Crtica, Henriqueta Renan, 1896

Henriqueta Renan

Texto-Fonte:

Crtica Literria de Machado de Assis,
Rio
de Janeiro: W. M. Jackson, 1938

Publicado na Revista Brasileira outubro de 1896.

Um espartano, convidado a ouvir algum
que imitava o canto do rouxinol, respondeu friamente: J ouvi o rouxinol. O
mesmo dirs tu, se leste Henriqueta Renan, a quem quer que se proponha
falar desta senhora que tamanha influncia teve no autor da Vida de Jesus.
A diferena  que aqui ningum te convida a ver imitar o inimitvel. Renan  o
prprio rouxinol; ningum poder dizer nada depois do estilo incomparvel e da
grande emoo daquelas pginas. Assim  que no venho contar o que leste ou
podes ler nessa lngua nica, mas trazer somente, com os subsdios posteriores,
um esboo da amiga pia e discreta, inteligncia fina e culta, vontade forte e
longa, capaz de esforos grandes para cumprir deveres altos, ainda que
obscuros. Os renanistas da nossa terra so como todos os devotos de um esprito
eminente, no lhe amam os livros e atos pblicos, mas tudo o que a ele se
refere, seja gozo ntimo ou tristeza particular. De um sei eu, que talvez por
vir tambm do seminrio,  o mais absoluto de todos. Esse, se estivesse agora
na antiga Biblos, iria at  aldeia de Amschit, onde descansam os restos da
irm querida do mestre. Sentar-se-ia ao p das palmeiras para evocar a sombra
daquela nobre criatura. A memria lhe traria novamente os passos de uma vida
feita de sacrifcios e de trabalhos, comeada em uma cidadezinha da Bretanha,
continuada em Paris, na Polnia e na Itlia, e acabada no recanto modesto de um
pedao da sia.

A vida de Henriqueta Renan completa-se
pelas cartas trocadas entre os dois irmos, ela nos confins da Polnia, ele na
provncia e em Paris. Destas me servirei principalmente. A impresso original
do opsculo de Renan, feita em 1862, no foi divulgada: cem exemplares bastaram
para recordar Henriqueta s pessoas que a tinham conhecido. No prlogo dos Souvenirs
denfance et de jeunesse, Renan declara que no queria profanar a memria
da irm juntando aquele opsculo a este livro. Inserindo essas pginas em um
volume posto  venda, andaria to mal como se levasse o retrato dela a um
leilo. No obstante, autorizou a reimpresso depois dele morto. A reimpresso
fez-se integralmente em 1895, trazendo os retratos de ambos. No imagines, se
no viste o dela, que  uma formosa criatura moa. Aos dezenove anos, segundo o
irmo, fora em extremo graciosa, de olhos meigos e mos finssimas. O retrato
representa uma senhora idosa, com a sua touca de folhos, atada debaixo do
queixo, um vestido sem feitio; mas a doura que ele tanto louva l se lhe v na
gravura, cpia da fotografia. Conta o prprio irmo que, em 1850, voltando da
Polnia, Henriqueta estava inteiramente mudada; trazia as rugas da velhice
prematura, no lhe restando da graa antiga mais que a deleitosa expresso de
sua inefvel bondade.

Cames, mestre em figuras poticas, diz
do filho de Semele, que era nascido de duas mes  e no d o prprio nome de
Baco seno por aluso quele que traz a perptua mocidade no rosto. De Renan,
eterno moo, se pode dizer igual coisa; mas aqui a imagem pag e graciosa, no
menos que atrevida,  uma austera e doce verdade. Henriqueta, mais velha que
ele doze anos, dividiu com a me de ambos a maternidade do irmozinho. Uma das
tuas mes, escreve-lhe ela em 28 de fevereiro de 1845, dia em que ele fazia
vinte e dois anos. J antes (carta de 30 de outubro de 1842) havia-lhe dito que
era seu filho de adoo. Os primeiros tempos da infncia de Ernesto so
deliciosos sem alegria, unicamente pela afeio recproca, pela docilidade
daquela moa, que deixava de ir ter com as amigas, para no afligir o pequeno
que a queria s para si. Henriqueta  que o leva  igreja, agasalhadinho em sua
capa, quando era inverno. Um dia, como o visse disfarar envergonhado o
casaquinho surrado pelo uso, no pode reter as lgrimas. J ento haviam
perdido o pai,  nufrago ou suicida,  que no deixara de si mais que dvidas
e saudades. Um ms inteiro gastaram a esperar alguma notcia ou o cadver.
Parece que esses dramas so comuns na costa bret; lembrai-vos do pescador de
Islndia e das angstias da pobre Maud,  espera que voltem Yann e o seu barco,
e vendo que todos voltam, menos eles.

