Conto, Pginas Recolhidas, 1899

Pginas Recolhidas

Texto-fonte:

 Obra Completa, de
Machado de Assis, vol. II,

Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994.

Publicado originalmente pela
Editora Garnier, Rio de Janeiro, 1899.

NDICE

PREFCIO

O CASO DA VARA

O DICIONRIO

UM ERRADIO

ETERNO!

MISSA DO GALO

IDIAS DO CANRIO

LGRIMAS DE XERXES

PAPIS VELHOS

PREFCIO

Quelque
diversit d'herbes qu'il y ayt,

tout
s'enveloppe sous le nom de salade.

MONTAIGNE, Essais, liv. I,
cap. XLVI

Montaigne explica pelo seu modo dele a variedade deste
livro. No h que repetir a mesma idia, nem qualquer outro lhe daria a graa da
expresso que vai por epgrafe. O que importa unicamente  dizer a origem
destas pginas.

Umas so contos e novelas, figuras que vi ou imaginei, ou
simples idias que me deu na cabea reduzir a linguagem. Saram primeiro nas
folhas volantes do jornalismo, em data diversa, e foram escolhidas dentre
muitas, por achar que ainda agora possam interessar. Tambm vai aqui Tu s,
tu, Puro Amor... comdia escrita para as festas centenrias de Cames, e
representada por essa ocasio. Tiraram-se dela cem exemplares numerados que se
distriburam por algumas estantes e bibliotecas. Uma anlise da correspondncia
de Renan com sua irm Henriqueta, e um debuxo do nosso antigo Senado foram
dados na Revista Brasileira, to brilhantemente dirigida pelo meu ilustre e prezado
amigo Jos Verssimo. Sai tambm um pequeno discurso, lido quando se lanou a
primeira pedra da esttua de Alencar. Enfim, alguns retalhos de cinco anos de
crnica na Gazeta de Notcias que me pareceram no destoar do livro, seja
porque o objeto no passasse inteiramente, seja porque o aspecto que lhe achei
ainda agora me fale ao esprito. Tudo  pretexto para recolher folhas amigas.

MACHADO DE ASSIS

O CASO DA VARA

Damio fugiu do seminrio s onze horas da manh de uma sexta-feira
de agosto. No sei bem o ano; foi antes de 1850. Passados alguns minutos parou
vexado; no contava com o efeito que produzia nos olhos da outra gente aquele
seminarista que ia espantado, medroso, fugitivo. Desconhecia as ruas, andava e
desandava; finalmente parou. Para onde iria? Para casa, no; l estava o pai
que o devolveria ao seminrio, depois de um bom castigo. No assentara no ponto
de refgio, porque a sada estava determinada para mais tarde; uma
circunstncia fortuita a apressou. Para onde iria? Lembrou-se do padrinho, Joo
Carneiro, mas o padrinho era um moleiro sem vontade, que por si s no faria
coisa til. Foi ele que o levou ao seminrio e o apresentou ao reitor:

 Trago-lhe o grande homem que h de ser, disse ele ao
reitor.

 Venha, acudiu este, venha o grande homem, contanto que
seja tambm humilde e bom. A verdadeira grandeza  ch. Moo...

Tal foi a entrada. Pouco tempo depois fugiu o rapaz ao
seminrio. Aqui o vemos agora na rua, espantado, incerto, sem atinar com refgio
nem conselho; percorreu de memria as casas de parentes e amigos, sem se fixar em nenhuma. De repente, exclamou:

 Vou pegar-me com Sinh Rita! Ela manda chamar meu
padrinho, diz-lhe que quer que eu saia do seminrio... Talvez assim...

Sinh Rita era uma viva, querida de Joo Carneiro; Damio
tinha umas idias vagas dessa situao e tratou de a aproveitar. Onde morava?
Estava to atordoado, que s da a alguns minutos  que lhe acudiu a casa; era
no Largo do Capim.

 Santo nome de Jesus! Que  isto? bradou Sinh Rita,
sentando-se na marquesa, onde estava reclinada.

Damio acabava de entrar espavorido; no momento de chegar
 casa, vira passar um padre, e deu um empurro  porta, que por fortuna no
estava fechada a chave nem ferrolho. Depois de entrar espiou pela rtula, a ver
o padre. Este no deu por ele e ia andando.

 Mas que  isto, Sr. Damio? bradou novamente a dona da
casa, que s agora o conhecera. Que vem fazer aqui?

Damio, trmulo, mal podendo falar, disse que no tivesse medo,
no era nada; ia explicar tudo.

 Descanse; e explique-se.

 J lhe digo; no pratiquei nenhum crime, isso juro; mas
espere.

Sinh Rita olhava para ele espantada, e todas as crias, de
casa, e de fora, que estavam sentadas em volta da sala, diante das suas
almofadas de renda, todas fizeram parar os bilros e as mos. Sinh Rita vivia
principalmente de ensinar a fazer renda, crivo e bordado. Enquanto o rapaz
tomava flego, ordenou s pequenas que trabalhassem, e esperou. Afinal, Damio
contou tudo, o desgosto que lhe dava o seminrio; estava certo de que no podia
ser bom padre; falou com paixo, pediu-lhe que o salvasse.

 Como assim? No posso nada.

 Pode, querendo.

 No, replicou ela abanando a cabea; no me meto em negcios
de sua famlia, que mal conheo; e ento seu pai, que dizem que  zangado!

Damio viu-se perdido. Ajoelhou-se-lhe aos ps, beijou-lhe
as mos, desesperado.

 Pode muito, Sinh Rita; peo-lhe pelo amor de Deus, pelo
que a senhora tiver de mais sagrado, por alma de seu marido, salve-me da morte,
porque eu mato-me, se voltar para aquela casa.

Sinh Rita, lisonjeada com as splicas do moo, tentou
cham-lo a outros sentimentos. A vida de padre era santa e bonita, disse-lhe
ela; o tempo lhe mostraria que era melhor vencer as repugnncias e um dia...
No, nada, nunca! redargia Damio, abanando a cabea e beijando-lhe as mos; e
repetia que era a sua morte. Sinh Rita hesitou ainda muito tempo; afinal
perguntou-lhe por que no ia ter com o padrinho.

 Meu padrinho? Esse  ainda pior que papai; no me
atende, duvido que atenda a ningum...

 No atende? interrompeu Sinh Rita ferida em seus brios.
Ora, eu lhe mostro se atende ou no...

Chamou um moleque e bradou-lhe que fosse  casa do Sr.
Joo Carneiro cham-lo, j e j; e se no estivesse em casa, perguntasse onde
podia ser encontrado, e corresse a dizer-lhe que precisava muito de lhe falar
imediatamente.

 Anda, moleque.

Damio suspirou alto e triste. Ela, para mascarar a
autoridade com que dera aquelas ordens, explicou ao moo que o Sr. Joo
Carneiro fora amigo do marido e arranjara-lhe algumas crias para ensinar.
Depois, como ele continuasse triste, encostado a um portal, puxou-lhe o nariz,
rindo:

 Ande l, seu padreco, descanse que tudo se h de
arranjar.

Sinh Rita tinha quarenta anos na certido de batismo, e
vinte e sete nos olhos. Era apessoada, viva, patusca, amiga de rir; mas, quando
convinha, brava como diabo. Quis alegrar o rapaz, e, apesar da situao, no
lhe custou muito. Dentro de pouco, ambos eles riam, ela contava-lhe anedotas, e
pedia-lhe outras, que ele referia com singular graa. Uma destas, estrdia,
obrigada a trejeitos, fez rir a uma das crias de Sinh Rita, que esquecera o
trabalho, para mirar e escutar o moo. Sinh Rita pegou de uma vara que estava
ao p da marquesa, e ameaou-a:

 Lucrcia, olha a vara!

A pequena abaixou a cabea, aparando o golpe, mas o golpe
no veio. Era uma advertncia; se  noitinha a tarefa no estivesse pronta, Lucrcia
receberia o castigo do costume. Damio olhou para a pequena; era uma negrinha,
magricela, um frangalho de nada, com uma cicatriz na testa e uma queimadura na
mo esquerda. Contava onze anos. Damio reparou que tossia, mas para dentro,
surdamente, a fim de no interromper a conversao. Teve pena da negrinha, e
resolveu apadrinh-la, se no acabasse a tarefa. Sinh Rita no lhe negaria o
perdo... Demais, ela rira por achar-lhe graa; a culpa era sua, se h culpa em
ter chiste.

Nisto, chegou Joo Carneiro. Empalideceu quando viu ali o
afilhado, e olhou para Sinh Rita, que no gastou tempo com prembulos.
Disse-lhe que era preciso tirar o moo do seminrio, que ele no tinha vocao
para a vida eclesistica, e antes um padre de menos que um padre ruim. C fora
tambm se podia amar e servir a Nosso Senhor. Joo Carneiro, assombrado, no
achou que replicar durante os primeiros minutos; afinal, abriu a boca e
repreendeu o afilhado por ter vindo incomodar 'pessoas estranhas', e
em seguida afirmou que o castigaria.

 Qual castigar, qual nada! interrompeu Sinh Rita.
Castigar por qu? V, v falar a seu compadre.

 No afiano nada, no creio que seja possvel...

 H de ser possvel, afiano eu. Se o senhor quiser,
continuou ela com certo tom insinuativo, tudo se h de arranjar. Pea-lhe
muito, que ele cede. Ande, Senhor Joo Carneiro, seu afilhado no volta para o
seminrio; digo-lhe que no volta...

 Mas, minha senhora...

 V, v.

Joo Carneiro no se animava a sair, nem podia ficar.
Estava entre um puxar de foras opostas. No lhe importava, em suma, que o
rapaz acabasse clrigo, advogado ou mdico, ou outra qualquer coisa, vadio que
fosse; mas o pior  que lhe cometiam uma luta ingente com os sentimentos mais
ntimos do compadre, sem certeza do resultado; e, se este fosse negativo, outra
luta com Sinh Rita, cuja ltima palavra era ameaadora: 'digo-lhe que ele
no volta'. Tinha de haver por fora um escndalo. Joo Carneiro estava
com a pupila desvairada, a plpebra trmula, o peito ofegante. Os olhares que
deitava a Sinh Rita eram de splica, mesclados de um tnue raio de censura.
Por que lhe no pedia outra coisa? Por que lhe no ordenava que fosse a p,
debaixo de chuva,  Tijuca, ou Jacarepagu? Mas logo persuadir ao compadre que
mudasse a carreira do filho... Conhecia o velho; era capaz de lhe quebrar uma
jarra na cara. Ah! se o rapaz casse ali, de repente, apopltico, morto! Era
uma soluo  cruel,  certo, mas definitiva.

 Ento? insistiu Sinh Rita.

Ele fez-lhe um gesto de mo que esperasse. Coava a barba,
procurando um recurso. Deus do cu! um decreto do papa dissolvendo a Igreja,
ou, pelo menos, extinguindo os seminrios, faria acabar tudo em bem. Joo Carneiro voltaria para casa e ia jogar os trs-setes. Imaginai que o barbeiro
de Napoleo era encarregado de comandar a batalha de Austerlitz... Mas a Igreja
continuava, os seminrios continuavam, o afilhado continuava cosido  parede,
olhos baixos, esperando, sem soluo apopltica.

 V, v, disse Sinh Rita dando-lhe o chapu e a bengala.

No teve remdio. O barbeiro meteu a navalha no estojo,
travou da espada e saiu  campanha. Damio respirou; exteriormente deixou-se
estar na mesma, olhos fincados no cho, acabrunhado. Sinh Rita puxou-lhe desta
vez o queixo.

 Ande jantar, deixe-se de melancolias.

 A senhora cr que ele alcance alguma coisa?

 H de alcanar tudo, redargiu Sinh Rita cheia de si.
Ande, que a sopa est esfriando.

Apesar do gnio galhofeiro de Sinh Rita e do seu prprio esprito
leve, Damio esteve menos alegre ao jantar que na primeira parte do dia. No
fiava do carter mole do padrinho. Contudo, jantou bem; e, para o fim, voltou
s pilhrias da manh.  sobremesa, ouviu um rumor de gente na sala, e
perguntou se o vinham prender.

 Ho de ser as moas.

Levantaram-se e passaram  sala. As moas eram cinco
vizinhas que iam todas as tardes tomar caf com Sinh Rita, e ali ficavam at o
cair da noite.

As discpulas, findo o jantar delas, tornaram s almofadas
do trabalho. Sinh Rita presidia a todo esse mulherio de casa e de fora. O
sussurro dos bilros e o palavrear das moas eram ecos to mundanos, to alheios
 teologia e ao latim, que o rapaz deixou-se ir por eles e esqueceu o resto.
Durante os primeiros minutos, ainda houve da parte das vizinhas certo
acanhamento, mas passou depressa. Uma delas cantou uma modinha, ao som da
guitarra, tangida por Sinh Rita, e a tarde foi passando depressa. Antes do
fim, Sinh Rita pediu a Damio que contasse certa anedota que lhe agradara
muito. Era a tal que fizera rir Lucrcia.

 Ande, senhor Damio, no se faa de rogado, que as moas
querem ir embora. Vocs vo gostar muito.

Damio no teve remdio seno obedecer. Malgrado o anncio
e a expectao, que serviam a diminuir o chiste e o efeito, a anedota acabou
entre risadas das moas. Damio, contente de si, no esqueceu Lucrcia e olhou
para ela, a ver se rira tambm. Viu-a com a cabea metida na almofada para
acabar a tarefa. No ria; ou teria rido para dentro, como tossia.

Saram as vizinhas, e a tarde caiu de todo. A alma de
Damio foi-se fazendo tenebrosa, antes da noite. Que estaria acontecendo? De
instante a instante, ia espiar pela rtula, e voltava cada vez mais desanimado.
Nem sombra do padrinho. Com certeza, o pai f-lo calar, mandou chamar dois
negros, foi  polcia pedir um pedestre, e a vinha peg-lo  fora e lev-lo
ao seminrio. Damio perguntou a Sinh Rita se a casa no teria sada pelos
fundos; correu ao quintal, e calculou que podia saltar o muro. Quis ainda saber
se haveria modo de fugir para a Rua da Vala, ou se era melhor falar a algum
vizinho que fizesse o favor de o receber. O pior era a batina; se Sinh Rita
lhe pudesse arranjar um rodaque, uma sobrecasaca velha... Sinh Rita dispunha
justamente de um rodaque, lembrana ou esquecimento de Joo Carneiro.

 Tenho um rodaque do meu defunto, disse ela, rindo; mas
para que est com esses sustos? Tudo se h de arranjar, descanse.

Afinal,  boca da noite, apareceu um escravo do padrinho, com
uma carta para Sinh Rita. O negcio ainda no estava composto; o pai ficou
furioso e quis quebrar tudo; bradou que no, senhor, que o peralta havia de ir
para o seminrio, ou ento metia-o no Aljube ou na presiganga. Joo Carneiro
lutou muito para conseguir que o compadre no resolvesse logo, que dormisse a
noite, e meditasse bem se era conveniente dar  religio um sujeito to rebelde
e vicioso. Explicava na carta que falou assim para melhor ganhar a causa. No a
tinha por ganha; mas no dia seguinte l iria ver o homem, e teimar de novo.
Conclua dizendo que o moo fosse para a casa dele.

Damio acabou de ler a carta e olhou para Sinh Rita. No
tenho outra tbua de salvao, pensou ele. Sinh Rita mandou vir um tinteiro de
chifre, e na meia folha da prpria carta escreveu esta resposta:
'Joozinho, ou voc salva o moo, ou nunca mais nos vemos'. Fechou a
carta com obreia, e deu-a ao escravo, para que a levasse depressa. Voltou a
reanimar o seminarista, que estava outra vez no capuz da humildade e da consternao.
Disse-lhe que sossegasse, que aquele negcio era agora dela.

 Ho de ver para quanto presto! No, que eu no sou de
brincadeiras!

Era a hora de recolher os trabalhos. Sinh Rita
examinou-os; todas as discpulas tinham concludo a tarefa. S Lucrcia estava
ainda  almofada, meneando os bilros, j sem ver; Sinh Rita chegou-se a ela,
viu que a tarefa no estava acabada, ficou furiosa, e agarrou-a por uma orelha.

 Ah! malandra!

 Nhanh, nhanh! pelo amor de Deus! por Nossa Senhora que
est no cu.

 Malandra! Nossa Senhora no protege vadias!

Lucrcia fez um esforo, soltou-se das mos da senhora, e
fugiu para dentro; a senhora foi atrs e agarrou-a.

 Anda c!

 Minha senhora, me perdoe! tossia a negrinha.

 No perdo, no. Onde est a vara?

E tornaram ambas  sala, uma presa pela orelha,
debatendo-se, chorando e pedindo; a outra dizendo que no, que a havia de
castigar.

 Onde est a vara?

A vara estava  cabeceira da marquesa, do outro lado da
sala. Sinh Rita, no querendo soltar a pequena, bradou ao seminarista.

 Sr. Damio, d-me aquela vara, faz favor?

Damio ficou frio... Cruel instante! Uma nuvem passou-lhe
pelos olhos. Sim, tinha jurado apadrinhar a pequena, que por causa dele,
atrasara o trabalho...

 D-me a vara, Sr. Damio!

Damio chegou a caminhar na direo da marquesa. A
negrinha pediu-lhe ento por tudo o que houvesse mais sagrado, pela me, pelo
pai, por Nosso Senhor...

 Me acuda, meu sinh moo!

Sinh Rita, com a cara em fogo e os olhos esbugalhados,
instava pela vara, sem largar a negrinha, agora presa de um acesso de tosse.
Damio sentiu-se compungido; mas ele precisava tanto sair do seminrio! Chegou
 marquesa, pegou na vara e entregou-a a Sinh Rita.

