por setenta, perco
trinta mil-ris certos, ao passo que a coroa de D. Carlos continua a pousar na
real cabea, sob a forma de um simples chapu. Os efeitos do cmbio podem ajudar
a uns, em detrimento de outros,  verdade; mas no  isso mesmo a luta pela
vida?

Quer-me parecer, entretanto, que h um sindicato
formado para explorar a credulidade pblica. Sem nenhum intento lucrativo,  seu
nico objeto rir um pouco, a fim de curar a incurvel melancolia dos scios.
Quinta-feira foi destinada  Repblica de Portugal. Dizem que o boato comeou s
11 horas; talvez o plano fosse caminhar um pouco e dar s 2 horas a unio
ibrica proclamada, e as duas lnguas, espanhola e portuguesa, em marcha para
uma s espanhola, e os Lusadas, convertidos em poema provinciano, traduzido por
ordem do ministro do Fomento. s 3 horas, o sindicato diria que a Inglaterra,
amando todos os Egitos possveis, no que faz muito bem, teria mandado para o
palcio das Necessidades um dos seus lordes temporais. s 4 horas os janotas de
Lisboa perguntariam uns aos outros, por graa e novidade: How do you
do?

Se  isto, continuem. Uma boa organizao de
imaginosos e discretos pode dar alegria  cidade e ajudar a levar a cruz da
vida. Se amanh ou depois nos derem a entrada de Crispi para um convento, ou a
converso de Bismarck ao catolicismo, podem abrir uma assinatura e desde j me
inscrevo por um ano.

Esta semana parece de cinco dias; mas no lhe dou
mais uma hora; adeus.

28 de
julho

Raramente leio as notcias policiais, e no sei se
fao bem. So montonas, vulgares, a lngua no  boa; em compensao, podem
achar-se prolas nesse esterco. Foi o que me sucedeu esta semana, deixando cair
os olhos na notcia do assassinato de Joo Ferreira da Silva. No foi o nome da
vtima que me prendeu a ateno, nem o do suposto assassino, nem as demais
circunstncias citadas no depoimento das testemunhas, as serenatas de viola, o
botequim, a bisca e outras. Uma das testemunhas, por exemplo, fala do clube dos
Girondinos, que eu no conhecia, mas ao qual digo que, se no tem por fim perder
as cabeas dos scios, melhor  mudar de nome. Sei que a histria no se repete.
A Revoluo Francesa e Otelo esto feitos; nada impede que esta ou aquela cena
seja tirada para outras peas, e assim se cometem, literriamente falando, os
plgios. Ora, o nome de Girondinos  sugestivo; d vontade de levar os
portadores ao cadafalso. Tudo isto seja dito, no caso de no se tratar de alguma
sociedade de dana.

Vamos, porm, ao assassinato da rua da Relao. O
que me atraiu nesse crime foi a fora do amor, no por ser o motivo da discrdia
e do ato,  h muito quem mate e morra por mulheres  mas por apresentar na
pessoa de Manuel de Sousa, o suposto assassino, um modelo particular de paixes
contrrias e mltiplas. Foram as tatuagens do corpo do homem que me
deslumbraram.

As tatuagens so todas ou quase todas amorosas.
Braos e peito esto marcados de nomes de mulheres e de smbolos de amor. L
esto as iniciais de uma Isaura Maria da Conceio, as de Sara Esaltina dos
Santos, as de Maria da Silva Fidalga, as de Joaquina Rosa da Conceio. L esto
as figuras de um homem e de uma mulher em colquio amoroso; l esto dois
coraes, um atravessado por uma seta, outro por dois punhais em
cruz...

Quando os mdicos examinaram este homem fizeram-no
com Lombroso na mo, e acharam nele os sinais que o clebre italiano d para se
conhecer um criminoso nato; da a veemente suposio de ser ele o assassino de
Joo Ferreira. Eu, para completar o juzo cientfico, mandaria ao mestre
Lombroso cpia das tatuagens, pedindo-lhe que dissesse se um homem to dado a
amores, que os escrevia em si mesmo, pode ser verdadeiramente
criminoso.

Se pode, e se foi ele que matou o outro, no ser o
anjo do assassinato, como Lamartine chamou a Carlota Corday, mas ser, como eu
lhe chamo, o Eros do assassinato. Na verdade, h alguma coisa que atenua este
crime. Quem tanto ama, que  capaz de escrever em si mesmo alguns dos nomes das
mulheres amadas... Sim, apenas quatro, mas  evidente que este homem deve ter
amado dezenas delas, sem contar as ingratas. Convm notar que traz no corpo,
entre as tatuagens pblicas, um signo de Salomo. Ora Salomo, como se sabe,
tinha trezentas esposas e setecentas concubinas; da a devoo que Manuel de
Sousa lhe dedica. E isso mesmo explicar a vocao do homicdio. Salomo, logo
que subiu ao trono, mandou matar algumas pessoas para ensaiar a vontade. Assim
as duas vocaes andaro juntas, e se Manuel de Sousa descende do filho de Davi,
coisa possvel, tudo estar mais que explicado.

A fora do amor  tamanha que at aparece no
conflito do Amap. Daquela tormenta sabe-se que dois nomes sobrevivem, Cabral e
Trajano. O retrato do chefe Cabral, que com tanto ardor defendeu a povoao,
quando os franceses a invadiram levando tudo a ferro e fogo, est na loja Natt;
mas no  dele que trato. Trajano, que os franceses alegavam ser seu, chegou 
capital do Par onde foi interrogado por mais de um reprter, visto e ouvido com
extraordinria ateno. A todos respondeu narrando as cenas terrveis. Dizem os
jornais que  homem de seus cinqenta e cinco anos, inteligente, falando bem o
portugus, com uma ou outra locuo afrancesada.

Tudo narrou claramente  e tristemente, decerto,
mas, acaso pensais que essas cenas de sangue so a sua principal dor? No
conheceis a natureza e seus espantos. Trajano sente mais que tudo uma
caboclinha, sua mulher, que lhe fugiu. Este duro golpe penetrou mais fundo na
alma dele que os outros. No daria a ptria pela caboclinha, nem ningum lha
pede; mas, enquanto a dor lhe di, vai confessando o que sente.

Quem sabe se o caso da ilha da Trindade  mais de
amor que de navegao e posse? Agora que o conflito est findo ou quase findo,
graas  habilidade e firmeza do governo, podemos conjeturar um pouco sobre este
ponto, no para explicar poticamente a ao inglesa, mas para mostrar que os
coraes mais duros podem ter seus acessos de ternura.

Cames chama algures duros navegantes aos seus
portugueses. Nem por duros puderam esquivar-se ao amor. Um dia acharam a ilha
dos Amores, que Vnus, para os favorecer, ia empurrando no mar, at
encontr-los. Os descobridores da ndia desembarcaram. As belezas da floresta, a
apario das ninfas nuas e seminuas, que iam fugindo aos intrusos, as falas
deles e delas, os famintos beijos, o choro mimoso, a ira honesta, e toda a mais
descrio e narrao, lidas em terra, fazem extraordinriamente arder os
coraes. Imaginai um navio ingls, patrcio de Byron, no alto mar, batido dos
ventos e da misria, e dando com uma ilha deserta e inculta. Se os tripulantes
estivessem lendo as ordens do almirantado do sculo XVIII, podia ser que no
entrassem na ilha; mas liam Cames, e exatamente o episdio da ilha dos Amores.
Desceram  ilha; a imaginao acesa pela poesia mostra-lhes o que no h; do
com tranas de ouro, fraldas de camisa, pernas nuas. Um Veloso, por outro nome
ingls, d espantado um grande grito, repete o discurso do personagem de Cames,
e conclui que sigam as deusas, e vejam se so fantsticas, se verdadeiras. Todos
obedeceram, inclusive o Leonardo do poema, e entraram a correr pela mata e pelas
guas, at que deram por si em um espao deserto, sem fruta, sem flores, sem
moas...

Ouviram alguma coisa, ao longe, a voz de um homem,
que falava pela lngua do poeta, ainda que em prosa diplomtica. E dizia a voz
estranha uma poro de coisas que eles, antes de ler Cames, deviam trazer de
memria. Tornaram a bordo, no menos ardentes que desconsolados, e foram
consolar-se com o imaginado episdio da ilha dos Amores; mas ento j haviam
passado as estrofes das ninfas nuas e seminuas; estas tinham-se casado com os
navegantes e a deusa principal com o grande capito. Os versos j no eram
lascivos, mas conceituosos. Um deles lia para os outros escutarem:

E ponde na cobia um freio duro, E na ambio
tambm, etc.

4
de agosto

ANTES DE ESCREVER o nome de
Baslio da Gama,  fora escrever o do Dr. Teotnio de Magalhes. A este moo se
deve principalmente a evocao que se fez esta semana do poeta do
Uruguai. Pessoas que educaram os ouvidos de rapaz com versos de Jos
Baslio, no tinham na memria o centenrio da morte do poeta. No as crimino
por isso, seria criminar-me com elas. Tambm no ralho dos ltimos ano deste
sculo, to exaustivos para ns, to cheios de sucesso, terra marique.
No h lugar para todos, para os vivos e para os mortos principalmente os
grandes mortos. Mas como algum se lembrou do poeta, esse falou por todos, e
muitos seguiram a bandeira do jovem piedoso e modesto, que mostrou possuir o
sentimento da glria e da ptria.

No se fez demais para quem muito
merecia; mas fez-se bem e com alma. Que os nossos patrcios de 1995, chegado o
dia 20 de julho, recordem-se igualmente que a lngua, que a poesia da sua terra,
adornam-se dessas flores raras e vividas. Se a vida pblica ainda impedir que os
nomes representativos do nosso gnio nacional andem na boca e memria do povo,
algum haver que se lembre dele, como agora, e o segundo centenrio de Baslio
da Gama ser celebrado, e assim os ulteriores. Que esse modo de viver na
posteridade seja ainda urna consolao! Quando a p do arquelogo descobre uma
esttua divina e truncada, o mundo abala-se, e a maravilha  recolhida aonde
possa ficar por todos os tempos; mas a esttua ser uma s. Ao poeta
ressuscitado em cada aniversrio restar a vantagem de ser uma nova e rara
maravilha.

Tal foi uma das festas da semana,
que teve ainda outras. H tempo de se afligir e tempo de saltar de gosto, diz o
Eclesiastes; donde se pode concluir, sem trusmo, que h semanas festivas
e semanas aborrecidas. No Eclesiastes h tudo para todos. A pacificao
do Sul l est: H tempo de guerra e tempo de paz. Muita gente entende que
este  que  o tempo de paz; muita outra julga, pelo contrrio, que  ainda o
tempo da guerra, e de cada lado se ouvem razes caras e fortes. O
Eclesiastes, que tem respostas para tudo, alguma dar a ambas as
opinies; se no fosse a urgncia do trabalho, iria busc-la ao prprio livro,
no podendo faz-lo, contento-me em supor que ele dir aquilo que tem dito a
todos, em todas as lnguas, principalmente no latim, a que o trasladaram:
Vaidade das vaidades, e tudo  vaidade.

Napoleo emendou um dia essas
palavras do santo livro. Foi justamente em dia de vitria. Quis ver os cadveres
dos velhos imperadores austracos, foi aonde eles estavam depositados, e gastou
largo tempo em contemplao, ele, imperador tambm, at que murmurou, como no
livro: Vaidade das vaidades, tudo  vaidade. Mas, logo depois, para corrigir o
texto e a si, acrescentou: Exceto talvez a fora. Seja ou no exata a anedota,
a palavra  verdadeira. Podeis emend-la ao corso ambicioso, se quiserdes, como
ele fez ao desconsolado de Israel, mas h de ser em outro dia. Os minutos
correm: agora  falar da semana e das suas festas alegres.

Uma dessas festas foi o regresso
do Sr. Rui Barbosa. Coincidiu com o de Baslio da Gama; mas aquele veio de
Londres, este da sepultura, e por mais definitiva que soja a sepultura, fora 
confessar que o autor do Uruguai no veio de mais longe que o ilustre ministro
do governo provisrio. Talvez de mais perto. A sepultura  a mesma em toda a
parte, qualquer que seja o mrmore e o talento do escultor, ou a simples pedra
sem nome ou com ele, posta em cima da cova. A morte  universal. Londres 
Londres, tanto para os que a admiram, como para os que a detestam. Um membro da
comuna de Paris, visitando a Inglaterra h anos, escreveu que era um pas
profundamente insular, tanto no sentido moral, como no geogrfico. Os que leram
as cartas do Sr. Rui Barbosa no Jornal do Comrcio tero sentido que ele,
um dos grandes admiradores do gnio britnico reconhece aquilo mesmo na nao, e
particularmente na capital da Inglaterra.

A recepo do Sr. Rui Barbosa foi
mais entusistica e ruidosa que de Baslio da Gama; diferena natural, no por
causa dos talentos que so incomparveis entre si, mas porque a vida fala mais
ao nimo dos homens, porque o Sr. Rui Barbosa teve grande parte na histria dos
ltimos anos, finalmente porque  algum que vem dizer ou fazer alguma coisa.
Como essa coisa, se a houver,  certamente poltica, troco de caminho e torno-me
s letras, ainda que a mesmo ache o culto esprito do Sr. Rui Barbosa, que
tambm as prtica e com intimidade. No importa, aqui, o que houver de dizer ou
fazer, ser bem-vindo a todos.

Outra festa, no propriamente a
primeira em data ou lustre, mas em interesse c da casa, foi o aniversrio da
Gazeta de Notcias. Completou os seus vinte anos. Vinte anos  alguma
coisa na vida de um jornal qualquer, mas na da Gazeta  uma longa pgina
da histria do Jornalismo. O Jornal do Comrcio lembrou ontem que ela fez
uma transformao na imprensa. Em verdade, quando a Gazeta apareceu, a
dois vintns, pequena, feita de notcias, de anedotas, de ditos picantes,
apregoada pelas ruas, houve no pblico o sentimento de alguma coisa nova,
adequada ao esprito da cidade. H vinte anos. As moas desta idade no se
lembraram de fazer agora um gracioso mimo  Gazeta, bordando por suas
mos uma bandeira, ou, em seda o nmero de 2 de agosto de 1875. So duas boas
idias que em 1896 podem realizar as moas de vinte e um anos, e depressa,
depressa antes que a Gazeta chegue aos trinta. Aos trinta, por mais amor
que haja a esta folha, no  fcil que as senhoras da mesma idade lhe faam
mimos. Se lessem Balzac, f-los-iam grandes, e achariam mos amigas que os
recebessem; mas as moas deixaram Balzac, pai das mulheres de trinta
anos.

11 de agosto

QUE POUCO se leia nesta terra  o
que muita gente afirma, h longos anos;  o que acaba de dizer um biblimano
na Revista Brasileira. Este, porm, confirmando a observao, d como
uma das causas do desamor  leitura o ruim aspecto dos livros, a forma desigual
das edies, o mau gosto, em suma. Creio que assim seja, contanto que essa causa
entre com outras de igual fora. Uma destas  a falta de estantes. As nossas
grandes marcenarias esto cheias de mveis ricos, vrios de gosto; no h s
cadeiras, mesas, camas, mas toda a sorte de trastes de adorno fielmente copiados
dos modelos franceses, alguns com o nome original, o bijou de salon, por
exemplo, outros em lngua hbrida, como o porte-bibelots Entra-se nos
grandes depsitos, fica-se deslumbrado pela perfeio da obra, pela riqueza da
matria, pela beleza da forma. Tambm se acham l estantes,  verdade, mas so
estantes de msicas para piano e canto, bem acabadas, vrio tamanho e muita
maneira.

Ora, ningum pode comprar o que
no h. Mormente os noivos, nem tudo acode. A prova  que, se querem comprar
cristais, metais loua, vo a outras casas, assim tambm roupa branca, tapearia
etc.; mas no  nelas que acharo estantes. Nem  natural que um mancebo,
prestes a contrair matrimnio, se lembre de ir a lojas de ferro ou de madeira;
quando se lembrasse, refletiria certamente que a moblia perderia a unidade. S
as grandes fbricas poderiam dar boas estantes, com ornamentaes, e at sem
elas.

A Revista Brasileira  um exemplo
de que h livros com excelente aspecto. Creio que se vende, se no se vendesse,
no seria por falta de matria e valiosa. Mudemos de caminho, que este cheira a
anncio. Falemos antes da impresso que este ltimo nmero me trouxe. Refiro-me
s primeiras pginas de um longo livro, uma biografia de Nabuco, escrita por
Nabuco, filho de Nabuco.  o captulo da infncia do finado estadista a e
jurisconsulto . As vidas dos homens que serviram noutro tempo, e so os seus
melhores representantes, ho de interessar sempre s geraes que vierem vindo.
O interesse, porm, ser maior, quando o autor juntar o talento e a piedade
filial, como na presente caso. Dizem que na sepultura de Chatham se ps este
letreiro: O pai do Sr. Pitt. A revoluo de 1889 tirou, talvez, ao filho de
Nabuco uma consagrao anloga. Que ele nos d com a pena o que nos daria com a
palavra e a ao parlamentares, e outro fosse o regmen, ou se ele adotasse a
constituio republicana. H muitos modos de servir a terra de seus
pais.

A impresso de que fale;. vem de
anos longos. Desde muito morrera Paran e j se aproximava a queda dos
conservadores, por intermdio de Olinda, precursor da ascenso de Zacarias.
Ainda agora vejo Nabuco, j senador, no fim da bancada da direita, ao p da
janela, no lugar correspondente ao em que ficava, do outro lado, o Marqus de
Itanham, um molho de ossos e peles, trpego, sem dentes nem valor poltico.
Zacarias, quando entrou para o Senado foi sentar-se na bancada inferior  da
Nabuco. Eis aqui Eusbio de Queirs, chefe dos conservadores, respeitado pela
capacidade poltica, admirado pelos dotes oratrios, invejado talvez pelos seus
clebres amores. Uma grande beleza do tempo andava desde muito ligada ao seu
nome. Perdoe-me esta meno. Era uma senhora alta, outonia... So migalhas da
histria, mas as migalhas devem ser recolhidas. Ainda agora leio que, entre as
relquias de Nlson, coligidas em Londres, figuram alguns mimos da formosa
Hamilton. Nem por se ganharem batalhas navais ou polticas se deixa de ter
corao. Jequitinhonha acaba de chegar da Europa, com os seus bigodes pouco
senatoriais. L estavam Rio Branco, simples Paranhos, no centro esquerdo,
bancada inferior, abaixo de um senador do Rio Grande do Sul, como se
chamava?Ribeiro, um que tinha ao p da cadeira. no cho atapetado o dicionrio
de Morais consultava a mido, para verificar se tais palavras de um orador eram
ou no legtimas; era um varo instrudo e lhano. Quem especificar mais, So
Vicente, Caxias, Abrantes, Maranguape, Cotegipe, Uruguai, ltabora, Otoni, e
tantos, tantos, uns no fim da vida, outros para l do meio dela, e todo
presididos pelo Abaet, com os seus compridos cabelos brancos.

Eis a o que fizeram brotar as
primeiras pginas de Um Estadista do Imprio. Ouo ainda a voz eloqente
do velho Nabuco, do mesmo modo que ele devia trazer na lembrana as de
Vasconcelos, Ledo Paula Sousa, Lino Coutinho, que ia ouvir, em rapaz, na galeria
da Cmara, segundo nos conta o filho. Que este faa reviver aqueles e outros
tempos, contribuindo para a histria do sculo XIX, quando algum sbio de 1950
vier contar as nossas evolues polticas.

Como no se h de s escrever
histria poltica, aqui est Coelho Neto, romancista, que podemos chamar
historiador, no sentido de contar a vida das almas e dos costumes dos nossos
primeiros romancistas, e, geralmente falando, dos nossos primeiros escritores
mas  como autor de obras de fico que ora vos trago aqui, com o seu recente
livro Miragem. Coelho Neto tem o dom da inveno, da composio, da
descrio e da vida, que coroa tudo. No vos poderia narrar a ltima obra, sem
lhe cercear o interesse. Parte dela est na vista imediata das coisas, cenas e
cenrios. No h transportar para aqui os aspectos rsticos, as vistas do cu e
do mar, as noites dos soldados a vida da roa, os destroos de Humait, a marcha
das tropas, em 15 de novembro, nem ainda as ltimas cenas do livro, tristes e
verdadeiras. O derradeiro encontro de Tadeu e da me  pattico. Os personagens
vivem, interessam e comovem. A prpria terra vive. A miragem, que d o ttulo ao
livro,  a vista ilusria de Tadeu, relativamente ao futuro trabalhado por ele,
e o desmentido que o tempo lhe traz, como ao que anda no deserto.

No posso dizer mais; chegaria a
dizer tudo. A arte dos caracteres mereceria ser aqui indicada com algumas
citaes: os episdios, como os amores de Tadeu em Corumb, a impiedade de Lusa
acerca dos desregramentos da me, a bondade do ferreiro Nasrio, e outros que
mostram em Coelho Neto um observador de pulso.

25 de agosto

POMBOS-CORREIOS, vulgarmente
chamados telegramas, vieram anteontem do Sul para comunicar que a paz est
feita. Tanto bastou para que a cidade se alegrasse, se embandeirasse e
iluminasse. Grandes foram as manifestaes por essa obra generosa, muita gente
correu ao palcio de Itamarati, onde aclamou e cobriu de flores o presidente da
Repblica. Natural  que razes polticas e patriticas determinassem esse ato,
para mim bastava que fossem humanas. Homo sum, et nihil humanum, etc. Bem
sei que a guerra tambm  humana, por mais desumana que nos parea; nem ns
estamos aqui s para cortar, entre amigos, o po da cordialidade. Para isso, no
era preciso sair do den. No percamos de vista que dos dois primeiros irmos um
matou o outro, e tinham todo este mundo por seu. Se algum dia a paz governar
universalmente este mundo, comear ento a guerra dos mundos entre si, e o
infinito ficar juncado de planetas mortos. Vingar por ltimo o sol, at que o
Senhor apague essa ltima vela para melhor se agasalhar e dormir. Sonhar Ele
conosco?

Felizmente, so sucessos remotos,
e muita gente dormir debaixo da terra, antes que comece a derradeira Ilada,
sem Homero. Contentemo-nos com a paz que nos sorri agora, e alegremo-nos de
ver irmos alegres e unidos. Eu, como as letras so essencialmente artes de paz,
 natural que a sade com particular amor. O tumulto das armas nem sempre 
favorvel  poesia.

De resto, a semana comeou bem
para letras e artes. O Sr. Senador Ramiro Barcelos achou, entre os seus cuidados
polticos, um momento para pedir que entrasse na ordem do dia o projeto dos
direitos autorais. O Sr. presidente do Senado, de pronto acordo, incluiu o
projeto na ordem do dia. Resta que o Senado, correspondendo  iniciativa de um e
 boa vontade de outro, vote e conclua a lei.

No lhe peo que discuta.
Discusses levam tempo, sem adiantar nada. O artigo 6 da Constituio est
sendo discutido com animao e competncia, sem que alis nenhum orador persuada
os adversrios. Cada um votar como j pensa. Talvez se pudesse fazer um ensaio
de parlamento calado, em que s se falasse por gestos. como queria um personagem
de no sei que pea de Sardou, achando-se s com uma senhora. Sardou? No afirmo
que fosse ele, podia ser Barrire ou outro: foi uma pea que vi h muitos anos
no extinto Teatro de S. Janurio, crismado depois em Ateneu Dramtico, tambm
extinto, ou no Ginsio Dramtico to extinto como os outros. Tudo extinto; no
me ficaram mais que algumas recordaes da mocidade, brevemente
extinta.

Recordaes da mocidade! No sei
se mande compor estas palavras em redondo, se em itlico. V de ambas as formas.
Recordaes da mocidade. Na pea deste nome, j no fim, quando os rapazes
dos primeiros atos tm famlia e posio social, algum lembra um ritornello,
ou  a prpria orquestra que o toca  surdina; os personagens fazem um gesto
para danar, como outrora, mas o sentimento da gravidade presente os reprime e
todos mergulham outra vez nas suas gravatas brancas. E o que te sucede,
qinquagenrio que ora ls os livros de todos esses rapazes que trabalham,
escrevem e publicam.  o ritornello das geraes novas; ei-lo que te
recordo o ardor agora tpido, os risos da primavera fugidia, os ares da manh
passada. Bela  a tarde, e noites h belssimas; mas a frescura da manh no tem
parelha na galeria do tempo.

Eis aqui um Magalhes de Azeredo,
que a diplomacia veio buscar no meio dos livros que fazia. Dante, sendo
embaixador, deu exemplo aos governos de que um homem pode escrever protocolos e
poemas, e fazer to bem os poemas, que ainda saam melhores que os protocolos. O
nosso Domingos de Magalhes foi diplomata e poeta. No conheo as suas notas,
mas li os seus versos, e regalei-me em criana com o Antnio Jos,
representado por Joo Caetano, para no falar no Waterloo, que
mamvamos no bero, com a Cano do Exlio de Gonalves Dias.

Destruindo afinal, as
teias que o embaraavam, o Presidente da Repblica achou-se, logo, cercado de
louros e fores. Nem todas as aranhas fugiram... A mais perigosa
ficou

Este outro Magalhes  Magalhes
de Azeredo   dos que nasceram para as letras, governando Deodoro; pertence 
gerao que, mal chegou  maioridade, toda se desfaz em versos e contos.
Compe-se destes o livro que acaba de publicar com o ttulo de Alma
Primitiva. No te enganes; no suponhas que  um estudopor meio de
histrias imaginadasda alma humana em flor. Nem sers to esquecido que te no
lembre a novela aqui publicada; histria de amor, de cime e de vingana, um
quadro da roa, o contraste da alma de um professor com a de um tropeiro. Tal 
o primeiro conto; o ltimo, Uma Escrava,  tambm um quadro da roa, e a meu
ver, ainda melhor que o primeiro.  menos um quadro da roa que da escravido.
Aquela D. Belarmina, que manda vergalhar at sangrar uma mucama de estimao,
por cimes do marido, cujo Filho a escrava trazia nas entranhas, deve ser neta
daquela outra mulher que, pelo mesmo motivo, castigava as escravas, com ties
acesos pessoalmente aplicados. Di-lo no sei que cronista nosso, frade
naturalmente; mais recatado que o frade, fiquemos aqui. So horrores, que a
bondade de muitas haver compensado; mas um povo forte pinta e narra
tudo.

No  o conto nico da roa e da
escravido, nem s dele se compe este livro variado. Creio que a melhor pgina
de todas  a do Ahasverus, quadro terrvel de um navio levando o
clera-mrbus, pelo oceano fora, rejeitado dos portos, rejeitado da vida. 
daqueles em que o estilo  mais condensado e vibrante.

No cuides, porm, que todas as
pginas deste livro so cheias de sangue e de morte. Outras so estudos
tranqilos de um sentimento ou de um estado quadros, de costumes ou
desenvolvimento de uma idia. De Alm-Tmulo tem o elemento fantstico,
tratado com fina significao e sem abuso. O que podes notar em quase todos os
seus contos  um ar de famlia, uma feio mesclada de ingenuidade e melancolia.
A melancolia corrige a ingenuidade dando-lhe a intuio do mal mundano; a
ingenuidade tempera a melancolia, tirando-lhe o que possa haver nela triste ou
pesado. No  s fisicamente que o Dr. Magalhes de Azeredo  simptico,
moralmente atrai. A educao mental que lhe deram auxiliou uma natureza dcil.
Os seus hbitos de trabalho so, como suponho, austeros e pacientes. Duvidar
algumas vezes de si? O trabalho dar-lhe- a mesma f que tenho no seu
futuro.

1
de setembro

AQUILO QUE LULU SENIOR disse
anteontem a respeito do professor ingls que enforcaram na Guin trouxe
naturalmente a cor alegre que ele empresta a todos os assuntos. As pessoas que
no lem telegramas no viram a notcia; ele, que os l, fez da execuo do
ingls e dos autores do ato uma bonita caoada. Nada h, entretanto, mais
temeroso nem mais lgubre.

No falo do enforcamento, ordenado
pelas autoridades indgenas. Eu, se fosse autoridade de Guin, tambm condenaria
o professor ingls, no por ser ingls, mas por ser professor. Enforcaram o
homem, e no h de ser a simples notcia de um enforcado que faa perder o sono
nem o apetite. A descrio do ato faria arrepiar as carnes, mas os telegramas
no descrevem nada, e o professor foi pendurado fora da nossa vista. Nem mais
teremos aqui tal espetculo o desuso e por fim a lei acabaram com a forca para
sempre, salvo se a lei de Lynch entrar nos nossos costumes; mas no me parece
que entre.

Quanto ao crime que levou o
professor ingls ao cadafalso africano, no  ainda o que mais me entristece e
abate. Dizem que comeu algumas crianas. Compreendo que o matassem por isso. 
um crime hediondo, naturalmente; mas h outros crimes to hediondos, que ainda
afligindo a minha alma, no me deixam prostrado e quase sem vida. Demais, pode
ser que o professor quisesse explicar aos ouvintes o que era canibalismo,
cientificamente falando. Pegou de um pequeno e comeu-o. Os ouvintes, sem saber
onde ficava a diferena entre o canibalismo cientfico e o vulgar, pediram
explicaes; o professor comeu outro pequeno. No sendo provvel que os
espritos da Guin tenham a compreenso fcil de um Aristteles, continuaram a
no entender, e o professor continuou a devorar meninos. Foi o que em pedagogia
se chama lio das coisas.

Se assim fosse, deveramos antes
lastimar o sacrifcio que fez tal homem, comendo o semelhante, para o fim de
ensinar e civilizar gentes incultas. Mas seria isso? Foi o amor ao ensino, a
dedicao  cincia, a nobre misso do progresso e da cultura? Ou estaremos
vendo os primeiros sinais de um terrvel e prximo retrocesso? Vou
explicar-me.

Em 1890, foi descoberto e
processado em Minas Gerais um antropfago. Um s j era demais; mas o processo
revelou outros, sendo o maior de todos o ru Clemente, apresentado ao juiz
municipal de Gro Gogol, Dr. Belisrio da Cunha e Melo, ao qual estava sujeito o
termo de Salinas, onde se deu o cave.

No era este Clemente nenhum
vadio, que preferisse comer um homem a pedir-lhe dez tostes pare comer outra
coisa. Era lavrador tinha vinte e dois anos de idade. Confessou perante o
subdelegado haver matado e comido seis pessoas, dois homens, duas mulheres e
duas crianas. No tenham pena de todos, os comidos. Um deles, a moa Francisca,
antes de ser comida por ele, com quem vivia maritalmente, ajudou-o a matar e a
comer outra moa, de nome Maria. Outro comido, um tal Baslio, foi com ele 
casa de Fuo Simplcio, onde pernoitaram, estando o dono a dormir, os dois
hspedes com uma mo-de-pilo o mataram, assaram e comeram. Mas tempos depois,
um sbado, 29 de novembro de 1890, levado de saudades, matou o companheiro
Baslio e estava a comer-lhe as coxas, tendo j dado cabo da parte superior do
corpo, quando foi preso. Os dois meninos comidos antes, chamavam-se Vicente e
Elesbo e eram irmos de Francisca, filhos de Manuela. Por que escapou Manuela?
Talvez por no ser moa. Oh! mocidade! Oh! flor das flores! A mesma antropofagia
te prefere e busca. Aos velhos basta que os desgostos os comam.

Importa notar que o inventor da
antropofagia, no termo de Salinas no foi Clemente, mas um tal Leandro, filho de
Sabininha, e mais a mulher por nome Emiliana. Propriamente foram estes os que
mataram um menino, e o levaram para casa, e o esfolaram e assaram; mas, quando
se tratou de com-lo, convidaram amigos, entre eles Clemente, que confessou ter
recebido uma parte do defunto. A informao consta do interrogatrio. No tive
outras notcias nem sei como acabou o processo. Ho de lembrar-se que esse foi o
ano terrvel (1890-91) em que se perdeu e ganhou tanto dinheiro que no pude ler
mais nada. Comiam-se aqui tambm uns aos outros sem ofensa do cdigoao menos no
captulo do assassinato.

A concluso que tiro do caso de
Salinas e do caso da Guin  que estamos talvez prestes a tornar atrs,
cumprindo assim o que diz um filsofono sei se Montaigneque ns no fazemos
mais que andar  roda. H de custar a crer, mas eu quisera que me explicassem os
dois casos, a no ser dizendo que tal costume de comer gente  repugnante e
brbaro, alm de contrrio  religio; palavra de civilizado, que outro
civilizado desmentiu agora mesmo na Guin. No esqueam a proposta de Swift,
para tornar as crianas irlandesas , que so infinitas, teis ao bem pblico.
Afirmou-me um americano disse ele, meu conhecido de Londres e pessoa capaz, que
uma criana de boa sade e bem nutrida, tendo um ano de idade,  um alimento
delicioso, nutritivo e so, quer cozido, quer assado, de forno ou de fogo. 
escusado replicar-me que Swift quis ser apenas irnico. Os ingleses  que
atriburam essa inteno ao escrito pelo sentimento de repulsa; mas os prprios
ingleses acabaram de provar na frica a veracidade e (com as restries devidas
 humanidade e  religio) o patriotismo de Swift.

Talvez o deo e o americano se
hajam enganado em limitar s crianas de um ano as qualidades de sabor e
nutrio. Se tornarmos  antropofagia,  evidente que o uso ir das crianas aos
adultos, e pode j fixar-se a idade em que a gente ainda deva ser comida:
quarenta a quarenta e cinco anos. Acima desta idade, no creio que as qualidades
primitivas se conservem. Como  provvel que a atual civilizao subsista em
grande parte,  naturalssimo que se faam instituies prprias de criao
humana, ou por conta do Estado, ou de acordo com a lei das sociedades annimas.
Penso tambm que acabar o crime de homicdio, pois que o modo certo de defesa
do criminoso ser, logo que estripe o seu inimigo ou rival, ce-lo com pessoas
de polcia.

Horrvel, concordo, mas ns no
fazemos mais que andar  roda, como dizia o outro... Que me no posso lembrar se
foi realmente Montaigne, pois iria daqui pesquisar o livro, para dar o texto na
prpria e deliciosa lngua dele! Os franceses tm um estribilho que se poder
aplicar  vida humana, dado que o seu filsofo tenha razo:

Si cette histoire vous
embte,
Nous allons la
recommencer.

Os portugueses tm esta outra,
para facilitar a marcha, quando so dois ou mais que vo andando:

Um, dois, trs;
Acerta o passo, Ins,
Outra vez!

Estribilhos so muletas que a
gente forte deve dispensar. Quando voltar o costume da antropofagia, no h mais
que trocar o amai-vos uns aos outros, do Evangelho, por esta doutrina:
Comei-vos uns aos outros. Bem pensado so os dois estribilhos da
civilizao.

8
de setembro

NO ME FALEM de anistias, nem de
chuvas, nem de frios, nem do naufrgio do Britnia, nem do eclipse da semana. H
pessoas que trazem de cor os eclipses. Tambm eu fui assim, graas aos
almanaques. Um dia, porm, vendo que o sol e a lua, posto que primitivos, eram
ainda os melhores almanaques deste mundo, acabei com os outros. A economia 
sensvel; mas nem por isso ando com os olhos no cu. Tendo tropeado tanta vez,
como o sbio antigo, sigo o conselho da velha e no tiro os olhos do cho:  o
mais seguro gesto para no cair no poo.

Vs, que me ledes h trs anos ou
mais, duvidareis um pouco desta afirmao. Sim,  possvel que me tenhais visto
com os olhos no firmamento,  cata de alguma estrela perdida ou sonhada. No o
vejo, mas no tenho tempo de me reler, nem j agora rasgo o que a fica, para
dizer outra coisa. Farei de conta que isto  uma retificao,  maneira dos
escrives e outros oficiais, como esta que leio no ltimo nmero do Arquivo
Municipal: Proveu mais o dito ouvidor-geral que dos primeiros efeitos desta
Cmara se faa um tinteiro de prata, na forma do outro que acabou, digo,
na forma do outro que serve. Com um simples digo se pe o
contrrio.

Esse Arquivo no traz s
velhos documentos, mas tambm lies e boas regras. No dito auto de correio,
que se fez ali pelos fins do primeiro tero do sculo passado, emendou-se muita
lacuna e cortou-se muita demasia.

Proveu mais o ouvidor, que por
quanto h grandes queixas do mal que se cobram os foros dos bens do Conselho,
por serem dados alguns a pessoas poderosas, e outros a pessoas eclesisticas,
mandou que daqui em diante se no dem mais a semelhantes pessoas, seno dando
fiadores chos e abonadores . . .

Os prprios governadores no
escaparam a este terrvel ouvidor-geral, que tambm mandou que por nenhum cave
de hoje em diante se d mais a nenhum governador desta praa ajuda de custo pare
cases nem pare outros efeitos alguns, das rendas da Cmara com pena de os
pagarem os oficiais da Cmara e de no entrarem mais no governo desta
Repblica.

Enfim, at mandou que se
contratasse um letrado, o licenciado Bento Homem de Oliveira, com o ordenado de
trinta e dois mil-ris por ano.

Trinta e dois mil-ris por ano!
Bom tempo, ah! bom tempo! Apesar da nobreza da terra, no vivia ainda nem morria
a Marquesa de Trs Rios, que s com mdicos despendeu (dizem as notcias de So
Paulo) cerca de quinhentos contos. Bom tempo, ah! bom tempo, em que se taxava o
preo a tudo, e o regimento dos alfaiates marcava para um colete, uma vstia e
um calo (um terno diramos hoje) a quantia de quatro mil-ris. O torneiro de
chifre (ofcio extinto) tinha no seu regimento que um tinteiro grande de
escrivo com tampa custasse quatrocentos ris, e um dito grande com sua
poeira, quatrocentos e oitenta ris. Que era sua poeira? Talvez a
areia que ainda achei, em criana, antes que o mata-borro servisse tambm para
enxugar as letras. Usos, costumes, regras e preos que se foram com os
anos.

Com os sculos foram ainda outras
coisas, e no s desta terra como de alheioso Egito, para no ir mais longe. H
dois Egitos o atual, que, no sendo propriamente ilha,  uma espcie de ilha
britnicae o antigo, que se perde na noite dos tempos. Este  o que o nosso
Coelho Neto pe no Rei Fantasma. No conheo um nem outro; no posso
comparar nem dizer nada da ocupao inglesa nem da restaurao Coelho Neto.
Tenho que a restaurao sempre h de ter sido mais difcil que a ocupao, mas
fio que o nosso patrcio haver estudado conscienciosamente a
matria.

 certo que o autor, no prlogo do
livro, afirma que este  traduo de um velho papyrus, trazido do Cairo
por um estrangeiro que ali viveu em companhia de Mariette. O estrangeiro veio
para aqui em 1888, e com medo das febres meteu-se pelo serto levando o
papyrus, os anubis, mapas e cachimbos. A o conheceu, a trabalharam
juntos; morto o estrangeiro, Coelho Neto cedeu a rogos e deu ao prelo o
livro.

Conhecemos todos essas fbulas.
So inventos que adornam a obra ou do maior liberdade ao autor. Aqui, nada
tiram nem trocam ao estilo de Coelho Neto, nem afrouxam a viveza da sua
imaginao. A imaginao  necessria nesta casta de obras. A de Flaubert deu
realce e vida a Salomo, sem desarmar o grande escritor da erudio
precisa para defender-se, no dia em que o acusaram de haver falseado
Carthago. Quando o autor  essencialmente erudito, como Ebers,
preocupa-se antes de textos e indicaes; pegai na Filha de Um Rei do Egito,
contai as notas, chegareis a 525. Ebers nada esqueceu; conta-nos, por
exemplo, que o mais velho de dois homens que vo na barca pelo Nilo passa a mo
pela barba grisalha, que lhe cerca o queixo e as faces, mas no os lbios, e
manda-nos para as notas, onde nos explica que os espartanos no usavam bigodes.
No sei se Coelho Neto iria a todas as particularidades antigas mas aqui est
uma de todos os tempos, que lhe no esqueceu, e trata-se de barca tambm, uma
que chega  margem para receber o rei: os remos arvorados gotejavam... No
tenho com que analise ou interrogue o autor do Rei Fantasma acerca dos
elementos do livro. Sei que este interessa, que as descries so vivas, que as
paixes ajudam a natureza exterior e a estranheza dos costumes. H quadros
terrveis; a cena de Amanci e da concubina tem grande movimento, e o suplcio
desta di ao ler, to viva  a pintura da moa, agarrada aos ferros e fugindo
aos lees. O mercado de Peh'n e a panegria de sis so pginas fortes e
brilhantes.

15 de
setembro

Um dia destes, indo a passar pela guarda policial
da rua Sete de setembro, fronteira  antiga capela imperial, dei com algumas
pessoas paradas e um carro de polcia. De dentro da casa saa um preto, em
camisa, pernas nuas, trazido por duas praas. Abriram a portinhola do carro e o
preto entrou sem resistncia, sentou-se e olhou plcidamente para fora. Uma das
praas recebeu o ofcio de comunicao, e o carro partiu.

 Que crime cometeu este preto? perguntei a um
oficial.

  um alienado.

Grande foi o abalo que me deu esta simples
resposta. Esperava um manaco ou gatuno, que tivesse lutado e perdido as calas.
Sempre era algum. Mas um pobre homem doido, que da a pouco estaria no
hospcio, era um desgraado sem personalidade, um organismo sem conscincia. E
fiquei triste, fiquei arrependido de haver passado por ali, quando a cidade 
assaz grande e todos os caminhos levam a Roma. s vezes basta um sucesso desses
para estragar o dia e eram apenas dez horas da manh. No podia andar sem ver um
carro, duas pernas nuas, duas praas que as metiam no carro... Desviava os
olhos, dobrava uma esquina, mas a vinham as praas e as pernas. A viso
perseguia-me.

De repente, bradou-me uma voz de dentro: Mas,
desgraado, examinaste bem aquele preto? Sabes qual  a sua loucura? A
princpio no dei ateno a esta pergunta, que me pareceu tola, porquanto
bastava que as idias dele no fossem reais para serem a maior desgraa deste
mundo; a curiosidade de saber o que efetivamente pensava o alienado, fez-me
entrar no crebro do infeliz. Qualquer outro acharia j nisto um princpio de
alienaro mental; mas a presuno que tenho de imaginar as coisas que andam na
cabea dos outros, e acertar com elas algumas vezes, deu-me nimo para a
tentativa.

Lembrou-me que o preto, posto que sem calas, no
era precisamente um sans-culotte. Tinha um ar mesclado de sobranceria e
melancolia. No se opusera  entrada no carro, nem tentou sair, no falou, no
resmungou. Os olhos que deitou para fora eram, como acima disse, plcidos.
Suponhamos que ele acreditava ser o gro-duque da Toscana. Tanto melhor se j
no h os ducados; era a maior prova da fora imaginativa do homem.

Assim, em vez de ser levado em carro de polcia, ia
metido no esplndido coche ducal, tirado por duas parelhas de cavalos negros. A
rua da Assemblia, por onde subiu, apareceu-lhe larga e limpa, com vastas
caladas, e muitas senhoras nas janelas dando vivas a Ernesto XXIV; era
provvelmente o nome deste gro-duque pstumo. No largo da Carioca fizeram-lhe
parar o coche, diante da bela estao da companhia de Carris do Jardim Botnico.
Uma poro de senhoras, abrigadas da chuva,  espera dos bonds, saudaram
respeitosamente a Sua Alteza. Sem sair do coche, Ernesto XXIV admirou o
edifcio, no s pelo estilo arquitetnico, como pelo conforto
interior.

Chegado  rua do Lavradio, apeou-se  porta da
secretaria da polcia. Tapetes, em vez de pontas de cigarros, receberam os ps
do gro-duque, conduzido para o salo dos embaixadores, enquanto redigiam uma
alocuo. Cansado de esperar, ordenou que lhe levassem a alocuo onde o
achassem, e saiu a p. Na praa Tiradentes viu a prpria esttua na de Pedro I,
e admirou a semelhana da cabea, no menos que o brio do gesto. Depois de fazer
a volta do gradil, foi convidado por uma comisso a entrar e repousar na estao
dos bonds de Vila Isabel; aceitou e no gostou menos deste edifcio que
do do largo da Carioca. Achou at que os bancos de palhinha de Vila Isabel eram
preferveis aos bancos da companhia Jardim Botnico, estofados e forrados de
couro de Crdova. Ao sair, deixou paga a passagem de mil pessoas
indigentes.

J ento muito povo o acompanhava. Descendo a rua
do Ouvidor, no deixou de notar que era excessivamente larga.

 Uma rua destas, disse Ernesto XXIV, no pode
exceder de duzentos metros de largura. Tambm no pode ter uns cinco ou seis
metros, como se fosse um beco dos Barbeiros ilustrado. No  que os becos
estejam fora da civilizao; ao contrrio, toda civilizao comea, moralmente,
por um beco. Mas os becos, estreitos em demasia, servem antes ao mexerico, ao
boato,  crtica mofina, etc. Com um piscar de olhos de uma calada  outra
indica-se uma senhora ou um cavalheiro que passa, e a facilidade do gesto
convida  murmurao. H mais a desvantagem de se atopetar depressa e com pouco.
No se dir isto da rua do Ouvidor; mas assim to larga, que mal se distinguem
as pessoas de um para outro lado, traz perigo diverso e perde talvez na
beleza.

Falando e andando, ordenou que o conduzissem 
cmara dos deputados. A multido o levou at l, entre aclamaes. A mesa, logo
que soube da presena do gro-duque, mandou receb-lo, e da a pouco sentava-se
Sua Alteza na tribuna do corpo diplomtico. De p, a cmara inteira saudou com
vivas o ilustre hspede, e, a um gesto deste, continuou a discusso de um
projeto relativo ao cmbio. Desta tribuna, senhores... continuou o orador; e
Ernesto XXIV, guiando o binculo que lhe dera um camarista, viu efetivamente o
orador no alto da tribuna. A lei que se discutia, proposta pelo dito orador,
tinha por objeto fazer baixar o cmbio, cuja ala afigurava-se a alguns antes um
mal que um bem. E o orador citava anedotas pessoais:

 Tudo que se vendia por alto preo, h dois meses,
longe de ficar nele, como presumiam ignorantes, vai baixando de um modo, no
direi vertiginoso, mas rpido. Ontem deixei de comprar um chapu alto por 5$000;
perguntando ao chapeleiro que razo tinha para pedir tal vil preo por um objeto
importado e quando o cmbio estava abaixo do par, explicou-me que a elevao do
cmbio a 34 permitia-lhe comprar barato os objetos do seu uso, e no seria justo
nem econmico exigir agora por um chapu mais do que lhe custavam as calas e as
gravatas. (Apoiados e no apoiados). UMA VOZ.  E por que no comprou V. Ex. o
chapu?  Respondo ao nobre deputado que por um motivo superior ao meu prprio
entendimento. (Nenhum rumor). Sinto, receio, assombra-me a possibilidade de ver
tudo a decrescer tanto no preo, que se d nova crise econmica, ainda no vista
nem prevista.

Indo a entrar em votao o projeto, Ernesto XXIV
deixou a cmara e procurou a intendncia municipal. Achou o edifcio slido e
asseado. Os empregados estavam alegres com o pagamento adiantado que lhes
fizeram dos vencimentos de trs meses. Estranhando este costume, ouviu do
prefeito que ele se perdia na noite dos tempos e explicava-se pelo excesso de
dinheiro que havia nas arcas da prefeitura. Pagas todas as dvidas do municpio,
caladas e reformadas as ruas, desentulhada a praia da Glria de um princpio de
ponte que ali ficou, e a enseada de Botafogo de um esboo de muro com que se
queria alargar a praia, seria desastroso suspender to velho uso de fazer
adiantamentos aos empregados em proveito de qu? Em proveito do bolor, que  o
que d no dinheiro parado.

 Sim, confesso que...

No pde acabar. Cerca de cem mil pessoas vieram
aclamar o gentil gro-duque da Toscana, que honrava assim as nossas plagas.
Ernesto XXIV ouviu e proferiu discursos, recebeu uma taa de ouro, com dizeres
de brilhantes, cinco moas bonitas entre dezessete e vinte anos, para seus
amores, sapatos envernizados, anis, uma comenda...

Quando acabei essas e outras imaginaes, perguntei
a mim mesmo se o alienado da rua Sete de setembro era to infeliz como supusera.
Que  para ele uma esteira, um cubculo e um guarda? coxins, um palcio e moas
bonitas. Talvez o que presumes serem moas, palcio e coxins no passe de um
guarda, uma esteira e um cubculo.

22 de setembro

A SEMANA acabou com um tristssimo
desastre. Sabeis que foi a morte do Conselheiro Toms Coelho, um dos brasileiros
mais ilustres da ltima gerao do Imprio. No  mister lembrar os cargos que
exerceu naquele regmen, deputado, senador, duas vezes ministro, na pasta da
guerra e da agricultura. Se o Imprio no tem cado, teria sido chefe de
governo, talhado para esse cargo pela austeridade, talento, habilidade e
influncia pessoal.

Os que o viram de perto podero
atestar o afinco dos seus estudos e a tenacidade dos seus trabalhos. Unia a
gravidade e a afabilidade naquela perfeita harmonia que exprime um carter srio
e bom. No mundo econmico exerceu anloga influncia que tinha no mundo
poltico. A ambos, e a toda a sociedade deixa verdadeira e grande mgoa. Nem so
poucos os que devem sentir palpitar o corao lembrado e grato.

A morte de Toms Coelho, em
qualquer circunstancia, seria dolorosa; mas o repentino dela tornou o golpe
maior. As 5 horas da tarde de sexta-feira subiu a Rua do Ouvidor, tranqilo e
conversando; mais de um amigo o cortejou, satisfeito de o ver assim. Nenhum
imaginava que quatro horas depois seria cadver.

Outro bito, no do homem
poltico, mas que faz lembrar um varo igualmente ilustre, comeou enlutando a
semana. H alguns anos que se despediu deste mundo um dos seus atenienses:
Otaviano. Aquele culto e fino esprito, que o jornal, que a palestra, e alguma
vez a tribuna, viram sempre juvenil, recolhera-se nos ltimos dias, flagelado
por terrvel enfermidade. No perdera o riso, nem o gosto, tinha apenas a
natural melancolia dos velhos. Amigos iam passar com ele algumas horas, para
ouvi-lo somente, ou para recordar tambm. Os rapazes que s tinham vinte anos
no conheceram esse homem que foi o mais elegante jornalista do seu tempo, entre
os Rochas, e Amarais, quando apenas estreava este outro que a todos sobreviveu
com as mesmas louanias de outrora: Bocaiva.

A casa era no Cosme Velho. As
horas da noite eram ali passadas, entre os seus livros, falando de coisas do
esprito, poesia, filosofia, histria, ou da vida da nossa terra, anedotas
polticas, e recordaes pessoais. Na mesma sala estava a esposa, ainda
elegante, a despeito dos anos, espartilhada e toucada, no sem esmero, mas com a
singeleza prpria da matrona. Tinha tambm que recordar os tempos da mocidade
vitoriosa quando os sales a contavam entre as mais belas. O sorriso com que
ouvia no era constante nem largo, mas a expresso do rosto no precisava dele
para atrair a D. Eponina as simpatias de todos.

Um dia Otaviano morreu. Como as
aves que Chateaubriand viu irem do Ilissus, na emigrao anual, despediu-se
aquela, mas sozinha, no como os casais de arribao. D. Eponina ficou, mas
acaba de sair tambm deste mundo. Morreu e enterrou-se quarta-feira. Quantas se
foram j, quantas ajudam o tempo a esquec-las, at que a morte as venha buscar
tambm! Assim vo umas e outras enquanto este sculo se fecha e o outro se abre,
e a juventude renasce e continua. Isso que ai fica  vulgar, mas  daquele
vulgar que h de sempre parecer novo como as belas tardes e as claras noites. E
a regra tambm das folhas que caem... Mas, talvez isto vos parea Millevoye em
prosa; falemos de outro Millevoye sem prosa nem verso.

Refiro-me s rvores do mesmo
bairro do Cosme Velho, que, segundo li, j foram e tm de ser derrubadas pela
Botanical Garden. A Gazeta por si, e o Jornal do Comrcio, por si
e por algum que lhe escreveu, chamaram a ateno da autoridade municipal para a
destruio de tais rvores, mas a Botanical Garden explicou que se trata
de levar o bond eltrico ao alto do bairro, no havendo mais que umas
cinco rvores destinadas  morte. Achei a explicao aceitvel. Os bonds
de que se trata no passam at aqui do Largo do Machado. As viagens
so mais longas do que antes,  certo, mas no  por causa da eletricidade; so
mais longas por causa dos comboios de dois e trs carros, que param com
freqncia. A incapacidade de um ou outro dos chamados motorneiros 
absolutamente alheia  demora. Pode dar lugar a algum desastre, mas a prpria
companhia j provou, com estatsticas, que os bonds eltricos fazem
morrer muito menos gente que o total dos outros carros.

Demais,  natural que nas terras
onde a vegetao  pouca, haja mais avareza com ela, e que em Paris se trate de
salvar o Bois de Boulogne e outros jardins. Nos pases em que a vegetao
 de sobra, como aqui, podem despir-se dela as cidades. Uma simples viagem ao
serto leva-nos a ver o que nunca ho de ver os parisienses. Assim respondo 
Gazeta, no que seja acionista da companhia, mas por ter um amigo que o
. Nem sempre os burros ho de dominar. Se os do Cear nos deram o exemplo de
jornadear ao lado da estrada de ferro, concorrendo com ela no transporte da
carga, foi com o nico fito de defender o carrancismo. Burro  atrasado 
teimoso; mas os do Cear acabaram por ser vencidos. O mesmo h de acontecer aos
nossos. Agora, que a vitria da eletricidade no Cosme Velho e nas Laranjeiras
devesse ser alcanada poupando as rvores,  possvel; mas sobre este ponto no
conversei com autoridade profissional.

Ao menos conto que no tero posto
abaixo alguma das rvores da chcara de D. Olmpia, naquele bairro  a mesma que
o Sr. Aluzio Azevedo afirma ter escrito o Livro de Uma Sogra, que ele
acaba de publicar, e que vou acabar de ler.

29 de setembro

QUANDO A VIDA c fora estiver to
agitada e aborrecida que se no possa viver tranqilo e satisfeito, h um asilo
para a minha alma  e para o meu corpo, naturalmente.

No  o cu, como podeis supor. O
cu  bom, mas eu imagino que a paz l em cima no estar totalmente
consolidada. J l houve uma rebelio; pode haver outras. As pessoas que vo
deste mundo, anistiadas ou perdoadas por Deus, podem ter saudades da terra e
pegar em armas. Por pior que a achem, a terra h de dar saudades, quando ficar
to longe que mal parea um miservel pontinho preto no fundo do abismo. 
pontinho preto, que foste o meu infinito I (exclamaro os bem-aventurados), quem
me dera poder trocar esta chuva de man pela fome do deserto! O deserto no era
inteiramente mau; morria-se nele,  verdade, mas vivia-se tambm; e uma ou outra
vez, como nos povoados, os homens quebravam a cabea uns I aos outrossem saber
por que, como nos povoados.

No, devota amiga da minha alma, o
asilo que buscarei, quando a vida for to agitada como a desta semana, no  o
cu,  o Hospcio dos Alienados. No nego que o dever comum  padecer comumente,
e atacarem-se uns aos outros, para dar razo ao bom Renan, que ps esta sentena
na boca de um latino: O mundo no anda seno pelo dio de dois irmos
inimigos. Mas, se o mesmo Renan afirma, pela boca do mesmo latino que este
mundo  feito para desconcertar o crebro humano, irei para onde se recolhem os
desconcertados, antes que me desconcertem a mim.

Que verei no hospcio? O que
vistes quarta-feira numa exposio de trabalhos feitos pelos pobres doidos, com
tal perfeio que  quase uma fortuna terem perdido o juzo. Rendas, flores,
obras de l, carimbos de borracha, facas de pau, uma infinidade de coisas
mnimas, geralmente simples, para as quais no se lhes pede mais que ateno e
pacincia. No fazendo obras mentais e complicadas, tratados de jurisprudncia
ou constituies polticas, nem filosofias nem matemticas, podem achar no
trabalho um paliativo  loucura, e um pouco de descanso  agitao interior.
Bendito seja o que primeiro cuidou de encher-lhes o tempo com servio, e
recompor-lhe em parte os fios arrebentados da razo.

Mas no verei s isso. Verei um
comeo de Epimnides, uma mulher que entrou dormindo, em 14 de setembro do ano
passado, e ainda no acordou. J l vai um ano. No se sabe quando acordar;
creio que pode morrer de velha. como outros que dormem apenas sete ou oito horas
por dia, e ir-se- para a cova, sem ter visto mais nada. Para isso, no valer a
pena ter dormido tanto. Mas suponhamos que acorde no fim deste sculo ou no
comeo do outro, no ter visto uma parte da histria, mas ouvir cont-la, e
melhor  ouvi-la que viv-la. Com poucas horas de leitura ou de oitiva, receber
notcia do que se passou em oito ou dez anos, sem ter sido nem atriz nem
comparsa, nem pblico.  o que nos acontece com os sculos passados. Tambm ela
nos contar alguma coisa. Dizem que, desde que entrou para o hospcio, deu
apenas um gemido, e pe algumas vezes a lngua de fora. O que no li  se, alm
de tal letargia, goza do benefcio da loucura. Pode ser, a natureza tem desses
obsquios complicados.

A fica dito o que farei e verei
para fugir ao tumulto da vida. Mas h ainda outro recurso, se no puder alcanar
aquele a tempo: um livro que nos interesse, dez, quinze, vinte livros. Disse-vos
no fim da outra semana que ia acabar de ler o Livro de Uma Sogra.
Acabei-o muito antes dos acontecimentos que abalaram o esprito
pblico.

As letras tambm precisam de
anistia. A diferena  que, para obt-la, dispensam votao.  ato prprio; um
homem pega em si, mete-se no cantinho do gabinete, entre os seus livros, e
elimina o resto. No  egosmo, nem indiferena; muitos sabem em segredo o que
lhes di do mal poltico, mas, enfim, no  seu ofcio cur-lo. De todas as
coisas humanas, dizia algum com outro sentido por diverso objeto,a nica que
tem o seu fim em si mesma  a arte.

Sirva isto para dizer que a
fortuna do livro do Sr. Aluzio Azevedo  que, escrito para curar um mal, ou
suposto mal, perde desde logo a inteno primeira, para se converter em obra de
arte simples. Dona Olmpia  um tipo novo de sogra, uma sogra avant la
lettre. Antes de saber com quem h de casar a filha, j pergunta a si mesma
(p. 112) de que maneira poder dispor do genro e govern-lo em sua ntima vida
conjugal. Quando lhe aparece o futuro genro, consente em dar-lhe a filha, mas
pede-lhe obedincia, pede-lhe a palavra, e, para que esta se cumpra, exige um
papel em que Leandro avise  polcia que no acuse ningum da sua morte, pois
que ele mesmo ps termo a seus dias; papel que ser renovado de trs em trs
meses. D. Olmpia declara-lhe, com franqueza, que  para salvar a sua
impunidade, caso haja de o mandar matar. Leandro aceita a condio; talvez tenha
a mesma impresso do leitor, isto , que a alma de D. Olmpia no  tal que
chegue ao crime.

Cumpre-se, entretanto, o plano
estranho e minucioso, que consiste em regular as funes conjugais de Leandro e
Palmira, como a famosa sineta dos jesutas do Paraguai. O marido vai para
Botafogo, a mulher para as Laranjeiras. Balzac estudou a questo do leito nico,
dos leis unidos, e dos quartos separados; D. Olmpia inventa um novo sistema, o
de duas casas, longe uma da outra. Palmira concebe, D. Olmpia faz com que o
genro embarque imediatamente para a Europa, apesar das lgrimas dele e da filha.
Quando a moa concebe a segunda vez,  o prprio genro que se retira para os
Estados Unidos. Enfim, D. Olmpia morre e deixa o manuscrito que forma este
livro, para que o genro e a filha obedeam aos seus preceitos.

Todo esse plano conjugal de D.
Olmpia responde ao desejo de evitar que a vida comum traga a extino do amor
no corao dos cnjuges. O casamento, a seu ver,  imoral. A mancebia tambm 
imoral. A rigor, parece-lhe que, nascido o primeiro filho, devia dissolver-se o
matrimnio, porque a mulher e o marido podem acender em outra pessoa o desejo de
conceber novo filho, para o qual j o primeiro cnjuge est gasto; extinta a
iluso,  mister outra. D. Olmpia quer conservar essa iluso entre a filha e o
genro. Posto que raciocine o seu plano, e procure dar-lhe um tom especulativo,
de mistura com particularidades fisiolgicas,  certo que no possui noo exata
das coisas, nem dos homens.

Napoleo disse um dia, ante os
redatores do cdigo civil, que o casamento (entenda-se monogamia) no derivava
da natureza, e citou o contraste do ocidente com o oriente. Balzac confessa que
foram essas palavras que lhe deram a idia da Fisiologia. Mas o primeiro
faria um cdigo, e o segundo enchia um volume de observaes soltas e estudos
analticos. Diversa coisa  buscar constituir uma famlia sobre uma combinao
de atos irreconciliveis, como remdio universal, e algo perigoso D. Olmpia,
querendo evitar que a filha perdesse o marido pelo costume do matrimnio,
arrisca-se a fazer-lho perder pela interveno de um amor novo e
transatlntico.

Tal me parece o livro do Sr.
Aluzio Azevedo. Como ficou dito,  antes um tipo novo de sogra que soluo de
problema. Tem as qualidades habituais do autor, sem os processos anteriores,
que, alis, a obra no comportaria. A narrao, posto que intercalada de longas
reflexes e crticas,  cheia de interesse e movimento. O estilo  animado e
colorido. H pginas de muito mrito, como o passeio  Tijuca, os namorados
adiante, O Dr. Csar e D. Olmpia atrs. A linguagem em que esta fala da beleza
da floresta e das saudades do seu tempo  das mais sentidas e apuradas do
livro.

6 de
outubro

Quem pe o nariz fora da porta, v que este mundo
no vai bem. A Agncia Havas  melanclica. Todos os dias enche os jornais, seus
assinantes, de uma torrente de notcias que, se no matam, afligem
profundamente. Ao p delas, que vale o naufrgio do paquete alemo Uruguai, em
Cabo-Frio? Nada. Que vale o incndio da fabrica da companhia Luz Esterica?
Coisa nenhuma. No falo do desaparecimento de uns autos celebres, pea que est
em segunda representao,  espera de terceira, porque no  propriamente um
drama, embora haja nela um salteador ou coisa que o valha, como nas de Montepin;
 um daqueles mistrios da Idade-Mdia, ornado de algumas expresses modernas
sem realidade, como esta:  Ce pauvre Auguste! On l'a mis au poste.  Dame, c'est triste, mais
c'est juste.  Ce pauvre Auguste! Expresso sem realidade, pois ningum foi nem ir
para a cadeia, por uns autos de nada.

Foi o Chico Moniz Barreto, violinista filho de
poeta, que trouxe de Paris aquela espcie de mofina popular, que ento corria
nas escolas e nos teatros. L vo trinta anos! Talvez poucos franceses se
lembrem dela; eu, que no sou francs, nem fui a Paris, no a perdi de memria
por causa do Chico Moniz Barreto, artista de tanto talento, discpulo de Allard,
um rapas que era todo arte, brandura e alegria. A graa principal estava na
prosdia das mulheres do povo em cuja boca era posto esse trecho de dialogo,  e
que o nosso artista baiano imitava, suprimindo os tt s palavras:  Ce
pauvr' Auguss'! On l'a
mis au poss'!  Dam' c'est triss' mais c'est juss'!  Ce pauvr'
Auguss'!  Pobre frase!
pobres mulheres! Foram-se
como os tais autos e o veto, le ress'!

Mas tornemos ao presente e  Agncia Havas. So
rebelies sobre rebelies, Constantinopla e Cuba, matana sobre matanas, China
e Armnia. Os cristos apanham dos muulmanos, os muulmanos apanham de outros
religiosos, e todos de todos, at perderem a vida e a alma. Conspiraes no tm
conta; as bombas de dinamite andam l por fora, como aqui as balas doces, com a
diferena que no as vendem nos bonds, nem os vendedores sujam os
passageiros. Os ciclones, vendo os homens ocupados em se destrurem, enchem as
bochechas e sopram a alma pela boca fora, metendo navios no fundo do mar,
arrasando casas e plantaes, matando gente e animais. Tempestades terrveis
desencadeiam-se nas costas da Inglaterra e da Frana e despedaam navios contra
penedos. Um tufo levou anteontem parte da catedral de Metz. A terra treme em
vrios lugares. Os incndios devoram habitaes na Rssia. As simples febres de
Madagascar abrem infinidade de claros nas tropas francesas. Pior  o
clera-morbo; mais rpido que um tiro, tomou de assalto a Moldvia, a Coria, a
Rssia, o Japo e vai matando como as simples guerras.

Na Espanha, em Granada, os rios transbordam e
arrastam consigo casas e culturas. Granada, ai, Granada, que fases lembrar o
velho romance:

Passeava-se el Rey Moro
Por la ciudad de Granada...

romance ou balada, que narra o transbordamento do
rio cristo, arrancando aos mouros o resto da Espanha. Relede os poetas
romnticos, que chuparam at o bagao da laranja mourisca e falaram delia com
saudades. Relede o magnfico intrito do Colombo do nosso Porto-Alegre: Jaz
vencida Granada... Nem reis agora so precisos, pobre Granada, nem poetas te
cantam as desgraas; basta a Agncia Havas. Os jornais que chegarem diro as
coisas pelo mido com aquele amor da atrao que fazem as boas
notcias.

No  mais feliz a Itlia com o banditismo que
renasce,  maneira velha, tal qual o cantaram poetas e disseram novelistas. Uns
e outros esgotaram a poesia dos costumes; agora  a polcia e o cdigo. Parece
que a grande misria, filha das colheitas perdidas, cresce ao lado do banditismo
e do imposto.

Na Hungria d-se um fenmeno interessante:
desordeiros clericais respondem aos tiros das tropas com pedradas e bengaladas,
e h mortos de parte a parte, mortos e feridos.  que a f tambm inspira as
bengalas. Eis a rebeldes dispostos a vencer; no se lhes h de pedir que
desarmem primeiro, se quiserem ser anistiados. Desarmar de que? A bengala no 
sequer um apoio,  um simples adorno de passeio; pouco mais que os suspensrios,
apenas teis. teis, digo, sem assumir a responsabilidade da afirmao. No
conheo a historia dos suspensrios, sei, quando muito, que Csar no usava
deles, nem Ccero, nem Poncio Pilatos. Quando eu era criana, toda gente os
trazia; mais tarde, no sei por que razo, elegante ou cientifica, foram
proscritos. Vieram anos, e os suspensrios com eles, diz-se que para acabar com
o mal dos cozes. Talvez se vo outra vez com o sculo, e tornem com o centenrio
da batalha de Waterloo.

Assim vai o mundo, meu amigo leitor; o mundo  um
par de suspensrios. Comecei dizendo que ele no me parece bem, sem esquecer que
tem andado pior, e, para no ir mais longe, h justamente um sculo. Mas a razo
do meu receio  a crena que me devora de que o mal estava acabado, a paz
slida, e as prprias tempestades e molstias no seriam mais que mitos, lendas,
histrias para meter medo s crianas. Por isso digo que o mundo no vai bom, e
desconfio que h algum plano divino, oculto aos olhos humanos. Talvez a terra
esteja grvida. Que animal se move no tero desta imensa bolinha de barro, em
que nos despedaamos uns aos outros? No sei; pode ser uma grande guerra social,
nacional, poltica ou religiosa, uma deslocao de classes ou de raas, um
enxame de idias novas, uma invaso de brbaros, uma nova moral, a queda dos
suspensrios, o aparecimento dos autos.

13 de
outubro

Estudemos;  o melhor conselho que, posso dar ao
leitor amigo; estudemos.  domingo; no tens que ir ao trabalho. J ouviste a
tua missa, apostaste na vaca (antigo) e almoaste entre a esposa e os pequenos.
Em vez de perder o tempo em alguma leitura frvola, estudemos.

Temos duas lies e podamos ter sete ou oito; mas
eu no sou professor que empanzine a estudantes de boa vontade. Demais, h
lies to obvias que no vale a pena encher delas um pargrafo. Por exemplo, a
declarao que fez o Sr. deputado rico Coelho, esta semana, ao apresentar o
projeto do monoplio do caf. Declarou S. Ex., incidentemente, que j na vspera
fora solicitado para, no caso de passar o monoplio, arranjar alguns empregos.
Os deputados riram, mas deviam chorar, pois naturalmente no lhes acontece outra
coisa com ou sem projetos.

A confisso do Sr. rico Coelho faz lembrar o que
sucedeu com Lamartine, chefe do governo revolucionrio de 1848. Um cozinheiro
foi empenhar-se com um deputado para empreg-lo em casa de Lamartine,
presidente da Repblica, disse o homem.  Mas ele ainda no  presidente,
observou o deputado. Ao que retorquiu o cozinheiro que, se ainda no era, havia
de sei-o, e devia ir j tratando da cozinha. Cozinheiros do monoplio de caf,
se advertsseis que Lamartine no foi eleito, mas outro, considerareis que o
mesmo pode suceder ao monoplio de caf. Quando no seja o mesmo, e a lei passe,
 provvel que passe daqui a um ou dois anos. Uma lei destas pede longos
estudos, longos clculos, longas estatsticas. O melhor  continuardes a cozinha
das casas particulares.

A primeira das nossas duas lies refere-se no
propriamente ao italiano que trepou  estatua de Pedro I e l de cima arengou ao
povo, mas s circunstncias do caso. Ningum sabe o que ele disse, por falar na
lngua materna, e ns s entendemos italiano por musica. O que sabemos, nos que
lemos a notcia,  que, apesar da hora (dez e meia da noite) mais de
quatrocentas pessoas se ajuntaram logo na praa Tiradentes, e intimaram ao homem
que

descesse. A ele acontecia-lhe o mesmo que aos de
baixo; no entendia a lngua. Vrios planos surdiram para fazei-o desmontar o
cavalo,  pedradas, um tiro, o corpo de bombeiros, mas nenhum foi adotado, e o
tempo ia passando. Afinal um sargento do exercito e uma praa de polcia
treparam  estatua, e, sem violncia, com boas maneiras e muitas cautelas,
desceram o pobre doido.

Ora, enquanto ocorria tudo isto, e as idias voavam
de todos os lados, alguns propuseram o alvitre de linchar o homem; e, com
efeito, to depressa ele pousou no cho, ergueram-se brados no sentido daquele
julgamento sumrio e definitivo. Outros, porm, opuseram-se, e o projeto no
teve piores conseqncias.

Este  o ponto da lio. Aqui temos um grupo de
pessoas, todas as quais, particularmente, repeliriam com horror a idia de
linchar a algum, antes defenderiam a vtima. Juntas, porm, estavam dispostas a
linchar o homem da estatua. Que o contgio da idia  que produzia esse acordo
de tantos,  coisa natural e sabida. Aquilo que no nasce em trinta cabeas
separadas, brota em todas elas, uma vez reunidas, conforme a ocasio e as
circunstncias. Motivos diversos sem excluir o sentimento da justia e a
indignao do bem, podem dar azo a aes dessas, coletivas e sangrentas. Comeo
a distrair no sermo. Vamos  questo principal.

A principal questo, no caso da esttua,  o abismo
entre o ato e a pena. O homem no tinha cometido nenhum crime publico nem
particular. Subiu ao cavalo de bronze, no que fez muito mal, devia respeitar o
monumento; mas, enfim, no era delito de sangue que pedisse sangue. A
probabilidade de ser doido podia no acudir a todos os espritos, excitados pelo
atrevimento do sujeito; se pudesse acudir, todos rogariam antes ao cu que ele
fosse descido sem quebrar os ossos, a fim de que, recolhido novamente ao
Hospcio dos Alienados, recebesse segunda cura, tendo sado de l curado, trs
ou quatro dias antes.

Esse contraste  que merece particular ateno. A
familiaridade com a morte  bela, nos grandes momentos, e pode ser grandiosa,
alm de necessria. Mas, aplicada aos eventos midos, perde a graa natural e o
poder cvico, para se converter em derivao de maus humores.  reviver a
prtica dos mdicos de outro tempo, que a tudo aplicavam sanguessugas e
sangrias. Quem nunca esteve com o brao estendido,  espera que as bichas
cassem de fartas, e no viu esguich-las ali mesmo para lhes tirar o sangue que
acabavam de sugar, no sabe o que era a medicina velha. No havia que dizer, se
era necessria; mas o uso vulgarizou-se tanto que o mau mdico antes de atinar
com a doena, mandava ao enfermo esse vitico aborrecido. s vezes, o mal era um
defluxo. Que  a loucura seno uma supresso da transpirao do
esprito?

A segunda lio que devemos ou deves estudar  a
que se segue.

Um gatuno furtou diversas jias e quatrocentos mil
ris. O Sr. Nomio da Silveira, delegado da 7. circunscrio urbana, moo
inteligente e atilado, descobriu o gatuno e o furto. At aqui tudo  banal. O
que no  banal, o que nos abre uma larga janela sobre a alma humana, o que nos
pe diante de um fenmeno de alta psicologia,  que o gatuno to depressa furtou
os quatrocentos mil ris como os foi depositar na caixa econmica. Medita bem,
no me leias como os que tem pressa de ir apanhar o bond; l e reflete.
Como  que a mesma conscincia pode simultaneamente negar e afirmar a
propriedade? Roubar e gastar est bem; mas pegar do roubo e ir levai-o aonde os
homens de ordem, os pais de famlia, as senhoras trabalhadeiras levam os saldos
do salrio e os lucros adventcios, eis a o que me parece extraordinrio. No
me digas que h viciosas que tambm vo  caixa econmica, nem que os bancos
recebem dinheiros duvidosos. Ofcio  ofcio, e eu trato aqui do puro
furto.

