Conto, Quem conta um conto, 1873

Quem conta um conto...

Texto-Fonte:

http://www2.uol.com.br/machadodeassis

Publicado originalmente em Jornal das Famlias, fevereiro,
1873.

I

Eu compreendo que
um homem goste de ver brigar galos ou de tomar rap. O rap dizem os tomistas
que alivia o crebro. A briga de galos  o Jockey Club dos pobres. O que
eu no compreendo  o gosto de dar notcias.

E todavia quantas
pessoas no conhecer o leitor com essa singular vocao? O noveleiro no 
tipo muito vulgar, mas tambm no  muito raro. H famlia numerosa deles.
Alguns so mais peritos e originais que outros. No  noveleiro quem quer. 
ofcio que exige certas qualidades de bom cunho, quero dizer as mesmas que se
exigem do homem de Estado. O noveleiro deve saber quando lhe convm dar uma
notcia abruptamente, ou quando o efeito lhe pede certos preparativos: deve
esperar a ocasio e adaptar-lhe os meios.

No compreendo,
como disse, o ofcio de noveleiro.  coisa muito natural que um homem diga o
que sabe a respeito de algum objeto; mas que tire satisfao disso, l me custa
a entender. Mais de uma vez tenho querido fazer indagaes a este respeito; mas
a certeza de que nenhum noveleiro confessa que o  tem impedido a realizao
deste meu desejo. No  s desejo,  tambm necessidade; ganha-se sempre em
conhecer os caprichos do esprito humano.

O caso de que vou
falar aos leitores tem por origem um noveleiro. L-se depressa, porque no 
grande.

II

H coisa de sete
anos vivia nesta boa cidade um homem de seus trinta anos, bem apessoado e bem
falante, amigo de conversar, extremamente polido, mas extremamente amigo de
espalhar novas.

Era um modelo do
gnero.

Sabia como
ningum escolher o auditrio, a ocasio e a maneira de dar a notcia. No
sacava a notcia da algibeira como quem tira uma moeda de vintm para dar a um
mendigo.

No, senhor.

Atendia mais que
tudo s circunstncias. Por exemplo: ouvira dizer, ou sabia positivamente que o
ministrio pedira a demisso ou ia pedi-la. Qualquer noveleiro diria
simplesmente a coisa sem rodeios. Lus da Costa, ou dizia a coisa simplesmente,
ou adicionava-lhe certo molho para torn-la mais picante.

s vezes entrava,
cumprimentava as pessoas presentes, e se entre elas alguma havia metida em
poltica, aproveitava o silncio causado pela sua entrada, para fazer-lhe uma
pergunta deste gnero:

 Ento, parece
que os homens...

Os circunstantes
perguntavam logo:

 Que ? que h?

Lus da Costa,
sem perder o seu ar srio, dizia singelamente:

  o ministrio
que pediu demisso.

 Ah! sim?
quando?

 Hoje.

 Sabe quem foi
chamado?

 Foi chamado o
Zzimo.

 Mas por que
caiu o ministrio?

 Ora, estava podre.

Etc., etc.

Ou ento:

 Morreram como
viveram.

 Quem? quem?
quem?

Lus da Costa
puxava os punhos e dizia negligentemente:

 Os ministros.

Suponhamos agora
que se tratava de uma pessoa qualificada que devia vir no paquete: Adolfo Thiers ou o prncipe de Bismarck.

Lus da Costa
entrava, cumprimentava silenciosamente a todos, e em vez de dizer com
simplicidade:

 Veio no paquete
de hoje o prncipe de Bismarck.

Ou ento:

 O Thiers chegou
no paquete.

Voltava-se para
um dos circunstantes:

 Chegaria o
paquete?

 Chegou, dizia o
circunstante.

 O Thiers veio?

Aqui entrava a
admirao dos ouvintes, com que se deliciava Lus da Costa, razo
principalmente do seu ofcio.

III

No se pode negar
que este prazer era inocente e quando muito singular.

Infelizmente no
h bonito sem seno, nem prazer sem amargura. Que mel no deixa um travo de
veneno? perguntava o poeta da Jovem Cativa, e eu creio que nenhum, nem
sequer o de alvissareiro.

Lus da Costa
experimentou um dia as asperezas do seu ofcio.

