Conto, Astcias de marido, 1866

Astcias de marido

Texto-fonte:

Contos Completos, de Machado de Assis, vol. I,

Juiz de Fora: Ed. UFJF, 2002.

http://www2.uol.com.br/machadodeassis/

Publicado originalmente em Jornal
das Famlias, de 10/1866 a 11/1866.

CAPTULO PRIMEIRO

No me admira, dizia um poeta
antigo, que um homem case uma vez; admira-me que, depois de vivo, torne a
casar. Valentim Barbosa achava-se ainda no primeiro caso e j compartia a
admirao do poeta pelos que se casavam duas vezes.

No  que a mulher dele fosse um
drago ou uma fria, uma mulher como a de Scrates; ao contrrio, Clarinha era
meiga, dcil e submissa, como uma rola; nunca abrira os lbios para exprobrar
ao marido uma expresso ou um gesto. Mas que faria ento a desgraa de Valentim?
 o que eu vou dizer aos que tiverem a pacincia de ler esta histria at o
fim.

Valentim fora apresentado em casa
de Clarinha pelo correspondente de seu pai no Rio de Janeiro. Era um rapaz de vinte
e oito anos, formado em direito, mas suficientemente rico para no usar do
ttulo como meio de vida.

Era um belo rapaz, no sentido mais
elevado da palavra. Adquirira nos campos riograndenses uma robustez que lhe ia
bem com a beleza mscula. Tinha tudo quanto podia seduzir uma donzela: uma
beleza varonil e uma graa de cavaleiro. Tinha tudo quanto podia seduzir um pai
de famlia: nome e fortuna.

Clarinha era ento uma
interessante menina, cheia de graas e prendas. Era alta e magra, no da
magreza mrbida, mas da magreza natural, potica, fascinante; era dessas
mulheres que inspiram o amor de longe e de joelhos to impossvel parece que se
lhes possa tocar sem profanao. Tinha um olhar lmpido e uma fisionomia
insinuante. Cantava e tocava piano, com a inspirao de uma musa.

A primeira vez que Valentim a viu,
Clarinha saa da cama, onde a detivera, durante um ms, uma febre intermitente.
Um rosto plido e uns olhos mrbidos deixaram logo o advogado sem saber de si,
o que prova que no havia nele uma alma de lorpa.

Clarinha no se inspirou de nada;
gostava do rapaz, como o rapaz gostara de outras mulheres; achou-o bonito; mas
no sentiu amor por ele.

Valentim no teve tempo nem fora
para analisar a situao. Ficou abalado pela menina e decidiu-se a apresentar-lhe
as suas homenagens. No h ningum que tome mais facilmente intimidade do que
um namorado. Valentim, aos primeiros oferecimentos do pai de Clarinha, no
hesitou; volveu  casa da moa e tornou-se o mais assduo freqentador.

Valentim conhecia a vida; metade
por cincia, metade por intuio. Tinha lido o Tratado de paz com os homens,
de Nicole, e reteve estas duas condies a que o filsofo de Port Royal reduz o
seu sistema: no opor-se s paixes, no contrariar as opinies. O pai de
Clarinha era doido pelo xadrez e no via salvao fora do partido conservador;
Valentim fustigava os liberais e acompanhava o velho na estratgia do rei e dos
elefantes. Uma tia da moa detestava o imprio e a constituio, chorava pelos
minuetos da corte e ia sempre resmungando ao teatro lrico; Valentim
contrafazia-se no teatro, danava a custo uma quadrilha e tecia loas ao regime
absoluto. Enfim, um primo de Clarinha mostrava-se ardente liberal e amigo das
polcas; Valentim no via nada que valesse uma polca e um artigo do programa
liberal.

Graas a este sistema era amigo de
todos e tinha seguro o bom agasalho.

Mas daqui resultavam algumas cenas
divertidas.

Por exemplo, o velho surpreendia
s vezes uma conversa entre Ernesto (o sobrinho) e Valentim a respeito de
poltica: ambos coroavam a liberdade.

 Que  isso, meu caro? Ento
segue as opinies escaldadas de Ernesto?

 Ah! respondia Valentim.

 Dar-se- caso que tambm
pertena ao partido liberal?

 Sou, mas no sou...

 Como assim? perguntava Ernesto.

 Quero dizer, no sou mas sou...

Aqui Valentim tomava a palavra e
fazia um longo discurso to bem deduzido que contentava as duas opinies. Dizem
que  isto uma qualidade para ser ministro.

Outras vezes era a tia quem o
surpreendia no campo contrrio, mas a habilidade de Valentim triunfava sempre.

Deste modo, concordando em tudo,
nas opinies como nas paixes,  apesar das pesadas obrigaes de jogar o
xadrez e ouvir a velha e as histrias do outro tempo,  Valentim conseguiu na
casa de Clarinha uma posio proeminente. Sua opinio tornou-se decisiva em
tudo quanto concernia aos projetos do velho pai. Baile onde no fosse Valentim
no ia a famlia. Dia em que este no fosse visit-la podia dizer-se que corria
mal.