Assim  que, o empregado da caixa, vendo esse homem
ir frequentemente levar uma quantia, adquire a certeza de ser pessoa honesta e
poupada, e quando for para o cu, e o vir l chegar depois, testemunhar em
favor dele ante S. Pedro. Ao contrrio, se l estiver algum dos seus roubados,
dir que  um simples ratoneiro. O porteiro do cu, que negou trs vezes a
Cristo e mil vezes se arrependeu, concluir que, se o. homem negou a propriedade
por um lado, afirmou-a por outro, o que equivale a um arrependimento, e
met-lo- onde estivessem as Madalenas de ambos os sexos.

Se eu houvesse de definir a alma humana, em vista
da dupla operao a que aludo, diria que ela  uma casa de penso. Cada quarto
abriga um vcio ou uma virtude. Os bons so aqueles em que os vcios dormem
sempre e as virtudes velam e os maus... Adivinhaste o resto; poupas-me o
trabalho de concluir a lio.

20 de outubro

VAMOS TER, no ano prximo, uma
visita de grande importncia. No  Leo XIII, nem Bismarck, nem Crispi, nem a
rainha de Madagascar, nem o imperador da Alemanha, nem Verdi, nem o Marqus Ito,
nem o Marechal Yamagata. No  terremoto nem peste. No  golpe de Estado nem
cambio a 27. Para que mais delongas? 12 Lusa Michel.

Li que um empresrio americano
contratou a diva da anarquia pare fazer conferncias nos Estados Unidos e na
Amrica do Sul. H idias que s podem nascer na cabea de um norte-americano.
S a alma ianque  capaz de avaliar o que lhe render uma viagem de discurso
daquela famosa mulher, que Paris rejeita e a quem Londres d a hospedagem que
distribui a todos, desde os Bourbons at os Barbs. De momento, no posso
afirmar que Barbs estivesse em Londres; mas ponho-lhe aqui o nome, por se
parecer com Bourbons e contrastar com eles nos princpios sociais e polticos.
Assim se explicam muitos erros de data e de biografia: necessidades de estilo,
equilbrios de orao.

Desde que li a notcia da vinda de
Lusa Michel ao Rio de Janeiro tenho estado a pensar no efeito do acontecimento.
A primeira coisa que Lusa Michel ver, depois da nossa bela baa,  o cais
Pharoux atulhado de gente curiosa, muda, espantada. A multido far-lhe- alas,
com dificuldade, porque todos querero v-la de perto, a cor dos olhos, o modo
de andar, a mala. Metida na cabea com o empresrio e o intrprete, ir pare o
Hotel dos Estrangeiros, onde ter aposentos cmodos e vastos. Os outros
hspedes, em vez de fugirem  companhia, querero viver com ela, respirar o
mesmo ar, ouvi-la falar de poltica, pedir-lhe notcias da comuna e outras
instituies.

Dez minutos depois de alojada,
receber ela um carto de pessoa que lhe deseja falar:  o nosso Lus de Castro
que vai fazer a sue reportagem fluminense. Lusa Michel ficar admirada da
correo com que o representante da Gazeta de Notcias fala francs.
Perguntar-lhe- se nasceu em Frana.

No, minha senhora, mas estive l
algum tempo; gosto de Paris. amo a lngua francesa. Venho da parte da Gazeta
de Notcias pare ouvi-la sobre alguns pontos; a entrevista sair impressa
amanh, com o seu retrato. Pelo meu carto, ter visto que somos xars: a
senhora  Lusa, eu sou Lus. Vamos, porm, ao que importa...

Acabada a entrevista, chegar um
empresrio de teatro, que vem oferecer a Lusa Michel um camarote para a noite
seguinte. Um poeta ir apresentar-lhe o ltimo livro de versos: Dilvios
Sociais. Trs moas pediro  diva o favor de lhe declarar se vencer o
carneiro ou o leo.

 O carneiro, minhas senhoras; o
carneiro  o povo, h de vencer, e o leo ser esmagado.

 Ento no devemos comprar no
leo?

 No comprem nem vendam. Que 
comprar? Que  vender? Tudo  de todos. Oh! esqueam essas locues, que s
exprimem idias tirnicas.

Logo depois vir uma comisso do
Instituto Histrico, dizendo-lhe francamente que no aceita os princpios que
ela defende, mas, desejando recolher documentos e depoimentos para a histria
ptria precisa saber at que ponto o anarquismo e o comunismo esto relacionados
com esta parte da Amrica. A diva responder que por ora, alm do caso Amap,
no h nada que se possa dizer verdadeiro comunismo aqui. Traz, porm, idias
destinadas a destruir e reconstituir a sociedade, e espera que o povo as recolha
para o grande dia. A comisso diz que nada tem com a vitria futura, e
retira-se.

 noite a diva quer jantar; est a
cair de fome; mas anuncia-se outra comisso, e por mais que o empresrio lhe
diga que fica para outro dia ou volte depois de jantar, a comisso insiste em
falar com Lusa Michel. No vem s felicit-la, vem tratar de altos interesses
da revoluo; pede-lhe apenas quinze minutos. Lusa Michel manda que a comisso
entre.

 Madama, dir um dos cinco
membros, o principal motivo que nos traz aqui  o mais grave para ns. Vimos
pedir que V. Exa. nos ampare e proteja com a palavra que Deus lhe deu. Sabemos
que V. Exa. vem fazer a revoluo, e ns a queremos, ns a pedimos. .
.

 Perdo, venho s pregar
idias.

 Idias bastam. Desde que pregue
as boas idias revolucionrias podemos considerar tudo feito. Madama, ns vimos
pedir-lhe socorro contra os opressores que nos governam, que nos logram, que nos
dominam, que nos empobrecem: os locatrios. Somos representantes da Unio dos
Proprietrios. V. Exa. h de ter visto algumas casas ainda que poucas, com uma
placa em que est o nome da associao que nos manda aqui.

Luisa Michel, com os olhos acesos,
cheia de comoo, dir que, tendo chegado agora mesmo, no teve tempo de olhar
para as casas; pede  comisso que lhe conte tudo. Com que ento os locatrios?.
..

 So os senhores deste pas,
madama. Ns somos os servos; da a nossa Unio.

Na Europa  o contrrio, observa;
os locatrios, os proletrios, os refratrios...

 Que diferena! Aqui somos ns
que nos ligamos, e ainda assim poucos, porque a maior parte tem medo e
retrai-se. O inquilino  tudo. O menor defeito do inquilino, madama,  no pagar
em dia; h-os que no pagam nunca, outros que mofam do dono da casa. Isto 
novo, data de poucos anos. Ns vivemos h muito, e no vimos coisa assim.
Imagine V. Exa.  Ento os locatrios so tudo?  Tudo e mais alguma coisa.
Luisa Michel, dando um salto:  Mas ento a anarquia est feita, o comunismo
est feito justamente madama.  a anarquia...

Santa anarquia, caballero,
interromper a diva, dando este tratamento espanhol ao chefe da
comisso,santa, trs vezes santa anarquia! Que me vindes pedir. vs outros,
proprietrios? que vos defenda os aluguis? Mas que so aluguis? Uma conveno
precria, um instrumento de opresso, um abuso da fora. Tolerado como a
tortura, a fogueira e as prises, os aluguis tm de acabar como os demais
suplcios. Vs estais quase no fim. Se vos ligais contra os locatrios,  que a
vossa perda  certa. O governo  dos inquilinos. No so j os aristocratas que
tm de ser enforcados: sereis vs:

a ira, a ira, a
i'a,
Les propritaires  la
lanterne!

No entendendo mais que a ltima
palavra, a comisso nem espera que o intrprete traduza todos os conceitos da
grande anarquista; e, sem suspeitar que faz impudicamente um trocadilho ou coisa
que o valha, jura que  falso, que os proprietrios no pem lanternas nas
casas, mas encanamentos de gs. Se o gs est caro, no  culpa deles, mas das
contas belgas ou do gasto excessivo dos inquilinos. H de ser engraado se, alm
de perderem os aluguis, tiverem de pagar o gs. E as penas d'gua? as dcimas?
Os consertos?

Lusa Michel aproveita uma pausa
da comisso para soltar trs vivas  anarquia e declarar ao empresrio americano
que embarcar no dia seguinte para ir pregar a outra parte. No h que propagar
neste pas, onde os proprietrios se acham cm to miservel e justa condio que
j se unem contra os inquilinos; a obra aqui no precisava discursos. O
empresrio, indignado, saca do bolso o contrato e mostra-lho. Lusa Michel
fuzila improprios. Que so contratos? pergunta. O mesmo que aluguis,uma
espoliao. Irrita-se o empresrio e ameaa. A comisso procura aquiet-lo com
palavras inglesas: Time is money, five o'clock... O intrprete perde-se
nas tradues. Eu, mais feliz que todos, acabo a semana.

27 de outubro

CONVERSVAMOS alguns amigos, 
volta de uma mesa, eram 5 horas da tarde, bebendo ch. Cito a hora e o ch para
que se compreenda bem a elegncia dos costumes e das pessoas. Suponho que os
ingleses  que inventaram esse uso de beber ch s 5 horas. Os franceses
imitaram os ingleses, ns estvamos vendo se, imitando os franceses h de haver
algum que nos imite. Os russos, esses bebem ch E todas as horas; o samovar
est sempre pronto. Os chineses tambm e podem crer-se os homens mais
finamente educados do mundo, se E nota da educao  beber ch em pequeno, como
diz um adgio desta terra de caf. Creio que chegam  perfeio de
mam-lo.

Bebamos ch e falvamos de coisas
e lousas. Foi na quarta-feira desta semana. Abriu-se um capitulo de mistrios,
de fenmenos obscuros, e concordvamos todos com Hamlet, relativamente  misria
da filosofia. O prprio espiritismo teve alguns minutos de ateno. Sa de l
envolvido em sombras. Um amigo que me acompanhou pde distrair-me, falando do
plano que tem (alis secreto) de ir ler Tecrito, debaixo de alguma rvore da
Hlade. Imaginem que  moo, como a antiguidade, ingnuo e bom, ama e vai casar.
Pois com tudo isso, no pde mais que distrair-me, apenas me deixou, as sombras
envolveram-me outra vez.

Ento, lembrei-me do caso daquela
Ins, moradora  Rua dos Arcos n 18, que achou a morte, assistindo a uma sesso
da Associao Esprita, Rua do Conde d'Eu. Pode muito bem ser que j te no
lembres de Ins, nem da morte, nem do resto. Eu mesmo, a no ser o ch das 5,
 provvel que houvesse esquecido tudo. Os acontecimentos desta cidade duram
trs dias.  O bastante para que um hspede cheire mal, segundo outro adgio. A
primeira notcia abala a gente toda,  a conversao do dia; a segunda j acha
os espritos cansados; a terceira enfastia. Cessam as notcias, e o
acontecimento desaparece, como uns simples autos e outras feituras
humanas.

Ins, assistindo  prtica do Sr.
Abalo, que  o presidente da associao, teve um ataque nervoso que, segundo os
depoimentos, se transformou em sonambulismo. Transferida pelos fundos da casa n
146 para a casa n 144, ali morreu s 5 horas da manh. Paulina, que  o mdium
da associao, deps que Ins nunca antes assistira a tais sesses, e que j ali
chegara, meio adoentada. Outras pessoas foram ouvidas, entre elas o presidente
Abalo, que fez declaraes interessantes. Insistia em que as prticas ali so
meramente evanglicas, e entrou em minudncias que reputo escusadas ao meu
fim.

O meu fim  mais alto. No quero
saber se Ins faleceu do ataque, nem se este foi produzido pela prtica
evanglica do presidente, que alis declarou na ocasio ser coisa desacertada
levar quele lugar pessoas sujeitas a tais crises. Tambm no quero saber se
todas as molstias, como diz o mdium, so curveis com um pouco d'gua e um
padre-nosso (medicina muito mais crist que a do Padre Kneipp, que exclui a
orao) ou se basta este mesmo padre-nosso e a palavra do presidente; ambas as
afirmaes se combinam, se atendermos a que a melhor gua do mundo  a palavra
da verdade. Outrossim, no indago se o presidente Abalo, como inculca teria um
poder incomparvel, caso chegasse a escrever o que fala.  ponto que entende
com a prpria doutrina esprita.

A questo substancial, e posso
dizer nica,  a liberdade. O presidente Abalo e o mdium Paulina confessaram j
ter sido processados, com outros membros da associao, por praticarem o
espiritismo. O primeiro acrescentou que, se bem conhea o art. 157 do
Cdigo Penal, exerce o espiritismo de acordo com a disposio do art. 72
da Constituio.

Os entendidos tero resposta
fcil; eu, simples leigo, no acho nenhuma. Deixo-me estar entre o Cdigo e a
Constituio, pego de um artigo, pego de outro, leio, releio e tresleio.
Realmente, a Constituio, me do Cdigo, acaba com a religio do Estado, e no
lhe importa que cada um tenha a que quiser. Desde que a porta fica assim aberta
a todos, em que me hei de fundar para meter na cadeia o espiritismo?
Responder-me-s que  uma burla; mas onde est o critrio para distinguir entre
o Evangelho lido pelo presidente Abalo, e o do meu vigrio  mais velho, mas uma
religio no  obrigada a ter cabelos brancos. H religies moas e robustas.
Curar com gua? Mas o j citado Padre Kneipp no faz outra coisa, e o Cdigo, se
ele c vier, deix-lo- curar em paz. Quando o mdium Paulina declara que recebe
os espritos, e transmite os seus pensamentos aos membros da associao, eu se
fosse cdigo, diria ao mdium Paulina: Uma vez que a Constituio te d o
direito de receber os espritos e os corpos,  escolha, fico sem razo para
autuar-te como mereces, minha finria, mas no te exponhas a tirar algum relgio
aos associados, que isso  comigo.

O espiritismo  uma religio, no
sei se falsa ou verdadeira; ele diz que verdadeira e nica. Presuno e gua
benta cada um toma a que quer, segundo outro adgio. Hoje tudo vai por adgios.
Verdadeiros ou no, escrevem-se e publicam-se inmeros livros, folhetos,
revistas e jornais espritas. Aqui na cidade h uma folha esprita ou duas. No
se gasta tanto papel, em tantas lnguas, seno crendo que a palavra que se est
escrevendo  a prpria verdade. Admito que haja alguns charlates; mas o
charlatanismo, bem considerado, que outra coisa  seno uma bela e forte
religio, com os seus sacerdotes, o seu rito, os seus princpios e os seus
crdulos, que somos tu e eu?

Tambm h religies literrias, e
o Sr. Pedro Rabelo, no prlogo da Alma Alheia, alude a algumas e
condena-as, chamando-lhes igrejinhas. O Sr. Pedro Rabelo, porm, no  cdigo, 
escritor, e se acrescentar que  escritor de futuro, no ser modesto, mas dir
a verdade. Digo-lha eu, que li as oito narrativas de que se compe a Alma
Alheia, com prazer e cheio de esperanas. A Barricada e o Co so os
mais conhecidos, e, para mim, os melhores da coleo. A Curiosa  mais que
curiosa:  uma predestinada. Mana Minduca..., Mas, para que hei de citar um
por um todos os contos? Basta dizer que o Sr. Pedro Rabelo busca uma idia, uma
situao, alguma coisa que dizer, para transferi-la ao papel. Tem-se notado que
o seu estilo  antes imitativo e cita-se um autor, cuja maneira o jovem contista
procura assimilar. Pode ser exato em relao a alguns contos; ele prprio acha
que h diversidade no estilo desta (disparidade  o seu termo), e
explica-a pela natureza das composies. Bocage escreveu que com a idia
convm casar o estilo, mas defendia um verso banal criticado pelo Padre Jos
Agostinho. A explicao do Sr. Pedro Rabelo no explica o seu caso, nem 
preciso. No verdor dos anos  natural no acertar logo com a feio prpria e
definitiva, bem como seguir a um e ao outro, conforme as simpatias intelectuais
e a impresso recente. A feio h de vir, a prpria, nica e definitiva, bem
como seguir a um e a outro, conforme as simpatias se pode confiar.

3 de
novembro

No sei por onde comece, nem por onde acabe. Ante
mim tudo  confuso, os fatos giram, cavalgam outros fatos, sobem ao ar e descem
 terra, como esto fazendo as pedras e lavas do vulco Llaima. Alguns deles
comeam, mas no acabam mais, como o parecer da comisso do oramento,
apresentado ao senado esta semana. S os algarismos desse
documento...

Tendo visto muito algarismo na minha vida, variando
de significao, segundo o tamanho e a matria. Vivi por aqueles tempos
diluvianos, em que a gente almoava milhares de contos de ris, jantava dezenas
de milhares, e ainda lhe ficava estmago para uns duzentos ou trezentos contos.
Os que morreram logo depois, tero gozado muito pouco este mundo. Para falar
francamente, arrependo-me hoje de no ter inventado qualquer coisa, um paladar
mecnico, horas baratas, fsforos eternos, calamento uniforme para as ruas,
cavalos e cidados, uma de tantas idias que acharam dinheiro vadio, e quando um
homem no o tinha em si, ia busc-lo  algibeira dos outros, que  a mesma
coisa. A minha esperana  que tais dias no morreram inteiramente, mas a minha
tristeza  que, quando eles convalescerem e vierem alumiar outra vez este mundo,
provavelmente estarei fora dele. Se alguma coisa merecem os meus pecados, peo a
Deus a vida precisa para nesses dias futuros incorporar uma companhia, receber
vinte por cento das entradas, levantar um emprstimo para fazer a obra, no
fazer a obra, fazer as malas e fazer a viagem do cu com escala pela
Europa.

Pois; senhores, nem por ter visto tantos e tamanhos
algarismos pude ler friamente os do parecer da comisso. J o Sr. senador Moraes
e Barros havia chamado a nossa ateno para a simples conta total da dvida,
que, se no anda na memria de todos os brasileiros, no  por falta de
algarismos; ser antes por falta de memria. Mas a memria, apesar dos pesares,
no vale a imaginao, e h um meio seguro de no doerem as dividas,  imaginar
que so poucas, e essas poucas fecundssimas, no as pagando a gente, porque no
quer, e ainda por se no prejudicar. Que  pagar uma divida?  suprimir, sem
necessidade urgente, a prova do credito que um homem merece. Aument-la  fazer
crescer a prova.

A comisso,  ou o relator, se  certo que o
parecer  apenas um projeto, segundo li, mas j me disseram que afinal fica
sendo o parecer de todos,  a comisso diz muita coisa sobre dvidas, despesas,
juros, depsitos, emisses, amortizaes, e outros atos e fenmenos, mas tudo
to compacto, que no me atrevo a entrar por eles. Os algarismos mal do
passagem aos olhos;  um mato cerrado, alguns com espinhos agudssimos, outros
to folhudos que cegam inteiramente. Com dez sinais rabes,  incrvel o que se
pode variar na despesa e na correspondente escriturao. O parecer tem a
vantagem de j trazer tudo somado, de maneira que no h necessidade de andar
procurando a quanto sobem quatro parcelas de quinhentos; ele mesmo conclui que
so dois mil. Se a conta no  redonda, o servio torna-se inestimvel. Vai um
homem somar as seis grandes pores da divida, h de acabar cansado, aborrecido
e incerto; mas o parecer, somando tudo, d este total, que  o mesmo recomendado
pelo Sr. senador Moraes e Barros  memria dos seus concidados:
1.888.475:667$000.

Melhor  desviar os olhos, descansar a cabea e ir
a outra parte. No digo que nos falte confiana;  necessrio t-la, e basta
aplicar a ns o lema italiano: Braslia far da s. Confiana e circunspeco.
Mas o pior  que tudo o que ora me cerca, so algarismos, e os mais deles
grandes. Vede este quadro de ttulos e aes, organizado pelo Jornal do Comrcio
e publicado hoje, dia de finados:  uma vertigem de capitais, de emisses de
valores nominais e efetivos. Pegue deste banco: 10.000:000$000 de capital. Cada
ao 2 200$000. Entrada? 150$ Ultima venda? 600 rs.; ou, por extenso, para
evitar erros, seiscentos ris, menos de duas patacas. A partida  sempre
numerosa, como sucede s tropas que marcham para a guerra, so dez mil, vinte,
trinta, cem mil. A volta  diminuda; faz lembrar o final de uma das operas do
Judeu:

To alegres que fomos, To tristes que
viemos.

Sim,  melhor ir a outra parte, repito; mas aonde?
Parece que o teatro  um bom lugar de distrao; a verdade, porm,  que a
mesmo esperam-me algarismos tremendos. No me refiro ao oramento do teatro
municipal, que o prefeito acaba de sancionar. No  quantia de escurecer a
vista; mas responda o publico s boas intenes. No me refiro ao oramento;
refiro-me ao numero de papeis dos atores.

Quando eu ia ao teatro, os atores no representavam
mais de um papel em cada pea; s vezes, menos. Caso havia em que os papeis eram
dados por metade, um tero, um quinto. Nunca me esqueceu uma atriz (cujo nome
perdi de memria) que chegou ao mnimo de uma s frase. Resmungava
enfastiadamente as outras: aquela era o cavalo de batalha da noite. Apertada
pelo pai, tinha que negar no sei que carta ou que quer que era, denuncia de
namoro. Deixava o pai de lado, vinha  frente, fitava a platia, esticava o
brao, levantava o dedo, e bradava, sublinhando: Eu, papai, nunca tive um
namorado s na minha vida! Compreende-se a inteno da moa, contrria  do
autor, mas muito mais acertada, porque a platia ria a bandeiras despregadas. O
contrrio da Dalila. Ria o pblico, os bancos riam, as arandelas riam, s eu no
ria, por haver j desaprendido de rir.

Aqui temos agora uma pea em que a atriz Palmira,
que nunca vi nem ouvi, representa no menos de vinte e quatro papeis. Entre a
simples frase da outra e estes vinte e quatro papeis, h um abismo e um mundo. 
o menos que posso dizer: mil abismos, mil mundos no so de mais. Frgoli
revelou-nos o modo de ver uma infinidade de pessoas, em cinco minutos, pessoas e
vozes, que as tinha todas. Palmira, sem as vozes, dar os papis, mas no
ficaremos aqui. Outros artistas viro, com o duplo e o triplo dos papis, e o
quntuplo dos aplausos. No se conclua que execramos as individualidades nicas,
nem que amamos os que so propriamente multicores.  ser temerrio; concluamos
antes, que a variedade deleita.

10 de
novembro.

Trs pessoas estavam na loja Crashlei, rua do
Ouvidor, um moo, um mocinho e eu. Vamos, em gazeta inglesa, os retratos do
duque de Marlborough e de Miss Consuelo Wanderbiltt, que vo casar. A noiva 
riqussima, o noivo nobilssimo, vo unir os milhes aos brases, e a Europa 
Amrica; no  preciso lembrar que a jovem Wanderbiltt  filha do famoso ricao
americano.

Um de ns trs, o moo, declarou francamente que
no acreditava nos milhes da donzela. A quantia maior em que acredita  um
conto de ris; no descr de dois, acha-os possveis; dez parecem-lhe inveno
de crebro escaldado. O mocinho j creu em vinte e sete contos, mas perdeu essa
f ingnua e pura. Eu, por amor do ocultismo, creio em tudo que escapa aos olhos
e aos dedos. Sim, creio nos oitenta mil contos da linda Wanderbiltt, assim como
creio nos sculos de nobreza de Marlborough.

Uma revista celebre (v por conta de Stendhal
opinou no princpio deste sculo  que h s um ttulo de nobreza,  o de
duque; marqus  ridculo; ao nome de duque todos voltam a cabea. Se  assim,
o noivo ingls paga bem o dote da noiva americana, paga de sobra. As ricas
herdeiras americanas amam os nobres herdeiros europeus; no h um ano que um
duque francs desposou uma rica Patrcia de miss Consuelo. Deste modo, sem bulha
nem matinada, unem a democracia  aristocracia e fazem nascer os futuros duques
do prprio seio que os aboliu. A nobreza europia est assim enxertada de muito
galho transatlntico. Naturalmente a observao  velha, no peo
alvssaras.

Peo alvssaras por esta outra que fiz no dia
seguinte quele em que estivemos na loja Crashlei, na rua do Ouvidor. Lendo uma
correspondncia de Breslau, acerca do congresso socialista, dei com a notcia de
fazer parte da assemblia, entre outras senhoras, uma de quarenta anos, que, aos
vinte e cinco, em 1880, renunciou o ttulo de duquesa para se fazer pastora de
cabras.  nada menos que filha do duque de Wurtemberg e da princesa Matilde de
Schamburg de Lippe. O governo wurtembergus, para que ela no ficasse s com o
nome de Paulina, deu-lhe o de Kirbach (von Kirbach).

 minha observao consiste no contraste das duas
moas, uma que nasce duquesa e bota fora o ttulo, outra que nasce sem ttulo e
faz-se duquesa. Pastora de cabras, pastora de dollars. Que querias tu
ser, carioca do meu corao?  poesia pede cabras, a realidade exige
dollars; funde as duas espcies, multiplica os dollars pelas
cabras, e no mandes embora o primeiro duque que te aparecer. Vai com ele 
igreja da Gloria, agora que deu  sua triste torre uma cor de rosa ainda mais
triste, casa, embarca, vai a Breslau, no digo para fazer parte do congresso
socialista; h muita outra coisa que ver em Breslau, duquesa.

Os japoneses, com quem acabamos de celebrar um
tratado de comercio, no leram de certo a Revista de Edimburgo; se a tivessem
lido, teriam decretado os seus duques; por ora esto nos condes e marqueses.
Verdade  que um cronista lusitano do sculo XVI diz que eles tinham por esse
tempo ttulos vrios e diferentes  como c os duques, marqueses e condes.
Questo de traduo, mas justamente o que me falta  a notcia dos vocbulos
originais e seus correspondentes. Entretanto, no  fora de propsito que eles,
assim como aperfeioaram a plvora dos chins e deram-lhes agora com ela, assim
tambm aperfeioem as herdeiras ricas, e ningum sabe se algum bisneto de
Marlborough chegar a desposar alguma Wanderbiltt de Toldo.

Que as moas daquelas terras, como os homens,
assimilam facilmente os costumes peregrinos,  fato velho e revelho. No h
muitos dias, estvamos  porta do Laemmert dois dos trs da loja Crashlei... No
digo os nomes dos outros, por no lhes ter pedido licena, mas eles que o
confirmem aos seus amigos, e os amigos destes aos seus, e assim se faro
pblicos. Estvamos  porta do Laemmert, quando vimos sair duas parisienses;
minto; duas japonesas. Realmente, salvo o tipo, eram duas parisienses puras. Se
vsseis a graa com que deram o brao aos cavalheiros que iam com elas, as
botinas que calavam, os taces das botinas, o pisar leve e rpido... Os taces
diziam claramente que no carregavam o peso da sia, que as duas moas eram como
aquelas borboletas de papel que os seus avs faziam avoaar no teatro, com o
simples movimento do leque. E foram-se, e perderam-se rua acima.

Vamos t-las agora s dzias, se o tratado, que o
Sr. Piza negociou, admitir que venham mulheres e uma pequena porcentagem de
moas da cidade. Mas ainda que venham s as rsticas,  gente que, com pouco,
fica cidad. Vamos t-las modistas, estudantes, professoras. Nas escolas no se
limitaro a ensinar portugus, ensinaro tambm o seu idioma natal, e, graas 
facilidade que temos em aprender e ao amor das belezas estranhas, acabaremos por
escrever na lngua do mikado. H quem jure que algumas pessoas no falam em
outra; mas  opinio sem grande fundamento.  certo que, no meio da linguagem
oratria aparecem locues, frases, alguma sintaxe estranha, mas, alm de se no
poder afirmar que sejam todas do Japo, sucede que muitas so claramente do Caf
Riche,  e, por serem de caf, tem a desculpa nacional.

Venham as professoras, e digam-nos a histria e os
costumes do parlamento de Toldo, a fim de que possamos explicar como  que um
sistema que entrou to bem no Japo est prestes a dar com o presidente do Chile
em terra. No chego a entender as dificuldades deste presidente. Que, durante
alguns dias, os chefes de gabinete possveis no mostrem grande vontade de subir
ao leme do Estado, v; no  natural, mas, um pouco de artifcio d graa  alma
humana, e particularmente  alma poltica. J l vo semanas e semanas, e no h
meio de alcanar um grupo de cinco a seis pessoas que governem a Repblica. No
esqueamos que o Chile fez uma revoluo para restaurar o sistema parlamentar.
Se h de acabar por no ter ministros, Montt deixa a presidncia, para no fazer
de Balmaceda... No  claro.

Claro  ainda o princpio da crnica, o caso do
duque de Marlborough e da prxima duquesa; to claro como o da princesa Colona,
que  tambm filha de um banqueiro americano, casada h alguns anos. Rimei acima
milhes com brases; posso agora empregar a toante espanhola, e rimar
capites com capitais, mas podem acusar-me de trocadilho, e eu
prefiro ficar calado a fazer um calembour sem g, meus bons amigos
da reviso.

17 de novembro

TAL  O MEU estado, que no sei se
acabarei isto. A cabea di-me, os olhos doem-me, todo este corpo di-me. Sei
que no tens nada com as minhas mazelas, nem eu as conto aqui pare
interessar-te; conto-as, porque h certo alvio em dizer a gente o que padece. O
interesse  meu, tu podes ir almoar ou passear.

Vai passear, e observe o que so
lnguas. Se eu escrevesse em francs, ter-te-ia feito tal injria, que tu, se
fosses brioso, e no s outra coisa, lavarias com sangue. Como escrevo em
portugus, dei-te apenas um conselho, uma sugesto; irs passear deveras pare
aproveitar a manh. Reflete como os homens divergem, como as lnguas se opem
umas s outras, como este mundo  um campo de batalha. Reflete, mas no deixes
de ir passear; se no amanhecer chovendo, e a neblina cobrir os morros e as
torres, ters belo espetculo, quando o sol romper de todo e der ao terceiro dia
das festas da Repblica o necessrio esplendor.

No tendo podido ver as outras, vi
todavia que estiveram magnficas; a grande parada militar, os cumprimentos ao
Sr. presidente da Repblica, a abertura da exposio, os espetculos de gala, as
evolues da esquadra, foram cerimnias bem escolhidas e bem dispostas pare
celebrar o sexto aniversrio do advento republicano . Ainda bem que se organizam
estas comemoraes e se convida o povo a divertir-se. Cada instituio precise
honrar-se a si mesma e fazer-se querida, e pare esta segunda parte no baste
exercer pontualmente a justia e a eqidade. O povo ama as coisas que o
alegram.

Agora comeam as festas. Deodoro
estava perto do 15 de novembro, e tratava-se de organizar a nova forma de
governo. Era natural que as festas fossem escassas e menos vrias que as deste
ano. Certamente, o chefe do Estado era amigo das graas e da alegria. No foi
ainda esquecido o grande baile dado em Itamarati pare festejar o aniversrio
natalcio do marechal. Encheram-se os sales de fardas, casacas e vestidos.
Gambetta advertiu um dia que la Rpublique manquait de femmes.
Compreendia que, numa sociedade polida como a francesa, as mulheres do o
tom ao governo. As de l tinham-se retrado; depois apareceram outras, suponho.
C houve o mesmo retraimento; nomes distintos e belas elegantes eliminaram-se
inteiramente. Mas nem foram sodas, nem c se vive tanto de salo.

De resto, como disse acima,
Deodoro era amigo das graas; acabaria por chamar as senhoras em torno do
governo. Um dia. por ocasio da promessa de cumprir a Constituio, tive ocasio
de observar uma ao que merece ser contada. Foi a primeira e nica vez que vi o
palcio de S. Cristvo transformado em parlamento e mal transformado, porque os
congressistas, acabada a constituinte. mudaram-se pare as antigas cases da
cidade. Pouca gente; mais nas tribunas que no recinto, e no recinto mais
cadeiras que ocupantes. Anunciou-se que o presidente chegara, uma comisso foi
receb-lo  porta, enquanto o presidente do Congresso, atual presidente da
Repblica, descia gravemente os degraus do estrado em que estava a mesa pare
receb-lo. Assomou Deodoro, cumprimentou em geral e guiou pare a mesa; em
caminho, porm, viu na tribuna das senhoras algumas que conhecia, ou
conhecia-as todas,e , levando os dedos  boca, fez um gesto cheio de
galanteria, acentuado pelo sorriso que o acompanhou. Comparai o gesto, a pessoa,
a solenidade, o momento poltico, e conclu.

Eu comparei tudoe comparei ainda
o presidente e o vice-presidente. Aquele proferia as palavras do compromisso com
a voz clara e vibrante, que reboou na vasta sala. Desceu depois com o mesmo
aprumo, e saiu. A entrada do vice-presidente teve igual cerimonial, mas diferiu
logo nas palmas das tribunas, que foram clidas e numerosas, ao contrrio das
que saudaram a chegada do primeiro magistrado. O marechal Floriano caminhou pare
a mesa, cabea baixa passo curto e vagaroso, e quando teve de proferir as
palavras do compromisso, f-lo em voz surda e mal ouvida.

Tal era o contraste das duas
naturezas. Quando o poder veio s mos de Floriano, pelas razes que todos vs
sabeis melhor que eu, pois todos os polticos, vieram os sucessos do princpio
do ano, que se prolongaram e desdobraram at  revolta de setembro e toda a mais
guerra civil, que s agora achou termo, neste primeiro ano do governo do Sr. Dr.
Prudente de Morais.

O corpo diplomtico acentuou
anteontem esta circunstancia, por boca do Sr. ministro dos Estados Unidos, no
discurso com que apresentou ao honrado presidente da Repblica as sues
felicitaes e de seus colegas. O governo que terminou h um ano, s pde cuidar
da guerra; o que ento comeou, devolvendo a paz aos homens, pde iniciar de vez
as festas novembrinas... Novembrinas saiu-me da pena, por imitao das
festas maias dos argentinos, que a 25 de maio, data da independncia; mas
no h mister nomes pare fazer festas brilhantes; a questo  faz-las nacionais
e populares.

So obras de paz. Obra de paz  a
exposio industrial que se inaugurou sexta-feira, e vai ficar aberta por muitos
dias, mostrando ao povo desta cidade o resultado do esforo e do trabalho
nacional desde o alfinete at  locomotiva. Depressa esquecemos os males, ainda
bem. Isto que pode ser um perigo em certos caves,  um grande benefcio quando
se trata de restaurar a nao.

24 de
novembro

Inaugurou-se mais uma sociedade recreativa, o
Cassino Brasileiro. A sesso foi presidida pelo Sr. visconde de S. Luiz do
Maranho, que proferiu discurso eloqente, segundo leio nas folhas pblicas.
Aps ele, falaram outros scios, e terminado o debate, o presidente levantou a
sesso, declarando inaugurado o Cassino Brasileiro.

Que faria o leitor, se fosse scio, logo que se
levantou a sesso? Pegaria do chapu para sair. Faria mal. Acabada a sesso
inaugural, comearam imediatamente as danas, que s acabaram na manh seguinte.
Isto prova ainda uma vez o que no precisa de prova, a saber, que ns amamos a
dana sobre todas as coisas, e ao nosso par como a ns mesmos. Dali este caso
novo de ser a prpria sesso inaugural a noite do primeiro baile. Nos anais
da

Terpscore carioca no h outro exemplo. Faz
lembrar o velho uso das cmaras, em que o mesmo minuto que v aprovar a eleio
de um membro, v aparecer o membro, jurar ou obrigar-se, e sentar-se. As
senhoras fizeram aqui de membro eleito; vestidas e toucadas, esperavam apenas
que o presidente levantasse a sesso. Tales haveria que achassem o discurso do
Sr. visconde pouco eloqente; e os outros aborrecidssimos... Em verdade, no se
pode fazer crer a uma dama, que tem a sua tabela de quadrilhas, valsas e polcas,
e j alguns pares inscritos, que as sesses inaugurais se faam com discursos.
Um, dons, trs gestos v; aclamaes no fim, sim, senhor; mas discursos,
explicaes de estatutos...

Sim, esquecia-me dizer que houve explicao, de um
dos artigos dos estatutos, feita pelo presidente, e no sei se tambm por outros
oradores. Trata-se de uma condio para ser scio. A explicao era
desnecessria, pois cada reunio de homens tem o direito de estabelecer as
clausulas que quiser, sem que se possa atribu-las (como disse o Sr. visconde) a
sentimentos menos liberais. A sociedade era recreativa, concluiu S. Ex., e
portanto no podia admitir em seu seio nimos eivados de tais sentimentos.
Perfeitamente pensado, mas inutilmente dito, pela razo que dei acima, e porque
as moas esperavam.

No  de animo liberal,  nem conservador,  deixar
que os ombros das moas, os lindos braos, o princpio do seio, fiquem vadios
nas cadeiras, enquanto os homens trocam arengas. Estou certo que um orador
prefere a sua orao  mais bela espdua de moa; mas assim como Salomo em toda
a sua glria se cobriu jamais como os lrios do campo (lede S. Mateus), assim
tambm nem Demstenes com toda a sua eloqncia falou melhor que uma espdua de
moa;  espdua desembainhada, notai bem, porque, como se l no mesmo
evangelista, no se deve esconder a luz debaixo de um alqueire... Mas aqui estou
eu a profanar o sermo da montanha, por amor da esttica. Deixemos este Cassino,
e mais as suas espduas nuas e discursos enfeitados.

Que se dance,  a nossa alma, a nossa paixo social
e poltica. A prpria moa que esta semana enlouqueceu, dizem que por efeito do
espiritismo,  um caso antes de coreografia que de patologia. A loucura  uma
dana das idias. Quando algum sentir que as suas idias saracoteiam, arrastam
os ps, ou do com eles nos narizes das outras, desconfie que  a polca ou o
canc da demncia. Recolha-se a uma casa de sade. No se podem atribuir tais
efeitos ao espiritismo. A prova de que no foi ele que fez enlouquecer a moa, 
que, no h dois meses, morreu outra moa em plena sesso esprita. Se a doidice
brotasse da doutrina e da prtica, essa outra no teria simplesmente morrido;
teria danado a valsa das idias.

Danar  viver. A guerra, que tambm  vida,  um
grande bailado, em que os pares se perdem comumente na noite dos tempos, fartos
de saracotear. Muulmanos e cristos danam agora ao som da Bblia e do Coro,
com tal viveza, que no s as potncias da Europa esto para tirar pares, mas os
prprios Estados Unidos da Amrica atam a gravata branca e calam as luvas. E' o
que nos diz o cabo, e eu creio no cabo, no menos que na Agncia Havas, que a
toda notcia grave pe este natural acrscimo: O sucesso est sendo muito
comentado. No o ps acerca da interveno americana nos negcios turcos; 
verdade que a notcia vinha de Washington, no da Europa, onde se comentar a
nova afirmao desta grande potncia, que de americana se faz
universal,

Pelo que li ontem no Jornal do Comrcio, o capito
Mahan publicou agora um artigo sobre a doutrina de Monroe e seus corolrios. O
principal fim  mostrar que a grande Repblica, para efetuar a sua suserania e
proteo a todas as repblicas da Amrica Central e Meridional, precisa ter uma
esquadra adequada aos seus novos destinos. A esquadra se far, e se tu viveres
anda meio sculo, vers que tudo estar mudado. Haver ento um Cassino, maior
que o Cassino Brasileiro, inaugurado nas Laranjeiras, um grande Cassino
Americano, onde estaremos com as nossas fortes espduas nuas, e a tabela das
valsas e quadrilhas. Notai que as quadrilhas de salo j so
americanas.

Nesse tempo, em que teremos aprendido o que nos
falta para conhecer toda a liberdade, no se ouviro gritos como os que ora
soltam no sul, porque uma moa de Porto-Alegre saiu da casa paterna para se
meter a freira. As folhas dizem que  fanatismo religioso; pode ser, mas eu
acrescento que  um ato de liberdade. Gasparina tem vinte e quatro anos, e desde
os quinze pensava j em ir para o convento. Talvez fosse a leitura do Hamlet que
lhe deu tal resoluo: Faze-te monja; para que queres ser me de
pecadores?

Gasparina no fez como Oflia, obedeceu. Se ainda
vivesse o aviso ministerial de 1855, era impossvel a Gasparina tomar sequer o
vu de noviciado; mas . o aviso perdeu-se. Agora h plena liberdade, e liberdade
no  s o que nos d gosto. O pai de Gasparina correu ao convento, viu de longe
a filha, pediu-lhe que tornasse a casa, onde a me enferma poderia morrer com a
notcia do seu ato; ela respondeu-lhe naturalmente com o reino do cu. As
freiras admitiram que a novia deixasse o convento, se o bispo tal mandasse. O
bispo fez o que eu faria, se fosse bispo, e at sem ser: negou o
consentimento.

Liberdade  liberdade. Vede a velha liberdade
inglesa. Agora mesmo, na ndia, um ingls cristo fez-se muulmano. Cumpridas as
cerimnias, recebeu o nome de Abdul-Hamid. Consentiram-lhe que continuasse
vestido como dantes, mas aconselharam-lhe que, para distintivo externo, fizesse
uso do fez. Parece que adotou o fez. Cristo antes, muulmano agora, ficou
sempre ingls, que  o que se no renega ou abjura:  escolhe o verbo, segundo
fores amigo ou adversrio da Gr-Bretanha; eu por mim agradeo  mo de
Shakespeare este termo de comparao com a nossa Oflia de Porto-Alegre.
Adeus.

1
de dezembro

IMAGINO o que se ter passado em
Paris, quando Dumas Filho morreu. Uma das quarenta... No cuideis que falo das
cadeiras da Academia. Este mundo no se compe s de cadeiras acadmicas; tambm
h nele interpelaes parlamentares, e dizem que o recente ministrio tem j de
responder a cerca de quarenta, ou sessenta. Refiro-me justamente s
interpelaes. Uma delas verificou-se depois da morte de Dumas Filho. O
interpelante oprimiu naturalmente o ministrio, o ministrio sacudiu o
interpelante, tudo com o cerimonial de costume, apartes, gritos e protestos;
vieram os votos: o ministrio teve a grande maioria deles. Nada disso tirou 
cidade esta idia nica: Dumas Filho morreu. Dumas Filho morreu. Homens,
mulheres, fidalgas e burguesas falaram deste bito como do de um prncipe
qualquer. No h j damas das camlias; ele mesmo disse que a mulher que
lhe serviu de modelo ao personagem de Margarida Gautier foi uma das ltimas que
tiveram corao. Podia parecer paradoxo ou presuno de moo se ele no
escrevesse isto em 1867, vinte anos depois da morte de Margarida. Demais, se as
palavras do idia das coisas, a segunda metade deste sculo no chega a
conhecer a primeira. Cortess, ou o que quer que elas eram em 1847, acabaram
horizontais, nome que , por Si, um programa inteiro, e  mais possvel que j
lhes hajam dado outro nome mais exato e mais cru. No faltaro, porm, mulheres
nem homens, tantas figuras vivas, criadas por ele, tiradas do mundo que passa,
para a cena que perpetua. Todos esses, e todos os demais falaram desta morte
como de um luto pblico.

A moda passar como passou a de
Dumas pai, a de Lamartine, a de Musset, a de Stendhal, a de tantos outros, para
tornar mais tarde e definitivamente. s vezes, o eclipse chega a ser
esquecimento e ingratido. Musset,que Heine dizia ser o primeiro poeta lrico
da Frana, pedia aos amigos, em belos versos, que lhe plantassem um salgueiro
ao p da cova. Possuo umas lascas e folhas do salgueiro que est plantado na
sepultura do autor das Noites, e que Artur Azevedo me trouxe em 1883; mas
no foram amigos que o plantaram, no foram sequer franceses, foi um
ingls.

Parece que, indo fazer a visita
aos mortos, doeu-lhe no ver ali o arbusto pedido e cumprir-se o desejo do
poeta. Donde se conclui que os ingleses nem sempre ficam com a ilha da Trindade.
H deles que do para amar os poetas e seus suspiros. Tambm os h que, por amor
das musas, fazem-se armar soldados. Um deles quando os gregos bradaram pela
independncia, pegou em si para ir ajud-los e no chegou ao fim; morreu de
doena em Missolonghi. Era par de Inglaterra; chamava-se, creio, eu Georges
Gordon Noel Byron. Tinha escrito muitos poemas e versos soltos e feito alguns
discursos.

A glria veio depois da moda, e
ps Dumas pai no lugar que lhe cabe neste sculo, como fez aos outros seus
rivais. Cada gnio recebeu a sua palma. Se a moda fizer a Dumas filho o mesmo
que aos outros, o tempo operar igual resgate, e os dois Dumas enchero juntos o
mesmo sculo. Rara vez se dar uma sucesso destas, a glria engendrando a
glria, o sangue transmitindo a imortalidade. Sabeis muito bem que, nem por ser
filho, o Dumas, que ora faleceu, deixou de ser outra pessoa no teatro, grande e
original. Entendeu o teatro de outra maneira, fez dele uma tribuna, mas o pintor
era assaz consciente e forte para no deixar ao p ou de envolta com a lio de
moral ou filosofia uma cpia da sociedade e dos homens do seu tempo. Dizem
tambm que o filho ps a vida natural em cena, mas disso j se gabava o pai em
1833, e creio que ambos, cada qual no seu tempo, tinham razo.

Nem por ter saboreado a glria a
largos sorvos, perdeu Dumas filho a adorao que tinha ao pai. Ao velho chegaram
a chamar por troa o pai Dumas. O filho, ao referi-lo, conta uma reminiscncia
dos sete anos. Era a noite da primeira representao de Carlos VII. No entendeu
nem podia entender nada do que via e ouvia. A pea caiu. O autor saiu do teatro,
triste e calado, com o pequeno Alexandre pela mo, este amiudando os passinhos
para poder acompanhar as grandes pernadas do pai. Mais tarde, sempre que saa da
representao das prprias peas, coberto de aplausos, no podia esquecer, ao
tornar para casa, aquela noite de 1831, e dizia consigo: Pode ser, mas eu
preferia ter escrito Carlos VII, que caiu. Conheceis todo o resto desse
prefcio do Filho Natural, no esquecestes a famosa e clebre pgina em
que o autor da Dama das Camlias faia ao autor de Antony: Ento
comeastes esse trabalho ciclpico que dura h quarenta anos...

Tambm o dele durou quarenta anos.
A mais de um espantou agora a notcia dos seus 71 de idade; e ainda anteontem,
em casa de um amigo, dizia este com graa: ento l se foi o velho Dumas.
Todos tnhamos o sentimento de um Dumas moo, to moo como a Dama das
Camlias. A verdade  que um e outro guardaram o segredo da eterna
juventude.

L se foi toda a crnica.
Relevai-me de no tratar de outros assuntos; este prende ainda com o tempo da
nossa adolescncia, a minha e a de outros.

Naquela quadra cada pea nova de
Dumas Filho ou de Augier, para s falar de dois mestres, vinha logo impressa no
primeiro paquete, os rapazes corriam a l-la, a traduzi-la, a lev-la ao teatro,
onde os atores a estudavam e a representavam ante um pblico atento e
entusiasta, que a ouvia dez, vinte, trinta vezes. E adverti que no era, como
agora, teatros de vero, com jardim, mesas, cerveja e mulheres com um edifcio
de madeira ao fundo. Eram teatros fechados, alguns tinham as clebres e
incmodas travessas, que aumentavam na platia o nmero dos assentos. Noites de
festas; os rapazes corriam a ver a Dama das Camlias e o Filho de
Giboyer, como seus pais tinham corrido a ver o Kean e Lucrcia
Brgia. Bons rapazes, onde vo eles? Uns seguiram o caminho dos autores
mortos, outros envelhecem, outros foram para a poltica, que  a velhice
precoce, outros conservam-se como este que morreu to moo.

8
de dezembro

Dai-me boa poltica e eu vos darei
boas finanas. Quando o Baro So Louis no for mais nada na memria dos homens,
este aforismo ainda h de ser citado, no tanto por ser verdadeiro, como por
tapar o buraco de uma idia. Talvez um dia, algum orador equivocadamente troque
os termos e diga: Dai-me boas finanas, e eu vos darei boa poltica. O que lhe
merecer grandes aplausos e dar nova forma ao aforismo. Assim fazem os
alfaiates s roupas consertadas de um fregus.

Nada entendendo de poltica nem de
finanas, no estou no caso de citar um nem outro, o primitivo e o consertado.
Esta semana tivemos os escritos do Sr. senador Oiticica e do Sr. Afonso Pena,
presidente do Banco da Repblica. Entre uns e outros no posso dizer nada.
Explico-me. H nas palavras uma significao gramatical que, salvo o caso da
pessoa escrever como fala e falar mal, entende-se perfeitamente. O que no chego
a compreender  a significao econmica e financeira. Sei o que so lastros,
no ignoro o que so emisses; mas o que do consrcio dos dois vocbulos entre
si e com outros deve sair,  justamente o que me escapa. Podem arregimentar
diante de mim os algarismos mais compridos, som-los, diminu-los,
multiplic-los, reparti-los, e eu conheo se as quatro operaes esto certas,
mas o que elas podem dizer, financeiramente falando, no sei. H pessoas que no
confessam isto, por motivos que respeito; algumas chegam a escrever estudos,
compndios, anlises. Eu sou (com perdo da palavra) nobremente
franco.

Em matria de dinheiro, sei que a
histria dele combina perfeitamente com a do Paraso terrestre. H cinqenta
anos, diz uma folha rio-grandense de 21 do ms passado:

A moeda-papel era coisa rarssima
no Rio Grande; ouro e prata eram as moedas que mais circulavam, inclusive as de
cunho estrangeiro, como as onas e os pataces, que a alfndega recebia, aquelas
a 32$ e estes a 2$.

Para mim, estas palavras so mais
claras que todos os autores deste mundo. Querem dizer que comprvamos tudo com
ouro e prata, no havendo papel seno talvez para fazer colees semelhantes s
de selos, ocupao no sei se mais se menos recreativa que o jogo da pacincia.
Hoje, a circulao, como Margarida Gauthier, mira-se ao espelho e suspira:
Combien je suis change! Hoje quer dizer h muitos anos. E acrescenta
como a herona de Dumas Filho: Cependant, le docteur ma promis de me gurir.
Que doutor?  o que se no sabe ao certo; devia dizer os doutores, ou mais
simplesmente a faculdade de Medicina. Realmente, os doutores tinham boa vontade.
Conheci dois, h muitos anos, que eram como a homeopatia e a alopatia, dois
sistemas opostos. Uma curava com muitos banhos, outro com um banho s. Alm de
no chegarem a curar a nossa doente com um nem com muitos, eles prprios
morreram, e a doente vai vivendo com a sua tuberculose. Como a triste Margarida,
esta acrescenta no mesmo monlogo: J'aurai patience.

Provado que no entendo de
finanas, espero que me no exijam igual prova acerca da poltica, posto que a
poltica seja acessvel aos mais nfimos espritos deste mundo. A questo,
porm, no  de graduao,  de criao.

Um operoso deputado, o Sr. Dr.
Nilo Peanha,  acaba de apresentar um projeto de lei destinado a impedir a
fraude e as violncias nas eleies. No pode haver mais nobre intuito. No h
servio mais relevante que este de restituir ao voto popular a liberdade e a
sinceridade.  o que eu diria na Cmara se fosse deputado; e, quanto ao projeto,
acrescentaria que  combinao mui prpria para alcanar aqueles fins to teis.
Onde,  hora marcada, no houver funcionrios, o eleitor vai a um tabelio e
registra o seu voto. Assim que, podem os capangas tolher a reunio das mesas
eleitorais, podem os mesrios corruptos ( uma suposio) no se reunirem de
propsito: o eleitor abala para o tabelio e o voto est salvo.

Como tabelio,  que no sei se
aprovaria a lei. O tabelio  um ente modesto, amigo da obscuridade, metido
consigo, com os seus escreventes, com as suas escrituras, com o seu
Manual. Traz-lo ao tumulto dos partidos,  vista das idias (outra
suposio)  trocar o papel desse serventurio, que por ndole e necessidade
pblica  e deve ser sempre imperturbvel. O menos que veremos com isto  a
entrada do tabelio no telegrama. Havemos de ler que um tabelio, com violncia
dos princpios e das leis, com afronta da verdade das classificaes, sem
nenhuma espcie de pudor, aceitou os votos nulos de menores, de estrangeiros e
de mulheres. Outro ser seqestrado na vspera, e o telegrama dir, ou que
resistiu nobremente  inscrio dos votos, ou que fugiu covardemente ao dever.
Alguns adoecero no momento psicolgico. Se algum, por ter parentes no partido
teixeirista, mandar espancar pelos escreventes os eleitores
dominguistas, cometer realmente um crime, e incitar algum colega
aparentado com o cabo dos dominguistas a restituir aos teixeiristas
as pancadas distribudas em nome daqueles. Deixemos os tabelies onde eles
devem ficar,  nos romances de Balzac, nas comdias de Scribe e na Rua do
Rosrio.

Mas, que remdio dou ento para
fazer todas as eleies puras? Nenhum, no entendo de poltica. Sou um homem
que, por ler jornais e haver ido em criana s galerias das cmaras, tem visto
muita reforma, muito esforo sincero para alcanar a verdade eleitoral, evitando
a fraude e a violncia, mas por no saber de poltica, fico sem conhecer as
causas do malogro de tantas tentativas. Quando a lei das minorias apareceu,
refleti que talvez fosse melhor trocar de mtodo, comeando por fazer uma lei da
representao das maiorias. Um chefe poltico, varo hbil, pegou da pena e
ensinou, por circular pblica, o modo de cumprir e descumprir a lei, ou, mais
catolicamente, de ir para o Cu comendo carne  sexta-feira. Questo de
algarismos. Vingou o plano; a lei desapareceu. Vi outras reformas; vi a eleio
direta servir aos dois partidos, conforme a situao deles. Vi... Que no tenho
eu visto com estes pobres olhos?

A ltima coisa que vi foi que a
eleio  tambm outra Margarida Gauthier. Talvez no suspire, como as
primeiras: Combien je suis change! Mas com certeza atribuir ao doutor a
promessa de a curar, e dir como a irm do teatro e a da praa: J'aurai
patience.

15 de dezembro

Temo errar, mas creio que Lopes
Neto foi o primeiro brasileiro que se deixou queimar, por testamento, com todas
as formalidades do estilo. As suas cinzas, no discurso dos oradores, foram
verdadeiramente cinzas. Agora repousam no lugar indicado pelo testador, e  mais
um exemplo que d a sociedade italiana da incinerao aos homens que vo morrer.
Estou certo, porm, que o sentimento produzido nos patrcios de Lopes Neto foi
menos de admirao que de horror. Toda gente que conheo repele a idia de ser
queimada. Ningum abre mo de ir para baixo da terra integralmente, deixando aos
amigos pstumos do homem o ofcio de lhe comerem os ltimos bocados.

So gostos, so costumes. De mim
confesso que tal  o medo que tenho de ser enterrado vivo, e morrer l embaixo,
que no recusaria ser queimado c em cima. Poeticamente, a incinerao  mais
bela. Vede os funerais de Heitor. Os troianos gastam nove dias em carregar e
amontoar as achas necessrias para uma imensa fogueira. Quando a Aurora, sempre
com aqueles seus dedos cor-de-rosa, abre as portas ao dcimo dia, o cadver 
posto no alto da fogueira, e esta arde um dia todo. Na manh seguinte, apagadas
as brasas, com vinho, os lacrimosos irmos e amigos do magnnimo Heitor coligem
os ossos do heri e os encerram na urna, que metem na cova, sobre a qual erigem
um tmulo. Da vo para o esplndido banquete dos funerais no palcio do rei
Pramo.

Bem sei que nem todas as
incineraes podem ter esta feio pica; raras acabaro um livro de Homero, e a
vulgaridade dar  cremao, como se lhe chama, um ar chocho e administrativo. O
Sr. Conde de Herzberg h de morrer um dia (que seja tarde!) e ser inumado,
quando menos para ser coerente. Outros condes viro, e se a prtica do fogo
houver j vencido, podero celebrar contrato com a Santa Casa para queimar os
cadveres nos seus prprios estabelecimentos. Ento  que havemos de abenoar a
memria do atual conde! Naturalmente haver duas espcies de classes, a presente
(coches, cavalos, etc.) e a da prpria incinerao, que se distinguir pelo
esplendor, mediania ou misria dos fornos, vesturios dos incineradores,
qualidade da madeira. Haver o forno comum substituindo a vala comum dos
cemitrios.

Se isto que vou dizendo parecer
demasiado lgubre, a culpa no  minha, mas daquele distinto brasileiro, que
morreu duas vezes, a primeira surdamente, a segunda com o estrondo que acabais
de ouvir. Confesso que a morte de Lopes Neto veio lembrar-me que ele no havia
morrido. Os octogenrios de c, ou trabalham como Otoni, no Senado, ou descansam
das suas grandes fadigas militares, como Tamandar, que ainda ontem fez anos. H
dias vi Sinimbu, ereto como nos fortes dias da maturidade. Vi tambm o mais
estupendo de todos, Barbacena, jovem nonagenrio, que espera firme o princpio
do sculo prximo, a fim de o comparar ao deste, e verificar se traz mais ou
menos esperanas que as que ele viu em menino. Posso adivinhar que h de trazer
as mesmas. Os sculos so como os anos que os compem.

Lopes Neto foi meter-se na Itlia,
para que esquecessem os seus provados talentos e os servios que prestou ao
Brasil. No faltam ali cidades nem vilas onde um homem possa dormir as ltimas
noites, ou andar os ltimos dias entre um quadro eterno e uma eterna runa. A
lngua que ali se ouve imagino que repercutir na alma estrangeira como as
estrofes dos poetas da terra. Por mais que o velho Crispi e o seu inimigo
Cavalloti estraguem o prprio idioma com os barbarismos que o parlamento impe,
um homem de boa vontade pode ouvi-los, com o pensamento nos tercetos de Dante, e
se os repetir consigo, acaba crendo que os ouviu do prprio poeta. Tudo 
sugestivo neste mundo.

Suponho que o nosso finado
patrcio no ouviria exclusivamente os poetas. A poltica deixa tal unhada no
esprito, que  difcil esquec-la de todo, mormente aqueles a quem lhes
nasceram os dentes nela. Se tem vivido um pouco, mais leria os telegramas que
levaram esta semana a toda a Itlia, como ao resto do mundo, a notcia do
desastre de Eritria. Talvez a idade ainda lhe consentisse irritar-se como os
patriotas italianos, e clamar com eles pela necessidade da desforra. Sentiria
igualmente a dor das mes e esposas que correram s secretarias para saber da
sorte dos filhos e maridos. Execraria naturalmente aquele negus e todos
os seus rases, que dispem de tantos e inesperados recursos. Mas, pondo
de lado a grandeza da dor e o brio dos vencidos, se Lopes Neto tivesse a fortuna
de haver esquecido a poltica e as suas duras necessidades, acharia sempre algum
retbulo velho, algum trecho de mrmore, alguma cantiga de rua, com que passar
as manhs de azul e sol.

Umas das mximas que escaparam a
mestre Calino  que nem tudo  guerra, nem tudo  paz, e as coisas valem segundo
o estado da alma de cada um. O estilo  que no traria esses colarinhos altos e
gomados, mas cados  marinheira. Calino tinha a virtude de falar claro, a sua
tolice era transparente. O que eu quero dizer pela linguagem deste grande
descobridor de mel de pau  que nem toda a Itlia  Cipio, alguma parte h de
ser Rafael e outros defuntos.

L ficou entre esses, incinerado
como tantos antigos, o homem que deu princpio a esta crnica, e j agora lhe
dar fim. O cu italiano lhe ter feito lembrar o brasileiro, e quero crer que a
sua ltima palavra foi proferida na nossa lngua; mas, como a confuso das
lnguas veio do orgulho humano,  certo que  o Cu, que  s um, entende-as
todas, como antes de Babel, e tanto faz uma como outra, para merecer bem. A
ltima ou penltima vez que vi Lopes Neto estava com um jovem de quinze anos,
filho de Solano Lpez, que apresentava a algumas pessoas, na Rua do Ouvidor. O
moo sorria sem convico; eu pensava nas vicissitudes humanas. Se o pai no
tivesse feito a guerra, haveria morrido em Assuno, e talvez ainda estivesse
vivo. O filho seria o seu natural sucessor, e o atual presidente do Paraguai no
estaria no poder.  fortuna!  loteria!  bichos!

22 de dezembro

Se a semana, que ora acaba, for
condenada perante a eternidade, no ser por falta de acontecimentos. Teve-os
mximos, mdios e mnimos. Toda ela foi de oramentos e impostos novos. Criou-se
um segundo partido poltico. A mensagem de Cleveland estourou como uma bomba,
entre o mundo novo e o velho. Chegou a proposta de arbitramento para o negocio
da ilha da Trindade. Juntai a isto os discursos, os boatos, as denncias de
contrabando, as divergncias de opinies, e confessai que poucas semanas levaro
a alcofa to cheia.

A questo dos impostos, fora 
diz-lo, sendo a mais imediata,  a que menos tem agitado os espritos. Em
verdade, as outras so maiores, e entendem com interesses mais altos. Impostos
revogam-se ou cerceiam-se um dia. A Trindade tem de ser resolvida eficaz e
perpetuamente. A doutrina de Monroe pode alterar a situao poltica do mundo, e
trazer guerra, a no ser que traga paz. O futuro descansa nos joelhos dos
deuses. Creio que isto  de Homero.

Dos impostos, o nico discutido
nas folhas pblicas  o que recai sobre produtos farmacuticos. As drogas
importadas vo pagar mais do duplo, a ver se as da terra se desenvolvem. Um
boticrio j me avisou que hei de pagar certo remdio por mais do dobro do que
ora me custa, e no  pouco. Deste cidado sei que cerca de dois anos tentou
faz-lo no prprio laboratrio, mas saiu-lhe uma droga muito ordinria, como me
confessou e eu acreditei. A no ser que algum falsifique o preparado e o d por
pouco menos, no me resta mais que dispens-lo e beber outra coisa. Eu, quando
quero dizer algum disparate que no magoe o prximo, costumo anunciar que a
farmcia h de ser a ltima religio deste mundo. E dou por fundamento que o
homem estima mais que nenhuma outra coisa a sade e a vida, e no presa que a
farmcia lhe d uma e outra, basta que ele o suponha. No nego que o homem tenha
necessidades morais; concedo o vigrio, mas no me tirem o boticrio. E assim
vou rindo por a adiante, sem grande dispndio de idias. Uma idia s, renovada
pela ocasio, pela disposio, pelos ouvintes, d muito de si. H tal, que o
prprio autor supe inteiramente nova.

Pois, senhores, estou com vontade
de ire declarar, no cismtico, que  escolher entre a droga importada e cara e
a fabricada aqui mesmo e pouco menos cara, mas ateu, totalmente ateu. Se a sade
vai subir tanto de preo, melhor  ficar com a doena barata. Padece-se, mas
sempre haver com que matar uma galinha para a dieta. E  quem sabe? pode ser
que a sade tenha mudado de domiclio, nos saia de qualquer outro armazm ou dos
ares da Tijuca. Caso haver em que ela resida em ns, salvo a parte enferma, e
vai seno quando, amanheamos curados.

Quando o clera-morbo aqui
apareceu, no sei se da primeira, se da segunda vez, morreu muita gente. Era eu
criana, e nunca me esqueceu um farmacutico de grandes barbas, que inventou um
remdio liquido e escuro contra a epidemia. Se curativo ou preservativo, no me
lembro. O que me lembra,  que a farmcia e a rua estavam cheias de pessoas
armadas de garrafas vazias, que saam cheias e pagas. O preo era do tempo em
que os medicamentos tambm se vendiam por moedas fracionrias; havia remdios de
200 ris, de 600 ris, etc. A contabilidade atual exige uma gradao certa, mil
ris, mil e quinhentos, dois mil ris, dois mil e quinhentos, Trs, quatro,
cinco, seis, oito, dez, quinze, vinte, etc. O das grandes barbas ajuntou um bom
peclio; mas por que levou o segredo para a sepultura? Por que no imprimiu e
distribuiu a frmula? Agora, se tal molstia c voltar, teremos de inventar
outra coisa, que ter a novidade por si,  verdade, mas a velhice tambm
recomenda.

Vede Ayer. H quantos anos este
homem, com um simples peitoral e umas plulas, tem restitudo a sade ao mundo
inteiro. Conheci-lhe o retrato moo; agora  um velho. Mas os anos no tm feito
mais e desenvolver os efeitos da inveno. Ayer chega a servir naquilo mesmo que
o cura: a angina diftrica. Quando se descobrem os primeiros sintomas da doena
(diz o Manual de Sade, de 1869), e enquanto o medico no chega, a garganta deve
ser gargarejada ou pintada com sumo iro de lima ou de limo. Produz tambm
efeito o p de enxofre assoprado na garganta. Pode tambm dar-se com vantagem
uma dose alta de peitoral de cereja, do Dr. Ayer. Depois da angina diftrica,
tome-se a salsaparrilha do Dr. Ayer, para remover da circulao o vrus da
doena e reconstruir o sistema. Um chapeleiro do Texas confirma isto,
escrevendo que, depois de curado da angina, ficou com a garganta em mau estado,
constipava-se a mido, e receava que a doena tornasse; experimentou o peitoral
de Ayer, ficou bom e perdeu o medo. Whartenberg chama-se este chapeleiro. Quem
sabe se o chapu que trago no saiu das mos dele, aos pedaos, para ser depois
composto e vendido aqui?

Suponhamos que o imposto alto
recaia no peitoral e nas plulas do Dr. Ayer. No examinei este ponto; mas a
concluso  interessante. Whartenberg continuar a mandar-nos os seus chapus,
aos pedaos, e ns no poderemos ingerir o peitoral que restituiu a sade a
Whartenberg. Estudem isso os competentes; eu passo  organizao do partido
democrtico federal.

Segundo li, contrape-se este
partido ao republicano federal, para formar os dois partidos necessrios ao
livre jogo das instituies, segundo dizem os publicistas. Eu julgo as coisas
pelas palavras que as nomeiam e basta ser partido para no ser inteiro. Assim,
por mais vasto que seja o programa do partido republicano federal, no podia
conter todos os princpios e aspiraes, alguma coisa ficou de fora, com que
organizar outro partido. A regra  que haja dois. O dia faz-se de duas partes, a
manh e a tarde. O homem  um composto de dualidades. A principal delas  a alma
e o corpo; e o prprio corpo tem um par de braos, outro de pernas, os olhos so
dois, as orelhas duas, as ventas duas. Finalmente, no h casamento sem duas
pessoas.

Pode haver casamentos de trs
pessoas, mas tal casamento  um triangulo. No confundam com o nosso triangulo
eleitoral. Repito o prprio nome que lhe da Ibsen, ou antes um dos seus
personagens. Os Estados Unidos da Amrica, com o seu jovem partido populista, j
esto de tringulo, e a Inglaterra tambm com o partido irlands; dado que este
fique desdobrado em parnelistas e no parnelistas, haver quatro, e ser o caso
de danarem uma quadrilha, como dizia outro dramaturgo, Dumas, tambm pela boca
de um dos seus personagens, falando de mulheres. Os partidos franceses, se
levarmos em conta as indicaes dos seus lugares na cmara, chegam a danar uma
quadrilha americana.

Entre ns a quadrilha, mais que
americana, americanssima, poder entrar em uso,se convertermos os partidos em
simples bancadas, desde a bancada mineira at a bancada goiana. Seria um
desastre. Antes o tringulo se vingar o partido monarquista. Se no, fiquemos
com a simples valsa, o varo e a dona enlaados; ele vestido de autoridade, ela
toucada de liberdade, correndo a sala toda, ao som da orquestra dos
princpios.

29 de dezembro

 beira de um ano novo, e quase 
beira de outro sculo, em que se ocupar esta triste semana? Pode ser que nem
tu, nem eu, leitor amigo, vejamos a aurora do sculo prximo, nem talvez a do
ano que vem. Para acabar o ano faltam trinta e seis horas, e em to pouco tempo
morre-se com facilidade, ainda sem estar enfermo. Tudo  que os dias estejam
contados.

Algum haver que nem precise
t-los contados; desconta-os a si mesmo, como esse pobre Raul Pompia, que
deixou a vida inesperadamente, aos trinta e dois anos de idade. Sobravam-lhe
talentos, no lhe faltavam aplausos nem justia aos seus notveis mritos.
Estava na idade em que se pode e se trabalha muito. A poltica,  certo, veio ao
seu caminho para lhe dar aquele rijo abrao que faz do descuidado transeunte ou
do adventcio namorado um amante perptuo. A figura  manca; no diz esta outra
parte da verdade,  que Raul Pompia no seguiu a poltica por seduo de um
partido, mas por fora de uma situao. Como a situao ia com o sentimento e o
temperamento do homem, achou-se ele partidrio exaltado e sincero, com as
iluses todas,  das quais se deve perder metade para fazer a viagem mais leve,
 com as iluses e os nervos.

Tal morte fez grande impresso.
Daqueles mesmos que no comungavam com as suas idias polticas, nenhum deixou
de lhe fazer justia  sinceridade. Eu conheci-o ainda no tempo das puras
letras. No o vi nas lutas abolicionistas de So Paulo. Do Ateneu, que 
o principal dos seus livros, ouvi alguns captulos ento inditos, por
iniciativa de um amigo comum. Raul era todo letras, todo poesia, todo Goncourts.
Estes dois irmos famosos tinham qualidades que se ajustavam aos talentos
literrios e psicolgicos do nosso jovem patrcio, que os adorava. Aquele livro
era num eco do colgio, um feixe de reminiscncias, que ele soubera evocar e
traduzir na lngua que lhe era familiar, to vibrante e colorida, lngua em que
comps os numerosos escritos da imprensa diria, nos quais o estilo respondia
aos pensamentos.

A questo do suicdio no vem
agora  tela. Este velho tema renasce sempre que um homem d cabo de si, mas 
logo enterrado com ele, para renascer com outro. Velha questo, velha dvida.
No tornou agora  tela, porque o ato de Raul Pompia incutiu em todos uma
extraordinria sensao de assombro. A piedade veio realar o ato, com aquela
nica lembrana do moribundo de dois minutos, pedindo  me que acudisse  irm,
vtima de uma crise nervosa. Que soluo se dar ao velho tema? A melhor  ainda
a do jovem Hamlet: The rest is silence.

Mas deixemos a morte. A vida
chama-nos. Um amigo meu foi ao cemitrio, trouxe de l a sensao da
tranqilidade, quase da atrao do lugar, mas no como lugar de mortos, seno de
vivos. Naturalmente achou naquele ajuntamento de casas brancas e sossegadas uma
imagem de vila interior. A capital  o contrrio. A vida ruidosa chama-nos,
leitor amigo, com os seus mil contos de ris da loteria que correu ontem na
Bahia.

A idia da agncia-geral, Casa
Cames & C., de expor na vspera o cheque dos mil contos de ris para ser
entregue ao possuidor do bilhete a quem sair aquela soma, foi quase genial. No
bastava dizer ou escrever que o prmio  de mil contos e que havia de sair a
algum. A maior parte dos incrdulos que ali passavam  falo dos pobres  no
acreditavam a possibilidade de que tais mil contos lhes sassem a eles. Eram
para eles uma soma vaga, incoercvel, abstrata, que lhes fugiria sempre. A
agncia Cames & C. no esqueceu ainda os Lusadas, decerto; h de
lembrar-se da Ilha dos Amores, quando os fortes navegantes do com as ninfas
nuas, e deitam a correr atrs delas. Sabe muito melhor que eu, que os rapazes, 
fora de correr, do com elas no cho. A vitria foi certa e igual e, sem que o
poema traga a estatstica dos moos e das moas,  sabido que ningum perdeu na
luta, tal qual sucede s loterias deste continente. Mas o pobre quando v muita
esmola, desconfia. Os mil contos eram uma s ninfa, que corria por todas as
outras, e que ele no ousava crer que alcanasse, ainda recitando os afamados e
doces versos da agncia Cames & C.:

Oh! no me fujas! Assim nunca o
breve
Tempo fuja da tua
formosura!

Dizer versos  uma coisa, e
receber mil contos de ris  outra. As vezes excluem-se. Quando, porm, os mil
contos se lhe pem diante dos olhos, sob a forma de um cheque, uma ordem de
pagamento, o mais incrdulo entra e compra um bilhete; aos mais escrupulosos
ficar at a sensao esquisita de estar cometendo um furto, to certo lhes
parece que o cheque vai atrs do bilhete, e que ele est ali, est na tesouraria
do banco. A venda deve ter sido considervel.

De resto, quem  que, de um ou de
outro modo, no expe o seu cheque  porta? O prprio espiritismo, que se ocupa
de altos problemas, fez do Sr. Abalo um cheque vivo, e ningum ali entra sem a
certeza de que ver a eternidade, ou definitivamente pela morte, ou
provisoriamente pela loucura. Os que no tm certeza e ficam pasmados do prmio
que lhes cai nas mos, imitam nisto os que compram bilhetes de loteria para
fugir  perseguio dos vendedores, que trepam aos bonds, e os metem 
cara da gente.

O inqurito aberto pela polcia,
por ocasio de alguns prmios sados aos fregueses,  duas vezes
inconstitucional: 1, por atentar contra a liberdade religiosa; 2, por ofender
a liberdade profissional. Eu, irmo novio, posso morrer sem crime de ningum; 
um modo de ir conversar outros espritos e associar-me a algum que traga
justamente a felicidade ao nosso pas. Quanto a ti, irmo professo, no  claro
que tanto podes curar por um sistema como por outro? Quem te impede de
comerciar, ensinar piano, legislar, consertar pratos, defender ou acusar em
juzo? Se a polcia examina os casos recentes de loucura mais ou menos varrida,
produzidos pelas prticas do Sr. Abalo, no ataca s ao Sr. Abalo, mas ao meu
cozinheiro tambm. Acaso  este responsvel pelas indigestes que saem dos seus
jantares? Que  a demncia seno uma indigesto do crebro?