Eram duas horas
da tarde. Havia pouca gente na loja do Paula Brito, cinco pessoas apenas. Lus
da Costa entrou com o rosto fechado como homem que vem pejado de alguma
notcia.

Apertou a mo a
quatro das pessoas presentes; a quinta apenas recebeu um cumprimento, porque
no se conheciam. Houve um rpido instante de silncio, que Lus da Costa
aproveitou para tirar o leno da algibeira e enxugar o rosto. Depois olhou para
todos, e soltou secamente estas palavras:

 Ento fugiu a
sobrinha do Gouveia? disse ele rindo.

 Que Gouveia?
disse um dos presentes.

 O major
Gouveia, explicou Lus da Costa.

Os circunstantes
ficaram muito calados e olharam de esguelha para o quinto personagem, que por
sua parte olhava para Lus da Costa.

 O major Gouveia
da Cidade Nova?
perguntou o desconhecido ao noveleiro.

 Sim, senhor.

Novo e mais
profundo silncio.

Lus da Costa,
imaginando que o silncio era efeito da bomba que acabava de queimar, entrou a
referir os pormenores da fuga da moa em questo. Falou de um namoro com um alferes, da oposio do major ao casamento, do desespero
dos pobres namorados, cujo corao, mais eloqente que a honra, adotara o
alvitre de saltar por cima dos moinhos.

O silncio era
sepulcral.

O desconhecido
ouvia atentamente a narrativa de Lus da Costa, meneando com muita placidez uma
grossa bengala que tinha na mo.

Quando o alvissareiro
acabou, perguntou-lhe o desconhecido:

 E quando foi
esse rapto?

 Hoje de manh.

 Oh!

 Das 8 para as 9
horas.

 Conhece o major
Gouveia?

 De nome.

 Que idia forma
dele?

 No formo idia
nenhuma. Menciono o fato por duas circunstncias. A primeira  que a rapariga 
muito bonita...

 Conhece-a?

 Ainda ontem a
vi.

 Ah! A segunda
circunstncia...

 A segunda
circunstncia  a crueldade de certos homens em tolher os movimentos do corao
da mocidade. O alferes de que se trata dizem-me que  um moo honesto, e o
casamento seria, creio eu, excelente. Por que razo queria o major impedi-lo?

 O major tinha
razes fortes, observou o desconhecido.

 Ah! conhece-o?

 Sou eu.

Lus da Costa
ficou petrificado. A cara no se distinguia da de um defunto, to imvel e
plida ficou. As outras pessoas olhavam para os dois sem saber o que ira sair
dali. Deste modo correram cinco minutos.

IV

No fim de cinco
minutos, o major Gouveia continuou:

 Ouvi toda a sua
narrao e diverti-me com ela. Minha sobrinha no podia fugir hoje de minha
casa, visto que h quinze dias se acha em Juiz de Fora.

Lus da Costa
ficou amarelo.

 Por essa razo
ouvi tranqilamente a histria que o senhor acaba de contar com todas as suas
peripcias. O fato, se fosse verdadeiro, devia causar naturalmente espanto,
porque, alm do mais, Lcia  muito bonita, e o senhor o sabe porque a viu
ontem...

Lus da Costa
tornou-se verde.

 A notcia,
entretanto, pode ter-se espalhado, continuou o major Gouveia, e eu desejo
liquidar o negcio pedindo-lhe que me diga de quem a ouviu...

Lus da Costa
ostentou todas as cores do ris.

 Ento? disse o
major passados alguns instantes de silncio.

 Sr. major,
disse com voz trmula Lus da Costa, eu no podia inventar semelhante notcia.
Nenhum interesse tenho nela. Evidentemente algum ma contou.

  justamente o
que eu desejo saber.

 No me
lembro...

 Veja se se
lembra, disse o major com doura.

Lus da Costa
consultou sua memria; mas tantas coisas ouvia e tantas repetia, que j no
podia atinar com a pessoa que lhe contara a histria do rapto.

As outras pessoas
presentes, vendo o caminho desagradvel que as coisas podiam ter, trataram de
meter o caso  bulha; mas o major, que no era homem de graas, insistiu com o
alvissareiro para que o esclarecesse a respeito do inventor da balela.