Mas o amor caminhava ao lado da
intimidade, e at por causa da intimidade. Cada dia trazia a Valentim a
descoberta de uma nova prenda no objeto do seu culto. A moa estava na mesma
situao do primeiro dia, mas era to amvel, to doce, to delicada, que
Valentim, tomando a nuvem por Juno, chegou a acreditar que era amado. Talvez
mesmo Clarinha no fosse completamente ingnua no engano em que fazia cair
Valentim. Um olhar e uma palavra no custa, e  to bom alargar o crculo dos
adoradores!

O pai de Clarinha descobriu o amor
de Valentim e aprovou-o logo antes da declarao oficial. Aconteceu o mesmo 
tia. S o primo, apenas desconfiou, declarou-se interiormente em oposio.

Para que encobri-lo mais? No sou
romancista que me alegre com as torturas do leitor, pousando, como o abutre de
Prometeu, no fgado da pacincia sempre renascente. Direi as coisas como elas
so: Clarinha e Ernesto amavam-se.

No era recente esse amor: datava
de dois anos. De trs em trs meses Ernesto pedia ao velho a mo da prima, e o
velho recusava-lhe dizendo que no dava a filha a quem no tinha eira nem
beira. O moo no pde arranjar um emprego, apesar de todos os esforos; mas no
fim do perodo regular de trs meses voltava  carga para receber a mesma
recusa.

A ltima vez que Ernesto renovou o
pedido, o pai de Clarinha respondeu que se lhe ouvisse mais falar nisso
fechava-lhe a porta. Proibiu  filha que falasse ao primo, e comunicou tudo 
irm, que julgou oportuna a ocasio para obrig-lo a suspender a assinatura do
teatro lrico.

Ir  casa de Clarinha sem poder
falar-lhe era cruel para o jovem Ernesto. Ernesto, portanto, retirou-se
amigavelmente. No fim de algum tempo voltou declarando estar curado. Pede a
fidelidade que manifeste neste ponto ser a declarao de Ernesto a mais sria
do mundo. O pai acreditou, e tudo voltou ao seu antigo estado; sim, ao seu
antigo estado, digo bem, porque o amor que Ernesto cuidara extinto reviveu 
vista da prima. Quanto a esta, ausente ou presente, nunca esqueceu o amante.
Mas a vigilncia prudente do pai ps os nossos dois heris de sobreaviso, e
ambos passaram a amar em silncio.

Foi pouco depois disto que
apareceu Valentim em casa de Clarinha.

Aqui devo eu fazer notar aos
leitores desta histria, como ela vai seguindo suave e honestamente, e como os
meus personagens se parecem com todos os personagens de romance: um velho
manaco; uma velha impertinente, e amante platnica do passado; uma moa bonita
apaixonada por um primo, que eu tive o cuidado de fazer pobre para dar-lhe
maior relevo, sem, todavia, decidir-me a faz-lo poeta, em virtude de
acontecimentos que se ho de seguir; um pretendente rico e elegante, cujo amor
 aceito pelo pai, mas rejeitado pela moa; enfim, os dois amantes  borda de
um abismo condenados a no verem coroados os seus legtimos desejos, e ao fundo
do quadro um horizonte enegrecido de dvidas e de receios.

Depois disto, duvido que um s dos
meus leitores no me acompanhe at o fim desta histria, que, apesar de to
comum ao princpio, vai ter alguma coisa de original l para o meio. Mas como
convm que no v tudo de uma assentada, eu dou algum tempo para que o leitor
acenda um charuto, e entro ento no segundo captulo.

CAPTULO II

Se o leitor j amou imagine qual
no seria o desespero de Ernesto, descobrindo um rival em Valentim. A primeira pergunta que o pobre namorado fez a si mesmo foi esta:

 Ama-lo- ela?

Para responder a esta pergunta
Ernesto preparou-se a averiguar o estado do corao da moa.

No o fez sem algum despeito. Um
sentimento interior dizia-lhe que Valentim lhe era superior, e nesse caso
suspeitava o pobre rapaz que o triunfo coubesse ao rival intruso. Neste estado
fez as suas primeiras indagaes. Ou fosse clculo, ou natural sentimento,
Clarinha, s primeiras interrogaes de Ernesto, mostrou que era insensvel ao
afeto de Valentim. Ns podemos saber que era clculo, apesar de me servir este
ponto para eu atormentar um bocado os meus leitores. Mas Ernesto viveu na
dvida durante alguns dias.

Um dia, porm, convenceu-se de que
Clarinha continuava a am-lo como dantes, e que portanto o iludido era
Valentim. Para chegar a esta convico lanou mo de um estratagema: declarou
que se ia matar.