O DICIONRIO

Era uma vez um tanoeiro, demagogo, chamado Bernardino, o
qual em cosmografia professava a opinio de que este mundo  um imenso tonel de
marmelada, e em poltica pedia o trono para a multido. Com o fim de a pr ali,
pegou de um pau, concitou os nimos e deitou abaixo o rei; mas, entrando no
pao, vencedor e aclamado, viu que o trono s dava para uma pessoa, e cortou a
dificuldade sentando-se em cima.

 Em mim, bradou ele, podeis ver a multido coroada. Eu
sou vs, vs sois eu.

O primeiro ato do novo rei foi abolir a tanoaria,
indenizando os tanoeiros, prestes a derrub-lo, com o ttulo de Magnficos. O
segundo foi declarar que, para maior lustre da pessoa e do cargo, passava a
chamar-se, em vez de Bernardino, Bernardo. Particularmente encomendou uma
genealogia a um grande doutor dessas matrias, que em pouco mais de uma hora o
entroncou a um tal ou qual general romano do sculo IV, Bernardus Tanoarius; 
nome que deu lugar  controvrsia, que ainda dura, querendo uns que o rei
Bernardo tivesse sido tanoeiro, e outros que isto no passe de uma confuso
deplorvel com o nome do fundador da famlia. J vimos que esta segunda opinio
 a nica verdadeira.

Como era calvo desde verdes anos, decretou Bernardo que
todos os seus sditos fossem igualmente calvos, ou por natureza ou por navalha,
e fundou esse ato em uma razo de ordem poltica, a saber, que a unidade moral
do Estado pedia a conformidade exterior das cabeas. Outro ato em que revelou
igual sabedoria, foi o que ordenou que todos os sapatos do p esquerdo tivessem
um pequeno talho no lugar correspondente ao dedo mnimo, dando assim aos seus
sditos o ensejo de se parecerem com ele, que padecia de um calo. O uso dos
culos em todo o reino no se explica de outro modo, seno por uma oftalmia que
afligiu a Bernardo, logo no segundo ano do reinado. A doena levou-lhe um
olho, e foi aqui que se revelou a vocao potica de Bernardo, porque,
tendo-lhe dito um dos seus dois ministros, chamado Alfa, que a perda de um olho
o fazia igual a Anbal,  comparao que o lisonjeou muito,  o segundo
ministro, mega, deu um passo adiante, e achou-o superior a Homero, que perdera
ambos os olhos. Esta cortesia foi uma revelao; e como isto prende com o
casamento, vamos ao casamento.

Tratava-se, em verdade, de assegurar a dinastia dos
Tanoarius. No faltavam noivas ao novo rei, mas nenhuma lhe agradou tanto como
a moa Estrelada, bela, rica e ilustre. Esta senhora, que cultivava a msica e
a poesia, era requestada por alguns cavalheiros, e mostrava-se fiel  dinastia
decada. Bernardo ofereceu-lhe as coisas mais suntuosas e raras, e, por outro
lado, a famlia bradava-lhe que uma coroa na cabea valia mais que uma saudade
no corao; que no fizesse a desgraa dos seus, quando o ilustre Bernardo lhe
acenasse com o principado; que os tronos no andavam a rodo, e mais isto, e
mais aquilo. Estrelada, porm, resistia  seduo.

No resistiu muito tempo, mas tambm no cedeu tudo. Como
entre os seus candidatos preferia secretamente um poeta, declarou que estava
pronta a casar, mas seria com quem lhe fizesse o melhor madrigal, em concurso. Bernardo aceitou a clusula, louco de amor e confiado em si: tinha mais um olho
que Homero, e fizera a unidade dos ps e das cabeas.

Concorreram ao certmen, que foi annimo e secreto, vinte
pessoas. Um dos madrigais foi julgado superior aos outros todos; era justamente
o do poeta amado. Bernardo anulou por um decreto o concurso, e mandou abrir
outro; mas ento, por uma inspirao de insigne maquiavelismo, ordenou que no
se empregassem palavras que tivessem menos de trezentos anos de idade. Nenhum
dos concorrentes estudara os clssicos: era o meio provvel de os vencer.

No venceu ainda assim porque o poeta amado leu  pressa o
que pde, e o seu madrigal foi outra vez o melhor. Bernardo anulou esse
segundo concurso; e, vendo que no madrigal vencedor as locues antigas davam
singular graa aos versos, decretou que s se empregassem as modernas e
particularmente as da moda. Terceiro concurso, e terceira vitria do poeta
amado.

Bernardo, furioso, abriu-se com os dois ministros,
pedindo-lhes um remdio pronto e enrgico, porque, se no ganhasse a mo de
Estrelada, mandaria cortar trezentas mil cabeas. Os dois, tendo consultado algum
tempo, voltaram com este alvitre:

 Ns, Alfa e mega, estamos designados pelos nossos nomes
para as coisas que respeitam  linguagem. A nossa idia  que Vossa Sublimidade
mande recolher todos os dicionrios e nos encarregue de compor um vocabulrio
novo que lhe dar a vitria.

Bernardo assim fez, e os dois meteram-se em casa durante
trs meses, findos os quais depositaram nas augustas mos a obra acabada, um
livro a que chamaram Dicionrio de Babel, porque era realmente a confuso das
letras. Nenhuma locuo se parecia com a do idioma falado; as consoantes
trepavam nas consoantes, as vogais diluam-se nas vogais, palavras de duas
slabas tinham agora sete e oito, e vice-versa, tudo trocado, misturado,
nenhuma energia, nenhuma graa, uma lngua de cacos e trapos.

 Obrigue Vossa Sublimidade esta lngua por um decreto, e
est tudo feito.

Bernardo concedeu um abrao e uma penso a ambos,
decretou o vocabulrio, e declarou que ia fazer-se o concurso definitivo para
obter a mo da bela Estrelada. A confuso passou do dicionrio aos espritos;
toda a gente andava atnita. Os farsolas cumprimentavam-se na rua pela novas
locues: diziam, por exemplo, em vez de: Bom dia, como passou?  Pflerrgpxx,
rouph, aa? A prpria dama, temendo que o poeta amado perdesse afinal a
campanha, props-lhe que fugissem; ele, porm, respondeu que ia ver primeiro se
podia fazer alguma coisa. Deram noventa dias para o novo concurso e
recolheram-se vinte madrigais. O melhor deles, apesar da lngua brbara, foi o
do poeta amado. Bernardo, alucinado, mandou cortar as mos aos dois ministros
e foi a nica vingana. Estrelada era to admiravelmente bela, que ele no se
atreveu a mago-la, e cedeu.

Desgostoso, encerrou-se oito dias na biblioteca, lendo,
passeando ou meditando. Parece que a ltima coisa que leu foi uma stira do
poeta Garo, e especialmente estes versos, que pareciam feitos de encomenda:

O raro Apeles,

Rubens e Rafael, inimitveis

No se fizeram pela cor das
tintas;

A mistura elegante os fez eternos.

UM ERRADIO

A porta abriu-se... Deixa-me contar a histria  laia de
novela, disse Tosta  mulher, um ms depois de casados, quando ela lhe
perguntou quem era o homem representado numa velha fotografia, achada na secretria
do marido. A porta abriu-se, e apareceu este homem, alto e srio, moreno,
metido numa infinita sobrecasaca cor de rap, que os rapazes chamavam opa.

 A vem a opa do Elisirio.

 Entre a opa s.

 No, a opa no pode; entre s o Elisirio, mas, primeiro
h de glosar um mote. Quem d o mote?

Ningum dava o mote. A casa era uma simples sala,
sublocada por um alfaiate, que morava nos fundos com a famlia; Rua do
Lavradio, 1866. Era a segunda vez que ia ali, a convite de um dos rapazes. No podes
ter idia da sala e da vida. Imagina um municpio do pas da Bomia, tudo
desordenado e confuso; alm dos poucos mveis pobres, que eram do alfaiate,
havia duas redes, uma canastra, um cabide, um ba de folha-de-flandres, livros,
chapus, sapatos. Moravam cinco rapazes, mas apareciam outros, e todos eram
tudo, estudantes, tradutores, revisores, namoradores, e ainda lhes sobrava
tempo para redigir uma folha poltica e literria, publicada aos sbados. Que
longas palestras que tnhamos! Solapvamos as bases da sociedade, descobramos
mundos novos, constelaes novas, liberdades novas. Tudo era o novssimo.

 L vai mote, disse afinal um dos rapazes, e recitou:

Podia embrulhar o mundo

A opa do Elisirio.

Parado  porta, o homem cerrou os
olhos por alguns instantes, abriu-os, passou pela testa o leno que trazia
fechado na mo, em forma de bolo, e recitou uma glosa de improviso. Rimo-nos
muito; eu, que no tinha idia do que era improviso, cuidei a princpio que a
composio era velha e a cena um logro para mim. Elisirio despiu a
sobrecasaca, levantou-a na ponta da bengala, deu duas voltas pela sala, com ar
triunfal, e foi pendur-la a um prego, porque o cabide estava cheio. Em
seguida, atirou o chapu ao teto, apanhou-o entre as mos, e foi p-lo em cima
do aparador.

 Lugar para um! disse finalmente.

Dei-me pressa em ceder-lhe o sof;
ele deitou-se, fincou os joelhos no ar, e perguntou que novidades havia.

 Que o jantar  duvidoso,
respondeu o redator principal do Cenculo; o Chico foi ver se cobrava
alguma assinatura. Se arranjar dinheiro, traz logo o jantar da casa de pasto.
Voc j jantou?

 J e bem, respondeu Elisirio,
jantei numa casa de comrcio. Mas vocs por que  que no vendem o Chico?  um
bonito crioulo.  livre, no h dvida, mas por isso mesmo compreender que,
deixando-se vender como escravo, tero vocs com que pagar-lhe os ordenados...
Dois mil-ris chegam? Romeu, v ali no bolso da sobrecasaca. H de haver uns
dois mil-ris.

Havia s mil e quinhentos, mas no
foram precisos. Cinco minutos depois voltava o Chico, trazendo um tabuleiro com
o jantar e o resto da assinatura de um semestre.

 No  possvel! bradou
Elisirio. Uma assinatura! Vem c, Chico. Quem foi que pagou? Que figura tinha
o homem? Baixo? No  possvel que fosse baixo; a ao  to sublime que nenhum
homem baixo podia pratic-la. Confessa que era alto. Confessa ao menos que era
de meia altura. Confessas? Ainda bem! Como se chama? Guimares? Rapazes, vamos
perpetuar este nome em uma placa de bronze. Acredito que no lhe deste recibo,
Chico.

 Dei, sim, senhor.

 Recibo! Mas a um assinante que paga no se d recibo,
para que ele pague outra vez; no se matam esperanas, Chico.

Tudo isto, dito por ele, tinha
muito mais graa que contado. No te posso pintar os gestos, os olhos e um riso
que no ria, um riso nico, sem alterar a face, nem mostrar os dentes. Essa
feio era a menos simptica; mas tudo o mais, a fala, as idias, e
principalmente a imaginao fecunda e moa, que se desfazia em ditos, anedotas,
epigramas, versos, descries, ora srio, quase sublime, ora familiar, quase
rasteiro, mas sempre original, tudo atraa e prendia. Trazia a barba por fazer,
o cabelo  escovinha; a testa, que era alta, tinha grossas rugas verticais.
Calado, parecia estar pensando. Voltava-se a mido no sof, erguia-se,
sentava-se, tornava a deitar-se. L o deixei, quando sa, s nove horas da
noite.

Comecei a freqentar a casa da Rua
do Lavradio, mas durante os primeiros dias no apareceu o Elisirio.
Disseram-me que era muito incerto. Tinha temporadas. s vezes, ia todos os
dias; repentinamente, falhava uma, duas, trs semanas seguidas, e mais. Era
professor de latim e explicador de matemticas. No era formado em coisa
nenhuma, posto estudasse engenharia, medicina e direito deixando em todas as
faculdades fama de grande talento sem aplicao. Seria bom prosador, se fosse
capaz de escrever vinte minutos seguidos; era poeta de improviso, no escrevia
os versos, os outros  que os ouviam e transladavam ao papel, dando-lhe cpias,
muitas das quais perdia. No tinha famlia; tinha um protetor, o Dr. Lousada,
operador de algum nome, que devera obsquios ao pai de Elisirio, e quis
pag-los ao filho. Era atrevido por causa de uma sombrinha de amor-prprio que
no tolerava a menor picada. Naquela casa era bonacho. Trinta e cinco anos; o
mais velho dos rapazes contava apenas vinte e um. A familiaridade entre ele e
os outros era como a de um tio com sobrinhos, um pouco menos de autoridade, um
pouco mais de liberdade.

No fim de uma semana, apareceu
Elisirio na Rua do Lavradio. Vinha com a idia de escrever um drama, e queria
dit-lo. Escolheram-me a mim, por escrever depressa. Esta colaborao mental e
manual durou duas noites e meia. Escreveu-se um ato e as primeiras cenas de
outro; Elisirio no quis absolutamente acabar a pea. A princpio disse que
depois, mais tarde, estava indisposto, e falava de outras coisas; afinal,
declarou-nos que a pea no prestava para nada. Espanto geral, porque a obra
parecia-nos excelente, e ainda agora creio que o era. Mas o autor pegou da
palavra e demonstrou que nem o escrito prestava, nem o resto do plano valia
coisa nenhuma. Falou como se tratasse de outrem. Ns contestvamos; eu
principalmente achava um crime, e repetia esta palavra com alma, com fogo 
achava um crime no acabar o drama, que era de primeira ordem.

 No vale nada, dizia ele
sorrindo para mim com simpatia. Menino, voc quantos anos tem?

 Dezoito.

 Tudo  sublime aos dezoito anos.
Cresa e aparea. O drama no presta; mas, deixe estar que havemos de escrever
outro daqui a dias. Ando com uma idia.

 Sim?

 Uma boa idia, continuou ele com
os olhos vagos; essa, sim, creio que dar um drama. Cinco atos; talvez faa em verso. O assunto presta-se...

Nunca mais falou em tal idia; mas
o drama comeado fez com que nos ligssemos um pouco mais intimamente. Ou
simpatia, ou amor-prprio satisfeito, por ver que o mais consternado com a
interrupo e condenao do trabalho fui eu,  ou qualquer outra causa que no
achei nem vale a pena buscar, Elisirio entrou a distinguir-me entre os outros.
Quis saber quem eram meus pais e o que fazia. Disse-lhe que no tinha me; meu pai era lavrador em Baturit,
eu estudava preparatrios, intercalando-os com versos, e andava com idias de
compor um poema, um drama e um romance. Tinha j uma lista de subscritores para
os versos. Parece que, de envolta com as notcias literrias, alguma coisa lhe
disse ou ele percebeu acerca dos meus sentimentos de moo. Props-se a
ajudar-me nos estudos com o seu prprio ensino, latim, francs, ingls,
histria... Cheio de orgulho, no menos que de sensibilidade, proferi algumas
palavras que ele gostou de ouvir, e a que respondeu gravemente:

 Quero fazer de voc um homem.

Estvamos ss; eu nada contei aos
outros, para os no molestar, nem sei se eles perceberam da em diante alguma
diferena no trato do Elisirio, em relao a mim.  certo, porm, que a
diferena no era grande, nem o plano de 'fazer-me um homem' foi alm
da simpatia e da benevolncia. Ensinava-me algumas matrias, quando eu lhe
pedia lies, e eu raramente as pedia. Queria s ouvi-lo, ouvi-lo, ouvi-lo at
no acabar. No imaginas a eloqncia desse homem, clida e forte, mansa e
doce, as imagens que lhe brotavam no discurso, as idias arrojadas, as formas
novas e graciosas. Muita vez ficvamos os dois ss na Rua do Lavradio, ele
falando, eu ouvindo. Onde morava? Disseram-me vagamente que para os lados da
Gamboa, mas nunca me convidou a l ir, nem ningum sabia positivamente onde
era.

Na rua era lento, direito,
circunspecto. Nada faria ento suspeitar o desengonado da casa do Lavradio, e,
se falava, eram poucas e meias palavras. Nos primeiros dias, encontrava-me sem
alvoroo quase sem prazer, ouvia-me atento, respondia pouco, estendia os dedos
e continuava a andar. Ia a toda parte; era comum ach-lo nos lugares mais
distantes uns dos outros, Botafogo, S. Cristvo, Andara. Quando lhe dava na
veneta, metia-se na barca e ia a Niteri. Chamava-se a si mesmo erradio.

 Eu sou um erradio. No dia em que
parar de vez, jurem que estou morto.

Um dia encontrei-o na Rua de S.
Jos. Disse-lhe que ia ao Castelo ver a igreja dos Jesutas, que nunca vira.

 Pois vamos, disse ele.

Subimos a ladeira, achamos a igreja
aberta e entramos. Enquanto eu mirava os altares, ele ia falando, mas em poucos
minutos o espetculo era ele s, um espetculo vivo, como se tudo renascera tal
qual era. Vi os primeiros templos da cidade, os padres da Companhia, a vida
monstica e leiga, os nomes principais e os fatos culminantes. Quando samos, e
fomos at  muralha, descobrindo o mar e parte da cidade, Elisirio fez-me
viver dois sculos atrs. Vi a expedio dos franceses, como se a houvesse
comandado ou combatido. Respirei o ar da colnia, contemplei as figuras velhas
e mortas. A imaginao evocativa era a grande prenda desse homem, que sabia dar
vida s coisas extintas e realidade s inventadas.

Mas no era s do passado local
que ele sabia, nem unicamente dos seus sonhos. Vs aquela estatuazinha que ali
tenho na parede? Sabes que  uma reduo da Vnus de Milo. Uma vez, abrindo-se
a exposio das belas-artes, fui visit-la; achei l o meu Elisirio, passeando
grave, com a sua imensa sobrecasaca. Acompanhou-me; ao passar pela sala de
escultura, dei com os olhos na cpia desta Vnus. Era a primeira vez que a via.
Soube que era ela pela falta dos braos.