 Ah! agora me
lembra, disse de repente Lus da Costa, foi o Pires.

 Que Pires?

 Um Pires que eu
conheo muito superficialmente.

 Bem, vamos ter
com o Pires.

 Mas, Sr.
major...

O major j estava
de p, apoiado na grossa bengala, e com ar de quem estava pouco disposto a
discusses. Esperou que Lus da Costa se levantasse tambm. O alvissareiro no
teve remdio seno imitar o gesto do major, no sem tentar ainda um:

 Mas, Sr.
major...

 No h mas, nem
meio mas. Venha comigo; porque  necessrio deslindar o negcio hoje mesmo.
Sabe onde mora esse tal Pires?

 Mora na Praia Grande,
mas tem escritrio na Rua dos Pescadores.

 Vamos ao
escritrio.

Lus da Costa
cortejou os outros e saiu ao lado do major Gouveia, a quem deu respeitosamente
a calada e ofereceu um charuto. O major recusou o charuto, dobrou o passo e os
dois seguiram na direo da Rua dos Pescadores.

V

 O Sr. Pires?

 Foi 
secretaria da Justia.

 Demora-se?

 No sei.

Lus da Costa
olhou para o major ao ouvir estas palavras do criado do Sr. Pires. O major
disse fleugmaticamente:

 Vamos 
secretaria da Justia.

E ambos foram a
trote largo na direo da Rua do Passeio. Iam-se aproximando as trs horas, e
Lus da Costa, que jantava cedo, comeava a ouvir do estmago uma lastimosa
petio. Era-lhe, porm, impossvel fugir s garras do major. Se o Pires
tivesse embarcado para Santos,  provvel que o major o levasse at l antes de
jantar.

Tudo estava
perdido.

Chegaram enfim 
secretaria, bufando como dois touros.

Os empregados
vinham saindo, e um deles deu notcia certa do esquivo Pires; disse-lhes que
sara dali, dez minutos antes, num tlburi.

 Voltemos  Rua
dos Pescadores, disse pacificamente o major.

 Mas, senhor...

A nica resposta
do major foi dar-lhe o brao e arrast-lo na direo da Rua dos Pescadores.

Lus da Costa ia
furioso. Comeava a compreender a plausibilidade e at a legitimidade de um
crime. O desejo de estrangular o major pareceu-lhe um sentimento natural.
Lembrou-se de ter condenado, oito dias antes, como jurado, um criminoso de
morte, e teve horror de si mesmo.

O major, porm,
continuava a andar com aquele passo rpido dos majores que andam depressa. Lus
da Costa ia rebocado. Era-lhe literalmente impossvel apostar carreira com ele.

Eram trs e cinco
minutos quando chegaram defronte do escritrio do Sr. Pires. Tiveram o gosto de
dar com o nariz na porta.

O major Gouveia
mostrou-se aborrecido com o fato; como era homem resoluto, depressa se consolou
do incidente.

 No h dvida,
disse ele, iremos  Praia Grande.

 Isso 
impossvel! clamou Lus da Costa.

 No  tal,
respondeu tranqilamente o major, temos barca e custa-nos um cruzado a cada um:
eu pago a sua passagem.

 Mas, senhor, a
esta hora...

 Que tem?

 So horas de
jantar, suspirou o estmago de Lus da Costa.

 Pois jantaremos
antes.

Foram dali a um
hotel e jantaram. A companhia do major era extremamente aborrecida para o
desastrado alvissareiro. Era impossvel livrar-se dela; Lus da Costa portou-se
o melhor que pde. Demais, a sopa e o primeiro prato foi o comeo da
reconciliao. Quando veio o caf e um bom charuto, Lus da Costa estava
resolvido a satisfazer o seu anfitrio em tudo o que lhe aprouvesse.

O major pagou a
conta e saram ambos do hotel. Foram direitos  estao das barcas de Niteri;
meteram-se na primeira que saiu e transportaram-se  imperial cidade.

No trajeto, o
major Gouveia conservou-se to taciturno como at ento. Lus da Costa, que j
estava mais alegre, cinco ou seis vezes tentou atar conversa com o major; mas
foram esforos inteis. Ardia entretanto por lev-lo at a casa do Sr. Pires,
que explicaria as coisas como as soubesse.