A pobre moa quase chorou lgrimas
de sangue. E Ernesto, que tinha tanta vontade de morrer como eu, apesar de amar
doidamente a prima, pediu-lhe que jurasse que nunca amaria outro. A moa jurou.
Ernesto quase morreu de alegria, e pela primeira vez, apesar de serem primos,
pde selar a sua paixo com um beijo de fogo, longo, mas inocente.

Entretanto, Valentim embalava-se
nas mais enganadoras esperanas. Cada gesto da moa (e ela os fazia por
garridice) parecia-lhe a promessa mais decisiva. Todavia, nunca Valentim
alcanara um momento que lhe permitisse fazer uma declarao positiva  moa.
Ela sabia at onde convinha ir e no dava um passo adiante.

Nesta luta ntima e secreta
passaram-se muitos dias. Um dia entrou, no sei como, na cabea de Valentim que
devia sem prvia autorizao pedir ao velho a mo de Clarinha. Acreditando-se
amado, mas supondo que a ingenuidade da pequena era igual  beleza, Valentim
julgou que tudo dependia daquele passo extremo.

O velho, que aguardava aquilo
mesmo, armado de um sorriso benvolo, como um caador armado da espingarda 
espera da ona, apenas Valentim fez-lhe o pedido da mo da filha, declarou que
aceitava a honra que o moo lhe fazia, e prometeu-lhe, nadando em jbilo, que
Clarinha aceitaria do mesmo modo.

Consultada particularmente acerca
do pedido de Valentim, Clarinha no hesitou um momento: recusou. Foi um
escndalo domstico. Interveio a tia, munida de dois conselhos e dois axiomas,
para convencer a rapariga de que devia aceitar a mo do rapaz. O velho assumiu
as propores de semideus e atroava a casa; finalmente Ernesto exasperado
prorrompeu em protestos enrgicos, sem poupar alguns adjetivos mais ou menos
desairosos para a autoridade paternal.

Do que resultou ser o rapaz
expulso de casa pela segunda vez, e ficar assentado de pedra e cal que Clarinha
casaria com Valentim.

Quando Valentim foi de novo saber do
resultado do pedido, o velho afirmou-lhe que Clarinha consentia em aceit-lo
por marido. Valentim manifestou logo um desejo legtimo de falar  noiva, mas o
futuro sogro respondeu-lhe que ela se achava meio incomodada. O incmodo era
nem mais nem menos resultante das cenas a que dera lugar o pedido de casamento.

O velho contava com a docilidade
de Clarinha, e no se iludia. A pobre menina, antes de tudo, acatava o pai e
recebia as ordens dele como se foram artigos de f. Passada a primeira comoo,
teve de resignar-se a aceitar a mo de Valentim.

O leitor, que ainda anda  procura
das astcias do marido, sem que ainda tenha visto nem marido, nem astcias, ao
chegar a este ponto exclama naturalmente:

 Ora, graas a Deus! j temos um
marido.

E eu, para furtar-me  obrigao
de narrar o casamento e a lua-de-mel, passo a escrever o terceiro captulo.

CAPTULO III

Lua-de-mel!

H sempre uma lua-de-mel em todos
os casamentos, no a houve no casamento de Valentim. O pobre noivo viu na
reserva de Clarinha um acanhamento natural do estado em que ia entrar; mas
desde que, passados os primeiros dias, a moa no saa do mesmo propsito,
Valentim concluiu que havia enguia na erva.

O autor desta novela no se viu
ainda em situao igual, nem tambm caiu num poo de cabea para baixo, mas
acredita que a impresso deve ser absolutamente a mesma.

Valentim fez o seguinte
raciocnio:

 Se Clarinha no me ama  que ama
algum; esse algum talvez no me valha, mas tem sobre mim a grande vantagem de
ser preferido. Ora, esse algum quem ?

Desde ento a questo de Otelo
entrou no esprito de Valentim e fez cama a: ser ou no ser amado, tal era o
problema do infeliz marido.

Amar uma mulher moa, bela, adorvel
e adorada; ter a subida glria de possu-la de poucos dias,  face da igreja, 
face da sociedade; viver por ela e para ela; mas ter ao mesmo tempo a certeza
de que diante de si no existe mais do que o corpo frio e insensvel, e que a
alma vagueia em busca da alma do outro; transformar-se ele, noivo e amante, em
objeto de luxo, em simples pessoa oficial, sem um elo do corao, sem uma
centelha de amor que lhe d a posse inteira daquela que ama, tal era a
miseranda e dolorosa situao de Valentim.

Como homem de esprito e de
corao, o rapaz compreendeu a sua situao. Neg-la era absurdo, confess-la
no interior era ganhar metade do caminho, porque era saber o terreno que
pisava. Valentim no se deteve em suposies vs; assegurou-se da verdade e tratou
de descobri-la.