 J vieram todos os de Trguier e
Saint-Brieuc, diz  pobre Maud uma das mulheres que tambm iam esperar  praia.

Trguier  justamente a cidadezinha em
que nasceu Renan. O navio do pai voltou, ao invs da Leopoldine de Yann,
mas voltou sem o dono, e s depois de longos dias  que o cadver foi arrojado
 praia entre Saint-Brieuc e o cabo Frhel. Os pormenores e o quadro so
outros; da inveno de Loti resultou um livro; da realidade de 1828 nasceu e
cresceu a nobre figura de Henriqueta. Ela enfrentou com o trabalho, disposta a
resgatar as dvidas do pai e acudir s necessidades da famlia. Rejeitou um
casamento rico, unicamente pela condio que trazia de deixar os seus. Abriu
uma escola, mas foi obrigada a fech-la, e pouco depois aceitou emprego em uma
penso de meninas em Paris. Renan diz que as suas estrias na capital foram
horrveis, e pinta o contraste da provinciana, e particularmente da bret, com
aquele mundo novo para ela, feito de sequido, de frieza e de charlatanismo.
Henriqueta aceitou a direo de outro colgio, onde trabalhou descomunalmente
sem prosperidade, mas onde fez crescer a sua prpria instruo, que chegou a
ser excepcional;  a palavra do irmo. Este viera ento a Paris, a chamado
dela, para entrar no seminrio dirigido por Dupanloup, e continuar os estudos
comeados em um colgio de padres da cidade natal: era em 1838. Dois anos
depois, no podendo tirar da vida de mestra em Paris os meios necessrios para
liquidar as dvidas do pai, contratou Henriqueta os seus servios de professora
em casa de uma famlia polaca, e comeou novo exlio, mais longo (dez anos) e
mais remoto, em um castelo da Polnia, a sessenta lguas de Varsvia.

Aqui entra naturalmente a
correspondncia (Lettres intimes), publicada agora em volume, uma
coleo que vai de 1842 a 1845. H outras cartas (1845-1848), dadas mais
recentemente em uma revista francesa; no as li. A correspondncia que tenho 
vista mostra, ainda melhor que a narrao de Renan, o sentimento raro, a
afeio profunda, e a dedicao sem aparato daquela boa e grave Henriqueta. As
cartas desta senhora so a sua prpria alma. Escrevem-se muitas para o prelo,
algumas para a posteridade; nenhum desses destinos podia atra-la. Fala do irmo
ao irmo. Raro trata de si, e quando o faz  para completar um conselho ou uma
reflexo. Tambm no conta o que se passa em torno dela. Conquanto a vida fosse
solitria, algum incidente interior, alguma observao do meio em que estava
podia cair no papel, por desabafo sequer, no digo por malcia; nada disso. Uma
vez falar de dinheiro pedido ao pai das educandas, para explicar a demora de
uma remessa. Outra vez, em poucas linhas, dir do campnio polaco que  o mais
pobre e embrutecido que se possa imaginar, e notar os excesso de fanatismo e
de dio religioso entre os judeus que enchem as cidades e os cristos, e entre
os prprios dissidentes do cristianismo. Pouco mais dir na longa
correspondncia de quatro anos. A distncia era tamanha que no dava tempo a
desperdiar papel com assunto alheio. Todo ele  pouco para tratar somente do
irmo. Henriqueta aperta as linhas e as letras, aproveita as margens das folhas
para no acabar de lhe falar. Custa-me deixar-te, conclui a primeira carta
impressa. Era intil diz-lo; todas as seguintes fazem sentir que mui
dificilmente Henriqueta suspende a mo do papel. So verdadeiramente cartas
ntimas, medrosas de aparecer, receosas de violao. Desde logo revelam a fora
do afeto e a gravidade do esprito. Nenhum floreio de retrica, nenhum
arrebique de sabichona, mas um alinho natural, muita simpleza de arte, fino
estilo e comoo sincera. As expresses de ternura so intensas e abundantes.
Meu filho, meu amado, meu querido, meu bom e mil vezes querido, so umas de tantas
palavras inspiradas por um amor nico.