VI

O Sr. Pires
morava na Rua da Praia. Foram direitinhos  casa dele. Mas se os viajantes
haviam jantado, tambm o Sr. Pires fizera o mesmo; e como tinha por costume ir
jogar o voltarete em casa do Dr. Oliveira, em S. Domingos, para l seguira vinte minutos antes.

O major ouviu
esta notcia com a resignao filosfica de que estava dando provas desde as
duas horas da tarde. Inclinou o chapu mais  banda e olhando de esguelha para
Lus da Costa, disse:

 Vamos a S.
Domingos.

 Vamos a S.
Domingos, suspirou Lus da Costa.

A viagem foi de carro,
o que de algum modo consolou o noveleiro.

Na casa do Dr.
Oliveira passaram pelo dissabor de bater cinco vezes, antes que viessem abrir.

Enfim vieram.

 Est c o Sr.
Pires?

 Est, sim,
senhor, disse o moleque.

Os dois
respiraram.

O moleque
abriu-lhes a porta da sala, onde no tardou que aparecesse o famoso Pires, lintrouvable.

Era um sujeitinho
baixinho e alegrinho. Entrou na ponta dos ps, apertou a mo a Lus da Costa e
cumprimentou cerimoniosamente ao major Gouveia.

 Queiram
sentar-se.

 Perdo, disse o
major, no  preciso que nos sentemos; desejamos pouca coisa.

O Sr. Pires
curvou a cabea e esperou.

O major voltou-se
ento para Lus da Costa e disse:

 Fale.

Lus da Costa fez
das tripas corao e exprimiu-se nestes termos:

 Estando eu hoje
na loja do Paula Brito contei a histria do rapto de uma sobrinha do Sr. major
Gouveia, que o senhor me referiu pouco antes do meio-dia. O major Gouveia 
este cavalheiro que me acompanha, e declarou que o fato era uma calnia, visto
sua sobrinha estar em Juiz de Fora, h quinze dias. Intenta contudo chegar 
fonte da notcia e perguntou-me quem me havia contado a histria; no hesitei
em dizer que fora o senhor. Resolveu ento procur-lo, e no temos feito outra
coisa desde as duas horas e meia. Enfim, encontramo-lo.

Durante este
discurso, o rosto do Sr. Pires apresentou todas as modificaes do espanto e do
medo. Um ator, um pintor, ou um estaturio teria ali um livro inteiro para
folhear e estudar. Acabado o discurso, era necessrio responder-lhe, e o Sr.
Pires o faria de boa vontade, se se lembrasse do uso da lngua. Mas no; ou no
se lembrava, ou no sabia que uso faria dela. Assim correram uns trs a quatro
minutos.

 Espero as suas
ordens, disse o major, vendo que o homem no falava.

 Mas, que quer o
senhor? balbuciou o Sr. Pires.

 Quero que me
diga de quem ouviu a notcia transmitida a este senhor. Foi o senhor quem lhe
disse que minha sobrinha era bonita?

 No lhe disse
tal, acudiu o Sr. Pires; o que eu disse foi que me constava ser bonita.

 V? disse o
major voltando-se para Lus da Costa.

Lus da Costa
comeou a contar as tbuas do teto.

O major
dirigiu-se depois ao Sr. Pires:

 Mas vamos l,
disse; de quem ouviu a notcia?

 Foi de um
empregado do Tesouro.

 Onde mora?

 Em Catumbi.

O major voltou-se
para Lus da Costa, cujos olhos, tendo j contado as tbuas do teto, que eram
vinte e duas, comeavam a examinar detidamente os botes do punho da camisa.

 Pode
retirar-se, disse o major; no  mais preciso aqui.

Lus da Costa no
esperou mais; apertou a mo do Sr. Pires, balbuciou um pedido de desculpa, e
saiu. J estava a trinta passos, e ainda lhe parecia estar colado ao terrvel
major. Ia justamente a sair uma barca; Lus da Costa deitou a correr, e ainda a
alcanou, perdendo apenas o chapu, cujo herdeiro foi um cocheiro necessitado.

Estava livre.

VII

Ficaram ss o
major e o Sr. Pires.

 Agora, disse o
primeiro, h de ter a bondade de me acompanhar  casa desse empregado do
Tesouro... Como se chama?