 Oh! admirvel! exclamei.

Elisirio entrou a comentar a bela
obra annima, com tal abundncia e agudeza que me deixou ainda mais pasmado.
Que de coisas me disse a propsito da Vnus de Milo, e da Vnus em si mesma!
Falou da posio dos braos, que gesto fariam, que atitude dariam  figura,
formulando uma poro de hipteses graciosas e naturais. Falou da esttica, dos
grandes artistas, da vida grega, do mrmore grego, da alma grega. Era um grego,
um puro grego, que ali me aparecia e transportava de uma rua estreita para
diante do Prtenon. A opa do Elisirio transformou-se em clmide, a lngua
devia ser a da Hlade, conquanto eu nada soubesse a tal respeito, nem ento,
nem agora. Mas era feiticeiro o diabo do homem.

Samos; fomos at o Campo da
Aclamao, que ainda no possua o parque de hoje, nem tinha outra polcia alm
da natureza, que fazia brotar o capim, e das lavadeiras, que batiam e
ensaboavam a roupa defronte do quartel. Eu ia cheio do discurso do Elisirio,
ao lado dele, que levava a cabea baixa e os olhos pensativos. De repente, ouvi
dizer baixinho:

 Adeus, Ioi!

Era uma quitandeira de doces, uma crioula
baiana, segundo me pareceu pelos bordados e crivos da saia e da camisa. Vinha
da Cidade Nova e atravessava o campo. Elisirio respondeu  saudao:

 Adeus, Zeferina.

Estacou e olhou para mim, rindo
sem riso, e, depois de alguns segundos:

 No se espante, menino. H
muitas espcies de Vnus. O que ningum dir  que a esta lhe faltem braos,
continuou olhando para os braos da quitandeira, mais negros ainda pelo
contraste da manga curta e alva da camisa.

Eu, de vexado, no achei resposta.

No contei esse episdio na Rua do
Lavradio; podiam meter  bulha o Elisirio, e no queria parecer indiscreto.
Tinha-lhe no sei que venerao particular que a familiaridade no enfraquecia.
Chegamos a jantar juntos algumas vezes, e uma noite fomos ao teatro. O que mais
lhe custava no teatro era estar muito tempo na mesma cadeira, apertado entre
duas pessoas, com gente adiante e atrs de si. Nas noites de enchente, em que
eram precisas travessas na platia, ficava aflito com a idia de no poder sair
no meio de um ato, se quisesse. Naquela, acabado o terceiro ato (a pea tinha
cinco), disse-me que no podia mais e que ia embora.

Fomos tomar ch ao botequim
prximo, e deixei-me estar, esquecido do espetculo. Ficamos at o fechar das
portas. Tnhamos falado de viagens; eu contei-lhe a vida do serto cearense,
ele ouviu e projetou mil jornadas ao serto do Brasil inteiro, por serras,
campos e rios, de mula e de canoa. Colheria tudo, plantas, lendas, cantigas,
locues. Narrou a vida do caipira, falou de Enias, citou Virglio e Cames,
com grande espanto dos criados, que paravam boquiabertos.

 Voc era capaz de ir daqui a p,
at S. Cristvo, agora? perguntou-me na rua.

 Pode ser.

 No, voc est cansado.

 No estou, vamos.

 Est cansado, adeus; at depois,
concluiu.

Realmente, estava fatigado,
precisava dormir. Quando ia a voltar para casa, perguntei a mim mesmo se ele
iria sozinho, quela hora, e deu-me vontade de acompanh-lo de longe, at certo
ponto. Ainda o apanhei na Rua dos Ciganos. Ia devagar, com a bengala debaixo do
brao, e as mos ora atrs, ora nas algibeiras das calas. Atravessou o Campo
da Aclamao, enfiou pela Rua de S. Pedro e meteu-se pelo Aterrado acima. Eu,
no Campo, quis voltar, mas a curiosidade fez-me ir andando tambm. Quem sabe se
esse erradio no teria pouso certo de amores escondidos? No gostei desta
reflexo, e quis punir-me desandando; mas a curiosidade levara-me o sono e
dava-me vigor s pernas. Fui andando atrs do Elisirio. Chegamos assim  ponte
do Aterrado, enfiamos por ela, desembocamos na Rua de S. Cristvo. Ele algumas
vezes parava, ou para acender um charuto, ou para nada. Tudo deserto, uma ou
outra patrulha, algum tlburi, raro, a passo cochilado, tudo deserto e longo.
Assim chegamos ao cais da Igrejinha. Junto ao cais dormiam os botes que,
durante o dia, conduziam gente para o Saco do Alferes. Mar frouxa, apenas o
ressonar manso da gua. Aps alguns minutos, quando me pareceu que ia voltar
pelo mesmo caminho, acordou os remadores de um bote, que de acaso ali dormiam,
e props-lhes lev-lo  cidade. No sei quanto ofereceu; vi que, depois de
alguma relutncia, aceitaram a proposta.

Elisirio entrou no bote, que se
afastou logo, os remos feriram a gua, e l se perdeu na noite e no mar o meu professor
de latim e explicador de matemticas. Tambm eu me achei perdido, longe da
cidade e exausto. Valeu-me um tlburi, que atravessava o Campo de S. Cristvo,
to cansado como eu, mas piedoso e necessitado.

 Voc no quis ir comigo
anteontem a So Cristvo? No sabe o que perdeu; a noite estava linda, o
passeio foi muito agradvel. Chegando ao cais da Igrejinha, meti-me num bote e
vim desembarcar no Saco do Alferes. Era um bom pedao at a casa; fiquei numa
hospedaria do Campo de Sant'Ana. Fui atacado por um cachorro, no caminho do
Saco, e por dois na Rua de S. Diogo, mas no senti as pulgas da hospedaria,
porque dormi como um justo. E voc que fez?

 Eu?

No querendo mentir, se ele me
tivesse pressentido, nem confessar que o acompanhara de longe, respondi
sumariamente:

 Eu? Eu tambm dormi como um
justo.

 Justus, justa, justum.

Estvamos na casa da Rua do
Lavradio. Elisirio trazia no peito da camisa um boto de coral, objeto de
grande espanto e aclamao da parte dos rapazes, que nunca jamais o viram com
jias. Maior, porm, foi o meu espanto, depois que os rapazes saram. Tendo
ouvido que me faltava dinheiro para comprar sapatos, Elisirio sacou o boto de
coral e disse que me fosse calar com ele. Recusei energicamente, mas tive de aceit-lo
 fora. No o vendi nem empenhei; no dia seguinte pedi algum dinheiro
adiantado ao correspondente de meu pai, calcei-me de novo, e esperei que
chegasse o paquete do Norte, para restituir o boto ao Elisirio. Se visses a
cara de desconsolo com que o recebeu!

 Mas o senhor no disse outro dia
que lhe tinham dado este boto de presente? repliquei  proposta que me fez de
ficar com a jia.

 Sim, disse e  verdade; mas para
que me servem jias? Acho que ficam melhor nos outros. Bem pensado, como 
presente, posso guardar o boto. Deveras, no o quer para si?

 No, senhor; um presente...

 Presente de anos, continuou
mirando a pedra com o olhar vago. Fiz trinta e cinco. Estou velho, meu menino;
no tardo em pedir reforma e ir morrer em algum buraco.

Tinha acabado de repor o boto na
camisa.

 Fez anos, e no me disse.

 Para qu? Para visitar-me? No
recebo nesse dia; de costume janto com o meu velho amigo Dr. Lousada, que
tambm faz o seu versinho, s vezes, e outro dia brindou-me com um soneto
impresso em papel azul... L o tenho em casa; no  mau.

 Foi ele que lhe deu o boto...

 No, foi a filha... O soneto tem
um verso muito parecido, com outro de Cames; o meu velho Lousada possui as suas
letras clssicas, alm de ser excelente mdico... Mas o melhor dele  a alma
...

Quiseram faz-lo deputado. Ouvi
que dois amigos dele, homens polticos, entenderam que o Elisirio daria um bom
orador parlamentar. No se ops, pediu apenas aos inventores do projeto que lhe
emprestassem algumas idias polticas; riram-se, e o projeto no foi adiante.

Quero crer que lhe no faltassem
idias, talvez as tivesse de sobra, mas to contrrias umas s outras que no
chegariam a formar uma opinio. Pensava segundo a disposio do dia, liberal
exaltado ou conservador corcunda. O principal motivo da recusa era a
impossibilidade de obedecer a um partido, a um chefe, a um regimento de cmara.
Se houvesse liberdade de alterar as horas da sesso, uma de manh, outra de
noite, outra de madrugada, ao acaso da freqncia, sem ordem do dia, com
direito de discutir o anel de Saturno ou os sonetos de Petrarca, o meu erradio
Elisirio aceitaria o cargo, contanto que no fosse obrigado a estar calado,
nem a falar, quando lhe chegasse a vez.

A tens o que era esse homem
fotografado em 1862. Em suma, boa criatura, muito talento, excelente
conversador, alma inquieta e doce, desconfiada e irritadia, sem futuro nem
passado, sem saudades nem ambies, um erradio. Seno quando... Mas  muito
falar sem fumar um charuto... Consentes? Enquanto acendo o charuto, olha para
esse retrato, descontando-lhe os olhos, que no saram bem; parecem olhos de
gato e inquisidor, espetados na gente, como querendo furar a conscincia. No
eram isso; olhavam mais para dentro que para fora, e quando olhavam para fora
derramavam-se por toda a parte.

Seno quando, uma tarde, j
escuro, por volta das sete horas, apareceu-me na casa de penso o meu amigo
Elisirio. Havia trs semanas que o no via, e, como tratava de fazer exames, e
passava mais tempo metido em casa, no me admirei da ausncia nem cuidei dela.
Demais, j me acostumara aos seus eclipses. O quarto estava escuro, eu ia sair
e acabava de apagar a vela, quando a figura alta e magra do Elisirio apareceu
 porta. Entrou, foi direito a uma cadeira, sentei-me ao p dele, perguntei-lhe
por onde andara. Elisirio abraou-me chorando. Fiquei to assombrado que no
pude dizer nada; abracei-o tambm, ele enxugou os olhos com o leno, que de
costume trazia fechado na mo, e suspirou largo. Creio que ainda chorou
silenciosamente, porque enxugava os olhos de quando em quando. Eu, cada vez mais assombrado, esperava que ele me dissesse o que tinha; afinal
murmurei:

 Que ? que foi?

 Tosta, casei-me sbado...

Cada vez mais espantado, no tive
tempo de lhe pedir outra explicao, porque o Elisirio continuou logo, dizendo
que era um casamento de gratido, no de amor, uma desgraa. No sabia que
respondesse  confidncia, no acabava de crer na notcia, e principalmente,
no entendia o abatimento nem a dor do homem. A figura do Elisirio, qual a
recompus depois, no me aparecia por esse tempo com a significao verdadeira.
Cheguei a supor alguma coisa mais que o simples casamento; talvez a mulher fosse
idiota ou tsica; mas quem o obrigaria a desposar uma doente?

'Uma desgraa! repetia
baixinho, falando para si, uma desgraa!'

Como eu me levantasse dizendo que
ia acender uma vela, Elisirio reteve-me pela aba do fraque.

 No acenda, no me vexe, o
escuro  melhor, para lhe expor esta minha desgraa. Oua-me. Uma desgraa.
Casado! No  que ela me no ame; ao contrrio, morria por mim h sete anos.
Tem vinte e cinco... Boa criatura! Uma desgraa!

A palavra desgraa era a
que mais vezes lhe tornava ao discurso. Eu, para saber o resto, quase no
respirava; mas no ouvi grande coisa, pois o homem, depois de algumas palavras
descosidas, suspendeu a conferncia. Fiquei sabendo s que a mulher era filha
do Dr. Lousada, seu protetor e amigo, a mesma que lhe dera o boto de coral.
Elisirio calou-se de repente, e depois de alguns instantes como arrependido ou
vexado, pediu-me que no referisse a pessoa alguma aquela cena dele comigo.

 O senhor deve conhecer-me...

 Conheo, e porque o conheo  que
vim aqui. No sei que outra pessoa me merecesse agora igual confiana. Adeus,
no lhe digo mais nada, no vale a pena. Voc  moo, Tosta; se no tiver
vocao para o casamento, no se case nunca, nem por gratido, nem por
interesse. H de ser um suplcio. Adeus. No lhe digo onde moro, moro com meu
sogro, mas no me procure.

Abraou-me e saiu. Fiquei  porta
do quarto. Quando me lembrei de acompanh-lo at escada, era tarde; ia descendo
os ltimos degraus. O lampio de azeite alumiava mal a escada, e a figura
descia vagarosa, apoiada ao corrimo, cabea baixa e a vasta sobrecasaca
alegre, agora triste.

S dez meses depois tornei a ver o
Elisirio. A primeira ausncia foi minha; tinha ido ao Cear, ver meu pai, durante
as frias. Quando voltei, soube que ele fora ao Rio Grande do Sul. Um dia,
almoando, li nos jornais que chegara na vspera, e corri a busc-lo. Achei-o em Santa Teresa, uma casinha pequena, com um jardim, pouco maior que ela. Elisirio abraou-me com
alvoroo; falamos de coisas passadas; perguntei-lhe pelos versos.

 Publiquei um volume em Porto Alegre. No foi por minha vontade, mas minha mulher teimou tanto que afinal cedi; ela
mesma os copiou. Tem alguns erros; hei de fazer aqui uma segunda edio.

Elisirio deu-me um exemplar do
livro, mas no consentiu que lesse ali nada. Queria s falar dos tempos idos.
Perdera o sogro, que lhe deixara alguma coisa, e ia continuar a lecionar, para
ver se achava as impresses de outrora. Onde estavam os rapazes da Rua do
Lavradio? Recordava cenas antigas, noitadas, algazarra, grandes risotas, que me
iam lembrando coisas anlogas, e assim gastamos duas boas horas compridas.
Quando me despedi, pegou-me para jantar.

 Voc ainda no viu minha mulher,
disse ele. E indo  porta que dava para dentro:  Cintinha!

 L vou! respondeu uma voz doce.

D. Jacinta chegou logo depois, com
os seus vinte e seis anos, mais baixa que alta, mais feia que bonita, expresso
boa e sria, grande quietao de maneiras. Quando ele lhe disse o meu nome,
olhou para mim espantada.

 No  um bonito rapaz?

Ela confirmou a opinio inclinando
modestamente a cabea. Elisirio disse-lhe que eu jantava com eles; a moa
retirou-se da sala.

 Boa criatura, disse-me ele;
dedicada, servial. Parece que me adora. J me no faltam botes nos palets
que trago... Pena! melhor que eles eram os botes que faltavam. A sobrecasaca
de outrora, lembra-se?

Podia embrulhar o mundo

A opa do Elisirio.

 Lembra-me.

 Creio que me durou cinco anos.
Onde vai ela! Hei de fazer-lhe um epicdio, com uma epgrafe de Horcio...

Jantamos alegremente. D. Jacinta
falou pouco; deixou que eu e o marido gastssemos o tempo em relembrar o
passado. Naturalmente, o marido tinha surtos de eloqncia, como outrora; a
mulher era pouca para ouvi-lo. Elisirio esquecia-se de ns, ela de si, e eu
achava a mesma nota antiga, to viva e to forte. Era costume dele concluir um
discurso desses e ficar algum tempo calado. Resumia dentro de si o que acabava
de dizer? Continuava a mesma ordem de idias? Deixava-se ir ainda pela msica
da palavra? No sei; achei-lhe o velho costume de ficar calado sem dar pelos
outros. Nessas ocasies a mulher calava-se tambm, a olhar para ele, no cheia
de pensamento, mas de admirao. Sucedeu isso duas vezes. Em ambas chegou a ser
bonita.

Elisirio disse-me, ao caf, que
viria comigo abaixo.

 Voc deixa, Cintinha?

D. Jacinta sorriu para mim, como
se dissesse que o pedido era desnecessrio. Tambm ela falou no livro de versos
do marido.

 Elisirio  preguioso; o senhor
h de ajudar-me a fazer com que ele trabalhe.

Meia hora depois descamos a
ladeira. Elisirio confessou-me que, desde que casara, no tivera ocasio de
relembrar a vida de solteiro, e ao chegarmos abaixo declarou-me que iramos ao
teatro.

 Mas voc no avisou em casa...

 Que tem? Aviso depois. Cintinha
 boa, no se zanga por isso. Que teatro h de ser?

No foi nenhum; falamos de outras
coisas, e s nove horas tornou para casa. Voltei a Santa Teresa poucos dias
depois, no o achei, mas a mulher disse-me que o esperasse, no tardaria.

 Foi a uma visita aqui mesmo no
morro, disse ela; h de gostar muito de o ver.

Enquanto falava, ia fechando
dissimuladamente um livro, e foi p-lo em uma mesa, a um canto. Tratamos do
marido; ela pediu-me que lhe dissesse o que pensava dele, se era um grande
esprito, um grande poeta, um grande orador, um grande homem, em suma. As palavras no seriam propriamente essas, mas vinham a dar nelas. Eu, que o admirava,
confirmei-lhe o sentimento, e o gosto com que me ouviu foi paga bastante ao tal
ou qual esforo que empreguei para dar  minha opinio a mesma nfase.

 Faz bem em ser amigo dele,
concluiu; ele sempre me falou bem do senhor; dizia que era um menino muito
srio.

O gabinete tinha flores frescas e
uma gaiola com passarinho. Tudo em ordem, cada coisa em seu lugar, obra visvel
da mulher. Da a pouco entrou Elisirio, com a gravata no pescoo, o lao na
frente, a barba rapada, correto e em flor. S ento notei a diferena entre este Elisirio e o outro. A incoerncia dos gestos era j menor, ou estava
prestes a acabar inteiramente. A inquietao desaparecera. Logo que ele entrou,
a mulher deixou-nos para ir mandar fazer caf, e voltou pouco depois, com um
trabalho de agulha.