Henriqueta Renan  melanclica. Segundo
o irmo, herdou essa disposio do pai; a me era vivaz e alegre. A tristeza,
em verdade, ressumbra das suas cartas. O meio em que vive era apropriado a
agravar essa inclinao de nascena. Nem o interior do castelo nem as
temporadas de Varsvia podiam trazer-lhe a alegria que no vinha dela. Querendo
dar idia da terra em que habita, fala de imensas e montonas plancies de
areia que fariam pensar na Arbia ou na frica, se interminveis pinhais,
interrompendo-as, no viessem lembrar a vizinhana do norte. Junta a isso a
estranheza das gentes, as saudades dos seus, maiores que as da terra natal; no
esqueas a distncia no espao, que  enorme, e no tempo que parece infinito, e
compreenders que em toda a correspondncia de Henriqueta no haja o reflexo de
um sorriso. O sentimento que tem da vida, aos trinta anos, aqui o d ela ao
irmo, uma vez que fala de o ver feliz: Feliz! Quem  feliz nesta terra de
dores e desassossegos? E, sem contar os lances da sorte e as aes dos homens,
no  certo que em nosso corao h uma fonte perene de agitaes e de
misrias? Entretanto, a melancolia de Henriqueta no lhe abate as foras, no
 daquela espcie que faz da alma uma simples espectadora da vida. Henriqueta
no se contenta de gemer; a queixa no parece que seja a sua voz natural.
Aconselha ao irmo que lute e que conte com ela para ajud-lo. Exorta-o a ser
homem. Um dia, achando-lhe resoluo, louva a fora de vontade, sem a qual no
passamos de crianolas. Henriqueta tira do sentimento do dever, no menos que
do amor, a energia necessria para amparar Renan, primeiro nas dvidas, depois
nos estudos e na carreira nova.

H um ponto na narrativa de Renan, que
as cartas de Henriqueta completam e explicam:  o que se refere aos laos de
afeio e estima existentes entre ela e a famlia do conde Zamosky com quem
contratara os seus servios de preceptora; tais laos que lhe faziam esquecer a
tristeza da posio e o rigor do clima. As cartas de Henriqueta no deixam to
simples impresso. Se a queixa no parece ser a sua voz natural, alguma vez,
como na carta de 12 de maro de 1843, referindo-se s faculdades de cada um, e
 liberdade interior, confessa que s com grande luta se consegue fazer crer queles
que pagam que h coisas de que s se do contas a Deus e  conscincia. Foi
nessa mesma carta que falou do dinheiro pedido ao pai das educandas, a que
aludi acima; era para mand-lo  me, e no conhecia outra pessoa. O conde demorou-se
em satisfaz-la, por fim ausentou-se e ainda no voltara sem m inteno
acrescenta; o que no a impede de exclamar: Deus meu! Porque  que os grandes
no pensam naqueles que s tm o fruto do seu trabalho, e que este lhes 
preciso receber regularmente! E conclui com esta mxima, que porventura
resgatar o que achares banal naquela exclamao:  que o homem no pode
compreender seno as penas que j padeceu; tudo o mais no existe para ele.
Noutro lugar, respondendo a um reparo do irmo, concorda que a vida para muitos
 passada no meio de pessoas com quem s h relaes de fria polidez, e nem tu
nem eu somos desses a quem tais relaes bastem. Uma organizao dessas
poderia conquistar a estima da famlia, e mui provavelmente a afeio das educandas,
mas no esquecia to de leve a tristeza do ofcio nem a aspereza dos ares.
Henriqueta ia de um lado para outro sem levar saudades;  que tudo lhe era
estranho no campo e na cidade, e bem pode ser que quase tudo lhe fosse
aborrecido. A paixo grande e real estava fora dali. Assim se explicam os dez
anos de exlio para concluir a obra contratada com outros e com a sua
conscincia.