 O bacharel
Plcido.

 Estou s suas
ordens; tem passagem e carro pago.

O Sr. Pires fez
um gesto de aborrecimento, e murmurou:

 Mas eu no
sei... se...

 Se?

 No sei se me 
possvel nesta ocasio...

 H de ser.
Penso que  um homem honrado. No tem idade para ter filhas moas, mas pode vir
a t-las, e saber se  agradvel que tais invenes andem na rua.

 Confesso que as
circunstncias so melindrosas; mas no poderamos...

 O qu?

 Adiar?

 Impossvel.

O Sr. Pires
mordeu o lbio inferior; meditou alguns instantes, e afinal declarou que estava
disposto a acompanh-lo.

 Acredite, Sr.
major, disse ele concluindo, que s as circunstncias especiais deste caso me
obrigariam a ir  cidade.

O major
inclinou-se.

O Sr. Pires foi
despedir-se do dono da casa, e voltou para acompanhar o implacvel major, em
cujo rosto se lia a mais franca resoluo.

A viagem foi to
silenciosa como a primeira. O major parecia uma esttua; no falava e raras
vezes olhava para o seu companheiro.

A razo foi
compreendida pelo Sr. Pires, que matou as saudades do voltarete, fumando sete
cigarros por hora.

Enfim chegaram a
Catumbi.

Desta vez foi o
major Gouveia mais feliz que da outra: achou o bacharel Plcido em casa.

O bacharel
Plcido era o seu prprio nome feito homem. Nunca a pachorra tivera mais
fervoroso culto. Era gordo, corado, lento e frio. Recebeu os dois visitantes
com a benevolncia de um Plcido verdadeiramente plcido.

O Sr. Pires
explicou o objeto da visita.

  verdade que
eu lhe falei de um rapto, disse o bacharel, mas no foi nos termos em que o
senhor o repetiu. O que eu disse foi que o namoro da sobrinha do major Gouveia
com um alferes era tal que at j se sabia do projeto de rapto.

 E quem lhe
disse isso, Sr. bacharel? perguntou o major.

 Foi o capito
de artilharia Soares.

 Onde mora?

 Ali em
Mata-porcos.

 Bem, disse o
major.

E voltando-se
para o Sr. Pires:

 Agradeo-lhe o
incmodo, disse; no lhe agradeo, porm, o acrscimo. Pode ir embora; o carro
tem ordem de o acompanhar at  estao das barcas.

O Sr. Pires no
esperou novo discurso; despediu-se e saiu. Apenas entrou no carro deu dois ou
trs socos em si mesmo e fez um solilquio extremamente desfavorvel  sua
pessoa.

  bem feito,
dizia o Sr. Pires; quem me manda ser abelhudo? Se s me ocupasse com o que me
diz respeito, estaria a esta hora muito descansado e no passaria por
semelhante dissabor.  bem feito!

VIII

O bacharel
Plcido encarou o major, sem compreender a razo por que ficara ali, quando o
outro fora embora. No tardou que o major o esclarecesse. Logo que o Sr. Pires
saiu da sala, disse ele:

 Queira agora
acompanhar-me  casa do capito Soares.

 Acompanh-lo!
exclamou o bacharel mais surpreendido do que se lhe casse o nariz no leno de
tabaco.

 Sim, senhor.

 Que pretende
fazer?

 Oh! nada que o
deva assustar. Compreende que se trata de uma sobrinha, e que um tio tem
necessidade de chegar  origem de semelhante boato. No crimino os que o
repetiram, mas quero haver-me com o que o inventou.

O bacharel
recalcitrou: a sua pachorra dava mil razes para demonstrar que sair de casa s
ave-marias para ir a Mata-porcos era um absurdo. A nada atendia o major
Gouveia, e com o tom intimador que lhe era peculiar, antes intimava do que persuadia
o gordo bacharel.

 Mas h de
confessar que  longe, observou este.

 No seja essa a
dvida, acudiu o outro; mande chamar um carro que eu pago.

O bacharel
Plcido coou a orelha, deu trs passos na sala, suspendeu a barriga e
sentou-se.

 Ento? disse o
major ao cabo de algum tempo de silncio.