 No, senhora, vamos primeiro ao
latim, bradou o marido.

D. Jacinta corou
extraordinariamente, mas obedeceu ao marido e foi buscar o livro que estava
lendo quando eu cheguei.

 Tosta  de confiana, continuou Elisrio,
no vai dizer nada a ningum.

E voltando-se para mim:

 No pense que sou eu que lhe
imponho isto; ela mesma  que quis aprender.

No crendo o que ele me dizia,
quis poupar  moa a lio de latim, mas foi ela prpria que me dispensou o auxlio,
indo buscar alegremente a gramtica do Padre Pereira. Vencida a vergonha, deu a
lio, como um simples aluno. Ouvia com ateno, articulava com prazer, e
mostrava aprender com vontade. Acabado o latim, o marido quis passar  lio de
histria; mas foi ela, dessa vez, que recusou obedecer, para me no roub-lo a
mim. Eu, pasmado, desfiz-me em louvores; realmente achava to fora de propsito
aquela escola de latim conjugal, que no alcanava explicao, nem ousava
pedi-la.

Amiudei as visitas. Jantava com
eles algumas vezes. Ao domingo ia s almoar. D. Jacinta era um primor. No
imaginas a graa que tinha em falar e andar, tudo sem perder a compostura dos
modos nem a gravidade dos pensamentos. Sabia muitos trabalhos de mos, apesar
do latim e da histria que o marido lhe ensinava. Vestia com simplicidade,
usava os cabelos lisos e no trazia jia alguma; podia ser afetao, mas tal
era a sinceridade que punha em tudo, que parecia natural nisso como no resto.

Ao domingo, o almoo era no
jardim. J achava o Elisirio  minha espera,  porta, ansioso que eu chegasse.
A mulher estava acabando de arranjar as flores e folhagens que tinham de
adornar a mesa. Alm disso e do mais, adornava cartes contendo a lista dos
pratos, com emblemas poticos e nomes de musas para as comidas. Nem todas as
musas podiam entrar, eles no eram ricos, nem ns to comiles; entravam as que
podiam. Era ao almoo que Elisirio, nos primeiros tempos, mais geralmente
improvisava alguma coisa. Improvisava dcimas,  ele preferia essa estrofe a
qualquer outra; mais tarde, foi diminuindo o nmero delas, e para diante no
passava de duas ou de uma. D. Jacinta pedia-lhe ento sonetos; sempre eram
quatorze versos. Ela e eu copivamos logo, a lpis, com retificaes que ele
fazia, rindo:  'Para que querem vocs isso?' Afinal perdeu o
costume, com grande mgoa da mulher, e minha tambm. Os versos eram bons, a
inspirao fcil; faltava-lhes s o calor antigo.

Um dia perguntei a Elisirio por
que no reimprimia o livro de versos, que ele dizia ter sado com incorrees;
eu ajudaria a ler as provas. D. Jacinta apoiou com entusiasmo a proposta.

 Pois, sim, disse ele, um dia
destes; comearemos domingo.

No domingo, D. Jacinta, estando a
ss comigo, um instante, pediu-me que no esquecesse a reviso do livro.

 No, senhora, deixe estar.

 No enfraquea, se ele quiser
adiar o trabalho, continuou a moa;  provvel que ele fale em guardar para
outra vez, mas teime sempre, diga que no, que se zanga, que no volta c...

Apertou-me a mo com tanta fora,
que me deixou abalado. Os dedos tremiam-lhe; parecia um aperto de namorada.
Cumpri o que disse, ela ajudou-me, e ainda assim gastamos meia hora antes que
ele se dispusesse ao trabalho. Afinal pediu-nos que esperssemos, ia buscar o
livro.

 Desta vez, vencemos, disse eu.

D. Jacinta fez com a boca um gesto
de desconfiana, e passou da alegria ao abatimento.

 Elisirio est preguioso. H de
ver que no acabamos nada. Pois no v que no faz versos seno  fora de
muito pedido, e poucos? Podia escrever tambm, quando mais no fosse alguns
daqueles discursos que costuma improvisar, mas os prprios discursos so raros
e curtos. Tenho-me oferecido tantas vezes para escrever o que ele mandar...
Chego a preparar o papel, pego na pena e espero; ele ri, disfara, diz um
gracejo, e responde que no est disposto.

 Nem sempre estar.

 Pois sim; mas ento declaro que
estou pronta para quando vier a inspirao, e peo-lhe que me chame. No chama
nunca. Uma ou outra vez tem planos; eu vou animando, mas os planos ficam no
mesmo. Entretanto, o livro que ele imprimiu em Porto Alegre foi bem recebido, podia anim-lo.

 Anim-lo? Mas ele no precisa de
animaes; basta-lhe o grande talento que tem.

 No  verdade? disse ela
chegando-se a mim, com os olhos cheios de fogo. Mas  pena! tanto talento
perdido!

 Ns o acharemos; hei de trat-lo
como se ele fosse mais moo que eu. O mau foi deix-lo cair na ociosidade...

Elisirio tornou com um exemplar do
livro. No trazia tinta nem pena; ela foi busc-las. Comeamos o trabalho da
reviso; o plano era emendar, no s os erros de imprensa, mas o prprio texto.
A novidade do caso interessou grandemente o nosso poeta, durante perto de duas
horas. Verdade  que a maior parte do tempo era interrompido com a histria das
poesias, a notcia das pessoas, se as havia, e havia muitas; uma boa poro das
composies era dedicada a amigos ou homens pblicos. Naturalmente fizemos
pouco: no passamos de vinte pginas. Elisirio confessou que estava com sono,
adiamos o trabalho, e nunca mais pegamos nele.

D. Jacinta chegou a pedir ao
marido que nos deixasse a ns a tarefa de emendar o livro; ele veria depois o
texto emendado e pronto. Elisirio respondeu que no, que ele mesmo faria tudo,
que esperssemos, no havia pressa. Mas, como disse, nunca mais pegamos no
livro. J raro improvisava, e, como no tinha pacincia para compor escrevendo,
os versos iam escasseando mais. J lhe saam frouxos; o poeta repetia-se. Quisemos
ainda assim propor-lhe outro livro, recolhendo o que havia, e antes de o
propor, tratamos de compil-lo. O todo precisava de reviso; Elisirio
consentiu em faz-la, mas a tentativa teve o mesmo resultado que a outra. Os
prprios discursos iam acabando. O gosto da palavra morria. Falava como todos
ns falamos; no era j nem sombra daquela catadupa de idias, de imagens, de
frases, que mostravam no orador um poeta. Para o fim, nem falava; j me recebia
sem entusiasmo, ainda que cordialmente. Afinal vivia aborrecido.

Com poucos anos de casada, D.
Jacinta tinha no marido um homem de ordem, de sossego, mas sem inspirao nem
calor. Ela prpria foi mudando tambm. No instava j pela composio de versos
novos, nem pela correo dos velhos. Ficou to desinteressada como ele. Os
jantares e os almoos eram como os de qualquer pessoa que no cuide de letras.
D. Jacinta buscava no tocar em tal assunto que era penoso ao marido e a ela;
eu imitava-os. Quando me formei, Elisirio comps um soneto em honra minha; mas
j lhe custou muito, e, a falar verdade, no era do mesmo homem de outro tempo.

D. Jacinta vivia ento, no direi
triste, mas desencantada. A razo no se compreender bem, seno sabendo as
origens da afeio que a levara ao casamento.

Pelo que pude colher e observar,
nunca essa moa amou verdadeiramente o homem com quem casou. Elisirio
acreditou que sim, e o disse, porque o pai dela pensava que era deveras um amor
como os outros. A verdade, porm,  que o sentimento de D. Jacinta era pura
admirao. Tinha uma paixo intelectual por esse homem, nada mais, e nos
primeiros anos no pensou em casar com ele. Quando Elisirio ia  casa do Dr.
Lousada, D. Jacinta vivia as melhores horas da vida, escutando-lhe os versos,
novos ou velhos,  os que trazia de cor e os que improvisava ali mesmo. Possua
boa cpia deles. Mas, ainda que no fossem versos, contentava-se em ouvi-lo
para admir-lo. Elisirio, que a conhecia desde pequena, falava-lhe como a uma
irm mais moa. Depois viu que era inteligente, mais do que o comum das
mulheres, e que havia nela um sentimento de poesia e de arte que a faziam
superior. O apreo em que a tinha era grande, mas no passava disso.

Assim se passaram anos. D. Jacinta
comeou a pensar em um ato de pura dedicao. Conhecia a vida de Elisirio, os
dias perdidos, as noitadas, a incoerncia e o desarranjo de uma existncia que
ameaava acabar na inutilidade. Nenhum estmulo, nenhuma ambio de futuro. D.
Jacinta acreditava no gnio de Elisirio. Muitos eram os admiradores; nenhum tinha
a f viva, a devoo calada e profunda daquela moa. O projeto era despos-lo.
Uma vez casados, ela lhe daria a ambio que no tinha, o estmulo, o hbito do
trabalho regular, metdico, e naturalmente abundante. Em vez de perder o tempo
e a inspirao em coisas fteis ou conversas ociosas, comporia obras de flego,
nas boas horas e para ele quase todas as horas eram excelentes. O grande poeta
afirmar-se-ia perante o mundo. Assim disposta, no lhe foi difcil obter a
colaborao do pai, sem todavia confessar-lhe o motivo secreto da ao; seria
dizer que se casava sem amor. O que ela disse foi que o amava deveras.

Que haja nisso uma nota romanesca,
 verdade; mas o romanesco era aqui obra de piedade, vinha de um sentimento de admirao,
e podia ser um sacrifcio. Talvez mais de um tentasse casar com ela. D. Jacinta
no pensou em ningum, at que lhe surdiu a idia generosa de seduzir o poeta.
J sabes que este casou por obedincia.

O resultado foi inteiramente
oposto s esperanas da moa. O poeta, em vez dos louros, enfiou uma carapua
na cabea, e mandou bugiar a poesia. Acabou em nada. Para o fim dos tempos nem lia j obras de arte. D. Jacinta padeceu grandemente; viu
esvair-se-lhe o sonho, e, se no perdeu, antes ganhou o latim, perdeu aquela
lngua sublime em que cuidou falar s ambies de um grande esprito. A
concluso a que chegou foi ainda um desconsolo para si. Concluiu que o
casamento esterilizara uma inspirao que s tinha ambiente na liberdade do
celibato. Sentiu remorsos. Assim, alm de no achar as douras do casamento na
unio com Elisirio, perdeu a nica vantagem a que se propusera no sacrifcio.

Errava naturalmente. Para mim
Elisirio era o mesmo erradio, ainda que parecesse agora pousado; mas era
tambm um talento de pouca dura; tinha de acabar, ainda que no casasse. No
foi a ordem que lhe tirou a inspirao. Certamente, a desordem ia mais com ele
que tanto tinha de agitado, como de solitrio; mas a quietao e o mtodo no
dariam cabo do poeta, se a poesia nele no fosse uma grande febre da
mocidade... Em mim  que no passou de ligeira constipao da adolescncia.
Pede-me tu amor, que o ters; no me peas versos, que desaprendi h muito,
concluiu Tosta, beijando a mulher.

ETERNO!

 No me expliques nada, disse eu entrando no quarto;  o
negcio da baronesa.

Norberto enxugou os olhos e sentou-se na cama, com as
pernas pendentes. Eu, cavalgando uma cadeira, pousei a barba no dorso, e
proferi este breve discurso:

 Mas, meu pateta, quantas vezes queres que te diga que
acabes com essa paixo ridcula e humilhante? Sim, senhor, humilhante e
ridcula, porque ela no faz caso de ti; e demais,  arriscado. No? Vers se o
, quando o baro desconfiar que lhe arrastas a asa  mulher. Olha que ele tem
cara de maus bofes.

Norberto meteu as unhas na cabea, desesperado. Tinha-me
escrito cedo, pedindo que fosse confort-lo e dar-lhe algum conselho;
esperara-me na rua, at perto de uma hora da noite, defronte da casa de penso
em que eu morava; contava-me na carta que no dormira, que recebera um golpe
terrvel, falava em atirar-se ao mar. Eu, apesar de outro golpe que tambm
recebera, acudi ao meu pobre Norberto. ramos da mesma idade, estudvamos
medicina, com a diferena que eu repetia o terceiro ano, que perdera, por
vadio. Norberto vivia com os pais; no me cabendo igual fortuna, por hav-los
perdido, vivia de uma mesada que me dava um tio da Bahia e das dvidas que o
bom velho pagava semestralmente. Pagava-as, e escrevia-me logo uma poro de
coisas amargas, concluindo sempre que, pelo menos, fosse estudando at ser
doutor. Doutor, para qu? dizia comigo. Pois se nem o sol, nem a lua, nem as
moas, nem os bons charutos Vilegas eram doutores, que necessidade tinha eu de
o ser? E tocava a rir, a folgar, a deixar correr semanas e credores.

Falei de um golpe recebido. Era uma carta do tio, vinda
com a do Norberto, naquela mesma manh. Abri-a antes da outra, e li-a com
pasmo. J me no tuteava; dizia cerimoniosamente: 'Sr. Simeo Antnio de
Barros, estou farto de gastar  toa o meu dinheiro com o senhor. Se quiser
concluir os estudos, venha matricular-se aqui, e morar comigo. Se no, procure
por si mesmo recursos; no lhe dou mais nada.' Amarrotei o papel, finquei
os olhos numa litografia muito ruim do Visconde de Sepetiba, que j achei
pendente de um prego, no meu quarto de penso, e disse-lhe os nomes mais feios,
de maluco para baixo. Bradei que podia guardar o seu dinheiro, que eu tinha
vinte anos,  o primeiro dos direitos do homem, anterior aos tios e outras
convenes sociais.

A imaginao, madre amiga, apontou-me logo uma infinidade
de recursos, que bastavam a dispensar os magros cobres de um velho avarento;
mas, passada essa primeira impresso, e relida a carta, entrei a ver que a
soluo era mais rdua do que parecia. Os recursos podiam ser bons e at
certos; mas eu estava to afeito a ir  Rua da Quitanda receber a penso mensal
e a gast-la em dobro, que mal podia adotar outro sistema.

Foi neste ponto que abri a carta do amigo Norberto e corri
 casa dele. J sabem o que lhe disse; viram que ele meteu as unhas na cabea,
desesperado. Saibam agora que, depois do gesto, disse com olhar sombrio que
esperava de mim outros conselhos.

 Quais?

No me respondeu.

 Que compres uma pistola ou uma gazua? algum narctico?

 Para que ests caoando comigo?

 Para fazer-te homem.

Norberto deu de ombros, com um laivozinho de escrnio ao
canto da boca. Que homem? Que era ser homem seno amar a mais divina criatura do
mundo e morrer por ela?

A Baronesa de Magalhes, causa daquela demncia, viera
pouco antes da Bahia, com o marido, que antes do baronato, adquirido para
satisfazer a noiva, era Antnio Jos Soares de Magalhes. Vinham casados de
fresco; a baronesa tinha menos trinta anos que o baro; ia em vinte e quatro.
Realmente era bela. Chamavam-lhe, em famlia, Iai Lindinha. Como o baro era
velho amigo do pai de Norberto, as duas famlias uniram-se desde logo.

 Morrer por ela? disse eu.

Jurou-me que sim; era capaz de matar-se. Mulher
misteriosa! A voz dela entrava-lhe pelos ossos... E, dizendo isto, rolava na
cama, batia com a cabea, mordia os travesseiros. s vezes, parava, arquejando;
logo depois tornava s mesmas convulses, abafando os soluos e os gritos, para
que os no ouvissem do primeiro andar.

J acostumado s lgrimas do meu amigo, desde a vinda da
baronesa, esperei que elas acabassem, mas no acabavam. Descavalguei a cadeira,
fui a ele, bradei-lhe que era uma crianada, e despedi-me; Norberto pegou-me na
mo, para que ficasse, no me tinha dito ainda o principal.

  verdade; que ?

 Vo-se embora. Estivemos l ontem, e ouvi que embarcam
sbado.

 Para a Bahia?

 Sim.

 Ento, vo comigo.

Contei-lhe o caso da carta, e as ordens de meu tio para ir
matricular-me na Bahia, e estudar ao p dele. Norberto escutou-me alvoroado.
Na Bahia? Iramos juntos; ramos ntimos, os pais no recusariam este favor 
nossa jovem amizade. Confesso que o plano pareceu-me excelente, e demo-nos a
ele com afinco. A me, apesar de muita lgrima que teria de verter ao
despegar-se do filho, cedeu mais prontamente do que supnhamos. O pai  que no
cedeu nada. No houve rogos nem empenhos; o prprio baro, que eu tive a arte
de trazer ao nosso propsito, no alcanou do velho amigo que deixasse ir o
filho, nem ainda com a promessa de o aposentar em casa e velar por ele. O pai
foi inflexvel.

Podem imaginar o desespero do meu amigo. Na noite de
sexta-feira esteve em casa dela, com a famlia, at onze horas; mas, com o
pretexto de passar comigo a ltima noite da minha estada aqui, veio realmente
chorar tantas e tais lgrimas, como nunca as vi chorar jamais, nem antes nem
depois. No podia descrer da paixo, nem presumir consol-la; era a primeira.
At ento, ambos ns s conhecamos os trocos midos do amor; e, por desgraa
dele a primeira moeda grande que achara, no era ouro nem prata, seno ferro,
duro ferro, como a do velho Licurgo, forjada como mesmo amargo vinagre.

No dormimos. Norberto chorava, arrepelava-se, pedia a
morte, construa planos absurdos ou terrveis. Eu, arranjando as malas, ia-lhe
dizendo alguma coisa que o consolasse; era pior, era como se falasse de dana a
uma perna dolorida. Consegui que fumasse um cigarro, depois outro, e afinal
fumou-os s dzias, sem acabar nenhum. s trs horas tratava do modo de fugir
ao Rio de Janeiro,  no logo, mas da a dias, no primeiro vapor. Tirei-lhe
essa idia da cabea unicamente no interesse dele prprio.

