Conto, Histria comum, 1883

Histria comum

Texto-fonte:

Obra Completa, Machado de Assis, vol. II,

Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994.

Publicado originalmente em A Estao, em 15/04/1883.

... Ca na copa do chapu de um
homem que passava... Perdoe-me este comeo;  um modo de ser pico. Entro em
plena ao. J o leitor sabe que ca, e ca na copa do chapu de um homem que
passava; resta dizer donde ca e por que ca.

Quanto  minha qualidade de
alfinete, no  preciso insistir nela. Sou um simples alfinete vilo, modesto,
no alfinete de adorno, mas de uso, desses com que as mulheres do povo pregam
os lenos de chita, e as damas de sociedade os fichus, ou as flores, ou
isto, ou aquilo. Aparentemente vale pouco um alfinete; mas, na realidade, pode
exceder ao prprio vestido. No exemplifico; o papel  pouco, no h seno o
espao de contar a minha aventura.

Tinha-me comprado uma triste
mucama. O dono do armarinho vendeu-me, com mais onze irmos, uma dzia, por no
sei quantos ris; coisa de nada. Que destino! Uma triste mucama. Felicidade, 
este  o seu nome,  pegou no papel em que estvamos pregados, e meteu-o no
ba. No sei quanto tempo ali estive; sa um dia de manh para pregar o leno
de chita que a mucama trazia ao pescoo. Como o leno era novo, no fiquei
grandemente desconsolado. E depois a mucama era asseada e estimada, vivia nos
quartos das moas, era confidente dos seus namoros e arrufos; enfim, no era um
destino principesco, mas tambm no era um destino ignbil.

Entre o peito da Felicidade e o
recanto de uma mesa velha, que ela tinha na alcova, gastei uns cinco ou seis
dias. De noite, era despregado e metido numa caixinha de papelo, ao canto da
mesa; de manh, ia da caixinha ao leno. Montono,  verdade; mas a vida dos
alfinetes, no  outra. Na vspera do dia em que se deu a minha aventura, ouvi
falar de um baile no dia seguinte, em casa de um desembargador que fazia anos.
As senhoras preparavam-se com esmero e afinco, cuidavam das rendas, sedas,
luvas, flores, brilhantes, leques, sapatos; no se pensava em outra coisa seno
no baile do desembargador. Bem quisera eu saber o que era um baile, e ir a ele;
mas uma tal ambio podia nascer na cabea de um alfinete, que no saa do leno
de uma triste mucama?  Certamente que no. O remdio era ficar em casa.

 Felicidade, diziam as moas, 
noite, no quarto, d c o vestido. Felicidade, aperta o vestido. Felicidade,
onde esto as outras meias?

 Que meias, nhanh?

 As que estavam na cadeira...

 U! nhanh! Esto aqui mesmo.

E Felicidade ia de um lado para
outro, solcita, obediente, meiga, sorrindo a todas, abotoando uma, puxando as
saias de outra, compondo a cauda desta, concertando o diadema daquela, tudo com
um amor de me, to feliz como se fossem suas filhas. E eu vendo tudo. O que me
metia inveja eram os outros alfinetes. Quando os via ir da boca da mucama, que
os tirava da toilette, para o corpo das moas, dizia comigo, que era bem
bom ser alfinete de damas, e damas bonitas que iam a festas.

 Meninas, so horas!

 L vou, mame! disseram todas.

E foram, uma a uma, primeiro a
mais velha, depois a mais moa, depois a do meio. Esta, por nome Clarinha,
ficou arranjando uma rosa no peito, uma linda rosa; pregou-a e sorriu para a
mucama.

 Hum! hum! resmungou esta. Seu
Florncio hoje fica de queixo cado...

Clarinha olhou para o espelho, e
repetiu consigo a profecia da mucama. Digo isto, no s porque me pareceu v-lo
no sorriso da moa, como porque ela voltou-se pouco depois para a mucama, e
respondeu sorrindo:

 Pode ser.

 Pode ser? Vai ficar mesmo.

 Clarinha, s se espera por voc.

 Pronta, mame!

Tinha prendido a rosa, s pressas,
e saiu.

Na sala estava a famlia, dois
carros  porta; desceram enfim, e Felicidade com elas, at  porta da rua.
Clarinha foi com a me no segundo carro; no primeiro foi o pai com as outras
duas filhas. Clarinha calava as luvas, a me dizia que era tarde; entraram;
mas, ao entrar caiu a rosa do peito da moa. Consternao desta; teima da me
que era tarde, que no valia a pena gastar tempo em pregar a rosa outra vez.
Mas Clarinha pedia que se demorasse um instante, um instante s, e diria 
mucama que fosse buscar um alfinete.

 No  preciso, sinh; aqui est
um.

Um era eu. Que alegria a de
Clarinha! Com que alvoroo me tomou entre os dedinhos, e me meteu entre os
dentes, enquanto descalava as luvas. Descalou-as: pregou comigo a rosa, e o
carro partiu. L me vou no peito de uma linda moa, prendendo uma bela rosa,
com destino ao baile de um desembargador. Faam-me o favor de dizer se
Bonaparte teve mais rpida ascenso. No h dois minutos toda a minha
prosperidade era o leno pobre de uma pobre mucama. Agora, peito de moa
bonita, vestido de seda, carro, baile, lacaio que abre a portinhola, cavalheiro
que d o brao  moa, que a leva escada acima; uma escada suada de tapetes,
lavada de luzes, aromada de flores... Ah! enfim! eis-me no meu lugar.

Estamos na terceira valsa. O par
de Clarinha  o Dr. Florncio, um rapaz bonito, bigode negro, que a aperta
muito e anda  roda como um louco. Acabada a valsa, fomos passear os trs, ele
murmurando-lhe coisas meigas, ela arfando de cansao e comoo, e eu fixo,
teso, orgulhoso. Seguimos para a janela. O Dr. Florncio declarou que era tempo
de autoriz-lo a pedi-la.

 No se vexe; no  preciso que
me diga nada; basta que me aperte a mo.

Clarinha apertou-lhe a mo; ele
levou-a  boca e beijou-a; ela olhou assustada para dentro.

 Ningum v, continuou o Dr.
Florncio; amanh mesmo escreverei a seu pai.

Conversaram ainda uns dez minutos,
suspirando coisas deliciosas, com as mos presas. O corao dela batia! Eu, que
lhe ficava em cima,  que sentia as pancadas do pobre corao. Pudera! Noiva
entre duas valsas. Afinal, como era mister voltar  sala, ele pediu-lhe um
penhor, a rosa que trazia ao peito.

 Tome...

E despregando a rosa, deu-a ao
namorado, atirando-me, com a maior indiferena,  rua... Ca na copa do chapu
de um homem que passava e...