Durante metade desse prazo, Renan
freqentou os seminrios de Issy e de Saint-Sulpice. Daquele, alis dependncia
deste, data a primeira carta da coleo, respondendo a outra da irm, que no
vem nela. Conquanto o livro dos Souvenirs nos conte abreviadamente a
estada em ambos os seminrios,  certo que melhor se sentem na correspondncia
as hesitaes e dvidas do autor da Vida de Jesus em relao  carreira
eclesistica e ao prprio fundador da Igreja. As cartas acompanham o movimento
psicolgico do homem, fazem-nos assistir s alteraes de um esprito destinado
pela famlia ao servio do altar e  gloria catlica, ao mesmo tempo que nos
mostram a influncia de Henriqueta na alma do seu querido Ernesto. Minha irm
(Souvenirs), cuja razo era desde anos como a coluna luminosa caminhando
ante mim, animava-me do fundo da Polnia com suas cartas cheias de bom senso.
No h propriamente iniciativa ou tentao da parte dela.  certo que nunca
desejou v-lo padre; assim o declara mais tarde (28 de fevereiro de 1845),
quando as confisses de Renan esto quase todas feitas; diz-lhe ento que
previra as dvidas que ora o assediam, e acrescenta que ningum a quis ouvir e
no podia resistir sozinha. Mas ento, como antes, como depois, a arte que
emprega  tal que antes parece ir ao encontro dos novos sentimentos do irmo
que sugerir-lhos.

A este respeito as duas cartas de 15 de
setembro e 30 de outubro de 1842 so cheias de interesse. Renan conta naquela
os efeitos do primeiro ano de filosofia e matemticas. A primeira destas
disciplinas f-lo julgar as coisas de modo diverso que antes, e troca-lhe uma
poro de supostas verdades em erros e preconceitos; ensina a ver tudo e claro.
Assim disposto  reflexo, e com o sossego e a liberdade de esprito que lhe d
o seminrio, Renan pensou em si e no seu futuro. Fala demoradamente da
influncia que tm sobre este os atos iniciais da vida; no se arrepende dos
seus, e, se tivesse de escolher novamente uma carreira, no escolheria outra
seno a eclesistica. Mas, em seguida, confessa os inconvenientes desta, que
declara imensos; coisas h que meteram na cabea do clero, e que jamais
entraro na dele; alude tambm  frivolidade,  duplicidade, ao carter
corteso de alguns seus futuros colegas, e finalmente  submisso a uma
autoridade por vezes suspicaz,  qual no poderia obedecer. Tais inconvenientes
encontr-los-ia em qualquer carreira, e ainda maiores que esses, verdadeiras
impossibilidades; louva o retiro, a independncia, o estudo, e afirma a
execrao que tem  vida social com as suas futilidades. No fala assim por
zelo de devoo espiritual, diz ele... Oh! no!  defeito que j no tenho; a
filosofia  bom remdio para cortar excessos, e, se h nela que recear, ser
antes uma violenta reao. Enfim, chega a concluso inesperada em um
seminarista: ainda que o cristianismo no passasse de um devaneio, o
sacerdcio seria divino. Mais uma vez lastima que o sacerdcio seja exercido
por pessoas que o rebaixam, e que o mundo superficial confunda o homem com o
ministrio; mas logo reduz isto a uma opinio, e, graas a Deus, creio estar
acima da opinio. Parece que esta palavra  definitiva? No ; na parte
seguinte e final da carta declara  irm que continua a pensar naquele grave
negcio a ver se o esclarece, e pede que no escreva  me sobre as suas
hesitaes.

H duas explicaes para esse vaivm de
idias e de impresses  ou hesitao pura ou clculo. Mas h uma terceira, que
 talvez a nica real. Creio juntamente na hesitao e no clculo. Uma parte da
alma de Renan vacila deveras entre a vida mundana, que lhe no oferece as
delcias ntimas, e a vida eclesistica, onde a condio terrena no
corresponde muita vez ao seu ideal cristo. A outra parte calcula de modo que a
confisso lhe no saia to acentuada e decisiva que destoe do esprito geral do
homem e desminta a compostura do seminarista. Ao cabo,  j um esboo de
renanismo. Entretanto, se examinarmos bem as duas tendncias alternadas,
veremos que a negao para a vida eclesistica  mais forte que a outra;
falta-lhe vocao. Tambm se sente que a dvida relativamente ao dogma comea
de ensombrar a alma do estudante de filosofia. Renan confessa a Henriqueta
gostar muito dos seus pensadores alemes, posto que um tanto cticos e
pantestas. Recomenda-lhe que, se for a Konigsberg, faa por ele uma visita ao
tmulo de Kant. O pedido de nada dizer  me, repetido em outras cartas, 
porque a me conta v-lo padre, e vive dessa esperana velha.

