Crtica, Magalhes de Azeredo: Procelrias, 1898

Magalhes de Azeredo: Procelrias

Texto-Fonte:

Obra Completa de Machado de Assis,

Rio
de Janeiro: Nova Aguilar, vol. III, 1994.

Publicado
na Revista do Brasil, I, XVI, outubro de 1898.

Eis aqui
um livro feito de verdade e poesia, para dar-lhe o ttulo das
memrias de Goethe. No so memrias; a verdade entra aqui pela sinceridade do
homem, e a poesia pelos lavores do artista. Nem se diga que tais so as
condies essenciais de um livro de versos. No contradigo a assero, peo s
que concordem no ser comum nem de todos os dias este balano igual e cabal de
emoo e de arte.

Magalhes
de Azeredo no  um nome recente. H oito para nove anos que trabalha com
afinco e apuro. Prosa e verso, descrio e crtica, idias e sensaes, a
vrias formas e assuntos tem dado o seu esprito. Pouco a pouco veio andando,
at fazer-se um dos mais brilhantes nomes da gerao nova, e ao mesmo tempo um
dos seus mais sisudos caracteres. Quem escreve estas linhas sente-se bastante
livre para julg-lo, por mais ntima e direta que seja a afeio que o liga ao
poeta das Procelrias. Um dos primeiros confidentes dos seus tentmens
literrios, estimou v-lo caminhar sempre, juntamente modesto e ambicioso,
daquela ambio paciente que cogita primeiro da perfeio que do rumor pblico.
J nesta mesma Revista, j em folhas cotidianas, deu composies suas, de vria
espcie, e no h muito publicou em folheto a ode A Portugal, por
ocasio do centenrio das ndias, acompanhada da carta a Ea de Queirs, a primeira
das quais foi impressa na Revista Brasileira.

Este
livro das Procelrias mostra o valor do artista. Desde muito anunciado
entre poucos, s agora aparece, quando o poeta julgou no lhe faltar mais nada,
e vem apresent-lo simplesmente ao pblico. Desde as primeiras pginas, vem-se
bem juntas a poesia e a verdade: so as duas composies votivas,  me e 
esposa. A primeira resume bem a influncia que a me do poeta teve na formao
moral do filho. Este verso:

No me
disseste: Vai! disseste: Eu vou contigo!

conta a
histria daquela valente senhora, que o acompanhou sempre e a toda parte, nos
estudos e nos trabalhos, onde quer que ele estivesse, e agora vive a seu lado,
ouvindo-lhe esta bela confisso:

Tu  tudo
o que bom e nobre em mim existe,

e esta
outra, com que termina a estrofe derradeira da composio, a um tempo bela,
terna e bem expressa:

Duas
vezes teu filho e tua criatura!

Eis por
que me confesso, enternecidamente,

Ao p de
tais versos vm os que o poeta dedicou  noiva: so do mesmo ano de 1895. O
poeta convida a noiva ao amor e  luta da existncia. Nestes, como naqueles,
pede perdo dos erros da vida, fala do presente e do futuro, chega a falar da
velhice, e da consolao que acharo em si de se haverem amado.

Ora, o
livro todo  a justificao daquelas duas pginas votivas. Uma parte  a dos erros,
que no so mais que as primeiras paixes da juventude, ainda assim veladas e
castas, e algumas delas apenas pressentidas. O poeta, como todos os moos,
conta os seus meses por anos. Em 1890 fala-nos de papis velhos, amores e
poesias, e compe com isso um dos melhores sonetos da coleo. J se d por um
daqueles que 'riem s porque chorar no sabem'. Certo  que h raios
de luz e pedaos de cu no meio daquela sombra passageira. A sinceridade de
tudo est na sensibilidade particular da pessoa, a quem o mnimo di e o mnimo
delicia. Uma das composies principais dessa parte do livro  a 'Ode
Triunfal', em que a comoo cresce at esta nota:

 Ah!
como fora doce

Morrer
nesse delrio vago e terno,

Em teu
seio morrer,  morrer num trono;

E ter
teus beijos, como sonho eterno

 Do
meu eterno sonho...

E at
esta outra, com que a ode termina:

Deixa-me
absorto, a ss contigo, a ss!

L fora,
longe, tumultua o mundo,

Em baldas
lutas... Tumultue embora!

 Que
vale o mundo agora?

O mundo
somos ns!