Mas como? Perguntar  prpria
Clarinha, era inaugurar o casamento por uma desconsiderao, e qualquer que
fosse o direito que tivesse de resgatar o corao da mulher, Valentim no
queria desprestigi-la aos seus prprios olhos. Restava a pesquisa. Mas de que
modo exerc-la?  casa dele no ia ningum; e demais, se alguma coisa havia,
devera ter comeado em casa do pai. Interrogar o pai seria assisado? Valentim
desistiu de toda a investigao do passado e disps-se simplesmente a analisar
o presente.

A reserva de Clarinha no era uma
dessas reservas que levam o desespero ao fundo do corao; era uma reserva
dcil e submissa. E era exatamente isso o que feria o despeito e a vaidade de
Valentim. A submisso de Clarinha parecia a resignao do condenado  morte.
Valentim via nessa resignao um protesto mudo contra ele; cada olhar da moa
parecia-lhe anunciar um remorso.

Uma tarde...

O leitor h de ter achado muito
singular que eu no tenha marcado nesta novela os lugares em que se passam as
diversas cenas de que ela se compe.  de propsito que fao: limitei-me a
dizer que a ao se passava no Rio de Janeiro. Fica  vontade do leitor marcar
as ruas e at as casas.

Uma tarde, Valentim e Clarinha
achavam-se no jardim. Se se amassem igualmente estariam quela hora num
verdadeiro cu; o sol parecia ter guardado um dos seus melhores ocasos para
aquela tarde. Mas os dois esposos pareciam apenas dois conhecidos que por acaso
se haviam encontrado num hotel; ela por uma reserva natural e que tinha
explicao no amor de Ernesto, ele por uma reserva estudada, filha do cime e
do despeito.

O sol morria numa das suas
melhores mortes; uma aragem fresca agitava mansamente as folhas dos arbustos e
trazia ao lugar onde se achavam os dois esposos o doce aroma das accias e das
magnlias.

Os dois estavam assentados em
bancos de junco, colocados sobre um cho de relva; uma espcie de parede
composta de trepadeiras formava por assim dizer o fundo do quadro. Perto
ouvia-se o murmrio de um regato que atravessava a chcara. Finalmente duas
rolas brincavam a dez passos do cho.

Como se v, a cena pedia uma
conversao adequada em que se falasse de amor, de esperanas, de iluses,
enfim, de tudo quanto pudesse varrer da memria a boa prosa da vida.

Mas em que conversavam os dois? A
descrio fez-nos perder as primeiras palavras do dilogo; mal podemos pilhar
uma interrogao de Valentim.

 Mas, ento, no s feliz?
perguntou ele.

 Sou, respondeu a moa.

 Como dizes isso! parece que
respondes a uma interrogao da morte!

Um triste sorriso passou pelos
lbios de Clarinha.

Seguiu-se um breve silncio,
durante o qual Valentim considerava as botas e Clarinha analisava a barra do
vestido.

 Pois olha, no me falta
vontade... disse Valentim.

 Vontade de qu?

 De fazer-te feliz.

 Ah!

 Nem foi para outra coisa que eu
te fui buscar  casa de teu pai. Amo-te muito, mas se eu soubera que tu no
correspondias com o mesmo amor desistiria do meu intento, porque para mim  um
duplo remorso ver o objeto de meu amor triste e desconsolado.

 Parece-te isso!

 E no ?

 No .

Clarinha procurou dar a esta
ltima resposta uma expresso da maior ternura; mas se ela tivesse pedido um
copo dgua teria empregado a mesmssima expresso.

Valentim respondeu com um suspiro.

 No sei como queres que eu te
diga as coisas!

 No quero nada; desde que eu te
impusesse um modo de falar pode ser que eu me arrufasse menos, mas no era
diversa a minha situao.

Clarinha levantou-se.

 Anda passear.

Valentim obedeceu, mas obedeceu
maquinalmente.

 Ento, ainda ests triste?

 Ah! se tu me amasses, Clarinha!
respondeu Valentim.

 Pois no te... amo?

Valentim olhou para ela o
murmurou:

 No!

Valentim deu o brao a Clarinha e
foram passear pelo jardim, dos mais bem arrumados e plantados da capital; a
enxada, a tesoura e a simetria ajudavam ali o nascimento das rosas. A tarde
caa, o cu tomava essa cor de chumbo que inspira tanta melancolia e convida a
alma e o corpo ao repouso. Valentim parecia no ver nada disso; estava diante
do seu tremendo infortnio.

Clarinha, por seu lado, procurava
distrair o marido, substituindo por algumas palavras de terno interesse o amor
que lhe no tinha.

Valentim respondia por
monosslabos ao princpio; depois a conversa foi-se empenhando e ao cabo de
meia hora j Valentim mostrava-se menos sombrio. Clarinha procurava por esse
modo acalmar o esprito do marido, quando ele insistia na conversao que
ouvimos h pouco.