E acabo A Semana sem dizer nada
daquele co que salvou o Sr. Estruc, na Praia do Flamengo, s cinco horas da
manh. A rigor, tudo est dito, uma vez que se sabe que os ces amam os donos, e
o Sr. Estruc era dono deste. Nadava o dono longe da praia, sentiu perder as
foras e gritou por socorro. O co, que estava em terra e no tirava os olhos
dele, percebeu a voz e o perigo, meteu-se no mar, chegou ao dono, segurou-o com
os dentes e restitui-o  terra e  vida. Toda a gente ficou abalada com o ato do
co, que uma folha disse ser exemplo de nobreza, mas que eu atribuo ao puro
sentimento de gratido e de humanidade. Ao ler a notcia lembrei-me as muitas
vezes que tenho visto donos de ces, metidos em bonds, serem seguidos por
eles na rua, desde o Largo da Carioca at o fim de Botafogo ou das Laranjeiras,
e disse comigo: No haver homem, que, sabendo andar, acuda aos pobres-diabos
que vo botando a alma pela boca fora? Mas ocorreu-me que eles so to amigos
dos senhores, que morderiam a mo dos que quisessem suspender-lhes a carreira,
acrescendo que os donos dos ces poderiam ver com maus olhos esse ato de
generosidade.

1896

5
de janeiro

Quisera dizer alguma coisa a este
ano de 1896, mas no acho nada to novo como ele. Pode responder-nos a todos que
no faremos mais que repetir os amores contados aos que passaram, iguais
esperanas e as mesmas cortesias. No me iludis,  dir 1896,  sei que me no
amais desinteressadamente; egostas eternos, quereis que eu vos d sade e
dinheiro, festas, amores, votos e o mais que no cabe neste pequeno discurso.
Direis mal de 1895, vs que o adulastes do mesmo modo quando ele apareceu;
direis o mesmo mal de mim, quando vier o meu sucessor.

Para no ouvir tais injrias,
limito-me a dizer deste ano que ningum sabe como ele acabar, no porque traga
em si algum sinal meigo ou terrvel, mas porque  assim com todos eles. Da a
inveja que tenho s palavras dos homens pblicos. Agora mesmo o presidente da
Repblica Francesa declarou, na recepo do Ano-Bom, que a poltica da Frana 
pacfica; declarao que, segundo a Agncia Havas, causou a mais agradvel
impresso e segurana a toda a Europa. Oh! por que no nasci eu assaz poltico
para entender que palavras dessas podem suster os acontecimentos, ou que um
pas, ainda que premedite uma guerra, venha denunci-la no primeiro dia do ano,
avisando os adversrios e assustando o comrcio e os neutros! Pela minha falta
de entendimento, neste particular, declaraes tais no me comovem, menos ainda
se saem da boca de um presidente como o da Repblica Francesa, que  um simples
rei constitucional, sem direito de opinio.

Napoleo III tinha efetivamente a
Europa pendente dos lbios no dia 1 de janeiro; mas esse, pela Constituio
imperial, era o nico responsvel do governo, e, se prometia paz, todos cantavam
a paz, sem deixar de espiar para os lados da Frana, creio eu. Um dia, declarou
ele que os tratados de 1815 tinham deixado de existir, e tal foi o tumulto por
aquele mundo todo, que ainda c nos chegou o eco. Um socialista, Proudhon,
respondeu-lhe perguntando, em folheto, se os tratados de 1815 podiam deixar de
existir, sem tirar  Europa o direito pblico. Nesse dia, tive um vislumbre de
poltica, porque entendi o rumor e as suas causas, sem negar, entretanto, que os
anos trazem, com o seu horrio, o seu roteiro.

No sabemos dos acontecimentos que
este nos trar, mas j sabemos que nos trouxe a lembrana de um,  o centenrio
do sino grande de So Francisco de Paula. Na vspera do dia 1 deste ms, ao
passar pelo largo, dei com algumas pessoas olhando para a torre da igreja. No
entendendo o que era, fui adiante; no dia seguinte, li que se ia festejar o
centenrio do sino grande. No me disseram o sentido da celebrao, se era
arqueolgico, se metalrgico, se religioso, se simplesmente atrativo da gente
amiga de festejar alguma coisa. Cheguei a supor que era uma loteria nova, tantas
so as que surgem, todos os dias. Loterias h impossveis de entender pelo
ttulo, e nem por isso so menos afreguesadas, pois nunca faltam Champollions
aos hierglifos da velha Fortuna.

Isto ou aquilo, o velho sino
merece as simpatias pblicas. Em primeiro lugar,  sino,  no devemos esquecer
o delicioso captulo que sobre este instrumento da igreja escreveu
Chateaubriand. Em segundo lugar, deu bons espetculos  gente que ia ver c de
baixo o sineiro agarrado a ele. Um dia,  certo, o sineiro voou da torre e veio
morrer em pedaos nas pedras do largo; morreu no seu posto.

Aquela igreja tem uma histria
interessante. Vs ali na sacristia, entre os retratos de corretores, um velho
Siqueira, calo e meia, sapatos de fivela, cabeleira postia, e chapu de trs
bicos na mo? Foi um dos maiores serviais daquela casa. Sndico durante trinta
e um anos, morreu em 1811, merecendo que v ao fim do primeiro sculo e entre
pelo segundo. O que mais me interessa nele,  a pia fraude que empregava para
recolher dinheiro e continuar as obras da igreja. Aos que desanimavam, respondia
que contassem com algum milagre do patriarca. De noite, ia ele prprio ao adro
da igreja, chegava-se  caixa das esmolas e metia-lhe todo o dinheiro que
levava, de maneira que, aos sbados, aberta a caixa, davam com ela pejada do
necessrio para saldar as dvidas. As rondas seriam poucas, a iluminao
escassa, fazia-se o milagre e com ele a igreja. No digo que os Siqueiras
morressem; mas, tendo crescido a polcia e paralelamente a virtude, o dinheiro 
dado diretamente s corporaes, e dali a notcia s folhas pblicas.

No faltar quem pergunte como 
que tal milagre, feito s escondidas, veio a saber-se to miudamente que anda em
livros. No sei responder; provavelmente houve espies, se  que o amor da
contabilidade exata no levou o velho Siqueira a inscrever em cadernos os
donativos que fazia. H outro costume dele que justifica esta minha suposio.
Siqueira possua navios; simulava (sempre a simulao!) ter neles um marinheiro
chamado Francisco de Paula, e pagava  igreja o ordenado correspondente. O
donativo era assim ostensivo por amor da contabilidade.

A contabilidade podia trazer-me a
coisas mais modernas, se me sobrasse tempo; mas o tempo  quase nenhum. Resta-me
o preciso para dizer que tambm fez o seu aniversrio, esta semana, a
inaugurao do Panorama do Rio de Janeiro, na Praa Quinze de novembro. Foi em
1891; h apenas cinco anos, mas os centenrios no so blocos inteiros, fazem-se
de pedaos. As pirmides tiveram o mesmo processo. A arte no nasceu toda nem
junta. O Panorama resistiu, notai bem, s balas da revolta. Certa casa prxima,
onde eu ia por obrigao, foi mais uma vez marcada por elas; na prpria sala em
que me achei, caram duas. Conservo ainda, ao p de algumas relquias romanas,
uma que l caiu na segunda-feira 2 de outubro de 1893. O Panorama do Rio de
Janeiro no recebeu nenhuma, ou resistiu-lhes por um prodgio s explicvel 
vista dos fins artsticos da construo. Que as paixes polticas lutem entre
si, mas respeitem as artes, ainda nas suas aparncias.

Adeus. O sol arde, as cigarras
cantam, um co late, passam um bond. Consolemo-nos com a idia de que um
dia, de todos estes fenmenos,  nem o sol existir.  banal, mas o calor no d
idias novas. Adeus.

12 de janeiro

Quando li o relatrio da polcia
acerca do Jardim Zoolgico, tive uma comoo to grande, que ainda agora mal
posso pegar na pena. Vou dizer por qu. Sabeis que o jogo dos bichos acabou ali
h muito tempo. Carneiro, macaco, elefante, porco, tudo fugiu do Jardim
Zoolgico e espalhou-se pelas ruas. Este fenmeno  igual a atos que se do na
organizao das cidades. A principio, os moradores  que vo buscar a gua s
fontes; mais tarde, o encanamento  que a leva aos moradores. D-se com os
bichos a mesma coisa. No h casa, no h cozinha, e raro haver sala que no
possua uma pia, onde v ter a gua de Vila Isabel. H tal armarinho, onde entre
o aperto de mo e a compra das agulhas a conversao no tem outro
assunto.

 Eu, Sr. Maciel, diz a moa
examinando as agulhas, sempre tive confiana no cavalo.

Ele, debruando-se:

 Creia, D. Mariquinhas, que 
animal seguro. O burro no  menos; mas o cavalo  muito mais. As agulhas
servem?

Talvez o leitor no entenda bem
esse esclarecimento. D. Mariquinhas entende; d dois dedos de palestra, cinco em
despedida, e vai direita mandar comprar no cavalo.

Uma empresa lembrou-se de
substituir no Jardim Zoolgico o jogo dos animais pelo dos divertimentos. No
foi mal imaginado; cada bilhete de entrada leva a indicao de um jogo lcito,
desde o bilhar, que  o primeiro da lista, at o... Aqui vem a causa da minha
comoo. Que pensais, vs que no lestes o relatrio da polcia, que jogo
pensais que  o ltimo, o 25 da lista?  o xadrez. Que vai fazer nessa galera o
grave xadrez?  licito, no h dvida, nem h coisa mais lcita que ele; mas o
gamo tambm o , e no vejo l o gamo.

Quis enganar-me. Quis supor que
era um aviso aquela palavra posta no fim da lista, como se dissesse: apos tantos
divertimentos, tudo acaba no xadrez da polcia. Mas certamente a empresa no
levaria a paixo do trocadilho at o ponto de espantar os fregueses, conquanto
esta paixo seja das mais violentas que podem afligir um homem. Tambm no creio
que fosse ironia pura, um modo de dizer que no h perigo; seria descrer de uma
coisa certa. Podem escapar alguns criminosos, como em toda a parte do mundo, mas
alguns no so todos. A esta, para no ir mais longe, o caso do desfalque
municipal;  possvel que e no ache o dinheiro, por esta velha regra que o
desfalque, uma vez descoberto, pe logo umas barbas, e embarca ou finge que
embarca; mas o culpado recebera o castigo,  o principal para a moral
publica.

Meu bom xadrez, meu querido
xadrez, que s o jogo dos silenciosos, como podes tu dar naquele tumulto de
freqentadores? Quero crer que ningum te joga, nem ser possvel faz-lo. Basta
saber que h uma hora certa, s seis da tarde, em que sai de dentro de um tubo
de ferro uma bandeira com o nome de um jogo. Como podes tu correr a ver o nome
da bandeira, se tens de defender o teu rei,  branco ou preto,  ou atacar o
contrrio, preto ou branco? Outra coisa que deve impedir que te joguem,  a
vozeria que, segundo o relatrio da polcia, se levanta logo que a bandeira 
hasteada. A autoridade explica a vozeria pelo fato de uns perderem e outros
ganharem; mas a explicao da empresa  mais lgica. Diz ela que o nome do jogo
hasteado no quer dizer seno que tal jogo ser gratuito dessa hora em diante
para todos os freqentadores do jardim; para os outros ser preciso comprar
bilhete. Creio; mas o que no creio,  que dois verdadeiros jogadores do xadrez,
aplicados ao ataque e a defesa, possam consentir em deixar to nobre ao para
ir ao pau de sebo ou qualquer outra recreao gratuita.

Li tudo, li os autos de perguntas
feitas a vrios cidados. Um destes, por nome Maia, carpinteiro de ofcio,
declarou que, com os tristes dez tostes de cada bilhete que paga  porta do
Jardim Zoolgico, tem j ganho um conto e quatrocentos mil ris. No disse em
que prazo, mas podendo comprar cinco ou mais bilhetes por dia, e sendo a empresa
nova,  provvel que tenha ajuntado aquele peclio em poucas semanas. Em
verdade, se um homem pode ganhar tanto dinheiro passeando s tardes, entre
plantas,  espera que a bandeira seja hasteada,  caso para seduzir outras
pessoas que no sobem dos quatro ou cinco mil ris por dia com a simples enx; e
os que no tm enx nem nada?

Tudo pode ser, contanto que me
salvem o xadrez. A polcia,  ou para no confundir este jogo com o nome vulgar
da sua priso, ou porque efetivamente queira restituir cada um ao seu ofcio,
mandou que os bilhetes no tragam nenhum nome de divertimento. A opinio dos
interrogados  que, sem isto, todo o fervor buclico se perde. No conhecendo a
fora inventiva da empresa, no sei o que ela far. Suponhamos que manda
imprimir os bilhetes sem nenhum dizer delituoso, mas os faz de cores diferentes.
s mesmas seis horas da tarde, sobe uma bandeira da cor que deve ganhar; a est
o mesmo processo sem palavras.  difcil impedir que os bilhetes sejam de todas
as cores nem que as bandeiras subam ao ar na ponta de um pau. A polcia s tem
um recurso,  a publicao que fao aqui, antecipadamente, de maneira que a
empresa pode j empregar este sistema sem se desmascarar.

Nem sempre os jardins escondem
jogos ilcitos. Vede o Jardim Botnico; est publicada a estatstica das pessoas
que l foram no ano passado: 45.086, isto , mais 10.427 que o ano de 1894.
Notai que dos estrangeiros em trnsito o nmero, que em 1894 foi de 929, subiu
no ano passado a 3.622. No total do mesmo ano esto inclusas 8.188 crianas. No
abuso dos algarismos; eu prprio no me dou muito com eles, mas os que a vo,
sempre consolam alguma coisa, no tocante  nossa vocao buclica.

Outro jardim   o ultimo  abriu
domingo passado as portas. Entrava-se com bilhete e havia bandeiras hasteadas. A
presena do Sr. chefe de polcia podia fazer desconfiar; mas a circunstncia de
serem os bilhetes distribudos pelo prprio Sr. presidente da Repblica
tranqilizou a todos, e, com pouco, reconhecemos que o Ginsio Nacional no
encobre nenhuma loteria. Os premiados houveram-se sem jactncia nem acanhamento
e os bacharelandos prestaram o compromisso regulamentar, modestos e direitos. Um
deles fez o discurso do estilo; o Sr. Dr. Paula Lopes falou gravemente em nome
da corporao docente, at que o diretor do externato, o Sr. Dr. Jos Verssimo,
encerrou a cerimnia com um discurso que acabou convidando os jovens bacharis a
serem homens.

Eu no quero acrescentar aqui tudo
o que penso do Sr. Dr. Jos Verssimo. Seria levado naturalmente a elogiar a
Revista Brasileira, que ele dirige, e a parecer que fao um reclamo,
quando no fao mais que publicar a minha opinio, a saber, que a revista 
tima.

19 de janeiro

Se no fosse o receio de cair no
desagrado das senhoras, dava-lhes um conselho. O conselho no  casto, no 
sequer respeitoso, mas  econmico, e por estes tempos de mais necessidade que
dinheiro, a economia  a primeira das virtudes.

V l o conselho. Sempre haver
algumas que me perdoem. A poesia brasileira, que os poetas andaram buscando na
vida cabocla, no deixando mais que os versos bons e maus, isto nos dai agora,
senhoras minhas. Fora com obras de modistas; mandai tecer a simples arazia,
feita de finas plumas, atai-a  cintura e vinde passear c fora. Podeis trazer
um colar de cocos, um cocar de penas e mais nada. Escusai leques, luvas, rendas,
brincos, chapus, tafularia intil e custosssima. A dvida nica  o calado.
No podeis ferir nem macular os ps acostumados  meia e  botina, nem ns
podemos calar-vos, como Joo de Deus queria fazer  descala dos seus
versos:

Ah! no ser eu o mrmore em que
pisas... Calava-te de
beijos.

No seria decente nem til; para
essa dificuldade creio que o remdio seria inventar uma alpercata nacional,
feita de alguma casca brasileira, flexvel e slida. E estveis prontas. Nos
primeiros dias, o espanto seria grande, a vadiao maior e a circulao
impossvel; mas, a tudo se acostuma o homem. Demais, o prprio homem teria de
mudar o vesturio. Um pedao de couro de boi, em forma de tanga, sapatos
atamancados para durarem muito, um chapu de pele eterna, sem bengala nem
guarda-chuva. O guarda-chuva no era s desnecessrio, mas at pernicioso, visto
que a nica medicina e a nica farmcia baratas passam a ser (como eu dizia a
uma amiga minha) o Padre Kneipp e a gua pura.

Em verdade, esse padre alemo,
nascido para mdico, descobriu a melhor das medicaes para um povo duramente
tanado na sade. Quem mais tomar as plulas de Vichy comprimidas, o vinho de
Labarraque ou a simples magnsia de Murray (estrangeiras ou nacionais, pois que
o preo  o mesmo), quem mais as tomar, digo, se basta passear na relva
molhada, ps descalos, com dois minutos de gua fria no lombo, para no
adoecer? Conheo alguns que vo trocar a alopatia pela homeopatia, a ver se
acham simultaneamente alvio  dor e s algibeiras. A homeopatia  o
protestantismo da medicina; o kneippismo  uma nova seita, que ainda no tem
comparao na histria das religies, mas que pode vir a triunfar pela
simplicidade. O homem nasceu simples, diz a Escritura; mas ele mesmo  que se
meteu em infinitas questes. Para que nos meteremos em infinitas beberagens,
patrcios da minha alma?

Dizem que a vida em So Paulo 
muito cara. Mas So Paulo, se quiser, ter a sade barata; basta meter-se-lhe na
cabea ir adiante de todos como tem ido. Inventar novos medicamentos e
vend-los- por preo cmodo. Leste a circular do presidente convidando os
demais Estados produtores de caf para uma conferncia e um acordo?  documento
de iniciativa, ponderado e grave. Aproximando-se a crise da produo excessiva,
cuida de aparar-lhe os golpes antecipadamente. Mas nem s de caf vive o homem,
caso em que se acha tambm a mulher. Assim que duas paulistas ilustres tratam de
abrir carreira s moas pobres para que disputem aos homens alguns misteres, at
agora exclusivos deles. Eis a outro cuidado prtico. Estou que vero a flor e o
fruto da arvora que plantarem. Quando  vida espiritual das mulheres, basta
citar as duas moas poetisas que ultimamente se revelaram, uma das quais, D.
Zalina Rolim, acaba de perder o pai. A outra, D. Jlia Francisca da Silva, tem a
poesia doce e por vezes triste como a desta rival que c temos e se chama Jlia
Cortines; todas trs publicaram h um ano os seus livros.

Falo em poetisas e em mulheres; 
o mesmo que falar em Joo de Deus, que deve estar a esta hora depositado no
panthon dos Jernimos, segundo nos anunciou o telgrafo. No sei se ele
adorou poetisas; mas que adorou mulheres,  verdade, e no das que pisavam
tapetes, mas pedras, ou faziam meia  porta da casa, como aquela Maria, da
Carta, que  a mais deliciosa de suas composies. Se essa Maria foi a
mais amada de todas, no podemos sab-lo, nem ele prprio o saberia talvez. H
uma longa composio sem ttulo, de vrio metro, em que h lgrimas de tristeza;
mas as tristezas podem ser grandes e as lgrimas passageiras ou no, sem que da
se tire concluso certa. A verdade  que todo ele e o livro so mulheres, e
todas as mulheres rosas e flores. A simpleza, a facilidade, a
espontaneidade de Joo de Deus so raras, a emoo verdadeira, o verso cheio de
harmonia quase sem arte, ou de arte natural que no d tempo a
recomp-la.

Um dos que vero passar o prstito
de Joo de Deus ser esse outro esquecido,  como esquecido estava o autor das
Flores do Campo, patrcio nosso e poeta inspirado, Luis Guimares. No
digo esquecido no passado, porque os seus versos no esquecem aos companheiros
nem aos admiradores, mas no presente. Um de seus dignos rivais, Olavo Bilac,
deu-nos h dias dois lindos sonetos do poeta, que ainda nos promete um livro. A
doena no o matou, a solido no lhe expeliu a musa, antes a conservou to
maviosa como antes. O que a outros bastaria para descrer da vida e da arte, a
este da fora para empregar na arte os pedaos de vida que lhe deixaram e que
valero por toda ela. O poeta ainda canta. Cr no que sempre creu.

H fenmenos contrrios. Vede
Zola. A Notcia de sexta-feira traz um telegrama contando o resumo da
entrevista de um reprter com o clebre romancista, acerca da chantagem que
apareceu nos jornais franceses. Zola deu as razes do mal e conclui que h
excesso de liberdade e falta de ideais cristos. Deus meu! e por
que no uma cadeira na Academia francesa?

26 de janeiro

Trs vezes escrevi o nome do Dr.
Abel Parente, trs vezes o risquei, tal  a minha averso as questes pessoais;
mas, refletindo que no podia contar a minha grande desiluso sem nomear o autor
dela, acabo escrevendo o nome deste distinto; ginecologista.

Ningum esqueceu ainda a famosa
discusso que aqui h anos se travou, relativamente  esterilizao da mulher
pelo sistema do Dr. Abel Parente. Ilustres profissionais atacaram e defenderam o
nosso hspede, com tal brilho, calor e evidncia que era difcil adotar uma
opinio, se ficar olhando para a outra com saudade, como aquele irresoluto da
comdia, que acaba escolhendo uma das duas moas a quem namora, mas suspira
consigo: Creio que teria feito melhor escolhendo a outra.

No se falou mais nisso. Italiano,
patrcio de Dante,  provvel que o Dr. Abel Parente haja dividido a clnica de
parteiro esterilizador entre dois versos do poeta, dizendo a uns embries:
Lasciate ogni speranza, voi ch'entrate;  e a outros embries: Venite
a noi parlar, s'altri nol niega. Assim venceu um princpio, e ns fomos
cuidar de questes novas, civis ou militares, polticas ou
judicirias.

Ultimamente (quinta-feira)
escreveu aquele distinto prtico uma carta ao Jornal do Comrcio, contestando
que o eucaliptos pudesse curar a febre amarela. No que a febre amarela,  ou,
cientificamente falando, o tifo icteride,  possa ser combatido com tal remdio
ou com outro. Cr na serumpatia, e desde logo responde aos que puderem
estranhar que ele, ginecologista, se ocupe de serumpatia, dizendo que a
serumpatia  a preocupao dos sbios de todos os pases, que o futuro da
medicina esta em seu der.

At aqui nenhuma iluso me tirou:
mas onde a mo do rude clnico rasgou violentamente o vu que me cobria os
olhos, foi naquele ponto em que escreveu isto: Desde os tempos de Hipcrates
at os nossos dias, a medicina s se ufana de trs remdios verdadeiramente
eficazes e especficos: o mercrio contra a sfilis, o quinino contra a malaria,
o salicilato de sdio contra o reumatismo articular.

No acho, no conheo, no posso
inventar palavras que digam a prostrao da minha alma depois de ler o que
acabais de ler. Vs, filhos de um sculo sem f, podeis ler isso sem abalo; sois
felizes. Ainda assim, como simples efeito intelectual,  impossvel que aquele
trecho da carta vos no haja trazido alguma turvao s idias. Imaginai que
ter sido com este pobre de mim que, mental e moralmente, vivia do contrario,
no achava limites aos especficos. Li muito Molire, muito Bocage, mas eram
pessoas de engenho, sem autoridade cientfica; queriam rir. A pessoa que nos
fala agora, tem um poder incontestvel,  ungido pela cincia.

Criei-me na venerao da farmcia.
Entre parntese, e para responder a um dos meus leitores de Ouro-Preto, se
escrevo botica, s vezes,  por um costume de infncia; ningum falava ento de
outra maneira; os prprios farmacuticos anunciavam-se assim, e a legislao
chamava-os boticrios, se me no engano. Botica vinha de longe, e
propriamente no ofendia a ningum. Anos depois, entrou a aparecer
farmcia, e pouco a pouco foi tomando conta do terreno, at que de todo
substituiu o primeiro nome. Eu assisti  queda de um e a ascenso do outro. Os
que nasceram posteriormente, acostumados a ouvir farmcia, chegam a no entender
o soneto de Tolentino: Numa escura botica encantoados, etc., mas  assim
com o resto; palavras aposentam-se. Algumas ainda tm o magro ordenado sem
gratificao, que lhes possam dar eruditos; outras caem na misria e morrem de
fome.

Mas, como ia dizendo, criei-me e
vivi na venerao da farmcia. Perdi muita crena, o vento levou-me as iluses
mais verdes do jardim da minha alma; no me levou os especficos. Vem agora, no
um homem qualquer, mas um competente, um augur, e declara pblico e raso que, no
captulo dos especficos, h s trs; tudo o mais iluso. Criatura perversa,
inimiga dos coraes humanos, que direito tens tu de amargurar os meus ltimos
dias, e os alguns desgraados, como eu? Que me ds em troca deste imenso
desastre? A simpatia, dizes tu; ah! mas no era  melhor decretar a
serumpatia como um novo especifico, um canonizado recente, encomend-la 
venerao dos leigos, por suas virtudes excelsas e sublimes? A cincia saberia o
contrario; mas eu morreria com a boca doce dos meus primeiros anos,

Outros se ocupam tambm com a
serumpatia, e buscam achar a a morte da febre amarela; mas nenhum deles
veio negar os especficos anteriores, no j daquela, mas de todas as doenas.
Um deles, o Dr. Miguel Couto, h quatro anos trabalha em descobrir por
semelhante via o meio de acabar com o nosso flagelo nacional. No o achou, mas
outros colegas que ainda agora comeam igual trabalho reconhecem que a
prioridade pertence ao Dr. Couto;  o que lhe nega o Dr. Abel Parente, cujo
argumento  que ele no levou a idia a efeito, nem escreveu nada. A diferena
entre um e outro  que, no entender do primeiro, o serum deve ser mais
ativo e eficaz, quanto mais prximo o convalescente estiver da terminao da
molstia; no do segundo,  que o serum deve ser extrado trs ou quatro
semanas depois de iniciada a convalescena.

Sobre a prioridade, direi apenas
que no h Colombo sem Amrico Vespcio, e por conseguinte pode muito bem vir a
ter razo o segundo dos facultativos. Este ainda ontem, respondendo ao primeiro,
que parece no crer que os convalescentes se submetam  sangria, para salvar
outros doentes, responde-lhe: Creio que, salvo as excees, todos oferecero
generosamente o prprio sangue para salvar a vida alheia ameaada; creio que
este ato generoso o homem praticaria tambm, se soubesse de antemo que o seu
sangue deve servir para salvar a vida de um figadal inimigo, ainda se depois
preciso for cravar-lhe um punhal no corao e ter o prazer infernal de beber o
prprio sangue no sangue do inimigo.

De pleno acordo. A minha nica
dvida  se, antes de combinado o prazo, o doente receber facilmente o sangue
de um dia ou de quatro semanas. Eu hesitaria. Em suma, o que  preciso,  que a
morte no continue a dizer aos enfermos que vo com ter ela:

 Meus filhos, vireis para c
enquanto por l no acertarem com o especfico da febre amarela. Eu s conheo
trs especficos, desde Hipcrates, o mercrio contra a sfilis, o quinino
contra a malria e o silicato de sdio contra o reumatismo articular, e ainda
assim no chegaram as encomendas; da vem que muitos morrem, apesar de muito bem
especificados.

2 de
fevereiro

Avocat, oh! passons au
dluge!
Antes que
me digas isso, comeo por ele. No esperes ouvir de mim seno que foi e vai
querendo ser o maior de todos os dilvios. Sei que o espetculo do presente tira
a memria do passado, e mais di uma alfinetada agora que um calo h um ano.
Mas, em verdade, a gua, depois de ter sido enorme, tornou-se constante, geral e
aborrecida.

Mais depressa que as demandas, a
chuva deitou abaixo muitas casas que estavam condenadas a isso pela engenharia;
mas as demandas tinham por fim justamente demonstrar que as casas no podiam
cair sem dilvio, e a prova  que este as derruiu. Se deixou em p as que no
estavam condenadas (nem todas), no foi culpa minha nem tua, nem talvez dele,
mas da construo. Ruas fizeram-se lagoas, como sabes, e o trnsito ficou
interrompido em muitas delas; mas isto no  propriamente noticirio que haja de
dizer e repetir o que leste nas folhas da semana,  no somente daqui, mas de
outras cidades e vilas interiores. Tratando da nossa boa capital, acho que
devemos atribuir o dilvio, esta vez, antes ao amor que a clera do cu. O cu
tambm  sanitrio. Uma grande lavagem pode mais que muitas discusses
teraputicas. Com a chuva que se seguiu ao dilvio, vimos diminuir os casos da
epidemia, enquanto que os simples debates nos jornais no salvaram ningum da
morte.

Podia citar dilvios anteriores, 
os dois, pelo menos, que tivemos nos ltimos quinze anos, ambos os quais (se me
no engano) mataram gente com as suas simples guas.  guas passadas. O
primeiro desses durou uma noite quase inteira; o segundo comeou a uma ou duas
horas da tarde e acabou s sete. Era domingo, e creio que de Pscoa. Mas um e
outro tiveram um predecessor medonho o de 1864, que antecedeu ou sucedeu, um ms
certo, ao dilvio da praa. O da praa arrastou consigo todas as casas
bancrias, ficando s os prdios e os credores. No perdi nada com um nem outro.
Pude, sim, verificar como os poetas acertam quando comparam a multido s guas.
Vi muitas vezes as ruas perpendiculares ao mar cheias de gua que desciam
correndo. Uma dessas vezes foi justamente a do dilvio de 1864; a sala da
redao de um jornal, ora morto, estava alagada; desci pela escada, que era uma
cachoeira, cheguei as portas de sada, todas fechadas, exceto a metade de uma,
onde o guarda-livros, com o olho na rua, espreitava a ocasio de sair logo que
as paredes da casa arreassem. Pois as guas que desciam por essas e outras ruas
no eram mais nem menos que as multides de gente que desceram por elas no dia
do dilvio bancrio.

Pior que tudo, porm, se a
tradio no mente, foram as guas do monte, assim chamadas por terem
feito desabar parte do morro do Castelo. Sabes que essas guas caram em 1811 e
duraram sete dias deste ms de fevereiro. Parece que o nosso sculo, nascido com
gua, no quer morrer sem ela. No menos parece que o morro do Castelo, cansado
de esperar que o arrasem, segundo velhos planos, est resoluto a prosseguir e
acabar a obra de 1811. Naquele ano chegaram a andar canoas pelas ruas; assim se
comprou e vendeu, assim se fizeram visitas e salvamentos. Tambm  possvel,
como ainda viviam niades, que assim as fossem buscar as fontes. Talvez at se
pescassem amores.

Se remontares ainda uns sessenta
anos, ters o dilvio de 1756, que uniu a cidade ao mar e durou trs longos dias
de vinte e quatro horas. Mais que em 1811, as canoas serviram aos habitantes, e
o perigo ensinou a estes a navegao. Uma das canoas trouxe da rua da Sade
(antiga Valongo) at a igreja do Rosrio no menos de sete pessoas. Naturalmente
no vieram a passeio, mas  reza, como toda a gente, que era ento pouca e
devota. Caram casas dessa vez; a populao refugiou-se ao p dos altares.
Afinal, como a cidade no tinha ainda contados os seus dias, fecharam-se as
cataratas do cu; as guas baixaram e os ps voltaram a pisar este nosso cho
amado.

Remontando ainda, poderamos achar
outros dilvios pela aurora colonial e pela noite dos tamoios; mas, isto de
chuva continuada no sei se  mais aborrecido v-la cair que ouvi-la contar.
Shakespeare pe este trocadilho na boca de Laertes, quando sabe que a irm
morreu afogada no rio: J tens gua de mais, pobre Oflia; saberei reter as
minhas lgrimas. Retenhamos a tinta. A tinta de escrever faz as tristes chuvas
do esprito, e em tais casos no h canoas que naveguem:  apanhar ou fugir. Por
isso no falo do dilvio universal, como era meu propsito. Queria lembrar que,
por essa ocasio, uma famlia justa foi achada e poupada ao mal de todos.
Verdade  que os seus descendentes saram to ruins, em grande parte, como os
que morreram, e melhor seria que os prprios justos acabassem; mas, enfim, l
vai. Dar-se-, porm, se estamos no comeo de outro dilvio universal, que no
haja agora exceo de famlia nem se salve a memria dos nossos
pecados?

Uma senhora, a quem propus esta
questo por meias palavras, acudiu que no pode ser, que no tem medo e citou a
folhinha de Ayer. Leu-me que teremos bom tempo e calor grande daqui a dias, e
pouco depois novo transbordamento de rios, como agora est sucedendo, desde o
das Caboclas at o Paraba do Sul. O primeiro ainda no transborda, mas no
tarda. Confessou-me que no cr nos remdios de Ayer, mas nos almanaques. Os
almanaques so certos. Se eles dessem os nmeros das sortes grandes e os nomes
dos bichos vencedores seriam os primeiros almanaques do mundo. Entretanto, no
duvida que um dia cheguem a tal perfeio. O mundo caminha para a sade e para a
riqueza universais, concluiu ela; assim se explicam os debates sobre medicina e
economia e a f crescente nos xaropes e seus derivados.

9
de fevereiro

Pessoa que j serviu na polcia
secreta de Londres e de New York tem anunciado nos nossos dirios que
oferece os seus prstimos para descobrir coisas furtadas ou perdidas. No
publica o nome; prova de que  realmente um ex-secreta ingls ou americano. A
primeira idia do ex-secreta local seria imprimir o nome, com indicao da
residncia. No h ofcio que no traga louros, e os louros fizeram-se para os
olhos dos homens. No tenho perdido nada, nem por furto, nem por outra via;
deixo de recorrer aos prstimos do anunciante, mas aproveito esta coluna para
recomend-los aos meus amigos e leitores.

No  oferecer pouco. Toda a gente
tem visto a dificuldade em que se anda para descobrir uns autos que
desapareceram, no se sabe se por ao de Pedro, se por descuido de Paulo. Para
tais casos  que o ex-funcionrio de New York e de Londres servia
perfeitamente. A prtica dos homens, o conhecimento direto dos rus, o estudo
detido dos espritos, quando so deveras culpados, e torcem-se, e fogem, e
mergulham para surdir alm, supondo que o secreta est longe, e do com ele ao
p de si, so elementos seguros e necessrios para descobrir as coisas furtadas
ou perdidas, e, na primeira hiptese, para fazer o autor da subtrao  luz
pblica. Os coraes pios no quereriam tanto; amando a coisa furtada,
contentar-se-iam em reav-la, no indo ao ponto de exigir que prendessem e
castigassem o triste do pecador.

H trs figuras impalpveis na
histria, sem contar o Mscara de Ferro: so o homem dos autos, o homem do
chapu de Chile e o homem da capa preta. O do chapu de Chile, que ainda ningum
atinou quem fosse, bem podia ser que j estivesse fotografado e exposto a venda
na casa Nat, se o negcio fosse incumbido ao anunciante. No juro, mas podia
ser. O mesmo digo acerca do homem dos autos, menos o retrato e a Nat, que s
aceita pessoas polticas. Quanto ao homem da capa preta, perde-se na noite dos
tempos, e no sei se o ex-secreta chegaria a ponto de descobri-lo. Desde
criana, ouo este final de toda narrao obscura ou desesperada: e vo agora
pegar no homem da capa preta. A princpio, ficava com medo. Um dia, pedi a
explicao a algum, que acabava justamente de concluir uma histria com tal
desfecho. A pessoa interrogada (com verdade ou sem ela) disse-me que era um
homem que furtara uma capa escura e andava depressa.

Se assim ,  e supondo que esteja
vivo,   natural que apenas deixe a capa nas mos do ex-agente de Londres e de
New York; o corpo continuar a fugir, e com ele o problema histrico. A
polcia, se quiser o retrato do homem, ter de se contentar com a simples
reproduo astral ou como quer que se chame aquela parte da gente que no
 corpo nem esprito. Um oculista do meu conhecimento disse-me o nome da coisa,
que s pode ser fotografada s escuras. Eu  que perco os nomes com grande
facilidade; mas  astral ou acaba por a. Ser o nico modo de possuir
trecho do homem da capa preta; ainda assim,  duvidoso que o alcance, porque ele
corre tanto que seguramente corre mais que a cincia.

Pois que a fortuna trouxe s
nossas dagas um perfeito conhecedor do ofcio, erro  no aproveit-lo. No se
perdem somente objetos; perdem-se tambm vidas, nem sempre se sabe quem  que as
leva. Ora, conquanto no se achem as vidas perdidas, importa conhecer as causas
da perda, quando escapam  ao da lei ou da autoridade. No foi assassnio, mas
suicdio dessa Ambrozina Canana, que deixou a vida esta semana. Era uma pobre
mulher trabalhadeira, com dois filhos adolescentes e me valetudinria; morava
nos fundos de uma estalagem da rua da Providncia. O filho era empregado, a
filha aprendia a fazer flores... No sei se te lembras do acontecimento: tais
so os casos de sangue destes dias que  natural vir o fastio e ir-se a memria.
Pois fica lembrado.

A causa do suicdio no foi a
pobreza, ainda que a pessoa era pobre. Nem desprezo de homem, nem cimes. A
carta deixada dizia em comeo: Vou dar-te a ltima prova de amizade... 
impossvel mais tolerar a vida por tua causa; deixando eu de existir, voc deixa
de sofrer. Voc  uma mocinha de dezesseis anos, vizinha, dizem que bonita,
amiga da morta. Segundo a carta, a mocinha era castigada por motivo daquela
afeio, tudo de mistura com um casamento que lhe queriam impor; mas o casamento
no vem ao caso, nem quero saber dele. Pode ser at que nem exista; mas se
existe, fique onde est. No faltam casamentos neste mundo, bons nem maus, e at
execrveis, e at excelentes.

O que  nico,  esta amiga que se
mata para que a outra no padea. A outra era diariamente espancada, quase todos
o vizinhos o sabiam pelos gritos e pelo pranto da vtima,  tudo por causa da
nova amizade. No podendo atalhar o mal da amiga, Ambrozina buscou um veneno,
meteu no seio as cartas da amiga e acabou com a vida em cinco minutos: Adeus,
Matilde; recebe o meu ltimo suspiro.

Os tempos, desde a antiguidade,
tm ouvido suspiros desses, mas no so ltimos. Que a morte de uma trouxesse a
da outra, voluntria e terrvel, no seria comum, mas confirmaria a amizade. As
afeies grandes podem no suportar a viuvez. O que  nico  este caso da rua
da Providncia,  com a agravante de que a lembrana da me e dos filhos formam
o post-scriptum da carta. Acaso seriam o post-scriptum na vida? Ao
mdico no custar dizer que  um caso patolgico, ao romancista que  um
problema psicolgico. Quem eu quisera ouvir sobre isto era o ex-secreta de
Londres e de New York, onde a polcia pode ser que penetre alm do delito
e suas provas, e passeie na alma da gente, como tu por tua casa.

16 de fevereiro

Que excelente dia para deixar aqui
na coluna em branco! Ningum hoje quer ler crnicas. Os antigos polticos
esquivam-se; os processos de sensao, as facadas, uma ou outra descompostura,
no conseguem neste domingo gordo entrar pela alma do Rio de Janeiro. S se ler
o itinerrio das sociedades carnavalescas, que este ano so numerosssimas, a
julgar pelos ttulos. O carnaval  o momento histrico do ano. Paixes,
interesses, mazelas, tristezas, tudo pega em si e vai viver em outra
parte.

A prpria morte nestes trs dias
deve ser jovial e os enterros sem melancolia. A cor do luto podia ser amarela,
que de mais a mais  o luto em algumas partes remotas, se bem me lembra.
Verdadeiramente no me lembra nada ou quase nada. Ouo j um ensaio de tambores,
que me traz unicamente  memria o carnaval do ano passado.

Uma das sociedades carnavalescas
que tinha de sair hoje e no sai,  a que se denominou Nossa Senhora da
Conceio. H de parecer esquisito este ttulo, mas se a inteno  que salva, a
sociedade vai para o cu. Os autores da idia so, com certeza fiis devotos da
Virgem, e no tm o carnaval por obra do diabo. A Virgem  o maior dos nossos
oragos; nas casas mais pobres pode no haver um Cristo, mas sempre haver uma
imagem de Nossa Senhora. Alm do lugar excelso que lhe cabe na hagiologia, a
Virgem  a natural devoo dos coraes maviosos. O chamado marianismo, se
existe,  coisa que ignoro, por no ser matria de crnica,  acharia aqui um
asilo forte e grande. Por isso, digo e repito que inteno foi boa e aceita
pelos colaboradores com piedade e entusiasmo.

Entretanto, concordo com a
proibio e creio que a sociedade ou grupo de que se trata, se tem igual gosto
s idias profanas, deve adotar denominao adequada. No faltam ttulos, e,
pesquisando bem, sempre os h novos.

Penso haver j transcrito aqui a
mxima de um senador das Alagoas, no antigo senado imperial. No queria ele que
as eleies se fizessem nas igrejas, como era antigamente, por efeito de uma lei
destinada a impedir a violncia dos partidos. A lei que, como todas as leis, no
podia fazer milagres, no conseguia livrar uma s cabea ou barriga do cacete ou
da navalha, apesar da santidade do lugar. As urnas recebiam cdulas falsas ou
eram quebradas. Ouvia-se o trabuco, o dichote obsceno e o resto. Ora, o senador
Dantas (chamava-se Dantas) trabalhava contra a profanao, e formulou esta
mxima: As coisas da rua no devem ir  igreja, nem da igreja sair  rua.
Referia-se, nesta segunda parte, s procisses. Que diria ele hoje se lesse
aquela mistura da Virgem e dos confetti?

Pode ser que, ainda tendo idias
profanas, falte, ao vedado grupo o tempo de as meter nos carros. Sabe-se que,
pelo carnaval, as idias andam de carro, e no resto do ano a p. Talvez por isso
 que se cansam mais no resto do ano, e algumas caem e morrem na estrada. De
carro, no  assim; aos cavalos fica o esforo de as conduzir e divulgar. Quando
sucede encarnarem-se em damas vestidas com luxo e despidas com arte, nem por
isso so menos idias, particulares ou pblicas.

Os confetti j fizeram obra
durante a segunda metade da semana. Muita moa voltou ontem para casa com a
cabea coberta deles, e no descontente, ao menos que se visse. H quem creia
que o carnaval tende a alargar os seus dias. Realmente, no bastam setenta e
duas horas para a alegria de uma cidade como esta, ainda mesmo no dormindo;
tais so os sustos as tristezas, as cleras e aflies dos outros dias do ano,
no contando o tumulto dos negcios, que uma semana ou duas para rir e saltar
no seria de mais. O tempo, em geral,  curto, mas o ano  comprido.

No temo, como alguns, que a febre
amarela saia destes trs dias mais vigorosa que at ontem. A febre amarela, no
se sabendo que seja, nem com que se cura, tem j de si a vantagem de no
precisar de mscara. Que se divirta se quer, que deixe sossegados e
convalescidos os seus enfermos. Concedo que, logo depois das festas, ainda mate
a alguns, no se podendo impedir que as constipaes, indigestes e outros
incidentes prprios da quadra descambem na epidemia; mas daqui a imaginar que
vai recrudescer, acabado o carnaval,  temerrio.

Parece que se trata de dar
municipalmente um prmio de cinqenta contos de ris a quem descobrir o remdio
certo para curar os doentes de tal peste. No sou intendente, mas tenho amigos
na intendncia (dois, ao menos) e tomo a liberdade de lhes propor alvitre
diverso e mais seguro. Francamente, estou que, oferecido o prmio de cinqenta
contos, vai aparecer o especfico verdadeiro contra a febre amarela e no um,
mas ainda trs ou quatro. A rigor, no se pode dar a um s o que tambm pertence
aos outros, e haver-se- de dividir a verba, o que no  leal, ou aument-la. O
aumento, agora que estamos com o emprstimo fechado deste ontem,  que eu
proporia, se adotasse o princpio da lei. Poder-se-ia fazer alguma economia,
estipulando a clusula de no ser dado o prmio, caso o especfico deixasse de
curar no segundo ano do emprego. Era sempre um recurso, e no dos mais
precrios. Os remdios envelhecem depressa; alguns h que morrem no
bero.

Mas, como disse, no aceito o
princpio da lei proposta. Se me quisessem ouvir, eu no excitaria a imaginao
farmacutica, j de si escaldada; eu ouviria particularmente a engenharia, para
que me dissesse se no possui artes propriamente suas para deitar fora de uma
vez esta nossa hspede. Cur-la  bom, mat-la  melhor. Ouviria tambm a
medicina. Ouviria a todos, sem excluir as finanas, pois que tal  obra, se
obra houvesse, exigira muito dinheiro; mas antes gastar dinheiro que perder a
fama e as vidas. Era caso de outro e maior emprstimo.

Comeo a falar triste. Fora com
despesas, fora com molstias, riamos que a hora  de Momo. Evoh! Bacchus est
roi! Sinto no lhes poder transcrever aqui a msica deste velho estribilho
de uma opereta que l vai. Era um coro cantado e danado no Alcazar Lrico, onde
est hoje se me no engano, uma confeitaria. As damas decentemente vestidas de
calas de seda justinhas que pareciam ser as prprias pernas em carne e osso,
mandavam o p aos narizes dos parceiros. Os parceiros, com igual brio e
ginstica, faziam a mesma coisa aos narizes das damas, a orquestra engrossava, o
povo aplaudia, a princpio louco, depois louco furioso, at que tudo acabava no
delrio universal dos ps, das mos e dos trombones. Leitor amigo, substitu
Baco por Momo, e canta com a msica de h vinte e cinco anos:

Evoh! Momus est
roi!

23 de fevereiro

Posto que eu no visse com estes
olhos, dizem os jornais e dizem os meus amigos que nunca houve tanta gente na
cidade como esta tera-feira ltima. Trezentas mil pessoas? Quatrocentas mil?
Divergem os clculos, mas todos esto de acordo que a multido foi enorme. Os
episdios que se contam, os milagres de equilbrio e de pacincia que tiveram de
operar os concorrentes dos arrabaldes e dos subrbios para alcanar e conquistar
um lugar nos veculos so realmente dignos de memria. Tudo isso no meio da mais
santa paz. Uma polcia bem feita e a alegria coroando a festa.

Ora, ainda bem, minha boa e leal
cidade,  assim que te quero ver, animada, jovial e ordeira, pronta para rir,
quando for necessrio, e no menos para venerar, quando preciso. Alm do mais,
deste prova de que no crs em boatos. Podes ouvi-los e pass-los adiante, mas,
chegado o momento de crer, no crs. A verdade  que para tudo correr bem, nem
sequer choveu um pingo. Podia ter havido algum aperto que esmagasse uma pessoa,
ao menos; nada, absolutamente nada. O mais que se deu foi a perda de um menino,
por nome Zabulon, que  de crer esteja a esta hora restitudo a seus pais, salvo
se o pegou alguma dessas mulheres que se ocupam em apanhar crianas. H pouco
sucedeu um de tais raptos, no concludo por ter sido a tempo
descoberto.

No sei para que tais mulheres
querem as crianas dos outros. Se so bruxas no so da famlia da Bruxa
do Olavo Bilac e Julio Machado; esta rapta, mas to somente as nossas
melancolias. Querero vender as crianas, faz-las freiras e frades, ou o
contrrio deles? O costume no  novo. H muitos anos andou aqui em cena um
melodrama, a Roubadora de Crianas, que eu no vi representar, mas o
assunto era como diz o ttulo. Dickens, em Oliver Twist, pe uma escola
composta de meninos apanhados aqui e ali, para aprender o ofcio de gatuno. Os
diplomados saem depois do almoo e voltam  tarde, com o produto do ofcio. Os
novatos ficam aprendendo com o fundador do estabelecimento. Mas haver aqui
necessidade de escola? As vocaes no so naturais e vivas e a arte no vem com
a prtica? Quando no  a vocao que traz a profisso, e o exemplo, a
necessidade ou qualquer causa semelhante.

Isto quanto aos gatunos de lenos
e relgios. Pelo que respeita aos salteadores em
bando, no basta a vocao: 
preciso coragem grande, muita ordem, disciplina e plvora. Esta semana foi aqui
recebida a notcia de ter sido morto o chefe dos clavinoteiros da Bahia. L
houve prazer e aqui alguma curiosidade; mas, no conhecendo ns a organizao
daquele famoso bando, no sabemos o modo da substituio do chefe. Ser por
simples eleio ou aclamao? Neste caso, rei morto, rei posto e eles possuiro
a esta hora um chefe novo. Ao contrrio da Frana, quando Luiz XVIII l entrou,
nada h mudado na Bahia: h um clavinoteiro menos.

Enquanto esse bando perdia a
cabea, outro bando reduzia a povoao de Coch a um monto de runas. Eu nunca
vi Coch e,  ao invs do poeta,  no tenho pena. Deve ter sido uma calamidade,
se  certo o que dizem as notcias; verdade  que estas metem a poltica no
meio, coisa difcil de engolir, salvo se j todos perderam o juzo. Se a
poltica por esses lugares vai ao roubo, ao estupro e ao incndio, no 
poltica. Bom  desconfiar de paixes. Seja o que for, dizem que a povoao de
Queimadinhas est ameaada de igual destino.

Comparemos as nossas festas do
princpio da semana, aqui, em S. Paulo e outras cidades, com as destruies do
serto da Bahia, as cenas de Cuba e de outras partes do mundo. Parece que h
neste fim de sculo um concerto universal de atrocidades. Cuba h de verter
muito sangue, primeiro que conquiste a independncia ou que espere por outra
revoluo. A ordem de matar agora os revolucionrios prisioneiros, ato contnuo,
pode ser que no traga a nota da humanidade, mas  precisa para acabar com uma
luta que comea aborrecer, no por falta de graa mas por muito
comprida.

Trata-se no menos que de
conservar  Espanha algo do que foi. A Espanha, senhores, (exclamava Castelar
um dia no Congresso) a Espanha atou aos ps o mar como uma esmeralda, e o cu 
fronte como uma safira! Trata-se de no perder o melhor da esmeralda, e tem
razo a Espanha. Para os cubanos trata-se de ganhar a liberdade, e tem razo
Cuba. Para dirimir a questo  que se inventou a plvora, e, antes dela, o ferro
e o ao.

No  mister dizer o que est
fazendo a Coria. Agora, h pouco, matou tanto e de tal maneira, que foi preciso
mat-la tambm. Uns pensam que foi o amor da liberdade que estripou tanta gente,
outros inculcam que foi o amor da Rssia; mas, como o sangue derramado e todo
vermelho, ponhamos que tem cor mas que lhe falta opinio. J no falo da
Abissnia, onde o negus e os seus rases fazem coisas s prprias de gente
que da civilizao apenas conhece a ttica e estratgia. Tambm l h sangue,
fome e ranger de dentes, mas esperemos que a civilizao vena algum dia. Sobre
os armnios no h que dizer seno que os turcos os matam e eles aos
turcos.

O que importa notar  que todas
essas multides de mortos,  por uma causa justa ou injusta,  so os figurantes
annimos da tragdia universal e humana. As primeiras partes sobrevivem, e
dessas celebrou-se justamente ontem a melhor e maior de todas, Washington.
Singular raa esta que produziu os dois vares mais incomparveis da histria
poltica e do engenho humano. O segundo no  preciso dizer que 
Shakespeare.

1
de maro

Lulu Senior disse quinta-feira que
Petrpolis est deitando as manguinhas de fora. No serei eu que o negue, mas o
fenmeno explica-se facilmente. Eu, h j alguns pares de anos, engenhei um
pequeno poema, cujo primeiro verso era este:

Baias era a Petrpolis
latina.

Entende-se bem que a comparao
vinha da vida elegante e risonha da antiga Baias, to buscada daqueles romanos
nobres e opulentos, que ali iam descansar de Roma. Vinha tambm da situao de
duas cidades de recreio, conquanto Petrpolis no banhe os ps no mar. Mas a
serras aqui valem os golfos do velho mundo; ficam mais perto do sol. No mais os
prazeres eram diferentes, como  diferente a vida moderna. Petrpolis, ao
domingo, vai  casa de Maria Santssima com o livro de rezas na mo; Baias, sem
dia certo acolhia-se ao tempo de Vnus Genetrix. Sinto deveras haver esquecido
os outros versos. A minha memria compe-se de muitas alcovas meio-escuras e
poucas salas claras; s vezes, para achar uma coisa, deso ao poro com
lanterna. Mas, enfim, se esqueci os versos  que no mereciam mais.

Antes de 15 de novembro,
Petrpolis sofria bem qualquer comparao daquelas; mas a revoluo poltica deu
 nossa cidade internacional de recreio um ar de estupor, que a deixou lesa de
ambos os lados. Ao cabo de alguns meses comeou a sarar. Sobreveio, porm, a
revolta de setembro, agravou-se-lhe a molstia, e se no levou a breca foi
porque as cidades no morrem to depressa como os homens. A estes basta agora
morar em um dos bairros daqui (Laranjeiras, por exemplo) para que a febre
amarela os tome e leve em poucas horas, com todas as cerimnias pstumas de
ambas as autoridades, a eclesistica e a mdica.

Um dia acabou a revolta,  ramal
ou prolongamento da revoluo do Rio Grande do Sul, que tambm acabou.
Petrpolis, l de cima, espiou c para baixo e, vendo tudo em paz segura, sarou
de repente. Achou-se,  certo, convertida em capital de um Estado, nico prmio
(salvo alguns discursos e artigos) que a triste Praia Grande colheu do combate
de 9 de fevereiro. No contesto que os Estados devam andar asseados e mudar de
capital como ns de camisa; mas, enfim, a velha Praia Grande pode suspeitar que
foi por estar manchada de sangue que a degradaram, quando a verdade  que a
troca de capital no nasceu seno de um sentimento de elegncia muito
respeitvel. O que a pode consolar  que Petrpolis no tem vocao
administrativa nem poltica. Naturalmente faz que no v o governador do Estado,
no ouve nem l os discursos da assemblia, e trata de se refazer e continuar o
que dantes era.

La Rpublique manque de
femmes, disse consigo a nova capital, e
cuidou de lhe dar esta costela. Talvez o dito do republicano francs no caiba
aqui inteiramente. As instituies francesas, quaisquer que sejam, precisam de
mulheres. A prpria revoluo, salvo a ditadura de Robespierre, no as dispensou
de todo. A Sua, Esparta e outros Estados de instituies mais ou menos
parecidas, dispensam mulheres. A razo penso ser que a sociedade francesa no
vai sem conversao, e os franceses no acreditam que haja conversao sem
damas.

Ningum h que aprecie mais as
mulheres do que ns; mas aqui e difcil v-las juntas sem faz-las danar e
danar com elas. Uma s que seja, podemos dizer-lhe coisas bonitas, enquanto no
ouvimos uma valsa; em ouvindo a valsa, deitamos-lhe o brao  roda da cintura e
fazemos dois ou trs giros. Vou revelar ao pblico um segredo da imprensa
diria. Esta frase: as danas prolongaram-se at a madrugada est j fundida
na tipografia, e s meter o clich no fim da notcia. s vezes, a ocasio
 lgubre como um enterro. Um cidado recebe o seu retrato, lugubremente pintado
por artista que apenas aspirava a gravidade e nobreza do porte. Ao discurso da
comisso, no menos entusiasta que lgubre, responde o cidado com lgrimas na
voz. Apertam-se as mos, admira-se o retrato, serve-se a clssica mesa de doces.
So nove horas da noite, uma senhora canta uma ria, palmas, cumprimentos, at
que o compadre da famlia (todas as famlias tm este compadre) prope que se
dance um pouco.  a voz de Israel falando por uma s boca, e as danas
prolongam-se at  madrugada.

Portanto, no  exatamente de
mulheres que a Repblica precisa:  de pares para os seus cavalheiros. Nem
sempre se danar, mas brincar, batalhar com flores so formas de dana, do a
nota da alegria, que  a flor da sade. As instituies passam, mas a alegria
fica. Petrpolis no ter muitas das antigas estrelas, que se foram a outros
cus ou fecharam as suas portas de ouro; mas tem algumas e descobriu novas, com
as quais forma o seu firmamento de hoje. A esta renascena de Petrpolis  que
Lulu Senior chama deitar as manguinhas de fora, como se ele no fosse dos que a
ajudam nessa operao.

Renasce com a vida cara, segundo
disse esta semana um dos seus deputados, por esta frase, a um tempo familiar e
severa: Tudo est pela hora da morte! Petrpolis podia perguntar ao seu
deputado, se o ouvisse ou lesse, onde  que a vida no est pela hora da morte.
No  na Capital Federal, em que o prprio ar que respiramos custa, s vezes, o
preo de um enterro. Mas esse mesmo orador dissera antes, no comeo do discurso,
que no h cu sem nuvens nem mar sem praias, reconhecendo assim, no sem
vulgaridade, que o mal no  privilgio de ningum, mas que ainda assim tudo tem
um limite.

Tanto isto  verdade que, se uma
das nossas praias deu o mal da morte ao Dr. Sinfrnio, outra acaba de recolher o
seu cadver. Quando comeou o inqurito, o mar ficou mudo como os seus peixes;
mas os depoimentos foram to obscuros e vagos, que ele, compadecido da famlia,
ps termo s suas esperanas. No farei aqui o panegrico daquele bom e distinto
cidado; no  costume desta crnica. Uma palavra, dois adjetivos merecidos, e
basta. Pobre Sinfrnio!

No quero entrar pela tristeza;
por isso no direi nada daquele moo que tentou matar-se por amar a uma moa de
Campos que o no amava. Tambm no falo do relatrio com que fechou o inqurito
acerca daquela Ambrosina que se matou por causa de outra moa, que a amava. Vede
como duas causas contrrias produzem mesmo efeito. A explicao disto tambm no
 difcil, mas j me falta papel. Em resumo: sou da opinio de Petrpolis:
deitar as manguinhas de fora que chorar. O riso  sade.

8
de maro

No tempo do Romantismo, quando o
nosso lvares de Azevedo cantava, repleto de Byron e Musset:

A Itlia! sempre a Itlia
delirante!
E os ardentes saraus e as noites
belas!

a Itlia era um composto de
Estados minsculos, convidando ao amor e  poesia, sem embargo da priso em que
pudessem cair alguns liberais. H livros que se no escreveriam sem essa diviso
poltica, a Chartreuse de Parme, por exemplo; mal se pode conceber aquele
Conde Mosca seno sendo ministro de Ernesto IV de Parma. O ministro Crispi no
teria tempo nem gosto de ir namorar no Scala de Milo a Duquesa de Sanseverina.
Era assim parcelada que ns, os rapazes anteriores  trplice aliana e apenas
contemporneos de Cavour, imaginvamos a Itlia e passevamos por
ela.

Agora a Itlia  um grande reino
que j no fala a poetas, apesar do seu Carducci, mas a polticos e economistas,
e entra a ferro e fogo pela frica, como as demais potncias europias. O grande
desastre desta semana, se foi sentido por todos os amigos da Itlia,  tambm
prova certa de que a civilizao no  um passeio, e para vencer o prximo
imperador da Etipia  necessrio haver muita constncia e muita fora. Os
italianos mostraram essa mesma opinio dando com Crispi em terra,  por quantos
meses? Eis o que s nos pode dizer o cabo, em alguma bela manh, ou bela tarde,
se a Notcia se antecipar s outras folhas. Quanto  guerra,  certo que
continuar e o mesmo ardor com que o povo derribou Crispi saudar a vitria
prxima e maiormente a definitiva. Cumpra-se o que dizia o poeta naqueles versos
com que Machiavelli fecha o seu livro mais clebre:

Che l'antico
valore
Nell'italici cuor mon  ancor morto.

Ns c no temos Menelick, mas
temos o cmbio, que, se no  abexim como ele,  de raa pior. Inimigo
sorrateiro e calado, j est em oito e tanto e ningum sabe onde parar;  capaz
de nem parar em zero e descer abaixo dele uns oito graus ou nove. Nesse dia, em
vez de possuirmos trezentos ris em cada dez tostes, passaremos a dever os
ditos trezentos ris, desde que a desgraa nos ponha dez tostes nas mos. Donde
se conclui que at a ladroeira acabar. Roubar para qu?

O mal do cmbio parece-se um pouco
com o da febre amarela, mas, para a febre amarela, a magnsia fluida de Murray,
que at agora s curava dor de cabea e indigestes,  especfico provado reste
vero, segundo leio impresso em grande placa de ferro. Que magnsia h contra o
cambio? Que Murray j descobriu o modo certo de acabar com a decadncia
progressiva do nosso triste dinheiro com as fomes que a vm, e os meios luxos,
os quartos de luxo, outras conseqncias melanclicas deste mal?

Um economista apareceu esta semana
lastimando a sucessiva queda de cmbio e acusando por ela o Ministro da Fazenda.
No lhe contesta a inteligncia, nem probidade, nem zelo, mas nega-lhe tino e,
em prova disto, pergunta-lhe  queima-roupa: Por que no vende a estrada Central
do Brasil? A pergunta  tal que nem d tempo ao ministro para responder que tais
matrias pendem de estudo, em primeiro lugar, e, em segundo lugar, que ao
Congresso Nacional cabe resolver por ltimo.

Felizmente, no  esse o nico
remdio lembrado pelo dito economista. H outro, e porventura mais certo: 
auxiliar a venda da Leopoldina e suas estradas. Desde que auxilie esta venda, o
ministro mostrar que no lhe falta tino administrativo. Infelizmente, porm, se
o segundo remdio por consertar as finanas federais, no faz a mesma causa s
do Estado do Rio de Janeiro, tanto que este, em vez de auxiliar a venda das
estradas da Leopoldina, trata de as comprar para si. Cumpre advertir que a
eficcia deste outro remdio no est na riqueza da Leopoldina, porquanto sobre
esse ponto duas opinies se manifestaram na assemblia fluminense. Uns dizem que
a companhia deve vinte e dois mil contos ao Banco do Brasil e est em demanda
com o Hipotecrio, que lhe pede seis mil. Outros no dizem nada. Entre essas
duas opinies, a escolha  difcil. No obstante, vemos estes dois remdios
contrrios: no Estado do Rio a compra da Leopoldina  necessria para que a
administrao tome conta das estradas, ao passo que a venda da Central  tambm
necessria para que o governo da Unio no a administre. Verit au-de,
erreur au-del.

Neste conflito de remdios ao
cambio e s finanas, invoquei a Deus, pedindo-lhe que, como a Tobias, me
abrisse os olhos. Deus ouviu-me, um anjo baixou dos cus, tocou-me os olhos e vi
claro. No tinha asas, trazia a forma de outro economista, que publicou
anteontem uma exposio do negcio assaz luminosa. Segundo este outro
economista, a compra da Leopoldina deve ser feita pelo Estado do Rio de Janeiro,
porque tais tm sido os seus negcios precipitados e ilegais (emprega ainda
outros nomes feios, dos quais o menos feio  mixrdia) que no haver
capitalistas que a tomem. No havendo capitalistas que comprem a Leopoldina,
cabe ao Estado do Rio de Janeiro compr-la, atender aos credores, e no devendo
administrar as estradas, porque o Estado  pssimo administrador, vender
depois a Leopoldina a particulares. Foi ento que entendi que a verdade  s um,
au-de e au-del; a diferena  transitria,  s o tempo de
comprar e vender, ainda com algum sacrifcio, diz o economista! No
intervalo mete-se uma rolha na boca dos credores. Sabe-se onde  que os
alfaiates pem a boca dos credores.

Talvez algum americanista,
exaltado ou no, ainda se lembre da palavra de Cleveland quando pela segunda vez
assumiu o governo dos Estados Unidos. A palavra  paternalismo e foi
empregada para definir o sistema dos que querem fazer do governo um pai.
Cleveland condena fortemente esse sistema; mas ele nada pode contra a natureza.
O Estado no  mais que uma grande famlia, cujo chefe deve ser pai de
todos.

Aliviado como fiquei do conflito,
abri novamente o ltimo livro de Lus Murat e pus-me a reler os versos do poeta.
Deus meu, aqui no h estradas nem compras, aqui ningum deve um real a nenhum
banco, a no ser o banco de Apolo; mas este banco empresta para receber em
rimas, e o poeta pagou-lhe capital e juros. Posto que ainda moo, Lus Murat tem
nome feito, nome e renome merecido. Os versos deste segundo volume das Ondas
j foi notado que desdizem do prefcio; mas no  defeito dos versos, seno
do prefcio. Os versos respiram vida ntima, amor e melancolia; as prprias
pginas da Tristeza do Caos, por mais que queiram, a princpio, ficar na
nota impessoal, acabam no pessoal puro e na desesperana.

O poeta tem largo flego. Os
versos so, s vezes, menos castigados do que cumpria, mas  essa mesma a ndole
do poeta, que lhe no permite seno produzir como a natureza; os passantes que
colham as belas flores entre as ramagens que no tm a mesma igualdade e
correo. Lus Murat cultiva a anttese de Hugo como Guerra Junqueiro; eu
pedir-lhe-ia moderao, posto reconhea que a sabe empregar com arte. Por fim,
aqui lhe deixo as minhas palavras;  o que pode fazer a crnica destes
dias.

15 de
maro

A notcia, boato ou o que quer que seja de uma
comisso mista no territrio contestado, produziu no Par e no Amazonas grande
comoo. O senado e a cmara paraenses resolveram unanimemente protestar contra
o ato atribudo ao governo federal e comunicaram isto mesmo por telegrama ao
presidente da Repblica. O senado deliberou mais suspender as suas sesses at
que o presidente lhe respondesse. Pela publicao oficial de anteontem,
sexta-feira, j se sabe quais foram os telegramas trocados, e basta a natureza
do fato, que  poltico, e at de poltica internacional, para se compreender
que no entra no crculo das minhas cogitaes. Leis internacionais,
constituies federais ou estaduais no so comigo. Eu sou, quando muito, homem
de regimento interno.

Ora,  o regimento interno do senado paraense que
eu quisera ter aqui, no para verificar se h l a faculdade de suspender as
sesses; ela  de todos os regimentos internos. Mas a hiptese de telegrafar ao
presidente da Repblica e suspender as sesses at que ele responda  que
absolutamente ignoro se est ou no. Pode ser que esteja, e nesse caso
cumpriu-se o regimento interno: dura lex, sed lex. No examino a questo
de saber se deve estar, nem se tal ao pode caber em matria cuja soluo
ltima a Constituio confiou do Congresso Federal. Tambm no quero indagar se
a suspenso das sesses do senado, at que o presidente da Repblica responda,
constrange o chefe da Unio, que no querer com seu silncio interromper a obra
legislativa do Estado.  um crculo de Popilio, e tais crculos andam na
histria do mundo. O presidente h de responder antes de almoar, salvo se
conspira contra o Estado donde lhe vem a pergunta, pedido ou moo; mas, se
conspira, melhor  declar-lo, em vez de refugiar-se num silncio prenhe de
tempestades. Quando menos,  de mau gosto. Note-se que aqui nem se trata dos
interesses de um Estado, nem de toda a Repblica; no h fronteiras amazonenses,
mas brasileiras.

Enfim, no tenho que ver se esse ato do senado
paraense poder vir a ser imitado, mais tarde ou mais cedo, em qualquer outra
regio, e a propsito de questes menos transcendentes, ainda que menos
reservadas. A imitao  humana,  civil e poltica. Considerando bem, um ato
destes pode at ser benefcio; substitui os riscos de uma revoluo. Por isso,
ainda no estando no regimento interno, caso haver em que o melhor recurso seja
meter uma pergunta aos peitos da Unio e suspender os trabalhos. Donde se
conclui que o motivo que me levou a tocar no assunto desaparece; melhor seria
no ter dito nada.

Assim  o resto das coisas nesta vida de papel
impresso. No  raro o artigo que conclui pelo contrrio do que comeou. Aos
inbeis parece que falta ao escritor lgica ou convico, quando o que
unicamente no h  tempo de fazer outro artigo. No meio ou no fim, percebe ele
que comeou por um dado errado, mas o tempo exige o trabalho, o editor tambm, e
no h seno concluir que dois e dois so cinco. Vou expor melhor a minha idia
com um recente ofcio da polcia das Alagoas.

Quando eu comecei a escrever na imprensa diria
achei cada idia expressa com uma palavra  s vezes com duas, e o afirmo que
no chegasse a selo com trs. Uma idia havia, porm, que tinha no menos de
cinco palavras a seu servio: era chefia. E digo mal: no era
propriamente a idia no sentido geral que lhe cabe, no, a chefia de batalho,
de partido, de famlia, etc. Era unicamente a chefia de polcia. Em polcia,
alm de chefia, tnhamos chefado. Onde no bastava chefado, havia
chefana. Se a chefana no correspondia bem, vinha a
chefao. Para suprir a chefao, acudia a chefatura. Creio
que a esto todas as desinncias possveis, salvo chefamento e alguma
outra, que no eram usadas.

Trabalhei muito por achar a explicao e tal
variedade. No eram alteraes populares; nasciam da imprensa culta e poltica.
No eram obra de uma ou outra zona; s vezes, a mesma cidade, oficial e
particularmente, empregava dois e trs termos, e no todos. Cheguei a imaginar
que seria na questo de partidos; a falta de idias d eleio s palavras. Mas
no era; todos os partidos usavam das mesmas formas numerosas. Gosto pessoal?
Simpatia? Podia ser, mas no se usando igual processo em relao a outros
vocbulos, no chegava a entender por que razo a simpatia ficava s nesta idia
to particular. Cumpre lembrar que chefia era a forma menos empregada.
Seria porque a desinncia, afinada e doce, diminua o valor e a fortaleza da
instituio, mais adaptada a chefado, a chefana, a chefao, a chefatura? A
lngua tem segredos inesperados.

Venhamos ao ofcio das Alagoas.  datado da
chefatura de polcia de Macei, alude ao atropelo de cidados pacficos por
praas policiais, e continua: e como no sejam estas as ordens desta chefia...
A primeira impresso que tive foi que, na meio de um conflito lingstico,
tivessem sido adotadas por lei as duas formas, e assim usadas no mesmo ato; era
um modo de obter a conciliao que as vontades recusavam. Atentando melhor,
pareceu-me que o esprito culto do chefe de polcia acharam assim uma maneira de
conservar a forma correta da lngua e a enftica da instituio. Mas tal
explicao no me ficou por muito tempo. Em breve, achei que a razo do emprego
das duas formas est naturalmente em que chefatura anda impressa no
cabealho do papel de ofcios, e que a autoridade, mais correta que o fornecedor
de objetos de expediente, usa a chefia que aprendeu. Nas Alagoas pode
haver, como aqui no Rio de Janeiro, a ortografia da casa. Outra
imprensa compor chefana, outra chefao, outra chefado.
Talvez o melhor seja conservar chefatura, uma vez que custa barato. Nos
tempos difceis mais vale a economia que a ortografia.

A concluso que a fica mostra que esse prprio
caso das Alagoas no serve para fundamentar a tese dos artigos que acabam
diversamente do que comeam. E agora que me falta no  tempo, nem papel, mas
espao. No careo de nimo, nem o dia acabou mais cedo; mas v um homem,
naufragado em dois exemplos, catar um terceiro. No catemos nada.

22 de maro

Se todos quantos empunham uma
pena, no esto a esta hora tomando notas e coligindo documentos sobre a
histria desta cidade, no sabem o que so cinqenta contos de ris. Uma lei
municipal, votada esta semana, destina ao historiador que escrever a histria
completa do Distrito Federal desde os tempos coloniais at a presente poca,
aquela valiosa quantia. O prazo para compor a obra  de cinco anos. O julgamento
ser confiado a pessoas competentes, a juzo do prefeito.

No serei eu que maldiga de um ato
que pe em relevo o amor da cidade e o apreo das letras. Os historiadores no
andam to fartos, que desdenhem dos proveitos que ora lhes oferecem, nem os
legisladores so to generosos, que lhes dem todos os dias um prmio deste
vulto. Se todas as capitais da Repblica e algumas cidades ricas concederem
igual quantia a quem lhes escrever as memrias, e se o Congresso Federal fizer a
mesma coisa em relao ao Brasil, mas por preo naturalmente maior,  digamos
quinhentos contos de ris,  a profisso de historiador vai primar sobre muitas
outras deste pas.

H s dois pontos em que a recente
lei me parece defeituosa. O primeiro  o prazo de cinco anos, que acho longo, em
vista do preo. Quando um homem se pe a escrever uma histria, sem estar com o
olho no dinheiro, mas por simples amor da verdade e do estilo,  natural que
despenda cinco anos ou mais no trabalho; mas cinqenta contos de ris excluem
qualquer outro ofcio, mal do seis horas de sono por dia, de maneira que, em
dois anos, est a obra, acabada e copiada. Muito antes do fim do sculo podem
ter os cariocas a sua histria pronta, substituindo as memrias do Padre
Perereca e outras.

O segundo ponto que me parece
defeituoso na lei,  que a competncia das pessoas que houverem de julgar a
obra, dependa do juzo do prefeito. Ns no sabemos quem ser o prefeito daqui a
cinco anos; pode ser um droguista, e h duas espcies de droguistas, uns que
conhecem da competncia literria dos crticos, outros que no. Suponhamos que o
eleito  da segunda espcie. Que pessoas escolhera ele para dizer dos mritos da
composio? Os seus ajudantes de laboratrio?

Eu, se fosse intendente,
calculando que a histria do Distrito Federal podia esperar ainda dois ou trs
anos, proporia outro fim a uma parte dos contos de ris. Tem-se escrito muito
ultimamente acerca do Padre Jos Maurcio, cujas composies, apesar de louvadas
desde meio sculo e mais, esto sendo devoradas pelas traas. Houve idia de
catalog-las, repar-las e restaur-las, e foi citado o nome do Sr. Alberto
Nepomuceno como podendo incumbir-se de tal trabalho. Este maestro, em carta que
a Gazeta inseriu quinta-feira, lembrou um alvitre que torna a propaganda
mais prtica, sem nada perder da sua sentimentalidade atual, e pe ao
alcance de todos as produes do genial compositor. O Sr. Nepomuceno desengana
que haja editor disposto a imprimir tais obras de graa, empatando, sem
esperana de lucro, uma soma no inferior a quarenta contos. A concesso da
propriedade  um presente de gregos. O alvitre que prope,  reduzir para rgo
o acompanhamento orquestral das diversas composies e public-las. Custaria
isto dez contos de ris.