 Refleti, disse
o bacharel;  melhor irmos a p; eu jantei h pouco e preciso digerir. Vamos a
p...

 Bem, estou s
suas ordens.

O bacharel
arrastou a sua pessoa at a alcova, enquanto o major, com as mos nas costas,
passeava na sala meditando e fazendo, a espaos, um gesto de impacincia.

Gastou o bacharel
cerca de vinte e cinco minutos em preparar a sua pessoa, e saiu enfim  sala,
quando o major ia j tocar a campainha para chamar algum.

 Pronto?

 Pronto.

 Vamos!

 Deus v
conosco.

Saram os dois na
direo de Mata-porcos.

Se uma pipa
andasse seria o bacharel Plcido; j porque a gordura no lho consentia, j
porque desejara pregar uma pea ao importuno, o bacharel no ia sequer com
passo de gente. No andava... arrastava-se. De quando em quando parava,
respirava e bufava; depois seguia vagarosamente o caminho.

Com este era
impossvel o major empregar o sistema de reboque que to bom efeito teve com
Lus da Costa. Ainda que o quisesse obrigar a andar era impossvel, porque
ningum arrasta oito arrobas com a simples fora do brao.

Tudo isto punha o
major em apuros. Se visse passar um carro, tudo estava acabado, porque o bacharel
no resistiria ao seu convite intimativo; mas os carros tinham-se apostado para
no passar ali, ao menos vazios, e s de longe em longe um tlburi vago
convidava, a passo lento, os fregueses.

O resultado de
tudo isto foi que, s s oito horas, chegaram os dois  casa do capito Soares.
O bacharel respirou  larga, enquanto o major batia palmas na escada.

 Quem ?
perguntou uma voz aucarada.

 O Sr. capito?
disse o major Gouveia.

 Eu no sei se
j saiu, respondeu a voz; vou ver.

Foi ver, enquanto
o major limpava a testa e se preparava para tudo o que pudesse sair de
semelhante embrulhada. A voz no voltou seno dali a oito minutos, para
perguntar com toda a singeleza:

 O senhor quem
?

 Diga que  o
bacharel Plcido, acudiu o indivduo deste nome, que ansiava por arrumar a
catlica pessoa em cima de algum sof.

A voz foi dar a
resposta e da a dois minutos voltou a dizer que o bacharel Plcido podia
subir.

Subiram os dois.

O capito estava
na sala e veio receber  porta o bacharel e o major. A este conhecia tambm,
mas eram apenas cumprimentos de chapu.

 Queiram
sentar-se.

Sentaram-se.

IX

 Que mandam
nesta sua casa? perguntou o capito Soares.

O bacharel usou
da palavra:

 Capito, eu
tive a infelicidade de repetir aquilo que voc me contou a respeito da sobrinha
do Sr. major Gouveia.

 No me lembra;
que foi? disse o capito com uma cara to alegre como a de homem a quem
estivessem torcendo um p.

 Disse-me voc,
continuou o bacharel Plcido, que o namoro da sobrinha do Sr. major Gouveia era
to sabido que at j se falava de um projeto de rapto...

 Perdo!
interrompeu o capito. Agora me lembro que alguma coisa lhe disse, mas no foi
tanto como voc acaba de repetir.

 No foi?

 No.

 Ento que foi?

 O que eu disse
foi que havia notcia vaga de um namoro da sobrinha de V. S. com um alferes.
Nada mais disse. Houve equvoco da parte do meu amigo Plcido.

 Sim, h alguma
diferena, concordou o bacharel.

 H, disse o
major deitando-lhe os olhos por cima do ombro.

Seguiu-se um
silncio.

Foi o major
Gouveia o primeiro que falou.

 Enfim,
senhores, disse ele, ando desde as duas horas da tarde na indagao da fonte da
notcia que me deram a respeito de minha sobrinha. A notcia tem diminudo
muito, mas ainda h a um namoro de alferes que incomoda. Quer o Sr. capito
dizer-me a quem ouviu isso?

 Pois no, disse
o capito; ouvi-o ao desembargador Lucas.

  meu amigo!

 Tanto melhor.

 Acho impossvel
que ele dissesse isso, disse o major levantando-se.

 Senhor!
exclamou o capito.