Uma coruja que acaba de cantar
agora  janela traz-me  memria que eu devia apresentar em cena neste momento
a tia de Clarinha.

Entra, portanto, a tia de
Clarinha. Vem acompanhada de um moleque vestido de pajem. A moa vai
lanar-se-lhe aos braos, e Valentim encaminha-se para ela com passo regular,
para dar tempo s efuses de amizade. Mas aquele mesmo espetculo da afeio
que ligava a tia  sobrinha, a espontaneidade com que esta correra a receber
quela, mais o entristecia, comparando o que Clarinha era h pouco e o que era
agora.

Findos os primeiros cumprimentos
entraram todos em casa. A boa velha vinha passar oito dias com a sobrinha;
Valentim fez um gesto de desgosto; mas a moa manifestou uma grande alegria com
a visita da tia.

Valentim retirou-se para o seu
gabinete e deixou s duas plena liberdade.

 mesa do ch falou-se de muita
coisa; Clarinha indagava de tudo quanto era da casa do pai. Este devia vir no
dia seguinte jantar com o genro.

Valentim pouco falou.

Mas l para o meio do ch,
Clarinha voltou-se para a tia e perguntou com certa timidez o que era feito de
Ernesto. A moa procurou dar  pergunta o tom mais inocente do mundo; mas to
mal o fez que despertou a ateno do marido.

 Ah! respondeu a tia; est bom,
isto ... est doente.

 Ah! de que? perguntou a moa
empalidecendo.

 De umas febres...

Clarinha calou-se, plida como a
morte.

Valentim tinha os olhos fixos
nela. Um sorriso, meio de satisfao, meio de dio, pairava-lhe nos lbios.
Enfim o marido descobrira o segredo da reserva da mulher.

Seguiu-se um longo silncio da
parte de ambos, s interrompido pelo palavreado da tia, que afinal, depois de
fazer algumas perguntas aos dois sem obter resposta, decidiu-se a reclamar
contra aquele silncio.

 Estamos ouvindo, minha tia,
disse Valentim.

E to significativas foram aquelas
palavras, que Clarinha olhou para ele assustada.

 Estamos ouvindo, repetiu
Valentim.

 Ah! pois bem... Como ia
dizendo...

A conversa continuou at o fim do
ch. s onze horas todos se recolheram aos seus aposentos.  a melhor ocasio para
terminar o terceiro captulo e deixar que o leitor acenda um novo charuto.

CAPTULO IV

A tia de Clarinha no se demorou
oito dias em casa da sobrinha, demorou-se quinze dias. A boa velha estava
encantada com o agasalho que encontrara a.

Durante esse tempo no houve
incidente algum que interesse  nossa histria. O primeiro susto de Clarinha
causado pelas palavras do marido desvaneceu-se  vista do procedimento
posterior dele, que pareceu nada haver descoberto. Com efeito, Valentim, como
homem atilado que era, entendeu que lhe no cumpria provocar uma declarao da
parte de Clarinha. Julgou melhor estudar a situao e esperar os
acontecimentos. Demais, ele nada tinha de positivo a alegar. Temia enganar-se e
no se perdoaria nunca se fizesse a injria de atribuir  sua mulher um delito
que no existia. Deste modo, nunca fez aluso alguma nem mudou o procedimento;
era o mesmo homem que no primeiro dia.

Valentim pensava ainda que a
afeio que ele supunha existir em Clarinha pelo primo, talvez no passasse de
uma ligeira afeio da infncia, prpria a desaparecer diante da idia do
dever.  verdade que isto anulava um pouco a sua prpria pessoa, mas Valentim,
para que no ficasse s ao tempo e aos bons instintos da moa a mudana do
estado das coisas, cuidou de ajudar a um e aos outros deitando na balana a sua
prpria influncia.

Seu clculo foi este: ao passo que
Ernesto perdesse no corao de Clarinha, graas  ausncia e nobreza dos
sentimentos dela, ele Valentim procuraria ganhar a influncia do outro e
substitu-lo no corao em litgio.

Estavam as coisas neste p, quando
no qinquagsimo dia apareceu em casa de Valentim... quem? o prprio Ernesto,
meio enfermo ainda, cheio de uma palidez potica e fascinante.

Clarinha recebeu-o no jardim, por
cuja porta Ernesto entrou.

Teve um movimento para abra-lo;
mas recuou logo, corada e envergonhada. Baixou os olhos. Depois do casamento
era a primeira vez que se viam. Ernesto aproximou-se para ela sem dizer
palavra, e durante alguns minutos assim estiveram interditos, at que a tia
veio pr termo ao embarao, entrando no jardim.