Ora, se o Distrito Federal
quisesse divulgar as obras de Jos Maurcio, empregaria nelas os dez contos do
mtodo Nepomuceno, ou os quarenta, se lhes desse na cabea imprimir as obras
todas, integralmente. Em ambos os casos ficaramos esperando o historiador do
distrito, salvo se houvesse homem capaz de escrever a histria por dez ou ainda
por quarenta contos; coisa que me no parece impossvel.

Um dos que tm tratado ultimamente
das obras e da pessoa do padre,  o Visconde de Taunay. A competncia deste,
unida ao seu patriotismo, d aos escritos que ora publica na Revista
Brasileira, muito valor;  uma nova cruzada que se levanta, como a do tempo
de Porto Alegre. Se no ficar no papel, como a de outrora, dever-se- a Taunay
uma boa parte do resultado.

Outro que tambm est revivendo
matria do passado, na Revista Brasileira,  Joaquim Nabuco. Conta
a vida de seu ilustre pai, no  maneira seca das biografias de almanaque, mas
pelo estilo dos ensaios ingleses. Deixe-me dizer-lhe, pois que trato da semana,
que o seu juzo da Revoluo Praieira, vindo no ltimo nmero, me pareceu
excelente. No traz aquele cheiro partidrio, que sufoca os leitores meramente
curiosos, como eu. A mais completa prova da iseno do esprito de Nabuco est
na maneira por que funde os dois retratos de Tosta, feitos a pincel partidrio,
um por Urbano, outro por Figueira de Melo. Cheguei a ver Urbano, em 1860; vi
Tosta, ainda robusto, ento ministro, dizendo em aparte a um senador da oposio
que lhe anunciava a queda do gabinete: Havemos de sair, no havemos de cair!
Nesta nica palavra sentia-se o varo forte de 1848. Quanto a Nunes Machado,
trazia-o de cor, desde menino, sem nunca o ter visto:  que o retrato dele
andava em toda parte. De Pedro Ivo no conhecia as feies, mas conhecia os
belos versos de lvares de Azevedo, onde os rapazinhos do meu tempo aprendiam a
derrubar (de cabea) todas as tiranias.

29 de
maro

No meio das moes, artigos, cartas, telegramas,
notcias de conspiraes e de guerra, atos e palavras, em qualquer sentido, e
por mais graves que sejam as situaes, h sempre algum que pensa na recreao
dos homens. Vede a Inglaterra. A Inglaterra  o pas do sport por
excelncia, disse o Jornal do Comrcio de ontem, a propsito da regata
entre os estudantes de Oxford e Cambridge, que ontem mesmo se efetuou. O jornal
exps uma planta da parte do Tmisa onde os universitrios mediram as foras e,
por meio de um fio telegrfico, estabelecido no escritrio, pde dar notcia do
progresso da corrida. No digo nada a este propsito, visto que escrevo antes de
comear a regata inglesa. Noto s que nem Dongola, nem Venezuela, nem Transwaal
outras partes arrancam os povos de Londres quela festa de todos os
anos.

No cubramos a cara. Tambm aqui, sem temor dos
tempos, dois homens pediram ao Conselho Municipal licena, no para uma s
espcie de sport, mas para uma ressurreio de todas as idades. No falo
dos cavalinhos e diverses anlogas que so a banalidade do gnero e foram o
leite da nossa infncia. Tambm no falo das touradas, seno para dizer que,
enquanto a Espanha faz das tripas corao para dominar Cuba, e quebra as
vidraas dos consulados norte-americanos com gritos de furor e indignao, ns
pegamos dos seus touros e toureiros, e vamos v-los morrer, saltar e morrer,
para alegria nossa. Ponho de lado igualmente as corridas de bicicletas e
velocpedes, por serem recentes, o que no quer dizer que no tenham graa. Sem
circo, dois e mais homens podero fazer muito bem essas corridas, em qualquer
rua larga, como a do Passeio Pblico, mormente se vier abaixo parte do passeio,
como quer um velho projeto. No sei se este ainda vive, mas h projetos que no
morrem.

Vamos ter... Leitor amigo, prepara-te para lamber
os beios. Vamos ter jogos olmpicos, corridas de bigas e quadrigas, ao modo
romano e grego, torneios da idade mdia, conquista de diademas e cortejo s
damas, corridas atlticas, caa ao veado. No  tudo; vamos ter naumaquias.
Encher-se- de gua a arena do anfiteatro at a altura de um metro e vinte
centmetros. A se faro desafios de barcos,  maneira antiga, e podemos
acrescentar  de Oxford e Cambridge, torneios em gndolas de Veneza, e
repetir-se- o cortejo s damas. Combates navais. Desafio de nadadores. Caa aos
patos, aos marrecos, etc. Tudo acabar com um grande fogo de artifcio sobre
gua.  quase um sonho esta renascena dos sculos, esta mistura de tempos
gregos, romanos, medievais e modernos, que formaro assim uma imagem cabal da
civilizao sportiva. Se se tratasse de puro e simples divertimento, no
creio que fosse obra completa: seria, pelo menos, mui pouco
interessante.

No me pergunteis onde est o gato; obrigar-me-eis
a responder que neste projeto, pendente da votao do conselho, no h gato
aparente de espcie alguma. Ao contrrio, se gato  o que o vulgo chama
poule, h proibio formal de vender esse e outros animais donde possa
resultar jogo. Quando muito, estabelece um artigo que em todos os espetculos
haver vencedor que receber da administrao prmio em dinheiro ou objeto de
valor. Um vencedor s para tantas corridas  pouco, mas  econmico; em todo o
caso mostra que no se trata de jogo, mas luta entre valentes, geis e hbeis, e
o brio  o nico chamariz das festas.

Sabei ainda que os empresrios no pedem iseno de
impostos; ao contrrio,  expresso que os pagaro todos e mais quinhentos mil
ris por espetculo para trs instituies que indica. Uma delas  o teatro
municipal. Anualmente haver um espetculo em favor do monte pio dos
funcionrios do distrito. Prmios, impostos, donativos, construo do
anfiteatro, moblia, cavalos, carros, gndolas, encanamento de gua para encher
a arena, pessoal... Tudo isso quer dizer que a empresa ou companhia (o pedido
prev a hiptese de se formar uma sociedade annima) conta com grande
concorrncia pblica. Se assim no fosse, no se obrigava tantas despesas nem
perdia a ocasio de fazer uma bonita loteria.

Entretanto, a populao esta desacostumada desse
gnero de sport, em cada um entra com dinheiro e sai sem ele. O uso
corrente  trazerem alguns uma parte do que os outros deixam. Atualmente, no
contando os vrios dromos e loterias de decreto, temos a Companhia Piscatria,
Nas Frutas, Brasil, Jardim Lotrico e outras instituies, cujos resultados
dirios so dados por indicaes secretas, algumas com as trs estrelinhas
manicas: BRASIL: Veado.  NAS FRUTAS: goiaba, G. 20.  JARDIM LOTRICO:
Ant... Gallo. Mod... Coelho. Rio...
Porco. Reservado... Cobra. S a Companhia Piscatria usa de
expresses adequadas ao nome: O coupon de juros sorteado ontem foi o de
n. 7 com 22$ cada coupon. E como todos os dias h coupons
sorteados, d vontade de perguntar quando  que a Companhia Piscatria pesca os
seus peixes. Talvez todos os dias.
Realmente, no sei onde  que a empresa de jogos
olmpicos ir buscar meios de se manter, prosperar e guardar dinheiro. Os
acionistas querem dividendos.  o nico desejo destes animais. Se os
espectadores, por falta de sorteio piscatrio, no forem aos jogos olmpicos e
combates navais, onde achar os seus meios de viver? Veja o caso de Cunha
Sales.

Cunha Sales, inventor do Pantheon Ceroplstico,
teve certamente a idia de s gastar cera com bons defuntos; mas acaba de
aprender que a podia gastar com piores. No falo dos propriamente mortos, mas
dos vivos, a quem quis ensinar histria por meio de uma vista de pessoas
histricas. No podendo faz-lo de graa, estabeleceu uma entrada, creio que
mdica:  o que faz qualquer escola de primeiras letras. As mesmas Faculdades
librrimas aceitam o custo da matrcula. A diferena  que alguns dos
espectadores do Ceroplstico recebem um prmio. Creio que foi esta circunstncia
que lembrou ao governo mandar anular a patente que deu ao inventor. Mas quem 
que perdeu o direito de distribuir uma parte do seu ganho? Por d-lo todo, esto
alguns no Flos Sanctorum; o nosso inventor, por ficar com uma boa parte,
est no Index.

5
de abril

Quarta-feira de trevas contradisse
este nome pela presena de um grande sol claro. Comigo deu-se ainda um
incidente, que mais agravou a divergncia entre a significao do dia e a
alegria exterior. Eram onze horas da manh, mais ou menos, ia atravessando a Rua
da Misericrdia, quando ouvi tocar uma valsa a dois tempos. Graciosa valsa; o
instrumento  que me no parecia piano, e desde criana ouvi sempre dizer que em
tal dia no se canta nem toca. Em pouco atinei que eram os sinos da igreja de
So Jos. Pois digo-lhes que dificilmente se lhe acharia falha de uma nota,
demora ou precipitao de outra; todas saam muito bem. O rei Davi, se ali
estivesse, faria como outrora, danaria em plena rua. A arca do Senhor seria a
prpria igreja de So Jos, descendente daquele santo rei, segundo So
Mateus.

A valsa acabou, mas o silncio
durou poucos minutos. Ouvi algumas notas soltas e espaadas, esperei: era um
trecho de Flotow. Conheceis a pera Marta? Era a Ultima Rosa de
Vero,  a velha cantiga The Last Rose of Summer,  msica sem trevas,
mas cheia daquela melancolia doce de quem perdeu as flores da vida. No faria
lembrar Jesus; antes imaginei que, se ele ali viesse, podia compor mais uma
parbola:

O reino dos cus  semelhante a
uma igreja, em cuja torre se tocam as valsas da terra; enquanto a torre chama a
danar, a igreja chama a rezar; bem-aventurados aqueles que, pela orao,
esquecerem a valsa, e deixarem murchar sem pena todas as rosas deste
mundo...

Outra dissonncia da quarta-feira
de trevas,  mas desta vez a culpa  do calendrio,  foi cair no dia primeiro
de abril. No consta que algum fosse embaado. A nica notcia de que haveria
aqui um terremoto, quinze horas depois de 31 de maro, no tirou o sono a
ningum, mormente depois que a gente de Valparaso viveu de terror pnico os
dias 29 e 30 daquele ms, por causa de igual fenmeno, igualmente anunciado. O
pequeno tremor do dia 1, em Santiago, no prova nada em favor da profecia ou da
cincia.

Todos os peixes apodrecem, leitor;
no  de admirar que os carapetes de abril, chamados peixes pelos franceses,
venham a ficar modos. Nesta cidade, em que h contos-do-vigrio, ningum j cai
nos laos de abril. A princpio caam muitos. O Correio Mercantil foi o
primeiro, creio eu, que se lembrou de inventar prodgios, exposies, embarques,
qualquer coisa extraordinria, na prpria manh daquele dia. Naquele tempo, se
me no engano, havia s a folhinha de Laemmert. Os jornais no as davam, menos
ainda as lojas de papel. Pouca gente se lembrava da fatal data. Os curiosos
corriam ao ponto indicado para ver o caso espantoso. A princpio esperavam; anos
depois, j no esperavam, mas passavam e tornavam a passar. Afinal era mais
fcil no acudir a ver uma coisa real, que a procurar uma inveno.

Conquanto a credulidade seja
eterna,  preciso fazer com ela o que se faz com a moda: variar de feitio.
Valentim Magalhes variou de feitio, limitando-se a dar este ttulo de Primeiro
de abril a um dos seus contos do livro agora publicado.  uma simples idia
engenhosa. Bricabraque  o nome do livro; compe-se de fantasias,
historietas, crnicas, retratos, uma idia, um quadro, uma recordao,
recolhidos daqui e dali, e postos em tal ou qual desordem. A variedade agrada, o
tom leve pe relevo  observao graciosa ou custica, e o todo exprime bem o
esprito agudo e frtil deste moo. O ttulo representa a obra, salvo um
defeito, que reconheci, quando quis reler alguma das suas pginas, Velhos Sem
Dono, por exemplo; o livro traz ndice. Um Bricabraque verdadeiro nem
devia trazer ndice. Quem quisesse reler um conto, que se perdesse a ler uma
fantasia.

A vida, que  tambm um
bricabraque, pela definio que lhe d Valentim Magalhes, (eu acrescentaria que
 algumas vezes um simples e nico negcio) a vida tem o seu ndice no
cemitrio; mas que preo que levam os impressores por esta ltima pgina! Agora
mesmo do os jornais notcia de um carro fnebre que chegou  casa do defunto
duas horas depois da pactuada. Acrescentam que, ao que parece, o coche foi
servir primeiro a outro defunto. Enfim, que  um carro velho, estragado e sujo,
no contando que a cova estava cheia de lodo, e que o custo total do enterro 
pesadssimo. Tudo isso forma o ndice da vida; esta pode ser cara, barata,
mediana ou at gratuita, mas a morte  sempre onerosa. Acusa-se disto a Empresa
Funerria. No pode ser; a culpa da impontualidade  antes dos que morrem em
desproporo com o material da empresa. Fala-se do privilgio. No h
privilgio, h educao da liberdade; assim como foi preciso preparar a
liberdade poltica, antes de a decretar, assim tambm  mister preparar a
liberdade funerria.

Cumpre notar que tal queixa em tal
semana  descabida. Tudo se deve perdoar por estes dias. Cristo, morrendo,
perdoou aos prprios algozes, por no saberem o que faziam. No se trata aqui
de algozes propriamente ditos, e pode ser tambm que a empresa no saiba o que
est fazendo. Em todo caso, a queixa devia ter sido adiada para amanh ou
depois.

Fao igual reflexo relativamente
ao juiz da comarca do Rio Grande, que, segundo telegramas desta semana, vai ser
metido em processo. A causa sabe-se qual . No consentiu o juiz em que os
jurados votem a descoberto, como dispe a reforma judiciria do Estado; afirma
ele que a Constituio Federal  contrria a semelhante clusula. No sou
jurista, no posso dizer que sim nem que no. O que vagamente me parece,  que
se o estatuto poltico do Estado difere em alguma parte do da Unio, 
impertinncia no cumprir o que os poderes do Estado mandam. Mas, de um ou de
outro modo, creio que no foi oportuno mandar falar agora sobre processo nem
censurar o magistrado antes de amanh.

Esta questo leva-me a pensar que,
se no puder conciliar o voto secreto com o voto pblico, ou ainda mesmo que se
conciliem,  ocasio de modificar a instituio, a ser verdade o que dizem dela
pessoas conspcuas. Na assemblia legislativa do Rio de Janeiro, o Sr. Alfredo
Watheley declarou h dois meses, entre outras coisas, que em regra o jri  um
passa-culpas. Ao que o Sr. Leoni Ramos aduziu:  muito raro que no jri,
perguntando o juiz aos jurados se precisam ouvir as testemunhas, eles respondam
que sim; dizem sempre que as dispensam. Tambm eu ouvi igual dispensa, mas
relativamente ao interrogatrio do prprio ru. Foi h muitos anos. Interrogado
sobre o delito, pediu ele para no falar de assuntos que lhe eram penosos, e os
jurados concordaram em no ouvi-lo. Realmente, o acusado merecia piedade, era um
caso de honra; mas dispensada a audincia do ru e das testemunhas, no tarda
que se faa o mesmo ao promotor e ao defensor, e finalmente  leitura do
processo, alis penosssima de ouvir, mormente se o escrivo apenas sabe
escrever.

12 de
abril

A Companhia Vila Isabel foi condenada a pagar ao
dono de um cavalo, morto por um de seus carros, a soma de sessenta contos de
ris. No  demais, tratando-se de animal de fina raa. Conheo pessoas que no
valem tanto; algumas podem dar-se de graa e no raras ainda levariam cem ou
duzentos mil ris de quebra. Tambm concordo que nem todos os cavalos possam
chegar a este preo. Mas, pouco ou muito, propriedade  propriedade. As
companhias de viao no podem deixar de aceitar com prazer uma deciso que
confirma o princpio dos dividendos e dos ordenados.

At agora estes desastres seguiam invariavelmente
os mesmos trmites. A vtima, bicho ou gente, morta ou ferida, caa
invariavelmente no meio da rua. A multido aglomerava-se em redor dela, olhando
calada como  seu pacfico costume. O cocheiro evadia-se.

A polcia abria inqurito, naturalmente rigoroso.
Toda esta tragdia podia resumir-se em um verso, mais ou menos assim: Crime
nefando! Rigoroso inqurito. As companhias por amor do clssico entendem que
tais tragdias so regidas pelos fados.

Eles  que matam, eles  que castigam.

As vtimas devem imitar Hiplito: Le ciel
marrache une innocente vie. A escriturao social fica sendo a mesma, e
tudo no fim d certo.

No entendeu assim o tribunal, que condenou a
companhia, de que se trata, a pagar a culpa do cocheiro.

A companhia, saltando de Racine a Shakespeare,
bradar: A horse! a horse! Sixty contos de ris for a horse!

 duro, mas se a vida s se compusesse de
dividendos, mais valia viv-la, que ir para o cu. A vida tem indenizaes.  o
algodo rude e simples, isto , as indenizaes sem dividendos.

A coisa mais natural agora  que pessoas que
perderam braos ou pernas por culpa dos cocheiros dos bonds, peam
indenizao as companhias, e naturalssimo  que os tribunais lhes dem razo.
Vamos ter grande economia de membros. No  crvel que uma companhia, depois de
desembolsar algumas dezenas de contos de ris, continue com o mesmo pessoal
culpado;  antes certo que faa escolha de bons cocheiros e, quando possa,
excelentes. Nem todos os cocheiros so imprestveis, grosseiros, desobedientes:
nem todos atropelam a gente pedestre; nem todos precipitam o carro antes que uma
senhora acabe de descer. Dizem at que h alguns, poucos, que quando bradam,
avisando:  Olha  esquerda! olha  direita! moderam naturalmente o galope dos
animais, para que os avisados tenham tempo de escapar as carroas ou andaimes
que esto no caminho. J que estou com a mo no judicirio, no deixarei de
dizer que o jri andou esta semana abarbado com processos velhos, to velhos que
no teve outro remdio seno ir absolvendo os acusados.

Um dos casos deu de si grave conseqncia. O roubo
foi cometido h um ano, e os dois rus deram entrada na Deteno, onde um deles
morreu. Tendo o jri absolvido o sobrevivente, segue-se que, se houve crime, os
criminosos no foram aqueles, e para que h de um inocente morrer no crcere,
longe da famlia e dos amigos, se  mais fcil fazer andar os processos
depressa?

Outro ru nem chegou a roubar, apenas fez uma
tentativa a formo; mas o delito deu-se em junho do ano passado, e s agora, em
abril,  que o ru pde ser julgado e absolvido.

Nem sempre gosto de citar exemplos alheios. Tambm
l fora h defeitos e graves. Mas se os processos fossem rpidos como em algumas
partes, mormente em pequenos crimes, creio que andaramos muito melhor. Agora
mesmo, lendo a audincia inicial do processo Jameson, vi que, enquanto esperava
por este invasor do Transwaal, o tribunal de Bow-Street ia julgando uma poro
de processos midos, entre eles o de um cocheiro que, na vspera, espancara a
mulher e a patrulha; foi condenado a um ms de hard labour. Note-se que o
delinqente estava brio no ato mas ao que parece os juzes de Londres, que no
so os de Berlim, entenderam no haver na embriaguez circunstncia atenuante,
mas agravante. E da talvez os de Berlim pensem a mesma coisa.

Em verdade os magistrados de Bow-Street parecem
demasiado severos.

Quando menos, o presidente no tem papas na lngua
para dizer um ou dois desaforos. Os espectadores, que eram muitos compunham-se
pela maior parte de lords e ladies, a fina flor da aristocracia
inglesa que ia vistoriar o doutor Jameson, por ter invadido a repblica
africana.

O dr. Jameson chegou, foi aclamado pela multido da
rua, e logo que apareceu na sala do tribunal, estouraram os gritos de entusiasmo
e de aplauso; o presidente declarou a princpio que faria evacuar a sala se o
tumulto continuasse.

Acabada a audincia, e marcado o dia para novo
comparecimento do acusado, o entusiasmo chegou ao delrio. As mais fidalgas
bocas proferiram as mais belas palavras. Foi ento que o presidente bradou da
cadeira estas outras palavras menos belas:

        Vs expondes
a Inglaterra ao desprezo do mundo!

No falo do envenenamento da rua do Ipiranga,
porque talvez no chegue a processo, e, quando chegue, no  agora ocasio de
tratar dele; no h crime, no h acusadores, no h nada.

Como, porm, a semana  toda judiciria, aqui est
o processo Damasceno, mais importante que outros, e que interessa deveras aos
competentes. Eu no sou competente, no trato do caso em si; mas estando a ler o
discurso de defesa, dei com uma palavra que me parece carecer de
retificao.

A concluso do discurso  a seguinte:

Refleti; acima da autoridade dos vossos julgados
est aquela que Pascal chamou a rainha do mundo... Creio que se refere 
opinio. Ora, Pascal disse justamente o contrrio: Cest la force qui
gouverne le monde; et non pas lopinion. Palavra que pareceria dura ao
leitor, se o filsofo no acrescentasse: mais lopinion est celle que use la
force.

Pois se  a fora que governa, ela que  a rainha;
e se a opinio gasta a fora, o mesmo sucede a todas as rainhas que adoecem e
morrem por outras causas.

Pascal fala certamente da opinio como rainha do
mundo, mas  quando cita um livro italiano do qual s conhecia o ttulo:
Della opinione; regina del mondo.

Declara que aceita o que nele estiver escrito,
exceto o mal, se contiver algum; mas como isto vem no fim de uma longa pgina em
que comea por chamar a opinio matresse derreur, segue-se que tudo
quanto ali ps,  a mais fina ironia.

19 de
abril

A semana foi de sangue, com uma ponta de loucura e
outra de patifaria. Felizes as que se compem s de flores e bnos, e mais
ainda as que se no compem de nada! Digo felizes para os que tm de tratar
delas. Neste caso, o cronista senta-se, pega na pena e deixa-a ir papel abaixo,
abenoado e florido, ou sem motivo e  cata de algum, que finalmente chega, como
deve suceder ao compositor nas teclas do piano. Quando menos pensa, esto as
laudas prontas, e acaso sofrveis. Mas v um homem, sem flores ou sem nada,
ocupar-se unicamente de anedotas tristes; e aborrecer os outros e no fazer
coisa que preste. As alegrias, ainda mal contadas, so alegrias.

Tenho idia de haver lido em um velho publicista
(mas h muitos anos e no posso agora cotejar a memria com o texto), que os
jornais, fechadas as cmaras e calada a poltica, atiram-se aos grandes crimes e
processos extraordinrios. No ter esta a expresso, mas o pensamento  esse, a
menos que no seja outro. Mas sim ou no, nem para o nosso caso serve, porquanto
s agora  que os crimes notveis aparecem e podem ser extensamente comentados,
quando as cmaras esto prestes reunir-se. Demais, tivemos algumas conversaes
polticas, no intervalo, por ocasio da moo do club militar, e agora mesmo
discute quem h de ser o presidente da cmara, se Pedro ou Paulo, se o apstolo
da circunciso, se o do prepcio. Uns querem que s tenham aceitao os da lei
antiga, outros dizem, como So Paulo aos glatas: Todos os que fostes batizado
em Cristo, revestistes-vos de Cristo; no h judeu nem grego... Talvez seja
melhor, para resolver este negcio, esperar que se rena o concilio de
Jerusalm.

Alm dessas duas questes polticas outras de menor
tomo, tivemos negcios externos, alguns tambm de sangue; mas sangue do sangue
vivo e prximo. Tivemos com que entreter o esprito. Menelik a expedio
Dongola, os derviches, Cuba, os raios X, Crispi e, agora, o levantamento dos
matabeles.

No, no quero sangue, nem loucuras, nem equvocos
de boticrios. A perda da vida ou da razo no  coisa prpria deste lugar.
Menos ainda o lenocnio, to triste como o resto. Se ao menos se pudesse tirar
de tais casos alguma concluso, observao ou expresso digna de nota, v; mas
nem isso encontro. Tudo  rido, vulgar e melanclico.

A questo do engano farmacutico  a nica em que
se poderia tocar sem asco ou tdio, ainda que com pavor. Em verdade, a dosagem
do arsnico por parte de uma pessoa que estudou farmcia em Coimbra, faz duvidar
de Coimbra ou da pessoa. Considerando, porm, que o erro dos homens e que s a
inteno constitui o mal, no se duvida nem da pessoa nem de Coimbra. O
verdadeiro mal no  esse. O mal verdadeiro  que, se os homens podem descrer de
tudo, sem grande perda ou com pouca, uma coisa h em que  necessrio crer
totalmente e sempre,  na farmcia. Tudo o que vier da farmcia, deve ser exato
e perfeito; a menor troca de substncias ou excesso de dose faz desesperar da
sade e at da vida, como sucedeu na rua do Ipiranga. Aquele grito do scio do
farmacutico: Desgraado, ests perdido! mostra a gravidade do ato, unicamente
em relao ao autor dele. Se esta fosse a nica e triste conseqncia, pouco
estaria perdido. Era um caso particular, como o que sucedeu, dois dias depois,
na farmcia Portela, em bairro oposto; a se trocou um laxativo por outro
remdio, e o paciente, que bebeu de uma vez o que devia ser tomado de duas em
duas horas, s no morreu porque o remdio no era de matar. No importa; no 
preciso que algum sucumba, basta a possibilidade da confuso dos
frascos.

Tambm no importa a confiana manifestada pelo
vivo da rua do Ipiranga, em relao  farmcia;  natural que a tenha, pois
conhece o pessoal e a competncia da casa. Outrossim em relao a farmcia
Portela, donde no saiu morte certa. Uma pessoa defunta, outra apenas enganada,
valem pouco relativamente  populao. Mas suponhamos que esta venha a descrer
de todas as farmcias da cidade. Nem todas sero servidas por vares prprios.
Alguma haver (no afirmo) em que jovens aprendizes, desejosos de praticar a
cincia antes que a vadiao, aviem as receitas dos mdicos. Sempre  melhor
ofcio que matar gente c fora, mas se da composio sair bito, tanto faz droga
como navalha. Se a descrena pegar, viro o terror e a absteno. Ningum mais
correr as boticas, e a farmcia ter de ceder ao espiritismo, que no mata, mas
desencarna.

H um recurso ltimo. Atribui-se a um claro
esprito deste pas a seguinte definio da farmcia moderna,  que  antes
confeitaria que farmcia. Esse homem, ex-deputado, ex-ministro, observou que as
vidraas das boticas esto cheias de frascos com pastilhas e outros confeitos.
Ora, at hoje no consta que tais medicamentos matem. O mais que pode suceder, 
no curarem sempre, ou s incompletamente, ou s temporariamente, ou s
aparentemente; mas no levam o desespero s famlias. So composies
estrangeiras, esto sujeitas a grandes taxas, custam naturalmente caro; mas se a
prpria vida  um imposto pago  morte, no  muito que lhe agravemos o preo.
No lhe acusem de estrangeirismo. No trato s dos inventos importados, mas
tambm dos nacionais, que no matam ningum, e curam muitas vezes. Pois tal ser
o recurso ltimo dos farmacuticos, quando o medo dos aviamentos imediatos
afastar os doentes das suas portas; encomendem preparados de fora e de dentro,
no faam mais nada em casa, e esperem.

Qualquer que seja o mal, porm, antes beber os
remdios suspeitos,  um pouco mais de arsnico, ou uma coisa por outra,  que
viver em Porto-Calvo (Alagoas) onde as carabinas trabalham, ora em nome do
assassinato, ora da simples poltica. As aes e os homens no do para uma
Ilada, conquanto na hecatombe da Conceio a palavra hecatombe
seja grega. No sucede o mesmo com Barro-Vermelho e Manuel Isidoro, nomes que
no valem os de Aquiles e Heitor. Li artigos, cartas, notcias dos sucessos,
chegados e publicados ontem. Numa das cartas diz o autor que, para prender
Manuel Isidoro, tinha recorrido  astcia do coronel Verssimo. Faz
lembrar Homero quando canta o artificioso Ulisses; mas, com franqueza,
prefiro Homero.

26 de abril

Terminaram as festas de
Shakespeare, diz um telegrama de Londres, 24, publicado anteontem, na
Notcia. Eu, que supunha o mundo perdido no meio de tantas guerras atuais
e iminentes, crises formidveis, prximas anexaes e desanexaes, respirei
como algum que sentisse tirar-lhe um peso de cima do peito. Que me importa j
saber se o prncipe da Bulgria comungou ou no, esta semana, tendo-lhe o papa
negado licena? Provavelmente no comungar mais, tudo por haver consentido que
o filho fosse batizado na religio ortodoxa. Quantos outros pais tero deixado
batizar os filhos em religies alheias, sem perder por isso o direito de
comungar; basta-lhes entrar na igreja prxima e falar ao vigrio. No so
prncipes, no governam, no correm o perigo das alturas.

Cuba, que me importa agora Cuba?
A religio
come gente, sangue e dinheiro; a independncia far-se- ou no. Segundo um homem
desconhecido, estava feita desde quarta-feira, e assim enganou a duas ou trs
folhas desta cidade, ao de muito mau gosto, no s pela inveno dos decretos
de Madri, como pela da morte de um hspede do Hotel de Estrangeiros. O dono
deste perdeu mais que ningum, pois que Cuba, tarde ou cedo, alcanar a
independncia, o cnsul e o ministro de Espanha explicaram-se, mas a morte do
hspede  mais que a de Maceo ou Mximo Gmez. Lede bem a carta com que o dono
do Hotel de Estrangeiros correu  Cidade do Rio para afirmar que o
defunto Villagarcia (se algum h desse nome) nunca ali esteve, que ningum
morreu nem adoeceu naquela casa, apesar da epidemia recente, que os seus
esforos foram grandes, e a notcia da morte ofende os seus interesses.  quase
um reclamo, ou  como dizem os mal-intencionados,  um
preconcio.

E to grave o fato de morrer
algum nas hospedarias, que o dono de uma delas, nesta cidade, s por fina
inspirao, pode h tempos salvar a honra do estabelecimento. No disse a
ningum que lhe morrera um hspede, mas que adoecera e queria ir-se embora.
Mandou vir um carro, fez meter dentro o cadver, com as cautelas devidas a um
enfermo, e sentou-se ao p dele.  Ento, que  isso? dizia ele ao cadver,
enquanto o cocheiro dava volta ao carro. O senhor, saindo daqui, vai piorar e
talvez morra; por que no fica? Aqui, antes de quinze dias, est curado e bom.
Ande, fique; se quer, mando o carro embora. No? Pois faz muito mal... Os
hspedes, que ouviam esta exortao, lastimavam a teimosia do enfermo, e
almoaram com o apetite do costume.

Guerras africanas, rebelies
asiticas, queda do gabinete francs, agitao poltica, a proposta da supresso
do Senado, a caixa do Egito, o socialismo, a anarquia, a crise europia, que faz
estremecer o solo, e s no explode porque a natureza, minha amiga,
aborrece este verbo, mas h de estourar, com certeza, antes do fim do sculo,
que me importa tudo isso? Que me importa que, na ilha de Creta, cristos e
muulmanos se matem uns aos outros, segundo dizem telegramas de 25? E o acordo,
que anteontem estava feito entre chilenos e argentinos, e j ontem deixou de
estar feito, que tenho eu com esse sangue que correu e com o que h de
correr?

Noutra ocasio far-me-ia triste a
notcia dos vinte e tantos autos roubados a uma pretoria desta cidade. Vinte e
um votaram ao cartrio, mas um deles no trazia petio inicial nem sentena,
por modo que ficou o processo intil. Uma destas manhs, estando o pretor
ocupado, vieram dizer-lhe que acabavam de furtar mais autos, correu ao cartrio,
viu que era exato. O mesmo pretor despediu h dias um empregado do cartrio, que
estava ao seu servio; a razo  porque o homem, mediante dinheiro, tomava a si
obter despachos favorveis. Chegou ao ponto, segundo li, de fazer caminhar bem
um negcio, a troco de certa quantia; recebida esta, fez desandar o negcio em
favor da outra parte; a troco de igual remunerao. Reincidncia ou
arrependimento? Eis a um mistrio.

Outro mistrio  que s vejo
publicadas as aes, no os nomes dos autores. Nem sempre  necessrio que estes
sejam dados ao prelo. Casos h em que o silncio  conveniente, no para impedir
que os autores fujam, mas por motivos que me escapam. Seja como for, ainda bem
que os autos se descobrem, os intermedirios de despachos desaparecem, e o ar
puro entra nas pretorias, na terceira, quero dizer, que  onde se deram os fatos
aqui narrados. Entretanto, outra seria a minha impresso disto, como do resto,
se no fosse o telegrama de Londres, 24.

Terminaram as festas de
Shakespeare... O telegrama acrescenta que o delegado norte-americano teve
grande manifestao de simpatia. O doutrina de Monroe, que  boa, como lei
americana,  coisa nenhuma contra esse abrao das almas inglesas sobre a memria
do seu extraordinrio e universal representante. Um dia, quando j no houver
imprio britnico nem repblica norte-americana, haver Shakespeare; quando se
no falar ingls, falar-se- Shakespeare. Que valero ento todas as atuais
discrdias? O mesmo que as dos gregos, que deixaram Homero e os
trgicos.

Dizem comentadores de Shakespeare
que uma de suas peas, a Tempest,  um smbolo da prpria vida do poeta e
a sua despedida. Querem achar naquelas ltimas palavras de Prspero, quando
volta para Milo, onde de cada trs pensamentos um ser para a sua sepultura,
uma aluso  retirada que ele fez do palco, logo depois. Realmente, morreu da a
pouco, para nunca mais morrer. Que valem todas as expedies de Dongola e do
Transvaal contra os combates do Ricardo III? Que vale a caixa egpcia ao p dos
trs mil ducados de Shylock? O prprio Egito, ainda que os ingleses cheguem a
possu-lo, que pode valer ao p do Egito da adorvel Clepatra? Terminaram as
festas da alma humana.

3 de
maio

Os jornais deram ontem notcia telegrfica de haver
sido assassinado o x da Prsia. To longe andamos da Prsia, e to pouco fez
aquele vivo faltar de si por estes tempos de agitao universal, que fiquei
assombrado. Supunha a Prsia extinta. No me lembrava sequer (a minha memria
est acabando) no me lembrava que ainda anteontem li, creio que no Jornal do
Comrcio, a notcia de que o x da Prsia possua o maior tesouro de jias,
um valor de 300.000:000$000 (trezentos mil contos de ris). Possua e possui,
porquanto naquelas partes como nas outras, x morto, x posto.
Caiu Nass-ed-dine; vai subir Monraffer-ed-dine.

Vede o que so almas fanticas. No foram os
trezentos mil contos de ris das jias que armaram o brao do homicida, mas um
motivo religioso. O x ia justamente entrando no santurio para rezar. Se o
motivo fosse outro,  provvel que o assassino adiasse o assassinato, repetindo
com Hamlet: Agora no; seria mand-lo para o cu! Ao contrrio, desde que o
x ia rezar pela sua seita, no iria para o cu, segundo o assassino; boa
ocasio de o mandar ao diabo. Vede o que so almas fanticas.

H para mim, alm da catstrofe, um ponto mui
aborrecido:  o tiro. Persas e gentes semelhantes, se me quiserem interessar,
como os antigos, no ho de ter plvora. O punhal e a espada  que esto bem. As
tragdias matam a ferro frio. Carnot e Lincoln caram a golpes de arma branca.
Como  que, longe de centros cristos e prosaicos, em plena vida oriental e
potica, um fantico pega de uma espingarda ou trabuco, para vingar um texto ou
um smbolo? Vai nisso um tanto de precauo, que se no ajusta bem ao fanatismo,
no contando a falta de esttica. Seja como for, pobre x, tiveste de entregar a
vida quando ias buscar a fonte da vida, ou o que supunhas tal.

Os persas, segundo leio no padre Manuel Godinho,
que por ali andou em 1663, tem uma paixo to grande, to forte e to absorvente
que devia excluir qualquer outra. No sei se chegareis a entend-lo, ainda que
vos copie aqui os prprios termos do padre: so claros os termos, mas por isso
mesmo que claros, obscenos. Eis o texto: So to sobremaneira luxuriosos (os
persas), no se contentando nem com muitas mulheres. Uma paixo destas
to extensa parece no dar campo ao fanatismo. Nem com muitas mulheres; ento
com quantas? Das mulheres, escreve o padre que so lascivas e se acrescenta
que de ruim bofe, no  para se desmentir a si prprio; estas
qualidades podem viver juntas.

Isto prova que o sangue h de sempre jorrar em toda
a parte, desde os tronos at s mais simples esteiras. Aqui mesmo, esta semana,
houve dois outros casos de mortes misteriosas e interessantes. Um deles foi o de
um velho que sucumbiu a pau ou a faca, no me lembra bem qual o instrumento. J
acima disse que a memria me vai morrendo. Depois de morto foi enterrado.
Suspeitou-se do crime, e indo comear o processo do indigitado autor, acudiu
naturalmente a idia de autopsiar o cadver, que  o primeiro ato dos inquritos
criminais. Infelizmente o cadver fora enterrado na vala comum. Surdiu o receio
de empestear a cidade, abrindo uma vala onde jaziam dezesseis cadveres em
putrefao, alguns de febre amarela. Quando no fizesse mal  cidade, podia
faz-lo aos exumadores e aos prprios mdicos encarregados da autopsia. Dali
algumas consultas, cuja soluo final foi a nica possvel,  negar a exumao.
De resto, uma das ordens trocadas observo que, sem embargo da autopsia, as
testemunhas do crime bastavam s necessidades da justia.

Em verdade,  possvel que a exumao matasse
alguns dos oficiais, mdicos ou no, desse lgubre ofcio. Suponhamos que
morriam trs. A tnhamos trs inocentes condenados  morte que a marcha do
processo podia e pode chegar ao resultado negativo, isto , que o suposto ru
no praticou o crime, ou se cometeu foi impelido por violncia irresistvel
ou ameaa acompanhada de perigo atual, como ainda esta semana decidiu o
jri, creio que nos termos do cdigo, e certamente nos da verdade. Ora, tendo-se
acabado com pena de morte,  justo estender este benefcio aos mdicos e seus
colaboradores, ficando a pena limitada  vtima, cujo silncio eterno pede
igualmente eterno repouso.

Nem falo disto seno para notar que a vala comum
foi agora objeto de grandes lstimas. Muitos confessaram que a supunham acabada.
Outros pediram que se acabasse com ela. Sempre ouvi falar com tristeza da vala
comum. Este ltimo leito, em que se perde at o nome e no se tem o favor de
apodrecer sozinho, destinava-se antigamente aos pobres e aos escravos. A lei
acabou com os escravos, e deixou os pobres consigo mesmos.

Politicamente,  a vala comum o terror dos homens.
Ouvi maldizer dela, muitas
vezes, com indignao, e anunci-la com
perversidade:  No hei de cair na vala comum!  Na vala comum j h muito
caiu V. Ex!  O Sr. presidente:  Ateno! E ouvi ainda coisa pior, como
prova de que o desprezo e o abandono em poltica so insuportveis. Ouvi um dia,
h muitos anos, um discurso na cmara dos deputados, cujo autor se lastimava de
ser co sem dono. Era um modo de dizer que o partido o no queria. Realmente,
era lastimvel. Um homem parlamentar que no tem quem lhe faa festas, quem lhe
d ordens ou lhe mande recados, no  soldado de partido, no  nada,  uma
sombra. No me lembra o nome nem a figura do representante.  o que vos disse
trs vezes, acima: vou perdendo a memria. No cuideis que so achaques da
idade. H de haver a alguma complicao psicolgica.

Vede se no. No atino com o lugar em que se deu h
dias,  poucos dias, um interrogatrio feito a pessoa acusada de um crime...
Tambm no menciono o crime; suponhamos que foi um roubo. H crimes de roubo. O
indigitado no queria confessar que o praticara; negava a ps juntos, com tal
tranqilidade, por mais que o juiz fizesse, que a esta hora estaria na rua se o
escrivo no pegasse das rdeas do interrogatrio. To habilmente foi cercando o
ru, que ele acabou confessando tudo. O escrivo fazia as perguntas, ouvia as
respostas, e ditava-as todas a si mesmo. Uma vez que a verdade saiu do poo
tanto melhor. O nico ponto duvidoso na matria de ritual; mas, ainda assim, no
conhecendo eu leis nem praxes, no sei se os escrives podem ir alm do
escrever. Os hbitos eclesisticos so diversos. Conheo sacristes, verdadeiros
modelos de piedade e latim, que se limitam a ajudar na missa; no abenoam os
fiis, como o oficiante; respondem a este, levam-lhe as galhetas, pegam-lhe na
capa e se tangem na campainha e para pr as vrgulas espirituais no sagrado
texto.

10 de
maio

Como eu andasse a folhear leis, alvars, portarias
e outros atos menos alegres, dei com um que me fez vir gua  boca.  de 1825. A
primeira assemblia geral legislativa devia reunir-se em 3 de maio de 1826.
Muitos deputados podiam vir com antecedncia e aguardar aqui longo tempo a
abertura das cmaras. Ento o governo, considerando que eles deviam at l
subsistir com decncia, mandou abonar a cada um, desde que chegasse, a quantia
mensal de cem mil ris.

 tempora!  mores! Cem mil ris! Tempos de cem mil ris mensais!
Comeram, vestiram, receberam, possivelmente casaram, tudo com cem mil ris por
ms! E tal poupado ter havido, que ainda deixou ao canto da gaveta umas cinco
patacas; no juro, mas no contesto. Bem sei que, remontando  legislao, vamos
achar sentenas e ordenados de cem mil ris, no por ms, mas por ano, cinqenta
mil ris, vinte e cinco, e menos. Mas tais atos no so histricos. So a
mitologia da moeda. Valem o que valem os reis de Tito Livio e peo perdo
dessa aparncia de trocadilho, que  apenas um cotejo de fbulas.

Com tal dinheiro (cem mil ris mensais) poderiam
acaso os deputados daquele tempo andar nesta Capital em carruagem de quatro
bestas? Podiam; eis aqui o decreto de 2 de outubro de 1825: No se verificando
nesta corte (diz ele) os motivos que na de Lisboa fizeram necessrio que nenhuma
pessoa, de qualquer condio que fosse, pudesse andar naquela cidade, e na
distncia de uma lgua dela em carruagem de mais de duas bestas, hei por bem
ordenar que, sem embargo do dito alvar, ou de qualquer outra ordem em
contrrio, todas as pessoas que gozam de tratamento de Excelncia, possam andar
em carruagem de quatro bestas. Ora, os deputados tinham o tratamento de
Excelncia. Uma vez que fossem poupados, podiam muito bem dar-se ao gosto da
carruagem de quatro bestas, sem que a polcia (a polcia do Arago) os
recolhesse ao aljube.

No esqueamos que a independncia datava de 1822,
e a Constituio de 1824. No ttulo VIII desta achavam-se inscritos os direitos
civis e polticos dos cidados. No estava l o direito s quatro bestas. Podia
entender-se que este direito era contido nos outros? Teoricamente, sim;
praticamente no. No dou em prova disto o ato do ano anterior, 1824, mandando
que s pessoas de primeira considerao se no concedesse mais que trs criados
de porta acima, e s de segunda somente um. Este ato, conquanto posterior a
independncia,  anterior  Constituio,  de 7 de janeiro. Por isso mesmo  um
pouco mais restritivo que o decreto de 1825. Abolindo o alvar das quatro
bestas, o decreto de 1825 limitou o gozo delas s pessoas que tinham o
tratamento de Excelncia, ao passo que o ato de 1824 nem s prprias pessoas de
primeira considerao consentia mais de trs criados de porta acima.

Outra diferena entre os dois atos est na
designao das pessoas. O tratamento de Excelncia era claro; tinha-se pelo
cargo ou por decreto. Mas por onde se distinguiam as pessoas de primeira
considerao das de segunda? Eis a um ponto obscuro. Eram todas de casa de
soprado (criados de porta acima), mas no h outra definio. Quero supor que,
como o ato de 1824 foi expedido ao intendente da polcia, deixou a este, que era
o tremendo Arago, o cuidado de distinguir os seus policiados. Considerando
melhor, acho que a distino seria fcil, graas  populao pequena,  tradio
e estabilidade das classes. A vontade das pessoas  que no podia servir de
regra, como se faz com as declaraes de renda; no se consultando mais nada,
todas seriam de considerao mais que primeiras.

Aqui vai agora como eu separo as liberdades
tericas das liberdades prticas. A liberdade pode ser comparada s calas que
usamos. Virtualmente existe em cada corte de casimira um par de calas; se o
compramos, as calas so nossas. Mas  mister talh-las, alinhav-las,
prov-las, cos-las e pass-las a ferro, antes de se vestir. Ainda assim h tais
que podem sair mais estreitas do que a moda e a graa requerem. Da esse
paralelismo da liberdade do voto e da limitao dos criados e das bestas.  a
liberdade alinhavada. No se viola nenhum direito; trabalha-se na oficina.
Prontas as calas,  s vesti-las e ir passear.

Um pouco de psicologia dos tempos. Isto que me faz
discorrer e examinar para acabar de entender, ningum com certeza achou
descurial naqueles anos de infncia. Outro pouco de psicologia poltica.
Governos novos so naturalmente ciosos da existncia. Pedro I decretou e mandou
jurar a Constituio em 25 de maro, e logo em 15 de maio ordenava aos
presidentes da provncia, aos tribunais e reparties da capital, que em todas
as informaes que houvessem de dar, declarassem se as pessoas a quem elas se
referissem, tinham jurado a Constituio. Talvez est clusula no adiantasse
nada aos direitos pessoais do requerente, mas era um impulso de nascena. A
Constituio queria viver. Quanto ao esprito nativista, eis aqui um ato bem
caracterizado. Um dia, em 1825, constou ao imperador que muitos indivduos, no
sditos do imprio, usavam do lao nacional e flor verde, e legenda no brao
esquerdo, para se inculcarem cidados brasileiros. Baixou logo um aviso mandando
proceder contra os que assim se disfaram, com o fim de conseguir por esse
doloso procedimento a proteo das leis, a que s tm direito os verdadeiros
sditos o imprio.

Basta de legislao.  de mais para quem apenas
quer algumas notas acerca da semana. O que me pode justificar,  o fato de ser a
principal nota da semana a chegada de deputados e senadores. No se fez a
abertura no dia 3 de maio, marcado na Constituio de 1891, como na de 1824. Se
considerarmos que a primeira assemblia geral legislativa tambm se no abriu no
dia 3 de maio, julgaremos com outra moderao. Algum lembrou agora que abertura
se fizesse sempre no dia 3 de maio, qualquer que fosse o nmero dos presentes.
Pois a mesma idia apareceu em 1826, e foi a prpria Cmara dos Deputados,
reunida em 30 de abril, que o mandou propor ao governo, dizendo que nada tinha o
ato da abertura com os trabalhos das sesses. Ao que o governo respondeu, por
aviso de 1 de maio, que entendia de modo contrrio e que continuassem as sesses
preparatrias.

A matria  discutvel; mas basta de legislao!
basta de legislao!

17 de maio

Era no bairro Carceler, s sete
horas da noite.

A cidade estivera agitada por
motivos de ordem tcnica e politcnica. Outrossim, era a vspera da eleio de
um senador para preencher a vaga do finado Aristides Lobo. Dois candidatos e
dois partidos disputavam a palma com alma. V de rima; sempre  melhor que
disput-la a cacete, cabea ou navalha, como se usava antigamente. A garrucha
era empregada no interior. Um dia, apareceu a Lei Saraiva, destinada a fazer
eleies sinceras e sossegadas. Estas passaram a ser de um s grau. Oh! ainda
agora me no esqueceram os discursos que ouvi, nem os artigos que li por esses
tempos atrs, pedindo a eleio direta! A eleio direta era a salvao pblica.
Muitos explicavam: direta e censitria. Eu, pobre rapaz sem experincia, ficava
embasbacado quando ouvia dizer que todo o mal das eleies estava no mtodo;
mas, no tendo outra escola, acreditava que sim, e esperava a lei.

A lei chegou. Assisti s suas
estrias, e ainda me lembro que na minha seo ouviam-se voar as moscas. Um dos
eleitores veio a mim, e por sinais me fez compreender que estava entusiasmado
com a diferena entre aquele sossego e os tumultos do outro mtodo. Eu, tambm
por sinais, achei que tinha razo, e contei-lhe algumas eleies antigas. Nisto
o secretrio comeou a suspirar felizmente os nomes dos eleitores. Presentes,
posto que censitrios, poucos. Os chamados iam na ponta dos ps at  urna, onde
depositavam uma cdula, depois de examinada pelo presidente da mesa; em seguida
assinavam silenciosamente os nomes na relao dos eleitores, saam com as
cautelas usadas em quarto de moribundo. A convico  que se tinha achado a
panacia universal.

Mas, como ia dizendo, era no
Bairro Carceler s 7 horas da noite.

O Bairro Carceler estava quase
solitrio. Um ou outro homem passava, mulher nenhuma, rara loja aberta, e mal se
ouviam os bonds que chegavam e partiam. Eu ia andando  procura do Hotel
do Globo. Recordava coisas passadas, um incndio, uma festa, a ponte das barcas
um pouco adiante, a Praia Grande do outro lado, e a assemblia provincial,
vulgarmente chamada salinha. A salinha acabou, e a Praia Grande ficou
decapitada, passando a assemblia com outra feio a legislar em Petrpolis. Nem
por isso perdeu as metforas de outro tempo. Ainda agora, em Petrpolis, um
orador devolveu a outro as injrias que lhe ouvira; devolveu-as intactas, tal
qual se costumava na antiga Praia Grande. As injrias devolvidas intactas no
ferem. Algumas vezes arredam-se com a ponta da bota, ou deixam-se cair no tapete
da sala; mas a melhor frmula  devolv-las intactas. A ponta da bota  um
gesto, a queda no tapete  desprezo, mas para injrias menores. A ltima frmula
de desdm, a mais enrgica,  devolv-las intactas. Quem inventou este modo de
correspondncia, est no cu.

Chego ao Hotel do Globo. Subo ao
segundo andar, onde acho j alguns homens. So convivas do primeiro jantar
mensal da Revista Brasileira. O principal de todos, Jos Verssimo, chefe
da Revista e do Ginsio Nacional, recebe-me, como a todos, com aquela
afabilidade natural que os seus amigos nunca viram desmentida um s minuto. Os
demais convivas chegam, um a um, a literatura, a poltica, a medicina, a
jurisprudncia, a armada, a administrao... Sabe-se j que alguns no podem
vir, mas viro depois, nos outros meses.

Ao fim de poucos instantes,
sentados  mesa, lembrou-me Plato; vi que o nosso chefe tratava no menos que
de criar tambm uma Repblica, mas com fundamentos prticos e reais. O Carceler
podia ser comparado, por uma hora, ao Pireu. Em vez das exposies, definies e
demonstraes do filsofo, vamos que os partidos podiam comer juntos, falar,
pensar e rir, sem atributos, com iguais sentimentos de justia. Homens vindos de
todos os lados,  desde o que mantm nos seus escritos a confisso monrquica,
at o que apostolou, em pleno imprio, o advento republicano  estavam ali
plcidos e concordes, como se nada os separasse.

Uma surpresa aguardava os
convivas, lembrana do anfitrio. O cardpio (como se diz em lngua brbara)
vinha encabeado por duas epgrafes, nunca escritas pelos autores, mas to
ajustadas ao modo de dizer e sentir, que eles as incluiriam nos seus livros. No
 dizer pouco, em relao  primeira, que atribui a Renan esta palavra:
Celebrando a Pscoa, disse o encantador profeta da Galilia: tolerai-vos uns
aos outros;  o melhor caminho para chegardes a amar-vos...

E todos se toleravam uns aos
outros. No se falou de poltica, a no ser alguma palavra sobre a fundao dos
Estados, mas curta e leve. Tambm se no falou de mulheres. O mais do tempo foi
dado s letras, s artes,  poesia,  filosofia. Comeu-se quase sem ateno. A
comida era um pretexto. Assim voaram as horas, duas horas deleitosas e breves.
Uma das obrigaes do jantar era no haver brindes: no os houve. Ao deixar a
mesa tornei a lembrar-me de Plato, que acaba o livro proclamando a imortalidade
da alma; ns acabvamos de proclamar a imortalidade da
Revista.

C fora esperava-nos a noite,
felizmente tranqila, e fomos todos para casa, sem maus encontros, que andam
agora freqentes. H muito tiro, muita facada, muito roubo, e no chegando as
mos para todos os processos, alguns ho de ficar esperando. Ontem perguntei a
um amigo o que havia acerca da morte de uma triste mulher; ouvi que a morte era
certa, mas que, tendo o vivo desistido da ao, ficou tudo em nada. Jurei aos
meus deuses no beber mais remdio de botica. A impunidade  o colcho dos
tempos; dormem-se a sonos deleitosos. Casos h em que se podem roubar milhares
de contos de ris... e acordar com eles na mo.

24 de
maio

A gente que andou esta semana pela rua do Ouvidor,
mal ter advertido que, enquanto mirava as moas, se eram homens, ou as
vitrinas, se eram moas, matava-se a ferro e fogo em Manhuau. Eis o telegrama
de Juiz de Fora, 18: Desde o dia 11, s 10 horas da manh, est tratado em
Manhuau terrvel combate, dia e noite,  carabina e dinamite, entre os
partidrios de Costa Mattos e Serafim. O conflito nasceu de ter sido Costa
Mattos nomeado delegado de polcia, e, investido do cargo, haver mandado
desarmar um empregado de Serafim. Tem havido mortes e ferimentos.

H, pois, alm de outros partidos deste mundo, um
partido Serafim e um partido Costa Mattos. Quem seja este Csar, nem este
Pompeu, no  coisa que me tenha chegado aos ouvidos; mas devem ser homens de
valor, desabusados, capazes de lutar em campo aberto e matar sem d nem piedade.
A causa do conflito parece pequena, vista aqui da rua do Ouvidor, entre trs e
cinco horas da tarde; mas ponha-se o leitor em Manhuau, penetre na alma de
Serafim, encha-se da alma de Mattos, e acabar reconhecendo que as causas valem
muito ou pouco, segundo a zona e as pessoas. O que no daria aqui mais de uma
troca de mofinas, d carabina e dinamite em outras paragens.

Mas no  s em Manhuau que se morre a ferro e
fogo. A cidade de Lenis passou por igual ou maior desolao. Soube-se aqui,
desde o dia 18, que um bando de clavinoteiros marchava ao assalto da cidade, no
s para tom-la, como para matar o coronel Felisberto Augusto de S, senador
estadual, e o Dr. Francisco Carib. O governo da Bahia mandou duzentas praas em
socorro da cidade. Tarde haver chegado o socorro, se chegou; o assalto deu-se a
17, entrando pela cidade os clavinoteiros capitaneados por Jos Montalvo.
Escaparam Felisberto e Carib, no meio de grande carnificina, que parece ter
continuado.

No se pense que, por ir escrevendo sem ponto de
exclamao, deixo de sentir a dor dos mortos.  duro ler isto; mas  preciso
pairar acima dos cadveres. Tem-se discutido aqui sobre a lei da recapitulao
abreviada. Se tal lei existe, Manhuau e Lenis esto na fase do romantismo
sangrento, quando a nossa capital j passou o naturalismo cru e entra no duro
misticismo.

Tempo vir em que Manhuau e Lenis vejam as suas
notas de 100$ e 200$ andarem de Herodes para Pilatos, sem saber por que  que
Herodes as condena, nem por que  que Pilatos lava as mos. Ouviro dizer que
por serem falsas,  ou (resto de naturalismo) falsas e at farsas.
Tero os seus inquritos, os seus bilhetes e camarote de teatro, e a perptua
escurido do negcio, que  o pior. Un p pi di luce, como queria h
anos um poltico italiano, no  mau. As comdias mais embrulhadas acabam
entendidas; podem ser feitas sem talento, nem critrio, mas os autores sabem que
o pblico deseja ir para casa com as idias claras, a fim de dormir tranqilo, e
fazem casar os bbados. As notas falsas de Lenis e Manhuau no sairo do puro
mistrio.  a condio do gnero. Creio que disse mistrio, em vez de ocultismo,
que define melhor este gnero de recreao.

Verdade  que o tempo  sempre tempo, e no sei
porque no suceder na Amrica o que acontece na Europa. A morte da Malibran
(releiam Musset) em quinze dias era notcia velha. Sans doute il est trop
tard... Releiam os belos versos do poeta. Dentro de quinze dias, ningum
mais se lembra do camarote de teatro de Lenis, nem do inqurito, nem do nmero
65.609, nem de nada de Manhua. A vida  to aborrecida, que no vale a pena
atar as asas s melancolias de arribao. Voais melancolias! voais, notas! ide
para onde vos chamam os gozos fceis e pagos...

Ia-me perdendo em suspiros. Ponhamos p em terra, e
deixemos Costa Mattos contra Serafim, e Montalvo contra Felisberto. Viver 
lutar, e morrer  acabar lutando, que  outro modo de viver. No sei se me
entendem. Eu no me entendo. Digo estas coisas assim,  laia de trocado
engenhoso, para tapar o buraco de uma idia.  o nosso ofcio de pedreiros
literrios. A vantagem  que, enquanto trabalhamos de trolha, a idia aparece,
ou a memria evoca um simples fato, e a pena refaz o ao, e o escrito continua
direito.

Para no ir mais longe, vamos ao largo da Carioca.
Li que um agente de polcia
entrando em um bond no largo da Lapa,
descobriu certo nmero de gatunos entre os passageiros. Alguns preparavam-se
contra um velho, e o agente preparou-se contra eles. No largo da Carioca o velho
pde escapar  tentativa, mas o agente, ajudado de uma praa, capturou alguns; a
maior parte fugiu. At aqui tudo  vulgar como um maador de bond. O
resto no  raro nem original, mas  grandioso.

Cerca de quinhentas pessoas aglomeraram-se no
largo, em volta dos presos e os agentes da fora. O primeiro grito, o grito
largo e enorme foi: No pode! No pode! Quando este grito sai dos peitos
da multido,  como a voz da liberdade de todos os sculos opressos. A primeira
idia de quinhentas pessoas juntas, ou menos (cinqenta bastam),  que toda
priso  inqua, todo agente da autoridade um verdugo. Imagine-se o que
aconteceria no largo da Carioca, se o agente no tivesse ocasio de contar o que
se passara e a qualidade das pessoas presas. A explicao abrandou os espritos,
e salvo alguns que, passando ao extremo oposto, gritaram: Mata! Mata!
todos se conformaram com a simples priso. Os gatunos  que se no conformaram
com a delegacia para onde os queriam levar. Iam ser conduzidos  5. delegacia e
pediram a 6, por ser aquela onde haviam sido presos. Esta preocupao de
observncia regulamenta em simples gatunos, faz descrer do vcio.

Em todo caso, vemos que o vicioso, desde que no
pode escapar  justia, teve a virtude de reclamar pela lei. O virtuoso, antes
de saber do vcio, clama j contra a represso. No se defenda esse caso com o
da mulher que, por suspeita de alienada morreu de hemorragia no xadrez;
porquanto, o da mulher  posterior, e no se sabe ainda se houve nele abuso, ou
simples uso antigo. Costume faz lei, e quem padece de hemorragias, no deve ter
tempo de endoidecer.

Esquecia-me dizer que o bond era e eltrico.
Se os gatunos eram gordos, no sei. Magros que fossem era difcil que viessem
comodamente, sendo de cinco pessoas por banco a lotao dos bonds
eltricos; mas no pode haver melhor lotao para sacar uma carteira. Pela minha
parte, tendo sonhado que a lotao era legal, aceitei-a, com a inteno de
requerer ao Conselho Municipal que alterasse o contrato, embora indenizando a
companhia. Mas afirmaram-me que, no s  ilegal, como at j foi a companhia
interrogada sobre as cinco pessoas por banco, aproveitando-se a ocasio para
indagar dos motivos por que continuam os comboios. Ou no houve resposta ou foi
satisfatria. Prefiro a primeira hiptese. H ainda um lugar para a
esperana.

31 de maio

A fuga dos doidos do Hospcio 
mais grave do que pode parecer  primeira vista. No me envergonho de confessar
que aprendi algo com ela, assim como que perdi uma das escoras da minha alma.
Este resto de frase  obscuro, mas eu no estou agora para emendar frases nem
palavras. O que for saindo saiu, e tanto melhor se entrar na cabea do
leitor.

Ou confiana nas leis, ou
confiana nos homens, era convico minha de que se podia viver tranqilo fora
do Hospcio dos Alienados. No bond, na sala, na rua, onde quer que se me
deparasse pessoa disposta a dizer histrias extravagantes e opinies
extraordinrias, era meu costume ouvi-la quieto. Uma ou outra vez sucedia-me
arregalar os olhos, involuntariamente, e o interlocutor, supondo que era
admirao, arregalava tambm os seus, e aumentava o desconcerto do discurso.
Nunca me passou pela cabea que fosse um demente. Todas as histrias so
possveis, todas as opinies respeitveis. Quando o interlocutor, para melhor
incutir uma idia ou um fato, me apertava muito o brao ou me puxava com fora
pela gola, longe de atribuir o gesto a simples loucura transitria, acreditava
que era um modo particular de orar ou expor. O mais que fazia, era persuadir-me
depressa dos fatos e das opinies, no s por ter os braos mui sensveis, como
porque no  com dois vintns que um homem se veste neste tempo.

Assim vivia, e no vivia mal. A
prova de que andava certo,  que no me sucedia o menor desastre, salvo a perda
da pacincia; mas a pacincia elabora-se com facilidade;  perde-se de manh, j
de noite se pode sair com dose nova. O mais corria naturalmente. Agora, porm,
que fugiram doidos do hospcio e que outros tentaram faz-lo (e sabe Deus se a
esta hora j o tero conseguido), perdi aquela antiga confiana que me fazia
ouvir tranqilamente discursos e notcias.  o que acima chamei uma das escoras
da minha alma. Caiu por terra o forte apoio. Uma vez que se foge do hospcio dos
alienados (e no acuso por isso a administrao) onde acharei mtodo para
distinguir um louco de um homem de juzo? De ora avante, quando algum vier
dizer-me as coisas mais simples do mundo, ainda que me no arranque os botes,
fico incerto se  pessoa que se governa, ou se apenas est num daqueles
intervalos lcidos, que permitem ligar as pontas da demncia s da razo. No
posso deixar de desconfiar de todos.

A prpria pessoa,  ou para dar
mais claro exemplo,  o prprio leitor deve desconfiar de si. Certo que o tenho
em boa conta, sei que  ilustrado, benvolo e paciente, mas depois dos sucessos
desta semana, quem lhe afirma que no saiu ontem do Hospcio? A conscincia de
l no haver entrado no prova nada; menos ainda a de ter vivido desde muitos
anos, com sua mulher e seus filhos, como diz Lulu Senior.  sabido que a
demncia d ao enfermo a viso de um estado estranho e contrrio  realidade.
Que saiu esta madrugada de um baile? Mas os outros convidados, os prprios
noivos que sabero de si? Podem ser seus companheiros da Praia Vermelha. Este 
o meu terror. O juzo passou a ser uma probabilidade, uma eventualidade, uma
hiptese.

Isto, quanto  segunda parte da
minha confisso. Quanto  primeira, o que aprendi com a fuga dos infelizes do
Hospcio,  ainda mais grave que a outra. O clculo, o raciocnio, a arte com
que procederam os conspiradores da fuga, foram de tal ordem, que diminuiu em
grande parte a vantagem de ter juzo. O ajuste foi perfeito. A manha de dar
pontaps nas portas para abafar o rumor que fazia Serro arrombando a janela do
seu cubculo,  uma obra-prima; no apresenta s a combinao de aes para o
fim comum, revela a conscincia de que, estando ali por doidos, os guardas os
deixariam bater  vontade, e a obra da fuga iria ao cabo, sem a menor suspeita.
Francamente, tenho lido, ouvido e suportado coisas muito menos
lcidas.

Outro episdio interessante foi a
insistncia de Serro em ser submetido ao tribunal do jri, provando assim tal
amor da absolvio e conseqente liberdade, que faz entrar em dvida se se trata
de um doido ou de um simples ru. No repito o mais, que est no domnio pblico
e ter produzido sensaes iguais s minhas. Deixo vacilante a alma do leitor.
Homens tais no parecem artfices de primeira qualidade, espritos capazes de
levar a cabo as questes mais complicadas deste mundo?

No quero tocar no caso de
Paradeda Jnior, que l vai mar em fora, por ach-lo tardio. Meio sculo antes,
era um bom assunto de poema romntico. Quando, alto mar, o infeliz revelasse,
por impulso repentina, o seu verdadeiro estado mental, a cena seria terrvel, e
a inspirao germnica, mais que qualquer outra, acharia a uma bela pgina. O
poema devia chamar-se Der nrrische Schiff.Descrio do mar, do navio e
do cu; a bordo, alegria e confiana. Uma noite, estando a lua em todo o
esplendor, um dos passageiros contava a batalha de Leipzig ou recitava uns
versos de Uhland. De repente, um salto, um grito, tumulto, sangue: o resto seria
o que Deus inspirasse ao poeta. Mas, repito, o assunto  tardio.

De resto, toda esta semana foi de
sangue,  ou por poltica, ou por desastre, ou por desforo pessoal. O acaso
luta com o homem para fazer sangrar a gente pacata e temente a Deus. No caso de
Santa Teresa, o cocheiro evadiu-se e comeou o inqurito. Como os feridos no
pedem indenizao  companhia, tudo ir pelo melhor no melhor dos mundos
possveis. No caso da Copacabana, deu-se a mesma fuga, com a diferena que o
autor do crime no  cocheiro; mas a fuga no  privilgio de ofcio, e, demais,
o criminoso j est preso. Em Manhuau continua a chover sangue, tanto que
marchou para l um batalho daqui. O comendador Ferreira Barbosa, (a esta hora
assassinado) em carta que escreveu o diretor da Gazeta e foi ontem
publicada, conta minuciosamente o estado daquelas paragens. Os combates tm sido
medonhos. Chegou a haver barricadas. Um annimo declarou pelo Jornal do
Comrcio que, se a comarca de So Francisco tornar  antiga provncia de
Pernambuco, segundo props o Sr. Senador Joo Barbalho, no ir sem sangue.
Sangue no tarda a escorrer do jovem Estado (peruano) do Loreto...

Enxuguemos a alma. Ouamos, em vez
de gemidos, notas de msica. Um grupo de homens de boa vontade vai dar-nos
msica velha e nova, em concertos populares, a preo cmodo. Venham eles, venham
continuar a obra do Clube Beethoven, que foi por tanto tempo o centro das
harmonias clssicas e modernas. Tinha de acabar, acabou. Os Concertos
populares tambm acabaro um dia, mas ser tarde, muito tarde, se
considerarmos a resoluo dos fundadores, e mais a necessidade que h de
arrancar a alma ao tumulto vulgar para a regio serena e divina... Um abrao ao
Dr. Lus de Castro.

Pela minha parte, proponho que,
nos dias de concerto, a Companhia do Jardim Botnico, excepcionalmente, meta dez
pessoas por banco nos bonds eltricos, em vez das cinco atuais. Creio que
no haver representao  Prefeitura, pois todos ns amamos a msica; mas dado
que haja, o mais que pode suceder,  que a Prefeitura mande reduzir a lotao 
quatro pessoas do contrato; em tal hiptese, a companhia pedir como agora,
segundo acabo de ler, que a Prefeitura reconsidere o despacho,   e as dez
pessoas continuaro, como esto continuando as cinco. H sempre erro em cumprir
e requerer depois; o mais seguro  no cumprir e requerer. Quanto ao mtodo, 
muito melhor que tudo se passe assim, no silncio do gabinete, que
tumultuosamente na rua: No pode! no pode!

7
de junho

A questo da capital,  ou a
questo capital, como se dizia na Repblica Argentina, quando se tratou de dar 
provncia de Buenos Aires uma cabea nova, prpria, luxuosa e intil,  a nossa
questo capital teve esta semana um impulso. Discutiu-se na Cmara dos Deputados
um projeto de lei, que o Dr. Belisrio Augusto prope substituir por outro. Este
outro declara a cidade de So Sebastio do Rio de Janeiro capital da Repblica.
No  preciso acrescentar que o fundamentou eloqentemente; este advrbio
acompanha os seus discursos. Foi combatido naturalmente, sem paixo, sem
acrimnia, com desejo de acertar, visto que a Constituio determina que no
planalto de Gois seja demarcado o territrio da nova capital, e j l trabalha
uma comisso de engenheiros; mas, estipulando a mesma Constituio, art. 34, que
ao Congresso Federal compete privativamente mudar a capital da Unio, entendeu o
Dr. Belisrio Augusto que esta clusula, se d competncia para a mudana,
tambm a d para a conservao; argumento que o Dr. Paulino de Sousa Jnior
declarou irrespondvel.

Todo o esforo do deputado
fluminense foi para conservar a esta cidade o papel que lhe deram os tempos e a
histria. Fez, por assim dizer, o processo da Constituinte. Os homens tm
iluses, disse S.Ex., e as assemblias tambm as tm. Poderia acrescentar que
as iluses das assemblias so maiores, por isso mesmo que so de homens
reunidos e o contgio  grande e rpido; e mais difcil se torna dissip-las.
S.Ex. pensa que a revolta de 6 de setembro teria vencido se o governo no
estivesse justamente aqui. Bem pode ser que tenha razo. Creio nas prefeituras,
mas para a defesa da Repblica acho os cnsules mais aptos. Podeis redargir
que, convertida em Estado, esta cidade teria o seu governador, a sua
Constituio, as suas cmaras; mas tambm se vos pode replicar que se o nosso
Rio de Janeiro,

Ce pel, ce galeux, d'o vient
tout le mal,

tem por perigo o cosmopolitismo,
este mesmo cosmopolitismo seria um aliado inerte da rebelio, e a autoridade de
um pequeno Estado poderia menos, muitos menos, que a do prprio governo
federal.

No estranheis ver-me assim metido
em poltica, matria alheia  minha esfera de ao. Tampouco imagineis que falo
pela tristeza de ver decapitada a minha boa cidade carioca. Tristeza tenho em
verdade; mas tristezas no valem razes de Estado; e, se o bem comum o exige,
devem converter-se em alegrias. No senhor; se falo assim  para combater o
prprio Dr. Belisrio Augusto, por mais que me sinta disposto a concordar com
ele. Parece-vos absurdo? Tende a pacincia de ler.

Depois de perguntar qual das
outras cidades disputou a posio de capital da Repblica, o deputado fluminense
fez esta interrogao: Qual foi o movimento popular que imps ao congresso a
necessidade da mudana da capital? Realmente, no houve movimento algum; mas,
eu viro-lhe o argumento, e no creio que me refute. Sim, no houve movimento.
Mas a prpria cidade do Rio de Janeiro no reclamou nada, quando se discutiu a
Constituio, no levou aos ps do legislador o seu passado, nem o seu presente,
nem o seu provvel futuro, no examinou se as capitais so ou no obras da
histria, no disse coisa nenhuma; comprou debntures, que eram os bichos de
ento. Agora mesmo que o orador fluminense insta com o congresso para ver se a
capital aqui fica, o Rio de Janeiro no insta tambm, no pede, com direito que
tem todo cidado e toda comunidade de procurar haver o que lhe parece ser de
benefcio pblico. No ouo discursos reverentes, no vejo deliberaes
pacficas, nem peties, j no digo do conselho municipal, a quem incumbe velar
pela felicidade dos seus muncipes, porque  natural que essa corporao aspire
s funes constitucionais de parlamento, com promoo equivalente de seus
povos; mas os povos, que fazem eles ou que fizeram?

A concluso  que o Rio de
Janeiro, desde princpio, achou que no devia ser capital da Unio, e este voto
pesa muito.  o decapitado par persuasion. Assim  que temos contra a
conservao da capital, alm do mais, o beneplcito do prprio Rio de Janeiro.
Ele ser sempre, como disse um deputado, a nossa New York. No  pouco; nem
todas as cidades podem ser uma grande metrpole comercial. No levaro daqui a
nossa vasta baa, as nossas grandezas naturais e industriais, a nossa Rua do
Ouvidor, com o seu autmato jogador de damas, nem as prprias damas. C ficar o
gigante de pedra, memria da quadra romntica, a bela Tijuca, descrita por
Alencar em uma carta clebre, a Lagoa de Rodrigo de Freitas, a Enseada de
Botafogo, se at l no estiver aterrada, mas  possvel que no; salvo se
alguma companhia quiser introduzir (com melhoramentos) os jogos olmpicos, agora
ressuscitados pela jovem Atenas... Tambm no nos levaro as companhias lricas,
os nossos trgicos italianos, sucessores daquele pobre Rossi, que acaba de
morrer, e apenas os dividiremos com So Paulo, segundo o costume de alguns anos.
Quem sabe at se um dia...

Tudo pode acontecer. Um dia, quem
sabe? Lanaremos uma ponte entre esta cidade e Niteri, uma ponte poltica,
entenda-se, nada impedindo que tambm se faa uma ponte de ferro. A ponte
poltica ligar os dois Estados, pois que somos todos fluminenses, e esta cidade
passar de capital de si mesma a capital de um grande Estado nico, a que se
dar o nome de Guanabara. Os fluminenses do outro lado da gua restituiro
Petrpolis aos veranistas e seus recreios. Unidos, seremos alguma coisa mais que
separados, e, sem desfazer nas outras, a nossa capital ser forte e soberba. Se,
por esse tempo a febre amarela houver sacudido as sandlias s nossas portas,
perderemos a m fama que prejudica a todo o Brasil. Poderemos ento celebrar o
segundo centenrio do destroo que aos franceses de Duclerc deu esta cidade com
os seus soldados, os seus rapazes e os seus frades... Que esta esperana console
o nosso Belisrio Augusto, se cair o seu projeto de lei.