 Perdoe-me,
capito, disse o major caindo em si. H de concordar que ouvir a gente o seu
nome assim maltratado por culpa de um amigo...

 Nem ele disse
por mal, observou o capito Soares. Parecia at lamentar o fato, visto que sua
sobrinha est para casar com outra pessoa...

  verdade,
concordou o major. O desembargador no era capaz de injuriar-me; naturalmente
ouviu isso a algum.

  provvel.

 Tenho interesse
em saber a fonte de semelhante boato. Acompanhe-me  casa dele.

 Agora!

 
indispensvel.

 Mas sabe que
ele mora no Rio Comprido?

 Sei; iremos de
carro.

O bacharel
Plcido aprovou esta resoluo e despediu-se dos dois militares.

 No podamos
adiar isso para depois? perguntou o capito logo que o bacharel saiu.

 No, senhor.

O capito estava
em sua casa; mas o major tinha tal imprio na voz ou no gesto quando exprimia a
sua vontade, que era impossvel resistir-lhe. O capito no teve remdio seno
ceder.

Preparou-se,
meteram-se num carro e foram na direo do Rio Comprido, onde morava o
desembargador.

O desembargador
era um homem alto e magro, dotado de excelente corao, mas implacvel contra
quem quer que lhe interrompesse uma partida de gamo.

Ora, justamente
na ocasio em que os dois lhe bateram  porta, jogava ele o gamo com o
coadjutor da freguesia, cujo dado era to feliz que em menos de uma hora lhe
dera j cinco gangas. O desembargador fumava... figuradamente falando, e o
coadjutor sorria, quando o moleque foi dar parte de que duas pessoas estavam na
sala e queriam falar com o desembargador.

O digno sacerdote
da justia teve mpetos de atirar o copo  cara do moleque; conteve-se, ou
antes traduziu o seu furor num discurso furibundo contra os importunos e
maantes.

 H de ver que 
algum procurador  procura de autos, ou  cata de autos, ou  cata de
informaes. Que os leve o diabo a todos eles.

 Vamos, tenha
pacincia, dizia-lhe o coadjutor. V, v ver o que , que eu o espero. Talvez
que esta interrupo corrija a sorte dos dados.

 Tem razo, 
possvel, concordou o desembargador, levantando-se e dirigindo-se para a sala.

X

Na sala teve a
surpresa de achar dois conhecidos.

O capito
levantou-se sorrindo e pediu-lhe desculpa do incmodo que lhe vinha dar. O
major levantou-se tambm, mas no sorria.

Feitos os
cumprimentos foi exposta a questo. O capito Soares apelou para a memria do
desembargador a quem dizia ter ouvido a notcia do namoro da sobrinha do major
Gouveia.

 Recordo-me
ter-lhe dito, respondeu o desembargador, que a sobrinha de meu amigo Gouveia
piscara o olho a um alferes, o que lamentei do fundo dalma, visto estar para
casar. No lhe disse, porm, que havia namoro...

O major no pde
disfarar um sorriso, vendo que o boato ia a diminuir  proporo que se
aproximava da fonte. Estava disposto a no dormir sem dar com ela.

 Muito bem,
disse ele; a mim no basta esse dito; desejo saber a quem o ouviu, a fim de
chegar ao primeiro culpado de semelhante boato.

 A quem o ouvi?

 Sim.

 Foi ao senhor.

 A mim!

 Sim, senhor;
sbado passado.

 No  possvel!

 No se lembra
que me disse na Rua do Ouvidor, quando falvamos das proezas da...

 Ah! mas no foi
isso! exclamou o major. O que eu lhe disse foi outra coisa. Disse-lhe que era
capaz de castigar minha sobrinha se ela, estando agora para casar, deitasse os
olhos a algum alferes que passasse.

 Nada mais?
perguntou o capito.

 Mais nada.

 Realmente 
curioso.

O major
despediu-se do desembargador, levou o capito at Mata-porcos e foi direito
para casa praguejando contra si e todo o mundo.

Ao entrar em casa
estava j mais aplacado. O que o consolou foi a idia de que o boato podia ser
mais prejudicial do que fora. Na cama ainda pensou no acontecimento, mas j se
ria da maada que dera aos noveleiros. Suas ltimas palavras antes de dormir
foram:

 Quem conta um
conto...