As datas,
 e alguma vez a prpria falta delas,  poderiam dar-nos a histria
moral daquele trecho da vida do poeta. Os seus mais ntimos suspiros antigos
so de criana, como Musset dizia dos seus primeiros versos; assim temos o
citado soneto dos 'Papis Velhos' e outras pginas, e ainda aquela
dos 'Cabelos Brancos', uns que precocemente encaneceram, cabelos de
viva moa, objeto de uma das mais doces elegias do livro. H nele tambm
vrias sombras que passam como a do Livro Sagrado, como a da menina
inglesa (Good Night), que uma tarde lhe deu as boas noites, e com quem o
poeta valsara uma vez. Um dia veio a saber que era morta, e que a ltima
palavra que lhe saiu dos lbios foi o seu nome, e foi tambm a primeira notcia
do estado da alma da moa; a sepultura  que lhe no deu, por mais que a
interrogasse, seno esta melanclica resposta:

E eu leio
sobre a sua humilde lousa:

Graa,
beleza, juventude.... e Nada!

Cito
versos soltos, quisera transcrever uma composio inteira, mas hesito entre
mais de uma, como o 'Carnaval', por exemplo, e tantas outras, ou como
aquele soneto 'Em Desalento', cuja estrofe final to energicamente
resume o estado moral expresso nas primeiras. Podeis julg-lo diretamente:

Ando de
mgoas tais entristecido,

 Por
mais que as minhas rebeldias dome...

Tanta
angstia me abate e me consome,

Que do
meu prprio senso ora duvido.

Tudo por
causa deste amor perdido,

Que a ti
s, para sempre, escravizou-me;

Tudo
porque aprendi teu caro nome,

Porque o
gravei no peito dolorido.

Vs que
eu sou, dizes bem, uma criana,

E j de
tdio envelhecer me sinto,

E a mesma
luz do sol meus olhos cansa;

Pois,
como absorve um lenho o mar faminto,

Um corpo
a tumba, a morte uma esperana,

Tal teu
ser absorveu meu ser extinto.

Belo
soneto, sem dvida, feito de sentimento e de arte. Todo o livro reflete assim
as impresses diferentes do poeta, e os versos trazem, com o alento da
inspirao, o cuidado da forma. Fogem ao banal, sem cair no rebuscado. As
estrofes variam de metro e de rima, e no buscam suprir o cansado pelo
inslito. A educao do artista revela-se bem na escolha e na renovao.
Magalhes de Azeredo d expresso nova ao tema antigo, e no confunde o raro
com o afetado. Alm disso,   suprfluo diz-lo,  ama a poesia com a mesma
ternura e respeito que nos mostra naquelas duas composies votivas do
intrito. Pode ter momentos de desnimo, como no 'Soneto Negro', e
achar que ' triste a decadncia antes da glria', mas o esprito
normal do poeta est no 'Escudo', que andou pela Terra Santa, e agora
ningum j pode erguer sem cair vencido; tal escudo, no conceito do autor,  o
Belo,  a Forma,  a Arte, que o artista busca e no alcana, sem ficar abatido
com isso, antes sentindo que, embora caia ignorado do vulgo,  doce hav-los
adorado na vida.

Aqui se
distinguem as duas fontes da inspirao de Magalhes de Azeredo, ou as duas
fases, se parece melhor assim. Quando as sensaes, que chamarei de ensaio,
ditam os versos, eles trazem a nota de melancolia, de incerteza e de mistrio,
alguma vez de entusiasmo; mas a contemplao pura e desambiciosa da arte d-lhe
o alento maior, e ainda quando cr que no pode sobraar o escudo, a idia de
hav-lo despegado da parede  bastante  continuao da obra. Ser preciso
dizer que esse receio no  mais que modstia, sempre cabida, posto que a
reincidncia do esforo traz a esperana da vitria? E ser preciso afirmar que
a vitria  dos que tm, com a centelha do engenho, a obstinao do trabalho, e
conseguintemente  dele tambm? Assim, ou pelas sensaes do moo ou pela
robustez do artista, este livro ' a vida que ele viveu' como o
poeta se exprime em uma pgina que li com emoo. Na composio final  o
sentimento da arte que persiste, quando o poeta fala  musa em fortes e
fluentes versos alexandrinos, to apropriados  contemplao longa e mstica da
idia.

No quero
tratar aqui do prosador a propsito deste primeiro livro de versos. De resto,
os leitores da Revista Brasileira j o conhecem por esse lado, e sabem
que Magalhes de Azeredo ser em uma e outra forma um dos primeiros espritos
da gerao que surge. Neste ponto, a ode A Portugal com a carta a
Ea de Queirs, publicada em avulso, do clara amostra de ambas as lnguas do
nosso jovem patrcio.

Felizes
os que entre um e outro sculo podem dar aos que se vo embora um antegosto do
que h de vir, e aos que vm chegando uma lembrana e exemplo do que foi ou
acaba. Tal  o nosso Magalhes de Azeredo por seus dotes nativos, paciente e
forte cultura.