Mas, ao mesmo tempo que aquela
cena se dava, Valentim, atravs dos vidros de uma das janelas da sala de
jantar, tinha os olhos pregados em Clarinha e Ernesto. Viu tudo, o movimento
dela quando Ernesto entrou e o movimento de reserva que se seguiu a esse.
Quando a velha entrou Valentim desceu ao jardim.

A recepo da parte do marido foi
a mais cordial e amiga; parecia que estava longe da cabea dele a menor idia
de que os dois se amavam. Foi essa a ltima prova para Clarinha; mas isso a
perdeu decerto, porque, confiada na boa f de Valentim, entregou-se demasiado
ao prazer de tornar a ver Ernesto. Esse prazer contrastava singularmente com a
tristeza dos dias anteriores.

No tenho o propsito de
acompanhar dia por dia os acontecimentos da famlia Valentim. Apenas me
ocuparei com aqueles que importarem  nossa histria, e neste ponto entro j
nas astcias empregadas pelo marido para libertar a mulher do amor que ainda
parecia conservar pelo primo.

Que astcias foram essas? Valentim
refletiu nelas uma noite inteira. Ele tinha diversos meios para empregar: uma
viagem, por exemplo. Mas uma viagem no adiantaria nada; a ausncia dava at
mais incremento ao amor. Valentim compreendeu isso e desistiu logo da idia.
Que meio escolheu? Um: o ridculo.

Na verdade, o que h neste mundo
que resista ao ridculo? Nem mesmo o amor. O marido perspicaz compreendeu que
era esse o meio mais rpido.

Todavia, no tomou o ridculo seno
naquilo que ele  de conveno, naquilo que o mundo aceita como tal, sem que o
seja muitas vezes. Clarinha no podia resistir a esse. Era mulher como as
outras.

Um dia, pois, estando reunida a
famlia toda em casa de Valentim, e com ela muitas visitas mais, o marido de
Clarinha convidou Ernesto, que se dava por cavaleiro perfeito, a ensaiar um
cavalo que havia comprado.

 Onde est ele?

 Chegou ontem...  um animal
lindssimo.

 Mas onde est?

 Vai v-lo.

Enquanto se deram ordens de
aparelhar o cavalo, Ernesto dirigia-se s senhoras e dizia-lhes com nfase:

 Desculpem se fizer m figura.

 Ora!

 Pode ser.

 No acreditamos; h de fazer
sempre boa figura.

 Talvez no.

 Quer que o elogiemos?

Aparelhado o cavalo, saiu Ernesto a
mont-lo. Todos foram v-lo do terrao.

O cavalo era um animal fogoso e
manhoso. Ernesto saltou para ele com certa graa e agilidade que adquiriu logo
os aplausos das damas, inclusive Clarinha.

Mal o cavalo sentiu o destro
cavaleiro em seu dorso, comeou a pinotear. Mas Ernesto susteve-se, e com tanta
graa que as damas aplaudiram alegremente. Mas Valentim sabia o que fazia.
Contava com o resultado da cena, e olhava tranqilo o triunfo to celebrado de
Ernesto.

Esse resultado no se fez esperar.
No tardou muito que Ernesto no comeasse a sentir que estava mal. Tanto
bastou para que nunca mais pudesse dominar o animal. Este, como se pudesse
conhecer o enfraquecimento do cavaleiro e os desejos secretos de Valentim,
redobrou a violncia dos seus movimentos. A cena tornou-se ento mais sria. Um
sorriso que pairava nos lbios de Ernesto desapareceu; o moo foi tomando uma
posio grotesca quando s tinha presente a idia de cair e no a idia de que
estava diante de mulheres, entre as quais estava Clarinha. Por mal dos pecados,
se havia de cair como Hiplito, calado e nobre, comeou a soltar uns gritos
entrecortados. As damas assustaram-se, entre elas Clarinha, que mal podia
dissimular o terror de que se achava possuda. Mas quando o cavalo, com um
movimento mais violento, deitou o cavaleiro na relva, e que, depois de cair
prosaicamente estendido, levantou-se sacudindo o palet, houve uma grande
gargalhada geral.

Ento, Valentim, para tornar a
situao de Ernesto mais ridcula ainda, mandou chegar o cavalo e montou.

 Aprende, olha Ernesto.

E com efeito, Valentim, airoso e
tranqilo, sopeava os movimentos do animal e cumprimentava as senhoras. Foi uma
trplice bateria de aplausos. Nesse dia um foi o objeto das palmas de todos,
como o outro fora o objeto da pateada geral.

O prprio Ernesto, que ao
princpio quis meter o caso  bulha, no pde fugir depois  humilhao da sua
derrota. Essa humilhao foi completa quando Clarinha, mais compadecida que
despeitada com a situao dele, procurou consol-lo da figura que fizera. Ele
viu nas consolaes de Clarinha uma confirmao  sua derrota. E no est bem o
amante que inspira mais compaixo que amor.