14 de junho

A publicao da Jarra do
Diabo coincidiu com a chegada de Magalhes de Azeredo. J tive ocasio de
abraar este jovem e talentoso amigo.  o mesmo moo que se foi daqui para
Montevidu comear a carreira diplomtica. A natureza, naquela idade, no muda
de feio; o artista  que se aprimorou no verso e na prosa, como os leitores da
Gazeta tero visto e sentido. Este filho excelente volta tambm marido
venturoso, e brevemente embarca para a Europa, onde vai continuar de secretrio
na legao junto  Santa S. Tudo lhe sorri na vida, sem que a Fortuna lhe faa
nenhum favor gratuito; merece-os todos, por suas qualidades raras e finas.
Jamais descambou na vulgaridade. Tem o sentimento do dever, o respeito de si e
dos outros, o amor da arte e da famlia. Ao demais, modesto,  daquela modstia
que  a honestidade do esprito, que no tira a conscincia ntima das foras
prprias, mas que faz ver na produo literria uma tarefa nobre, pausada e
sria.

Quando Magalhes de Azeredo partir
agora para continuar as suas funes diplomticas, deixar saudades a quantos o
conhecem de perto. Os que a idade houver aproximado daquela outra viagem eterna,
 provvel,   possvel, ao menos,  que o no torne a ver, mas guardaro boa
memria de um corao digno do esprito que o anima. Os moos, que a cantam a
vida, entraro em flor pelo sculo adiante, e v-lo-o, e sero vistos por ele,
continuando na obra desta arte brasileira, que  mister preservar de toda
federao. Que os Estados gozem a sua autonomia poltica e administrativa, mas
acompanham a mais forte unidade, quando se tratar da nossa musa
nacional.

Por meu gosto no passava deste
captulo, mas a semana teve outros, se se pode chamar semana ao que foi antes
uma simples alfndega, tanto se falou de direitos pagos e no pagos. Eis aqui o
vulgar, meu caro poeta da Jarra do Diabo; aqui os objetos no se parecem,
como a tua jarra, com uma jovem mulher ateniense. So fardos, so barricas e
pagam taxas, outros dizem que no pagam, outros que nem pagaro. Uma balbrdia.
Eu, posto creia no bem, no sou dos que negam o mal, nem me deixo levar por
aparncias que podem ser falazes. As aparncias enganam; foi a primeira
banalidade que aprendi na vida, e nunca me dei mal com ela. Daquela disposio
nasceu em mim esse tal ou qual esprito de contradio que alguns me acham,
certa repugnncia em execrar sem exame vcios que todos execram, como em adorar
sem anlise virtudes que todos adoram. Interrogo a uns e a outros, dispo-os,
palpo-os, e se me engano, no  por falta de diligncia em buscar a verdade. O
erro deste mundo.

No caso da alfndega, no posso
negar que as aparncias so criminosas; mas sero crimes os atos praticados?
Ecco il problema, diria enfaticamente o finado Rossi. No se tratar
antes de anncios, reclamos, puffs,  censurveis decerto,  mas enfim
anncios? Ningum ignora que no h nesta cidade, em tal matria, excesso de
inveno. Ao contrrio, a imitao  fcil, pronta, despejada. Quando, h muitos
anos, um negociante americano quis abrir na Rua do Ouvidor um depsito de
lampies e outros objetos de igual gnero, comeou por mandar imprimir, no alto
dos principais jornais desta cidade, uma s palavra, em letras que ocupavam toda
a largura da folha. A palavra era: abrir-se-. Grande foi a curiosidade
pblica, logo no primeiro dia, e nos dois que se lhe seguiram, lendo-se a
palavra repetida, sem se poder atinar com a explicao. No quarto dia cresceu o
espanto, quando no mesmo lugar saiu esta pergunta, que resumia a ansiedade
geral: O que  que se h de abrir? Mais trs dias, e as folhas publicaram
no alto, em letras gordas, a resposta seguinte: O grande emprio de luz, 
Rua do Ouvidor n...

O efeito da novidade foi enorme.
Pois no faltou quem imitasse esse processo, que parecia gasto. Casas,
exposies, liquidaes, no me lembra j que espcies de aberturas solenes,
recorreram ao anncio americano. Onde falta inveno,  natural que a imitao
sobre.

Mas por que ir to longe?
Recentemente, presentemente, vimos e vemos que a lembrana de recomendar um
remdio por meio de comparao da pessoa enferma antes, durante e depois da
cura, to depressa apareceu, como foi logo copiada e repetida.  Eu era assim
(uma cara magra);  ia quase ficando assim (uma caveira); at que
passei a ser assim (uma cara cheia de sade), depois que tomei tal
droga. A frmula primitiva serviu para as imitaes, creio que sem
alterao, a no ser o desenho das caras, e no todas.

Ora bem, os fardos e caixas cujos
os direitos dizem ter sido desfalcados, no sero propriamente remdios? As
guias de pagamento de taxas na alfndega no sero frmulas de reclamo?  Eu
era assim (4:954$723);  ia quase ficando assim (4$723);  mas acabei ficando
assim (954$723), depois que tomei tal droga. A novidade aqui est na
substituio do desenho por algarismos; mas no haver nisso to somente
afetao de originalidade, um modo de fazer crer que se inventa, quando apenas
se copia, pois a idia fundamental  a mesma? A questo  saber qual droga faz
sarar o enfermo. Pode ser at que nem se trate de droga, mas de outros produtos,
 no digo sedas,  mas algodo e anlogos tecidos, no menos dignos de anncios
grandes por seus no menores milagres.

Tal  a minha impresso. A polcia
faz muito bem averiguando se h mais que isto; no se perde nada em inquirir os
homens. De resto, anda a tanta coisa falsa, que provavelmente o remdio no
cura com a facilidade que as guias lhe atribuem. Atos de autoridade competente
afirmam que h quem venda por vinho-champanhe guas que nunca por l passaram.
Custa-me admitir isto; mas, no tendo razo para desmentir a afirmao, calo-me;
 calo-me e no bebo. Tudo isto se prende aos desvios da alfndega, ao
contrabando,  falsificao, a outras formas do mal, que no se devem eliminar
sem base. Oh! se pudssemos viver de maneira que todas as taxas se pagassem, sem
alfndega, indo os produtores ao prprio Tesouro, com o dinheiro, sem precisar
mostrar nem esconder nada, seda ou vinho... No pode ser. H talvez um
fraudulento em muito homem a quem no falta mais que uma guia e o
resto...

21 de
junho

Querem os almanaques que o inverno comece hoje, 21
de junho. De ordinrio comea mais cedo. Este ano, nem eu j cuidava em inverno,
quando caiu a grande chuva de quinta-feira, e a temperatura baixou com ela.
Manter-se- a mudana? Esta  a questo, e, se no fosse a minha f nos
almanaques, eu diria que no, tais foram os calores deste ms; mas eu creio nos
almanaques.

Sim, creio nos almanaques. Um
velho amigo meu conta que, h cerca de quarenta anos, a noite de S. Joo fez
calor de rachar. Pela minha parte, ainda me no esqueci que, h dezessete ou
dezoito anos, a noite de S. Silvestre quase fez tiritar de frio. Mas so casos
excepcionais. Em geral os almanaques so exatos. As idias mudam, mudam os
vestidos, o estilo, os costumes, as afeies, muita vez as palavras, e a prpria
moral tem alternativas. Montaigne  de parecer contrrio; ele cr que no
andamos para diante, nem para traz. Nous rodons plustot et tournevirons 
et  l, diz ele pela sua bela lngua e ortografia velha. Mas esse
grande moralista, parecendo referir-se  vida humana, talvez aluda aos
almanaques. Os almanaques no padecem da qualidade ruim de no sossegar nunca,
de dizer hoje uma coisa e amanh outra, de desmentir uns anos por outros. So
constantes; os dias de lua variam, mas as mudanas so as mesmas, e no h lua
cheia sem crescente, nem nova sem minguante. H festas mveis, mas os almanaques
declaram que so mveis; em compensao, as fixas so fixas. Os santos no saem
do seu lugar. De longe em longe, h um dia de quebra.

No que os almanaques podiam mudar,
 e no seria mudar, mas tornar ao que foram e confirmar assim a mxima de
Montaigne,   em reviver a astrologia, como no sculo XVIII. Os daquele tempo
traziam predies que eram lidas, cridas e certamente cumpridas, visto que os
anos se sucediam, as predies com eles, e a f no se acabava. Tais eram elas,
que o deo Swift tambm fez o seu almanaque astrolgico, em que anunciou uma
poro de sucessos mais ou menos graves, uns polticos, outros particulares,
alguns simplesmente meteorolgicos, como so hoje os de Holloway. Entre essas
predies figurou a morte de John Tartridge, autor de outro almanaque
astrolgico, para o dia 29 de maro, s onze horas da noite. No vi a certido
de bito de Tartridge, nem a histria se ocupou com o desaparecimento desse
personagem; mas em carta que se publicou por esse tempo, a morte de Tartridge
foi contada como tendo ocorrido no prprio dia 29 de maro, pela molstia
anunciada, com a nica diferena da hora, que foi s sete e cinco minutos, isto
, quatro horas antes da do almanaque. O finado tentou contestar a notcia; mas
a rplica do deo foi to completa e lcida, que o fez calar para sempre.
Concluo que todas as demais predies daquele ano de 1708 foram cumpridas com
pontualidade.

Se o nosso Laemmert quisesse
melhorar nesta parte os seus almanaques, creio que beneficiaria o esprito
pblico, alm de ver crescer o nmero dos compradores. A astrologia no 
cincia morta, como alguns supem; eu a creio viva, mais viva que nunca, embora
a tenham por sociologia ou outra coisa. No duvidaria fundar uma faculdade
livre, na qual igualmente aprendesse e ensinasse astrologia, e estou que daria
prontos meia dzia de bons astrlogos, no mesmo prazo em que um homem se pode
formar em jurisprudncia, ou ainda menos, em seis meses.  A astrologia, bem
considerada,  aplicao dos raios X ao tempo. Assim como se transporta ao papel
a figura dos ossos escondidos na mo, assim tambm se pode dizer no dia 1 de
janeiro os sucessos dos meses seguintes.

Suponhamos que o almanaque do
presente ano trouxesse este melhoramento.
As vantagens seriam grandes e evidentes, no porque
a predio pudesse desviar os sucessos ou modific-los; desde que vinham
preditos, tinham de acontecer. Mas, em primeiro lugar, o esprito pblico
ficaria avisado, e no haveria desses abalos que tanto concorrem para matar o
corao, e com ele o homem. J se sabia do caso; era s esperar. A alfndega,
por exemplo, tinha marcado o dia das descobertas de desvios, falsificaes e
outros fenmenos. Quando estes se dessem, era s ler os pormenores. Pode ser at
que,  fora de esperar pelo crime, mal o julgssemos crime, e o fato de ser
descoberto em dia marcado traria naturalmente a suspeita de ser a autoria fatal
e necessria. Nem por isso ficaria impune. Os autores no tentariam fugir, j
porque andariam vigiados e seriam pegados em tempo, j porque a prpria
fatalidade do crime os deixaria namorados do lucro, no contando que a esperana
 eterna.

Em segundo lugar, preditos os acontecimentos nos
almanaques, cada cidado podia estudar o papel que lhe deveria caber naquele
ano. Uns comporiam com tempo os discursos de indignao; outros, indiferentes,
achariam na matria do sucesso delituoso um bom motivo para almoar bem. Agora
mesmo sucedeu que, ou o povo, ou um sub-delegado em S. Gonalo, Estado do Rio de
Janeiro, armou gente, deps o Conselho Municipal, e aclamou ou fez aclamar um
conselho novo, tudo em menos de duas horas;  o que li nas folhas de ontem.
Supondo este fato predito, os cinco meses e tanto decorridos entre a publicao
do almanaque e a realizao do fato acostumariam a gente a esperar por ele,
encar-lo, examin-lo, em tal modo que, quando chegasse a notcia, era como a
analise de uma pea teatral representada na vspera. Tudo dependeria do talento
do crtico. O nico defeito da pea seria no ter mulheres; mas o presente copia
s vezes o passado, e as cidades antigas e modernas raramente as metiam nas suas
brigas interiores. Verdade  que S. Gonalo pode ser uma espcie de Florena
municipal, e comear esta diviso como a outra fez a sua de guelfos e gibelinos.
No h notcia da san-gonalista que haja produzido o ataque armado  cmara e a
deposio do conselho; as notcias so incompletas. Venham as restantes; venha
tambm um almanaque com os sucessos de 1897.

28 de
junho

Fujamos desta Babilnia. Os desfalques levam o
resto da confiana que resistiu aos desvios. Admito que alguns deles possam no
ser desvios nem desfalques, mas simples descuidos, desastres ou desnimos. Em
todo caso, no me sinto seguro. Temo que um dia destes me caia o sol na cabea,
que o cho me falte debaixo dos ps, que morram duas mil pessoas, como em
Moscou, quando iam  sopa, ou dez mil, como no Japo, por um terremoto, ou no
sei quantos mil, como em S. Luiz, ao sopro do ltimo ciclone.

Temo tudo. O meu velho criado Jos Rodrigues...
(Lembram-se do Jos Rodrigues?)... no anda bom, padece de tonteiras, dores de
peito, nsias; para mim, est cardaco. Se no temesse que a farmcia aviasse um
veneno por outro, como ainda esta semana sucedeu, h muito que o teria feito
examinar. Mas, se o mdico receitar alguma droga, terei a fortuna de j a achar
expedida para Ouro-Preto e outras partes? No sei... Pobre Jos Rodrigues!  um
grande exemplo das vicissitudes humanas. Mal sabendo assinar o nome, ganhou um
milho no encilhamento, e quando comeava a aprender ortografia, achou-se com
trs mil ris.

 Ai, patro! dizia-me ele uma vez, eu nunca me
devia ter metido em ortografias; um B de mais ou de menos no  que faz um homem
feliz.

Fujamos, repito. Imitemos os que j foram, por
motivo de desvio ou desfalque, e esto a esta hora respirando os ares do Rio da
Prata. Deixaram carros e cavalos, mas tambm l h carros, e dos cavalos temos
aqui boas amostras. Se se desprenderam de amores, no so amores que lhes ho de
l faltar, e pela bela lngua castelhana, que  a mesma nossa com castanholas.
Teatros? tambm l h teatros. No chamaro ruas s ruas, e sim calles;
mas quem  que se no habitua a este vocbulo, uma vez que more em casa boa, com
bons trastes e boa comida? Depois, nem sempre se h de ficar longe da ptria. As
saudades matam, e, para fugir  morte, vale a pena arriscar a vida, expresso
que talvez no entendas, se me ls por distrao; mas, se buscas aqui a lio de
um sapiente, entenders que o que eu quero dizer,  que a vida corre o mesmo
risco da liberdade, e os que tornam  ptria, deixam muita vez de perder uma e
outra.

A vida perde-se, alis, sem sair da terra natal,
uns voluntariamente, como aquele bagageiro da Leopoldina, que veio acabar
consigo na casa do prprio armeiro que lhe vendeu a garrucha. No mesmo dia, e
no sei se a mesma hora, uma mulher empregada em fbrica de tecidos de um
arrabalde tentava pr termo aos dias. Demisso ou tristeza, qualquer causa serve
a quem quer deveras ir embora desta aldeia,  como diz a cantiga,  e no pode
proceder de outro modo. Mas, em verdade, parece que anda um vento de morte no
ar.

Os que no vo por sua vontade, vo  fora, e
quando se preparam para ficar neste mundo por alguns anos mais, como aquele Dr.
Ribeiro Vianna Filho, que veio ser operado e recebeu a operao ltima. Li o
termo da autopsia; nunca deixo de ler esses documentos, no para aprender
anatomia, mas para verificar ainda uma vez como a lngua cientfica  diferente
da literria. Nesta, a imaginao vai levando as palavras belas e brilhantes,
faz imagens sobre imagens, adjetiva tudo, usa e abusa das reticncias, se o
autor gosta delas. Naquela, tudo  seco, exato e preciso. O hbito externo 
externo, o interno  interno; cada fenmeno, como cada osso,  designado por um
vocbulo. A cavidade torcica, a cavidade abdominal, a hipstase cadavrica, a
tetania, cada um desses lugares e fenmenos no pode receber duas apelaes sob
pena de no ser cincia. Da certa monotonia, mas tambm que fixidez! As
concluses  que no podem ser to rigorosas. No caso a que aludo, a morte foi
produzida por intensa hemorragia pulmonar. Mas o que  que produziu a
hemorragia? Essa  a parte deixada ao incognoscvel. As crianas do meu tempo
costumavam dizer por pilheria que uma pessoa havia morrido por falta de
respirao. Pilheria embora, se a considerarmos bem,  uma concluso
cientfica; o mais  querer ir ao incognoscvel, que  um muro eterno e
escuro.

Sim, fujamos, no para a povoao de Monte-Alegre,
onde caiu uma chuva de pedras, que danificou todas as casas. As pedras eram do
tamanho de um ovo. Assim o diz o Correio de Amparo. No  que receie
pedras maiores que um ovo de galinha. Haveis de ter notado, se sois maduros e
ainda mancebos, haveis de ter notado que as pedras que caem do cu em chuva, so
sempre do tamanho de um ovo de galinha. Isto me levou um dia a indagar o que 
que produz as chuvas de pedras e a concluir que o cu  uma vasta galinha
invisvel. Os ventos so o bater das suas asas; os troves so o seu cacarejo.
No pe um ovo por dia como a galinha da terra; deixa-os juntar, e quando sente
milhares deles, despeja-os.

A gente foge, porque os ovos, ainda sem casca,
doem; mas apanha-os depois, mede-os e acha-os sempre do mesmo tamanho. Nunca li
notcia de que fossem de pata ou de pomba.

Tal galinha nunca ficou choca? Se ficar, no sei;
mas, no passado, pode ser que a criao se explique por uma grande ninhada de
pintos. A galinha celeste punha ento ovos com casca. Passados sculos, chocou
os ovos. Passados outros sculos, os pintos entravam a picar a casca, a sair, a
pipilar, a crescer, at que lhes chegou a vez de pr. No toram o nariz 
hiptese; h outras que valem um pouco mais, e todas ho de parar naquele
incognoscvel...

Quanto ao tom assustadio da Semana, saibam
que  natural, e pode lan-lo  conta da melancolia com que acordei hoje.
Disseram-me ontem que um homem distinto e rico entrou a padecer de uma crise
mental pela presuno de estar pobre. Os pobres de verdade no enlouquecem, o
que d vontade de fazer como o pescador da Judia,  deixar as redes e
acompanhar a Jesus. Mas no esqueamos que, se os pobres no enlouquecem por ser
pobres, enlouquecem muita vez supondo que so ricos. Tal  a compensao da
Natureza, nossa querida me.

5
de julho

No quero saber de farmcias, nem
de outras instituies suspeitas. Quero saber de msica, s de msica, to
somente msica. O Jornal do Comrcio deu um brado esta semana contra as
casas que vendem drogas para curar a gente, acusando-as de as vender para outros
fins menos humanos. Citou os envenenamentos que tem havido na cidade, mas
esqueceu dizer ou no acentuou bem, que so produzidos por engano das pessoas
que manipulam os remdios. Um pouco mais de cuidado, um pouco menos de distrao
ou de ignorncia, evitaro males futuros.

Um fino esprito deste pas,
poltico e filsofo, definia-me uma vez as nossas farmcias como outras tantas
confeitarias. Confesso que antes as quero confeitarias, que palcio dos Brgias;
no tanto porque nestes se possa achar a morte, como porque ns amamos os
confeitos, e os frascos vindos do exterior tm ar de trazer amndoas.  bom
encontrar a sade onde s se procura gulodice. Se, entretanto, o aumento dos
impostos vai tornando difcil a importao desses preparados e obrigando a
faz-los c mesmo, pode suceder que alguns envenenamentos se dem a princpio;
mas todo ofcio tem uma aprendizagem, e no h benefcio humano que no custe
mais ou menos duras agonias. Ces, coelhos e outros animais so vitimas de
estudos que lhes no aproveitam, e sim aos homens; por que no sero alguns
destes vtimas do que h de aproveitar aos contemporneos e vindouros? Que
verdade moral, social, cientfica ou poltica no tem custado mortes e grandes
mortes? As catacumbas de Roma...

Sem ir to longe, h um argumento
que desfaz em parte todos esses ataques s boticas:  que o homem  em si mesmo
um laboratrio. Que fundamento jurdico haver para impedir que eu manipule e
venda duas drogas perigosas? Se elas matarem, o prejudicado que exija de mim a
indenizao que entender; se no matarem, nem curarem,  um acidente, e um bom
acidente, porque a vida fica, e est nos adgios populares que viva a galinha
com a sua pevide. Suponhamos, porm, que uma dessas manipulaes cura algum;
no vale este nico benefcio todos os possveis males? Se espiritualmente h
mais alegria no Cu pela entrada de um arrependido que pela de cem justos, no
se pode dizer que na terra h mais alegria pela conservao de uma vida que pela
perda de cem? Essa nica vida no pode ser a de um grande homem, a de um varo
justo, a de um simples pai de famlia, a de um filho amparo de sua velha me?
Reflitamos antes de condenar, e deixemos as farmcias com os seus meninos antes
de condenar, e deixemos as farmcias com os seus meninos, que assim acham
ocupao honesta, em vez de se perderem na rua. Outrossim, no condenemos os que
alugam ttulos. Quem pode alugar uma casa que no fez, que comprou feita, por
que no poder alugar um ttulo que lhe custou estudos longos e aprovaes
completas, que  verdadeiramente seu? Qual  propriedade maior?

Mas, fora com tudo isso,
trataremos s de msica. No nos falta msica, nem gosto particular em ouvi-la.
Queirs deu-nos uma histria de msica, resumida em um grande concerto, em que
ainda uma vez apresentou suas qualidades de artista. No se contenta Alberto
Nepomuceno com os Concertos Populares. Domingo passado fez ouvir o Visconde de
Taunay uma reduo do Requiem, do Padre Jos Maurcio. A carta em que
Taunay narra as comoes que lhe deu a obra do padre, comove igualmente aos que
a lem, e faz amar o padre, o Alberto, o Requiem e o escritor. No bastam
ao nosso Taunay as letras; a sua bela Inocncia, vertida h pouco (ainda
uma vez) para lngua estranha e espalhada pelos centros europeus, repete l fora
o nome de um homem, cuja famlia se naturalizou brasileira. Tendo o amor que tem
 msica, trabalha h longos anos pela glria de Jos Maurcio, tarefa em que
veio agora auxili-lo o jovem maestro. E para que tudo seja msica, at a morte
quis levar esta semana um pianista a quem nunca ouvi, mas que ouo louvar;
pianista amador, mdico de ofcio, que, s qualidades intelectuais, reunia dotes
morais de muito apreo, o Dr. Lucindo Filho...

Outra morte que no sai da msica,
ou sai do mais ntimo dela,  a que se espera cada dia do Norte, a do nosso
ilustre Carlos Gomes. Os telegramas de ontem dizem que o mdico incumbido de o
salvar j aplicou o remdio, mas sem esperanas. D-lhe os dias contados.
Aguardemos a hora ltima desse homem que levar o nome brasileiro deste para o
sculo novo, e cujas obras serviro de estmulo e exemplar s vocaes futuras.
A vida dele  conhecida; mas nem todos tero as sensaes dos primeiros dias,
quando Carlos Gomes chegou de So Paulo e aqui se estreou na pera Nacional, uma
instituio mantida com dinheiros de loteria; leiam loteria, no bichos.
Tudo  jogo, mas h espcies mais reles que outras, que apenas servem de ofcio
e comrcio  gente vadia. Vivia de loteria a pera Nacional; antes vivesse de
donativos diretos, mas enfim viveu e deu-nos Carlos Gomes, um pouco de Mesquita,
outro pouco de Elias Lobo, no contando as noites em que se cantava a Casta
Diva, por esta letra de um velho e bom amigo meu, depois chefe
poltico:

Casta deusa, que
derramas
Nestas selvas luz
serena...

Naquele tempo ainda Bach nem
outros mestres influam como hoje. No tnhamos essa msica, de que anteontem 
noite nos deram horas magnficas os nossos dois hspedes, Moreira de S e Viana
da Mota, no Teatro Lrico. Hoje a crtica das folhas da manh dir deles o que
couber e for de justia, e estou que no ser frouxo, nem pouco. Eu no tenho
mais que ouvidos, e ouvidos de curioso, que no valem muito; mas, em suma, mais
terei desaprendido com os olhos que com eles. Sinto que escutei dois homens de
grande talento e grande arte, severos ambos, ambos eleitos pela natureza e
confirmados pelo estudo para intrpretes de obras mestras. No  de crer que os
no ouamos ainda uma vez ou mais. Li que vo a So Paulo, em breve;  de rigor.
So Paulo  estao obrigada,  metade do Rio de Janeiro, se estas duas cidades
no formam j, como Budapeste, artisticamente falando, uma s capital. H tempo,
entretanto, para que, antes de tornarem ao seu pas, Viana da Mota e Moreira de
S dem ainda ao povo do Rio uma festa igual  de anteontem, em que recebam os
mesmos aplausos.

E continua a msica. Hoje  o
terceiro dos Concertos Populares, instituio que o pblico aceitou e vai
animado  em benefcio seu,  verdade, no se podendo dizer que faa nenhum
favor em ouvir a palavra clssica dos mestres. Antes deve ir cheio de gratido.
H uma hora na semana em que alguns homens de boa vontade dispem-se a
arranc-lo  vulgaridade e ao tdio, para lhe dar a sensao do belo e do gozo.
So favores que lhe fazem. Para si mesmos, bastava-lhes um pouco de msica de
cmara, entre quatro paredes, e a boa disposio de meia dzia de
artistas.

Assim como a histria poltica e
social tem antecedentes,  de crer que esta parte da histria artstica do Rio
de Janeiro tenha os seus tambm, e quer-me parecer que podemos lig-la ao
quarteto do Clube Beethoven.

Esse clube era uma sociedade
restrita, que fazia os seus saraus ntimos, em uma casa do Catete, nada se
sabendo c fora seno o raro que os jornais noticiavam. Pouco a pouco se foi
desenvolvendo, at que um dia mudou de sede, e foi para a Glria. Aquilo que
hoje se chama profanamente Penso Beethoven, era a casa do clube. O salo do
fundo, to vasto como o da frente, servia aos concertos, e enchia-se de uma
poro de homens de vria nao, vria lngua, vrio emprego, para ouvir as
peas do grande mestre que dava nome ao clube, e as de tantos outros que formam
com ele a galeria da arte clssica. O nome do clube cresceu, entrou pelos
ouvidos do pblico; este, naturalmente curioso, quis saber o que se passava l
dentro. Mas, no havendo pblico sem senhoras, e no podendo as senhoras
penetrar naquele templo, que o no permitiam as disciplinas deste, resolveu o
clube dar alguns concertos especiais no Cassino.

No relembro o que eles foram, nem
estou aqui contando a crnica desses tempos passados. Pegou tanto o gosto dos
concertos Beethoven, que o Clube, para obedecer aos estatutos sem infringi-los,
determinou construir no jardim aquele edifcio ligeiro, onde se deram concertos
a todos, sem que a casa propriamente da associao fosse violada. Os dias
prsperos no fizeram mais que crescer; entrou a ser mau gosto no ir quelas
festas mensais. Mas tudo acaba, e o clube Beethoven, como outras instituies
idnticas, acabou. A decadncia e a dissoluo puseram termo aos longos dias de
delcias.

A primeira vez que vi o fundador
daqueles concertos, foi de violino ao peito, junto de um piano, em que a senhora
tocava; l se vo muitos anos. Ele vinha do Japo, magro, plido... No tem
seis meses de vida, disse-me em particular um homem que j morreu h muito
tempo. Outros morreram tambm, alguns encaneceram; o resto dispersou-se, a
senhora reside na Europa... S a msica pode dar a sensao destas runas. O
verso tambm pode, mas h de ser pela toada do florentino, que assim como sabe a
nota da maior dor, no menos conhece a da rejuvenescncia, aquela que me faz
crer, nestas sensaes de arte.

Rifatto s, come piante
novelle
Rinnovellate di novella
fronda...

12 de
julho

A bomba do El-dorado durou o espao de uma manh,
tal qual a rosa de Malherbe. Esta velha rosa  que parece querer durar a
eternidade. E aqui fao uma pequena crtica ao Sr. conselheiro ngelo do Amaral.
S. Ex. escreveu no Jornal do Comrcio um artigo contra o remdio que o
Sr. senador Leite e Oiticica publicou na Revista Brasileira para extirpar
o mal das nossas finanas. A reviso deixou passar esta frase: a rosa do Sr.
senador pelas Alagoas teria a sorte da de Malherbe. O Sr. ngelo do Amaral
corrigiu-a no dia seguinte, restaurando o que escrevera: o projeto do Sr.
senador pelas Alagoas teria a sorte da rosa de Malherbe. Ah! por que no imitou
o prprio poeta Malherbe, a quem a reviso atribuiu o verso que ficou?
Francamente, a primeira forma era melhor; completava o seu pensamento dando ao
projeto o nome da coisa perecvel, uma vez que o acha perecvel. No me diga
desdenhosamente que seria potico; poesia no deve entrar s por citao nas
matrias ridas; pode muito bem tratar do prprio cho duro em que se
pisa.

A rosa do El-dorado... Veja como eu dou execuo ao
meu conselho, sem que alis uma bomba se parea com flor. A rosa do El-dorado
viveu to pouco que nem se chegou a saber se foi dinamite, se plvora; mas
parece que foi plvora. A incredulidade, que no morreu com Voltaire, abanou as
orelhas  dinamite, o que diminuiu muito o horror  bomba. Mas fosse isto ou
aquilo, o que  certo  que houve faca e revlver, um morto (Deus lhe fale
nalma!) e alguns feridos; entrando-se em dvida to somente se o ataque veio de
fora ou de dentro, ou se de ambos os lados. Fez-se autpsia; e enterrou-se o
cadver. Quia pulvis es. Segundo li ontem, vai aparecer um incidente
extraordinrio neste negcio que lhe dar nova face. No h de ser a
ressurreio do defunto.

Houve denncia, dias depois daquele, que iam cair
algumas bombas de dinamite, no j no El-Dorado, mas no prprio Jardim
Zoolgico. A polcia mandou fora; mas, ou porque a denncia no tivesse
fundamento, ou porque as providncias da autoridade fizessem suspender a ao,
no caiu nada, nem dinamite nem plvora. Em compensao apareceu acnito, no j
no Jardim Zoolgico, mas em uma farmcia da rua Frei Caneca, donde foi dado a um
doente, que ia morrendo  quarta dose, envenenado. J disse o que penso destes
envenenamentos. Uma vez que nenhuma inteno os produz, mas simples enganos, no
so criminosos; ao contrrio, podendo auxiliar o conhecimento da verdade, so
necessrios. No presente caso, por um soldado que se perdeu salvou-se o
exrcito.  assim na guerra,  assim na vida. O ato do farmacutico  que foi
outra rosa de Malherbe.

Quanto ao jogo dos bichos, trava-se contra ele uma
rude campanha. Comeada na imprensa, vai sendo continuada pela polcia. As
ordens expedidas por esta so positivas, e a execuo por parte dos seus agentes
vai sendo pontual. O quinho da luta na imprensa  copioso. Medidas h (fora 
diz-lo) que se no expedem logo pelo receio de que a imprensa as condene ou
critique, o servio fique mal visto, e a ao afrouxe. Mas uma vez que os
jornais, como os parlamentos, votem uma moo de confiana nestes termos: A
opinio, certa de que o jogo ser morto, passa  ordem do dia, a autoridade
assim apoiada e reforada emprega todos os seus recursos.

A minha dvida nica  se o bicho morto no
ressuscitar com diversa forma. Agora mesmo nem tudo so bichos; h prmios de
bebidas, distribuio de gravuras e outras convenes de azar. Convm ter em
vista que os jogos so muitos. A loteria, um dos mais velhos, que tem
desmoralizado a sociedade, serve com os seus nmeros s vrias especulaes; mas
no  a culpada nica desta perverso de costumes. nica no pode ser; ela
corrompe, ela deve ser extirpada, como outras instituies de dar
fortuna; mas no esqueamos que ela  tambm efeito. Contaram-me que, por
ocasio do encilhamento,  essa enorme bicharia, em que todos os carneiros
perderam,  ocorria um fato assaz caracterstico. Sabe-se que na rua da
Alfndega o ajuntamento era grande e o tumulto freqente. Alguma vez foi preciso
empregar fora para aquietar os nimos e dar passagem a outra gente. Sucedia
ento que, saindo a correr duas praas de cavalaria atravs da multido, eram os
prprios animais objeto de apostas, dizendo uns que o primeiro cavalo que
chegava  esquina era o de c, e outros que era o de l, e os que acertavam
recebiam um ou dois contos de ris.

Meditai bem. Uma paixo do azar to grande, que o
prprio cavalo (era j o bicho!) do agente da ordem servia de dado aos
jogadores, no sai assim com duas razes. No tenho remdio seno citar as
estrebarias de ugias para poder invocar Hrcules.  preciso ser Hrcules. Quem
sabe se este nmero e esta nota que acabo de ler nos jornais: 19.915 foi o
nmero de vidros de xarope de alcatro e jata vendidos no ms passado, no 
j uma forma nova para substituir os bichos? Tudo pode ser bicho; os prprios
jornais, os mesmos artigos que combatem o mal, expem-se a servir de pasto ao
jogo, se os empresrios deste se lembrarem de vender sobre a primeira letra do
artigo de amanh. Uns compram nas letras A at M., outros nas letras N at Z; e,
ao contrrio da lana de Tlefo, que curava as feridas que fazia, aqui os
remdios levam em si o veneno, como nas farmcias.

A paixo do azar  tal que, quando acabou a guerra
franco-prussiana, Paris, no obstante os desastres de to dura campanha e a dor
patritica da nao, chegou a jogar em plena rua. Rompeu, entretanto, a Comuna.
Um dos comunistas, o famoso Raul Rigault, encarregado da polcia da cidade,
expediu um decreto, que podeis ler nas Memrias de Rochefort, tomo II,
pag. 366. Esse decreto, depois de dois considerandos, tinha este nico artigo:
O jogo de azar  formalmente proibido. Pois assim to pequeno, sem taxao de
pena nem indicao de processo, foi cumprido sem hesitao. A razo creio estar
no poder da Comuna, que no se contentava com prender as pessoas, ia-as logo
mandando para um mundo melhor. Da a minha dvida, por mais pura vontade que
tenha a intendncia municipal rejeitando a nova concesso ao jogo da pelota, e a
polcia caando os bichos. Creio que o mal est muito fundo.

No digo que, por estar ferido, seja impossvel
cur-lo; digo que  preciso mais tempo que amanh da rosa de Malherbe ou o dia
inteiro da Batrachomyomachia. Neste poema, em que os ratos lutam com as
rs, Jpiter, rindo de gosto, diz a Minerva: Filha minha, vai ajudar os ratos,
que sempre andam no teu templo,  cata da gordura e dos restos dos sacrifcios.
J ento os bichos davam de comer aos ratos! Minerva recusa; acha que  melhor
rever as batalhas de cima, ou, como se diz moderna e vulgarmente, ver os touros
de palanque... No, no basta aquele dia todo, nem os vinte dias da
Ilada;  preciso mais tempo e muita sade orgnica.

19 de
julho

Este que aqui vedes jantou duas vezes fora de casa
esta semana. A primeira foi com a Revista Brasileira, o jantar mensal e
modesto, no qual, se no faltam iguarias para o estmago, menos ainda as faltam
para o esprito. Aquilo de Pascal, que o homem no  anjo nem besta, e que
quando quer ser anjo  que fica besta, no cabe na comunho da Revista.
Podemos dizer sem desdouro nem orgulho que o homem ali  ambas as coisas, ainda
que se entenda o anjo como diabo e bom diabo. Sabe-se que este era um anjo antes
da rebelio no cu. Nos que j estamos muito para c da rebelio, no temos a
perversidade de Lcifer. Enquanto a besta come, o anjo conversa e diz coisas
cheias de galanteria. Basta notar que, apesar de l estar um financeiro, no se
tratou de finanas. Quando muito, falou-se de insetos e um tudo-nada de
divrcio.

Uma das novidades de cada jantar da Revista
 a lista dos pratos. Cada ms tem a sua forma anloga ao ato, como diziam os
antigos anncios de festas, referindo-se ao discurso ou poesia que se havia de
recitar. Desta vez foram pginas soltas do nmero que ia sair, impressas de um
lado, com a lista do outro. Quem quis pode assim saborear um trecho truncado do
nmero do dia 15, o primeiro de julho, nmero bem composto e variado. Uma
revista que dure no  coisa vulgar entre ns, antes rara. Esta mesma
Revista tem sucumbido e renascido, achando sempre esforo e disposio
para continu-la a perpetu-la, como parece que suceder agora.

O segundo jantar foi o do Dr. Assis Brasil. Quatro
ou cinco dezenas de homens de boa vontade, com o chefe da Gazeta 
frente, entenderam prestar uma homenagem ao nosso ilustre patrcio, e escolheram
a melhor prova de colaborao, um banquete a que convidaram outras dezenas de
homens da poltica, das letras, da cincia, da indstria e do comrcio. O salo
do Cassino tinha um magnfico aspecto, embaixo pelo arranjo da mesa, em cima
pela agremiao das senhoras que a comisso graciosamente convidou para ouvir os
brindes. De outras vezes est audincia  o nico doce que as pobres damas
comem, e, sem desfazer nos oradores, creio ser rgo de todas elas dizendo que
um pouco de doce real e peru de verdade no afiaria menos os seus ouvidos. Foi o
que a comisso adivinhou agora. Mas, ainda sem isso, a concorrncia seria a
mesma, e ainda maior se no fora o receio da chuva, tanta havia cado durante o
dia.

O que elas viram e ouviram deve t-las satisfeito.
O aspecto dos convivas no seria desagradvel. Ao lado desse espetculo, os bons
e fortes sentimentos expressos pelos oradores, as palavras quentes, a
cordialidade, o patriotismo de par com as afirmaes de afeto para com a antiga
metrpole,  nota que figurou em todos os discursos,  tudo fez da homenagem a
Assis Brasil uma festa de famlia. O nosso eminente representante foi objeto de
merecidos louvores. Ouviu relembrar e honrar os seus servios, os seus dotes
morais e intelectuais; e as palavras de elogio, sobre serem cordiais, eram
auto-risadas, vinham do governo, do jornalismo, da diplomacia. As letras e o
senado no falaram propriamente dele, mas sendo ele o centro e a ocasio da
festa, todas as coroas iam coro-lo.

No quisera falar de mim; mas um pouco de egotismo
no fica mal a um esprito geralmente desinteressado. As pessoas que me so
ntimas sabem que estou padecendo de um ouvido, e sabem tambm que na noite do
banquete fiquei pior. Atribui  umidade o que tinha a sua causa em uma igreja de
Porto-Alegre. Com efeito, no dia seguinte, abrindo os jornais, dei com telegrama
daquela cidade noticiando que o Rev. padre Jlio Maria continuou na vspera as
suas conferncias, e que os aplausos tinham sido calorosos. Estava explicada a
agravao da molstia. Digo isto, porque a molstia apareceu justamente no dia
13, em que o mesmo padre fez a primeira conferncia da segunda srie, conforme
anterior telegrama, o qual acrescentava: Auditrio enorme; a igreja sem um
lugar vazio. No final retumbantes palmas; verdadeira ovao ao
orador.

Essas palmas dentro da igreja foram to fortes que
repercutiram no meu gabinete e me entraram pelo ouvido, a ponto de o fazer
adoecer. Quando ia melhor, em via de cura, continua o padre as conferncias, e
repetiram-se as palmas. Eis-me aqui numa situao penosa. Desejo que as
conferncias prossigam, uma vez que espalham verdades e rendem ovaes ao
orador; mas no desejo menos ficar curado, e para isso era preciso que no fosse
com palmas que dessem ao padre Maria noticiado efeito da sua grande eloqncia.
O silncio, um triste silncio de contrio, de piedade, de arrependimento, no
viria pelo telgrafo, nem me faria adoecer; mas seria preciso pedi-lo, e eu no
pediria jamais uma coisa que me aproveitasse em detrimento de um princpio.
Melhor  sofrer com pacincia, at que acabe est segunda srie.
No esqueais, ou ficai sabendo que a matria da
primeira conferncia foi este tema: Como muitos catlicos so ateus prticos.
Posto que esse tema parea prenhe de aluses pessoais, e fora de dvida que foi
bem escolhido, e as palmas mostraram ao orador que havia falado a pessoas
conversas. Dessa triste categoria de catlicos ateus poucos conheo
pessoalmente, e esses mesmos tm o atesmo to diminuto que, se ouvissem o
orador, teriam rasgado as luvas com frenticos aplausos.

Adeus, leitor. Mas tenho tempo de dizer que, pela
segunda vez, acabo de ler em Cleveland a palavra paternalismo. No sei se
 de inveno dele, se de outro americano, se dos ingleses. Sei que temos a
coisa, mas no temos o nome, e seria bom tom-lo, que  bonito e justo. A coisa
 aquele vcio de fazer depender tudo do governo, seja uma ponte, uma estrada,
um aterro, uma carroa, umas botas. Tudo se quer pago por ele com favores do
Estado, e, se no paga, que o faa  sua custa. O presidente dos Estados Unidos
execra esse vcio, e assim o declarou em mensagem ao congresso, negando sano a
uma lei que; abre 417 crditos no valor de oitenta milhes de dlares. O
presidente falou sem rebuo; aludiu a interesses locais e particulares, condenou
o desamor ao bem pblico, chamou extravagante a lei, somou as contas enormes que
o governo j tem de pagar este ano, e escreveu esta mxima que, por bvia, no
serve menos de lio aos povos: A economia privada e a despesa medida so
virtudes slidas que; conduzem  poupana e ao conforto... O congresso leu as
razes do veto, e, por dois teros, adotou definitivamente a lei, dando ao
tesouro mais esta carga. A cincia poltica h de descobrir um processo de
conciliar, nestas matrias, todos os Capitlios e todas as Casa-Brancas. O que
no impede que incluamos paternalismo no dicionrios. Adeus,
leitor.

26 de julho

Apaguemos a lanterna de Digenes;
achei um homem. No  prncipe, nem eclesistico, nem filsofo, no pintou uma
grande tela, no escreveu um belo livro, no descobriu nenhuma lei cientfica.
Tambm no fundou a efmera repblica do Loreto, e conseguintemente no fugiu
com a caixa, como disse o telgrafo acerca de um dos rebeldes, logo que a
provncia se submeteu s autoridades legais do Peru. O ato da rebeldia no foi
sequer herico, e a levada da caixa no tem merecimento,  a simples necessidade
de um vitico. O po do exlio  amargo e duro; fora  barr-lo com
manteiga.

No, o homem que achei, no  nada
disso.  um barbeiro, mas tal barbeiro que, sendo barbeiro no  exatamente
barbeiro. Perdoai esta logomaquia; o estilo ressente-se da exaltao da minha
alma. Achei um homem. Se aquele cnico Digenes pode ouvir, do lugar onde est,
as vozes c de cima, deve cobrir-se de vergonha e tristeza; achei um homem. E
importa notar que no andei atrs dele. Estava em casa muito sossegado, com os
olhos nos jornais e o pensamento nas estrelas, quando um pequenino anncio me
deu rebate ao pensamento, e este desceu mais rpido que o raio at o papel.
Ento li isto: Vende-se uma casa de barbeiro fora da cidade, o ponto  bom e o
capital diminuto; o dono vende por no entender...

Eis a o homem. No lhe ponho o
nome, por no vir no anncio, mas a prpria falta dele faz crescer a pessoa. O
ato sobra. Essa nobre confisso de ignorncia  um modelo nico de lealdade, de
veracidade, de humanidade. No penseis que vendo a loja (parece dizer naquelas
poucas palavras do anncio) por estar rico, para ir passear  Europa, ou por
qualquer outro motivo que  vista se dir, como  uso escrever em
convites destes. No, senhor; vendo a minha loja de barbeiro por no entender do
ofcio. Parecia-me fcil, a princpio: sabo, uma navalha, uma cara, cuidei que
no era preciso mais escola que o uso, e foi a minha iluso, a minha grande
iluso. Vivi nela barbeando os homens. Pela sua parte, os homens vieram vindo,
ajudando o meu erro; entravam mansos e saam pacficos. Agora, porm, reconheo
que no sou absolutamente barbeiro, e a vista do sangue que derramei, faz-me
enfim recuar. Basta, Carvalho (este nome  necessrio  prosopopia), basta,
Carvalho!  tempo de abandonar o que no sabes. Que outros mais capazes tomem a
tua freguesia...

A grandeza deste homem (escusado 
diz-lo) est em ser nico. Se outros barbeiros vendessem as lojas por falta de
vocao, o merecimento seria pouco ou nenhum. Assim os dentistas. Assim os
farmacuticos. Assim toda a casta de oficiais deste mundo, que preferem ir
cavando as caras, as bocas e as covas, a vir dizer chmente que no entendem do
ofcio. Esse ato seria a retificao da sociedade. Um mau barbeiro pode dar um
bom guarda-livros, um excelente piloto, um banqueiro, um magistrado, um qumico,
um telogo. Cada homem seria assim devolvido ao lugar prprio e determinado. Nem
por sombras ligo esta retificao dos empregos ao fato do envenenamento das duas
crianas pelo remdio dado na Santa Casa de Misericrdia. Um engano no prova
nada; e se alguns farmacuticos, autores de iguais trocas, tm continuando a
lutuosa faina, no h razo para que a Santa Casa entregue a outras pessoas a
distribuio dos seus medicamentos, tanto mais que pessoas atuais os no
preparam, e, no caso ocorrente, o preparado estava certo: a culpa foi das duas
mes. A queixa dada pela me da defunta ter o destino desta, menos as pobres
flores que Olvia houver arranjado para a sepultura da vtima. Tambm h Cu
para as queixas e para os inquritos. O esquecimento pblico  o responso
contnuo que pede o eterno descanso para todas as folhas de papel despendidas
com tais atos.

Sobre isto de inquritos, perdi
uma iluso. No era grande; mas as iluses, ainda pequenas, do outra cor a este
mundo. Cuidava eu que os inquritos eram sempre feitos, como est escrito, pelo
prprio magistrado; mas ouvi que alguns escrives (poucos)  que os fazem e
redigem, supondo presente a pessoa que falta, como no whist se joga com
um morto. Creio que  por economia de tempo, e tempo  dinheiro, dizem os
americanos. O maior mal desse ato  no ser verdico, no o ser ilegal ou
irregular. Se as dores humanas se esquecem, como se no ho de esquecer as leis?
E dado seja simples praxe, as praxes alteram-se. O maior mal, digo eu,  no ser
verdico, posto que a mesmo se possa dizer que a verdade aparece muita vez
envolta na fico, e deve ser mais bela. As Dcadas no competem com os
Lusadas.

O ideal da praxe  a cabeleira do
speaker. Os ingleses mudaro a face da terra, antes que a cabea do
presidente da Cmara. Este h de estar ali com a eterna cabeleira branca e
longa, at meia-noite, e agora at mais tarde, se  exato o telegrama desta
semana, noticiando haver a Cmara dos Comuns resolvido levar as sesses alm
daquele limite. No  que o no tenha feito muitas vezes; basta um exemplo
clebre. Quando Gladstone deitou abaixo Disraeli, em 1852, acabou o seu discurso
ao amanhecer,  um triste e frio amanhecer de inverno, que arrancou ao ministro
cado esta palavra igualmente fria: Ruim dia para ir a Osborne! Agora vai ser
sempre assim, tenham ou no os ministros de ir a Osborne pedir demisso. E o
presidente firme, com a eterna cabeleira metida pela cabea abaixo. Sim, eu
gosto da tradio; mas h tradies que aborrecem, por inteis e cansativas. De
resto, cada povo tem as suas qualidades prprias e a diferena delas  que faz a
harmonia do mundo. Desculpai o trusmo e o neologismo.

Mas eu que falo humilde, baixo e
rudo, devia lembrar-me, a propsito de inquritos, que a clareza do estilo  uma
das formas da veracidade do escritor. Parece-me ter falado um tanto obscuramente
na semana passada acerca das prdicas do Padre Jlio Maria em Porto
Alegre. Alguns amigos supuseram ver uma crtica ao padre naquilo que era apenas
uma aluso s palmas na igreja, e ainda assim por causa de meu ouvido, que j
est bom, dou-lhes esta notcia. Que culpa tem o padre de ser eloqente? Ainda
agora acabo de ler o discurso que ele proferiu na Santa Casa, em Juiz de Fora, a
5 de janeiro deste ano. O assunto era velho: a caridade. Mas o talento est em
fazer de assuntos velhos assuntos novos,  ou pelas idias ou pela forma, e o
Padre Jlio Maria alcanou este fim por ambos os processos. Tambm ali foi
aplaudido. Em verdade, se ele prefere os discursos como os escreve,  natural
que os prprios ouvintes de Porto Alegre se sentissem arrebatados e esquecessem
o templo pela palavra que o enchia. Um ouvido curado faz justia a
todos.

E j que falo em palmas,
convido-os a envi-las ao Congresso de So Paulo, que votou ou est votando a
esttua do Padre Anchieta.  Padre Anchieta,  santo e grande homem, o novo
mundo no esqueceu o teu apostolado. A vais ser esculpido em forma que relembre
a cultos e incultos o que foste e o que fizeste nesta parte da terra. Os
paulistas bem merecem da histria. No  s a piedade que lhes agradecer;
tambm a justia reconhecer esse ato justo. To alta e doce figura, como a do
Padre Anchieta, no podia ficar nas velhas crnicas, nem unicamente nos belos
versos de Varela. Mais palmas a So Paulo, que acaba de votar o subsdio e a
penso a Carlos Gomes e seus filhos. Salvador de Mendona, um dos que saudaram a
aurora do nosso maestro (h quantos anos!), mandou no serum dos
cancerosos de New York uma esperana de cura para o autor do Guarani.
Oxal o encaminhe  vida, como o encaminhou  glria. E pois que trato de
msica, palmas ainda uma vez ao nosso austero hspede Moreira de S, que teve a
sua festa h quatro dias. A crtica disse o que devia do artista, a imprensa tem
dito o que vale o homem. Eu subscrevo tudo, to viva trago comigo a sensao que
me deu o seu violino mestre e mgico.

Enfim, e porque tudo acaba na
morte, uma lgrima por aquele que se chamou Dr. Rocha Lima. No sei se lgrima;
quando se padece tanto e to longamente, a morte  liberdade, e a liberdade,
qualquer que seja a sua espcie,  o sonho de todos os cativos. Rocha Lima deve
ter sonhado, durante a agonia de tantos meses, com este desencadeamento que lhe
tirou um triste suplcio intil.

2 de
agosto

Avizinham-se os tempos. Este sculo principiado com
Paulo e Virgnia, termina com Alfredo e Laura. No  j o amor ingnuo de
Port-Louis, mas um idlio trgico, como lhe chamou a Gazeta de
anteontem, sem dvida para empregar o ttulo do ltimo romance de Bourget. Em
verdade, esse adolescente de quatorze anos, que procurou a morte por no poder
vencer os desdns da vizinha de treze anos, faz temer a gerao que a vem
inaugurar o sculo XX. Que os dois se amassem, v.

Tem-se visto dessas aprendizagens tempors, ensaios
para vos mais altos. Que ela no gostasse dele, tambm  possvel. Nem todas
elas gostam logo dos primeiros olhos que as procuram; em tais casos, eles devem
ir bater  porta de outro corao, que se abre ou no abre, e tudo  passar o
tempo  espera do amor definitivo. Mas aquela aurora de sangue, aquela tentativa
de fazer estourar a vida, na idade em que tudo manda guard-la e faz-la
crescer, eis a um problema obscuro  ou demasiado claro, pois tudo se reduz a
um madrugar de paixes violentas. E o amor de Alfredo era ainda mais temporo do
que parece; vinha desde meses, muito antes dos quatorze anos, quando ela teria
pouco mais de doze.

Repito, os tempos se avizinham. Agora o amor
precoce; vai chegar o amor livre, se  verdade o que me anunciou, h dias, um
esprita. O amor livre no  precisamente o que supes,  um amor a
carnet e lpis, como nos bailes se marcam as valsas e quadrilhas, at
acabar no cotilho. Esse ser o amor librrimo: durar trs compassos. O amor
livre acompanha os estados da alma; pode durar cinco anos, pode no passar de
seis meses, trs semanas ou duas. Aos valsistas plena liberdade. O divrcio, que
o senado fez cair agora, ser remdio desnecessrio. Nem divrcio nem
consrcio.

Mas a maior prova de que os tempos se avizinham  a
que me deu o esprita de que trato. Estamos na vspera da felicidade humana. Vai
acabar o dinheiro. A primeira vista, parece absurdo que a ausncia do dinheiro
traga a prosperidade da terra; mas, ouvida a explicao (que eu nunca li os
livros desta escola) compreende-se logo; o dinheiro acaba por ser intil. Tudo
se far troca por troca; os alfaiates daro as calas de graa e recebero de
graa os sapatos e os chapus. O resto da vida e do mundo ir pelo mesmo
processo. O dinheiro fica abolido. A prpria idia do dinheiro perecer em duas
geraes.

Assim que, o mal financeiro e seu remdio,
tema de tantas cogitaes e palestras, acabar por si mesmo, no ficando remdio
nem mal. No haver finanas, naturalmente, no haver tesouro, nem impostos,
nem alfndegas secas ou molhadas. Extinguem-se os desfalques. Este ltimo efeito
diminui os inquritos,  falo dos inquritos rigorosos, nem conheo outros. A
virtude, ainda obrigada,  sublime. Os desfalques, andam to a rodo que a gente
de nimo frouxo j inquire de si mesma se isto de levar dinheiro das gavetas do
Estado ou do patro  verdadeiramente delito ou reivindicao necessria. Tudo
vai do modo de considerar o dinheiro pblico ou alheio. Se se entender que 
deveras pblico e no alheio, mete-se no bolso a moral, a lei e o dinheiro, e
brilha-se por algumas semanas.  sabido que dinheiro de desfalque nunca chega a
comprar um po para a velhice. Vai-se em folgares, e a pessoa que se d por
muito feliz, se no perde o emprego.

Acabado o dinheiro, os anglo-americanos no
assistiro a luta do ouro e da prata, como esta que se trava agora, para eleger
o candidato  presidncia da Repblica. Nunca amei o esprito prtico daquela
nao. Partidos que se podiam distinguir sonoramente, por meio de teorias
bonitas, e em falta delas, por algumas daquelas palavras grandes e doces, que
entram pela alma do eleitor e a embebedam, preferem escrever umas plataformas de
negociantes. Dou de barato que no haja teorias nem palavras, mas simples
pedidos de rua, distribuio de cartes pelo correio, um ou outro recrutamento
para no fazer da Constituio uma pea rgida, mas flexvel, alguma ameaa e o
resto; tudo isso  melhor que discutir ouro e prata em casares, diante de
centenas de delegados, e votar por um ou outro desses metais. E qual vencer em
dezembro prximo? Parece-me que o ouro, se  certo o que dizem os
ouristas; mas afirmando os pratistas que  a prata, melhor 
esperar as eleies. Ouro ou prata h de ser difcil que o rei Dlar
abdique, como quer o espiritismo. Uma folha, em que vem gravada a apoteose de
Mac-Kinley, candidato do partido republicano, anuncia um casamento que se deve
ter efetuado a 7 do ms passado. A noiva conta vinte anos e possui quatro
milhes de dlares. No  muito em terra onde os milhes chovem; mas esta
qualidade parece ser to principal que duas vezes o noticiarista fala nela.
Miss Uobarts, a despeito dos seus quatro milhes de dlares... E mais
abaixo: os bens da noiva so calculados em quatro milhes de dlares.
Como  que numa regio destas se h de abolir o dinheiro e restringir o
casamento a uma troca de calas e vestidos?

Pelo lado psicolgico e potico, perderemos muito
com a abolio do dinheiro. Ningum entender, daqui a meio sculo, o bom
conselho de Iago a Roderigo, quando lhe diz e torna a dizer, trs e quatro
vezes, que meta dinheiro na bolsa. Desde ento, j antes, e at agora  com ele
que se alcanam grandes e pequenas coisas, pblicas e secretas. Mete dinheiro na
bolsa,  ou no bolso, diremos hoje, e anda, para diante, firme, confiana na
alma, ainda que tenhas feito algum negcio escuro. No h escurido quando ainda
h fsforos. Mete dinheiro no bolso. Vende-te bem, no compres mal os outros,
corrompe e s corrompido, mas no te esqueas do dinheiro, que  com que se
compram os meles. Mete dinheiro no bolso.

Os conselhos de Iago, note-se bem, serviriam antes
ao adolescente Alfredo, que tentou morrer por Laura. Tambm Roderigo queria
matar-se por Desdmona, que o no ama e desposou Otelo; no era com revlver,
que ainda no havia, mas por um mergulho na gua. O honesto Iago  que lhe tira
a idia da cabea e promete ajud-lo a vencer, uma vez que meta dinheiro na
bolsa. Assim podemos falar ao jovem Alfredo. No te mates, namorado; mete
dinheiro no bolso, e caminha. A vida  larga e h muitas flores na estrada. Pode
ser at que essa mesma flor em boto, agora esquiva, quando vier a desabrochar,
pea um lugar na tua botoeira, lado do corao. Make money. E depressa,
depressa, antes que o dinheiro acabe, como quer o espiritismo, a no ser que o
esprita Torteroli acabe primeiro que ele, o que  quase certo.

9
de agosto

Quando se julgarem os tempos, a
semana que passou apresentar ao Senhor uma bela f de ofcio e ver o seu nome
inscrito entre as melhores deste ano.

 E tu que fizeste?

 Senhor, eu creio haver ganho um
bom lugar. Os meus acontecimentos no foram todos da mesma espcie, nem podiam
s-lo, mas foram todos importantes e graves. Antes de tudo, embora no v por
ordem cronolgica, a Inglaterra devolveu a Ilha da Trindade ao Brasil. Esta ilha
foi um dia tomada por ingleses, ao que dizem para estao de um cabo
telegrfico. Os brasileiros tiveram a notcia pelos jornais, quando a ocupao
durava j meses e o chefe do gabinete ingls que havia presidido  captura j
estava descansando dos trabalhos e outro chefe havia subido ao poder. Nestas
coisas de ilhas capturadas, os gabinetes so solidrios, e Salisbury acompanhou
Rosebery, como se no fossem adversrios polticos. Os brasileiros, porm,
sentiram a dor do ato, e assim o clamaram pela boca legislativa e pela boca
executiva, pela boca da imprensa e pela boca popular, com tal unanimidade que
produzia um belo coro patritico. Ento Portugal, que conhecia os antecedentes
da ilha interveio na contenda, deu  Gr-Bretanha as razes pelas quais a ilha
era brasileira, s brasileira.  preciso confessar que a velha Inglaterra
conhece muito bem histria e geografia, que so professadas nas suas
universidades com grande apuro; mas h casos em que o melhor  meter estas duas
disciplinas no bolso e ir estud-las nas universidades estrangeiras. Foi o que
sucedeu; Coimbra ensinou a Cambridge, e Cambridge achou que era assim, que a
ilha era realmente brasileira, e mandou corrigir as cartas da edio Rosebery,
onde a ilha da Trindade era uma estao telegrfica de Sir John
Pender.

 Ento tudo acabou em
paz?

 Plena paz.

 Conquanto se trate de hereges,
quero louv-los pelo ato de restituir o seu a seu dono. Que mais houve,
semana?

 Senhor, houve uns presentes de
ouro e prata, tinteiros, canetas, penas, ofertados pelos jurados da 7 sesso
ordinria de 1896 do Rio de Janeiro ao juiz e aos promotores em sinal de estima,
alta considerao e gratido pelas maneiras delicadas com que foram tratados
durante toda a sesso. O escrivo recebeu por igual motivo uma piteira de
mbar. Este ato em si mesmo,  quase vulgar; mas o que ele significa  muito.
Significa um imenso progresso nos costumes daquele pas. O jri  instituio
antiga no Brasil.  servio gratuito e obrigatrio; todos tm que deixar os
negcios para ir julgar os seus pares, sob pena de multa de vinte mil-ris por
dia. Se fosse s isso, era dever que todo cidado cumpriria de boa vontade; mas
havia mais. As maneiras descorteses, duras e brutais com que eram tratados pelos
magistrados e advogados no tm descrio possvel.

Nos primeiros anos os jurados eram
recebidos a pau,  porta do antigo aljube, por um meirinho: as sentenas
produziam sempre contra eles alguma coisa, porque, se absolviam o ru ou
minoravam a pena, os magistrados quebravam-lhes a cara; se, ao contrrio,
condenavam o ru, os advogados davam-lhos pontaps e murros. Entre muitos casos
que se podiam escrever e so ali conhecidos de toda a gente, figura o que
sucedeu em maro ou abril de 1877. Havia um jurado que, pelo tamanho, era quase
menino. Alm de pequeno, magro; alm de magro, doente. Pois os promotores, o
juiz, o escrivo e os advogados, antes de comear a audincia, divertiram-se em
fazer dele peteca. O pobrezinho ia das mos de uns para as dos outros, no meio
de grandes risadas. Os outros jurados, em vez de acudir em defesa do colega,
riram tambm por medo e por adulao. O infeliz saiu deitando sangue pela boca.
Pequenas coisas, cacholetas, respostas de desprezo, piparotes eram comuns.
Alguns magistrados mais dados  chalaa puxavam-lhe o nariz ou faziam-lhe
caretas. Um velho promotor tinha de costume, quando adivinhava o voto de algum
deles, apont-lo com o dedo, no meio do discurso, interrogando: Ser isto
entendido por aquela besta de culos que olha para mim? Muitas vezes o juiz lia
primeiramente para si as respostas do conselho de jurados e, se elas eram
favorveis ao ru, dizia antes de comear a l-las em voz alta: Vou ler agora a
lista das patadas que deram os Srs. Juzes de fato. No meio da polidez geral do
povo, esta exceo do juiz enchia a muita gente de piedade e de indignao; mas
ningum ousava propor uma reforma nos costumes...

 Fraqueza de nimo; os maus
costumes reformam-se.

 Uma era nova comeou em 1883; j
ento os jurados recebiam poucos cascudos e eram chamados apenas camelrios.
Anos depois, em 1887, houve certo escndalo por uma tentativa de reao dos
costumes antigos. A um dos jurados mandou pr o juiz uma cabea de burro. Era
muito bem feita a cabea; dois buracos serviam aos olhos e por um mecanismo
engenhoso o homem abanava as orelhas de quando em quando, como se enxotasse
moscas. Apesar do escndalo, a cabea ainda foi empregada nos quatro anos
posteriores. No fim de 1892 sentiu-se notvel mudana nas maneiras dos juzes e
promotores. J alguns destes tiravam o chapu aos jurados. Em setembro de 1893
apenas se ouviu a um daqueles dizer a um jurado que lhe perguntava pela sade:
Passa fora! Mas, pouco a pouco, as palavras grosseiras e gestos atrevidos
foram acabando. Em 1895, havia apenas indiferena; em 1896, os jurados da 7
sesso reconheceram que a polidez reinava enfim no tribunal popular. O
entusiasmo desta vitria, alcanada por uma longa pacincia, explica os
presentes de ouro e prata. Eles marcam na civilizao judiciria daquele pas
uma data memorvel. Por isso  que me encho de orgulho.

 E h grandes mortos?

 No tive nenhum. Um s morto,
no grande, mas digno de apreo, de afeto e de pesar, um pobre jornalista que
acabou com a pena na mo. Quem o conheceu na mocidade no podia antever a triste
vida nem a triste morte. O pai, diretor do Jornal do Comrcio, do Rio de
Janeiro, foi uma grande fora no seu tempo. Conta-se que podia quanto queria;
mas a morte acabou com a fora, e o filho teve de buscar em si mesmo, no no
nome, o trabalho necessrio. No fez outra coisa durante a vida inteira;
trabalhou no jornal e no teatro, fez rir, e de quantas risadas provocou, muitas
acabaram antes pela careta da morte, outras esqueceram talvez o autor delas;
pobre Augusto de Castro! Era em seu tempo um dandy. Se pudesse adivinhar
o que sucederia depois! Senhor, o que eu achei e deixei na terra foi a saudade
do passado e o gozo do presente; muitos gemem o que foi, todos saboreiam o que
, raros cuidam do que ser. Um clssico portugus (e aquele finado apreciava os
clssicos da sua lngua) escreveu que era provrbio ou dito alheio  no me
lembra bem  que os italianos se governam pelo passado, os franceses pelo
presente e os espanhis pelo que h de vir. E acrescenta o clssico: Aqui
quisera eu dar uma repreenso de pena  nossa Espanha... Repreenso por qu,
Senhor? Eu creio que o mal  no cuidar no dia seguinte.

 Ests enganada, oh! muito
enganada! Cuidar no dia seguinte  uma coisa; mas governar-se pelo que h de
vir! Eu deixei aos homens o presente, que  necessrio  vida, e o passado, que
 preciso ao corao. O futuro  meu. Que sabe um tempo de outro tempo? Que
semana pode adivinhar a semana seguinte?

16 de agosto

Esta semana  toda de poesia. J a
primeira linha  um verso, boa maneira de entrar em matria. Assim que, podeis
fugir daqui, filisteus de uma figa, e ir dizer entre vs, como aquele outro de
Heine: Temos hoje uma bela temperatura. O que sucedeu em prosa nestes sete
dias merecia decerto algum lugar, se a poesia no fosse o primeiro dos negcios
humanos ou se o espao desse para tanto; mas no d. Por exemplo, no pode
conter tudo o que sugere a reunio dos presidentes de bancos de nossa praa.
Chega, quando muito, para dizer que o remdio to procurado para o mal
financeiro,  e naturalmente econmico,  foi achado depois de tantas
cogitaes. Os diretores, acabada a reunio, voltaram aos seus respectivos
bancos e a taxa de cmbio subiu logo 1/8. A Bruxa espantou-se com isto e
declarou no entender o cmbio. A poetisa Elvira Gama parecia hav-lo entendido,
no soneto que ontem publicou aqui.

Doce cmbio...

Mas trata de amores, como se v da
segunda parte do verso:

...de seres atrados,
Ligados pela ao de igual
desejo.

Eu  que o entendi de vez. A
primeira reunio fez subir um degrau, a segunda far subir outro, e viro muitas
outras at que o cmbio chegue ao patamar da escada. A convid-lo-o a
descansar um pouco, e, uma vez entrado na sala, fechar-lhe-o as portas e
deix-lo-o bradar  vontade.  Ests a 27, respondero os diretores do banco,
podes quebrar os trastes e a cabea, ests a 27, no desce de 27.

Quanto  desavena entre a bancada
mineira e a bancada paulista, outro assunto de prosa da semana, menos ainda pode
caber aqui, ele e tudo o que sugere relativamente ao futuro. Digo s que aos
homens polticos da nossa terra ouvi sempre este axioma: que os partidos so
necessrios ao governo de uma nao. Partidos, isto , duas ou mais correntes de
opinio organizadas, que vo a todas as partes do pas. Na nossa federao esta
necessidade  uma condio de unidade. A Cmara de tantas bancadas quantos
Estados; o prprio Rio de Janeiro, que por estar mais perto da capital cheira
ainda a provncia, e o Distrito Federal, que constitucionalmente no  Estado,
tem cada um a sua bancada particular. Ora, todas essas bancadas no s impediro
a formao dos partidos, mas podem chegar a destruir o nico partido existente e
fazer da Cmara uma constelao de sentimentos locais, uma arena de rivalidades
estaduais. Quando muito, os Estados pequenos mergulharo nos grandes, e
ficaremos com seis ou sete reinos, ducados e principados, dos quais mais de um
querer ser a Prssia.

Entro a devanear. Tudo porque no
me deixei ir pela poesia adiante. Pois vamos a ela, e comecemos pelo quarto
jantar da Revista Brasileira, a que no faltou poesia nem alegria. A
alegria, quando tanta gente anda a tremer pelas falncias no fim do ms,  prova
de que a Revista no tem entranhas ou s as tem para os seus banquetes.
Ela pode responder, entretanto, que a nica falncia que teme deveras  a do
esprito. No dia em que meia dzia de homens no puderem trocar duas dzias de
idias, tudo est acabado, os filisteus tomaro conta da cidade e do mundo e
repetiro uns aos outros a mesma exclamao daquele de Heine: Es ist heute
eine schne Witterung! Mas enquanto o esprito no falir, a Revista
comer os seus jantares mensais at que venha o centsimo, que ser de estrondo.
Se eu me no achar entre os convivas,  que estarei morto; peo desde j aos
sobreviventes que bebam  minha sade.

A demais poesia da semana
consistiu em trs aniversrios natalcios de poetas: o de Gonalves Dias a 10, o
de Magalhes e Carlos a 13. O nico popular destes poetas  ainda o autor da
Cano do Exlio. Magalhes teve principalmente uma pgina popular, que todos
os rapazes do meu tempo (e j no era a mesma gerao) traziam de cor. O Carlos
no chegou ao pblico. Mas so trs nomes nacionais, e o maior deles tem a
esttua que lhe deu a sua terra. No indaguemos da imortalidade. Bocage, louvado
por Filinto, improvisou uma ode entusistica, fechada por esta clebre
entonao: Posteridade, s minha! E ningum j lia Filinto, quando
Bocage ainda era devorado. O prprio Bocage, a despeito dos belos versos que
deixou, est pedindo uma escolha dos sete volumes,  ou dos seis, para falar
honestamente.

Justamente anteontem conversvamos
alguns acerca da sobrevivncia de livros e de autores franceses deste sculo.
Entrvamos, em bom sentido, naquela falange de Musset:

Electeurs brevets des
morts et des vivants.

e no foi pequeno o nosso trabalho
abatendo cabeas altivas. Nem Renan escapou, nem Taine; e, se no escapou Taine,
que valor pode ter a profecia dele sobre as novelas e contos de Merime?
Il est
probable quen lan 2000 on relira la PARTIE DE TRIC-TRAC, pour
savoir ce quil en cote manquer une fois  lhonneur. Taine no fez como os
profetas hebreus, que afirmam sem demonstrar; ele analisa as causas da
vitalidade das novelas de Mrime, os elementos que serviram  composio, o
mtodo e a arte da composio. O tempo dir se acertou; e pode suceder que o
profeta acabe antes da profecia e que no ano 2000 ningum leia a Histria da
Literatura Inglesa, por mais admirvel que seja esse livro.

Mas no ano 2000 os contos de
Mrime tero sculo e meio. Que  sculo e meio! No ms findo, o poeta laureado
de Inglaterra falou no centenrio da morte de Burns, cuja esttua era
inaugurada; parodiou um dito antigo, dizendo enfaticamente que no se pode
julgar seguro o renome de um homem antes de 100 anos depois dele morto. Conclui
que Burns chegara ao ponto donde no seria mais derribado. No discuto opinies
de poetas nem de crticos, mas bem pode ser que seja verdadeira. Em tal caso, o
autor de Carmem estar igualmente seguro, se o seu profeta acertou. Resta
lembrar que a vida dos livros  vria como a dos homens. Uns morrem de vinte,
outros de cinqenta, outros de cem anos, ou de noventa e nove, para no
desmentir o poeta laureado. Muitos h que, passado o sculo, caem nas
bibliotecas, onde a curiosidade os vai ver, e donde podem sair em parte para a
histria, em parte para os florilgios. Ora, esse prolongamento da vida, curto
ou longo,  um pequeno retalho de glria. A imortalidade  que  de
poucos.

No h muito, comemoramos o
centenrio de Jos Baslio, e ainda ontem encontrei o jovem talento e gosto que
iniciou essa homenagem. Ho de lembrar-se que no foi ruidosa; no teve o
esplendor da de Burns, cuja sombra viu chegar de todas as partes do mundo em que
se fala a lngua inglesa presentes votivos e deputaes especiais. O chefe do
partido liberal presidia s festas, onde proferiu dois discursos. C tambm eram
passados cem anos; mas, ou h menor expanso aqui em matria de poesia, ou o
autor do Uruguai caminha para as bibliotecas e para a devoo de poucos.
No sei se ao cabo de outro sculo haver outro Magalhes que inicie uma
celebrao. Talvez j o poeta esteja unicamente nos florilgios com alguns dos
mais belos versos que se tm escrito na nossa lngua.  ainda uma sombra de
glria. A moeda que achamos entre runas tem o preo da antigidade; a do nosso
poeta ter a da prpria mo que lhe deu cunho. Se afinal se perder, haver
vivido.

23 de agosto

Contrastes da vida, que so as
obras de imaginao ao p de vs!

Vinha eu de um banco, aonde fora
saber notcias do cmbio. No tenho relaes diretas com o cmbio; no saco
sobre Londres, nem sobre qualquer outro ponto da terra, que  assaz vasta, e eu
demasiado pequeno. Mas tudo o que compro caro, dizem-me que  culpa do cmbio.
Que quer o senhor que eu faa com este cmbio a 9? perguntam-me. Em vo leio
os jornais; o cmbio no sobe de 9. O que faz  variar; ora  9 1/8,
ora 9 1/4, ora 9 3/8. Dorme-se com ele a 9
15/16, acorda-se a 9 3/4. Ao meio-dia est a 9
1/2. Um eterno vaivm na mesma eterna casa. Sucedeu o que se d com
tudo; habituei-me a essa triste especulao de 9, e dei de mo a todas as
esperanas de ver o cmbio a 10.

De repente, ouo dizer na rua que
o cmbio baixara  casa dos 8. A princpio no acreditei; era uma inveno de
mau gosto para assustar a gente, ou algum inimigo achara aquele meio de me fazer
mal. Mas tanto me repetiram a notcia, que resolvi ir s casas argentrias saber
se realmente o cmbio descera a 8. Em caminho quis calcular o preo das calas e
do po, mas no achei nada, vi s que seria mais caro. Entrei no primeiro banco,
 mo, e at agora no sei qual foi. Gente bastante: todos os olhos fitavam as
tabelas. Vi um 8, acompanhado de pequenos algarismos, que a cegueira da comoo
no me permitiu discernir. Que me importavam estes? Um quarto, um oitavo, trs
oitavos, tudo me era indiferente, uma vez que o fatal nmero 8 l estava. Esse
algarismo, que eu presumia nunca ver nas tabelas cambiais, ali me apareceu com
os seus dois crculos, um por cima do outro. Pareceu-me um par de olhos tortos e
irnicos.