Que esses dois espritos eram irmos
v-se bem na carta que Henriqueta escreve a Renan, em 30 de outubro,
respondendo  de 15 de setembro. Tambm ela, sem dizer francamente que no
deseja v-lo padre, sabe insinu-lo; menos ainda que insinu-lo, parece apenas
repetir o que ele balbuciou. A carta dela tem a mesma ondulao que a dele.
Henriqueta declara estremecer ao v-lo tratar to graves questes em idade
geralmente descuidosa; entretanto, gosta que ele encare com seriedade o que
outros fazem leviana ou apaixonadamente. Concorda que as estrias da vida
influem no resto dela, e insinua que s vezes de modo irreparvel. Tem para
si que ele no deve precipitar nada; no quer aconselh-lo, para que lhe fique
a liberdade de escolha. Quando alude  vida retirada e independente, diz-se
mais que ningum capaz de entend-lo; mas, pergunta logo, onde encontr-la? Cr
que a raros caiba, e no pode esperar que o irmo a encontre numa sociedade
hierrquica, onde j antev a autoridade suspicaz. Tambm ela acha suspicaz a
autoridade, mas acrescenta que o mesmo se d com todas as profisses; e quando
parece que esta fatalidade de carter deva enfraquecer qualquer argumento
contra o ministrio eclesistico, lembra interrogativamente o vnculo perptuo
de juramento. Quer que ele pense por si, que escolha por si, apela para a razo
e a conscincia do irmo. Insiste em lhe no dar conselhos; mas j lhe tem dito
que, se uma parte do clero  pessoal e ambiciosa, ele, Renan, pode vir a ser a
mesma coisa. A frase em que o diz  velada e cautelosa: o nmero e o costume
no levaro atrs de si a minoria e o dever? Essa pergunta, todas as demais
perguntas que lhe faz pela carta adiante, trazem o fim evidente de evocar uma
idia ou atenuar outra, e porventura criar-lhe novos casos e motivos de
repugnncia  milcia da Igreja.  uma srie de sugestes e de esquivanas.

A diferena de um a outro esprito  que
Henriqueta, insinuando as desvantagens que o irmo possa achar na carreira
eclesistica, entre palavras dbias e alternao de pensamentos, aceit-lo-ia
sacerdote, seno com igual prazer, certamente com igual dedicao. Nem lhe quer
impor o que julga melhor, nem lhe doer a escolha do irmo, se for contrria
aos seus sentimentos, uma vez que o faa feliz. Certo , porm, que as
preferncias de Renan, que ora vemos a meio sculo de distncia,  vista da
carta impressa, ele mesmo as sentiria lendo a carta manuscrita. Com efeito, por
mais que equilibre os sentimentos, Renan est inclinado  vida leiga. No
importa que a situao se prolongue por vinte meses. Em 1844, Renan comunica 
irm (16 de abril) que havia dado o primeiro passo na carreira eclesistica.
Hesitou at  ltima hora, e ainda assim no se decidiu seno porque o primeiro
passo no era irrevogvel; exprimia a inteno atual. Parte dessa
epstola  destinada a explicar o ajuste entre o sentimento e o ato, entre o
alcance deste e a liberdade efetiva. No fazia mais que renunciar s
frivolidades do mundo. A 11 de julho escreve-lhe que deu um passo mais na
carreira, menos importante que o primeiro, sem vnculo novo, pelo que no lhe
custou muito;  um complemento daquele  um anexo, como lhe chama. O terceiro,
o subdiaconato,  que seria definitivo, mas, como o prazo era longo, um ano
mais tarde, a ansiedade era menor. Durante esse tempo, o seminarista entrega-se
aos estudos hebraicos, s lnguas orientais, e mais tarde,  lngua alem.
Pelos fins de 1844,  encarregado de lecionar hebreu, porque o professor efetivo
no podia com os dois cursos; aceitou a posio, j pela vantagem cientfica
que lhe trar, j porque pode lev-lo a alguma coisa. Assim comear o ento
professor da Sorbona.