 Ainda se fosse til, v, disse-lhe eu; mas ir sem
certeza de nada, ir dar com o nariz na porta, porque a mulher, se no gosta de
ti, e te v l,  capaz de perceber logo o motivo da tua viagem, e no te
recebe.

 Que sabes tu?

 Pode receber-te, mas no h certeza, acho eu. Crs que
ela goste de ti?

 No digo que sim, nem que no.

Contou-me episdios, gestos, ditos, coisas ambguas ou
insignificantes; depois vinha uma reticncia de lgrimas, murros no peito,
clamor de angstia, a dor ia-se-me comunicando; padecia com ele, a razo cedia
 compaixo, as nossas naturezas fundiam-se em uma s lstima. Da esta
promessa que lhe fiz.

 Tenho uma idia. Vou com eles, j nos conhecemos, 
provvel que freqente a casa; eu ento farei uma coisa: sondo-a a teu
respeito. Se vir que nem pensa em ti, escrevo-te francamente que penses em
outra coisa; mas se achar alguma inclinao, pouca que seja, aviso-te, e, ou
por bem ou por mal, embarca.

Norberto aceitou alvoroado a proposta; era uma esperana.
Fez-me jurar que cumpriria tudo, que a observaria bem, sem temor, e, pela sua
parte, jurou-me que no hesitaria um instante. E teimava comigo que no
perdesse nada; que, s vezes, um indcio pequeno valia muito, uma palavrinha
era um livro; que, se pudesse, aludisse ao desespero em que o deixava. Para
peitar a minha sagacidade, afirmou que o desengano mat-lo-ia, porque esse
amor, eterno como era, iria fartar-se na morte e na eternidade. No achei boca
para replicar-lhe que isto era o mesmo que obrigar-me a s mandar boas
notcias. Naquela ocasio, apenas sabia chorar com ele.

A aurora registrou o nosso pacto imoral. No consenti que
ele fosse a bordo despedir-se. Parti. No falemos da viagem...  mares de
Homero, flagelados por Euros, Breas e o violento Zfiro, mares picos, podeis
sacudir Ulisses, mas no lhe dais as aflies do enjo. Isso  bom para os
mares de agora, e particularmente para aqueles que me levaram daqui  Bahia. S
depois de chegar ante a cidade, ousei aparecer  nossa dona magnfica, to
senhora de si, como se acabasse de dar um passeio apenas longo.

 No tem saudades do Rio de Janeiro? disse-lhe eu logo,
de intrito.

 Certamente.

O baro veio indicar-me os lugares que a gente via do paquete,
 ou a direo de outros. Ofereceu-me a casa dele, no Bonfim. Meu tio veio a
bordo, e, por mais que quisesse fazer-se ttrico, senti-lhe o corao amigo.
Via-me, nico filho da irm finada,  e via-me obediente. No podia haver para
mim melhores impresses de entrada. Divina juventude! as coisas novas
pagavam-me em dobro as coisas velhas.

Dei os primeiros dias ao conhecimento da cidade; mas no
tardou que uma carta do meu amigo Norberto me chamasse a ateno para ele. Fui
ao Bonfim. A baronesa  ou Iai Lindinha, que era ainda o nome dado por toda a
gente,  recebeu-me com tanta graa, e o marido era to hospedeiro e bom, que
me envergonhei da particular comisso que trazia. Mas durou pouco a vergonha,
vi o desespero do meu amigo, e a necessidade de consol-lo ou desengan-lo era
superior a qualquer outra considerao. Confesso at uma singularidade; agora
que estavam separados entrou-me na alma a esperana de que ela no desgostasse
dele,  justamente o que eu negava antes. Talvez fosse o desejo de o ver feliz;
podia ser uma instigao da vaidade que me acenasse com a vitria em favor do
desgraado.

Naturalmente, conversamos do Rio de Janeiro. Eu dizia-lhe
as minhas saudades, falava das coisas que estava acostumado a ver, das ruas que
faziam parte da minha pessoa, das caras de todos os dias das casas, das
afeies... Oh! as afeies eram os laos mais apertados. Tinha amigos: os pais
de Norberto...

 Dois santos, interrompeu a moa; meu marido, que conhece
o velho desde muitos anos, conta dele coisas curiosas. Sabe que casou por uma
paixo fortssima?

 Adivinha-se. O filho  o fruto expressivo do amor dos
dois. Conheceu bem o meu pobre Norberto?

 Conheci; ia l  casa muitas vezes.

 No conheceu.

Iai Lindinha franziu levemente a testa.

 Perdoe-me se a desminto, continuei com vivacidade. No
conheceu a melhor alma, a mais pura e a mais ardente que Deus criou. Talvez que
ache parcial por ser amigo. A verdade  que ningum me prende mais ao Rio de
Janeiro. Coitado do meu Norberto! No imagina que homem talhado para dois
ofcios ao mesmo tempo, arcanjo e heri,  para dizer  terra as delcias do
cu, e para escalar o cu, se for preciso ir l levar as lamentaes humanas...

S no fim desta fala compreendi que era ridcula. Iai
Lindinha, ou no a entendeu assim, ou disfarou a opinio; disse-me somente que
a minha amizade era entusiasta, mas que o meu amigo parecia boa pessoa. No era
alegre, ou tinha crises melanclicas. Disseram-lhe que ele estudava muito...

 Muito.

No insisti para no atropelar os acontecimentos... Que o
leitor me no condene sem remisso nem agravo. Sei que o papel que eu fazia no
era bonito; mas j l vo vinte e sete anos. Confio do Tempo, que  um insigne
alquimista. D-se-lhe um punhado de lodo, ele o restitui em diamantes; quando
menos, em cascalho. Assim  que, se um homem de Estado escrever e publicar as
suas memrias, to sem escrpulo, que lhes no falte nada, nem confidncias
pessoais, nem segredos do governo, nem at amores, amores particularssimos e
inconfessveis, ver que escndalo levanta o livro. Diro, e diro bem, que o
autor  um cnico, indigno dos homens que confiaram nele e das mulheres que o
amaram. Clamor sincero e legtimo, porque o carter pblico impe muitos
resguardos; os bons costumes e o prprio respeito s mulheres amadas
constrangem ao silncio...

... Mas deixai pingar os anos na cuba de um sculo. Cheio
o sculo, passa o livro a documento histrico, psicolgico, anedtico. Ho de l-lo
a frio; estudar-se- nele a vida ntima do nosso tempo, a maneira de amar, a de
compor os ministrios e deit-los abaixo, se as mulheres eram mais animosas que
dissimuladas, como  que se faziam eleies e galanteios, se eram usados xales
ou capas, que veculos tnhamos, se os relgios eram trazidos  direita ou 
esquerda, e multido de coisas interessantes para a nossa histria pblica e
ntima. Da a esperana que me fica, de no ser condenado absolutamente pela
conscincia dos que me lem. J l vo vinte e sete anos!

Gastei mais de meio em bater  porta daquele corao, a
ver se l achava o Norberto; mas ningum me respondia de dentro, nem o prprio
marido. No obstante, as cartas que mandava ao meu pobre amigo, se no levavam
esperanas, tambm no levavam desenganos. Houve-as at mais esperanosas que
desenganadas. A afeio que lhe tinha e o meu amor-prprio conjugavam as foras
todas para espertar nela a curiosidade e a seduo de um mistrio remoto e
possvel.

J ento as nossas relaes eram familiares. Visitava-os a
mido. Quando l no ia trs noites seguidas, vivia aflito e inquieto; corria a
v-los na quarta noite, e era ela que me esperava ao porto da chcara, para
dizer-me nomes feios, ingrato, preguioso, esquecido. Os nomes foram cessando,
mas a pessoa no deixava de estar ali  espera, com a mo prestes a apertar a
minha,  s vezes, trmula,  ou seria a minha que tremia; no sei.

 Amanh no posso vir, dizia-lhe algumas noites, 
despedida, baixo, no vo de uma janela.

 Por qu?

Explicava-lhe a causa, estudo ou alguma obrigao de meu
tio. Nunca tentou dissuadir-me de promessa, mas ficava desconsolada. Comecei a
escrever menos ao Norberto e a falar pouco de Iai Lindinha, como quem no ia 
casa dela. Tinha frmulas diferentes: 'Ontem encontrei o baro no largo do
Palcio; disse-me que a mulher est boa'. Ou ento: 'Sabes quem vi h
trs dias no teatro? A baronesa'. No relia as cartas, para no encarar a
minha hipocrisia. Ele, pela sua parte, tambm ia escrevendo menos, e bilhetes
curtos. Entre mim e a moa no aparecia mais o nome de Norberto;
convencionamos, sem palavras, que era um defunto, e um triste defunto sem galas
morturias.

Beirvamos o abismo, ambos teimando que era um reflexo da
cpula celeste,  incongruncia para os que no andam namorados. A morte
resolveu o problema, levando consigo o baro, por meio de um ataque de
apoplexia, no dia vinte e trs de maro de 1861, s seis horas da tarde. Era um
excelente homem, a quem a viva pagou em preces o que lhe no dera em amor.

Quando eu lhe pedi, trs meses depois, que, acabado o
luto, casasse comigo, Iai Lindinha no estranhou nem me despediu. Ao
contrrio, respondeu que sim, mas no to cedo; punha uma condio: que
conclusse primeiro os estudos, que me formasse. E disse isto com os mesmos
lbios, que pareciam ser o nico livro do mundo, o livro universal, a melhor
das academias, a escola das escolas. Apelei dela para ela; escutou-me
inflexvel. A razo que me deu foi que meu tio podia recear que, uma vez casado,
interromperia a carreira.

 E com razo, concluiu. Oua-me: s me caso com um
doutor.

Cumprimos ambos a promessa. Durante algum tempo andou ela
pela Europa, com uma cunhada e o marido desta; e as saudades foram ento as
minhas disciplinas mais duras. Estudei pacientemente; despeguei-me de todas as
vadiaes antigas. Recebi o capelo na vspera da bno matrimonial; e posso
dizer, sem hipocrisia, que achei o latim do padre muito superior ao discurso
acadmico.

Semanas depois, pediu-me Iai Lindinha que vissemos ao
Rio de Janeiro. Cedi ao pedido, confesso que um pouco atordoado. C viria achar
o meu amigo Norberto, se  que ele ainda residia aqui. Ia em mais de trs anos
que nos no escrevamos; j antes disso as nossas cartas eram breves e sem interesse.
Saberia do nosso casamento? Dos precedentes? Viemos; no contei nada a minha
mulher.

Para qu? Era dar-lhe notcia de uma aleivosia oculta,
dizia comigo. Ao chegar, pus esta questo a mim mesmo, se esperaria a visita
dele, se iria visit-lo antes; escolhi o segundo alvitre, para avis-lo das
coisas. Engenhei umas circunstncias especiais, curiosas, acarretadas pela
Providncia, cujos fios ficam sempre ocultos aos homens. No me ria, note-se
bem; minha imaginao compunha tudo isso com seriedade.

No fim de quatro dias, soube que Norberto morava para os
lados do Rio Comprido; estava casado. Tanto melhor. Corri a casa dele. Vi no
jardim uma preta amamentando uma criana, outra criana de ano e meio, que
recolhia umas pedrinhas do cho, acocorada.

 Nh Bertinho, vai dizer a mame que est aqui um moo
procurando papai.

O menino obedeceu; mas, antes que voltasse, chegava de
fora o meu velho amigo Norberto. Conheci-o logo, apesar das grandes suas que
usava; lanamo-nos nos braos um do outro.

 Tu aqui? Quando chegaste?

 Ontem.

 Ests mais gordo, meu velho! Gordo e bonito. Entremos.
Que ? continuou ele inclinando-se para Nh Bertinho, que lhe abraava uma das
pernas.

Pegou dele, alou-o, deu-lhe trinta mil beijos ou pouco
menos; depois, tendo-o num brao, apontou para mim.

 Conheces este moo?

Nh Bertinho olhava espantado, com o dedo na boca. O pai
contou-lhe ento que eu era um amigo de papai, muito amigo, desde o tempo em
que vov e vov eram vivos...

 Teus pais morreram?

Norberto fez-me sinal que sim, e acudiu ao filho, que com
as mozinhas espalmadas pegava da cara do pai, pedindo-lhe mais beijos. Depois,
foi  criana que mamava, no a tirou do regao da ama, mas disse-lhe muitas
coisas ternas, chamou-me para v-la; era uma menina. Revia-se nela, encantado.
Tinha cinco meses por ora; mas se eu voltasse ali quinze anos depois, veria que
mocetona. Que bracinhos! que dedos gordos! No podendo ter-se, inclinou-se e
beijou-a.

 Entra, anda ver minha mulher. Jantas conosco.

 No posso.

 Mame, est espiando, disse Nh Bertinho.

Olhei, vi uma moa  porta da sala, que dava para o
jardim; a porta estava aberta, ela esperava-nos. Subimos os cinco degraus;
entramos na sala. Norberto pegou-lhe nas mos, e deu-lhes dois beijos. A moa
quis recuar, no pde, ficou muito corada.

 No te vexes, Carmela, disse ele. Sabes quem  este
sujeito?  aquele Barros de quem te falei muitas vezes, um Simeo, estudante de
medicina... A propsito, por que  que no me respondeste  participao do
casamento?

 No recebi nada, respondi.

 Pois afirmo que foi pelo correio.

Carmela ouvia o marido com admirao; ele tanto fez, que
foi sentar-se ao p dela, para lhe reter a mo, s escondidas. Eu fingia no
ver nada; falava dos tempos acadmicos, de alguns amigos, da poltica, da
guerra, tudo para evitar que ele me perguntasse se estava ou no casado. J me
arrependia de ter ido ali; que lhe diria, se ele tocasse ao ponto e indagasse
da pessoa? No me falou em nada; talvez soubesse tudo.

A conversao prolongou-se; mas eu teimei em sair, e
levantei-me; Carmela despediu-se de mim com muita afabilidade. Era bela; os
olhos pareciam dar-lhe um resplendor de santa. Certo  que o marido tinha-lhe
adorao.

 Viste-a bem? perguntou-me ele  porta do jardim. No te
digo o sentimento que nos prende, estas coisas sentem-se, no se exprimem. De
que sorris? Achas-me naturalmente criana. Creio que sim; criana eterna, como
 eterno o meu amor.

Entrei no tlburi, prometendo ir l jantar um daqueles
dias.

 Eterno! disse comigo. Tal qual o amor que ele tinha a
minha mulher.

E, voltando-me para o cocheiro, perguntei-lhe:

 O que  eterno?

 Com perdo de V.S., acudiu ele, mas eu acho que eterno
 o fiscal da minha rua, um maroto que, se no lhe quebro a cara um destes
dias, a minha alma se no salve. Pois o maroto parece eterno no lugar; tem a
no sei que compadres... Outros dizem que... No me meto nisso... L
quebrar-lhe a cara...

No ouvi o resto: fui mergulhando em mim mesmo, ao zunzum
do cocheiro. Quando dei por mim, estava na Rua da Glria. O demnio continuava
a falar; paguei, e desci at  Praia da Glria, meti-me pela do Russell e fui
sair  do Flamengo. O mar batia com fora. Moderei o passo, e pus-me a olhar
para as ondas que vinham ali bater e morrer. C dentro, ressoava, como um
trecho musical, a pergunta que fizera ao cocheiro: O que  eterno? As ondas,
mais discretas que ele, no me contaram os seus particulares, vinham vindo,
morriam, vinham vindo, morriam.

Cheguei ao Hotel de Estrangeiros ao declinar da tarde.
Minha mulher esperava-me para jantar. Eu, ao entrar no quarto, peguei-lhe das
mos, e perguntei-lhe:

 O que  eterno, Iai Lindinha?

Ela, suspirando:

 Ingrato!  o amor que te tenho.

Jantei sem remorsos; ao contrrio, tranqilo e jovial.
Coisas do Tempo! D-se-lhe um punhado de lodo, ele o restitui em diamantes...

MISSA DO GALO

Nunca pude entender a conversao que tive com uma
senhora, h muitos anos, contava eu dezessete, ela trinta. Era noite de Natal.
Havendo ajustado com um vizinho irmos  missa do galo, preferi no dormir;
combinei que eu iria acord-lo  meia-noite.

A casa em que eu estava hospedado era a do escrivo
Meneses, que fora casado, em primeiras npcias, com uma de minhas primas. A
segunda mulher, Conceio, e a me desta acolheram-me bem, quando vim de
Mangaratiba para o Rio de Janeiro, meses antes, a estudar preparatrios. Vivia
tranqilo, naquela casa assobradada da Rua do Senado, com os meus livros,
poucas relaes, alguns passeios. A famlia era pequena, o escrivo, a mulher,
a sogra e duas escravas. Costumes velhos. s dez horas da noite toda a gente
estava nos quartos; s dez e meia a casa dormia. Nunca tinha ido ao teatro, e
mais de uma vez, ouvindo dizer ao Meneses que ia ao teatro, pedi-lhe que me
levasse consigo. Nessas ocasies, a sogra fazia uma careta, e as escravas riam
 socapa; ele no respondia, vestia-se, saa e s tornava na manh seguinte.
Mais tarde  que eu soube que o teatro era um eufemismo em ao. Meneses trazia amores com uma senhora, separada do marido, e dormia fora de casa uma
vez por semana. Conceio padecera, a princpio, com a existncia da combora;
mas afinal, resignara-se, acostumara-se, e acabou achando que era muito
direito.