Perguntei a um desconhecido se era
verdade. Respondeu-me que era verdade. Quanto  causa, quando lhe perguntei por
ela, respondeu-me com aquele gesto de ignorncia, que consiste em fazer cair os
cantos da boca. Se bem me lembro, acrescentou o gesto de abrir os braos com as
mos espalmadas, que  a mesma ignorncia em itlico. Compreendi que no sabia a
causa; mas o efeito ali estava, e todos os olhos em cima dele, sem a
consternao nem o terror que deviam ter os meus. Sa; na Rua da Alfndega,
esquina da da Candelria, havia alguma agitao, certo burburinho, mas no pude
colher mais do que j sabia, isto , que o cmbio baixara a 8. Um perverso,
vendo-me apavorado, assegurava a outro que a queda a 7 no era impossvel. Quis
ir ao meu alfaiate para que me reduzisse a nova tabela ao preo que teria de
pagar pelas calas, mas  certo que ningum se apressa em receber uma notcia
m. Que pode suceder? disse comigo; chegarmos  arozia; ser a restaurao da
nossa idade pr-histrica, e um caminho para o den, avant la
lettre.

Enquanto seguia na direo da Rua
Primeiro de maro, ouvia falar do cmbio. Quase a dobrar a esquina, um homem lia
a outro as cotaes dos fundos. Tinham-se vendido aes do Banco Emissor de
Pernambuco a mil e quinhentos; as debntures da Leopoldina chegaram a obter seis
mil setecentos e cinqenta; das aes da Melhoramentos do Maranho havia ofertas
a quatro mil e quinhentos, mas ningum lhes pegava. Dobrei a esquina, entrei na
Rua Primeiro de maro, em direo ao Carceler. Ia costeando as vitrinas de
cambistas, cheias de ouro, muita libra, muito franco, muito dlar, tudo
empilhado, esperando os fregueses. Vinha de dentro um fedor judaico de
entontecer, mas a vista das libras restitua o equilbrio ao crebro, e fazia-me
parar, mirar, cobiar...

 Vamos! exclamei, olhando para o
cu.

Que vi, ento, leitor amigo? Na
igreja da Cruz dos Militares, dentro do nicho de So Joo, estavam trs pombas.
Uma pousava na cabea do apstolo, outra na cabea da  guia, outra no livro
aberto. Esta parecia ler, mas no lia, porque abriu logo as asas e trepou 
cabea do apstolo, e a que estava na cabea do apstolo, desceu  cabea da 
guia, e a que estava na cabea da  guia, passou ao livro. Uma quarta pomba veio
ter com elas. Ento comearam todas a subir e a descer, ora parando por alguns
segundos, e o santo quieto, deixando que elas lhe contornassem o pescoo e os
emblemas, como se no tivesse outro ofcio que esse de dar pouso s
pombas.

Parei e disse comigo: Contrastes
da vida, que so as obras da imaginao ao p de vs? Nenhuma daquelas pombas
pensa no cmbio, nem na baixa, nem no que h de vestir, nem no que h de comer.
Eis ali a verdadeira gente crist, eis o sermo da montanha, a dois passos dos
bancos, s prprias barbas destas casas de cambistas que me enchem de inveja.
Talvez na alma de algum destes homens viva ainda a prpria alma de um antigo que
ouviu discurso de Jesus, e no trocou por este o Deus de Abrao, de Isaac e de
Jac. Cuida das libras, como eu, que visto e me sustento pelo valor delas, mas
eis aqui o que dizem as pombas, repetindo o sermo da montanha: No andeis
cuidadosos da vossa vida, que comereis, nem para o vosso corpo, que vestireis...
Olhai para as aves do cu, que no semeiam, nem segam, nem fazem provimentos nos
celeiros; e contudo, vosso pai celestial as sustenta... E por que andais vs
solcitos pelo vestido? Considerai como crescem os lrios do campo; eles no
trabalham nem fiam... No andeis inquietos pelo dia de amanh. Porque o dia de
amanh a si mesmo trar o seu cuidado; ao de hoje basta a sua prpria aflio.
(So Mateus.)

Realmente, no cuidavam de nada
aquelas pombas. Onde  o ninho delas? Perto ou longe, gostam de vir aqui  guia
de Patmos. Alguma vez iro ao apstolo do outro nicho, So Pedro, creio; mas So
Joo  que as namora, neste dia de cmbio baixo, como para fazer contraste com a
besta do Apocalipse, a famosa besta de sete cabeas e dez cornos,  nmero
fatdico  talvez a taxa do cmbio de amanh (7/10).

Afinal deixei a contemplao das
pombas e fui-me  farmcia, a uma das farmcias que h naquela rua. Ia comprar
um remdio; pediram-me por ele quantia grossa. Como eu estranhasse o preo,
replicou-me o farmacutico: Mas, que quer o senhor que eu faa com este cmbio
a 8? Como ao grande Gama, arrepiaram-se-me as carnes e o cabelo, mas s de
ouvi-lo. A vista era boa, serena, quase risonha. Quis raciocinar, mas raciocnio
 uma coisa e medicamento  outra; sa de l com o remdio e um acrscimo de
quinhentos ris no preo. Contaram-se que j no h tostes nas farmcias, nem
tostes, menos ainda vintns. Tudo custa mil-ris ou mil e quinhentos, dois mil
ris ou dois mil e quinhentos, e assim por diante. Para a contabilidade ,
realmente, mais fcil; e pode ser que o prprio enfermo ganhe com isso  a
confiana, metade da cura.

Na rua tornei a erguer os olhos s
pombas. S vi uma, pousada no livro. Que tens tu? perguntei-lhe c de baixo, por
um modo sugestivo. Se  a besta de sete cabeas, no te importes que venha,
contanto que no lhe cortes nenhuma. J temos a de oito: menos de sete cabeas 
nada. Pagarei nove mil-ris pelo remdio, mas antes nove que quatorze, no dia em
que a besta ficar descabeada, porque ento o mais barato  o melhor de todos os
remdios. E a pomba, pelo mesmo processo sugestivo:

 Que tenho eu com remdios, homem
de pouca f? O ar e o mato so as minhas boticas.

Quis pedir socorro ao apstolo;
mas o mrmore,  ou a vista me engana, ou o apstolo gosta das suas pombas
amigas,  o mrmore sorriu e no voltou a cara para no desmentir o estaturio.
Sorriu, e a pomba saltou-lhe  cabea, para lhe tirar comida, pagar, ou para lhe
dar um beijo.

30 de
agosto

Eis aqui o que diz o evangelista S. Marcos, X, 13,
14: Ento lhe apresentavam uns meninos para que os tocasse; mas os discpulos
ameaavam aos que lho apresentavam. O que vendo Jesus, levou-o muito a mal, e
disse-lhes: Deixai vir a mim os pequeninos, e no os embaraceis, porque dos
tais  o reino de Deus. Farei como Jesus, em relao aos casos midos da
semana, que os grandes querem abafar e pr de lado. Nesta semana fez-se histria
e larga historia, uma pblica, outra particular ou secreta, que no sei se so
sinnimos, nem estou para ir agora aos dicionrios; mas fez-se muita histria, e
ainda se far histria, ofcio que no  meu.

No  meu ofcio faz-la nem cont-la. Se pudesse
adivinh-la, sim, senhor. J que estamos com a Itlia em frente, deixem-me
lembrar um grave historiador italiano do sculo XVI, que nada tem com os
cnsules deste sculo em S. Paulo, e que escreveu de Savonarola o que sabemos
daquele homem, mas  melhor dizer pela lngua de ambos: Savonarola... faceva
professione di anteveder le cose future. Ah! se eu pudesse exercer o mesmo
ofcio! Teria contado domingo passado a semana que acabou ontem, e contaria hoje
a que comea amanh. No iria por boatos, que geralmente no se realizam, nem
por indues, que falham muita vez. Ouo desde pequeno (e ainda agora ouvi) que
os nossos negcios se resolvem pelo imprevisto. Pois  o imprevisto que eu
quisera ver como se estivesse acontecendo, e cont-lo sete dias antes. Assim os
leitores aprenderiam comigo, no a histria que se aprende nos ginsios e
faculdades, no a que se vende nas livrarias, mas a que anda encoberta, como o
cu desta semana. Desde segunda-feira, dia de S. Bartolomeu, que estamos quase
sem azul do cu, pouca luz, essa mesma de vermelho, e raras estrelas.  o
futuro. A lua poltica tambm andou vermelha. Ventou de quando em quando. O cu
cobriu-se. Eu quisera ter o ofcio de Savonarola, apesar de italiano.

Mas no me cabendo contar os grandes fatos, deixai
vir a mim os pequeninos, como pedia Jesus. Um dos mais escassos e obscuros foi a
conspirao descoberta quarta-feira no Hospcio dos Alienados. Alguns doidos
tinham preparado um movimento para matar os guardas, abrir as portas e vir gozar
c fora o ar livre, ainda que nublado. Essa curiosa conspirao  sintoma de
algum juzo. Tramar a fuga no mais ardente dos sucessos exteriores, quando a
polcia era pouca para guardar a cidade, mostra que os conspiradores, ou so
menos alienados do que parecem, ou andam em comunicao com outros doidos c de
fora. Mas quem sero estes? Nem sempre  fcil distinguir, neste fim de sculo,
um alienado de um ajuizado; ao contrrio, h destes que parecem aqueles, e
vice-versa. Tu que me ls, podes ser um mentecapto, e talvez rias desta minha
lembrana, tanta  a conscincia que tens do teu juzo. Tambm pode ser que o
mentecapto seja eu.

Em verdade, no h certeza nesta matria;  vista
da sagacidade de uns e do estonteamento de outros. O melhor seria uma lei que
abolisse a alienao mental, revogando as disposies em contrrio, e ordenando
que os supostos doidos fossem restitudos  sociedade, com indenizao. Sei que,
em geral, preferimos violar a lei a pr outra nova; mas, para segurana dos
hspedes da Praia Vermelha, aconselho este segundo processo. E no s daqueles,
se no tambm para a tua e minha segurana; podemos ir um dia para l, sem outro
recurso mais que a conspirao, que pode ser descoberta; o melhor  no ir
ningum.

Outro pequenino que h de vir a mim,  a exumao
do cadver de uma atriz. Correu que a atriz sucumbira em conseqncia de
pancadas que lhe dera um ator; mas foi h tantos dias, e meteram-se tais
sucessos de permeio, que eu pensei ser negcio igualmente morto e enterrado.
Geralmente, a justia, polcia ou como quer que se lhe chame, no teima tanto em
perturbar o sono dos defuntos. Os prprios crimes em que no h defunto, tem-se
visto seguirem o destino da Malibran, que ao cabo de quinze dias de finada j o
poeta achava tarde para falar dela. Lendo, porm, a notcia com a ateno que
merece, entende-se tudo; o acusado de espancamento no queria ficar com a
suspeita em cima de si, e, posto o no conhea, acho que fez bem. A sua petio
foi a enxada,       o instrumento cirrgico, o
auto do escrivo, o relatrio mdico-legal. Sem ela,  provvel que a morta
tivesse esperado a trombeta do juzo final, para dizer ao Senhor que ele no
tinha culpa.

O que tambm se compreende,  que a exumao e a
autpsia se hajam feito, conforme li nos jornais, diante de grande nmero de
curiosos. Essa espcie de curiosidade no  menos legtima sem menos nobre que
outras muitas. Nada mais comum que ver um cadver em caixo aberto ou na rua.
Agora mesmo viram-se alguns em telegramas de S. Paulo. Tambm se podem ver
cadveres no necrotrio e rara  a pessoa que ali passa, a p, de carro ou de
bond, que no deite os olhos para o mrmore, a ver se h algum corpo em
cima. Exumaes e autopsias  que no so comuns, mormente de pessoas
conhecidas; e se estas so atrizes, cresce naturalmente o gosto do espetculo. 
ainda um espetculo, sombra do Rio Nu, sem as calas de meia que a
verdadeira pea ainda usa, dizem. As feies  que no conservam a frescura dos
ltimos instantes; a morte  uma velha careta. Mirar assim a pessoa desenterrada
pode causar a princpio certa impresso de aborrecimento, mas passa
logo.

Venha agora a mim outro pequenino,  ou
pequenssimo, para falar superlativamente. Venderam-se trezentas e tantas aes
da Companhia Saneamento, a vintm cada uma. Vintm ou vinte ris, se preferis a
frmula oficial. A razo de tal preo explica-se bem, considerando que as aes
da companhia podem ser antes bentinhos de saneamento que livram da febre
amarela, trazidos ao pescoo. O dividendo no  em dinheiro, mas em sade; e, se
 verdade que destes dois bens o primeiro est em segundo lugar, e o segundo em
primeiro, como querem o meu belo Schopenhauer e todos os velhos e moos de
juzo, vale mais o bentinho que a aplice. Os estudos higinicos feitos este ano
parece que nunca concordaram na questo do lenol de gua. Ora, no se sabendo
ao certo onde est o mal nem o remdio,  justo pedir este ao cu, e distribuir
aes a vinte ris, para chegar aos pobres.

6
de setembro

Qualquer de ns teria organizado
este mundo melhor do que saiu. A morte, por exemplo, bem podia ser to-somente a
aposentadoria da vida, com prazo certo. Ningum iria por molstia ou desastre,
mas por natural invalidez; a velhice, tornando a pessoa incapaz, no a poria a
cargo dos seus ou dos outros. Como isto andaria assim desde o princpio das
coisas, ningum sentiria dor nem temor, nem os que se fossem, nem os que
ficassem. Podia ser uma cerimnia domstica ou pblica; entraria nos costumes
uma refeio de despedida, frugal, no triste, em que os que iam morrer,
dissessem as saudades que levavam, fizessem recomendaes, dessem conselhos, e,
se fossem alegres, contassem anedotas alegres. Muitas flores, no perptuas, nem
dessas outras de cores carregadas, mas claras e vivas, como de npcias. E melhor
seria no haver nada, alm da despedidas verbais e amigas...

Bem sei o que se pode dizer contra
isto; mas por agora importa-me somente sonhar alguma coisa que no seja a morte
bruta, crua e terrvel, que no quer saber se um homem  ainda precioso aos
seus, nem se merece as torturas com que o aflige primeiro, antes de
estrangul-lo. Tal acaba de suceder ao nosso Alfredo Gonalves, que foi
anteontem levado  sepultura, aps algum tempo de enfermidade dura e fatal. Para
falar a linguagem da razo, se a morte havia de lev-lo anteontem, melhor faria
se o levasse mais cedo. A linguagem do sentimento  outra: por mais que doa ver
padecer, e por certo que seja o triste desenlace, o corao teima em no querer
romper os ltimos vnculos, e a esperana tenaz vai confortando os ltimos
desesperos. No se compreende a necessidade da morte do pobre Alfredo, um rapaz
afetuoso e bom, jovial e forte, que no fazia mal a ningum, antes fazia bem a
alguns e a muitos, porque  j benefcio praticar um esprito agudo e um corao
amigo.

Quando anteontem calcava a terra
do cemitrio, debaixo da chuva que caa, batido do vento que torcia as alvores,
lembrou-me outra ocasio, j remota, em que ali fomos levar um irmo do Alfredo.
Nunca me h de esquecer essa triste noite. A morte do Artur foi sbita e
inesperada. Prestes a ser transportado para o coche fnebre, pareceu a um amigo
e mdico que o bito era aparente, um caso possvel de catalepsia. No se podia
publicar essa esperana dbil, em tal ocasio, quando todos estavam ali para
conduzir um cadver; calou-se a suspeita, e o fretro, mal fechado, foi levado
ao cemitrio... No podeis imaginar a sensao que dava aos poucos que sabiam da
ocorrncia, aquele acompanhar o saimento de uma pessoa que podia estar viva. No
cemitrio, feita reservadamente a comunicao, foi o caixo deixado aberto em
depsito, velado por cinco ou seis amigos. O estado do corpo era ainda o mesmo;
os olhos, quando se lhes levantassem as plpebras, pareciam ver. Os sinais
definitivos da morte vieram muito mais tarde.

Sa antes deles, eram cerca de
oito horas; no havia chuva, como anteontem, nem lua, mas a noite era clara, e
as casas brancas da necrpole deixavam-se ver muito bem, com os seus ciprestes
ao lado. Descendo por aqueles renques de sepulturas, cuidava na entrada da
esperana em lugar onde as suas asas nunca tocaram o p nfimo e ltimo. Cuidei
tambm naqueles que porventura houvessem sido, em m hora, transferidos ao
derradeiro leito sem ter pegado no sono e sem aquela final viglia.

Carlos Gomes no deixar
esperanas dessas. Talvez ao chegarem estas linhas ao Rio ele Janeiro, j no
exista o inspirado compositor, que entrou em agonia, diz uma carta do Par,
publicada ontem no Jornal do Comrcio. Pois existe, est ainda na mesma
agonia em que entrou, quando elas de l saram. Ho de lembrar-se que h muitos
dias um telegrama do Par disse a mesma coisa; foi antes dos protocolos
italianos. Os protocolos vieram, agitaram, passaram, e o cabo no nos contou
mais nada. O padecimento, assim longo, deve ser forte; a carta confirma esta
deduo. Carlos Gomes continua a morrer. At quando ir morrendo? A cincia dir
o que souber; mas ela tambm sabe que no pode crer em si mesma.

No me acuseis de teimar neste
cho melanclico. O livro da semana foi um obiturio, e no ters lido outra
coisa, fora daqui, seno mortes e mais mortes. No falemos do chanceler da
Rssia, nem de outro qualquer personagem, que a distncia e a natureza do cargo
podem despir de interesse para ns. Mas vede as matanas de cristos e
muulmanos na Salnica, esta semana, e finalmente em Constantinopla. O cabo tem
contado coisas de arrepiar. Na capital turca empregaram-se centenas de coveiros
em abrir centenas de covas para ench-las com centenas de cadveres. No nos
dizem,  verdade, se na morte ao menos foram irmanados cristos e maometanos,
mas  provvel que no. dio que acaba com a vida, no  dio,  sombra de dio,
 simples e reles antipatia. O verdadeiro  o que passa s outras geraes, o
que vai buscar a segunda no prprio ventre da primeira, violando as mes a ferro
e fogo. Isto  que  dio. O provvel  que os coveiros tenham separado os
corpos, e ser piedade, pois no sabemos se, ainda no caminho do outro mundo, o
Coro no ir enticar com o Evangelho. Um telegrama de Londres diz que Istambul
est sossegada; ainda bem, mas at quando?

Tambm comearam a matar nas
Filipinas, a matar e a morrer pela independncia, como em Cuba. A Espanha
comove-se e dispe-se a matar tambm, antes de morrer.  um imprio que continua
a esboroar-se, pela lei das coisas, e que resiste. Assim vai o mundo esta
semana; no  provvel que v diversamente na semana prxima.

E ainda no conto aquele gnero de
morte que no est nas mos dos homens, nem dentro deles, o que a natureza
reserva no seio da terra para distribu-la por atacado. L se foi mais uma
cidade do Japo, comida por um terremoto, com a gente que tinha. Os terremotos
japoneses, alguns meses antes, levaram cerca de dez mil pessoas. O cabo fala
tambm dos tremores na Europa, mas por ora no houve ali nenhuma Lisboa que
algum Pombal restaure, nem outra Pompia, que possa dormir muitos sculos.
Mortes, pode ser; a semana  de mortes.

13 de setembro

Dizem da Bahia que Jesus Cristo
enviou um emissrio  terra,  prpria terra da Bahia, lugar denominado
Gameleira, termo de Orob Grande. Chama-se esse emissrio Manuel da Benta Hora,
e tem j um sqito superior a cem pessoas.

No serei eu que chame a isto
verdade ou mentira. Podem ser as duas coisas, uma vez que a verdade confine na
iluso, e a mentira na boa f. No tendo lido nem ouvido o Evangelho de Benta
Hora, acho prudente conservar-me  espera dos acontecimentos. Certamente, no me
parece que Jesus Cristo haja pensado em mandar emissrios novos para espalhar
algum preceito novssimo. No; eu creio que tudo est dito e explicado.
Entretanto, pode ser que Benta Hora, estando de boa f, ouvisse alguma voz em
sonho ou acordado, e at visse com os prprios olhos a figura de Jesus. Os
fenmenos cerebrais complicam-se. As descobertas ltimas so estupendas;
tiram-se retratos de ossos e de fetos. H muito que os espritas afirmam que os
mortos escrevem pelos dedos dos vivos. Tudo  possvel neste mundo e neste final
de um grande sculo.

Da a minha admirao ao ler que a
imprensa da Bahia aconselha ao governo faa recolher Benta Hora  cadeia.
Note-se de passagem: a notcia, posto que telegrfica, exprime-se deste modo: a
imprensa pede ao governo mandar quanto antes que faa Benta Hora apresentar
as divinas credenciais na cadeia... Este gosto de fazer estilo, embora pelo
fio telegrfico,  talvez mais extraordinrio que a prpria misso do regente
apstolo. O telgrafo  uma inveno econmica, deve ser conciso e at obscuro.
O estilo faz-se por extenso em livros e papis pblicos, e s vezes nem a. Mas
ns amamos os ricos vesturios do pensamento, e o telegrama vulgar  como a
tanga, mais parece despir que vestir. Assim explico aquele modo faceto de
noticiar que querem meter o homem na cadeia.

Isto dito, tornemos  minha
admirao. No conhecendo Benta Hora, no crendo muito na misso que o traz
(salvo as restries acima postas), no  preciso lembrar que no defendo um
amigo, como se pode alegar dos que esto aqui acusando o padre Dantas,
vice-governador de Sergipe, por perseguir os padres da oposio. Em Sergipe,
onde o governo  quase eclesistico, no h necessidade de novos emissrios do
Cu; as leis divinas esto perpetuamente estabelecidas, e o que houver de ser,
no inventado, mas definido, vir de Roma. Assim o devem crer todos os padres do
Estado, sejam da oposio, ou do governo, Olmpios, Dantas ou Jnatas. Portanto,
se alguns forem ali presos, no  porque se inculquem portadores de novas regras
de Cristo, mas porque, unidos no espiritual, no o esto no temporal. A cadeia
fez-se para os corpos. Todos eles tm amigos seus, que os acompanham no
infortnio, como na prosperidade; mas tais amigos no vo atrs de uma nova
doutrina de Jesus, vo atrs dos seus padres.

 o contrrio dos cento e tantos
amigos de Benta Hora; esses, com certeza, vo atrs de algum Evangelho. Ora,
pergunto eu: a liberdade de profetar no  igual  de escrever, imprimir, orar,
gravar? Ningum contesta  imprensa o direito de pregar uma nova doutrina
poltica ou econmica. Quando os homens pblicos falam em nome da opinio, no
h quem os mande apresentar as credenciais na cadeia. E desses, por trs que
digam a verdade, haver outros trs que digam outra coisa, no sendo natural que
todos dem o mesmo recado com idias e palavras opostas. Donde vem ento que o
triste do Benta Hora deva ir confiar s tbuas de um soalho as doutrinas que
traz para um povo inteiro, dado que a cadeia de Obrob-Grande seja
assoalhada?

L porque o profeta  pequeno e
obscuro, no  razo para recolh-lo  enxovia. Os pequenos crescem, e a
obscuridade  inferior  fama unicamente em contar menor nmero de pessoas que
saibam da profecia e do profeta. Talvez esta explicao esteja em La Palisse,
mas esse nobre autor tem j direito a ser citado sem se lhe pr o nome adiante.
Os obscuros surgiro  luz, e algum dia aquele pobre homem da Gameleira poder
ser ilustre. Se, porm, o motivo da priso  andar na rua, pregando, onde fica o
direito de locomoo e de comunicao? E se esse homem pode andar calado, por
que no andar falando? Que fale em voz baixa ou mdia, para no atordoar os
outros, sim, senhor, mas isso  negcio de admoestao, no de
captura.

Agora se a alegao para a captura
 a falsidade do mandato, cumpre advertir que, antes de tudo,  mister prov-lo.
Em segundo lugar, nem todos os mandatos so verdadeiros, ou, por outra, muitos
deles so argidos de falsos, e nem por isso deixam de ser cumpridos; porquanto
a falsidade de um mandato deduz-se da opinio dos homens, e estes tanto so
veculos da verdade como da mentira. Tudo est em esperar. Quantos falsos
profetas por um verdadeiro! Mas a escolha cabe ao tempo, no  polcia. A regra
 que as doutrinas e as cadeias se no conheam; se muitas delas se conhecem, e
a algumas sucede apodrecerem juntas, o preceito legal  que nada saibam umas das
outras.

Quanto  doutrina em si mesma, no
diz o telegrama qual seja; limita-se a lembrar outro profeta por nome Antnio
Conselheiro. Sim, creio recordar-me que andou por ali um orculo de tal nome;
mas no me ocorre mais nada. Ocupado em aprender a minha vida, no tenho tempo
de estudar a dos outros; mas, ainda que esse Antnio Conselheiro fosse um
salteador, por que se h de atribuir igual vocao a Benta Hora? E, dado que
seja a mesma, quem nos diz que, praticado com um fim moral e metafsico, saltear
e roubar no  uma simples doutrina? Se a propriedade  um roubo, como queria um
publicista clebre, por que  que o roubo no h de ser uma propriedade? E que
melhor mtodo de propagar uma idia que p-la em execuo? H, em no me lembra
j que livro de Dickens, um mestre-escola que ensina a ler praticamente; faz com
que os pequenos soletrem uma orao, e, em vez da seca anlise gramatical, manda
praticar a idia contida na orao; por exemplo, eu lavo as vidraas, o
aluno soletra, pega da bacia com gua e vai lavar as vidraas da escola; eu
varro o cho, diz o outro, e pega da vassoura, etc., etc. Esse mtodo de
pedagogia pode ser aplicado  divulgao das idias.

Fantasia, dirs tu. Pois fiquemos
na realidade, que  o aparecimento do profeta de Obrob-Grande, e o clamor
contra ele. Defendamos a liberdade e o direito. Enquanto esse homem no
constituir partido poltico com seus discpulos, e no vier pleitear uma
eleio, devemos deix-lo na rua e no campo, livre de andar, falar, alistar
crentes ou crdulos, no devemos encarcer-lo nem dep-lo. O caboclo da Praia
Grande viu respeitar em si a liberdade. Se Benta Hora, porm, trocando um
mandato por outro, quiser passar do espiritual ao temporal e...

20 de setembro

Toda esta semana foi feita pelo
telgrafo. Sem essa inveno, que pe o nosso sculo to longe daqueles em que
as notcias tinham de correr os riscos das tormentas e vir devagar como o tempo
anda para os curiosos, sem essa inveno esta semana viveria do que lhe desse a
cidade. Certamente, uma boa cidade como a nossa no deixa os filhos sem po;
fato ou boato, eles teriam algo que debicar. Mas, enfim, o telgrafo incumbiu-se
do banquete.

A maior das notcias para ns, a
nica nacional, no preciso dizer que  a morte de Carlos Gomes. O telgrafo
no-la deu, to pronto se fecharam os olhos do artista e deu mais a notcia do
efeito produzido em todo aquele povo do Par, desde o chefe do Estado at o mais
singelo cidado. A triste nova era esperada  e no sei se piedosamente
desejada. Correu aos outros Estados, ao de So Paulo,  velha cidade de
Campinas. A terra de Carlos Gomes deseja possuir os restos queridos de seu
filho, e os pede; So Paulo transmite o desejo ao Par, que promete devolv-los.
No atenteis somente para a linguagem dos dois Estados, um dos quais reconhece
implicitamente ao outro o direito de guardar Carlos Gomes, pois que ele a
morreu, e o outro acha justo restitu-lo quele onde ele viu a luz. Atentai,
mais que tudo, para esse sentimento de unidade nacional, que a poltica pode
alterar ou afrouxar, mas que a arte afirma e confirma, sem restrio de espcie
alguma, sem desacordos, sem contrastes de opinio. A dor aqui  brasileira.
Quando se fez a eleio do presidente da Repblica, o Par deu o voto a um filho
seu, certo embora de que lhe no caberia o governo da Unio; divergiu de So
Paulo. A repblica da arte  anterior s nossas constituies e superior s
nossas competncias. O que o Par fez pelo ilustre paulista mostra a todos ns
que h um s paraense e um s paulista, que  este Brasil.

Agora que ele  morto, em plena
glria, acode-me aquela noite da primeira representao da Joana de
Flandres, e a ovao que lhe fizeram os rapazes do tempo, acompanhados de
alguns homens maduros, certamente, mas os principais eram rapazes, que so
sempre os clarins do entusiasmo. Ia  frente de todos Salvador de Mendona, que
era o profeta daquele caipira de gnio. Vnhamos da pera Nacional, uma
instituio que durou pouco e foi muito criticada, mas que, se mereceu acaso o
que se disse dela, tudo haver resgatado por haver aberto as portas ao jovem
maestro de Campinas. Tinha uma subveno  pera Nacional; dava-nos partituras
italianas e zarzuelas, vertidas em portugus, e compunha-se de senhoras que no
duvidavam passar da sociedade ao palco, para auxiliar aquela obra. Cantava o
fundador, D. Jos Amat, cantava o Ribas, cantavam outros. Nem foi s Carlos
Gomes que ali ensaiou os primeiros vos; outros o fizeram tambm, ainda que s
ele pde dar o surto grande e arrojado...

A estou eu a repetir coisas que
sabeis  uns por as haverdes lido, outros por vos lembrardes delas; mas  que h
certas memrias que so como pedaos da gente, em que no podemos tocar sem
algum gozo e dor, mistura de que se fazem saudades. Aquela noite acabou por uma
aurora, que foi dar em outro dia, claro como o da vspera, ou mais claro talvez;
e porque esse dia se fechou em noite, novamente se abriu em madrugada e sol,
tudo com uma uniformidade de pasmar. Afinal tudo passa, e s a terra  firme: 
um velho estribilho do Eclesiastes, de que os rapazes mofam, com muita
razo, pois ningum  rapaz seno para ler e viver o Cntico dos
Cnticos, em que tudo  eterno. Tambm ns ramos muito dos que ento
recordavam o tempo em que foram cavalos da Candiani, e riam ento dos que
falavam de outras festas do tempo de Pedro I.  assim que se vo soldando os
anis de um sculo.

Ao contrrio, a histria parece
querer dessoldar alguns dos seus anis e deit-los ao mar  ao Mar Negro, se 
certo o que nos anuncia o mesmo telgrafo, portador de boas e ms novas. No
trato da deposio do sulto, conquanto o espetculo deva ser interessante; eu,
se dependesse de uma subscrio universal, daria meu bolo para v-lo realizado
com todas as cerimnias, tal qual o Doente imaginrio. A diferena entre
a pea francesa e a pea turca  que o homem doente parece doente
deveras,  semilouco, dizem os telegramas.

As deposies da nossa terra no
digo que sejam chochas, mas so lgubres de simplicidade. O teatro de Sergipe
est agora alugado para esta espcie de mgicas; no h quinze dias deu
espetculo, e j anuncia (ao dizer do Pas) nova representao. As
mgicas desse teatro pequeno, mas elegante, compem-se em geral de duas partes 
uma que  propriamente a deposio, outra que  a reposio. Poucos personagens:
o deposto, o substituto, coros de amigos. Ao fundo, a cidade em festa. Este
ceticismo de Aracaju, rasgando as luvas com aplausos a ambos os tenores, no
revela da parte daquela capital a firmeza necessria de opinio. Tudo, porm,
acharia compensao na majestade do espetculo; infelizmente este  pobre e
simples; meia dzia de homens saem de uma porta, entram por outra, e est
acabado.  uma empresa de poucos meios.

Que abismo entre Aracaju e
Istambul! Que diferena entre as duas portas sergipenses e a Sublime Porta! L
so as potncias que depem, presididas pelo pontfice do islamismo, tudo
abenoado por Al e por Maom, que  o profeta de Al. Nas ruas sangue, muito
sangue derramado, sangue de dio e de fanatismo. Ouvem-se rugidos da Ilha de
Creta e da Macednia. Na platia o mundo inteiro. Mas o principal no  isso. O
principal espetculo, o espetculo nico  o desmembramento da Turquia, tambm
notificado pelo telgrafo. Esse  que, se se fizer, dar a este sculo um ocaso
muito parecido com a aurora. Os alfaiates levaram muito tempo a medir e cortar a
bela fazenda turca para compor o terno que a civilizao ocidental tem de
vestir: e, porque as medidas polticas diferem das comuns, v-lo-emos talvez
brigar por dois centmetros. As tesouras brandidas; e, primeiro que se acomodem,
haver muito olho furado. O desfecho  previsto; algum ficar com um pano de
menos, mas a Turquia estar acabada, e a histria ter dessoldado alguns elos
que j andavam frouxos, se  que isto no  continuar a mesma cadeia.

Pode suceder que nada haja, assim
como no voar o castelo do Balmoral, com a rainha Vitria e o czar Nicolau
dentro. Esta outra comunicao telegrfica desde logo me pareceu fantstica;
cheira a imaginao de reprter ou de chancelaria. Nem  crvel que tal tragdia
se represente s barbas da sombra Shakespeare, sem que este seja consultado
quando menos para lhe pr a poesia e os relatrios policiais no tm.

Enfim, melhor que atentados,
deposies e desmembramentos,  a notcia que nos trouxe o telgrafo, ainda o
telgrafo, sempre o telgrafo. Porfrio Daz abriu o congresso mexicano,
apresentando-lhe a mensagem em que anuncia a reduo dos impostos. Estas duas
palavras raramente andam juntas; saudemos to doce consrcio. S um amor
verdadeiro as poderia unir. Que tenham muitos filhos  o meu mais ardente
desejo.

27 de
setembro

No  preciso dizer que estamos na primavera;
comeou esta semana... Oh! bons tempos em que os da minha turma repetamos
aquilo do poeta: Primavera, giuvent dellanno: giuvent, primavera della
vita! Alguns iam ao ponto de repetir aquilo outro do lusitano: Ah! no me
fujas! Assim nunca o breve tempo fuja da tua formosura! Vai tudo em linha de
prosa, que  de prosa o meu tempo, no o teu, leitor de buo e vinte anos; donde
resulta a mais trivial das verdades deste mundo, e provavelmente do outro, que o
tempo  para cada um de ns o que cada um de ns  para ele. Nem todos tero
aquele verdor nonagenrio do visconde de Barbacena, que no sei se veio ao mundo
no mesmo dia que Victor Hugo, dois anos depois de comeado o sculo, mas em todo
caso j ento Rome remplaait Sparte. Quem o v andar, falar, recordar
tudo, examinar, discernir, entrar e sair de um tramway, como os rapazes
seus netos, pe de lado estaes e idades, e cr que, em suma, tudo isto se
reduz a nascer ou no com grande fora e conserv-la.

Dizem as gentes europias que a primavera nas suas
terras delas entra com muito maior efeito, quase de sbito, fazendo fugir o
inverno diante de si. Entre ns, povo lido, a primavera entra pelos almanaques.
No lia almanaque, no lia folhinha, ainda as que servem s de mimo aos
assinantes de jornais, que no traga a entrada da primavera no seu dia prprio,
fixo e nico. J  alguma coisa; e quando a civilizao chegar ao ponto de s
dominar neste mundo o esprito do homem, mais valer ter a primavera encadernada
na estante que l fora na campina, se  que ainda haver campina. O natural 
que os homens se vo estendendo, e as casas com eles, e as ruas e os teatros e
as instituies, e todo o mais aparelho da vida social. A terra ser pequena, a
gente prolfica, a vida um salo, o mundo um gabinete de leitura.

No te aflijas se a estao das flores no entra
aqui como por outras partes; aqui  eterna. A terra vale o que ainda agora nos
disse de Pernambuco o Sr. Studebaker, um dos membros da comisso americana, que
h pouco nos deixou. A carta desse cavalheiro  um documento que devia estar
diante dos olhos de cada um de ns; no dir nada novo, mas  um testemunho
pessoal e americano. Diz ela que ns podemos produzir tudo quanto nasce da
terra... mas temos entre ns homens perniciosos, tornando-se necessrio que os
ntegros se dediquem  causa do bem. Creio em ambas as coisas; mas toda a nossa
dificuldade vem de no sabermos
exatamente quais so os perniciosos nem quais so
os ntegros. Vimos ainda agora em Sergipe que os perniciosos so dois, o padre
Campos e o padre Dantas, e que os ntegros no so outros. De onde resulta uma
anistia em favor do padre Campos.

Tambm recomenda braos o nosso hspede, braos e
temor a Deus. O segundo  preocupao anglo-saxnia, que no entra fundo em
almas latinas ou alatinadas. Quanto aos braos, era eu pequeno, e, apesar da
vasta escravatura que havia, j se chorava por eles. Muitos tinham sido j
chamados e fixados. Vieram depois mais e mais, at que vieram muitos e muitos.
Os alemes enchiam o sul; os italianos esto chegando aos magotes, e se a ltima
questo afrouxou um pouco a importao, no tarda que esta continue e a questo
acabe.  o que se espera do ministro novo, Sr. De Martino. Que h j muito
italiano,  verdade; mas esta raa  fcil de ser assimilada, e trabalha e
prospera. Tive amigos que vinham dela, e tu tambm, e a os h que no vm de
outra origem.

Agora mesmo ouo cantar um pssaro, e, se me no
engano, canta italiano. Tambm os h que cantam alemo; Lulu Junior acha que a
msica desta segunda casta  melhor que a daquela. Eu creio que todos os
pssaros so pssaros e todos os cantos so bonitos, contanto que no sejam
feios. O que no quero  que se negue ao alemo o direito de ser cantado. A
lngua que ora ouo ao pssaro , como digo, a italiana, e por pouco parece-me
Carlos Gomes. Eis a um que ligou bem os dois pases, as duas histrias e j
agora as duas saudades. Partiu ontem um vapor armado em guerra para conduzi-lo
at c. Viva o Par, que rejeitou a idia de o mandar em navio mercante, e ps
por condio que ou viria com todas as honras da Arte e da Morte, ou ficaria l
com ele. No ficaria mal  beira do Amazonas o cantor do nosso Brasil, nem o
Par merece menos que qualquer outra parte; ao contrrio, a terra que serviu de
bero a Carlos Gomes no teve para ele mais carinhos que essa que lhe serviu de
leito morturio, e, em todo caso, teve-os na prosperidade. D-los  dor 
maior.

Estvamos... Creio que estvamos nos braos
italianos, no os que amam e fazem amar, mas os que lavram a terra; foram eles
que me trouxeram aqui, a propsito do industrial americano, que l vai. Tem-se
dito que h muita aglomerao italiana em S. Paulo, o mesmo que se havia dito em
relao aos alemes nas colnias do Sul. H destas onde a lngua do pas no 
falada nem ensinada, nem sabida, ou mal sabida por alguns rudimentos escassos
que os prprios mestres alemes do aos seus meninos, a fim de que de todo em
todo no ignorem o meio de pedir fogo a algum ou bradar por socorro. A culpa
no  deles, mas nossa; e, se tal sucede em S Paulo, a culpa  de S.
Paulo.

H tempos falou-se no mal das grandes aglomeraes
de uma s raa. Seja-me lcito citar um nome que os acontecimentos levaram, como
levam outras coisas mais que nomes, o de Rodrigo Silva, que foi aqui ministro da
agricultura. Este ministro tinha por muito recomendado aos encarregados da
colonizao que intercalassem as raas, no s umas com as outras, mas todas com
a do pas, a fim de impedir o predomnio exclusivo de nenhuma. Circulares que o
vento leva; a poltica era boa e fcil e dava ganho a todos, aos de fora como
aos de dentro. Mas as circulares so como as iluses; verdejam algum tempo,
amarelecem e caem logo; depois vm outras...

Deixemos, porm, essa matria mais de artigo de
fundo que de crnica, e tornemos ao cu azul, ao sol claro,  temperatura
fresca. No h desfalque pequeno nem grande que resista ao efeito da bela
catadura da natureza. Que vale um desfalque ao p da sade, que  a vida
integral, a perfeita contabilidade humana? Depois, a sade sente-se igualmente,
no h duas opinies sobre ela; o desfalque, sem negar que  alguma coisa que
falta (geralmente  dinheiro), no h dvida que  idia filha da
civilizao, e a civilizao, como dizia um filsofo amador do meu tempo, 
sinnimo de corrupo. E h sempre duas opinies sobre o desfalque,  a do
desfalcado e a outra.

Que haja falta de dinheiro em alguma parte, 
natural. Esta coisa que uns americanos querem deva ter por padro to somente o
ouro, outros a prata igualmente, ainda se no acostumou tanto aos homens que no
se esconda deles algumas vezes, e no desaparea como as simples bolas nas mos
de um prestidigitador. Dinheiro por ser dinheiro no deixa de ter vergonha; o
pudor comunica-se das mos  moeda, e o gesto mais certo do pudor  fugir aos
olhos estranhos,  ou, pelo menos s mos, como na ilha dos Amores. Da os
desfalques; fica s o algarismo escrito, a moeda esvai-se; tais as ninfas da
ilha correm nuas:

................. aos olhos
dando
 O que s mos cobiosas vo
negando.

No importa; os que teimarem ho de acabar como o
cavaleiro do poeta, que afinal pde deitar os braos a uma das ninfas esquivas.
E depois, ainda que no se alcance nenhuma, a terra  frtil, a populao
grande, e a gente nova a vem com os seus braos para trabalhar e colher, no
menos que para amar e engendrar. Tudo aqui  calor de primavera; a Amrica, bem
considerada,  a primavera da histria. H uma diferena entre esta e a do
norte,  que por ora no brigamos por ouro ou prata, Bryan ou Mac-Kinley; o
papel nos basta e sobra.

4
de outubro

Enquanto eu cuido da semana, So
Paulo cuida dos sculos, que  mais alguma coisa. Comemora-se ali a figura de
Jos de Anchieta, tendo j havido trs discursos, dos quais dois foram
impressos, e em boa hora impressos; honram os nomes da Eduardo Prado e de
Braslio Machado, que honraram por sua palavra elevada e forte ao pobre e grande
missionrio jesuta. A comemorao parece que continua. O frade merece-a de
sobra. A crnica dera-lhe as suas pginas. Um poeta de viva imaginao e grande
estro, o autor do Cntico do Calvrio, pegou um dia da figura dele e meteu-a
num poema. Agora  a apoteose da palavra e da crtica. Uma feio caracteriza
estas homenagens,  a neutralidade. Ao p de monarquistas h republicanos, e 
frente destes vimos agora o presidente do Estado. Dizem que este soltara algumas
palavras de entusiasmo paulista por ocasio da ltima conferncia. De fato, uma
terra em que as opinies do dia podem apertar as mos por cima de uma grande
memria  digna e capaz de olhar para o futuro, como o  de olhar para o
passado. A faculdade de ver alto e longe no  comum.

 doce contemplar de novo uma
grande figura. Aquele jesuta, companheiro de Nbrega e Leonardo Nunes, est
preso indissoluvelmente  histria destas partes. A imaginao gosta de v-lo, a
trs sculos de distncia, escrevendo na areia da praia os versos do poema da
Virgem Maria, por um voto em defesa da castidade, e confiando-os um a um 
impresso da memria. A piedade ama os seus atos de piedade.  preciso remontar
s cabeceiras da nossa histria para ver bem que nenhum prmio imediato e
terreno se oferecia quele homem e seus companheiros. Cuidavam s de espalhar a
palavra crist e civilizar brbaros; para isso era tudo Anchieta, alm de
missionrio. A habitao dele e dos outros era o que ele mesmo escrevia a
Loiola, em agosto de 1554: E aqui estamos, s vezes mais de vinte dos nossos,
numa barraquinha de canio e barro, coberta de palha, catorze ps de
comprimento, dez de largura.  isto a escola,  a enfermaria, o dormitrio,
refeitrio, cozinha, despensa.

Justo seria que alguma coisa
lembrasse aqui, entre ns, a nome de Anchieta,  uma rua, se no h mais. A
nossa Intendncia Municipal acaba de decretar que no se dem nomes de gente
viva s ruas, salvo quando as pessoas se recomendarem ao reconhecimento e
admirao pblica por servios relevantes prestados  ptria ou ao municpio, na
paz ou na guerra. Anchieta est morto e bem morto;  caso de lhe dar a
homenagem que to facilmente se distribui a homens que nem sequer esto doentes,
e mal se podem dizer maduros; tanto mais quando o presidente do Conselho
Municipal no  s brasileiro,  tambm paulista e bom paulista. Certo, ns
amamos as celebridades de um dia, que se vo com o sol, e as reputaes de uma
rua que acabou ao dobrar da esquina. V que brilhem; os vaga-lumes no so menos
poticos por serem menos duradouros; com pouco fazem de estrelas. Tudo serve
para nos cortejarmos uns aos outros.

A prpria lei municipal tem uma
porta aberta aos obsquios particulares. Nem sempre a vontade do legislador
estar presente, e as leis corrompem-se com os anos. Quando o atual conselho
desaparecer, l vir algum que, por haver inventado um chapu elstico, uma
barbatana espiritual ou, finalmente, outro jata que ajude a limpar os brnquios
e as algibeiras,  tenha ocasio de ver pintado o seu nome na esquina da rua em
que mora, e, se morar longe, em outra qualquer.  o anncio gratuito, o troco
mido da glria. E no h de ser escasso prazer, antes largo e demorado, ler na
esquina de uma rua o prprio nome. No haver conversao de bond ou a p
que faa esquecer a placa; por mais ateno que merea o interlocutor, seja um
homem ou uma senhora,  os olhos do beneficiado cumprimentaro de esguelha as
letras do benefcio. Alguma vez passearo pelas caras dos outros, a ver se
tambm olham. Os crimes que se derem na rua, os incndios, os desastres sero
outras tantas ocasies de reler o nome impresso e reimpresso; assim tambm as
casas de negcio, os anncios de criados, o obiturio e o resto. Enfim, o uso
positivista de datar os escritos da rua em que o autor mora, uma vez
generalizado, ajudar a derramar a boa notcia da nossa fama.

Nem por isso deixaro de falir os
que tiverem de falir, se forem negociantes; no h nome de esquina que pague um
crdito. Este momento, se  certo o que corre, ameaa de ponto final a muita
gente. Dizem que h numerosas peties de falncia. Se sero atendidas  o que
no se sabe, porque o deferimento pode trazer a dissoluo geral de todos os
vnculos pecunirios. E quando os que vendem quebram, imaginai os que compram.
Estes deviam rigorosamente matar-se, imitando a gente do Japo, onde os
suicdios so em maior nmero quando o arroz est caro, e em menor quando est
barato. Arroz ou morte!  o grito daquela nao. Ns, para quem tudo  caro,
desde a sopa at a sobremesa, vivemos a ver em que param os preos,  os preos
ou os bichos.

Entretanto, ao passo que os
negociantes do Rio de Janeiro pedem crdito, no o acham e querem fechar as
portas, o presidente do Esprito Santo deseja que lhe diminuam a faculdade de
abrir crditos.

Em conseqncia das razes que
acabo de apresentar-vos (diz o Dr. Graciano das Neves em sua recente mensagem)
dou prova da maior lealdade, Srs. Deputados, pedindo-vos que voteis na presente
sesso alguma disposio de lei que restrinja com prudncia a faculdade que tem
o presidente de abrir crditos suplementares s verbas oradas pelo congresso.
Eu, que aprendi o que era bill de indenidade no captulo da abertura de
crditos, mal posso crer no que leio. Um presidente de Estado que, tendo a
faculdade de abrir crditos, e podendo no os abrir, pede que lhe atem as mos,
d mostra que  ainda mais psiclogo que presidente.  como se dissesse que as
boas intenes do dia        15 podem no ser
as mesmas do dia 16 e 17, e o melhor  no fiar na vontade. No sei se o caso 
nico; falta-me tempo de compulsar as mensagens de ambos os mundos, mas com
certeza no  comum nem velho.

No  velho, mas tende a ser comum
o uso delicado de conclurem os jurados as sesses, ordinrias ou
extraordinrias, deixando nas mos do presidente e do promotor uma lembrana. A
penltima trazia como razo a polidez dos magistrados. A ltima, que foi
anteontem, no alegou tal motivo, para tirar ao ato qualquer aspecto de
gratido. O presidente teve duas estatuetas de bronze, e o promotor uma rica
bengala. No  pouco ir julgar os pares, obrigatoriamente, com perda ou sem
perda dos prprios interesses; a lembrana, porm, reala o servio pblico. A
prova de que a instituio do jri est arraigada na nossa alma e costumes 
essa necessidade moral que tm os juzes de fato de se fazerem lembrados dos
magistrados, a quem a sociedade confia a punio dos delinqentes. Resta que os
magistrados, por sua vez, dem alguma lembrana aos cidados, e que estes saiam
com botes de punho novos ou carteiras de couro da Rssia. So prendas baratas e
significativas.

11 de outubro

Czarina, se estas linhas chegarem
s tuas mos, no faas como Victor Hugo, que, recebendo um folheto de Lisboa,
respondeu ao autor: No sei portugus, mas com o auxlio do latim e do
espanhol, vou lendo o vosso livro... No, nem peo que me respondas. Manda
traduzi-las na lngua de Gogol, que dizem ser to rica e to sonora, e em
seguida l. Vers que o beijo que te depositou na mo, em Cherburgo, o
presidente da Repblica Francesa, foi aqui objeto de algum debate.

Uns acharam que, para republicano,
o ato foi vilania; outros que, para francs, foi galantaria. Uma princesa! Uma
senhora! E da uma conversao longa em que se disseram coisas agressivas e
defensivas. Eu, pouco dado a rusgas, limitei-me a pensar comigo que a galantaria
no deve ficar sendo um costume somente das cortes. A democracia pode muito bem
acomodar-se com a graa; nem consta que Lafayette, marqus do antigo regmen,
tivesse deitado a cortesia ao mar quando foi colaborar com
Washington.

Olha, czarina, houve tempo em que
nessa mesma Frana, cujo chefe te beijou agora a mo, se fazia grande cabedal de
tratar por tu aos outros, para continuar Robespierre e os seus terrveis
companheiros. Ento um poeta falou em verso, como  uso deles, e concluiu por
este, que faz casar a poltica e as maneiras: Appellons-nous MONSIEUR
et soyons CITOYEN. Ns, para no ir mais longe, fizemos a Repblica, sem
deportar a excelncia das Cmaras. Era costume antigo, no do regmen deposto,
mas da sociedade. A excelncia veio da me-ptria, onde parece que se
generalizou ainda mais, no se tratando l ningum por outra maneira. Aqui,
quando ainda no h familiaridade bastante para o tu e o voc, e
j a excelncia  demasiado cerimoniosa, ficamos no senhor,  um modo
indireto; em Portugal, nos casos, apertados, empregam o amigo, que 
ainda mais indireto. Tudo para fugir aos vs dos nossos maiores, e que
entre ns  a frmula oficial da correspondncia escrita. Em verdade, se o
regimento das nossas cmaras tivesse obrigado o tratamento de vs na
tribuna, como na correspondncia oficial, antes de infringirmos o regimento,
teramos infringido a gramtica.  duro de meter na orao a flexo vos
do pronome. Tenho visto casos em que a pessoa para desfazer-se logo dela, comea
por ela: Vos declaro, Vos comunico, Vos peo. Nem  por outra razo, czarina,
que eu te trato por tu, como se faz em poesia.

Voltando ao beijo, admito que h
coisas que s podem ser bem entendidas no prprio lugar. Julgadas de longe levam
muita vez ao erro. Tu, por exemplo, se lesses a moo da Cmara Municipal do Rio
Claro, So Paulo, protestando contra o presidente do Estado, que no a recebeu
quando ele ali foi ver a me enferma, pode ser que a entendesses mal. A moo
aceitou o ato como uma injria ofensiva e direta ao municpio, ao povo, a todo o
partido republicano, e mandou publicar o protesto e comunic-lo por cpia a
todas as Cmaras Municipais do Estado, ao presidente da Repblica, aos
presidentes dos congressos federal e estadual e ao diretrio central do
partido.

Aparentemente  uma tempestade num
copo dgua; mas a moo alega que h da parte do presidente contra o municpio
sentimento de hostilidade j muitas vezes manifestado. Assim sendo, explica-se a
recusa do presidente em receb-la, mas no se explica o ato da Cmara em
visit-lo. No se devem fazer visitas a desafetos; o menos que acontece  no
ach-los em casa. Quando, porm, a Cmara, esquecendo ressentimentos legtimos,
quisesse levar o ramo de oliveira ao chefe do Estado, em benefcio comum, se
esse no aceitasse as pazes, o melhor seria calar e sair. A divulgao do caso 
cidade e ao mundo e a ameaa de pronta repulsa faz recear um estado de guerra,
quando todos os municpios desejam concrdia a sossego. H j tantas questes
graves, sem contar econmica e a financeira, que a questo do Rio Claro bem
podia no ter nascido, ou ficar no tapete da discusso como se usa no
parlamento.

Disse que entenderias mal a moo;
emendo-me, no entenderias absolutamente, pois nunca jamais uma Cmara Municipal
russa falaria daquele modo. A Cmara do Rio Claro, se fosse moscovita, ou
voltaria a visitar o czar, quando ele estivesse em casa, ou far-se-ia niilista.
Donde podes concluir a vantagem das moes, e a razo do uso imoderado que
fazemos delas:  uma vlvula. Enquanto a gente prope moes no trama
conspiraes, e estas duas palavras que rimam no papel no rimam na
poltica.

O que  curioso  que ns, que no
fazemos poltica, estejamos ocupados, eu em falar dela, tu em ouvi-la. O melhor
 acabar e dizer-te adeus. Adeus, czarina; se c vieres um dia de visita, pode
ser que no aches as ruas limpas, mas os coraes estaro limpssimos. O
presidente da Repblica, se no for algum dos que censuraram agora o Sr. Faure,
beijar-te- a mo, sem perder o aprumo da liberdade. A Companhia Ferro Carril do
Jardim Botnico oferecer-te- um bond especial para percorreres as suas
linhas, com as tuas damas e escudeiros. Esta companhia completou anteontem vinte
e oito anos de existncia. Ainda me recordo da experincia dos carros na vspera
da inaugurao. Ningum vira nunca semelhantes veculos. Toda gente correu a
eles, e a linha, aberta at o Largo do Machado, continuou apressadamente aos
seus limites. Nos primeiros dias os carros eram fechados; apareceram abertos
para os fumantes, mas dentro de pouco estavam estes ss em campo; as senhoras
preferiram ir entre dois charutos, a ir cara a cara com pessoas que no
fumassem. Outras companhias vieram a servir outros bairros. nibus e diligncias
foram aposentados nas cocheiras e vendidos para o fogo. Que mudana em vinte e
oito anos!

Uma coisa no entenders, ainda
que a transfiram  lngua de Gogol, so os dois avisos postos pela Companhia do
Jardim Botnico em um ou mais dos seus carros. Tambm eu no as entendi logo;
mas, por obtuso que um homem seja, desde que teime, decifra as mais escuras
charadas deste mundo. Por que no suceder o mesmo a uma senhora? Manda traduzir
j e v.

O primeiro aviso  este: A
assinatura evita o engano nos trocos. Compreende-se logo que a assinatura 
a dos bilhetes de passagem. Quer dizer que, comprando-se uma coleo de
bilhetes, em vez de pagar com dinheiro cada vez que se entra no carro, no se
perde nada nos trocos que do os condutores; logo, os condutores enganam-se;
logo, h um melhor meio que reprimir os condutores ou despedi-los, como se faz
nas casas comerciais e nos bancos,  vender colees de bilhetes impressos. Nem
se tira o po a distrados, nem se alivia o triste passageiro de uma parte do
bilhete de dez ou mais tostes.

O segundo aviso  uma pequena
alterao do primeiro, e diz assim: A assinatura evita o esquecimento nos
trocos. Se aqui vem esquecimento em vez de engano,  que o
passageiro em muitos casos perde o dinheiro, no j em parte, mas totalmente,
por aquela outra causa mais grave. No s o esquecimento  provvel, mas at
pode ser certo e constante, se o condutor padecer de molstia que oblitere a
memria, e no h meio de evitar que este fique com o resto do dinheiro seno
oferecendo a companhia os seus bilhetes de assinatura. Outrossim, o passageiro
passa a ser o melhor fiscal da companhia, e o seu ordenado  que deixa de ficar,
por engano ou esquecimento, na algibeira do condutor. Tais me parecem ser os
dois avisos; mas, se me disserem que eles contm uma profecia relativa aos
destinos da Turquia, no recuso a explicao. Tudo  possvel em matria de
epigrafia. Adeus, czarina!

18 de
outubro

No se diga que a febre amarela tem medo ao
saneamento; mais depressa o saneamento ter medo  febre amarela. Em vez de o
temer, ps a ponta da orelha de fora esta semana, e se a tinha posto antes, no
sei; eu no sou leitor assduo de estatsticas. No nego o que valem as lies
que do, e a necessidade que h delas para conhecer a vida e a economia dos
Estados; mas entre negar e adorar h um meio termo, que  a religio de muita
gente.

A ponta da orelha que eu vi, foi um caso nico do
dia 15, publicado ontem, 17. No tem valor, comparado naturalmente a outras
doenas; mal tal  a m fama daquela perversa, que um s bito basta para
assustar mais que um obiturio inteiro de vrias enfermidades, ou at de uma s.
O vulgo no reflete que, bem observadas as coisas, ela nunca saiu daqui; uns
anos cochila e cabeceia, outros dorme a sono solto, e, se acorda,  para
esfregar os olhos e tornar a dormir; h, porm, os anos de viglia pura, em que
no faz mais que entrar pelas casas alheias e obrigar a gente a danar uma valsa
triste, muitas vezes a ltima.

Desta vez pode ser, e  bom esperar que seja uma
espcie de memento, para que as vtimas possveis se acautelem do mal,
indo v-lo de longe. Tambm pode no passar disto, um caso em outubro, dois em
novembro, trs e quatro em outros meses, at acabar o vero. Querem, porm,
alguns que, pouca ou muita, enquanto a tivermos em casa, no h relatrios que a
matem. As mais hbeis comisses no lhe tiram a alma. H quem lhe tenha ouvido
dizer:  Podem citar para a os autores que quiserem, combater ou apoiar as
opinies todas deste mundo e do outro, enquanto no passarem da biblioteca  rua
e da palavra  ao,  o mesmo que se dormissem. Ora, a ao de entestar com o
mal, atac-lo e venc-lo, por meio de um trabalho longo, constante, forte e
sistemtico,  to comprida que faz doer o esprito antes de cansar o brao, e 
preciso t-los ambos de ferro. Se a agregada nossa confia nisso,  mister que
perca a f.

Nada do que fica a  novo; a febre  velha, velhas
as lstimas, velhssimos os esforos para destruir o mal, e tm a mesma idade os
adiamentos de tais esforos. Quando aqui apareceu o clera, h muitos anos, 
no por ocasio do ministro Mamor, que o mandou embora,  falo da primeira vez,
o destroo foi terrvel, e a doena teria feito a lei da abolio por um o
processo radical, se no fosse o judeu errante que  que no para nunca, e to
depressa entra como sai. A amarela  caseira, gosta de cmodos prprios e no
exige que sejam limpos nem largos; a questo  que a deixem ficar. Uma vez que a
deixem ficar, podem discuti-la, examin-la, revir-la, redigir relatrios sobre
relatrios, oficiar, inquirir, citar; words, words, words,
diz ela para tambm citar alguma coisa. E no saindo de Hamlet: Se o sol pode
fazer nascer bichos em cachorro morto... No sero ces mortos que lhe faltem.
Quanto ao lenol de gua, v-lo-emos feito um formidvel lenol de papel.
Papers, papers, papers.

Os italianos no crem no mal. Assim o dizem as
estatsticas, em que eu, como acima confessei, piamente, acredito sem as
freqentar muito. Portugueses e alemes vem depois deles, muito abaixo, e ainda
mais abaixo franceses, russos, belgas, ingleses e outros. Quem cr deveras na
febre  o chim; no ano passado no entrou nenhum, dizem as estatsticas; mas por
que notam elas esta ausncia do chim, e no citam a do abexim? Eis a um
mistrio, que no ser o primeiro nem o ltimo das estatsticas. Conquanto um
artigo de folha genovesa diga que a colnia italiana acabar por absorver a
nacionalidade brasileira, eu no dou f a tais prognsticos; mas quando
italianos nos absorvessem, seriam outros, no seriam j os mesmos. H a na
praa um napolitano grave, influente, girando com capitais grossos, velho como
os italianos velhos, que oram todos pela dura velhice de Crispi e de Farani.
Pois esse homem vi-o eu muita vez tocar realejo na rua, simples napolitano,
recebendo no chapu o que ento se pagava, que era um reles vintm ou dois.
Tinha eu sete para oito anos; faam a conta. Vo perguntar-lhe agora se quer ser
outra coisa mais que brasileiro, se no da gema, ao menos da clara.

A propsito de realejo napolitano, li que em uma
das levas de Genova para c veio como agricultor um bartono. Ele, e um mestre
de msica; perguntando-se-lhes o que vinham fazer ao Brasil, parece que
responderam ser este pas grande e c enriquecerem todos: Por que no
enriqueceremos ns? concluram. No h que censurar. A voz pode levar to longe
como a manivela. Demais, a terra  de msica e a msica  de todas as artes
aquela que mais nos fala  alma nacional. Um bartono, com boa voz e arte
castigada, pode muito bem enriquecer,  ou, pelo menos, viver  larga. Tanto ou
mais ainda um tenor e um soprano. Nem s de caf vive o homem, mas tambm da
palavra de Verdi e de Carlos Gomes.

Dado, porm, que vivamos s de caf, e no devamos
cuidar de mais nada que de cultivar esta preciosa rubicea, ainda assim o
bartono pode muito bem ser aceito e colocado. A fbula reza de Orfeu, que
levava os animais com a simples lira que os gregos lhe deram. Por que no h de
fazer a voz humana a mesma coisa s plantas? A semente lanada  terra escutar
as melodias e por o grelo de fora; com elas crescer o talo, bracejaro as
flores e abotoaro os gros, que mais tarde havemos de exportar e de beber
tambm.

Seja milagre, mas  natural que a terra de Carlos
Gomes neste particular faz milagres. O Rio de Janeiro recebeu os restos do nosso
maestro com as honras merecidas. S. Paulo vai guard-lo como um dos mais
clebres de seus filhos. O Par, que o viu morrer, aqui o mandou, depois das
mais vivas provas de que a unidade nacional existe.

Anteontem, fui ao arsenal de guerra ver sair o
fretro do autor do Guarani e da Fosca, para ser conduzido 
igreja de S. Francisco de Paula e ouvi a marcha fnebre de Chopin que a banda
militar tocava; no pude deixar de recordar os longos anos passados, quando o
prstito era outro, e saa de outro lugar,  o teatro Provisrio que l vai  e
descia pela rua da Constituio. Era de noite; o maestro tinha estreado, sem
Itlia nem Guarani  mas eram tais as esperanas dadas, e to jovens
e ardentes ramos todos os que por ali amos aclamando a estrela nascente. A
msica era a dos nossos peitos, podeis adivinhar se fnebre ou festiva.
Perguntai aos ecos da praa Tiradentes,  naquele tempo Constituio e
vulgarmente Rocio Grande,  perguntai o que eles ouviram, e se so ecos fiis
diro coisas belas e fortes. O meu querido Salvador que ia  testa da legio
record-las- com saudade, quando ler a notcia das honras ltimas aqui dadas ao
maestro de Campinas.

Realmente, a diferena foi grande; uma vida inteira
enchia o espao decorrido entre as duas datas, e as melodias de Gomes estavam
agora na memria de todos. Muitos que as repetiam consigo no eram ainda
nascidos por aquele tempo; os que eram moos, como esses so agora, viram
branquear os cabelos e entraram no prstito com a alma igualmente encanecida; a
evocao do pretrito os ter remoado. Outros, enfim, nem moos nem velhos, ali
no compareceram, por terem sido eliminados antes. No falo dos que esto ainda
em grmen, e repetiro mais tarde as composies de Gomes. A matria  tima
para uma dissertao longa; o lugar  que o no , nem o dia.

Fiquemos aqui; ou antes, voltemos  Itlia e aos
seus cantores. Que venham, eles, bartonos e tenores, e nos traro, alm da
msica que este povo ama sobre todas as coisas, as prprias melodias do nosso
maestro, e assim incluiremos um artigo no acordo que ela est celebrando com o
governo brasileiro, porventura mais vivo e no disputado. Tambm ela amou a
Carlos Gomes, no por patriotismo, que no era caso disso, mas por arte
pura.

25 de
outubro

Li que o pescado que comemos  morto a dinamite, e
que h uma lei municipal que veda este processo. Se o processo  bom ou mau,
justo  examin-lo, mas no me argumentem com leis. J  tempo de acabar com
este respeito fedorento das leis, superstio sem poesia, costume sem graa,
velho sapato que deforma o p sem melhorar a andadura. A troa, que tem
conseguido tanta coisa, no chegou a matar este vcio. O assobio, to eficaz
contra os homens, no tem igual fora contra as leis que eles fazem. Ora, que
so as leis mais que os homens para que nos afrontem com elas?

No contesto a vantagem de as fazer e guardar.  um
ofcio, antes de tudo; melhor dito, so dois ofcios. A utilidade das leis
escritas est em regular os atos humanos e as relaes sociais, uma vez que vo
de acordo com eles. Em chegando o desacordo, h dois modos de as revogar ou
emendar, a saber, por atos individuais ou por adoo de leis novas. No captulo
do divrcio, por exemplo, no existindo pretoria que case um homem j casado, o
remdio para obt-lo e decret-lo.  claro que se algum pretor, contra o
disposto na lei, casasse a todos os casados, ningum se cansaria em reclamar a
reforma. Resta aos partidos convencidos da necessidade dela continuar a
propaganda at p-la na lei.

Tal no se d no mar. A pesca  livre; regulada
embora, no so tais as disposies da lei que exijam a presena de um agente
pblico. O pescador est s; o fiscal, se o h, est em casa; a dinamite lanada
ao mar no acha obstculo, nem no mar nem na terra. Que impedir o pescador? A
lembrana de um decreto municipal,  ou postura, como se dizia pela lngua do
antigo vereador? Francamente,  exigir uma fora de abstrao excessiva da parte
de um homem que tem os cinco sentidos no lucro. Os incorporadores do
encilhamento,  pescadores de homens,  tambm tinham os sentidos todos no
lucro, e da algumas infraes das leis escritas, que no foram nem deviam ser
castigadas. Cabe notar que a nem se podia alegar o que dizem do peixe, que
despovoa as guas; nunca faltou peixe s guas da rua da Alfndega.

Os contratos, que formam lei entre duas partes, so
alterados por ambas desde que uma no reclame a execuo por parte da outra;
tais esquecimentos no valem nem podem valer como se foram delitos. No me acode
exemplo pertinente ao caso; v o da escola que a Companhia ferro-carril da
Carioca tinha que dar e no deu, segundo tambm li na imprensa. A no se pode
dizer que h infrao porque a outra parte contratante no exigiu a execuo da
clusula;  o mesmo que se consentisse em risc-la do papel, no faltando mais
que o gesto da pena. Mas um gesto, simples ato da mo, d mais fora  vontade,
ato do esprito? No nos estejamos a perder com burocracias. No exijamos maior
ardor de uma parte em dar que da outra em receber. Nem esqueamos que o desuso
de uma clusula acaba matando a clusula.

Outrossim, se a lei pode valer pelo uso que se lhe
der,  tambm certo que o simples uso faz lei. Comea-se por um abuso, espcie
de erva que alastra depressa, correndo cho e arvoredo; depois, ou porque a
fora do homem corte algumas excrescncias, ou porque a vista se haja
acostumado,

On shabitue au mal que lon voit sans
remde,

o abuso passa a uso natural e legtimo, at que
fica lei de ferro. Quando algum quer arrancar a m erva do terreno  como se
ameaasse levar o dinheiro dos outros. Tal , se entendo o que leio, o caso da
lotao dos carros eltricos da Companhia do Jardim Botnico.

A prefeitura intimou a Companhia a no admitir
cinco pessoas nos carros eltricos, mas s quatro, visto no haver ato aprovando
a lotao de cinco. Creio que  isto. A Companhia, no conflito entre o uso e a
ordem, comeou por dizer que aquele era lei, e no cumpria outra. Em verdade,
posto que entrasse aqui o interesse direto do povo, fora  confessar que no h
interesse que valha um princpio, e o princpio e dar ao uso o carter legal que
lhe cabe. A lei escrita pode ser obra de uma iluso, de um capricho, de um
momento de pressa, ou qualquer outra causa menos pondervel; o uso, por isso
mesmo que tem o consenso diuturno de todos, exprime a alma universal dos homens
e das coisas. A sabedoria dos tempos tem cristalizado esta verdade de vrios
modos.  Quem cala, consente.  O uso do cachimbo faz a boca torta. Esta
segunda frmula  mais enrgica e expressiva, porquanto as bocas nascem
direitas, e se o uso do cachimbo tem tal fora que as faz tortas, e que vale por
si muito mais que a ao da natureza.

No atendeu a isto a prefeitura, e recorreu 
autoridade judiciria; mas a Companhia, seguindo o exemplo da pesca a dinamite,
recusou cumprir a nova ordem, no que fez muito bem. J estou cansado de tanto
juiz em Berlim. Algemas, ainda que as doure o nome de ordens legais, sempre so
vnculos de escravido, a primeira liberdade e da alma. A Gazeta de
Notcias foi que deu esta notcia, acompanhada de reflexes com que
absolutamente no concordo.

Uma s coisa podia levar a Companhia  obedincia,
era o procedimento do passageiros. Caso eles dessem apoio s ordens judicirias
e prefeiturais, recusando ir cinco por banco, faltava  Companhia o argumento do
uso e do consenso, e eu tal hiptese melhor seria ceder que resistir. Foi
justamente o que aconteceu. Raro passageiro consentiu em fazer de quinto nos
bancos. A generalidade deles recusou, ia nos estribos e na plataforma, ou
esperava outro carro. Ora, desde que o povo, em favor de quem a Companhia
decretara a lotao de cinco, abre mo deste benefcio, a Companhia no s perde
o fundamento da aquiescncia pblica, mas ainda qualquer lucro pecunirio. No
tinha mais que cumprir a ordem e foi o que fez ontem

No fez s isto: li que vai pedir alguma
compensao  prefeitura. A compensao  justa. No ser o aumento do preo da
passagem; por mais barata que esta seja, a ocasio do aumento seria imprpria,
j porque o ato inicial da autoridade ficaria reduzido a uma porta aberta 
alterao do contrato em sentido oposto s algibeiras dos contribuintes, j
porque h pouco dinheiro em circulao. Uma espera de trs ou quatro anos pode
fazer dessa alterao do contrato uma realidade til e benfica. Nem faltam
compensaes imediatas desde o simples ttulo honorfico,  federal, por
exemplo,  Companhia Federal Ferro Carril, etc. at qualquer privilgio que me
no ocorre agora, mas que h de haver.

No concluam que  o esprito de anarquia que me
move a pena. Fcil coisa  taxar de anarquia tudo o que destoa de velhas manhas.
Eu o que quero  que a lei sirva o necessrio para conjugar os interesses
humanos, que so a base da harmonia social. Mas isto mesmo exclui a
superstio.

1 de
novembro

O po londrino est to caro como a nossa carne, e
na Inglaterra no falta ouro, ao que parece. Em compensao, se o po dobrou de
preo, os nossos ttulos baixaram mais, como se houvssemos de pagar a diferena
do valor do trigo. Tudo afinal cai nas costas do pobre: digo pobre, no porque
no sejamos ricos de sobejo, mas  que a riqueza parada  como a idia que o
alfaiate de Heine achava numa sobrecasaca: o principal  avent-la e p-la em
ao. Entretanto, no sendo verdade que o mal de muitos seja consolo, como quer
o adgio, importa-nos pouco ou nada que o po custe caro em Londres, se nos
falta, alm da carne, o ouro com que merc-la.

Se o mal dos outros no nos consola,  certo que a
lembrana do bem d certa alma nova. Nestes dias de escasso dinheiro  doce
reler aquele discurso que o dr. Ubaldino do Amaral proferiu no senado, no ms de
agosto de 1892. S. Ex. analisou o projeto de um banco emissor, no qual havia
este artigo: Fica o banco autorizado antecipadamente a fazer uma emisso de
trezentos mil contos de ris. Escrevi por extenso a quantia, para que no
escape algum erro; mas, como a fileira dos algarismos d mais na vista, aqui vai
ela: 300.000:000$000.  um regimento; o 3, bem observado, parece o coronel; o
cifro  o porta-bandeira. Valha-me Deus! creio at que ouo a marcha dos
algarismos; leiam com ritmo: trezentos mil contos, trezentos mil contos,
trezentos mil contos...

 verdade que o senado, ouvindo a revelao do
senador, exclamou espantado: Santo Deus! O que no est claro  qual haja sido o
sentimento da exclamao. Assombro, de certo; mas vinha ela da imensidade da
quantia, no obstante andarmos, o senado e eu, afogados em milhes, ou era antes
uma expresso de escrnio por achar escassa a emisso antecipada. Trezentos mil
contos! Mas quem  que por aqueles tempos no tinha trezentos mil contos? Se os
no tinha, devia-os a algum, que era a mesma coisa. Nem sei se era ainda melhor
dev-los que possu-los.

No me lembro bem agora do preo da carne e do po;
mas, qualquer que fosse, como o dinheiro era infinitamente maior, no havia que
gemer nem suspirar, era s comer e digerir. Essas notas de bancos emissores, que
por a andam surradas, rasgadas, emendadas, concertadas com pedacinhos de papel
branco, estavam na flor dos anos, novinhas em folha, com as letras ainda midas
do prelo. Vi-as chegar, catitas e alegres, como donzelas que vo ao baile para
danar, e danaram que foi um delrio. Eram valsas, polcas, quadrilhas de toda
casta, francesas, americanas, de salteadores, toda a coreografia moderna e
antiga. Segundo aquela chapa que as gazetas trazem j composta para concluir as
notcias de festas, as danas prolongaram-se at o amanhecer. As belas
emisses foram dormir cansadas, sonhando com ouro, muito ouro.