Trs meses depois, a 11 de abril de
1845, escreve Renan a carta mais importante da situao. Resolveu no atar
naquele ano o lao indissolvel, o subdiaconato, e solta a palavra explicativa:
no cr bastante para ser padre. Expe assim, e mais longamente, o estado em
que se acha ante o catolicismo e os seus dogmas, dos quais fala com respeito,
proclamando que Jesus ser sempre o seu Deus; mas tendo procedido ao que chama
verificao racional do cristianismo, descobriu a verdade. Descobriu tambm
um meio termo, que exprime a natureza moral do futuro exegeta: o cristianismo no
 falso, mas no  a verdade absoluta. No repareis na contradio do
seminarista, para quem o sacerdcio era divino, h vinte meses, ainda que o
cristianismo fosse um devaneio, e agora encontra na meia verdade da Igreja
razo bastante para deix-la. Ou reparai nela, como nico fim de entender a
formao intelectual do homem. Contradio aqui  sinceridade.

No h espanto da parte de Henriqueta,
quando Renan lhe faz a confisso de 11 de abril. Tinha soletrado a alma dele, 
medida que lhe recebia as letras, assim como tu e eu podemos l-la agora de vez
e integralmente. Tambm no h no primeiro momento nenhuma manifestao de
alegria, que alguns possam dizer mpia. A alma desta senhora conserva-se
fundamentalmente religiosa, cheia daquela caridade do Evangelho que falava ao
corao de Rousseau. Demais, alm de conhecer o estado moral do irmo, foi ela
prpria que o aconselhou a adiar o subdiaconato. No sabe  pelo menos no lho
contou ele nas cartas do volume  no sabe da cena que ocorreu no seminrio de
Issy, muito antes da confisso de 11 de abril, que  datada de Saint-Sulpice.
Foi aps uma das argumentaes latinas, que o professor Gottofrey, desconfiando
das inclinaes de Renan, em conversao particular,  noite, concluiu por
estas palavras que o aterraram: Vs no sois cristo! (Souvenirs). J
antes disso sentia Renan em si mesmo a negao do espiritualismo; mas ele
explica a conservao do cristianismo, apesar da concepo positiva do mundo
que ia adquirindo por ser moo, inconseqente e falho de crtica (Souvenirs).
De resto, a confisso  irm no foi nica; escreveu por esse tempo outras
cartas a vrios, uma ao seu diretor, apenas designado por *** em 6 de setembro
de 1845, outra a um de seus companheiros, Cognat, que mais tarde tomou ordens,
em 24 de agosto, ambas datadas da Bretanha. Henriqueta, ao que se pode supor,
teve as primcias da confisso; foi para ela que ele rompeu, antes que para
estranhos, os vus todos da incredulidade mal encoberta. Ficou entendido que
ocultariam  me a resoluo nova e ltima. Trataram dos meios de acudir 
necessidade presente, se aceitar um lugar de preceptor na Alemanha, se adotar
estudos livres; o fim era proceder de modo que a renncia da carreira
eclesistica se fizesse cautelosamente sem dor para a me nem escndalo
pblico. H aqui uma divergncia de datas em que no vale a pena insistir;
segundo a carta de Renan de 13 de outubro de 1845,  irm, foi na noite de 9
que ele deixou o seminrio para ir morar na hospedaria prxima; segundo o livro
dos Souvenirs foi a 6 *.

A alma delicada de Henriqueta
manifesta-se vivamente no que respeita ao dinheiro. Henriqueta custeia as
despesas todas da vida e dos estudos do irmo. A vida deste, antes da sada do
seminrio, quase no passa dos livros; mas, depois da sada,  preciso
alojamento e alimentao,  preciso que ele ande vestido como toda a gente, e
Henriqueta no esquece nada. No esquecer  pouco; um corao daquele melindre
tem cuidados que escapariam  previso comum. Espero de Varsvia uma letra de
cmbio de mil e quinhentos francos; mand-la-ei a Paris a uma pessoa de
confiana, que acreditar que esta soma  s tua... Em que  que podia
vexar ao irmo esse auxlio pecunirio? Henriqueta quer poupar-lhe at a sombra
de algum acanhamento. Conhecendo-lhe a nenhuma prtica da vida, a absoro dos
estudos, a mesma ndole da pessoa, desce s mincias derradeiras, ao modo de
entrar na posse do valor da letra, por bimestre ou trimestre, segundo as
necessidades;  o oramento de um ano. Manda-lhe outras somas por intermdio do
outro irmo, a quem incumbe tambm da tarefa de comprar a roupa em Saint-Malo,
por conta dela; a razo  a inexperincia de Ernesto. Mas ainda aqui prevalece
o respeito  liberdade; se este preferir compr-la em Paris, Henriqueta
recomenda que lhe seja entregue mais um tanto em dinheiro. Que te no enfadem estas particularidades, grave leitor amigo; aqui as tens ainda
mais nfimas. Henriqueta desce  indicao da cor e forma do vesturio, uma
sobrecasaca escura, o resto preto,  o que lhe parece mais adequado. Ao p
disso no h falar de conselhos sobre hospedagens e tantas outras miudezas,
intercaladas de expresses to dalma, que  como se vssemos uma jovem me
ensinando o filhinho a dar os primeiros passos.