Boa Conceio! Chamavam-lhe 'a santa', e fazia
jus ao ttulo, to facilmente suportava os esquecimentos do marido. Em verdade,
era um temperamento moderado, sem extremos, nem grandes lgrimas, nem grandes
risos. No captulo de que trato, dava para maometana; aceitaria um harm, com
as aparncias salvas. Deus me perdoe, se a julgo mal. Tudo nela era atenuado e
passivo. O prprio rosto era mediano, nem bonito nem feio. Era o que chamamos
uma pessoa simptica. No dizia mal de ningum, perdoava tudo. No sabia odiar;
pode ser at que no soubesse amar.

Naquela noite de Natal foi o escrivo ao teatro. Era pelos
anos de 1861 ou 1862. Eu j devia estar em Mangaratiba, em frias; mas fiquei
at o Natal para ver 'a missa do galo na Corte'. A famlia
recolheu-se  hora do costume; eu meti-me na sala da frente, vestido e pronto.
Dali passaria ao corredor da entrada e sairia sem acordar ningum. Tinha trs
chaves a porta; uma estava com o escrivo, eu levaria outra, a terceira ficava
em casa.

 Mas, Sr. Nogueira, que far voc todo esse tempo?
perguntou-me a me de Conceio.

 Leio, D. Incia.

Tinha comigo um romance, Os Trs Mosqueteiros,
velha traduo creio do Jornal do Comrcio. Sentei-me  mesa que havia
no centro da sala, e  luz de um candeeiro de querosene, enquanto a casa
dormia, trepei ainda uma vez ao cavalo magro de D'Artagnan e fui-me s
aventuras. Dentro em pouco estava completamente brio de Dumas. Os minutos
voavam, ao contrrio do que costumam fazer, quando so de espera; ouvi bater
onze horas, mas quase sem dar por elas, um acaso. Entretanto, um pequeno rumor
que ouvi dentro veio acordar-me da leitura. Eram uns passos no corredor que ia
da sala de visitas  de jantar; levantei a cabea; logo depois vi assomar 
porta da sala o vulto de Conceio.

 Ainda no foi? perguntou ela.

 No fui, parece que ainda no  meia-noite.

 Que pacincia!

Conceio entrou na sala, arrastando as chinelinhas da
alcova. Vestia um roupo branco, mal apanhado na cintura. Sendo magra, tinha um
ar de viso romntica, no disparatada com o meu livro de aventuras. Fechei o
livro; ela foi sentar-se na cadeira que ficava defronte de mim, perto do
canap. Como eu lhe perguntasse se a havia acordado, sem querer, fazendo
barulho, respondeu com presteza:

 No! qual! Acordei por acordar.

Fitei-a um pouco e duvidei da afirmativa. Os olhos no
eram de pessoa que acabasse de dormir; pareciam no ter ainda pegado no sono.
Essa observao, porm, que valeria alguma coisa em outro esprito, depressa a
botei fora, sem advertir que talvez no dormisse justamente por minha causa, e
mentisse para me no afligir ou aborrecer. J disse que ela era boa, muito boa.

 Mas a hora j h de estar prxima, disse eu.

 Que pacincia a sua de esperar acordado, enquanto o
vizinho dorme! E esperar sozinho! No tem medo de almas do outro mundo? Eu
cuidei que se assustasse quando me viu.

 Quando ouvi os passos estranhei; mas a senhora apareceu
logo.

 Que  que estava lendo? No diga, j sei,  o romance
dos Mosqueteiros.

 Justamente:  muito bonito.

 Gosta de romances?

 Gosto.

 J leu a Moreninha?

 Do Dr. Macedo? Tenho l em Mangaratiba.

 Eu gosto muito de romances, mas leio pouco, por falta de
tempo. Que romances  que voc tem lido?

Comecei a dizer-lhe os nomes de alguns. Conceio ouvia-me
com a cabea reclinada no espaldar, enfiando os olhos por entre as plpebras
meio-cerradas, sem os tirar de mim. De vez em quando passava a lngua pelos
beios, para umedec-los. Quando acabei de falar, no me disse nada; ficamos
assim alguns segundos. Em seguida, vi-a endireitar a cabea, cruzar os dedos e
sobre eles pousar o queixo, tendo os cotovelos nos braos da cadeira, tudo sem
desviar de mim os grandes olhos espertos.

'Talvez esteja aborrecida', pensei eu.

E logo alto:

 D. Conceio, creio que vo sendo horas, e eu...

 No, no, ainda  cedo. Vi agora mesmo o relgio, so
onze e meia. Tem tempo. Voc, perdendo a noite,  capaz de no dormir de dia?

 J tenho feito isso.

 Eu, no; perdendo uma noite, no outro dia estou que no
posso, e, meia hora que seja, hei de passar pelo sono. Mas tambm estou ficando
velha.

 Que velha o que, D. Conceio?

Tal foi o calor da minha palavra que a fez sorrir. De
costume tinha os gestos demorados e as atitudes tranqilas; agora, porm,
ergueu-se rapidamente, passou para o outro lado da sala e deu alguns passos,
entre a janela da rua e a porta do gabinete do marido. Assim, com o desalinho
honesto que trazia, dava-me uma impresso singular. Magra embora, tinha no sei
que balano no andar, como quem lhe custa levar o corpo; essa feio nunca me
pareceu to distinta como naquela noite. Parava algumas vezes, examinando um
trecho de cortina ou concertando a posio de algum objeto no aparador; afinal
deteve-se, ante mim, com a mesa de permeio. Estreito era o crculo das suas
idias; tornou ao espanto de me ver esperar acordado; eu repeti-lhe o que ela
sabia, isto , que nunca ouvira missa do galo na Corte, e no queria perd-la.

  a mesma missa da roa; todas as missas se parecem.

 Acredito; mas aqui h de haver mais luxo e mais gente
tambm. Olhe, a semana santa na Corte  mais bonita que na roa. S. Joo no
digo, nem Santo Antnio...

Pouco a pouco, tinha-se reclinado; fincara os cotovelos no
mrmore da mesa e metera o rosto entre as mos espalmadas. No estando abotoadas
as mangas, caram naturalmente, e eu vi-lhe metade dos braos, muito claros, e
menos magros do que se poderiam supor.

A vista no era nova para mim, posto tambm no fosse
comum; naquele momento, porm, a impresso que tive foi grande. As veias eram
to azuis, que apesar da pouca claridade, podia cont-las do meu lugar. A
presena de Conceio espertara-me ainda mais que o livro. Continuei a dizer o
que pensava das festas da roa e da cidade, e de outras coisas que me iam vindo
 boca. Falava emendando os assuntos, sem saber por que, variando deles ou
tornando aos primeiros, e rindo para faz-la sorrir e ver-lhe os dentes que
luziam de brancos, todos iguaizinhos. Os olhos dela no eram bem negros, mas
escuros; o nariz, seco e longo, um tantinho curvo, dava-lhe ao rosto um ar
interrogativo. Quando eu alteava um pouco a voz, ela reprimia-me:

 Mais baixo! mame pode acordar.

E no saa daquela posio, que me enchia de gosto, to
perto ficavam as nossas caras. Realmente, no era preciso falar alto para ser
ouvido: cochichvamos os dois, eu mais que ela, porque falava mais; ela, s
vezes, ficava sria, muito sria, com a testa um pouco franzida. Afinal,
cansou; trocou de atitude e de lugar. Deu volta  mesa e veio sentar-se do meu
lado, no canap. Voltei-me e pude ver, a furto, o bico das chinelas; mas foi s
o tempo que ela gastou em sentar-se, o roupo era comprido e cobriu-as logo.
Recordo-me que eram pretas. Conceio disse baixinho:

 Mame est longe, mas tem o sono muito leve; se
acordasse agora, coitada, to cedo no pegava no sono.

 Eu tambm sou assim.

 O qu? perguntou ela inclinando o corpo, para ouvir
melhor.

Fui sentar-me na cadeira que ficava ao lado do canap e
repeti-lhe a palavra. Riu-se da coincidncia; tambm ela tinha o sono leve;
ramos trs sonos leves.

 H ocasies em que sou como mame; acordando, custa-me
dormir outra vez, rolo na cama,  toa, levanto-me, acendo vela, passeio, torno
a deitar-me e nada.

 Foi o que lhe aconteceu hoje.

 No, no, atalhou ela.

No entendi a negativa; ela pode ser que tambm no a
entendesse. Pegou das pontas do cinto e bateu com elas sobre os joelhos, isto
, o joelho direito, porque acabava de cruzar as pernas. Depois referiu uma
histria de sonhos, e afirmou-me que s tivera um pesadelo, em criana. Quis saber se eu os tinha. A conversa reatou-se assim lentamente, longamente, sem
que eu desse pela hora nem pela missa. Quando eu acabava uma narrao ou uma
explicao, ela inventava outra pergunta ou outra matria, e eu pegava
novamente na palavra. De quando em quando, reprimia-me:

 Mais baixo, mais baixo...

Havia tambm umas pausas. Duas outras vezes, pareceu-me
que a via dormir; mas os olhos, cerrados por um instante, abriam-se logo sem
sono nem fadiga, como se ela os houvesse fechado para ver melhor. Uma dessas
vezes creio que deu por mim embebido na sua pessoa, e lembra-me que os tornou a
fechar, no sei se apressada ou vagarosamente. H impresses dessa noite, que
me aparecem truncadas ou confusas. Contradigo-me, atrapalho-me. Uma das que
ainda tenho frescas  que, em certa ocasio, ela, que era apenas simptica,
ficou linda, ficou lindssima. Estava de p, os braos cruzados; eu, em
respeito a ela, quis levantar-me; no consentiu, ps uma das mos no meu ombro,
e obrigou-me a estar sentado. Cuidei que ia dizer alguma coisa; mas estremeceu,
como se tivesse um arrepio de frio, voltou as costas e foi sentar-se na
cadeira, onde me achara lendo. Dali relanceou a vista pelo espelho, que ficava
por cima do canap, falou de duas gravuras que pendiam da parede.

 Estes quadros esto ficando velhos. J pedi a Chiquinho
para comprar outros.

Chiquinho era o marido. Os quadros falavam do principal
negcio deste homem. Um representava 'Clepatra'; no me recordo o assunto
do outro, mas eram mulheres. Vulgares ambos; naquele tempo no me pareciam
feios.

 So bonitos, disse eu.

 Bonitos so; mas esto manchados. E depois francamente,
eu preferia duas imagens, duas santas. Estas so mais prprias para sala de rapaz
ou de barbeiro.

 De barbeiro? A senhora nunca foi a casa de barbeiro.

 Mas imagino que os fregueses, enquanto esperam, falam de
moas e namoros, e naturalmente o dono da casa alegra a vista deles com figuras
bonitas. Em casa de famlia  que no acho prprio.  o que eu penso; mas eu
penso muita coisa assim esquisita. Seja o que for, no gosto dos quadros. Eu
tenho uma Nossa Senhora da Conceio, minha madrinha, muito bonita; mas  de
escultura, no se pode pr na parede, nem eu quero. Est no meu oratrio.

A idia do oratrio trouxe-me a da missa, lembrou-me que
podia ser tarde e quis diz-lo. Penso que cheguei a abrir a boca, mas logo a
fechei para ouvir o que ela contava, com doura, com graa, com tal moleza que
trazia preguia  minha alma e fazia esquecer a missa e a igreja. Falava das
suas devoes de menina e moa. Em seguida referia umas anedotas de baile, uns
casos de passeio, reminiscncias de Paquet, tudo de mistura, quase sem
interrupo. Quando cansou do passado, falou do presente, dos negcios da casa,
das canseiras de famlia, que lhe diziam ser muitas, antes de casar, mas no
eram nada. No me contou, mas eu sabia que casara aos vinte e sete anos.

J agora no trocava de lugar, como a princpio, e quase
no sara da mesma atitude. No tinha os grandes olhos compridos, e entrou a
olhar  toa para as paredes.

 Precisamos mudar o papel da sala, disse da a pouco,
como se falasse consigo.

Concordei, para dizer alguma coisa, para sair da espcie
de sono magntico, ou o que quer que era que me tolhia a lngua e os sentidos.
Queria e no queria acabar a conversao; fazia esforo para arredar os olhos
dela, e arredava-os por um sentimento de respeito; mas a idia de parecer que
era aborrecimento, quando no era, levava-me os olhos outra vez para Conceio.
A conversa ia morrendo. Na rua, o silncio era completo.

Chegamos a ficar por algum tempo,  no posso dizer
quanto,  inteiramente calados. O rumor nico e escasso, era um roer de
camundongo no gabinete, que me acordou daquela espcie de sonolncia; quis
falar dele, mas no achei modo. Conceio parecia estar devaneando.
Subitamente, ouvi uma pancada na janela, do lado de fora, e uma voz que
bradava: 'Missa do galo! missa do galo!'

 A est o companheiro, disse ela levantando-se. Tem
graa; voc  que ficou de ir acord-lo, ele  que vem acordar voc. V, que
ho de ser horas; adeus.

 J sero horas? perguntei.

 Naturalmente

 Missa do galo!  repetiram de fora, batendo.

 V, v, no se faa esperar. A culpa foi minha. Adeus,
at amanh.

E com o mesmo balano do corpo, Conceio enfiou pelo
corredor dentro, pisando mansinho. Sa  rua e achei o vizinho que esperava.
Guiamos dali para a igreja. Durante a missa, a figura de Conceio interps-se
mais de uma vez, entre mim e o padre; fique isto  conta dos meus dezessete
anos. Na manh seguinte, ao almoo, falei da missa do galo e da gente que
estava na igreja sem excitar a curiosidade de Conceio. Durante o dia, achei-a
como sempre, natural, benigna, sem nada que fizesse lembrar a conversao da
vspera. Pelo Ano-Bom fui para Mangaratiba. Quando tornei ao Rio de Janeiro em
maro, o escrivo tinha morrido de apoplexia. Conceio morava no Engenho Novo,
mas nem a visitei nem a encontrei. Ouvi mais tarde que casara com o escrevente
juramentado do marido.

IDIAS DO CANRIO

Um homem dado a estudos de ornitologia, por nome Macedo,
referiu a alguns amigos um caso to extraordinrio que ningum lhe deu crdito.
Alguns chegam a supor que Macedo virou o juzo. Eis aqui o resumo da narrao.

No princpio do ms passado,  disse ele,  indo por uma
rua, sucedeu que um tlburi  disparada, quase me atirou ao cho. Escapei
saltando para dentro de uma loja de belchior. Nem o estrpito do cavalo e do
veculo, nem a minha entrada fez levantar o dono do negcio, que cochilava ao
fundo, sentado numa cadeira de abrir. Era um frangalho de homem, barba cor de
palha suja, a cabea enfiada em um gorro esfarrapado, que provavelmente no
achara comprador. No se adivinhava nele nenhuma histria, como podiam ter
alguns dos objetos que vendia, nem se lhe sentia a tristeza austera e
desenganada das vidas que foram vidas.

A loja era escura, atulhada das coisas velhas, tortas,
rotas, enxovalhadas, enferrujadas que de ordinrio se acham em tais casas, tudo
naquela meia desordem prpria do negcio. Essa mistura, posto que banal, era
interessante. Panelas sem tampa, tampas sem panela, botes, sapatos,
fechaduras, uma saia preta, chapus de palha e de plo, caixilhos, binculos,
meias casacas, um florete, um co empalhado, um par de chinelas, luvas, vasos
sem nome, dragonas, uma bolsa de veludo, dois cabides, um bodoque, um
termmetro, cadeiras, um retrato litografado pelo finado Sisson, um gamo, duas
mscaras de arame para o carnaval que h de vir, tudo isso e o mais que no vi
ou no me ficou de memria, enchia a loja nas imediaes da porta, encostado,
pendurado ou exposto em caixas de vidro, igualmente velhas. L para dentro,
havia outras coisas mais e muitas, e do mesmo aspecto, dominando os objetos
grandes, cmodas, cadeiras, camas, uns por cima dos outros, perdidos na
escurido.

Ia a sair, quando vi uma gaiola pendurada da porta. To
velha como o resto, para ter o mesmo aspecto da desolao geral, faltava-lhe
estar vazia. No estava vazia. Dentro pulava um canrio. A cor, a animao e a
graa do passarinho davam quele amontoado de destroos uma nota de vida e de
mocidade. Era o ltimo passageiro de algum naufrgio, que ali foi parar ntegro
e alegre como dantes. Logo que olhei para ele, entrou a saltar mais abaixo e
acima, de poleiro em poleiro, como se quisesse dizer que no meio daquele
cemitrio brincava um raio de sol. No atribuo essa imagem ao canrio, seno
porque falo a gente retrica; em verdade, ele no pensou em cemitrio nem sol,
segundo me disse depois. Eu, de envolta com o prazer que me trouxe aquela
vista, senti-me indignado do destino do pssaro, e murmurei baixinho palavras
de azedume.

 Quem seria o dono execrvel deste bichinho, que teve
nimo de se desfazer dele por alguns pares de nqueis? Ou que mo indiferente,
no querendo guardar esse companheiro de dono defunto, o deu de graa a algum
pequeno, que o vendeu para ir jogar uma quiniela?

E o canrio, quedando-se em cima do poleiro, trilou isto:

 Quem quer que sejas tu, certamente no ests em teu
juzo. No tive dono execrvel, nem fui dado a nenhum menino que me vendesse.
So imaginaes de pessoa doente; vai-te curar, amigo...

 Como  interrompi eu, sem ter tempo de ficar espantado.
Ento o teu dono no te vendeu a esta casa? No foi a misria ou a ociosidade
que te trouxe a este cemitrio, como um raio de sol?

 No sei que seja sol nem cemitrio. Se os canrios que
tens visto usam do primeiro desses nomes, tanto melhor, porque  bonito, mas
estou que confundes.

 Perdo, mas tu no vieste para aqui  toa, sem ningum,
salvo se o teu dono foi sempre aquele homem que ali est sentado.

 Que dono? Esse homem que a est  meu criado, d-me
gua e comida todos os dias, com tal regularidade que eu, se devesse pagar-lhe
os servios, no seria com pouco; mas os canrios no pagam criados. Em
verdade, se o mundo  propriedade dos canrios, seria extravagante que eles
pagassem o que est no mundo.