Recordar tudo isso com este cmbio a 8 e menos de
8, que uns acham natural, outros postio, no se pode dizer que no seja
agradvel. A memria revive o espetculo. Nem foi h tanto tempo que no ouamos
ainda os ecos da orquestra e o rumor dos passos... Os espetculos remotos do o
mesmo efeito, mas a tristeza cede ainda mais a doura, e a alma transporta-se
quase integralmente aos tempos acabados. Quero referir-me a narrao que a
Notcia est fazendo de coisas antigas, no sei se por um, se por muitos
colaboradores, mas muitos que sejam,  certo que so todos homens maduros, se j
no caram do p.

Conta aquela folha as guas passadas desta cidade,
com tal minudncia, que parece estar vendo-as. Quando eu era pequeno, conheci
homens de certa idade que, por tradio falavam das guas do monte,
dilvio que aqui houve no tempo de Joo VI; afinal ningum mais falou nelas, e
foi um alvio para aqueles outros mais velhos, que seriam pequenos quando elas
caram. A cantiga popular ainda se conservou por anos; mas a cantiga seguiu o
exemplo das guas, e foi atrs delas. As que a Notcia revive nos ltimos
dias so as da primeira imprensa peridica e as do finado Alcazar.

Aquelas no so comigo, no conheci essa multido
de gazetas e gazetinhas, cujos ttulos ho de interessar os Taines do prximo
sculo. Do eles a nota dos costumes e da polmica. Quanto ao nmero, quase que
era uma folha para cada rua. Toda a gente sentia necessidade de dizer coisas
aborrecveis ou agudas, divulgar alcunhas e mazelas, ou, para usar a expresso
vulgar e enrgica, pr os podres na rua a algum. Partidos, influncias
locais, simples desocupados, simplssimos maldizentes, vinham de mistura com
almas boas e chs, que no inventaram folhas seno para ensaiar os vos poticos
ou dizer em prosa palavrinhas doces s moas; doces no, adocicadas.

As recordaes do Alcazar esto mais perto, e so
coisas sabidas; mas no se trata s de coisas sabidas, trata-se tambm de coisas
sentidas, que  diferente; nestas  que as memrias velhas trajam roupas novas,
e as rvores secas e nuas reverdecem de repente, como sucede em outros climas.
Talvez aquela gente e aquelas coisas no valessem nada, como quer a
Notcia, mas lembrai-vos da pergunta de Dante... No, no; deixemos os
versos divinos do poeta. O que eu queria dizer, era por aluso ao tempo da
adolescncia e da mocidade, no s o dos dolci sospiri, como o da sua
rima dubbiosi desiri. No caberia aqui contar como Francesca:

Questi, che mai da me non fia
diviso,

visto que o tempo e o cansao, que so a melhor
polcia das ruas desta vida, dispersaram o ajuntado e desfizeram a multido com
pouco mais do que  preciso para cont-lo aqui. Segredos da natureza.

Os dos homens so menos escuros, mas tambm duram
menos. Ningum ignora que nesta cidade os segredos fazem a sua hora de rua do
Ouvidor, todos os dias, entre quatro e cinco.  uso antigo; raros se deixam
estar em casa. Ainda agora andaram por a dois, acerca da operao do presidente
da Repblica; um dizia que esta se faria depois do dia 7, outro que depois do
dia 15 de novembro. Embora os dois virtualmente se desmentissem, no zangavam
nem se descompunham; quando muito, piscavam o olho ao pblico, dando de cabea
para o lado do contrrio, sorrindo. Era esse modo de avisar: No acreditem no
que ele diz;  um boato disfarado. No mais, risonhos, palreiros, falando uma
ou outra vez ao ouvido, mas sem cochicho, no tom geral da
conversao.

Enquanto eles andavam na rua, s escancaras, havia
um terceiro segredo, que no aparecia a ningum, nem dizia palavra. Os outros
dons chegaram a ir s imediaes do morro do Ingls; vi-os ambos, no prprio dia
da operao,  noite, em casa que fica pouco abaixo do morro, insistindo
convencidamente nas datas de 7 e de 15; mas j ento a operao estava acabada,
com o resultado que sabemos. O gro de areia de Cromwell, por no vir a lume,
produziu os efeitos que Pascal resumiu em dez linhas do seu grande estilo; este
outro, maior que aquele, acertou de ser contemporneo da cirurgia moderna, e no
complicou doena com poltica.

8 de
novembro

Mac-Kinley est eleito presidente dos Estados
Unidos da Amrica. Se Bryan tivesse razo, o povo estaria crucificado numa cruz
de ouro; mas, como a crucificao se segue a ressurreio, era de esperar que o
mesmo sucedesse ao povo, e a pscoa seria o que so todas as pscoas, uma festa
de famlias. Foi justamente o que sucedeu, com a diferena que nem chegou a
haver cruz, nem suplcio. Bryan, felicitando o rival triunfante, acaba de
mostrar que as figuras de retrica so necessrias s lutas do voto e que os
oradores no pensam absolutamente o que dizem. Por outro lado, o vencedor
proclama a nao que a vitria  dela e no de um partido. Essa outra luta de
generosidades  brilhante e digna de um grande povo.

Eu, se l estivesse, faria uma estatstica
eleitoral, para figurar ao lado das maiores daquele pas, que as tem superiores
ao resto do mundo. Os Estados Unidos so a terra das coisas altas, rpidas e
infinitas, vastas construes e desastres vastos, cidades feitas em trs meses e
desfeitas em trs horas, para se refazerem em trs dias, vendavais que arrancam
florestas, como o vento do outono as simples folhas de arbustos, e uma guerra
civil, que se no pareceu com outra qualquer moderna nem antiga. Podemos
imaginar o que  uma luta eleitoral. A minha estatstica no contaria s os
discursos proferidos nos meetings, dos quais j telegramas nos deram um
pequeno cmputo, que excede talvez as oraes de uma legislatura ordinria; mas,
enfim, os discursos ocupariam o primeiro lugar, sem esmiuar os perodos e as
palavras. Contaria os auditores de todos eles, discriminados por partidos; com
os auditores, as aclamaes, as bandeiras, as gravuras, os artigos biogrficos e
apologticos, as edies dos programas, das folhas polticas ou simplesmente
noticiosas. Ao p disto, as milhas andadas durante a campanha eleitoral, as
rixas, os murros, os ferimentos e as mortes, pois que houve algumas; as apostas,
valor e nmero delas; e, para dar a tudo um grozinho de fantasia, os sonhos,
divididos pelo tamanho, pela cor, pela durao, pela significao, pelas
cabeas, pelas zonas, tantos ao sul, tantos ao norte, tudo bem disposto em
quadros, que ficassem como um documento desta campanha de 1896.

 claro que nessas tbuas figurariam as minas de
prata e seus produtos, os ganhos que daria a vitria de Bryan, e as perdas que
trouxe para os derrotados a de Mac-Kinley. Viriam tambm os efeitos no resto do
mundo. As felicitaes dos vrios governos e da imprensa de outros pases
mostram que  alguma coisa eleger um presidente dos Estados Unidos, e basta
inclinar a balana a um ou outro lado para encher de alegria ou de pavor as
vrias praas da Europa e da Amrica. Tudo porque os dois candidatos preferiram
uma cousa tangvel nos programas a uma simples exposio de doutrinas, ou at de
palavras,  e estas teriam as suas vantagens; no abalariam o mundo, as praas
no transtornariam as suas idias de padro monetrio, e as taxas seguiriam
tranqilas o caminho do costume.

O pas do dlar divergiu no dlar Ns
temos aqui uma divergncia esta semana, mas  nas debntures da
Sorocabana, das quais umas continuam a ser verdadeiras e outras falsas. J as vi
de outras empresas que, ainda verdadeiras todas no valiam mais que as falsas, e
tinham vantagem de no levar ningum  cadeia to certo  que nisto de
debntures, e anloga papelada, tudo depende do crdito da pessoa. No
basta a cor da tinta nem perfeio da gravura. As verdadeiras, que ora se
falsificam, tem valor, de certo; ningum imita o que no presta, salvo os poetas
e pintores de mau gosto, e assim os msicos. Os arquitetos tambm, e os
escultores. Toda questo  saber quem  aqui o mau artista; dizem que  algum
que depois de vir dos Estados Unidos, para l tornou. Haver cmplices? A
dificuldade  ach-los, porque os papis falsos com pem-se s escondidas e
distribuem-se com grandssimas cautelas. Os autores, quando ainda no esto a
bordo, jantam conosco  mesa, e danam em famlia. Mas, tornemos ao
dlar.

Um dos captulos da minha estatstica seria a soma
de dinheiro gasto, ouro, prata e papel, por Estados e por cidades. Outro seria o
nmero dos cartazes, com as recomendaes do estilo: Votai em Mac-Kinley!
Votai em Bryan! Ns temos uns meetings ligeiros e no dispendiosos,
praa estreita, um patamar de escada ou um pedestal de esttua por tribuna.
Tambm os h destes noutras partes, ainda que mais vastos, como um que se
efetuou agora em Hyde-Park, Londres, do qual s se pode saber que foi o mais
chocho de todos (verso Times), e o mais entusiasta que jamais houve
(verso Daily Chronicle). V a gente crer nos jornais que l!

Em todo caso, um meeting no  uma campanha
eleitoral e presidencial, que pede arte mais variada e perfeita, e no se faz s
com palavras e um convite manuscrito nas esquinas. Lestes que a grande procisso
de New York levou a passar na rua doze horas, desde dez da manh at dez
da noite. No se refresca todo esse pessoal com promessas; h de haver algo mais
que esperanas. No todo, mas um basto nmero de cabos e sub-cabos, de agentes,
de serviais, precisa de entreter a natureza.  impossvel que os nossos amigos
yankees no tenham algum provrbio equivalente ao nosso  saco vazio no
se pe em p. Alm do mais, h nessa procisso que passa na rua, durante doze
horas, aclamando um candidato, tal soma de flego e resistncia, no menos que
ns espectadores que a vem passar, a p firme, que seria bom fosse imitado por
outros povos. No so debntures, so dlares de metal.

Quando a gente arrepia o peito  histria, e v
como se elegiam os cnsules romanos, fica pasmado da diferena. Seguramente os
americanos invocam a divindade nos seus atos e cerimnias civis, como filhos de
ingleses, que so; mas no fazem aquela consulta do cu e dos deuses, particular
a cada candidato, que os exclua ou admitia previamente. Candidato que o
presidente da assemblia eleitoral dissesse ter sido excludo pela divindade,
quando a consultou na vspera, no recebia votos para cnsul. Falam a no poder
dos nossos presidentes de mesa eleitoral; mas, seriamente, qual deles tem esta
faculdade legal de consultar os astros? O que eles fazem  por abuso, mero
abuso, detestvel abuso; no possuem aquele poder moral e religioso, tanto
quanto poltico, que dispensa a fraude, o bico de pena, troca de cdulas, o
aumento destas, os votos de defuntos, e tantos outros recursos que um pouco de
religio e astrologia tornaria inteis.

A verdadeira luta seria para ocupar a chefia da
mesa. A pode ser que houvesse alguma violncia ou falsificao; em lugar desses
seria a prpria boca divina falando aos homens. Um cidado que, depois de uma
noite em claro, pudesse dizer: Consultei o Cruzeiro e Vnus; so contrrios ao
Motta; o Cruzeiro prefere o Neves, e Vnus o Martins; mas, depois de alguma
controvrsia, combinaram no Silva e no Alves; eu votaria no Alves; um cidado
destes seria a prpria eleio do Alves. Tudo sem discursos, nem procisses, nem
manifestos, nem nada.

15 de novembro

Uma gerao passa, outra gerao
lhe sucede, mas a Terra permanece firme. Este versculo do Eclesiastes 
uma grande lio da vida, e no digo a maior, porque h mais trs ou quatro
igualmente grandes. Mas no haver poesia nem lngua que no tenha dito por modo
particular esse pensamento final do mundo. Shelley exprimiu apenas metade
dele naqueles dois versos:

Mans yesterday may ne'er be like
his morrow;
Nought may endure but
Mutability.

Quem nos d a mais viva imagem do
contraste entre a mocidade dos homens no meio da imutabilidade da natureza 
Chateaubriand. Lembrai-vos do Itinerrio; recordai aquelas cegonhas que
ele viu irem do Ilisso s ribas africanas. Tambm eu vi as cegonhas da Hlade, e
peo me desculpeis esta erupo potica; nem tudo h de ser prosa na vida,
alguma vez  bom mirar as coisas que ficam e perduram entre as que passam
rpidas e leves... Creio que at me escapou a um verso: entre as que passam
rpidas e leves... A boa regra da prosa manda tirar a essa frase a forma
mtrica, mas seria perder tempo e encurtar o escrito; v como saiu, e passemos
adiante.

Era no arrabalde em que residia.
Bastava a presena do Corcovado para cotejar a firmeza da Terra com a mobilidade
dos homens, e a circunstncia de estar na vizinhana daquele pico a habitao do
Sr. presidente da Repblica, operado e enfermo, passando as rdeas do Governo ao
Sr. vice-presidente, que pouco mais distante mora, trazia uma comparao fcil,
mas no menos triste que fcil. Duro  pensar nos padecimentos de um homem. J
falei no gro de areia de Cromwell, a propsito do clculo que alterou, no a
situao poltica, mas a parte principal do Governo. No repetirei aqui a idia;
melhor  deixar ao Sr. Baro de Pedro Afonso explicar  Cidade do Rio as
razes que o levaram a dizer que a cura estaria acabada em quinze dias, no o
tendo cumprido por fora de causas alis preexistentes. O pior de tudo, para
quem est c embaixo,  este no poder sofrer calado e oculto, adoecer em
particular, lutar com o mal e venc-lo fora do circo e longe da platia. A
platia romana fazia sinal com o dedo quando queria a morte da vtima. Aqui
ningum quer a morte do presidente, fique um tanto logrado, com a suspenso dos
boletins. A Rua do Ouvidor, se no tem notcias, cai nos boatos.

Mas vamos ao meu ponto. Era no
arrabalde em que moro. Pensava eu naquela limonada purgativa que uma pessoa
bebeu, h dias, e ia morrendo se a bebe toda, por no ser mais que puro iodo. O
rtulo da garrafa dava uma droga por outra. Do engano do boticrio ia resultando
mais um hspede no cemitrio, se a doente no recusa o medicamento, logo que lhe
sentiu o gosto; ainda assim bebeu alguma poro que a fez padecer um tanto. A
lembrana do caso entrou a passear-me no crebro, nico crebro talvez em que j
existisse, to rpido passa tudo nesta vida, e tanto me custa a deixar uma idia
por outra. Ento refleti, e adverti que o descuido do boticrio no teve mais
processo, e posto que dos descuidos comam os escrives, nenhum escrivo comeu
deste. Tudo passou, a limonada, o iodo e a memria.

E vieram outras lembranas
anlogas, vagas sombras, que para logo se iam desfazendo. Uma delas foi aquele
outro descuido que levou para a cova um pobre-diabo, no sei se adulto, se
infante. A troca dos remdios no foi obra de propsito, mas de erro, talvez de
ignorncia. No foi ao de alfaiate, ourives ou martimo, mas de boticrio
tambm, com a diferena que uns dizem ser o prprio dono da casa, outros um seu
representante. A vtima expirou. Deus recebeu a sua alma. O acidente deu o que
falar e escrever, e os adjetivos vadios apareceram contra o pobre autor do
involuntrio descuido; mas adjetivos no so agentes de polcia, e enquanto um
homem ouve a palavrada do prelo no escuta as chaves no ferrolho da deteno. O
descuidado acabaria solto, se tivesse de acabar; os escrives no comeram desse
primeiro descuido. Poucos dias depois creio que continuou a vender as suas
drogas, e a prova de que no houve propsito, e quando muito desazo,  que
ningum mais morreu, pelo menos at ontem.

Essa lembrana desapareceu como as
primeiras. Geraes delas iam assim vindo como as do texto bblico, umas atrs
de outras, esquecidas, apagadas, mortas. Nem eram s as dos remdios trocados;
as dos desfalques tinham igual destino. Quatro, cinco, seis mil contos
desapareceram, como iluses da mocidade, como opinies de ano velho. Quem sabe
j deles? H quem cite algum, raro, ou para comparao, ou por qualquer
necessidade de fundamento, no com idias de processo. Os desfalques so como os
amores enganados; doem muito, mas os tempos acabam de os enganar e enterrar, e,
quando menos se espera, o desfalcado reza por alma do outro, se o outro morre.
Se no morre, no o mata, nem lhe tira a liberdade, que  a primeira dos bens da
Terra e a melhor base das sociedades polticas. Se, alm de vivo, o outro gosta
de danar, dana;  ou joga, se lhe sabe o jogo, que tanto pode ser de cartas
como de prendas.

Todas essas sombras, desfalques
grandes e pequenos, pblicos ou particulares, e trocas de remdios, e doenas e
mortes filhas dessas trocas, todas essas sombras impunes iam e vinham, e eu no
podia com os olhos (quanto mais com as mos!) agarr-las, fix-las, sent-las
diante de mim. Como Goethe, dedicando o Fausto, perguntava-lhes se me
rodeavam ainda uma vez, e elas iam mais vagas que as do poeta, iam-se para no
voltar mais; todas esquecidas.

Eram as geraes que passavam.
Geraes novas sucedero a essas, para se irem tambm, e dar lugar a mais e
mais, que cedero todas  mesma lei do esquecimento, desfalques e remdios. Onde
est a terra firme?

Quando eu fazia esta pergunta e
quase respondia Lao-Ts, contemporneo de Confcio, de quem o Jornal do
Comrcio publicou h dias algumas verdades verdadeiras, eis que ouo o grito
na rua, um prego, uma voz esganiada; era a terra firme, eram as cegonhas de
Chateaubriand: Um de resto! anda hoje! duzentos contos! Homens e leis tm vida
limitada,  eles por necessidade fsica,  elas por necessidades morais e
polticas; mas a loteria  eterna. A loteria  a prpria Fortuna e a Fortuna  a
deusa que no conhece incrdulos nem renegados. A cidade fala de umas coisas que
esquece, crimes pblicos, crimes particulares; mas loteria no  crime
particular nem pblico! Um de resto! anda hoje! duzentos contos!

22 de novembro

A natureza tem segredos grandes e
inopinveis. No me refiro especialmente ao de anteontem, no Cassino Fluminense,
onde algumas senhoras e homens de sociedade nos deram pera, comdia e
pantomima, com tal propriedade, graa e talento, que encantaram o salo repleto.
No  a primeira vez que a comisso do Corao de Jesus ajunta ali a flor da
cidade. Aos esforos das senhoras que a compem correspondem os convidados,  e
desta vez apesar do tempo, que era execrvel,  e aos convidados, em cujo nmero
se contava agora o Sr. vice-presidente da Repblica, corresponderam os que se
incumbiram de dizer, cantar ou gesticular alguma coisa. Outros contaro por
menor e por nomes o que fizeram os improvisados artistas. A mim nem me cabe esta
nota de passagem, em verdade menos viva que a do meu esprito; mas, pois que
saiu, a fica.

No, o inopinvel e grande da
natureza a que quero me referir,  outro. Um dos maiores sabe-se que  o
suicdio, que nos parece absurdo, quando a vida  a necessidade comum; mas,
considerando que  a mesma vida que leva o homem a elimin-la,  propter
vitam,  tudo afinal se explica na pessoa que pega em si, e d um talho,
bebe uma droga ou se deita de alto a baixo na rua ou no mar. As crianas
pareciam isentas dessa vertigem; mas h ainda poucas semanas deram os jornais
notcia de uma criaturinha de doze anos que acabou com a existncia,  uns dizem
que por pancadas recebidas, outros que por nada.

Tivemos agora um caso mais
particular: um fazendeiro rio-grandense deu um tiro na cabea e desapareceu do
nmero dos vivos. O telegrama nota que era homem de idade,  o que exclui
qualquer paixo amorosa, conquanto as cs no sejam inimigas das moas; podem
ser invejosas, mas inveja no  inimizade. E h vrios modos de amar as moas, 
o modo conjuntivo e o modo exttico; ora, o segundo  de todas as fases deste
mundo. Alm de idoso, o suicida era rico, isto , aquele bem que a sabedoria
filosfica reputa o segundo da terra, ele o possua em grau bastante para no
padecer nos ltimos da vida, ou antes para viv-los  farta, entre os confortos
do corpo e da boca. No tinha molstia alguma; nenhuma paixo poltica o
atormentava. Qual a causa ento do suicdio?

A causa foi a convico que esse
homem tinha de ser pobre. O telegrama chama-lhe mania, eu digo convico.
Qualquer, porm, que seja o nome, a verdade  que o fazendeiro rio-grandense,
largamente proprietrio, acreditava ser pobre, e da o terror natural que traz a
pobreza a uma pessoa que trabalhou por ser rica, viu chegar o dinheiro, crescer,
multiplicar-se, e por fim comeou a v-lo desaparecer aos poucos, a mais e mais
depressa, e totalmente. Note-se bem que no foi a ambio de possuir mais
dinheiro que o levou  morte,  razo de si misteriosa, mas menos que a outra;
foi a convico de no ter nada.

No abaneis a cabea. A vossa
incredulidade vem de que a fazenda do homem, os seus cavalos, as suas
bolivianas, as suas letras e aplices valiam realmente o que querem que valham;
mas no fostes vs que vos matasse, foi ele e nada disso era vosso, mas do
suicida. As coisas tm o valor do aspecto, e o aspecto depende da retina. Ora, a
retina daquele homem achou que os bens to invejados de outros eram coisa
nenhuma, e prevendo o po alheio, a cama da rua, o travesseiro de pedra ou de
lodo, preferiu ir buscar a outros climas melhor vida ou nenhuma, segundo a f
que tivesse.

O avesso deste caso  bem
conhecido naquele cidado de Atenas que no tinha nem possua uma dragma, um
pobre-diabo convencido de que todos os navios que entravam no Pireu eram dele;
no precisou mais para ser feliz. Ia ao porto, mirava os navios e no podia
conter o jbilo que traz uma riqueza to extraordinria. Todos os navios! Todos
os navios eram seus! No se lhe escureciam os olhas e todavia mal podia suportar
a vista de tantas propriedades. Nenhum navio estranho; nenhum que se pudesse
dizer de algum rico negociante ateniense. Esse opulento de barcos e iluses
comia de emprstimo ou de favor; mas no tinha tempo para distinguir entre o que
lhe dava uma esmola e o seu criado. Da veio que chegou ao fim da vida e morreu
naturalmente e orgulhosamente.

Os dois casos, por avessos que
paream um ao outro, so o mesmo e nico. A iluso matou um, a iluso conservou
o outro; no fundo, h s a convico que ordena os atos. Assim  que um
pobreto, crendo ser rico, no padece misria alguma, e um opulento, crendo ser
pobre, d cabo da vida para fugir  mendicidade. Tudo  reflexo da
conscincia.

No mofeis de mim, se achais a um
ar de sermo ou filosofia. O meu fim no  s contar os atos ou coment-los;
onde houver uma lio til  meu gosto e dever tir-la a divulg-la como um
presente aos leitores;  o que fao aqui. A lio que eu tirar pode ter a
existncia do cavalo do pampa ou a do navio do Pireu; toda a questo  que valha
por uma realidade, aos olhos do fazendeiro do Sul e do cidado de
Atenas.

A lio  que no peais nunca
dinheiro grosso aos deuses, seno com a clusula expressa de saber que 
dinheiro grosso. Sem ela, os bens so menos que as flores de um dia. Tudo vale
pela conscincia. Ns no temos outra prova do mundo que nos cerca seno a que
resulta do reflexo dele em ns:  a filosofia verdadeira. Todo Rothschild and
Sons, nossos credores, valeriam menos que os nossos criados, se no
possussem a certeza luminosa de que so muito ricos. Wanderbilt seria nada; Jay
Gould um triste cocheiro de tlburi sem possuir sequer o carro nem o cavalo, a
no ser a convico dos seus bens.

Passai das riquezas materiais s
intelectuais:  a mesma coisa. Se o mestre-escola da tua rua imaginar que no
sabe vernculo nem latim, em vo lhe provars que ele escreve como Vieira ou
Ccero, ele perder as noites e os sonos em cima dos livros, comer as unhas em
vez de po, encanecer ou encalvecer, e morrer sem crer que mal distingue o
verbo do advrbio. Ao contrrio, se o teu copeiro acreditar que escreveu os
Lusadas, ler com orgulho (se souber ler) as estncias do poeta;
repeti-las- de cor, interrogar a teu rosto, os teus gestos, as tuas meias
palavras, ficar por horas diante dos mostradores mirando os exemplares do poema
exposto. S meter em processo os editores se no supuser que ele  o prprio
Cames: tendo essa persuaso, no far mais que ler aquele nome to bem visto de
todos, abeno-lo em si mesmo; ouvi-lo aos outros, acordado e
dormindo.

Que diferena achais entre o
mestre-escola e seu copeiro? Conscincia pura. Os frvolos, crentes de que a
verdade  o que todos aceitam, diro que  mania de ambos, como o telegrama
mandou dizer do fazendeiro do Sul, como os antigos diriam do cidado de Atenas.
A verdade, porm,  o que deveis saber, uma impresso interior. O povo, que diz
as coisas por modo simples e expressivo, inventou aquele adgio: Quem o feio
ama, bonito lhe parece. Logo, qual  a verdade esttica?  a que ele v, no a
que lhe demonstrais.

A concluso  que o que parece
desmentir a natureza da parte de um homem que se elimina por supor que
empobreceu, no  mais que a sua prpria confirmao. J no possua nada o
suicida. A contabilidade interior usa regras s vezes diversas da exterior,
diversas e contrrias. 20 com 20 podem somar 40, mas tambm podem somar 5 ou 3,
e at 1, por mais absurdo que este total parea; a alma  que  tudo, amigo meu,
e no  Bezout que faz a verdade das verdades. Assim, e pela ltima vez, repito
que vos no limiteis a pedir bens simples, mas tambm a conscincia deles. Se
eles no puderem vir, venha ao menos a conscincia. Antes um navio no Pireu que
cem cavalos no pampa.

29
de novembro

Gastibelza, lhomme  la carabine,
chantait ainsi.

V. HUGO

Abdul-Hamid, padix da Turquia

Servo de Al,
Ao relembrar com outrora gemia

Gastibelz
Soltou a voz solitria e plangente

Cantando assim: 
Verei morrer esse eterno doente?

Penso que sim.

 meu harm!  sagradas mesquitas

Meu cu azul!
Terra de tantas mulheres bonitas,

Minha Istambul!
 Dardanelos!  Bsforo!  gente

Sria, alepim! 
Verei morrer este eterno doente?

Penso que sim.

Ouo de um lado bradar o
Evangelho,

De outro o Coro,
Ambos  fora daquele dio velho,

Velha paixo,
E sinto em risco o meu trono
luzente,

Todo cetim. 
Verei morrer este eterno doente?

Penso que sim.

Gladstone, certo feroz paladino,

Cristo e ingls,
Em discurso chamou-me assassino,

H mais de um ms;
Ningum puniu esse dito insolente

De tal mastim. 
Verei morrer este eterno doente?

Penso que sim.

Chamou-me ainda no sei se maluco,

Ele que j
Vai pela idade de mole e caduco,

Velho pax,
Ele que quis rebelar toda a gente

Da verde Erim. 
Verei morrer este eterno doente?

Penso que sim.

Ah! se eu, em vez de gostar da
sultana

E outra hanuns,
Trocar quisesse esta Porta Otomana

Pelos Comuns,
Dar-me-iam, dizem, o trato
excelente

Que do ao chim. 
Verei morrer este eterno doente?

Penso que sim.

Querem que faa reformas no
Imprio,

Voto, eleio,
Que inda mais alto que o nosso
mistrio

Ponha o cristo,
Que de  cruz o papel do
crescente,

Como em Dublim. 
Verei morrer esse eterno doente?

Penso que sim.

Que tempo aquele em que bons
aliados

Breto, francs,
Defender vinham dos golpes danados

O nosso fez!
Ento a velha questo do Oriente

Tinha outro fim. 
Verei morrer este eterno doente?

Penso que sim.

Ento a gente da ruiva Moscvia,

Imperiais
Da Bessarbia, Sibria, Varsvia,

Odessa e o mais,
No conseguiam meter o seu dente

No meu capim. 
Verei morrer este eterno doente?

Penso que sim.

Hoje meditam levar-me aos pedaos

Tudo o que sou,
Cabea, pernas, costelas e braos,

Paris, Moscou,
A rica Londres, Viena a potente,

Roma a Berlim. 
Verei morrer este eterno doente?

Penso que sim.

Oh! Desculpai-me se nesta lamria,

Se neste andar,
Preciso s vezes entrar na Ligria

Para rimar.
Para rimar um mando do Ocidente

Com mandarim. 
Verei morrer este eterno doente?

Penso que sim.

Constantinopla rima com manopla,

Bem, sim, senhor;
Porm que a dura exigncia da
copla

Torne uma flor
Igual  erva mofina e cadente

De um mau jardim... 
Verei morrer este eterno doente?

Penso que sim.

Pois eu rimei Maom com
verdade,

Mas hoje, ao ver
Que nem me fica esta velha cidade,

Sinto perder
A f que tinha de prncipe e
crente

At o fim. 
Verei morrer este eterno doente?

Penso que sim.

Donzelas frescas, matronas
gorduchas,

Com feredjehs,
Moas caladas de lindas babuchas

Nos finos ps,
Mastigam doces com gesto indolente

No meu festim. 
Verei morrer este eterno
doente?

Penso que sim.

Onde iro elas comer os confeitos

Que hora aqui tm?
Quem lhes dar esses sonos
perfeitos

Do meu harm?
Onde acharo o sabor excelente

De um alfenim? 
Verei morrer este eterno doente?

Penso que sim.

E eu, onde irei, se me deitam
abaixo?

Onde irei eu,
Servo de Al, sem basto nem
penacho?

Tal o judeu
Errante, irei, sem parar,
tristemente,

De Ohio a Pequim. 
Verei morrer este eterno doente?

Penso que sim.

Ver-me-o  noite, com a lua ou
sem lua.

Seguir atrs
Da costureira que passa na rua,

Honesta, em paz,
Pedir-lhe um beijo um beijo de
amor por um pente

De ouro ou marfim. 
Verei morrer este eterno
doente?

Penso que sim.

Comerei s, sem eunucos escuros,

Em restaurant,
Talvez bebendo dos vinhos
impuros

Que veda Isl;
Esposo de uma senhora somente

Assim, assim. 
Verei morrer este eterno doente?

Penso que sim.

Penso que sim. Viro logo rasg-lo

Como urubus
Sobre o cadver de um pobre
cavalo,

Naes de truz.
Faro de cada pedao jacente

Uma Tonquim. 
Verei morrer este eterno doente?

Penso que sim.

Penso que sim; mas, pensando mais
fundo,

Bem pode ser
Que ele ainda fique algum tempo no
mundo;

Tudo  fazer
Com que elas briguem na festa
esplendente

Antes do fim. 
Verei viver este eterno doente?

Talvez que sim.

6
de Dezembro

Antnio Conselheiro  o homem do
dia; faz-me lembrar o beri-beri. Eu acompanhei o beri-beri durante muitos
anos, pelas folhas do Norte, principalmente do Maranho e do Cear. Via citadas
as pessoas que adoeciam do mal, que eu no conhecia e cujo nome lia
errado, carregando no i: lia ber-ber. Confesso este pecado de prosdia,
esperando que os meus contemporneos faam a mesma coisa, ainda que,
como eu, no tenham outros merecimentos. Quem tem outros merecimentos pode
claudicar uma vez ou duas. Ao duque de Caxias ouvi eu dizer 
mster; mas o duque tinha uma grande vida militar atrs de si. Que feitos
militares ou civis tem um senhor, que eu conheo, para dizer
eleios?

Mas, tornando ao meu propsito, eu
li os casos de beri-beri por muitos e dilatados anos. Acompanhei a
molstia; vi que se espalhava pouco a pouco, mas segura. Foi assim que
chegou  Baa, e anos depois estava no Rio de Janeiro, de onde passou ao Sul.
Hoje  doena nacional. Quando deram por ela, tinha abrangido tudo. Ningum
advertiu na convenincia de sufoc-la nos primeiros focos.

O mesmo sucedeu com Antnio
Conselheiro. Este chefe de bando h muito tempo que anda pelo serto da
Baa espalhando uma boa nova, sua, e arrebanhando gente que a aceita e
o segue. Eram vinte, foram cinqenta, cem, quinhentos, mil, dois mil; as
ltimas notcias do j trs mil. Antes de tudo, tiremos o chapu. Um homem que,
s com uma palavra de f, e a quietao das autoridades, congrega em torno
de si trs mil homens armados,  algum. Certamente, no  digno de imitao;
chego a ach-lo detestvel; mas que  algum, no h dvida. No me
repliquem com algarismos eleitorais; nas eleies pode-se muito bem reunir
duas e trs mil pessoas, mas so pessoas que votam e se retiram, e no se renem
todas no mesmo lugar, mas em sees. Casos h em que nem vo s urnas;  o que
elegantemente se chama bico de pena. Uns dizem que este processo 
imoral; outros que imoral  ficar de fora. Eu digo, como Bossuet: S Deus 
grande, meus irmos!

Como e de que vivem os sectrios
de Antnio Conselheiro? No acho notcia exata deste ponto, ou no me lembro. Se
no tm rendas, vivem naturalmente das do mato, caa e fruta, ou das dos outros,
como os salteadores. A verdade  que vivem. A crena no chefe  grande; Antnio
Conselheiro tem tal poder sobre os seus amigos, que far deles o que quiser.
Agora mesmo, no primeiro ataque da fora pblica, sabe-se que eles,
baleados, vinham s fileiras dos soldados para cort-los a faco, e morrer.
Entretanto, eles tm amigos estabelecidos  sombra das leis. Um telegrama
diz que da cidade de Alagoinhas mandaram plvora e chumbo ao chefe.
Apreenderam-se caixes com armas que iam para ele. Os sectrios batem-se com
armas Comblaim e Chuchu. Dizem as notcias que no se pode destruir tal gente
com menos de seis mil homens de tropa. Talvez mais; um fantico, certo de
ressuscitar da a quinze dias, como ele assegura, vale por trs
homens.

H um ponto novo nesta aventura
baiana; est nos telegramas publicados anteontem. Dizem estes que Antnio
Conselheiro bate-se para destruir as instituies Republicanas. Neste caso,
estamos diante de um general Boulanger, adaptado ao meio, isto , operando no
serto, em vez de o fazer na capital da Repblica e na cmara dos
deputados, com eleies sucessivas e simultneas.  muita coisa para tal
homem; profeta de Deus, enviado de Jesus e cabo poltico, so muitos papis
juntos, conquanto no seja impossvel reuni-los e desempenh-los.
Cromwel derribou Carlos I com a Bblia no bolso, e no ganhou batalha que
no atribusse a vitria a Deus. Senhor,  escrevia ele ao presidente da cmara
dos comuns,  senhor, isto  nada menos que Deus; a ele cabe toda a glria.
Mas, ou eu me engano, ou vai muita distncia de Cromwel a Antnio
Conselheiro.

Entretanto, como a alma passa por
estados diferentes, no  absurdo que o atual estado da do nosso patrcio
seja a ambio poltica. Pode ser que ele, desde que se viu com trs mil homens
armados e subordinados, tenha sentido brotar do esprito proftico o
esprito poltico, e pense em substituir-se a todas as Constituies.
Imaginar que, possuindo a Baa, possui Sergipe, logo depois Alagoas, mais tarde
Pernambuco e o resto para o norte e para o sul. Dizem que ele declarou que h de
vir ao Rio de Janeiro. No  fcil, mas todos os projetos so verossmeis,
e, dada a ambio poltica, o resto  lgico. Ele pode pensar que chega, v e
vence. Suponhamos ns que  assim mesmo; que as calamidades do tempo e o
esprito da rebelio se do as mos para entregar a vitria ao chefe da
seita dos Canudos. Canudos , como sabeis, o lugar onde ele e o seu exrcito
esto agora entrincheirados. Isto suposto, que ser o dia de amanh?

Lealmente, no sei. Eu no sou
profeta. Se fosse, talvez estivesse agora no serto, com outros trs mil
sequazes, e uma seita fundada. E faria o contrrio daquele fundador. No
viria aos centros povoados, onde a corrupo dos homens torna difcil
qualquer organizao slida, e o esprito de rebelio vive latente,  espera de
oportunidade. No, meus amigos, era l mesmo no serto, onde os bichos ainda no
jogam nem so jogados; era no mais fechado, spero e deserto que eu
levantaria a minha cidade e a minha igreja.

Antnio Conselheiro no
compreende essa vantagem de fazer obra nova em stio devoluto. Quer vir
aqui, quer governar perto da rua do Ouvidor. Naturalmente, no nos
dar uma Constituio liberal, no sentido anrquico deste termo. Talvez nem nos
d cpia ou imitao de nenhuma outra, mas alguma coisa indita e
inesperada. O governo ser decerto pessoal; ningum gasta pacincia e anos
no mato para conquistar um poder e entreg-lo aos que ficaram em suas
casas. O exemplo de Orlie-Antoine I (e nico), rei dos Araucnios, no o
seduzir a pr uma coroa na cabea. Cnsul e Protetor so ttulos usados.
Palpita-me que ele se far intitular simplesmente Conselheiro, e, sem alterar o
nome, dividi-lo- por uma vrgula: Antnio, Conselheiro, por ordem de Deus e
obedincia do povo... Ter um conselho, cmara nica e pequena, no incumbida
de votar as leis, mas de as examinar somente, pelo lado ortogrfico e sinttico,
pelo nmero de letras consoantes em relao s vogais, idade das palavras,
energia dos verbos, harmonia dos perodos, etc., tudo exposto em relatrios
longos, minuciosos, ilegveis e inditos.

Venerado como profeta, obedecido
como chefe de Estado, investido de ambos os gldios, com as chaves do cu e da
terra na gaveta, Antnio Conselheiro ver o seu poder definitivamente posto?
Como tudo isto  sonho, sonhemos que sim; mas Oliveiro ter um Ricardo por
sucessor, e a obra do primeiro perecer nas mos do segundo, sem outro
resultado mais que haver o profeta governado perto da rua do Ouvidor. Ora,
esta rua  o alapo dos governos. Pela sua estreiteza,  a murmurao
condensada,  o viveiro dos boatos, e mais faz um boato que dez artigos de
fundo. Os artigos no se lem, principalmente se o contribuinte percebe que
tratam de oramento e de imposto, matrias j de si aborrecveis. O boato 
leve, rpido, transparente, pouco menos que invisvel. Eu, se tivesse voz
no Conselho Municipal, antes de cuidar do saneamento da cidade, propunha o
alargamento da rua do Ouvidor. Quando este beco for uma avenida larga em que as
pessoas mal se conheam de um lado para outro, tero cessado mil
dificuldades polticas. Talvez ento se popularizem os artigos sobre
finanas, impostos e outras rudes necessidades do sculo.

13 de dezembro

O Senado deixou suspensa a questo
do veto do prefeito acerca do imposto sobre companhias de teatro. No
falaria nisto se no se tratasse de arte em que a poltica no penetra,  ao
menos que se veja. Se penetra,  pelos bastidores; ora, eu sou pblico, s me
regulo pela sala.

Houve debate  ltima hora, esta
semana, e debate, no direi encarniado, para no gastar uma palavra que lhe
pode servir em caso mais agudo... No, eu no sou desses perdulrios que, porque
um homem diverge no corte do colete, chama-lhe logo bandido; eu poupo as
palavras. Digamos que o debate foi vigoroso.

No sei se conheceis o negcio. O
que eu pude alcanar  que havia uma lei taxando fortemente as companhias
estrangeiras; esta lei foi revogada por outra que manda igualar as taxas das
estrangeiras e das nacionais; mas logo depois resolveu o conselho municipal que
fosse cumprida uma lei anterior  primeira... Aqui  que eu no sei bem que a
lei restaurada apenas levanta as taxas sem desigual-las, ou se a tornam outra
vez desiguais. Alm de no estar claro no debate, sucede que na publicao do
discurso h o uso de imprimir entre parntesis a palavra l quando o
orador l alguma coisa. Para as pessoas que esto na galeria, (ao contrrio!) a
conseqncia  que a maior parte fica sem saber o que  que leu, e portanto sem
perceber a fora da argumentao, isto com prejuzo dos prprios oradores. Por
exemplo, um orador, X..., refuta a outro, Y...:

X... E pergunto eu, Vossa
Excelncia pode admitir que o documento de que se trata afirme o que o governo
do Estado alega? Oua Vossa Excelncia. Aqui est o primeiro trecho, o trecho
clebre. (L) No h aqui o menor vestgio de afirmao...

Y... Perdo, leia o trecho
seguinte.

X... O seguinte? Ainda menos.
(L) No h nada mais vago. O governador expedira o decreto, cujo art. 4
no oferece a menor dvida; basta l-lo. (L) Depois disto, que concluir,
seno que o governador tinha o plano feito? Querem argumentar, Sr. presidente,
com o  7 do art. 6; mas essa disposio  um absurdo jurdico. Oua a Cmara.
(L)

Vozes: Oh! Oh!

No h dvida que esse uso
economiza papel de impresso e tempo de copiar; mas eu, contribuinte e eleitor,
no gosto de economias na publicao dos debates. Uma vez que estes se imprimem
 indispensvel que saiam completos para que eu os entenda. Posso ser para
preguioso, morar fora, e tenho direito de saber o que  que se l nas Cmaras.
Se algum membro ou ex-membro do congresso me l, espero que providenciar de
modo que, para o ano, eu possa ler o que se ler, sem ir passar os meus dia na
galeria do congresso.

Como ia dizendo, no tenho certeza
do que  a lei municipal restaurada; mas para o que eu vou dizer  indiferente.
O que deduzi do debate  que h duas opinies: uma que entende deverem ser as
companhias estrangeiras fortemente taxadas, ao contrrio das nacionais, outra
que quer a igualdade dos impostos. A primeira funda-se na convenincia de
desenvolver a arte brasileira, animando os artistas nacionais que aqui labutam
todo ano, seja de inverno, seja de vero. A segunda, entendendo que a arte no
tem ptria, alega que as companhias estrangeiras, alm de nos dar o que as
outras no do, tm de fazer grandes despesas de transporte, pagar ordenados
altos e no convm carregar mais as respectivas taxas. Tal  o conflito que
ficou suspenso.

Eu de mim creio que ambas as
opinies erram. No erram nos fundamentos tericos; tanto se pode defender a
universalidade da arte como sua nacionalidade; erram no que toca aos fatos. Com
efeito,  difcil, por mais que a alma se sinta levada pelo princpio da
universalidade da arte, no hesitar quando nos falam da necessidade de defender
a arte nacional; mas  justamente este o ponto em que a viso do Conselho
Municipal, do prefeito e do Senado me parece algo perturbada.

Posto no freqente teatros h
muito tempo, sei que h a uma arte especial, que eu j deixei em boto. Essa
arte (salvo alguns esforos louvveis) no  propriamente brasileira, nem
estritamente francesa;  o que podemos chamar, por um vocbulo composto, a arte
franco-brasileira. A lngua de que usa dizem-me que no se pode atribuir
exclusivamente a Voltaria, nem inteiramente a Alencar;  uma lngua feita com
partes de ambas, formando um terceiro organismo, em que a polidez de uma e o
mimo de outra produzem nova e no menos doce prosdia.

Este fenmeno no  nico. O
teuto-brasileiro  um produto do Sul, onde o alemo nascido no territrio
nacional no fica bem alemo nem bem brasileiro, mas um misto, a que l do
aquele nome. Ignoro se a lngua daquele nosso meio patrcio e inteiro
colaborador  um organismo igual ao franco-brasileiro; mas se as escolas das
antigas colnias continuam a s ensinar alemo,  provvel que domine esta
lngua. Nisto estou com La Palisse.

No  pelo nascimento dos artistas
que a arte franco-brasileira existe, mas por uma combinao do Rio com Paris ou
Bordus. Essa arte, que as finadas Mmes. Doche e D. Estela no reconheceriam por
no trazer a fisionomia particular de um ou de outro dos respectivos idiomas,
tem a legitimidade do acordo e da fuso nos elementos de ambas as origens.
Quando nasceu?  difcil dizer quando uma arte nasce; mas basta que haja
nascido, tenha crescido e viva. Vive, no lhe peo outra certido.

Acode-me, entretanto, uma idia
que pode combinar muito bem as duas correntes de opinio e satisfazer os
intuitos de ambas as partes. Essa idia  lanar uma taxa moderada s companhias
estrangeiras e libertar de todo imposto as nacionais. Deste modo, aquelas viro
trazer-nos todos os invernos algum regalo novo, e as nacionais podero viver
desabafadas de uma imposio onerosa, por mais leve que seja. Creio que assim se
cumprir o dever de animar as artes, sem distino de origens, ao mesmo tempo
proteger a arte nacional. Que importa que, ao lado dela, seja protegida a arte
franco-brasileira? Esta  um fruto local; se merece menos que a outra, no deixa
de fazer algum jus  eqidade. A fica a idia;  exeqvel. No a dou por
dinheiro, mas de graa e a srio.

No me arguam de prestar tanta
ateno  lngua de uma arte e  meia lngua de outra. Grande coisa  a lngua.
Aquele diplomata venezuelano que acaba de atordoar os espritos dos seus
compatriotas pela revelao de que o tratado celebrado com a Inglaterra, graas
aos bons ofcios dos Estados Unidos, serve ao interesse destes dois pases com
perda para Venezuela, pode no ter razo (e creio que no tenha), mas d prova
certa do que vale a lngua. Os outros dois so ingleses, falam ingls; foi o pai
que ensinou esta lngua ao filho. Venezuela  uma das muitas filhas e netas de
Espanha que se deixaram ficar por este mundo. A lngua castelhana  rica; mas 
menos falada. Se o diplomata tivesse razo, em Caracas, que  o Rio de Janeiro
de Venezuela, as companhias nacionais  que agentariam os maiores impostos,
enquanto que as de Londres e New York representariam sem pagar nada. Mas  um
desvario, decerto; esperemos outros telegramas.

Relevem o estilo e as idias; a
minha dor de cabea no d para mais.

20 de dezembro

 minha opinio que no se deve
dizer mal de ningum, e ainda menos da polcia. A polcia  uma instituio
necessria  ordem e  vida de uma cidade.

Nos melhores tempos da nossa bela
Guanabara, como lhe chamam poetas, tnhamos o Vidigal e o Arago. Esse Arago,
que eu no conheci, vinha ainda falar aos de minha gerao pela boca do sino de
So Francisco de Paula, s 10 horas da noite,  hora de recolher, fazendo
lembrar aquilo da pera:  Abitanti di Parigi,  ora di
riposar.

 tempos! tempos! Os escravos
corriam para casa dos senhores, e todo o cidado, por mais livre que fosse,
tinha obrigao de se deixar apalpar, a ver se trazia navalha na algibeira. Era
primitivo, mas tiradas as navalhas aos malfeitores, poupava-se a vida  gente
pacfica.

No se deve dizer mal da polcia.
Ela pode no ser boa, pode no ter sagacidade, nem habilidade, nem mtodo, nem
pessoal; mas, com tudo isso, ou sem tudo isso,  instituio necessria. Os
tempos vo suprindo as lacunas, emendando os defeitos. Para falar de ns, j
comeamos a perder a idia de uma polcia eleitoral ou de um canap destinado a
algum que passa de um cargo a outro e descansa um ms para tomar flego. O
pessoal secreto  difcil de escolher; outrora, nem sequer era secreto. Quem se
no lembra daquele famoso assassinato da Rua Uruguaiana, h anos, cujo autor
fugia perseguido por pessoas do povo que bradavam: Pega!  secreta! Duas
lies houve nesse acontecimento: 1,
o crime praticado pela virtude; 2, o secreto conhecido de toda
gente. No obstante, repito, a instituio  necessria, e antes medocre que
nenhuma.

Agora mesmo, se nada se tem
encontrado acerca da dinamite tirada de um depsito,  porque os ladres de
dinamite no so como os de simples lenos pendurados s portas das lojas. Estes
so obrigados a furtar de dia,  vista do dono e dos passantes, correm, so
perseguidos pelo clamor pblico, e afinal pegados. Eu, apesar do gosto que tenho
a psicologia, ainda no pude descobrir o mvel secreto das pessoas que perseguem
neste caso a um gatuno.  o simples impulso da virtude?  o desejo de perseguir
um homem hbil que quer escapar  lei? Mistrio insondvel. A virtude ,
decerto, um grande e nobre motivo, e se pudesse haver deliberao no ato, no h
dvida que ela seria o motivo nico; mas, no se pode deliberar quando algum
furta um leno e foge; o ato da corrida  imediato. Se os perseguidores fossem
outros lojistas, no h dvida que, por aquele seguro mtuo natural entre
pessoas interessadas, cada um trataria de capturar e fazer punir o que defraudou
o vizinho, e pode amanh vir defraud-lo a ele. Mas, em geral, os perseguidores
so pessoas que nada tm com aquilo. Nenhum deles levaria nunca o leno de
ningum; no contesto que um ou outro, posto em corredor escuro e solitrio,
diante de um relgio de ouro, regulando bem, longe dos homens, dificilmente
sair sem o relgio no bolso. , por outra maneira, o problema de Diderot. No
vades crer que eu condeno a perseguio dos delinqentes; ao contrrio, aplaudo
o esprito de solidariedade que deve prender o cidado  autoridade e  lei; mas
no falo em tese, falo em hiptese.

Portanto, no admira que a
dinamite continue encoberta. H mais coisas entre o cu e a terra do que sonha a
nossa v filosofia.  velho este pensamento de Hamlet; mas nem por velho perde.
Eu no peo s verdades que usem sempre cabelos brancos, todas servem, ainda que
os tragam brancos ou grisalhos. Ora, se h muita coisa entre o cu e a terra,
dinamite pode l estar;  muita, convenho, mas o espao  vasto de sobra. Como
iremos busc-la to alto? A polcia,  a prpria polcia inglesa, que dizem ser
a melhor aparelhada, ainda no possui agentes areos. Ouo que h agora dois
homens em Paris que tencionam ir em balo descobrir... o que? descobrir o plo;
mas plo no  dinamite, que faz voar casas e tneis de estradas de ferro. Plo
no vive escondido; deixa-se estar  espera. Notemos que os interrogados at
agora no disseram nada que esclarea sobre o paradeiro da matria roubada; ou
so inocentes, ou esto ligados por juramentos terrveis, a no ser que o
prprio interesse lhes tape a boca; explicao esta muito natural. No havendo
meios de tortura,  o ltego ao menos,  como fazer falar as pessoas
mudas?

Mas, tudo isso me tem desviado do
ponto a que queria ir. Vamos a ele. No se deixem levar por aparncias; no
cuidem que fao aqui um noticirio criminal. A boa regra para quem empunha uma
pena tratar do que pode dar de si algum suco,  uma idia uma descoberta, uma
concluso. No dando nada, no vale a pena gastar papel e tinta; melhor  abrir
as janelas e ouvir o passaredo que canta no arvoredo, para rimarem juntos, e os
insetos que zumbem, o trem da linha do Corcovado que sobe e ver o sol que desce
por estas montanhas abaixo, garrido e clido, como um rapaz de vinte anos.
Grande sol, quando esfriars tu? em que sculo apagars o facho com que andas
pela escurido do infinito? Talvez a Terra j no exista, com todas as suas
cidades, policiadas ou no.

Um amigo meu teve um roubo em
casa, um cofre de jias. Quando, ignoro; pode ter sido agora, pode ter sido
antes de 13 de maio, antes da guerra do Paraguai, antes da guerra dos Farrapos,
antes da guerra de Tria. Afinal, que valem datas! Suponhamos que  da
pera:

Cest  la cour du roi
Henri,

Messieurs, que se passait
ceci.
Furtadas as jias, o meu amigo
conseguiu dar com elas, dentro do cofre, e o cofre escondido em uma chcara 
espera talvez da noite seguinte, para poder ser levado, com o grande peso que
tinha. J estava aberto, com dois relgios de menos. No trabalho a que ele se
deu foi acompanhado por uma praa de polcia, a fim de capturar o ladro, se
fosse achado; mas o ladro no apareceu.

Este meu amigo  advogado.
Qualquer profano, descoberto o cofre, lev-lo-ia para casa, dando graas a Deus
por s haver perdido os relgios. O meu amigo, antes de tudo cuidou no corpo de
delito. Fez-me lembrar aquele coronel ingls, Melvil, que ao saber dos
ferimentos do irmo da bela Colomba, admira-se de no terem ainda apresentado
queixa e um magistrado. Falara do inqurito pelo coroner e de muitas
outras coisas desconhecidas na Crsega, narra finalmente Mrime. O meu amigo
queria por fora que se fizesse corpo de delito, e foi  polcia uma vez, duas,
trs, penso que quatro, mas no afirmo. O intervalo foi sempre, mais ou menos,
de duas horas; mas no achou nunca autoridade disponvel. No era preciso ouvir
que voltasse depois; ele voltaria, ele voltou e (vede o prmio da tenacidade!)
tanto voltou que achou uma. Ento contou-lhe o caso, e acabou pedindo corpo de
delito.

 Bem, responderam-lhe; vai-se
fazer, mas onde est o ferido?

A alma do meu amigo no lhe caiu
ao cho, porque ele, depois de tantas idas e vindas, j no tinha alma. Perdeu a
fala, isso sim; no soube que responder. Essa noo to particular do corpo de
delito fez voltar ao corao todas as belas coisas que preparara. Para ser
exato, no afirmo que sasse calado; pode ser que afinal apresentasse algumas
explicaes, vagas, tortas, vexadas, apenas suspiradas, ao canto da boca. E
tornou para casa, dando mentalmente os dois relgios ao ladro, para que ele no
fosse para o inferno com esse pecado s costas; ir com outros. Enfim, o meu
amigo quis gratificar a praa que o acompanhou nas pesquisas; a praa recusou,
dizendo haver estado ali cumprindo a sua obrigao. Eis a uma boa nota
policial, e no faltaro outras, como a do assalto s tavolagens, em que nunca
as mos lhe doam.

E a concluso? A concluso  que
nem todas as palavras tm o mesmo eco em todas as cabeas, e h muitas noes
diversas para um s e triste vocbulo. Ergo bigamus.

27 de dezembro

Leitor, aproveitemos esta rara
ocasio que os deuses nos deparam. S dois flegos vivos no so candidatos ao
governo da cidade, tu e eu. E ainda assim no respondo por ti; neste sculo de
maravilhas pode dar-se que um candidato tenha alma bastante para ler, ao caf,
uma coluna de sensaborias, e ir depois pleitear a palma de combate. Tudo 
possvel. J se vem ossos atravs da carne; dizem que dison medita dar vista
aos cegos.  o que faz na Bahia, sem outro instrumento mais que a sugesto, o
nosso grande taumaturgo Antnio Conselheiro.

Mas em que  que aproveitaremos
esta ocasio rara? Em dizer das letras e da poesia. Aqui temos Valentim
Magalhes com o romance Flor de Sangue; aqui temos Lcio de Mendona, com
as Canes do Outono. Iremos votar, decerto, tu e eu, mas h de ser
depois de me haveres lido e bebido a chvena de caf. O meu ttulo de eleitor
no  dos que ficara devolutos para um cidado annimo pegasse deles e os
oferecesse a outros. Francamente, como  que esse cavalheiro no viu que no se
fazem distribuies tais seno a pessoas seguras, j apalavradas, de olho fino?
Em que estava pensando quando entregou os ttulos a desconhecidos que o foram
denunciar? No  que eu condene o ato. Um dos eleitores defraudados confessou
que no vota h muitos anos. Pois se no vota, como  que admira de que lhe
tirem o ttulo? A verdadeira teoria poltica  que no h eleitores, h ttulos.
Um eleitor que ? Um simples homem, no diverso de outro homem que no seja
eleitor; a mesma figura, os mesmos rgos, as mesmas necessidades, a mesma
origem, o mesmo destino; s vezes, o mesmo alfaiate; outras, a mesma dama. Que 
que os faz diferentes? Esse pedao de papel que leva em si um pedao de
soberania. O homem pode ser banqueiro, agricultor, operrio, comerciante,
advogado, mdico, pode ser tudo; eleitoralmente  como se no existisse: sem
ttulo de eleitor, no  eleitor.

Ora bem, dada a absteno,
descuido, esquecimento ou ignorncia da parte dos donos dos ttulos, devem ou
podem estes papis, estes direitos incorporados ficar como terrenos baldios, sem
a cultura do voto?  claro que no. Uma lei de desapropriao com processo
sumrio que tirasse o ttulo de eleitor remisso, trs dias antes da votao, e o
desse a quem mais desse, seria a forma legal de restituir quele papel os seus
efeitos. Mas, porque no temos uma lei dessas, devemos tratar direitos
polticos, direitos constitucionais, como se fossem o lixo das praias, o capim
das caladas ou o palmo de p que enche todas essas ruas, e que o vento, a
carroa, o p da besta levantam, que entra pelos nossos pulmes, cega-nos,
suja-nos, irrita-nos, faz-nos mandar ao diabo o municpio e o seu governo? No;
seria quase um crime.

Portanto, o erro da pessoa que
andou a oferecer ttulos alheios foi a inabilidade. Alguns querem que o cidado
induzido a votar por outro, esteja a meio caminho de furtar um par de botas. 
um erro; se o fato de votar por outro levasse algum ao latrocnio, esta arte
estaria em outro p; ora,  sabido que no a pode haver mais rudimentria ou
mais decadente. J no h testamentos falsos. Salvo algum peculato, desfalque ou
coisa assim, a maior parte dos roubos so verdadeiras misrias. Pouca audcia,
nenhuma originalidade. Talvez por isso, mal os jornais do notcia de um delito
desses, o esquecimento absorve o criminoso. No imprimam absolve; quem
absolve  o jri, no caso de haver processo; eu digo que o esquecimento absorve
o criminoso, no sentido de se no falar mais nisso.

Mas deixemos criminologias e
venhamos aos dois livros da quinzena. A Flor de Sangue pode dizer-se que
 o sucesso do dia. Ningum ignora que Valentim Magalhes  dos mais ativos
espritos da sua gerao. Tem sido jornalista, cronista, contista, crtico,
poeta, e, quando preciso, orador. H vinte anos que escreve, dispersando-se por
vrios gneros, com igual ardor e curiosidade. Quem sabe? Pode ser que a
poltica o atraia tambm, e iremos v-lo na tribuna, como no jornalismo, em
atitude de combate, que  um dos caractersticos do seu estilo. Naturalmente nem
tudo o que escreveu ter o mesmo valor. Quem compe muito e sempre, deixa
pginas somenos; mas  j grande vantagem dispor da facilidade de produo e do
gosto de produzir.

Pelo que confessa no prefcio,
Valentim Magalhes escreveu este romance para fazer uma obra de flego e
satisfazer assim a crtica. No fim do prefcio, referindo-se ao romance e ao
poema, como as duas principais formas literrias, conclui: Tudo o mais, contos,
odes, sonetos, peas teatrais so matizes, variaes, gradaes; motivos
musicais, apenas porque as peras so s eles. Este juzo  por demais sumrio
e no  de todo verdadeiro. Parece-me erro pr assim to embaixo Otelo
e Tartufo. Os sonetos de Petrarca formam uma bonita pera. E Musset?
Quantas obras de flego se escreveram no seu tempo que no valem as Noites
e toda a juventude de seus versos, entre eles este, que vem ao nosso
caso:

Mon verre nest pas grand, mais je
bois dans mon verre.

Taa pequena, mas de ouro fino,
cheia de vinho puro, vinho de todas as uvas, gaulesa, espanhola, italiana e
grega, com que ele se embriagou a si e ao seu sculo, e a vai embriagar o
sculo que desponta. Quanto s fices em prosa, conto, novela, romance, no
parece justo desterrar as de menores dimenses. Clarisse Harlowe tem um
flego de oito volumes. Taine cr que poucos suportam hoje esse romance. Poucos
 muito: eu acho que raros. Mas o mesmo Taine prev que no ano 2000 ainda se
ler Partida de Gamo, uma novelinha de trinta pginas; e, falando das
outras narrativas do autor de Carmem, todas de escasso tomo, faz esta
observao verdadeira:  que so construdas com pedras escolhidas, no com
estuque e outros materiais da moda.

Este  o ponto. Tudo  que as
obras sejam feitas com o flego prprio de cada um, e com materiais que
resistam. Que Valentim Magalhes pode compor obras de maior flego,  certo. Na
Flor de Sangue o que o prejudicou foi querer fazer longo e depressa. A
ao, alis vulgar, no dava para tanto; mal chegaria a metade. H muita coisa
parasita, muita repetida, e muita que no valia a pena trazer da vida ao livro.
Quanto  pressa, a que o autor nobremente atribui os defeitos de estilo e
linguagem,  causa ainda de outras imperfeies. A maior destas  a psicologia
do Dr. Paulino. O autor espiritualiza  vontade um homem que, a no ser a sua
palavra, d apenas a impresso do lbrico; e no h admitir que, depois da
temporada de adultrio, ele se mate por motivos de tanta elevao nem ainda por
supor no ser amado. No tenho espao para outros lances inadmissveis, como a
ida de Corina  casa da Rua de Santo Antnio (pg. 141). Os costumes no esto
conservados. J Lcio Mendona contestou que tal vida fosse a da nossa
sociedade. O erotismo domina mais do que se devera esperar, ainda dado o plano
do livro.

No insisto; a fica o bastante
para mostrar o apreo em que tenho o talento de Valentim Magalhes, dizendo-lhe
alguma coisa do que me parece bom e menos bom na Flor de Sangue. Que h
no livro certo movimento,  fora de dvida; e esta qualidade em romancista vale
muito. Verdadeiramente os defeitos principais deste romance so dos que a
vontade do autor pode corrigir nas outras obras que nos der, e que lhe peo
sejam feitas sem nenhuma idia de grande flego. Cada concepo traz
virtualmente as propores devidas; no se por M. Bovary nas cem pginas
de Adolfo, nem um conto de Voltaire nos volumes compactos de George
Eliot.

Para que Valentim Magalhes veja
bem a nota assaz aguda que deu a algumas partes da Flor de Sangue, leia o
prefcio de Araripe Jnior nas Canes do Outono, comparado com o livro
de Lcio de Mendona. O valente crtico fala longamente do amor, e sem biocos,
pela doutrina que vai alm de Mantegazza, segundo ele mesmo expe; e definido o
poeta das Canes do Outono, fala de um ou outro toque de sensualidade
que se possa achar nos seus versos. Entretanto,  bem difcil ver no livro de
Lcio de Mendona coisa que se possa dizer sensual. O Ideal  o ttulo da
primeira composio; ele amar em outras pginas com o ardor prprio da
juventude; mas as sensaes so apenas indicadas. Basta lembrar que o livro
(magnificamente impresso em Coimbra)  dedicado por ele  esposa, ento
noiva.

Vrios so os versos deste volume,
de vria data e vria inspirao. No saem da pasta do poeta, para a luz do dia,
como segredos guardados, at agora; so recolhidos de jornais e revistas, por
onde Lcio de Mendona os foi deixando. O mrito no  igual em todos; a Flor
do Ip, a Tapera, a Ave-Maria, para s citar trs pginas, so
melhor inspiradas e bem compostas que outras,  versos de ocasio. H tambm
tradues feitas com apuro. Por que fatalidade acho aqui vertido em nossa lngua
o soneto Analyse, de Richepin? Nunca pude ir com esta pgina do autor de
Fleurs du Mal. Essa anlise da lgrima, que s deixa no crisol gua,
sal, soda, muco e fosfato de cal, em que  que diminui a intensidade ou
altera a espiritualidade dos sentimentos que a produzem?  o prprio poeta que,
na Charogne, anunciando  amante que ser cadver um dia, canta as suas
emoes passadas:

Alors,  ma beaut! dites  la
vermine

Qui vous mangera de
baisers,

Que j'ai gard la forme et
lessence divine
De mes amours
dcomposs!

Pois a lgrima  isso,  a
essncia divina, seja da dor, seja do prazer, seja ainda da clera das pobres
criaturas humanas. Felizmente, no mesmo volume o poeta nos d a traduo do
famoso soneto de Arvers e de outras composies de mrito. Eu ainda no disse
que tive o gosto de prefaciar o primeiro volume de Lcio de Mendona, e no o
disse, no s para falar de mim,  que  mau costume,  mas para no dar razo
aos que me argem de entrar pelo inverno da vida. Em verdade, esse rapaz, que eu
vi balbuciar os primeiros cantos,  hoje magistrado e alto magistrado, e o tempo
no ter andado s para ele. Mas isso mesmo me faz relembrar aquela
circunstncia. Ei-nos aqui os dois, aps tantos anos, sem haver descrido das
letras, e achando nelas um pouco de descanso e um pouco de consolo. Muita coisa
passou depois das Nvoas Matutinas; no passou a f nas musas, e
basta.

1897

3
de janeiro

A importncia da carta que se vai
ler devia excluir qualquer outro cuidado esta semana; mas no se perde nada em
retificar um lapso. Pequeno lapso: domingo passado escrevi autor de Fleurs
du Mal onde devera escrever autor de Blasphmes, tudo
porque uma estrofe de Baudelaire me cantava na memria para corrigir com ela o
seu patrcio Richepin. Vamos agora  carta. Recebi-a anteontem de um cidado
americano, o Rev. M. Going, que aqui chegou em agosto do ano findo e partiu a 1
ou 2 de setembro para a ilha da Trindade.  Suspeito uma coisa, disse-me ele.
 Que coisa?  No posso dizer; se acertar, terei feito uma grande
descoberta, a maior descoberta martima do sculo; se no acertar, fica o
segredo comigo. Podes imaginar agora, leitor, o assombro com que recebi a
epstola que vais ler:

Ilha da Trindade, 26 de dezembro
de 1896.

Caro senhor.  Esta carta vos ser
entregue pelo Rev. James Maxwell, de Nebrasca. Veio ele comigo a esta ilha, sem
saber o fim que me trouxe a ela. Pensava que o meu desejo era conhecer o valor
do penhasco que os ingleses queriam tomar ao Brasil, segundo lhe disse em Royal
Hotel, 3, Rua Clapp, uma sexta-feira. O Rev. Maxwell vos contar o assombro em
que ficou e a minha desvairada alegria quando vimos o que ele no esperava ver,
o que absolutamente ningum pensou nem suspeitou nunca.

Senhor, esta ilha no  deserta,
como se afirma; esta ilha tem, do lado oriental, uma pequena cidade, com algumas
vilas e aldeias prximas. Eu desconfiava disto, no por alguma razo cientfica
ou confidncia de navegante, mas por uma intuio fundada em tradio de
famlia. Com efeito,  constante na minha famlia que um dos meus avs,
aventureiro e atrevido, deixou um dia as costas da Inglaterra, entre 1648 e
1650, em um velho barco, com meia dzia de tripulantes. Voltou dez anos depois,
dizendo ter descoberto um povo civilizado, bom e pacfico, em certa ilha que
descreveu. No temos outro vestgio; mas, no sei por que razo,  creio que por
inspirao de Deus,  desconfiei que a ilha era a da Trindade. E acertei; eis a
ilha, eis o povo, eis a grande descoberta que vai fechar com chave de ouro o
nosso sculo de maravilhas.

As notcias atropelam-se-me
debaixo da pena, de modo que no sei por onde continue. A primeira coisa que lhe
digo j  que achei a prova da estada aqui de um Going, no sculo XVII. Dei com
um retrato de Carlos I, meio apagado e conservado no museu da cidade.
Disseram-me que fora deixado por um homem que residiu aqui h tempos infinitos.
Ora, o meu av citado era grande realista e por algum tempo bateu-se contra as
tropas de Cromwell. Outra prova de que um ingls esteve aqui  a lngua do povo,
que  uma mistura de latim, ingls e um idioma que o Rev. Maxwell afirma ser
pnico. Efetivamente, este povo inculca descender de uma leva de cartagineses
que saiu de Cartago antes da vitria completa dos romanos. Uma vez entrados
aqui, juraram que nenhuma relao teriam mais com povo algum da Terra, e assim
se conservaram. Quando a populao chegou a vinte e cinco mil almas, fizeram uma
lei reguladora dos nascimentos, para que nunca esse nmero seja excedido; nico
modo, dizem, de se conservarem segregados da cobia e da inveja do Universo. No
 essa a menor esquisitice desta pequena nao; outras muitas tem, e todas sero
contadas na obra que empreendi. Porquanto, meu caro senhor,  meu intuito no ir
daqui sem haver descrito os costumes e as instituies do pequenino pas que
descobri, dizendo de suas origens, raa, lngua o mais que puder coligir e
apurar. Talvez lhe traga dano. No  fora de propsito crer que a Inglaterra,
sabendo que aqui esteve um ingls, h dois sculos, reclame a posse da ilha;
mas, em tal caso, sendo Going meu parente, reivindicarei eu a posse e vencerei
por um direito anterior. De fato, todo ente gerado, antes de vir  luz, antes de
ser cidado,  filho de sua me, e at certo ponto  av da gerao futura que
virtualmente traz em si. Vou escrever neste sentido a um legista de
Washington.

Falei de esquisitices. Aqui est
uma, que prova ao mesmo tempo a capacidade poltica deste povo e a grande
observao dos seus legisladores. Refiro-me ao processo eleitoral. Assisti a uma
eleio que aqui se fez em fins de novembro. Como em toda a parte, este povo
andou em busca da verdade eleitoral. Reformou muito e sempre; esbarrava-se,
porm, diante de vcios e paixes, que as leis no podem eliminar. Vrios
processos foram experimentados, todos deixados ao cabo de alguns anos.  curioso
que alguns deles coincidissem com os nossos de um e de outro mundo. Os males no
eram gerais, mas eram grandes. Havia eleies boas e pacficas, mas a violncia,
a corrupo e a fraude inutilizavam em algumas partes as leis e os esforos
leais dos governos. Votos vendidos, votos inventados, votos destrudos, era
difcil alcanar que todas as eleies fossem puras e seguras. Para a violncia
havia aqui uma classe de homens, felizmente extinta, a que chamam pela lngua do
pas, kapangas ou kapengas. Eram esbirros particulares,
assalariados para amedrontar os eleitores e, quando fosse preciso, quebrar as
urnas e as cabeas. s vezes quebravam s as cabeas e metiam nas urnas maos de
cdulas. Estas cdulas eram depois apuradas com as outras, pela razo especiosa
de que mais valia atribuir a um candidato algum pequeno saldo de votos que
tirar-lhe os que deveras lhe foram dados pela vontade soberana do pas. A
corrupo era menor que a fraude; mas a fraude tinha todas as formas. Enfim,
muitos eleitores, tomados de susto ou de descrena, no acudiam s
urnas.

Vai ento, h cinqenta anos (os
nossos aqui so lunares) apareceu um homem de Estado, autor da lei que ainda
vigora no pas. No podeis caro senhor, conceber nada mais estranho nem tambm
mais adequado que essa lei:  uma obra-prima de legislao experimental. Esse
homem de Estado, por nome Trumpbal, achou dificuldades em comeo, porque a
reforma proposta por ele mudava justamente o princpio do governo. No o fez,
porm, pelo vo gosto de trocar as coisas. Trumpbal observara que este povo
confia menos em si que nos seus deuses; assim, em vez de colocar o direito de
escolha na vontade popular, props atribu-lo  Fortuna. Fez da eleio uma
consulta aos deuses. Ao cabo de dois anos de luta, conseguiu Trumpbal a primeira
vitria.  Pois bem, disseram-lhe; decretemos uma lei provisria, segundo o
vosso plano; far-se-o por ela duas eleies, e se no alcanar o efeito que
esperais, buscaremos outra coisa. Assim se fez; a lei dura h quarenta e oito
anos.

Eis os lineamentos gerais do
processo: cada candidato  obrigado a fazer-se inscrever vinte dias antes da
eleio, pelo menos, sem limitao alguma de nmero. Nos dez dias anteriores a
eleio, os candidatos expem na praa pblica os seus mritos e examinam os dos
seus adversrios, a quem podem acusar tambm, mas em termos comedidos. Ouvi um
desses debates. Conquanto a lngua ainda me fosse difcil de entender, pude
alcanar pelas palavras inglesas e latinas, pela compostura dos oradores e pela
fria ateno dos ouvintes, que os oradores cumpriam escrupulosamente a lei.
Notei at que, acabados os discursos, os adversrios apertavam as mos uns dos
outros, no somente com polidez, mas com afabilidade. No obstante, para evitar
quaisquer personalidades, o candidato no  designado pelo prprio nome, mas
pelo de um bicho, que ele mesmo escolhe no ato da inscrio. Um  guia, outro
touro, outro pavo, outro cavalo, outro borboleta, etc. No escolhem nomes de
animais imundos, traioeiros, grotescos e outros, como sapo, macaco, cobra,
burro; mas a lei nada impe a tal respeito. Nas referncias que fazem uns aos
outros adotaram o costume de anexar ao nome um qualificativo honrado: o brioso
Cavalo, o magnfico Pavo, o indomvel Touro, a galante Borboleta, etc., fazendo
dessas controvrsias, to fceis de azedar, uma verdadeira escola de
educao.

A eleio  feita engenhosamente
por uma mquina, um tanto parecida com a que tive ocasio de ver no Rio de
Janeiro, para sortear bilhetes de loterias. Um magistrado preside a operao.
Escrito o ttulo do cargo em uma pedra negra, d-se corda  mquina, esta gira e
faz aparecer o nome do eleito, composto de grandes letras de bronze. Os nomes de
todos, isto , os nomes dos animais correspondentes tm sido postos na caixa
interior da mquina, no pelo magistrado, mas pelos prprios candidatos. Logo
que o nome de um aparecer, o dever do magistrado  proclam-lo, mas no chega a
ser ouvido, to estrondosa  a aclamao do povo:  Ganhou o Pavo! ganhou o
Cavalo! Este grito, repetido de rua em rua, chega aos ltimos limites da
cidade, como um incndio, em poucos minutos. O alvoroo  enorme,  um delrio.
Homens, mulheres, crianas, encontram-se e bradam:  Ganhou o Cavalo! ganhou o
Pavo!