Ernesto reconheceu por instinto
esse desastroso inconveniente; mas como remedi-lo? Curvou a cabea e protestou
no cair noutra. E deste modo terminou a sua primeira humilhao como termina o
nosso quarto captulo.

CAPTULO V

Fazia anos o pai de Clarinha. A
casa estava cheia de amigos e parentes. Havia uma festa de famlia com os
parentes e os amigos para celebrar aquele dia.

Desde a cena do cavalo at o dia
dos anos do velho, j Valentim tinha armado a Ernesto mais dois laos do mesmo
gnero, cujo resultado era sempre expor o pobre rapaz ao motejo dos outros.
Todavia, Ernesto no atribua nunca intenes malignas ao primo, que era o
primeiro a compungir-se dos infortnios dele.

O dia do aniversrio do sogro era
para Valentim um dia excelente: mas que fazer? que nova humilhao, que novo
ridculo preparar ao rapaz? Valentim, to frtil de ordinrio, no achava nada
naquele dia.

O dia passou-se nos folguedos
prprios de uma festa aniversria como aquela. A casa era fora da cidade.
Folgava-se melhor.

 hora prpria serviu-se um jantar
esplndido. O velho tomou a cabeceira da mesa, entre a filha e a irm;
seguiu-se Valentim e Ernesto, e o resto sem ordem de precedncia.

No meio da conversa animada que
acompanhou o jantar desde o princpio, Valentim teve uma idia e preparou-se
para pratic-la  sobremesa. Entretanto, correram as sades mais cordiais e
mais entusisticas.

Notou-se, porm, que Ernesto do
meio do jantar em diante ficara triste.

Que seria? Todos perguntavam,
ningum sabia responder, nem mesmo ele, que teimava em recolher-se ao mais
absoluto silncio.

Valentim levantou-se ento para
fazer a sade de Ernesto, e pronunciou algumas palavras de entusiasmo cujo
efeito foi fulminante. Ernesto durante alguns minutos viu-se o objeto de
aplausos que lhe valiam as pateadas da montaria.

Uma coisa o perdeu, e nisto estava
o segredo de Valentim. Ernesto quis responder ao speech de Valentim. A
tristeza que se lhe notara antes era o resultado de uma desastrada mistura de
dois vinhos antipticos. Forado a responder por um capricho tomou o copo e
respondeu ao primo. Da em diante era ele o iniciador de todas as sades.
Quando ningum faltava para ser objeto dos seus speechs, fez uma sade
ao cozinheiro, que foi extremamente aplaudida.

Descreverei eu as cenas que se
seguiram a esta? Fora entreter os leitores com algumas pginas repugnantes.
Ernesto excedera-se no entusiasmo, e quando todos se levantavam da mesa e
tomavam o caminho das outras salas, Ernesto desatou a chorar. Imaginem o efeito
desta cena grotesca. Ningum pde conter o riso; mas tambm ningum pde
estancar o pranto ao infeliz, que chorou ainda por espao de duas horas.

CAPTULO VI

Uma noite havia reunio em casa de
Valentim. Era puramente familiar. Meia dzia de amigos e meia dzia de parentes
formavam toda a companhia. s onze horas essa companhia estava reduzida a muito
pequeno nmero.

Armou-se (para usar da expresso
familiar), armou-se uma mesa de jogo em que Valentim tomou parte. Ernesto ao princpio no quis, estava amuado... Por qu? Parecia-lhe ver em Clarinha uma frieza
a que no estava acostumado. Finalmente aceitou; mas procurou tomar lugar em
frente da mulher de Valentim; ela, porm, ou fosse por indiferena ou fosse
adrede, retirou-se para a janela com algumas amigas.

Abriu-se o jogo.

Em pouco tempo estavam os jogadores
to animados que as prprias senhoras foram-se aproximando do campo da batalha.

Os mais empenhados eram Valentim e
Ernesto.

Tudo estava observando um curioso,
mas tranqilo interesse, quando de repente Valentim pra o jogo e diz para
Ernesto:

 No jogo mais!

 Por qu? perguntou Ernesto.

Um primo de Valentim, de nome
Lcio, olhou igualmente para Ernesto e disse:

 Tens razo.

 Por qu? insistiu Ernesto.

Valentim levantou-se, atirou as
cartas para o lugar de Ernesto, e disse com um tom de desprezo:

 Por nada!

Lcio e mais um dos presentes
disseram:

  caso de duelo.

Houve profundo silncio. Lcio
olhou para Ernesto e perguntou-lhe:

 Que faz o senhor?

 Que fao?

  caso de duelo.

 Ora, isso no est nos nossos
hbitos... o que eu posso fazer  abandonar aquele senhor ao meu desprezo...

 O qu? perguntou Valentim.

 Abandon-lo ao desprezo, porque
o senhor  um...