Pasmado das respostas, no sabia que mais admirar, se a
linguagem, se as idias. A linguagem, posto me entrasse pelo ouvido como de
gente, saa do bicho em trilos engraados. Olhei em volta de mim, para
verificar se estava acordado; a rua era a mesma, a loja era a mesma loja
escura, triste e mida. O canrio, movendo a um lado e outro, esperava que eu
lhe falasse. Perguntei-lhe ento se tinha saudades do espao azul e infinito...

 Mas, caro homem, trilou o canrio, que quer dizer espao
azul e infinito?

 Mas, perdo, que pensas deste mundo? Que coisa  o
mundo?

 O mundo, redargiu o canrio com certo ar de professor,
o mundo  uma loja de belchior, com uma pequena gaiola de taquara, quadrilonga,
pendente de um prego; o canrio  senhor da gaiola que habita e da loja que o
cerca. Fora da, tudo  iluso e mentira.

Nisto acordou o velho, e veio a mim arrastando os ps.
Perguntou-me se queria comprar o canrio. Indaguei se o adquirira, como o resto
dos objetos que vendia, e soube que sim, que o comprara a um barbeiro,
acompanhado de uma coleo de navalhas.

 As navalhas esto em muito bom uso, concluiu ele.

 Quero s o canrio.

Paguei-lhe o preo, mandei comprar uma gaiola vasta,
circular, de madeira e arame, pintada de branco, e ordenei que a pusessem na
varanda da minha casa, donde o passarinho podia ver o jardim, o repuxo e um
pouco do cu azul.

Era meu intuito fazer um longo estudo do fenmeno, sem dizer
nada a ningum, at poder assombrar o sculo com a minha extraordinria
descoberta. Comecei por alfabetar a lngua do canrio, por estudar-lhe a
estrutura, as relaes com a msica, os sentimentos estticos do bicho, as suas
idias e reminiscncias. Feita essa anlise filolgica e psicolgica, entrei
propriamente na histria dos canrios, na origem deles, primeiros sculos,
geologia e flora das ilhas Canrias, se ele tinha conhecimento da navegao,
etc. Conversvamos longas horas, eu escrevendo as notas, ele esperando,
saltando, trilando.

No tendo mais famlia que dois criados, ordenava-lhes que
no me interrompessem, ainda por motivo de alguma carta ou telegrama urgente,
ou visita de importncia. Sabendo ambos das minhas ocupaes cientficas, acharam
natural a ordem, e no suspeitaram que o canrio e eu nos entendamos.

No  mister dizer que dormia pouco, acordava duas e trs
vezes por noite, passeava  toa, sentia-me com febre. Afinal tornava ao
trabalho, para reler, acrescentar, emendar. Retifiquei mais de uma observao,
 ou por hav-la entendido mal, ou porque ele no a tivesse expresso
claramente. A definio do mundo foi uma delas. Trs semanas depois da entrada
do canrio em minha casa, pedi-lhe que me repetisse a definio do mundo.

 O mundo, respondeu ele,  um jardim assaz largo com
repuxo no meio, flores e arbustos, alguma grama, ar claro e um pouco de azul
por cima; o canrio, dono do mundo, habita uma gaiola vasta, branca e circular,
donde mira o resto. Tudo o mais  iluso e mentira.

Tambm a linguagem sofreu algumas retificaes, e certas
concluses, que me tinham parecido simples, vi que eram temerrias. No podia ainda escrever a
memria que havia de mandar ao Museu Nacional, ao Instituto Histrico e s
universidades alems, no porque faltasse matria, mas para acumular primeiro
todas as observaes e ratific-las. Nos ltimos dias, no saa de casa, no
respondia a cartas, no quis saber de amigos nem parentes. Todo eu era canrio.
De manh, um dos criados tinha a seu cargo limpar a gaiola e pr-lhe gua e
comida. O passarinho no lhe dizia nada, como se soubesse que a esse homem
faltava qualquer preparo cientfico. Tambm o servio era o mais sumrio do
mundo; o criado no era amador de pssaros.

Um sbado amanheci enfermo, a cabea e a espinha doam-me.
O mdico ordenou absoluto repouso; era excesso de estudo, no devia ler nem
pensar, no devia saber sequer o que se passava na cidade e no mundo. Assim
fiquei cinco dias; no sexto levantei-me, e s ento soube que o canrio,
estando o criado a tratar dele, fugira da gaiola. O meu primeiro gesto foi para
esganar o criado; a indignao sufocou-me, ca na cadeira, sem voz, tonto. O
culpado defendeu-se, jurou que tivera cuidado, o passarinho  que fugira por
astuto...

 Mas no o procuraram?

 Procuramos, sim, senhor; a princpio trepou ao telhado,
trepei tambm, ele fugiu, foi para uma rvore, depois escondeu-se no sei onde.
Tenho indagado desde ontem, perguntei aos vizinhos, aos chacareiros, ningum
sabe nada.

Padeci muito; felizmente, a fadiga estava passada, e com
algumas horas pude sair  varanda e ao jardim. Nem sombra de canrio. Indaguei,
corri, anunciei, e nada. Tinha j recolhido as notas para compor a memria,
ainda que truncada e incompleta, quando me sucedeu visitar um amigo, que ocupa
uma das mais belas e grandes chcaras dos arrabaldes. Passevamos nela antes de
jantar, quando ouvi trilar esta pergunta:

 Viva, Sr. Macedo, por onde tem andado que desapareceu?

Era o canrio; estava no galho de uma rvore. Imaginem
como fiquei, e o que lhe disse. O meu amigo cuidou que eu estivesse doido; mas
que me importavam cuidados de amigos? Falei ao canrio com ternura, pedi-lhe
que viesse continuar a conversao, naquele nosso mundo composto de um jardim e
repuxo, varanda e gaiola branca e circular...

 Que jardim? que repuxo?

 O mundo, meu querido.

 Que mundo? Tu no perdes os maus costumes de professor.
O mundo, concluiu solenemente,  um espao infinito e azul, com o sol por cima.

Indignado, retorqui-lhe que, se eu lhe desse crdito, o
mundo era tudo; at j fora uma loja de belchior...

 De belchior? trilou ele s bandeiras despregadas. Mas h
mesmo lojas de belchior?

LGRIMAS DE XERXES

Suponhamos (tudo  de supor) que Julieta e Romeu, antes
que Frei Loureno os casasse, travavam com ele este dilogo curioso:

JULIETA. Uma s pessoa?

FREI LOURENO. Sim, filha, e, logo que eu houver feito de
vs ambos uma s pessoa, nenhum outro poder vos desligar mais. Andai, andai,
vamos ao altar, que esto acendendo as velas... (Saem da cela e vo pelo
corredor).

ROMEU. Para que velas? Abenoai-nos aqui mesmo. (Pra
diante de uma janela). Para que altar e velas? O cu  o altar: no tarda
que a mo dos anjos acenda ali as eternas estrelas; mas, ainda sem elas, o
altar  este. A igreja est aberta; podem descobrir-nos. Eia, abenoai-nos aqui
mesmo.

FREI LOURENO. No, vamos para a igreja; daqui a pouco
estar tudo pronto. Curvars a cabea, filha minha, para que olhos estranhos,
se alguns houver, no cheguem a reconhecer-te...

ROMEU. V dissimulao; no h, em toda Verona, um talhe igual ao da minha bela Julieta, nenhuma outra dama chegaria a dar a
mesma impresso que esta. Que impede que seja aqui? O altar no  mais que o
cu.

FREI LOURENO. Mais eficaz que o cu.

ROMEU. Como?

FREI LOURENO. Tudo o que ele abenoa perdura. As velas
que l vers arder ho de acabar antes dos noivos e do padre que os vai ligar;
tenho-as visto morrer infinitas; mas as estrelas...

ROMEU. Que tem? ardero ainda, nem ali nasceram seno para
dar ao cu a mesma graa da terra. Sim, minha divina Julieta, a Via-Lctea 
como o p luminoso dos teus pensamentos, todas as pedrarias e claridades altas
e remotas, tudo isso est aqui perto e resumido na tua pessoa, porque a lua
plcida imita a tua indulgncia, e Vnus, quando cintila,  com os fogos da tua
imaginao. Aqui mesmo, padre. Que outra formalidade nos pedes tu? Nenhuma
formalidade exterior, nenhum consentimento alheio. Nada mais que amor e
vontade. O dio de outros separa-nos, mas o nosso amor conjuga-nos.

FREI LOURENO. Para sempre.

JULIETA. Conjuga-nos, e para sempre. Que mais ento? Vai a
tua mo fazer com que parem todas as horas de uma vez. Em vo o sol passar de
um cu a outro cu, e tornar a vir e tornar a ir, no levar consigo o tempo
que fica a nossos ps como um tigre domado. Monge amigo, repete essa palavra
amiga.

FREI LOURENO. Para sempre.

JULIETA. Para sempre! amor eterno! eterna vida! Juro-vos
que no entendo outra lngua seno essa. Juro-vos que no entendo a lngua de
minha me.

FREI LOURENO. Pode ser que tua me no entendesse a
lngua da me dela. A vida  uma Babel, filha; cada um de ns vale por uma
nao.

ROMEU. No aqui, padre; ela e eu somos duas provncias da
mesma linguagem, que nos aliamos para dizer as mesmas oraes, com o mesmo
alfabeto e um s sentido. Nem h outro sentido que tenha algum valor na terra.
Agora, quem nos ensinou essa linguagem divina no sei eu nem ela; foi talvez
alguma estrela. Olhai, pode ser que fosse aquela primeira que comea a cintilar
no espao.

JULIETA. Que mo celeste a ter acendido? Rafael, talvez,
ou tu, amado Romeu. Magnfica estrela, sers a estrela da minha vida, tu, que
marcas a hora do meu consrcio. Que nome tem ela, padre?

FREI LOURENO. No sei de astronomias, filha.

JULIETA. Hs de saber por fora. Tu conheces as letras
divinas e humanas, as prprias ervas do cho, as que matam e as que curam...
Dize, dize...

FREI LOURENO. Eva eterna!

JULIETA. Dize o nome dessa tocha celeste, que vai alumiar
as minhas bodas, e casai-nos aqui mesmo. Os astros valem mais que as tochas da
terra.

FREI LOURENO. Valem menos. Que nome tem aquele? No sei.
A minha astronomia no  como a dos outros homens. (Depois de alguns
instantes de reflexo) Eu sei o que me contaram os ventos, que andam c e
l, abaixo e acima, de um tempo a outro tempo, e sabem muito, porque so
testemunhas de tudo. A disperso no lhes tira a unidade, nem a inquietao a
constncia.

ROMEU. E que vos disseram eles?

FREI LOURENO. Coisas duras. Herdoto conta que Xerxes um
dia chorou; mas no conta mais nada. Os ventos  que me disseram o resto,
porque eles l estavam ao p do capito, e recolheram tudo... Escutai; a
comeam eles a agitar-se;  ouviram-nos falar e murmuram... Uivai, amigos
ventos, uivai como nos jovens dias das Termpilas.

ROMEU. Mas que te disseram eles? Contai, contai depressa.

JULIETA. Fala a gosto, ns te esperaremos.

FREI LOURENO. Gentil criatura, aprende com ela, filho,
aprende a tolerar as demasias de um velho luntico. O que  que me disseram?
Melhor fora no repeti-lo; mas, se teimais em que vos case aqui mesmo, ao
claro das estrelas, dir-vos-ei a origem daquela, que parece governar todas as
outras... Vamos, ainda  tempo, o altar espera-nos... No? teimosos que sois...
Contar-vos-ei o que me disseram os ventos, que l estavam em torno de Xerxes,
quando este vinha destruir a Hlade com tropas inumerveis. As tropas marchavam
diante dele, a poder de chicote, porque esse homem cru amava particularmente o
chicote e empregava-o a mido, sem hesitao nem remorso. O prprio mar, quando
ousou destruir a ponte que ele mandara construir, recebeu em castigo trezentas
chicotadas. Era justo; mas para no ser somente justo, para ser tambm
abominvel, Xerxes ordenou que decapitassem a todos os que tinham construdo a
ponte e no souberam faz-la imperecvel. Chicote e espada; pancada e sangue.

JULIETA. Oh! abominvel!

FREI LOURENO. Abominvel, mas forte. Fora vale alguma
coisa; a prova  que o mar acabou aceitando o jugo do grande persa. Ora, um
dia,  margem do Helesponto, curioso de contemplar as tropas que ali ajuntara,
no mar e em terra, Xerxes trepou a um alto morro feitio, donde espalhou as
vistas para todos os lados. Calculai o orgulho que ele sentiu. Viu ali gente
infinita, o melhor leite mungido  vaca asitica, centenas de milhares ao p de
centenas de milhares, vrias armas, povos diversos, cores e vestiduras
diferentes, mescladas, baralhadas, flecha e gldio, tiara e capacete, pelo de
cabra, pele de cavalo, pele de pantera, uma algazarra infinita de coisas. Viu e
riu; farejava a vitria. Que outro poder viria contrast-lo? Sentia-se
indestrutvel. E ficou a rir e a olhar com longos olhos vidos e felizes, olhos
de noivado, como os teus, moo amigo...

ROMEU. Comparao falsa. O maior dspota do universo  um
miservel escravo, se no governa os mais belos olhos femininos de Verona. E a
prova  que, a despeito do poder, chorou.

FREI LOURENO. Chorou,  certo, logo depois, to depressa
acabara de rir. A cara embruscou-se-lhe de repente, e as lgrimas saltaram-lhe
grossas e irreprimveis. Um tio do guerreiro, que ali estava, interrogou-o
espantado; ele respondeu melancolicamente que chorava, considerando que de
tantos milhares e milhares de homens que ali tinha diante de si, e s suas
ordens, no existiria um s ao cabo de um sculo. At aqui Herdoto; escutai
agora os ventos. Os ventos ficaram atnitos. Estavam justamente perguntando uns
aos outros se esse homem feito de ufania e rispidez teria nunca chorado em sua
vida, e concluam que no, que era impossvel, que ele no conhecia mais que
injustia e crueldade, no a compaixo. E era a compaixo que ali vinha
lacrimosa, era ela que soluava na garganta do tirano... Ento eles rugiram de
assombro; depois pegaram das lgrimas de Xerxes... Que farias tu delas?

ROMEU. Sec-las-ia, para que a piedade humana no ficasse
desonrada.

FREI LOURENO. No fizeram isso; pegaram das lgrimas
todas e deitaram a voar pelo espao fora, bradando s consideraes: Aqui
esto! olhai! olhai! aqui esto os primeiros diamantes da alma brbara! Todo o
firmamento ficou alvoroado; pode crer-se que, por um instante, a marcha das
coisas parou. Nenhum astro queria acabar de crer nos ventos. Xerxes! Lgrimas
de Xerxes eram impossveis; tal planta no dava em tal rochedo. Mas ali estavam
elas; eles as mostravam, contando a sua curiosa histria, o riso que servira de
concha a essas prolas, as palavras dele, e as constelaes no tiveram
remdio, e creram finalmente que o duro Xerxes houvesse chorado. Os planetas
miraram longo tempo essas lgrimas inverossmeis; no havia negar que traziam o
amargo da dor e o travo da melancolia. E quando pensaram que o corao que as
brotara de si tinha particular amor ao estalido do chicote, deitaram um olhar
oblquo  terra, como perguntando de que contradies era ela feita. Um deles
disse aos ventos que devolvessem as lgrimas ao brbaro, para que as engolisse;
mas os ventos responderam que no e detiveram-se para deliberar. No cuideis
que s os homens dissentem uns dos outros.

JULIETA. Tambm os ventos?

FREI LOURENO. Tambm eles. O Aquilo queria convert-las
em tempestades do mundo, violentas e destruidoras, como o homem que as gerara; mas
os outros ventos no aceitaram a idia. As tempestades passam ligeiras; eles
queriam alguma coisa que tivesse perenidade, um rio, por exemplo, ou um mar
novo; mas no combinaram nada e foram ter com o sol e a lua. Tu conheces a lua,
filha.

ROMEU. A lua  ela mesma; uma e outra so a plcida imagem
da indulgncia e do carinho;  o que eu te disse h pouco, meu bom confessor.

JULIETA. No, no creias nada do que ele disser, freire
amigo; a lua  a minha rival,  a rival que alumia de longe o belo rosto do
galhardo Romeu, que lhe d um resplendor de opala,  noite, quando ele vem pela
rua...

FREI LOURENO. Tero ambos razo. A lua e Julieta podem
ser a mesma pessoa, e  por isso que querem o mesmo homem. Mas, se a lua s tu,
filha, deves saber o que ela disse ao vento.

JULIETA. Nada, no me lembra nada.

FREI LOURENO. Os ventos foram ter com ela,
perguntaram-lhe o que fariam das lgrimas de Xerxes, e a resposta foi a mais
piedosa do mundo. Cristalizemos essas lgrimas, disse a lua, e faamos delas uma
estrela que brilhe por todos os sculos, com a claridade da compaixo, e onde
vo residir todos aqueles que deixarem a terra, para achar ali a perpetuidade
que lhes escapou.

JULIETA. Sim, eu diria a mesma coisa. (Olhando pela
janela) Lume eterno, bero de renovao, mundo do amor continuado e
infinito, estvamos ouvindo a tua bela histria.

FREI LOURENO. No, no, no.

JULIETA. No?