Mas ento os vencidos no gemem,
no blasfemam, no rangem os dentes? No, caro senhor, e a est a prova da
intuio poltica do reformador. Os cidados, levados pelo impulso que os faz
no descrer jamais da Fortuna, lanam apostas, grandes e pequenas, sobre os
nomes dos candidatos. Tais apostas parece que deviam agravar a dor dos vencidos,
uma vez que perdiam candidato e dinheiro; mas, em verdade, no perdem as duas
coisas. Os cidados fizeram disto uma espcie de perde-ganha; cada partidrio
aposta no adversrio, de modo que quem perde o candidato ganha o dinheiro, e
quem perde o dinheiro ganha o candidato. Assim, em vez de deixar dios e
vinganas, cada eleio estreita mais os vnculos polticos do povo. No sei se
uma grande cidade poderia adotar tal sistema;  duvidoso. Mas para cidades
pequenas no creio que haja nada melhor. Tem a doura, sem a monotonia do
vspora. E, deixai-me que vo-lo diga francamente, apelando para os seus deuses,
este povo, que conserva as crenas errneas da raa originria, pensa que so
eles que o ajudam; mas, em verdade,  a Providncia Divina. Ela  que governa a
Terra toda e d luz  escurido dos espritos. Est em Isaas: Ouvi, ilhas, e
atendei, povos de longe. Est nos Salmos: Do Senhor  a redondeza da
Terra e todos os seus habitadores, porque ele a fundou sobre os mares e sobre os
rios.

Haveria muito que dizer se pudesse
contar outros costumes deste povo, fundamentalmente bom e ingnuo; mas paro
aqui. Conto estar de volta no Rio de Janeiro em fins de maio ou princpios de
junho. Peo-vos que auxilieis o meu amigo Rev. Maxwell; ele vai buscar-me alguns
livros e um aparelho fotogrfico. Indagai dele as suas impresses, e ouvireis a
confirmao do que vos digo. Adeus, meu caro senhor; crede-me vosso muito
obediente servo  GOING.

O Rev. Maxwell confirma realmente
tudo o que me diz a carta do Rev. Going. So dois sacerdotes; e, embora
protestantes, no creio que se liguem para rir de um homem de boa-f.  tudo,
porm, to extraordinrio que, para o caso de ser um simples humbug,
resolvi publicar a carta. Os entendidos diro se  possvel a
descoberta.

10 de janeiro
Falemos de doenas, de mortes, de
epidemias. No  alegre, mas nem todas as coisas o so, e algumas h mais
melanclicas que outras. Estamos em pleno estio, estao dos grandes
obiturios, que por ora no sobem da usual craveira; morre-se como em maio e
setembro. A velha hspede  importuna (no  preciso
dizer)         ainda se no levantou da
cama; pode ser at que l fique. Tambm h anos em que, por se levantar tarde,
no come menos, ainda que mais depressa; mas esperemos o melhor.

Apesar de tudo, o conselho
municipal votou, creio eu, a lei do emprstimo de saneamento. No afirmo
que sim nem que no, porque  mui difcil para mim extrair de um longo debate o
que  que realmente se votou ou no votou. Quando os vereadores falavam uns para
os outros, e s eram conhecidos c fora os votos coletivos,
poder-se-iam ter presentes as leis, ento chamadas posturas, e mal chamadas
assim. As galinhas no pem silenciosamente os ovos; cacarejam sempre. Ora, os
vereadores punham calados as suas leis. Tambm no se lhes sabia a opinio,
e podiam pensar diversamente no princpio e no fim de agosto, conquanto
fossem firmes todo o ano; mas podiam. Agora que, por uma
razo justa, os discursos so
apanhados, impressos, postos em volume, tudo se sabe do debate, o que  dele e o
que no . Mas v um homem tomar p no meio de tantas oraes!

Demais, o contribuinte, bem
examinado, no quer saber de oramentos nem de emprstimos. O contribuinte
sou eu, s tu; tu s um homem que gostas de dizer mal, de ler veementes
discursos, mormente se trazem muitos apartes e no tratam da matria em
discusso, esprito fluido, avesso s asperezas de imposto e s realidades da
soma. Dem-nos bons debates, algum escndalo, meia dzia de anedotas, e o
resto vir. Ningum se h de negar a pagar os impostos. Quando forem muitos e
grossos, que tornem a vida cara, faro o ofcio do calor e da trovoada, que 
dar princpio s conversaes de pessoas que no tenham outra coisa que dizer.
Iniciada a palestra, desaparecem.

Creio, porm, que est votado o
emprstimo. Dado que sim, convir proceder j s obras, ou ser melhor
esperar que o mal comece? Tudo est em saber o que  o mal. Aparentemente  s
aquela visita de 1850, que ainda no saiu c de casa, por mais que
recorramos s supersties da terra contra os cacetes; mas bem pode ser que haja
outro: a arteriosclerose. J se morre muito desta doena. H coisa de dez ou
quinze anos ningum conhecia aqui semelhante flagelo, nem de figura, nem
sequer de nome. No conseguira transpor a barra: no pensava sequer nisso.
Um dia, caiu no se sabe donde e pegou um descuidado, que no resistiu e
foi para o obiturio entre uma vtima de tuberculose e outra de tifo;
estava em casa. Da para c, a arteriosclerose tem feito as suas vtimas certas.
Outras doenas podem matar ou aleijar, e tambm podem no fazer nada, no
aparecer sequer; aquela  segura.  sorrateira. Uma pessoa adoece, no
mostra de qu, por mais que se investigue, apalpe, analise; d-se-lhe tudo,
contra vrios males, e a vida diminui, diminui, at que se vai
inteiramente. S ento o terrvel mal pe a orelha de fora, e passa um
defunto para o cemitrio com esta pecha de haver dissimulado a causa da morte,
ltima e mais hedionda das hipocrisias.

O que h pior nessa molstia, no
 decerto o nome. O nome  bonito,  cientfico, no  de pronncia fcil,
e dito de certo modo pode matar por si mesmo. Ora,  sabido que os nomes
valem muito. Casos h em que valem tudo. Na poltica  que se v o valor que
podem ter as palavras, independente do sentido. Agora mesmo veio um telegrama
no sei de que Estado, tratando das ltimas eleies. Conta fatos condenveis,
atos de violncia e de fraude, e, referindo-se ao governo do Estado, chama-lhe
nefasto. Ningum ignora o que  um telegrama, tudo se paga. Todos
sabem que h adjetivos trgicos, prprios da grande correspondncia, das
proclamaes, dos artigos de fundo, imprprios da via telegrfica.
Nefasto parece estar nesse caso.  palavra grossa, enrgica, expressiva,
 um tanto gasta,  possvel, como bandido e perverso; mas sempre serve.
Por mais gasto que esteja, nefasto tem ainda certo vigor; maior uso tem
perverso, e h muito quem o empregue com bom xito. Bandido, que  o mais
surrado dos trs, tem na harmonia das slabas alguma coisa que lhe compensa o
uso; e no  a qualquer que se lana este nome de bandido. Tu no s
bandido; eu no sou bandido.

Pois, meu amigo, o correspondente
no hesitou em mandar nefasto pelo telgrafo. Tal  o efeito de um
adjetivo de certa gravidade. A suposio de que o telgrafo s conta e
resume os fatos, v-se que  gratuita. Tambm as paixes andam por ele, e as
paixes no se exprimem com algarismos e slabas soltas e pecas. Paixes
so paixes. Chamam nefasto ao nefasto, sublime ao sublime, e no olham a
dinheiro para transmitir o termo prprio. Se se h de falar de um governo
adverso sem se lhe chamar nefasto, tambm no se poder dizer de um governo
amigo que  benemrito; no se poder dizer nada. O telgrafo fica sendo um
servio sem explicao, sem necessidade, mero luxo, e, em matria de
administrao, luxo e crime so sinnimos. Tanto no  assim, que esta mesma
semana tivemos outra amostra de telegramas. Li alguns que, depois de
qualificarem certo ato com palavras duras e cortantes, concluam por
cham-lo inqualificvel. Dois ou trs, ao contrrio, comeam por declar-lo
inqualificvel, e acabam dando-lhe as devidas qualificaes  tudo por
eletricidade, que  instantneo. A contradio  s aparente;
inqualificvel aqui  um termo superlativo, cmulo dos cmulos, uma coisa
que encerra todas as outras. Sem esta faculdade de fazer estilo, o
telgrafo no passaria de um edital de praa, quando o que lhe cumpre  ser
catlogo de leilo.

Tudo isto veio a propsito de qu?
Ah! da arteriosclerose. Dizia eu que o pior desta molstia no  o nome. Em
verdade, o pior  que ningum lhe escapa. No conheo pessoa que diga de si
haver estado muito mal de uma arteriosclerose; o enfermo sabe da
enfermidade quando a notcia da morte est no obiturio, e os obiturios
publicam-se com alguma demora.  mal definitivo. Talvez conviesse fazer escapar
alguns atacados, ainda que por poucos meses, um ou dois anos. No  muito, mas a
maior parte da gente, tendo de escolher entre morrer agora ou em 1899, prefere a
segunda data, quando menos com o pretexto de ver acabar o sculo.  uma idia;
um especfico contra a arteriosclerose, no salvando a todos, mas uns cinco
por cento, podia muito bem ser aplicado, sem deixar de enriquecer o inventor,
que afinal tambm h de morrer.

Realmente estou demasiado lgubre.
On ne parle ici que de ma mort, diz um personagem de no sei que comdia.
Sacudamos as asas; fora com a poeira do cemitrio. Venhamos  vida, ao
saneamento. Uma folha estrangeira perguntava h pouco quais eram as duas
condies essenciais da salubridade de uma cidade, e respondia a si mesma
que eram a gua corrente em abundncia e a eliminao rpida dos resduos
da vida. Depois, com um riso escarninho, conclua que tudo estava achado h
vinte sculos pelos romanos. E l vinham os famosos aquedutos... Mas,
entre ns, os aquedutos, com o trem eltrico por cima, do a imagem de
um progresso que os romanos nem podiam sonhar. E quanto aos banhos, no h
de que se orgulhem os antigos. O atual chafariz da Carioca tem lavado muito par
de pernas, muito peito, muita cabea, muito ventre; na menor das hipteses,
muito par de narizes. No tem nome de banho pblico, mas what's in a
name? como diz a divina Julieta.

17 de janeiro

Semana de maravilhas, que pincel
divino e diablico a um tempo no seria necessrio para reduzir-te a
um smbolo? Triste coisa  a rebelio. A loucura  coisa tristssima. Imaginemos
agora a rebelio de loucos que deve ter sido a de anteontem, no hospcio de
Santiago. Horrvel, trs vezes horrvel. Afirma a agncia Havas que os
loucos praticaram desatinos. Este pleonasmo  a mais dura das ironias que
uma agncia, seja ou no Havas, pode cometer contra pobres criaturas sem juzo;
mas se a inteno do telegrama foi zombar dos ajuizados que se metem a rebeldes,
no digo que a ocasio fosse prpria, mas, enfim, a notcia  menos crua. Leram
naturalmente que a fora pblica teve de acudir para abafar o movimento, no
havendo outro recurso em tais casos, ainda que os revoltosos no tratassem de
derribar as instituies polticas. Trocaram-se balas e cabeadas. Vejo
daqui os olhos dos rebeldes, vagos e tontos, e ouo as risadas de mistura com os
urros. Um, mais doido que outro, d em si com as pernas dele, e lana-se
acima de um soldado, que o apara na ponta da baioneta; as tripas disparam
pela barriga fora, tambm loucas, tambm rebeldes...

Em si mesma, a loucura  j uma
rebelio. O juzo  a ordem,  a constituio, a justia e as leis. Se
h nele algum tumulto que perturbe a ordem, alguma imoralidade que desafie a
justia, e se as leis nem sempre recebem aquela obedincia exata que h nos
sonhos de Plato e de Campanela, tudo isso  passageiro, e, se dura,
no dura sempre. A vida no  perfeita, meus irmos. As mais belas sociedades
coxeiam, s vezes, de um p, e no raro de ambos. Mas coxear  uma coisa e
quebrar as pernas  outra. A demncia  a fratura das pernas; ou, continuando a
primeira metfora, malucar  rebelar-se. Que no ser uma revolta de
alienados?

Ao p dessa maravilha, tivemos
outra de espcie contrria: o tratado de arbitramento entre a Inglaterra e os
Estados Unidos. Vrios grandes homens, inclusive Rochefort, disseram
dele coisas magnficas, e a opinio geral  que a guerra acabou, e que este ato
 o maior do sculo. Para um sculo que madrugou com sangue e aprendeu a andar
entre batalhas, este acabar decretando a paz universal e eterna , na,
verdade, uma grande maravilha. Eu, que fui educado na desconfiana dos tratados,
confesso que hesitei um pouco. Certo, dois grandes pases podem entender-se
sobre o modo de dividir os bens do evento, acrescendo que, no presente caso, a
vitria de um ou de outro  sempre a vitria da lngua inglesa, com mais
arcasmos de um lado ou mais americanismos de outro, Macaulay ou Bancroft,
 numa s palavra Shakespeare. Nem se trata de aspirao nova; a nossa
Constituio a inclui entre os seus artigos, mas aparelha a nao para a
guerra. A minha hesitao veio de...

No digo donde veio a minha
hesitao, uma vez que acabou. Sim, a guerra h de extinguir-se; natural 
que comece a faz-lo, e o caminho mais pronto  achar um processo que a
substitua. Mas, por que no direi a causa da minha hesitao? Vinha da
rapidez do ato. Se fosse milagre, bem; eu aprendi com La Palisse que o carter
do milagre  ser sbito. Mas este autor, por seus paradoxos, est to
desacreditado que no vale mais crer nele. E estou que a vitria final da
indstria ser como as da prpria guerra, que tendia a acabar com meia dzia de
batalhas. Oh! a paz do mundo! Bem-aventurados os que a alcanarem, e  natural
que sejam duas naes essencialmente industriais. Sim, venha a paz; a guerra
ser no campo da venda e da compra; eu quererei comprar barato, tu querers
vender caro, eis a um vasto campo de luta, de emboscadas, de fortalezas
mascaradas, de feridos e mortos.

Os exrcitos sero principalmente
os do imposto, e daqui passaria eu a outra maravilha da semana, que  o
imposto municipal, se este no tivesse o inconveniente de ser municipal.
Hoje estou fora da cidade. Concordo que os novos impostos so grossos e
minuciosos, embora com fins declarados e certos, mas o meu esprito hoje 
um vagabundo, que no quer parar em nada, menos ainda no Rio de Janeiro.
Estou pronto a aceitar os exrcitos do fisco, mas como princpio, como regra
universal. As maravilhas ho de ser estranhas, como a daquele professor de
Berlim, que est fabricando diamantes, e que o imperador visitou esta semana,
para ver se o produto artificial vale o natural. Eu no descreio que a natureza
venha a ser deposta e que as maravilhas da arte e da indstria substituam
os seus produtos seculares. Um filsofo quer que a aventurina seja a nica pedra
que  pior natural que artificial; mas, alm de no ser mineralogista,
podia dizer verdades no seu tempo. Ns caminhamos e ainda havemos de fazer
diamantes como fazemos a sesta. Um amigo meu, h quatro anos, mostrando-me
um mao de aes de sua companhia, creio que de S. Lzaro, bradava-me: Isto 
ouro! Na ocasio pareceu-me que era papel, papel excelente, a impresso boa, as
cdulas iguais, to iguais, que davam a impresso de um simples pedao de
madeira. Mas quem impede que ainda venha a ser ouro?

A cativa Brbara  outra maravilha
da semana, se  exato o que nos contou Tefilo Braga, no Jornal do
Comrcio, acerca da nova edio feita das Endechas a Brbara, por
Xavier da Cunha, a expensas do Dr. Carvalho Monteiro. H tudo nessa
reimpresso, h para poetas, h para bibligrafos, h para rapazes. Os poetas
lero o grande poeta, os bibligrafos notaro as tradues infinitas que se
fizeram dos versos de Cames, desde o latim de todos at o guarani dos
brasileiros, os rapazes folgaro com as raparigas da ndia. Estas (salvante o
respeito devido  poesia e  bibliografia) no so das menores maravilhas,
nem das menos fceis, muitas lnguidas, todas cheirosas. Quanto s endechas 
cativa,

Aquela cativa,
Que me tem cativo,

como dizia o poeta, essas trazem a
mesma galantaria das que ele comps para tantas mulheres, umas pelo nome, Fu
Gonalves, Fu dos Anjos, etc., outras por simples indicaes particulares,
notando-se aquelas duas que lhe chamaram diabo, e aquelas trs que diziam
gostar dele, ao mesmo tempo,

No sei se me engana
Helena,
Se Maria, se Joana;

ele conclua que uma delas o
enganava, mas eu tenho para mim que era por causa da rima. A Pretido de Amor
(por alcunha)  que certamente lhe era fiel:

Olhos sossegados,
Pretos e cansados.

Quanto ao trabalho de Xavier da
Cunha e o servio de Carvalho Monteiro, no h mais que louvar e agradecer, em
nome das musas, conquanto no vssemos ainda nem um nem outro; mas a
notcia basta.

24 de janeiro

Anteontem, quando os sinos
comearam a tocar a finados, um amigo disse-me: Um dos dois morreu, o arcebispo
ou a papa. No foi o papa. Aquele velhinho transparente, com perto de noventa
anos s costas, alm do governo do mundo catlico, continua a enterrar os seus
cardeais. Agora mesmo, por telegrama impresso ontem, sabe-se que morreu mais um
cardeal, com o qual sobem a cento e dezoito os que se tm ido da vida, enquanto
Leo XIII fica  espera da hora que ainda lhe no bateu. Outro amigo meu, que j
vira duas vezes o velho pontfice, acaba de escrever-me que o viu ainda uma vez,
em dezembro, na cerimnia da imposio do chapu a alguns novos cardeais.
Descreve a forma da cerimnia, cheio de admirao e de f,  uma f sincera e
singela, flor dos seus jovens anos. Ouvira uma missa ao papa, e, posto
enfraquecido pela idade, este lhe pareceu resistir a ao do tempo.

No sucedeu o mesmo ao digno
arcebispo do Rio de Janeiro. Posto que muito mais moo, foi mais depressa tocado
pela hora da morte. D. Joo era um lutador; as folhas do dia lembram ou nomeiam
os livros e opsculos que escreveu, no contando o trabalho de jornalista, obra
que desaparece todos os dias com o sol, para recomear com o mesmo sol, e no
deixar nada na memria dos homens, a no ser o vago sulco de um nome, que se
apaga (para os melhores) com a segunda gerao. Este homem, nado em Barcelona,
filho de um belga e de uma senhora espanhola,  creio que era espanhola, 
estava longe de crer que acabaria na sede arquiepiscopal de uma grande capital
da Amrica. Tais so os destinos, tais os ventos que levam a vela de cada um, 
ou para a navegao costeira e obscura, ou para a descoberta remota e
gloriosa.

Era um lutador. Eu confesso que a
primeira e mais viva impresso episcopal que tenho no  de homem de combate,
talvez porque a hora no era de combate. A impresso que me ficou mais funda foi
a daquele D. Manuel do Monte Rodrigues, Conde de Iraj. A boca cheia de riso,
como Frei Lus de Sousa refere de So Bartolomeu dos Mrtires, os olhos
pequenos, com a pouca luz restante, coados pelos vidros grossos dos culos de
ouro, a beno pronta, a mo j trmula, o corpo j curvado, descia da sege
episcopal, todo vestido de paz e sossego. Uma figura daquelas, na imaginao da
criana, facilmente se liga  idia da imortalidade. Um dia, porm, D. Manuel
morreu. A terra, credor que no perdoa, e apenas reformar algumas letras, veio
pedir-lhe a restituio do emprstimo. D. Manuel entregou-lho, aumentado dos
juros de uma vida de virtudes e trabalhos.

Veio o moo D. Pedro, e com pouco
soou a hora de combate, que foi longa e ruidosa. A parte dele no foi grande na
luta; pelo menos, no teve igual eco aos outros. Nem por isso a imagem do
primeiro bispo me ficou apagada pela do segundo, apesar do auxlio do tempo em
favor de D. Pedro.

No era a mansido que conservava
o relevo daquele. Nenhum lutador mais impetuoso, mais tenaz e mais capaz que D.
Vital, bispo de Olinda, e a impresso que este me deixou foi extraordinria.
Vi-o uma s vez, a porta do tribunal, no dia em que ele e o bispo do Par
tiveram de responder no processo de desobedincia.

A figura do frade, com aquela
barba cerrada e negra, os olhos vastos e plcidos, cara cheia, moa e bela,
desceu da sege, no como o velho D. Manuel, mas com um grande ar de desdm e
superioridade, alguma coisa que o faria contar como nada tudo o que se ia passar
perante os homens. Sabe-se que morreu na Europa, creio que na Itlia. H quem
acredite que voluntariamente no tornaria a cadeira de Pernambuco. Ao seu
companheiro de ento, o bispo do Par, tive ocasio de v-lo ainda, numa sala,
familiar e grave, atraente e circunspeto, mas j sem aquele clangor das
trombetas de guerra; a campanha acabara, a tolerncia recuperara os seus
direitos.

Tambm a luta para o arcebispo D.
Joo no era a mesma; no havia a crise dos primeiros tempos em que se
distinguiu. Era a luta de todos os dias, que a imprensa catlica naturalmente
mantm contra princpios e institutos que lhe so adversos, sem por isso
concitar os fiis  desobedincia e  destruio. Leo XIII  o modelo dessa
defesa do dogma sem a agitao da guerra, tolerando o que uns chamam calamidade
dos tempos, outros conquistas do esprito civil, mas que, sendo fatos
estabelecidos, no h modo visvel de os desterrar deste mundo. Quem esperar
que a Igreja reconhea nenhum outro matrimnio, alm do catlico? Mas quem
querer que recuse a beno aos que se casam civilmente? No  s o imposto que
se d a Csar, ou no  s o imposto em dinheiro;  tambm a obedincia as suas
leis. A Igreja protestar, mas viver.

Este ponto prende com outro bispo,
o do Rio Grande, que pregou agora em uma igreja de Santa Maria da Boca do Monte
contra o casamento civil e contra os que se no confessam. Diz uma carta aqui
publicada que foi to violento em sua linguagem que o povo que enchia a igreja
veio esper-lo a porta e fez-lhe uma demonstrao de desagrado. O correspondente
chama-lhe  charivari medonho. Eu posso no entender bem nem mal a violncia
do bispo; mas o que ainda menos entendo  a dos fiis. Que foram ento os fiis
fazer ao templo onde pregava o bispo? Foram l, porque so fiis, porque esto
na mesma comunho de sentimentos religiosos. Se a tolerncia lhes parecia
conveniente, e a brandura necessria, era caso de discordar do bispo e at
lastim-lo, mas pate-lo? Que fariam ento os mais terrveis inimigos do
Credo? Por que a pateada, o charivari medonho  a ultima ratio do
desagrado. Alguns, considerando o basto, pensaro que aquela  s penltima.
Mas nem uma nem outra razo  prpria de catlicos. Salvo se os fiis que ouviam
o bispo eram meros passeantes que entraram na igreja como em um parque aberto,
para descansar a vista e os ps. Pode deduzir-se isto em desespero de causa;
mas, francamente, no sei que pense. Folguemos em crer que o arcebispo agora
morto no daria azo a tal exploso, no s por si, mas ainda pelo respeito em
que o tinham.

31 de janeiro

Os direitos da imaginao e da
poesia ho de sempre achar inimiga uma sociedade industrial e burguesa. Em
nome deles protesto contra a perseguio que se est fazendo  gente de Antnio
Conselheiro. Este homem fundou uma seita a que se no sabe o nome nem a
doutrina. J este mistrio  poesia. Contam-se muitas anedotas, diz-se
que o chefe manda matar gente, e ainda agora fez assassinar famlias
numerosas porque o no queriam acompanhar.  uma repetio do cr
ou morre; mas a vocao de Maom era conhecida. De Antnio Conselheiro
ignoramos se teve alguma entrevista com o anjo Gabriel, se escreveu algum livro,
nem sequer se sabe escrever. No se lhe conhecem discursos. Diz-se que tem
consigo milhares de fanticos. Tambm eu o disse aqui, h dois ou trs anos,
quando eles no passavam de mil ou mil e tantos. Se na ltima batalha 
certo haverem morrido novecentos deles e o resto no se despega de tal
apstolo,  que algum vnculo moral e fortssimo os prende at a
morte. Que vnculo  esse?

No tempo em que falei aqui destes
fanticos, existia no mesmo serto da Bahia o bando dos clavinoteiros. O
nome de clavinoteiros d antes idia de salteadores que de religiosos; mas
se no Coro est escrito que o alfanje  a chave do cu e do inferno, bem
pode ser que o clavinote seja a gazua, e para entrar no cu tanto importar
uma como outra; a questo  entrar. No obstante, tenho para mim que esse bando
desapareceu de todo; parte estar dando origem a desfalques em cofres
pblicos ou particulares, parte  volta das urnas eleitorais. O certo  que
ningum mais falou dele. De Antnio Conselheiro e seus fanticos nunca se fez
silncio absoluto. Poucos acreditavam, muitos riam, quase todos passavam
adiante, porque os jornais so numerosos e a viagem dos bonds  curta;
casos h, como os de Santa Teresa, em que  curtssima. Mas, em suma,
falava-se deles. Eram matria de crnicas sem motivo.

Entre as anedotas que se contam de
Antnio Conselheiro, figura a de se dar ele por uma encarnao de Cristo, acudir
ao nome de Bom Jesus e haver eleito doze confidentes principais, nmero igual ao
dos apstolos. O correspondente da Gazeta de Notcias mandou ontem
notcias telegrficas, cheias de interesse, que toda gente leu, e por isso no
as ponho aqui; mas, em primeiro lugar, escreve da capital da Bahia, e, depois,
no se funda em testemunhas de vista, mas de oitiva; deu-se honesta pressa
em mandar as novas para c, to minuciosas e graves, que chamaram naturalmente a
ateno pblica. Outras folhas tambm as deram; mas sero todas verdadeiras? Eis
a questo. O nmero dos sequazes do Conselheiro sobe j a dez mil, no contando
os lavradores e comerciantes que o ajudam com gneros e
dinheiros.

Dado que tudo seja exato, no
basta para conhecer uma doutrina. Diz-se que  um mstico, mas  to fcil
sup-lo que no adianta nada diz-lo. Nenhum jornal mandou ningum aos Canudos.
Um reprter paciente e sagaz, meio fotgrafo ou desenhista, para trazer as
feies do Conselheiro e dos principais sub-chefes, podia ia ao centro da
seita nova e colher a verdade inteira sobre ela. Seria uma proeza
americana. Seria uma empresa quase igual  remoo do Bendeg, que devemos ao
esforo e direo de um patrcio tenaz. Uma comisso no poderia ir; as
comisses geralmente divergem logo na data da primeira conferncia, e 
duvidoso que esta desembarcasse na Bahia sem trs opinies (pelo menos) acerca
do Joazeiro.

No se sabendo a verdadeira
doutrina da seita, resta-nos a imaginao para descobri-la e a poesia para
flore-la. Estas tm direitos anteriores a toda organizao civil e poltica. A
imaginao de Eva f-la escutar sem nojo um animal to imundo como a cobra, e a
poesia de Ado  que o levou a amar aquela tonta que lhe fez perder o
paraso terrestre.

Que vnculo  esse, repito, que
prende to fortemente os fanticos ao Conselheiro? Imaginao, cavalo de
asas, sacode as crinas e dispara por a fora; o espao  infinito. Tu, poesia,
trepa-lhe aos flancos, que o espao, alm de infinito,  azul. Ide, voai, em
busca da estrela de ouro que se esconde alm, e mostrai-nos em que  que
consiste a doutrina deste homem. No vos fieis no telegrama da Gazeta,
que diz estarem com ele quatro classes de fanticos, e s uma delas
sincera. Primeiro que tudo, quase no h grupo a que se no agregue
certo nmero de homens interessados e empulhadores; e, se vos contentais com uma
velha chapa, a perfeio no  deste mundo. Depois, se h crentes verdadeiros, 
que acreditam em alguma coisa. Essa coisa  que  o mistrio. To atrativa  ela
que um homem, no suspeito de conselheirista, foi com a senhora visitar o
apstolo, deixando-lhe de esmola quinhentos mil ris, e ela quatrocentos
mil. Esta notcia  sintomtica. Se um pai de famlia, capitalista ou
fazendeiro, pega em si e na esposa e vai dar pelas prprias mos algum
auxlio pecunirio ao Conselheiro, que j possui uns cem contos de ris,  que a
palavra deste passa alm das fileiras de combate.

No trato, porm, de
conselheiristas ou no conselheiristas; trato do conselheirismo, e
por causa dele  que protesto e torno a protestar contra a perseguio que se
est fazendo  seita. Vamos perder um assunto vago, remoto, fecundo e
pavoroso. Aquele homem, que refora as trincheiras envenenando os
rios,  um Maom forrado de um Brgia. Vede que acaba de despir o burel e o
basto pelas armas; a imagem do basto e do burel d-lhe um carter
hiertico. Enfim, deve exercer uma fascinao grande para incutir a sua
doutrina em uns e a esperana da riqueza em outros. Chego a imaginar que o
elegem para a cmara dos deputados, e que ele a chega, como aquele francs
muulmano, que ora figura na cmara de Paris, com turbante e burnu. Estou
a ver entrar o Conselheiro, deixando o basto onde outros deixam o guarda-chuva
e sentando o burel onde outros pousam as calas. Estou a v-lo erguer-se e
propor indenizao para os seus dez mil homens dos Canudos...

A perseguio faz-nos perder isto;
acabar por derribar o apstolo, destruir a seita e matar os fanticos. A paz
tornar ao serto, e com ela a monotonia. A monotonia vir tambm  nossa
alma. Que nos ficar depois da vitria da lei? A nossa memria, flor de quarenta
e oito horas, no ter para regalo a gua fresca da poesia e da imaginao,
pois seria profan-las com desastres eltricos de Santa Teresa, roubos,
contrabandos e outras anedotas sucedidas nas quintas-feiras para se
esquecerem nos sbados.

7
de fevereiro

A semana  de mulheres. No falo
daquelas finas damas elegantes que danaram em Petrpolis por amor de uma obra
de caridade. Para falar delas no faltaro nunca penas excelentes. Quisera dizer
penas de alguma ave graciosa, a fim de emparelhar com a de  guia que vai servir
para assinar o tratado de arbitramento entre os Estados Unidos e a Inglaterra.
Mas se o nome de pena ficou ao pedacinho de metal que ora usamos, direi as damas
de Petrpolis que tambm haver um corao para adornar as que escreverem delas,
como houve um para enfeitar a pena de guia diplomtica. Diferem os dois
coraes em ser este de ouro, cravejado de brilhantes. E so ingleses! e so
anglo-americanos! E dizem-se homens prticos e duros! Em meio de tanta dureza e
tanta prtica, l acharam uma nesga azul de poesia, um raio de simbolismo e uma
expresso de sentimento que se confunde com a dos namorados.

Ns, que no somos prticos e
temos uma nota de meiguice no corao, to alegres que enchemos as ruas de
confetes cinco ou seis semanas antes do carnaval, ns no proporamos aquele
corao de ouro com brilhantes para assinar o tratado. No  porque as nossas
finanas esto antes para o simples ao de Birmingham, mas por no cair em
ternura pblica, neste fim de sculo, e um pouco por medo da troca. Ns temos da
seriedade uma idia que se confunde com a de sequido. Ministro que em tal
pensasse cuidaria ouvir, alta noite, por baixo das janelas, ao som do violo,
aqueles clebres versos de Laurindo:

Corao, por que palpitas?
Corao, por que te agitas?

Os ingleses e os anglo-americanos,
esses so capazes de achar uma nota de poesia nas mulheres de soldados que se
foram despedir de seus amigos do 7 batalho, quando este embarcou para a Bahia,
quarta-feira. Foram despedir-se  praia, como as esposas dos Lusadas e
at as fizeram lembrar aos que no esqueceram este e os demais versos: Qual em
cabelo:  doce e amado esposo! As diferenas so grandes; umas eram consortes
dos bares assinalados que saram a romper o mar que gerao alguma no abriu,
estas c so tristes scias dos soldados, e no podiam ir com eles, como de
costume. Queriam acompanh-los at a Bahia, at o serto, at os Canudos, onde o
Major Febrnio no entrou, por motivos constantes de um documento pblico. Dizem
que choravam muitas; dizem que outras declaravam que iriam em breve juntar-se a
eles, tendo vivido com eles e querendo morrer com eles. Delas no poucas os
vieram acompanhando de Santa Catarina e nada conheciam da cidade, mas bradavam
com a mesma alma que buscariam meios de chegar at onde chegasse a
expedio.

Talvez tudo isso vos parea reles
e chato. Deus meu, no so as lstimas de Dido, nem a meia dzia de linhas da
notcia podem pedir meas aos versos do poeta. Os soldados do 7 batalho no
so Enias; vo  cata de um iluminado e seus fanticos, empresa menos para
glria que para trabalhos duros. Assim ; mas  tambm certo, pelo que dizem as
gazetas, que as tais mulheres padeciam deveras. Ora, a dor, por mais rasteira
que doa, no perde o seu ofcio de doer. Essas amigas de quartel no elevam o
esprito, mas pode ser que contriste ouvi-las, como entristece ver as feridas
dos mendigos que andam na rua ou residem nas caladas, corredores e
portas.

Entre parntesis, no excluo do
nmero dos mendigos aqueles mesmos que tm carro, porquanto as suas despesas so
relativamente grandes. H dias, algum que l os jornais de fio a pavio deu com
um anncio de um homem que se oferecia para puxar carro de mendigo; donde
conclua esta senhora ( uma senhora) que h homens mais mendigos que os
prprios mendigos. Chegou ao ponto de crer que a carreira do mendigo  prspera,
uma vez que a dos seus criados  atrativa. No vou to longe; eu creio que antes
ser diretor de banco,  ainda de banco que no pague dividendos. Tem outro
asseio, outra compostura, outra respeitabilidade, e durante o exerccio governa
o mercado, ou faz que governa, que  a mesma coisa.

Pobres amigas de quartel! No
direi, para fazer poesia, que fostes misturar as vossas lgrimas amargas com o
mar, que  tambm amargo; faria apenas um trocadilho, sem grande sentido, pois
no  o sal que di. Tambm no quero notar que a aflio  a rasoura da gala e
do molambo. No; eu sou mais humano; eu peo para vs uma esperana,  a
esperana mxima, que  o esquecimento. Se no houverdes dinheiro para embarcar,
pedi ao menos o esquecimento, e este caluniado amigo dos homens pode ser que
venha sentar-se  beira das velhas tbuas que vos servem de leito. Se ele vier,
no o mandeis embora; h casos em que ele no  preciso, e entretanto fica e faz
prosperar um sentimento novo. No nosso pode ser necessrio. Enquanto o scio
perde uma perna cumprindo o seu dever, a scia deslembrada perde a saudade, que
di mais que ferro no corpo, e tudo se acomoda.

Lgrimas parecem-se com fretros.
Quando algum destes passa, rico ou pobre, acompanhado ou sozinho, todos tiram o
chapu sem interromper a conversao, que tanto pode ser da expedio dos
Canudos como do naufrgio da Laje. Por isso, descobre-te ao ver passar aquelas
outras lgrimas humildes e desesperadas que verteram as esposas e filhos dos
operrios que naufragaram na fortaleza. Tambm estas correram  praia, umas
pelos pais, outras pelos maridos, todas por defuntos, dos quais s alguns
apareceram; a maior parte, se no ficou ali no seio das guas, foi levada por
estas, barra fora,  descoberta de um mundo mais que velho.

Era uso dos operrios irem s
manhs e tornarem s tardes; mas o mar tem surpresas, e as suas guas no amam
s as vtimas ilustres. Tambm lhes servem as obscuras, sem que alis precisem
de umas nem de outras; mas  por amor dos homens que elas os matam. Assim ficam
eles avisados a se no arriscarem mais sem grandes cautelas.

Em caso de desespero, no
trabalhem. O trabalho  honesto, mas h outras ocupaes pouco menos honestas e
muito mais lucrativas.

14 de fevereiro

Conheci ontem o que  celebridade.
Estava comprando gazetas a um homem que as vende na calada da Rua de So Jos,
esquina do Largo da Carioca, quando vi chegar uma mulher simples e dizer ao
vendedor com voz descansada:

 Me d uma folha que traz o
retrato desse homem que briga l fora.

 Quem?

 Me esqueceu o nome
dele.

Leitor obtuso, se no percebeste
que esse homem que briga l fora  nada menos que o nosso Antnio Conselheiro,
cr-me que s ainda mais obtuso do que pareces. A mulher provavelmente no sabe
ler, ouviu falar da seita dos Canudos, com muito pormenor misterioso, muita
aurola, muita lenda, disseram-lhe que algum jornal dera o retrato do Messias do
serto, e foi compr-lo, ignorando que nas ruas s se vendem as folhas do dia.
No sabe o nome do Messias;  esse homem que briga l fora. A celebridade,
caro e tapado leitor,  isto mesmo. O nome de Antnio Conselheiro acabar por
entrar na memria desta mulher annima, e no sair mais. Ela levava uma
pequena, naturalmente filha; um dia contar a histria  filha, depois 
neta,  porta da estalagem, ou no quarto em que residirem.

Esta  a celebridade. Outra prova
 o eco de Nova Iorque e de Londres onde o nome de Antnio Conselheiro fez
baixar os nossos fundos. O efeito  triste, mas v se tu, leitor sem fanatismo,
v se s capaz de fazer baixar o menor dos nossos ttulos. Habitante da cidade,
podes ser conhecido de toda a Rua do Ouvidor e seus arrabaldes, cansar os
chapus, as mos, as bocas dos outros em saudaes e elogios; com tudo isso, com
o teu nome nas folhas ou nas esquinas de uma rua, no chegars ao poder daquele
homenzinho, que passeia pelo serto uma vila, uma pequena cidade, a que s falta
uma folha, um teatro, um clube, uma polcia e sete ou oito roletas, para entrar
nos almanaques.

Um dia, anos depois de extinta a
seita e a gente dos Canudos, Coelho Neto, contador de coisas do serto, talvez
nos de algum quadro daquela vida, fazendo-se cronista imaginoso e magnfico
deste episdio que no tem nada fim-de-sculo. Se leste o Serto,
primeiro livro da Coleo Alva, que ele nos deu agora, concordars comigo.
Coelho Neto ama o serto, como j amou o Oriente, e tem na palheta as cores
prprias  de cada paisagem. Possui o senso da vida exterior. D-nos a floresta,
com os seus rumores e silncios, com os seus bichos e rios, e pinta-nos um
caboclo que, por menos que os olhos estejam acostumados a ele, reconhecero que
 um caboclo.

Este livro do Serto tem as
exuberncias do estilo do autor, a minuciosidade das formas, das coisas e dos
momentos, o numeroso rol das caractersticas de uma cena ou de um quadro. No se
contenta com duas pinceladas breves e fortes; o colorido  longo, vigoroso e
paciente, recamado de frases como aquela do cu quente donde caa uma paz
cansada, e de imagens como esta: A vida banzeira, apenas alegrada pelo som da
voz de Felicinha, de um timbre fresco e sonoro de mocidade, derivava como um rio
lodoso e pesado de guas grossas,  beira do qual cantava uma ave jucunda. A
natureza est presente a tudo nestas pginas. Quando Cabina morre (Cega, 280)
e esto a fazer-lhe o caixo,  noite, so as guas,  o farfalhar das ramas
fora que vem consolar os tristes de casa pela perda daquele esposo fecundante
das veigas virgens, patrono humano da florao dos campos, reparador dos
flagelos do sol e das borrascas. Cega  uma das mais aprimoradas novelas do
livro. Praga ter algures demasiado arrojo, mas compensa o que houver nela
excessivo pela vibrao extraordinria dos quadros.

Estes no so alegres nem
graciosos, mas a gente ora ali pela natureza da praga, que  o clera. Agora,
se quereis a morte jovial, tendes Firmo, o vaqueiro, um octogenrio que
no deixa cair um verso no cho, e morre cantando e ouvindo cantar ao som da
viola. Os Velhos foram dados aqui. Tapera saiu na Revista
Brasileira.

Os costumes so rudes e simples,
agora amorosos, agora trgicos, as falas adequadas s pessoas, e as idias no
sobem da cerebrao natural do matuto. Histrias sertanejas do acaso no sei
que gosto de ir descansar, alguns dias, da polidez encantadora e alguma vez
enganadora das cidades. Varela sabia o ritmo particular desse sentimento;
Gonalves Dias, com andar por essas Europas fora, tambm o conhecia; e, para s
falar de um prosador e de um vivo, Taunay d vontade de acompanhar o Dr. Cirino
e Pereira por aquela longa estrada que vai de SantAna de Paranaba a Camapuama,
at o leito da graciosa Nocncia. Se achardes no Serto muito serto,
lembrai-vos que ele  infinito, e a vida ali no tem esta variedade que no nos
faz ver que as casas so as mesmas, e os homens no so outros. Os que parecem
outros um dia  que estavam escondidos em si mesmos.

Ora bem, quando acabar esta seita
dos Canudos, talvez haja nela um livro sobre o fanatismo sertanejo e a figura do
Messias. Outro Coelho Neto, se tiver igual talento, pode dar-nos daqui a um
sculo um captulo interessante, estudando o fervor dos brbaros e a preguia
dos civilizados, que os deixaram crescer tanto, quando era mais fcil t-los
dissolvido com uma patrulha, desde que o simples frade no fez nada. Quem sabe?
Talvez ento algum devoto, relquia dos Canudos, celebre o centenrio desta
finada seita.

Para isso, basta celebrar o
centenrio da cabeleira do apstolo, como agora, pelo que diz o Jornal do
Comrcio, comemoraram em Londres o centenrio da inveno do chapu alto.
Chapus e cabelos so amigos velhos. Foi a 15 de janeiro ltimo. No conhecendo
a histria deste complemento masculino, nada posso dizer das circunstncias em
que ele apareceu no dia 15 de janeiro de 1797. Ou foi exposto  venda naquela
data, ou apontou na rua, ou algum membro do parlamento entrou com ele no recinto
dos debates,  maneira britnica. Fosse como fosse, os ingleses celebraram esse
dia histrico da chapelaria humana. Sabeis o que Macaulay disse da morte de um
rei e da morte de um rato. Aplicando o conceito ao presente caso, direi que a
concepo de um chapeleiro no ventre de sua me , em absoluto, mais
interessante que a fabricao de um chapu; mas, hiptese haver em que a
fabricao de um chapu seja mais interessante que a concepo do chapeleiro.
Este no passar do chapu comum e trabalhar para uma gerao apenas; aquele
ser novo e ficar para muitas geraes.

Com efeito, l vai um sculo, e
ainda no acabou o chapu alto. O chapu baixo e o chapu mole fazem-lhe
concorrncia por todos os feitios, e, s vezes parecem venc-lo. Um fazendeiro,
vindo h muitos anos a esta capital, na semana em que certa chapelaria da Rua de
So Jos abriu ao pblico as suas seis ou sete portas, ficou pasmado de v-las
todas, de alto a baixo, cobertas de chapus compridos. Tempo depois, voltando e
indo ver a casa, achou-lhe as mesmas seis ou sete portas cobertas de chapus
curtos. Cuidou que a vitria destes era decidida, mas sabeis que se enganou. O
chapu alto durar ainda e durar por muitas dzias de anos. Quando ningum j o
trouxer de passeio ou de visita, servir nas cerimnias pblicas. Eu ainda
alcancei o porteiro do Senado, nos dias de abertura e de encerramento da
assemblia geral, vestindo calo, meia e capa de seda preta, sapato raso com
fivela, e espadim  cinta. Por fim acabou o vesturio do porteiro. O mesmo
suceder ao chapu alto; mas por enquanto h quem celebre o seu primeiro sculo
de existncia. Tem-se dito muito mal deste chapu. Chamam-lhe cartola,
chamin, e no tarda canudo, para rebaix-lo at a cabeleira hirsuta
de Antnio Conselheiro. No Carnaval, muita gente o no tolera, e os mais audazes
saem  rua de chapu baixo, no tanto para poupar o alto, como para resguardar a
cabea, sem a qual no h chapu alto nem baixo.

21 de fevereiro

Estou com inveja aos argentinos.
Agora que os gregos surgem de toda parte para correr a Atenas, receber armamento
e passar  Ilha de Creta, Buenos Aires d 200 desses patriotas que a vo lutar
contra os otomanos. Ns, que devamos dar 500, no damos nenhum. Certamente no
os temos, ou to raros so eles que melhor  irem pela calada. Conheci outrora
um grego. Petrococchino, homem da praa, e conheci tambm a Aime, uma francesa,
que em nossa lngua se traduzia por amada, tanto nos dicionrios como nos
coraes. Era uma criaturinha do finado Alcazar, que nenhuma Turquia defendeu da
Hlade. Ao contrrio, os turcos fugiram e a bandeira helnica se desfraldou na
Creta da Rua Uruguaiana... E da  possvel que nem mesmo este Petrococchino
fosse grego.

Notrio, como ele era, no os
temos agora. Na lista da polcia, aparecem s vezes nomes de gregos, como de
turcos, mas a gente que cultiva a planta noturna pode adorar a cruz e o
crescente, no se bate por ele nem por ela. Eu quisera, entretanto, ver partir
daqui, Rua do Ouvidor abaixo, uma falange bradando para ser entendida da terra
os versos de Hugo: En Grce! En Grce!  Lembras-te, no? Se s do
meu tempo no esqueceste que tu e eu, quando expeitorvamos os primeiros versos
que os rapazes trazem consigo, as Orientais contavam j trinta anos e
mais. Mas era por elas que ainda aprendamos poesia. Trazamos de cor as pginas
contemporneas da revoluo helnica, e do bravo Canaris, queimador de navios, e
da batalha de Navarino, e da marcha turca, e de toda aquela ressurreio de um
pas meio antigo, meio cristo. En Grce! cantava o poeta, pedindo que
lhe selassem o cavalo e lhe dessem a espada, que queria partir j, j, contra os
turcos; mas a lira mudava subitamente de tom, e o poeta perguntava a si mesmo
quem era ele. Confessava ento no ser mais que uma folha que o vento leva, nem
amar outra coisa mais que as estrelas e a lua. To pouca coisa no era nos
demais versos em que cantava os heris gregos, mas Hugo lembrava-se de
Byron...

Com efeito, Byron, armando-se para
ir ao encontro do muulmano, se teve o melanclico desfecho de 1824, nem por
isso perdeu o brilhante arranco de 1823; era preciso fazer coisa idntica ou
anloga. No se podia convidar a bater os turcos sem ir pelo mesmo caminho. Um
poeta lrico tinha de ser efetivamente pico. E vede bem este grande homem, que
ainda ontem Olavo Bilac evocava aqui, naquela prosa sugestiva que lhe conheces,
vede bem que no estava aborrecido nem cansado: acabava de escrever os ltimos
cantos de Don Juan, e no sorvera ainda os ltimos beijos da Guiccioli.
Para levar alguma parte desta para a Grcia, levou-lhe o irmo, cunhado in
partibus infidelium, e meteu-se em navio que fretou, com um mdico e
remdios para mil homens durante um ano. Na Grcia organizou e equipou umas
centenas de soldados e ps-se a testa deles. Nem todos poderiam fazer as coisas
por este estilo grandioso. Era, ao mesmo tempo que um ato herico, uma aventura
potica, um apndice do Child Harold. A febre no quis que ele perecesse
na ponta de uma adaga otomana. Missolonghi avisou assim aos demais poetas que
no sassem a campo, em defesa da velha Grcia remoada, no por medo de morrer
ali ou alhures, mas porque o exemplo de Byron devia ficar com Byron. O epitfio
do poeta tinha de ser nico.

Ao concerto universal daquele
tempo no faltaram liras nem poetas. Cada lngua teve o seu Pndaro. Lembra-te
de Lamartine; lembra-te de Jos Bonifcio, cuja clebre ode clamava aos gregos,
com entusiasmo: Sois helenos! sois homens! Compara ontem com hoje. Talvez
o ardor do Romantismo ajudou a incendiar as almas. Os olhos estavam ainda mal
acordados daquele vasto pesadelo imperial, que fora tambm um grande sonho,
campanhas de conquista e de opresso, campanhas de liberdade, tudo feito,
desfeito e refeito; a reconstituio da Grcia pedia uma cruzada particular.
Cimdoce pergunta a Eudoro: H tambm uma Vnus crist? Esta Vnus era agora a
prpria Grcia convertida, como a herona de Chateaubriand, e conquistada ao
turco depois de muito sangue.

Que os helenos so homens  o que
ests vendo agora, quando toda a faculdade de medicina internacional cuida de
alongar os dias do enfermo, com os seus xaropes de notas e plulas de
esquadras sem fogo. Os nfimos gregos no se arreceiam e, cansados de ouvir
gemer Creta, l se foram a arranc-la dos braos otomanos. A diplomacia  uma
bela arte, uma nobre e grande arte; o nico defeito que h nas suas admirveis
teias de aranha  que uma bala fura tudo, e a vontade de um povo, se algum santo
entusiasmo lhe aquece as veias, pode esfrangalhar as mais finas obras da astcia
humana. Se a Grcia acabar vencendo, as grandes potncias no tero sido mais
que jogadores de voltarete a tentos.

Que outra coisa tm sido elas, a
propsito das reformas turcas? As reformas vm, no vm, redigem-se, emendam-se,
copiam-se, propem-se, aceitam-se, vo cumprir-se e no se cumprem. Vereis que
ainda caem como as reformas cubanas, que, depois de tanto sangue derramado,
vieram plidas e mofinas. Ningum as quer, e o ferro e o fogo continuam a velha
obra. Assim se vai fazendo a histria, com aparncia igual ou vria, mediante a
ao de leis, que ns pensamos emendar, quando temos a fortuna de v-las. Muita
vez no as vemos, e ento imitamos Penlope e o seu tecido, desfazendo de noite
o que fazemos de dia, enquanto outro tecelo maior, mais alto ou mais fundo e
totalmente invisvel compe os fios de outra maneira, e com tal fora que no
podemos desfazer nada. Sucede que, passados tempos, o tecido esfarrapa-se e ns,
que trabalhvamos em romp-lo, cuidamos que a obra  nossa. Na verdade, a obra 
nossa, mas  porque somos os dedos do tecelo; o desenho e o pensamento so
dele, e presumindo empurrar a carroa, o animal  que a tira do atoleiro, um
animal que somos ns mesmos... Mas a me embrulho eu, e estou quase a perder-me
em filosofias grossas e banais. Oh! banalssimas!

Domingo prximo  possvel que te
explique esta confuso da minha alma. Estou certo que me entenders e
aplaudirs. Alm da confuso da alma, imagina que me di a testa em um s ponto
escasso, no sobrolho direito; a dor, que no precisa de extenso grande para
fazer padecer muito, contenta-se s vezes com o espao necessrio  cabea de um
alfinete. Tambm esta reflexo  banal, mas tem a vantagem de acabar a
crnica.

28 de fevereiro

Domingo prximo  possvel que te
explique esta confuso da minha alma. Estou certo que me entenders e
aplaudirs. Assim conclu eu a Semana passada. Venho cumprir aquela meia
promessa.

 certo que a festa suntuosa de
quarta-feira afrouxou em parte a sensao exposta naquelas palavras. A recepo
do palcio do governo respondeu ao que se esperava do ato, e deixou impresso
forte e profunda. Aquele edifcio que eu vi, h trinta anos, logo depois de
acabado, passou por vrias mos, viveu na obscuridade e na hipoteca, passou
finalmente ao poder do governo, e o ilustre Sr. Vice-presidente da Repblica
acaba de inaugur-lo com raro esplendor. Foi o sucesso principal da semana; mas
a semana j no  minha, como ides ver.

Leitor, Deus gastou seis dias em
fazer este mundo, e repousou no stimo. Ora, Deus podia muito bem no repousar,
mas quis deixar um exemplo aos homens. Da o nosso velho descanso de um dia, que
os cristos chamaram do Senhor. Eu no sou Deus, leitor; no criei este mundo,
tanto que lhe acho algumas imperfeies, como a de nascerem as uvas verdes, para
engano das raposas. Eu as faria nascer maduras e talvez j engarrafadas. Mas
criticar obra feita no custa; Deus no podia prever que os homens no se
limitassem a falsificar eleies e fizessem o mesmo ao vinho.

Vamos ao que importa. Se Deus
descansou um dia, depois de seis dias de trabalho, fora  que eu descanse algum
tempo depois de uma obra de anos. H cerca de cinco anos que vos digo aqui ao
domingo o que me passa pela cabea, a propsito da semana finda, e at sem
nenhum propsito. Parece tempo de repousar o meu tanto. Que o repouso seja breve
ou longo,  o que no sei dizer; vou estirar estes membros cansados e cochilar a
minha sesta.

Antes de cochilar, podia fazer um
exame de conscincia e uma confisso pblica,  maneira de Sarah Bernhardt ou de
Santo Agostinho. Oh! perdoa-me, santo da minha devoo, perdoa esta unio do teu
nome com o da ilustre trgica; mas este sculo acabou por deitar todos os nomes
no mesmo cesto, mistur-los, tir-los sem ordem e cos-los sem escolha.  um
sculo fatigado. As Foras que despendeu, desde princpio, em aplaudir e odiar,
foram enormes. Junta a isso as revolues, as anexaes, as dissolues e as
invenes de toda casta, polticas e filosficas, artsticas e literrias, at
as acrobticas e farmacuticas, e compreenders que  um sculo esfalfado. Vive
unicamente para no desmentir os almanaques. Todos os sculos tm cem anos; este
no quer sair da velha regra, nem ser menos constante que o nosso robusto
Barbacena, seu grande rival. Em lhe batendo a hora, ir com facilidade para onde
foram os sculos de Pricles e de Augusto.

O meu exame de conscincia, se
houvesse de faz-lo, no imitaria Agostinho nem Sarah. Nem tanta humildade, nem
tanta glria. O grande santo dividiu,  verdade, as confisses humanas em duas
ordens, uma que  um louvor, outra que  um gemido, definindo assim as suas e as
da representante de Dona Sol. Faz crer que no h terceira classe, em que a
gente possa louvar-se com moderao e gemer baixinho; mas eu cuido que h de
haver. A imitar uma das duas, acho que a mais difcil seria a de Sarah. No li
ainda as confisses desta senhora, mas pela nota que nos deu dela Ea de
Queirs, com aquela graa viva e cintilante dos seus trs ltimos Bilhetes
Postais, no sei como  que uma criatura possa dizer tanta coisa de si mesma.
Em particular, v. H pessoas que, no receando indiscretos, escancaram os
coraes, e os amigos reconhecem que, por mais que se pense bem de outro,
pensa-se menos bem que ele prprio. Mas, em pblico, em letra de forma, no
Fgaro, que  o Dirio Oficial do universo, custa crer, mas 
verdade.

Antes gemer, com esta clusula de
gemer baixinho, e confessar os pecados, mas com discrio e cautela. Pecados so
aes, intenes ou omisses graves; no se devem contar todas, nem
integralmente, mas s a parte que menos pesa  alma e no faz desmerecer uma
pessoa no conceito dos homens. No especifico, por no perder tempo, e quem se
despede, mal pode dizer o essencial. O essencial aqui  dizer que no fao
confisso alguma, nem do mal, nem do bem. Que mal me saiu da pena ou do corao?
Fui antes pio e eqitativo que rigoroso e injusto. Cheguei  elegia e  lgrima,
e se no bebi todos os Cambars e Jatas deste mundo,  porque espero
encontr-los no outro, onde j nos aguardam os xaropes do Bosque e de outras
partes. L ir ter o grande Kneipp, e anos depois o kneippismo, pela regra de
que primeiro morrem os autores que as invenes. H mais de um exemplo na
filosofia e na farmcia.

No tireis da ltima frase a
concluso de ceticismo. No achareis linha ctica nestas minhas conversaes
dominicais. Se destes com alguma que se possa dizer pessimista, adverte que nada
h mais oposto ao ceticismo. Achar que uma coisa  ruim, no  duvidar dela, mas
afirm-la. O verdadeiro ctico no cr, como o Dr. Pangloss, que os narizes se
fizeram para os culos, nem, como eu, que os culos  que se fizeram para os
narizes; o ctico verdadeiro descr de uns e de outros. Que economia de vidros e
de defluxos, se eu pudesse ter esta opinio!

Adeus, leitor. Fora  deitar aqui
o ponto final. A mim, se no fora a convenincia de ir para a rede, custar-me-ia
muito pingar o dito ponto, pelas saudades que levo de ti. No h nada como falar
a uma pessoa que no interrompe. Diz-se-lhe tudo o que se quer, o que vale e o
que no vale, repetem-se-lhe as coisas e os modos, as frases e as idias,
contradizem-se-lhe as opinies, e a pessoa que l, no interrompe. Pode lanar a
folha para o lado ou acabar dormindo. Quem escreve no v o gesto nem o sono,
segue caminho e acaba. Verdade  que, neste momento, adivinho uma reflexo tua.
Ests a pensar que o melhor modo de sair de uma obrigao destas no difere do
de deixar um baile, que  descer ao vestirio, enfiar o sobretudo e sumir-se no
carro ou na escurido. Isto de empregar tanto discurso faz crer que se presumem
saudades nos outros, alm de ser fora da etiqueta. Tens razo, leitor; e, se
fosse tempo de rasgar esta papelada e escrever diversamente, cr que o faria;
mas  tarde, muito tarde. Demais, a frase final da outra semana precisava de ser
explicada e cumprida; da todos estes suspiros e curvaturas. Falei ento na
confuso da minha alma, e devia dizer em que  que ela consistia e consiste, e
cuja era a causa. A causa est dita;  a natural melancolia da separao. Adeus,
amigo, at a vista. Ou, se queres um jeito de falar mais nosso, at um dia.
Creio que me entendeste, e creio tambm que me aplaudes, como te anunciei na
semana passada. Adeus!

1900

4
de novembro

Entre tais e to tristes casos da
semana, como o terremoto de Venezuela, a queda do Banco Rural e a morte do
sineiro da Glria, o que mais me comoveu foi o do sineiro.

Conheci dois sineiros na minha
infncia, alis trs, -- o Sineiro de So Paulo, drama que se representava
no Teatro So Pedro, -- o sineiro da Notre Dame de Paris, aquele que fazia
um s corpo, ele e o sino, e voavam juntos em plena Idade Mdia, e um terceiro,
que no digo, por ser caso particular. A este, quando tornei a v-lo, era
caduco. Ora, o da Glria, parece ter lanado a barra adiante de todos.

Ouvi muita vez repicarem, ouvi
dobrarem os sinos da Glria, mas estava longe absolutamente de saber quem era o
autor de ambas as falas. Um dia cheguei a crer que andasse nisso eletricidade.
Esta fora misteriosa h de acabar por entrar na igreja e j entrou, creio eu,
em forma de luz. O gs tambm j ali se estabeleceu. A igreja  que vai abrindo
a porta s novidades, desde que a abriu  cantora de sociedade ou de teatro,
para dar aos solos a voz de soprano, quando ns a tnhamos trazida por D. Joo
VI, sem despir-lhe as calas. Conheci uma dessas vozes, pessoa velha, plida e
desbarbada; cantando, parecia moa.

O sineiro da Glria  que no era
moo. Era um escravo, doado em 1853 quela igreja, com a condio de a servir
dois anos. Os dois anos acabaram em 1855, e o escravo ficou livre, mas continuou
o ofcio. Contem bem os anos, quarenta e cinco, quase meio sculo, durante os
quais este homem governou uma torre. A torre era ele, dali regia a parquia e
contemplava o mundo.

Em vo passavam as geraes, ele
no passava. Chamava-se Joo. Noivos casavam, ele repicava as bodas; crianas
nasciam, ele repicava ao batizado; pais e mes morriam, ele dobrava aos
funerais. Acompanhou a histria da cidade. Veio a febre amarela, o
clera-morbo, e Joo dobrando. Os partidos subiam ou caam, Joo dobrava
ou repicava, sem saber deles. Um dia comeou a guerra do Paraguai, e durou cinco
anos; Joo repicava e dobrava, dobrava e repicava pelos mortos e pelas vitrias.
Quando se decretou o ventre livre das escravas, Joo  que repicou. Quando se
fez a abolio completa, quem repicou foi Joo. Um dia proclamou-se a Repblica,
Joo repicou por ela, e repicaria pelo Imprio, se o Imprio
tornasse.

No lhe atribuas inconsistncia de
opinies; era o ofcio. Joo no sabia de mortos nem de vivos; a sua obrigao
de 1853 era servir  Glria, tocando os sinos, e tocar os sinos, para servir 
Glria, alegremente ou tristemente, conforme a ordem. Pode ser at que, na
maioria dos casos, s viesse a saber do acontecimento depois do dobre ou do
repique.

Pois foi esse homem que morreu
esta semana, com oitenta anos de idade. O menos que lhe podiam dar era um dobre
de finados, mas deram-lhe mais; a Irmandade do Sacramento foi busc-lo  casa do
vigrio Molina para a igreja, rezou-se-lhe um responso e levaram-no para o
cemitrio, onde nunca jamais tocar sino de nenhuma espcie; ao menos, que se
oua deste mundo.

Repito, foi o que mais me comoveu
dos trs casos. Porque a queda do Banco Rural, em si mesma, no vale mais que a
de outro qualquer banco. E depois no h bancos eternos. Todo banco nasce
virtualmente quebrado;  o seu destino, mais ano, menos ano. O que nos deu a
iluso do contrrio foi o finado Banco do Brasil, uma espcie de sineiro da
Glria, que repicou por todos os vivos, desde Itabora at Dias de Carvalho, e
sobreviveu ao Lima, ao Lima do Banco. Isto  que fez crer a muitos que o Banco
do Brasil era eterno. Vimos que no foi. O da Repblica j no trazia o mesmo
aspecto; por isso mesmo durou menos.

Ao Rural tambm eu conheci moo;
e, pela cara, parecia sadio e robusto. Posso at contar uma anedota, que ali se
deu h trinta anos e responde ao discurso do Sr. Jlio Otoni. Ningum me contou;
eu mesmo vi com estes olhos que a terra h de comer, eu vi o que ali se passou
h tanto tempo. No digo que fosse novo, mas para mim era novssimo.

Estava eu ali, ao balco do fundo,
conversando. No tratava de dinheiro, como podem supor, posto fosse de letras,
mas no h s letras bancrias; tambm as h literrias, e era destas que eu
tratava. Que o lugar no fosse propcio, creio; mas, aos vinte anos, quem  que
escolhe lugar para dizer bem de Cames?

Era dia de assemblia geral de
acionistas, para se lhes dar conta da gesto do ano ou do semestre, no me
lembra. A assemblia era no sobrado. A pessoa com quem eu falava tinha de
assistir  sesso, mas, no havendo ainda nmero, bastava esperar c embaixo. De
resto, a hora estava a pingar. E ns falvamos de letras e de artes, da ltima
comdia e da pera recente. Ningum entrava de fora, a no ser para trazer ou
levar algum papel, c de baixo. De repente, enquanto eu e o outro conversvamos,
entra um homem lento, aborrecido ou zangado, e sobe as escadas como se fossem as
do patbulo. Era um acionista. Subiu, desapareceu. amos continuar, quando o
porteiro desceu apressadamente.

-- Sr. secretrio! Sr. secretrio!

 J h maioria?

 Agora mesmo. Metade e mais um.
Venha depressa, antes que algum saia, e no possa haver sesso.

O secretrio correu aos papis,
pegou deles, tornou, voou, subiu, chegou, abriu-se a sesso. Tratava-se de
prestar contas aos acionistas sobre o modo por que tinham sido geridos os seus
dinheiros, e era preciso espreit-los, agarr-los, fechar a porta para que no
sassem, e ler-lhes  viva fora o que se havia passado. Imaginei logo que no
eram acionistas de verdade; e, falando nisto a algum,  porta da rua, ouvi-lhe
esta explicao, que nunca me esqueceu:

-- O acionista, disse-me um amigo
que passava,  um substantivo masculino que exprime possuidor de aes e, por
extenso, credor dos dividendos. Quem diz aes diz dividendos. Que a diretoria
administre, v, mas que lhe tome o tempo em prestar-lhe contas,  demais. Preste
dividendos; so as contas vivas. No h banco mau se d dividendos. Aqui onde me
v, sou tambm acionista de vrios bancos, e fao com eles o que fao com o
jri, no vou l, no me amolo.

-- Mas, se os dividendos falharem?

--  outra coisa, ento cuida-se de
saber o que h.

Pessoa de hoje, a quem contei este
caso antigo, afirmou-me que a pessoa que me falou, h trinta anos,  porta do
Rural, no fez mais que afirmar um princpio, e que os princpios so eternos. A
prova  que aquele ainda agora o seria, se no fosse o incidente da corrida dos
cheques h dois meses.

-- Ento, parece-lhe...?

-- Parece-me.

Quanto ao terceiro caso triste da
semana, o terremoto de Venezuela, quando eu penso que podia ter acontecido aqui,
e, se aqui acontecesse,  provvel que eu no tivesse agora a pena na mo,
confesso que lastimo aquelas pobres vtimas. Antes uma revoluo. Venezuela tem
vertido sangue nas revolues, mas sai-se com glria para um ou outro lado, e
algum vence, que  o principal; mas este morrer certo, fugindo-lhes o cho
debaixo dos ps, ou engolindo-os a todos, ah!... Antes uma, antes dez
revolues, com trezentos mil diabos! As revolues servem sempre aos
vencedores, mas um terremoto no serve a ningum. Ningum vai ser presidente de
runas.  s trapalhada, confuso e morte inglria. No, meus amigos. Nem
terremotos nem bancos quebrados. Vivem os sineiros de oitenta anos, e um s,
perptuo e nico badalo!

11 de novembro

Eu gosto de catar o mnimo e o
escondido. Onde ningum mete o nariz, a entra o meu, com a curiosidade estreita
e aguda que descobre o encoberto. Da vem que, enquanto o telgrafo nos dava
notcia to graves como a taxa francesa sobre a falta de filhos e o suicdio do
chefe de polcia paraguaio, coisas que entram pelos olhos, eu apertei os meus
para ver coisas midas, coisas que escapam ao maior nmero, coisas de mopes. A
vantagem dos mopes  enxergar onde as grandes vistas no pegam.

No nego que o imposto sobre a
falta de filhos e o celibato podia dar de si uma pgina luminosa, sem alis
tocar na estatstica. S a parte cvica. S a parte moral. Dava para elogio e
para descompostura. A grandeza da ptria, da indstria e dos exrcitos faria o
elogio. O regmen de opresso inspirava a descompostura, visto que obriga casar
para no pagar a taxa; casado, obriga a fazer filhos, para no pagar a taxa;
feitos os filhos, obriga a cri-los e educ-los, com o que afinal se paga uma
grande taxa. Tudo taxas. Quanto ao suicdio do chefe de polcia, so palavras
to contrrias umas as outras que no h crer nelas. Um chefe de polcia exerce
funes essencialmente vitais e alheias  melancolia e ao desespero. Antes de se
demitir da vida, era natural demitir-se do cargo, e o segundo decreto bastaria
acaso para evitar o primeiro.

Deixei taxas e mortes e fui  casa
de um leiloeiro, que ia vender objetos empenhados e no resgatados. Permitam-me
um trocadilho. Fui ver o martelo bater no prego. No  l muito engraado, mas 
natural, exato e evanglico. Est autorizado por Jesus Cristo: Tu es
Petrus, etc. Mal comparando, o meu ainda  melhor. O da Escritura est um
pouco forado, ao passo que o meu, -- o martelo batendo no prego, --  to natural
que nem se concebe dizer de outro modo. Portanto, edificarei a crnica sobre
aquele prego, no som daquele martelo.

Havia l broches, relgios,
pulseiras, anis, botes, o repertrio do costume. Havia tambm um livro de
missa, elegante e escrupulosamente dito para missa, a fim de evitar
confuso de sentido. Valha-me Deus! at nos leiles persegue-nos a gramtica.
Era de tartaruga, guarnecido de prata. Quer dizer que, alm do valor espiritual,
tinha aquele que propriamente o levou ao prego. Foi uma mulher que recorreu a
esse modo de obter dinheiro. Abriu mo da salvao da alma, para salvar o corpo,
a menos que no tivesse decorado as oraes antes de vender o manual delas.
Pobre desconhecida! Mas tambm (e  aqui que eu vejo o dedo de Deus), mas tambm
quem  que lhe mandou comprar um livro de tartaruga com ornamentaes de prata?
Deus no pede tanto; bastava uma encadernao simples e forte, que durasse, e
feia para no tentar a ningum. Deus veria a beleza dela.

Mas vamos ao que me pe a pena na
mo; deixemos o livro e os artigos do costume. Os leiles desta espcie so de
uma monotonia desesperadora. No saem de cinco ou seis artigos. Raro vir um
binculo. Neste apareceu um, e um despertador tambm, que servia a acordar o
dono para o trabalho. Houve mais uns cinco ou seis chapus-de-sol, sem indicao
do cabo... Deus meu! Quanto teriam recebido os donos por eles, alm de algum
magro tosto? Ramos da misria.  um derivativo e uma compensao. Eu, se fosse
ela, preferia fazer rir a fazer chorar.

O lote inesperado, o lote
escondido, um dos ltimos do catlogo, perto dos chapus-de-sol, que vieram no
fim, foi uma espada. Uma espada, senhores, sem outra indicao; no fala dos
copos, nem se eram de ouro.  que era uma espada pobre. No obstante, quem diabo
a teria ido pendurar do prego? Que se pendurem chapus-de-sol, um despertador,
um binculo, um livro de missa ou para missa, v. O sol mata os
micrbios, a gente acorda sem mquina, no  urgente chamar a vista as pessoas
dos outros camarotes, e afinal o corao tambm  livro de missa. Mas uma
espada!

H dois tempos na vida de uma
espada, o presente e o passado. Em nenhum deles se compreende que ela fosse
parar ao prego. Como iria l ter uma espada que pode ser a cada instante
intimada a comparecer ao servio? No  mister que haja guerra; uma parada, uma
revista, um passeio, um exerccio, uma comisso, a simples apresentao ao
ministro da guerra basta para que a espada se ponha a cinta e se desnude, se for
caso disso. Eventualmente, pode ser til em defender a vida ao dono. Tambm pode
servir para que este se mate, como Bruto.

Quanto ao passado, posto que em
tal hiptese a espada no tenha j prstimos,  certo que tem valor histrico.
Pode ter sido empregada na destruio do despotismo Rosas ou Lpez, ou na
represso da revolta, ou na guerra de Canudos, ou talvez na fundao da
Repblica, em que no houve sangue,  verdade, mas a sua presena ter bastado
para evitar conflitos.

As crnicas antigas contam de
bares e cavaleiros j velhos, alguns cegos, que mandavam vir a espada para
mir-la, ou s apalp-la, quando queriam recordar as aes de glria, e
guard-la outra vez. No ignoro que tais heris tinham castelo e cozinha, e o
triste reformado que levou esta outra espada ao prego pode no ter cozinha nem
teto. Perfeitamente. Mas ainda assim  impossvel que a alma dele no padecesse
ao separar-se da espada.

Antes de a empenhar, devia ir ter
a algum que lhe desse um prato de sopa. Cidado, estou sem comer h dois dias
e tenho de pagar a conta da botica, que no quisera desfazer-me desta espada,
que batalhou pela glria e pela liberdade...  impossvel que acabasse o
discurso. O boticrio perdoaria a conta, e duas ou trs mos se lhe meteriam
pelas algibeiras dentro, com fins honestos. E o triste reformado iria
alegremente pendurar a espada de outro prego, o prego da memria e da
saudade.

Catei, catei, catei, sem dar por
explicao que bastasse. Mas eu j disse que  faculdade minha entrar por
explicaes midas. Vi casualmente uma estatstica de So Paulo, os imigrantes
do ano passado, e achei milhares de pessoas desembarcadas em Santos ou idas
daqui pela Estrada de Ferro Central. A gente italiana era a mais numerosa. Vinha
depois a espanhola, a inglesa, a francesa, a portuguesa, a alem, a prpria
turca, uns quarenta e cinco turcos. Enfim, um grego. Bateu-me o corao, e eu
disse comigo; o grego  que levou a espada ao prego.

E aqui vo as razes da suspeita
ou descoberta. Antes de mais nada, sendo o grego no era nenhum brasileiro, --
ou nacional, como dizem as notcias da polcia. J me ficava essa dor de
menos. Depois, o grego era um, e eu corria menor risco do que supondo algum das
outras colnias, que podiam vir acima de mim, em desforo do patrcio. Em
terceiro lugar, o grego  o mais pobre dos imigrantes. L mesmo na terra 
pauprrimo. Em quarto lugar, talvez fosse tambm poeta, e podia ficar-lhe assim
uma cano pronta, com estribilho:

Eu c sou grego,
Levei a minha espada ao prego.

Finalmente, no lhe custaria
empenhar a espada, que talvez fosse turca. About refere de um general,
Hadji-Petros, governador de Lmia, que se deixou levar dos encantos de uma moa
fcil de Atenas, e foi demitido do cargo. Logo requereu  rainha pedindo a
reintegrao: Digo a Vossa Majestade pela minha honra de soldado que, se eu sou
amante dessa mulher, no  por paixo,  por interesse; ela  rica, eu sou
pobre, e tenho filhos, tenho uma posio na sociedade, etc. V-se que empenhar
a espada  costume grego e velho.

Agora que vou acabar a crnica,
ocorre-me se a espada do leilo no ser acaso alguma espada de teatro,
empenhada pelo contra-regra, a quem a empresa no tivesse pago os ordenados. O
pobre-diabo recorreu a esse meio para almoar um dia. Se tal foi, faam de conta
que no escrevi nada, e vo almoar tambm, que  tempo.