 Um... qu?

 O que quiser!

 H de dar-me uma satisfao!

 Eu?

 Decerto, disse Lcio.

 Mas, os nossos hbitos...

 Em toda a parte vinga-se a
honra!

 Sou o ofendido, tenho a escolha
das armas.

 A pistola, disse Lcio.

 Ambas carregadas, acrescentou
Valentim.

Durante este tempo as senhoras estavam
trmulas e embasbacadas. No sabiam o que se presenciava. Enfim, Clarinha pde
falar, e as suas primeiras palavras foram para o marido.

Mas este parecia no atender a
nada. Em poucos minutos redobrou a confuso. Ernesto insistia contra o emprego
do meio lembrado para resolver a questo, alegando que ele no estava nos
nossos hbitos. Mas Valentim no queria, nem admitia outra coisa.

Depois de larga discusso admitiu
Ernesto o sanguinolento desenlace.

 Pois sim, venha a pistola.

 E j, disse Valentim.

 J? perguntou Ernesto.

 No jardim.

Ernesto empalideceu.

Quanto a Clarinha, sentiu
faltar-lhe a luz e caiu desfalecida no sof.

Aqui nova confuso.

Imediatamente prestaram-se-lhe os
primeiros socorros. Tanto bastou. No fim de quinze minutos ela voltava  vida.

Estava ento no quarto, onde s
havia o marido e um dos convivas que era mdico.

A presena do marido lembrou-lhe o
que se passara. Deu um leve grito, mas Valentim tranqilizou-a imediatamente,
dizendo:

 Nada houve...

 Mas...

 Nem haver.

 Ah!

 Foi brincadeira, Clarinha, foi
tudo um plano. O duelo h de haver, mas s para experimentar o Ernesto. Pois
cuidas que eu faria semelhante coisa?

 Falas srio?

 Falo, sim.

O mdico confirmou.

Valentim contou que as duas testemunhas
j se entendiam com as duas do outro, tiradas todas dentre os que jogavam e que
entravam no plano. O duelo teria lugar pouco depois.

 Ah! no acredito!

 Juro... juro por esta bela
cabea...

E Valentim inclinando-se para a
cama beijou a testa da mulher.

 Oh! se tu morresses! disse esta.

Valentim olhou para ela: duas
lgrimas rolaram-lhe pelas faces. Que mais queria o marido?

Interveio o mdico.

 H um meio para cr-lo. Venham
duas pistolas.

Clarinha levantou-se e foi para outra
sala, que dava para o jardim e onde se achavam as outras senhoras.

A foram ter as pistolas.
Carregaram-nas  vista de Clarinha e dispararam depois, a fim de assegurar 
pobre senhora que o duelo era pura brincadeira.

Valentim desceu para o jardim. As
quatro testemunhas levaram as pistolas. As senhoras, prevenidas do que havia,
ficaram na sala, onde olhavam para o jardim, que foi iluminado de propsito.

Marcaram-se os passos e
entregou-se a cada um dos combatentes uma pistola.

Ernesto, que at ento parecia
alheio  vida, mal viu diante de si uma arma, apesar de ter outra, mas
tendo-lhe as testemunhas dito que ambas se achavam armadas, comeou a tremer.

Valentim apontou sobre ele.
Ernesto fazia esforos, mas no conseguia levantar o brao. Estava ansiado. Fez
sinal para que Valentim se detivesse, e tirou um leno para enxugar o suor.

Tudo contribua para assust-lo, e
de mais a mais as seguintes palavras que se ouviam em roda:

 O que ficar morto h de ser
enterrado aqui mesmo no jardim.

 Est claro. J se foi fazer a
cova.

 Ah! que seja profunda!

Enfim, soaram as pancadas. 
primeira Ernesto estremeceu,  segunda caiu-lhe o brao, e quando lhe diziam
que apontasse o alvo para soar a terceira pancada, ele deixou cair a pistola no
cho e estendeu a mo para o adversrio.

 Prefiro dar a satisfao.
Confesso que fui injusto!

 Como? prefere? disseram todos.

 Tenho razes para no morrer,
respondeu Ernesto, e confesso que fui injusto.

As pazes foram feitas.

Uma gargalhada, uma s, mas terrvel,
porque foi dada por Clarinha, soou na sala. Voltaram todos para l. Clarinha
tomando as pistolas, apontou-as para Ernesto e disparou-as.

Houve ento uma gargalhada geral.

Ernesto tinha o rosto mais enfiado
deste mundo. Era um lacre.

Clarinha largou as pistolas e
lanou-se nos braos de Valentim.

 Pois tu brincas com a morte, meu
amor?

 Com a morte, pelo amor, sim!

Ernesto arranjou da a dias uma
viagem e nunca mais voltou.

Quanto aos nossos esposos,
amaram-se muito e tiveram muitos filhos.