FREI LOURENO. No, porque os ventos foram tambm ao sol,
e tu que conheces a lua, no conheces o sol, amiga minha. Os ventos levaram-lhe
as lgrimas, contaram a origem delas e o conselho do astro da noite, e falaram
da beleza que teria essa estrela nova e especial. O sol ouviu-os e redargiu
que sim, que cristalizassem as lgrimas e fizessem delas uma estrela; mas nem
tal como o pedia a lua, nem para igual fim. H de ser eterna e brilhante, disse
ele, mas para a compaixo basta a mesma lua com a sua enjoada e dulcssima
poesia. No; essa estrela feita das lgrimas que a brevidade da vida arrancou
um dia ao orgulho humano ficar pendente do cu como o astro da ironia, luzir
c de cima sobre todas as multides que passam, cuidando no acabar mais e
sobre todas as coisas construdas em desafio dos tempos. Onde as bodas cantarem
a eternidade, ela far descer um dos seus raios, lgrima de Xerxes, para
escrever a palavra da extino, breve, total, irremissvel. Toda epifania
receber esta nota de sarcasmo. No quero melancolias, que so rosas plidas da
lua e suas congneres;  ironia, sim, uma dura boca, gelada e sardnica...

ROMEU. Como? Esse astro esplndido...

FREI LOURENO. Justamente, filho; e  por isso que o altar
 melhor que o cu; no altar a benta vela arde depressa e morre s nossas
vistas.

JULIETA. Conto de ventos!

FREI LOURENO. No, no.

JULIETA. Ou ruim sonho de luntico. Velho luntico
disseste h pouco; s isso mesmo. Vo sonho ruim, como os teus ventos, e o teu
Xerxes, e as tuas lgrimas, e o teu sol, e toda essa dana de figuras
imaginrias.

FREI LOURENO. Filha minha...

JULIETA. Padre meu, que no sabes que h, quando menos,
uma coisa imortal, que  o meu amor, e ainda outra, que  o incomparvel Romeu.
Olha bem para ele; v se h aqui um soldado de Xerxes. No, no, no. Viva o
meu amado, que no estava no Helesponto, nem escutou os desvarios dos ventos
noturnos, como este frade, que  a um tempo amigo e inimigo. S s amigo, e
casa-nos. Casa-nos onde quiseres, aqui ou alm, diante das velas ou debaixo das
estrelas, sejam elas de ironia ou de piedade; mas casa-nos, casa-nos,
casa-nos...

PAPIS VELHOS

Brotero  deputado. Entrou agora mesmo em casa, s duas
horas da noite, agitado, sombrio, respondendo mal ao moleque, que lhe pergunta
se quer isto ou aquilo, e ordenando-lhe, finalmente, que o deixe s. Uma vez
s, despe-se, enfia um chambre e vai estirar-se no canap do gabinete, com os
olhos no teto e o charuto na boca. No pensa tranqilamente; resmunga e
estremece. Ao cabo de algum tempo senta-se; logo depois levanta-se, vai a uma
janela, passeia, pra no meio da sala, batendo com o p no cho; enfim resolve
ir dormir, entra no quarto, despe-se, mete-se na cama, rola inutilmente de um
lado para outro, torna a vestir-se e volta para o gabinete.

Mal se sentou outra vez no canap, bateram trs horas no
relgio da casa. O silncio era profundo; e, como a divergncia dos relgios 
o princpio fundamental da relojoaria, comearam todos os relgios da
vizinhana a bater, com intervalos desiguais, uma, duas, trs horas. Quando o
esprito padece, a coisa mais indiferente do mundo traz uma inteno recndita,
um propsito do destino. Brotero comeou a sentir esse outro gnero de
mortificao. As trs pancadas secas, cortando o silncio da noite,
pareciam-lhe as vozes do prprio tempo, que lhe bradava: Vai dormir. Enfim,
cessaram; e ele pde ruminar, resolver, e levantar-se, bradando:

 No h outro alvitre,  isto mesmo.

Dito isso, foi  secretria, pegou da pena e de uma folha
de papel, e escreveu esta carta ao presidente do conselho de ministros:

Excelentssimo senhor

H de parecer estranho a V. Excia. tudo o que vou dizer
neste papel; mas, por mais estranho que lhe parea, e a mim tambm, h
situaes to extraordinrias que s comportam solues extraordinrias. No
quero desabafar nas esquinas, na Rua do Ouvidor, ou nos corredores da Cmara.
Tambm no quero manifestar-me, na tribuna, amanh ou depois, quando V. Excia.
for apresentar o programa do seu ministrio; seria digno, mas seria aceitar a
cumplicidade de uma ordem de coisas, que inteiramente repudio. Tenho um s
alvitre: renunciar  cadeira de deputado e voltar  vida ntima.

No sei se, ainda assim, V. Excia. me chamar despeitado.
Se o fizer, creio que ter razo. Mas rogo-lhe que advirta que h duas
qualidades de despeito, e o meu  da melhor.

No pense V. Excia. que recuo diante de certas deputaes
influentes, nem que me senti ferido pelas intrigas do A... e por tudo o que fez
o B... para meter o C... no ministrio. Tudo isso so coisas mnimas. A questo
para mim  de lealdade, j no digo poltica, mas pessoal; a questo  com V.
Excia.. Foi V. Excia. que me obrigou a romper com o ministrio dissolvido, mais
cedo do que era minha inteno, e, talvez mais cedo do que convinha ao partido.
Foi V. Excia. que, uma vez, em casa do Z... me disse, a uma janela, que os meus
estudos de questes diplomticas me indicavam naturalmente a pasta de
estrangeiros. H de lembrar-se que lhe respondi ento ser para mim indiferente
subir ao ministrio, uma vez que servisse ao meu pas. V. Excia. replicou:  
muito bonito, mas os bons talentos querem-se no ministrio.

Na Cmara, j pela posio que fui adquirindo, j pelas
distines especiais de que era objeto, dizia-se, acreditava-se que eu seria
ministro na primeira ocasio; e, ao ser chamado V. Excia ontem para organizar o
novo gabinete, no se jurou outra coisa. As combinaes variavam, mas o meu
nome figurava em todas elas.  que ningum ignorava as finezas de V. Excia.
para comigo, os bilhetes em que me louvava, os seus reiterados convites, etc.
Confesso a V. Excia. que acompanhei a opinio geral.

A opinio enganou-se, eu enganei-me; o ministrio est
organizado sem mim. Considero esta excluso um desdouro irreparvel, e
determinei deixar a cadeira de deputado a algum mais capaz, e, principalmente,
mais dcil. No ser difcil a V. Excia. ach-lo entre os seus numerosos
admiradores. Sou, com elevada estima e considerao.

De V. Excia. desobrigado amigo,

BROTERO.

Os verdadeiros polticos diro que esta carta  s
verossmil no despeito, e inverossmil na resoluo. Mas os verdadeiros
polticos ignoram duas coisas, penso eu. Ignoram Boileau, que nos adverte da
possvel inverossimilhana da verdade, em matrias de arte, e a poltica,
segundo a definiu um padre da nossa lngua,  a arte das artes; e ignoram que
um outro golpe feria a alma do Brotero naquela ocasio. Se a excluso do
ministrio no bastava a explicar a renncia da cadeira, outra perda a ajudava.
J tm notcia do desastre poltico; sabem que houve crise ministerial que o
conselheiro *** recebeu do Imperador o encargo de organizar um gabinete, e que
a diligncia de um certo B... conseguiu meter nele um certo C... A pasta deste
foi justamente a de estrangeiros; e o fim secreto da diligncia era dar um
lugar na galeria do Estado  viva Pedroso. Esta senhora, no menos gentil que
abastada, elegera dias antes para seu marido o recente ministro. Tudo isso iria
menos mal, se o Brotero no cobiasse ambas as fortunas, a pasta e a viva;
mas, cobi-las, cortej-las e perd-las, sem que ao menos uma viesse consol-lo
da perda da outra, digam-me francamente se no era bastante a explicar a
renncia do nosso amigo?

Brotero releu a carta, dobrou-a, encapou-a,
sobrescritou-a; depois atirou-a a um lado, para remet-la no dia seguinte. O
destino lanara os dados. Csar transpunha o Rubico, mas em sentido inverso.
Que fique Roma com os seus novos cnsules e patrcias ricas e volveis! Ele
volve  regio dos obscuros; no quer gastar o ao em pelejas de aparato, sem
utilidade nem grandeza. Reclinou-se na cadeira e fechou o rosto na mo. Tinha
os olhos vermelhos quando se levantou; e levantou-se, porque ouviu bater quatro
horas e recomear a procisso dos relgios, a cruel e implicante monotonia das
pndulas. Uma, duas, trs, quatro...

No tinha sono; no tentou sequer meter-se na cama. Entrou
a andar de um lado para outro, passeando, planeando, relembrando. De memria em
memria, reconstruiu as iluses de outro tempo, comparou-as com as sensaes de
hoje, e achou-se roubado. Voluptuoso at na dor, mirou afincadamente essas
iluses perdidas, como uma velha contempla as suas fotografias da mocidade.
Lembrou-se de um amigo que lhe dizia que, em todas as dificuldades da vida,
olhasse para o futuro. Que futuro? Ele no via nada. E foi-se achegando da
secretria, onde tinha guardadas as cartas dos amigos, dos amores, dos
correligionrios polticos, todas as cartas. J agora no podia conciliar o
sono; ia reler esses papis velhos. No se relem livros antigos?

Abriu a gaveta; tirou dois ou trs maos e desatou-os.
Muitas das cartas estavam encardidas do tempo. Posto nem todos os signatrios
houvessem morrido, o aspecto geral era de cemitrio; donde se pode inferir que,
em certo sentido, estavam mortos e enterrados. E ele comeou a rel-las, uma a
uma, as de dez pginas e os simples bilhetes, mergulhando nesse mar morto de
recordaes apagadas, negcios pessoais ou pblicos, um espetculo, um baile,
dinheiro emprestado, uma intriga, um livro novo, um discurso, uma tolice, uma
confidncia amorosa. Uma das cartas, assinada Vasconcelos, f-lo estremecer:

A L...a, dizia a carta, chegou a S. Paulo, anteontem.
Custou-me muito e muito obter as tuas cartas; mas alcancei-as, e daqui a uma
semana estaro contigo; levo-as eu mesmo. Quanto ao que me dizes na tua de H...
estimo que tenhas perdido a tal idia fnebre; era um despropsito.
Conversaremos  vista.

Esse simples trecho trouxe-lhe uma penca de lembranas.
Brotero atirou-se a ler todas as cartas do Vasconcelos. Era um companheiro dos
primeiros anos, que naquele tempo cursava a academia, e agora estava de
presidente no Piau. Uma das cartas, muito anterior quela, dizia-lhe:

Com que ento a L ... a agarrou-te deveras? No faz mal; 
boa moa e sossegada. E bonita, magano! Quanto ao que me dizes do Chico Sousa,
no acho que devas ter nenhum escrpulo; vocs no so amigos; do-se. E
depois, no h adultrio. Ele devia saber que quem edifica em terreno
devoluto...

Treze dias depois:

Est bom, retiro a expresso terreno devoluto;
direi terreno que, por direito divino, humano e diablico, pertence ao meu
amigo Brotero. Ests satisfeito?

Outra, no fim de duas semanas:

Dou-te a minha palavra de honra que no h no que disse a
menor falta de respeito aos teus sentimentos; gracejei, por supor que a tua
paixo no era to sria. O dito por no dito. Custa pouco mudar de estilo, e
custa muito perder um amigo, como tu...

Quatro ou cinco cartas referiam-se s suas efuses
amorosas. Nesse intervalo o Chico Sousa farejou a aventura e deixou a L... a; e
o nosso amigo narrou o lance ao Vasconcelos, contente de a possuir sozinho. O
Vasconcelos felicitou-o, mas fez-lhe um reparo.

... Acho-te exigente e transcendente. A coisa mais natural
do mundo  que essa moa, perdendo um homem a quem devia atenes e que lhe
dera certo relevo, recebesse com alguma dor o golpe. Saudade, infidelidade,
dizes tu. Realmente,  demais. Isso no prova seno que ela sabe ser grata aos
benefcios recebidos. Quanto  ordem que lhe deste de no ficar com um s
traste, uma s cadeira, um pente, nada do que foi do outro, acho que no a
entendi bem. Dizes-me que o fizeste por um sentimento de dignidade; acredito.
Mas no ser tambm um pouco de cime retrospectivo? Creio que sim. Se a
saudade  uma infidelidade, o leque  um beijo; e tu no queres beijos nem
saudades em casa. So maneiras de ver...

Brotero ia assim relendo a aventura, um captulo inteiro
da vida, no muito longo,  verdade, mas clido e vivo. As cartas abrangiam um
perodo de dez meses; desde o sexto ms comearam os arrufos, as crises, as
ameaas de separao. Ele era ciumento; ela professava o aforismo de que o
cime significa falta de confiana; chegava mesmo a repetir esta sentena
vulgar e enigmtica: 'zelos, sim, cimes, nunca'. E dava de ombros,
quando o amante mostrava uma suspeita qualquer, ou lhe fazia alguma exigncia.
Ento ele excedia-se; e a vinham as cenas de irritao, de reproches, de
ameaas, e por fim de lgrimas. Brotero s vezes deixava a casa, jurando no
voltar mais; e voltava logo no dia seguinte, contrito e manso. Vasconcelos
reprimia-o de longe; e, em relao s deixadas e tornadas, dizia-lhe uma vez:

M poltica, Brotero; ou l o livro at o fim, ou fecha-o
de uma vez; abri-lo e fech-lo, fech-lo e abri-lo  mau, porque traz sempre a
necessidade de reler o captulo anterior para ligar o sentido, e livros relidos
so livros eternos.

A isto respondia o Brotero que sim, que ele tinha razo,
que ia emendar-se de uma vez, tanto mais que agora viviam como os anjos no cu.

Os anjos dissolveram a sociedade. Parece que o anjo L...
a, exausto da perptua antfona, ouviu cantar Dfnis e Clo, c embaixo, e
desceu a ver o que  que podiam dizer to melodiosamente as duas criaturas.
Dfnis vestia ento uma casaca e uma comenda, administrava um banco, e
pintava-se; o anjo repetiu-lhe a lio de Clo; adivinha-se o resto. As cartas
de Vasconcelos neste perodo eram de consolao e filosofia. Brotero lembrou-se
de tudo o que padeceu, das imprudncias que praticou, dos desvarios, que lhe
trouxe aquela evaso de uma mulher, que realmente o tinha nas mos. Tudo
empregara para reav-la e tudo falhara. Quis ver as cartas que lhe escreveu por
este tempo, e que o Vasconcelos, mais tarde, pde alcanar dela em S. Paulo e foi  gaveta onde as guardara com as outras. Era um mao atado com fita preta.
Brotero sorriu da fita preta; deslaou o mao e abriu as cartas. No saltou
nada, data ou vrgula; leu tudo, explicaes, imprecaes, splicas, promessas
de amor e paz, uma fraseologia incoerente e humilhante. Nada faltava a essas cartas;
l estava o infinito, o abismo, o eterno. Um dos eternos, escrito na
dobra do papel, no se chegava a ler, mas supunha-se. A frase era esta:
'Um s minuto do teu amor, e estou pronto a padecer um suplcio
et...' Uma traa bifara o resto da palavra; comeu o eterno e deixou
o minuto. No se pode saber a que atribuir essa preferncia, se 
voracidade, se  filosofia das traas. A primeira causa  mais provvel;
ningum ignora que as traas comem muito.

A ltima carta falava de suicdio. Brotero, ao reler esse
tpico, sentiu uma coisa indefinvel; chamemos-lhe o 'calafrio do ridculo
evitado'. Realmente se ele se houvesse eliminado, no teria o presente
desgosto poltico e pessoal; mas o que no diriam dele nos pasmatrios da Rua
do Ouvidor, nas conversaes  mesa? Viria tudo  rua, viria mais alguma coisa;
chamar-lhe-iam frouxo, insensato, libidinoso, e depois falariam de outro
assunto, uma pera, por exemplo.

 Uma, duas, trs, quatro, cinco principiaram a dizer os
relgios.

Brotero recolheu as cartas, fechou-as uma a uma,
emaou-as, atou-as e meteu-as na gaveta. Enquanto fazia esse trabalho, e ainda
alguns minutos depois, deu-se a um esforo interessante: reaver a sensao
perdida. Tinha recomposto mentalmente o episdio, queria agora recomp-lo
cordialmente; e o fim no era outro seno cotejar o efeito e a causa, e saber
se a idia do suicdio tinha sido um produto natural da crise. Logicamente,
assim era; mas Brotero no queria julgar atravs do raciocnio e sim da
sensao.

Imaginai um soldado a quem uma bala levasse o nariz, e
que, acabada a batalha, fosse procurar no campo o desgraado apndice.
Suponhamos que o acha entre um grupo de braos e pernas; pega dele, levanta-o
entre os dedos,  mira-o, examina-o,  o seu prprio... Mas  um nariz ou um
cadver de nariz? Se o dono lhe puser diante os mais finos perfumes da Arbia,
receber em si mesmo a sensao do aroma? No: esse cadver de nariz nunca mais
lhe transmitir nenhum cheiro bom ou mau; pode lev-lo para casa, preserv-lo,
embalsam-lo;  o mesmo. A prpria ao de assoar o nariz, embora ele a veja e
compreenda nos outros, nunca mais h de pod-la compreender em si, no chegar
a reconhecer que efeito lhe causava o contato da ponta do nariz com o leno.
Racionalmente, sabe o que ; sensorialmente, no saber mais nada.

'Nunca mais? pensou o Brotero... Nunca mais poderei
...'

No podendo obter a sensao extinta, cogitou se no
aconteceria o mesmo  sensao presente, isto , se a crise poltica e pessoal,
to dura de roer agora, no teria algum dia tanto valor como os velhos dirios,
em que se houvesse dado a notcia do novo gabinete e do casamento da viva.
Brotero acreditou que sim. J ento a arraiada vinha clareando o cu. Brotero ergueu-se;
pegou da carta que escrevera ao presidente do conselho, e chegou-a  vela; mas
recuou a tempo.

'No, disse ele consigo; juntemo-la aos outros papis
velhos; inda h de ser um nariz cortado'.

FIM