A influncia de Henriqueta avulta com o
tempo e as necessidades da carreira nova. O zelo cresce-lhe na mesma proporo.
Pelo outro irmo, por uma amiga de Paris, Mlle. Ulliac, e pelas cartas,
Henriqueta governa a vida de Renan, e no cuida mais que de lhe incutir
confiana e de lhe abrir caminho. O que lhe escreve sobre o bacharelado, Escola
Normal, estudo de lnguas orientais e o resto  apoiado pela amiga. Uma e outra
suscitam-lhe protees e auxiliares de boa vontade. Renan faz daquela amiga da
irm excelente juzo; no o diz s nas cartas do tempo, mas ainda no opsculo
de 1862. Era uma senhora bela, virtuosa e instruda. Com grande arte, ao que
parece, insinuou-lhe ela que lhe era preciso relacionar-se com alguma senhora
boa e amvel. Ri-me, escreve Renan a Henriqueta, mas no por mofa. E,
confessando que no  bom que o homem esteja s, pergunta se algum est s
tendo uma irm (carta de 31 de outubro de 1845). Henriqueta -lhe necessria 
vida moral e intelectual. De novembro em diante insta com a irm para que volte
da Polnia. A amiga falou-lhe da sade de Henriqueta como estando muito
alterada, e deu-lhe notcias que profundamente o afligiram; desvendou-lhe o
mistrio  a expresso dele. Foi na noite de 3 de novembro que Mlle. Ulliac
abriu os olhos a Renan, confiando-lhe que Henriqueta tivera grandes
padecimentos, dos quais nem ele nem a me souberam nada. No se deduz bem do
texto se eram molstias recentes, se antigas; sabe-se que eram caladas, e por
isso ainda mais tocantes. As cartas do volume no passam de 25 de dezembro
daquele ano; as instncias repetem-se, um longo silncio da irm assusta o
irmo; afinal vimos que ela s voltou da Polnia cinco anos depois, em 1850.
Trazia uma laringite crnica. Tudo, porm, estava pago.

Os sacrifcios  que no estavam
cumpridos. A vida desta senhora tinha de continuar com eles, e acabar por eles.
O maior de todos foi o casamento do irmo. Quando Renan resolveu casar,
Henriqueta recebeu um grande golpe e quis separar-se dele. Essa irm e me
tinha cimes de esposa. Renan quis desfazer o casamento; foi ento que o
corao de Henriqueta cedeu, e consentiu em v-lo feliz com outra. A dor no
morreu; o irmo confessa que o nascimento do seu primeiro filho  que lhe
enxugou a ela todas as lgrimas; mas foi s dias antes de morrer que, por
algumas palavras dela, reconheceu haver a ferida cicatrizado inteiramente. As
palavras seriam talvez estas, transcritas no opsculo: Amei-te muito; cheguei
a ser injusta, exclusiva, mas foi porque te amei como j se no ama, como
talvez ningum deva amar. Viveram juntos os trs; juntos foram em 1860 para
aquela misso da Fencia, a que o imperador Napoleo convidou Renan. A esposa
deste regressou pouco depois; Renan e Henriqueta continuaram a jornada de
exploraes e de estudos, durante a qual ela padeceu largamente, trabalhando
longas horas por dia, curtindo violentas dores nevrlgicas, at contrair a
febre perniciosa que a levou deste mundo. As pginas em que Renan conta a viagem, a doena e a morte de Henriqueta so das mais belas que lhe saram
das mos. Morreu trabalhando; os ltimos auxlios que prestou ao irmo foi
copiar as laudas da Vida de Jesus,  medida que ele as ia escrevendo, em
Gazhir.

Renan confessa que lhe deveu muito, no
s na orientao das idias, mas ainda em relao ao estilo, e explica por que
e de que maneira. Antes da misso da Fencia trabalharam juntos, em matria de
arte e de arqueologia; alm disso, ela compunha trabalhos para jornais de
educao; mas os seus melhores escritos diz ele que eram as cartas. Moralmente,
tinham ambos alcanado as mesmas vistas e o mesmo sentimento; ainda a, porm,
reconhece Renan alguma superioridade nela.

Que impresso final deixa a
correspondncia daqueles dois coraes? O de Henriqueta, mais exclusivo, era
tambm mais terno e o amor mais profundo. As cartas de Henriqueta so talvez
nicas, como expresso de sentimento fraternal. Mais de uma vez lhe diz que a
vida dele e a sua felicidade so o seu principal cuidado, e at nico. No
temos aqui o que escreveu  me; mas no creio que a nota fosse mais forte, nem
talvez tanto. Renan ama a irm, -lhe gratssimo, ia-lhe sacrificando o
consrcio; mas, enfim, pde amar outra mulher, e, feliz com ambas, viver dessas
duas dedicaes. Henriqueta, por mais que Renan nos afirme o contrrio, tinha
um fundo pessimista. Que amasse a vida, creio, mas por ele; se podia sorrir a
um enfeite, como se pode sorrir a uma flor, estava longe da inaltervel
bem-aventurana do irmo. O cetismo otimista de Renan nunca seria entendido por
ela; temperamento e experincia tinham dado a Henriqueta uma filosofia triste
que se lhe sente nas cartas. Todos conhecem a confisso geral feita pelo autor
dos Souvenirs denfance et de jeunesse. Renan afirma ter sido to feliz
que, se houvesse de recomear a vida, com direito de emend-la, no faria
emenda alguma. Henriqueta, se tivesse igual sentimento, seria unicamente para
servi-lo, e am-lo, e, caso pudesse, creio que usaria do direito de eliminar,
quando menos, as molstias que padeceu. Renan tinha da vida e dos homens um
sentimento que, apesar das agruras dos primeiros anos, j lhe aparece em alguma
parte da correspondncia. Um livro  diz ele na ltima carta do volume   o
melhor introdutor no mundo cientfico. A sua composio obriga a consultar uma
poro de sbios, que nunca ficam to lisonjeados como quando se lhes vai
prestar homenagem e  cincia deles. As dedicatrias fazem amigos e protetores
elevados. Tenciono dedicar o meu ao Sr. Quatremre. Na confisso dos Souvenirs
 j o sbio que fala em relao aos estreantes: Um poeta, por exemplo,
apresenta-nos os seus versos.  preciso dizer que so admirveis; o contrrio
equivale a dizer-lhe que no valem nada, e fazer sangrenta injria a um homem
cuja inteno  fazer-nos uma fineza. Um clssico da nossa lngua, S de
Miranda, pe na boca de um personagem de uma das suas comdias alguma coisa que
resume toda essa arte e polidez a recomendadas: A mor cincia que no mundo h
assim  saber conversar com os homens; bom rosto, bom barrete, boas palavras
no custam nada e valem muito... Vou-me a comer.

Vou-me a comer, aplicado a Renan,  a
glria que lhe ficou das suas admirveis pginas de escritor nico. A glria de
Henriqueta seria a contemplao daquela, o gozo ntimo de uma adorao e de um
amor, que a vida achou realmente excessivos, tanto que a despegou de si, com um
derradeiro e terrvel sofrimento, talvez mais intil que os outros.



*  mais interessante citar uma coincidncia. Na
carta que Renan escreveu ao colega Cognat, datada de 12 de novembro de 1845, e
na que escreveu  irm em data de 13 de outubro, a narrao da chegada e sada
do seminrio de Saint-Sulpice  feita com as mesmas palavras, pouco mais ou
menos (Conf. Lettres intimes, e Souvenirs, apndice).  mais que
coincidncia,  repetio de textos. O sentimento final  expresso em ambos os
lugares com este mesmo suspiro: Que de liens, mon ami (ma bonne amie) rompus
en quelques heures!
